O Menino do Dedo Verde
Capítulo Quinze
CAPÍTULO Q UINZE
No qual Tistu tem uma aula de geografia, seguida de uma de fábrica, e no qual o conflito entre os Voulás e os Vaitimboras se estende de modo imprevisto.
O Sr. Trovões estava sentado atrás de sua m esa. Recuperara a voz de trom bone e trovej ava em três telefones ao m esm o tem po. O Sr. Trovões, via-se logo, estava ocupadíssim o.
— É sem pre assim quando estoura a guerra em algum ponto do m undo — disse a Tistu. — Em Mira-pólvora tem os o dobro do trabalho.
Por isso é que Tistu tinha observado que a sirene da fábrica tocara duas vezes m ais que de costum e e os operários eram duas vezes m ais num erosos. As nove cham inés lançavam tanta fum aça que o céu tinha ficado escuro.
— Então eu volto quando o senhor estiver m enos ocupado — disse Tistu.
— O que é que você queria perguntar?
— Eu queria saber onde foi que esta guerra estourou.
O Sr. Trovões levantou-se, levou Tistu para j unto de um grande globo terrestre, que fez girar, e colocou o dedo bem no m eio.
— Você está vendo este deserto? — disse ele. — Pois foi aqui.
Tistu viu, sob o dedo do Sr. Trovões, um a pequena m ancha cor-de-rosa, que parecia um a pastilha.
— Por que foi que a guerra se m eteu aí, Sr. Trovões?
— É m uito fácil de entender.
Quando o Sr. Trovões dizia que qualquer coisa era fácil de entender, Tistu ficava desconfiado; geralm ente era m uito com plicado. Mas desta vez Tistu estava resolvido a escutar direitinho.
— É m uito fácil — repetiu o Sr. Trovões. — Esse deserto não pertence a ninguém ...
"A ninguém ", repetiu Tistu interiorm ente.
— ... Mas à direita se encontra a nação dos Voulás e à esquerda a nação dos Vaitim boras.
"Vou-lás... Vai-tim -bo-ras...", repetiu de novo Tistu; ele estava m esm o m uito atento.
— ... Ora, há algum tem po os Voulás anunciaram que queriam esse deserto; os Vaitim boras responderam que tam bém queriam . Os Voulás se instalaram num a ponta e os Vaitim boras na outra. Os Voulás enviaram um telegram a aos Vaitim boras, dizendo-lhes que se retirassem . Os Vaitim boras replicaram pelo rádio que proibiam os Voulás de perm anecerem onde estavam . Agora os dois exércitos estão em m archa. E, quando se encontrarem , travarão o com bate.
— O que é que há nesta pastilha cor-de-rosa... isto é, nesse deserto? Jardins? — perguntou Tistu.
— Claro que não, se é um deserto! Ali não há coisa algum a. Só m esm o pedras...
— Então essa gente vai brigar por causa dessas pedras?
— Eles querem o que está por baixo.
— Debaixo do deserto? E o que é?
— Petróleo.
— Por que querem eles essa coisa cham ada petróleo?
— Para que os outros não o tenham . Querem esse petróleo porque o petróleo é indispensável num a guerra.
Tistu bem sabia que as explicações do Sr. Trovões acabavam ficando dificílim as!
Fechou os olhos para pensar m elhor.
"Se com preendi direito, os Voulás e os Vaitim boras estão em guerra por causa do petróleo, porque o petróleo é indispensável para a guerra." Abriu de novo os olhos.
— Mas isso é um a tolice! — declarou ele. As orelhas do Sr. Trovões ficaram escarlates.
— Tistu, será que você quer um zero?
— Não — respondeu Tistu. — O que eu queria é que os Voulás e os Vaitim boras não entrassem em com bate.
Essa dem onstração de bons sentim entos acalm ou provisoriam ente a cólera do Sr. Trovões.
— Isso é claro, isso é claro — disse ele dando de om bros. — Ninguém j am ais quis a guerra... Mas sem pre existiu...
"O que é que eu poderia fazer?... pensava Tistu. Colocar m eu polegar na pastilha cor-de-rosa?"
— É m uito longe esse deserto? — perguntou ele.
— Fica no m eio do cam inho que vai daqui à outra m etade da Terra.
— Então a guerra não pode chegar até Mirapólvora.
— Im possível não é. A gente sabe onde um a guerra com eça, m as nunca onde vai parar. Os Voulás podem cham ar em seu auxílio um grande país, e os Vaitim boras pedir a aj uda de um outro. E os dois grandes países entrarão em guerra. É o que se cham a um a extensão do conflito.
A cabeça de Tistu rodava com o um m otor.
"Afinal a guerra é um a espécie de tiririca que se alastra pelo globo... Com que espécie de plantas poderíam os com batê-la?"
— Agora, você vai acom panhar-m e à fábrica — disse o Sr. Trovões. — Você irá vê-la no auge da produção. Será um a ótim a aula.
Ele gritou algum as ordens nos seus três telefones, e desceu em com panhia de Tistu.
Este, logo que chegou, ficou surdo de tanto barulho. Os m artelos autom áticos batiam com toda a força, as m áquinas roncavam com o m ilhões de piorras.
Era preciso gritar para fazer-se ouvir, m esm o que a gente tivesse a voz do Sr. Trovões.
Tistu tam bém ficou cego com os repuxos de faíscas que irrom piam de toda parte. O aço corria pelo chão com o riachos incandescentes. Fazia um calor insuportável, e os hom ens pareciam m inúsculos e negros.
Após a oficina de fundição, Tistu visitou as de polim ento, de torno, de m ontagem , bem com o as de fuzis, m etralhadoras, tanques, cam inhões, etc. Porque a fábrica do Sr. Papai fabricava tudo o que se relacionasse com guerra, arm as e m unições.
O dia seguinte era dia de entrega, e em balava-se o m aterial com tanta precaução com o se fosse porcelana.
Finalm ente o Sr. Trovões m ostrou a Tistu dois enorm es canhões, com pridos com o torres de catedral, e tão brilhantes que pareciam untados de m anteiga.
Suspensos em correntes, os canhões deslizavam lentam ente pelo ar; depois foram depositados devagarinho, devagarinho, em reboques de cam inhões que pareciam não ter fim .
— São esses canhões, Tistu, que fazem a riqueza de Mirapólvora — exclam ou com orgulho o Sr. Trovões. — Podem dem olir, a cada tiro, quatro casas tão grandes com o a sua.
Essa notícia não pareceu inspirar a Tistu o m esm o orgulho.
"Então, pensou ele, a cada tiro de canhão, quatro Tistu sem casa, quatro Carolo sem escada, quatro Am élias sem cozinha... Então é com essas m áquinas que se perde o j ardim , o país, a perna, ou alguém da fam ília... Esta é a verdade!"
E os m artelos a baterem , as forj as a esquentarem .
— O senhor é a favor de quem , Sr. Trovões? — perguntou Tistu, fazendo grande esforço para ser ouvido naquele alarido que os cercava.
— O quê?
— Estou perguntando: O senhor é a favor de quem nesta guerra?
— Dos Voulás — gritou o Sr. Trovões.
— E papai?
— Tam bém .
— Por quê?
— Porque são nossos am igos há m uito tem po.
"É claro, disse Tistu consigo m esm o, se a gente tem am igos que são atacados, deve aj udá-los a se defenderem ."
— Então esses canhões vão para os Voulás? — prosseguiu ele.
— Só o da direita — gritou o Sr. Trovões. — O outro é para os Vaitim boras.
— Com o para os Vaitim boras? — exclam ou Tistu indignado.
— Porque eles tam bém são bons fregueses. Assim um canhão de Mirapólvora ia atirar contra um outro canhão de Mirapólvora, e dem olir um j ardim tanto de um lado com o de outro!
— É o com ércio... — acrescentou o Sr. Trovões.
— Pois então, eu acho abom inável o seu com ércio!
— O quê? — perguntou o Sr. Trovões abaixando-se, porque o barulho dos m artelos abafava a voz de Tistu.
— Eu estou dizendo que o seu com ércio é abom inável, porque...
Um a vasta bofetada o interrom peu. O conflito entre os Voulás e os Vaitim boras acabava de se estender de repente até a face de Tistu.
"Eis o que é a guerra! A gente pede um a explicação, diz o que pensa, e zás, recebe um a bofetada. E se eu te fizesse brotar urtiga no fundo das calças, quero ver o que você fazia! pensava Tistu, com os olhos cheios de lágrim as olhando o Sr. Trovões. Sim , urtigas ou cardos..."
Ele m al continha o polegar... E foi assim que a idéia, a sua grande idéia lhe veio.
A aula de fábrica, vocês j á previram , term inou nesse ponto. Tistu ganhou um duplo zero, o Sr. Trovões logo o com unicou ao Sr. Papai, que ficou m uito desgostoso. Seu Tistu, que devia lhe suceder e tornar-se o dono de Mirapólvora, dem onstrava realm ente poucas disposições para dirigir tão bela em presa.
— É preciso que eu converse com ele seriam ente — disse o Sr. Papai. — Onde está ele?
— Foi se refugiar j unto ao j ardineiro, com o de costum e — respondeu o Sr. Trovões.
— Bem , verem os isto m ais tarde. Por ora, term inem os as em balagens.
Por causa da urgência das entregas, a fábrica funcionava sem parar. As nove cham inés coroavam -se a noite toda de grandes halos verm elhos.
Ora, aquela noite, o Sr. Papai, que não tivera tem po de j antar e fiscalizava o trabalho das várias oficinas do alto de um a pequena torre envidraçada, teve um a agradável surpresa. Seu Tistu voltara à fábrica e passava lentam ente ao longo das caixas de fuzis, subia nos cam inhões, debruçava-se sobre os m otores, esgueirava-se entre os im ensos canhões.
"Tistu é fantástico! pensou o Sr. Papai. Está se esforçando para recuperar os pontos perdidos com seu duplo zero... Não se deve perder a esperança!"
Tistu, realm ente, j am ais parecera tão sério e tão atarefado. Estava de cabelo em pé. A cada instante tirava do bolso pequenos pedaços de papel.
"Parece até que está tom ando notas, observou o Sr. Papai. Queira Deus que ele não prenda o dedo, ao enfiá-lo assim nas m etralhadoras. Ora, é um bom m enino, que reconhece logo os seus erros..."
O Sr. Papai ia ter outras surpresas.