O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 12 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Dez

No qual Tistu, de novo com o Sr. Trovões, recebe uma lição de miséria.

 

E preciso acontecim entos extraordinários para que se dêem férias às crianças. Um a cadeia que floresce desperta sem dúvida um a grande surpresa; m as a gente logo se habitua, e acaba achando natural que um gigantesco j ardim se eleve em lugar de m uros cinzentos.

A gente se habitua a tudo, m esm o às coisas m ais estranhas.

E a educação de Tistu voltou a ser em breve a principal preocupação do Sr. Papai e de Dona Mam ãe.

— Eu penso que seria bom agora — dizia o Sr. Papai — m ostrar-lhe um pouco o que sej a a m iséria.

— E em seguida o que sej a a doença — dizia Dona Mam ãe — para que ele cuide bem da saúde.

— Já que o Sr. Trovões lhe deu um a bela lição de ordem , vam os confiar-lhe tam bém a lição de m iséria.

Foi assim que Tistu aprendeu no dia seguinte, conduzido pelo Sr. Trovões, que a m iséria m ora nas favelas.

Haviam aconselhado a Tistu que vestisse para essa visita um a roupa m ais velha.

O Sr. Trovões lançou m ão da m ais forte voz de trom beta para explicar a Tistu que as favelas ficavam nas m argens da cidade.

— As favelas são um flagelo — declarou ele.

— E o que é um flagelo? — perguntou Tistu.

— Um flagelo é um a desgraça grande que atinge m uita gente ao m esm o tem po.

O Sr. Trovões j á não precisava dizer coisa algum a, pois Tistu j á sentia o polegar cocando.

Mas o que o esperava era pior que um a cadeia. Cam inhos estreitos, lam acentos, m alcheirosos, insinuavam -se entre tábuas apodrecidas, j untadas de qualquer j eito. Essas tábuas pareciam form ar casebres, m as tão esburacados e oscilantes ao vento que a gente custava a acreditar que conseguissem m anter-se em pé. As portas eram rem endadas com papelão ou com velhos pedaços de lata.

Ao lado da cidade lim pa, de cim ento e tij olos, varrida cada m anhã, a favela era com o se fosse um a outra cidade, repelente, que envergonhava a prim eira. Nada de postes, calçadas, vitrinas e cam inhões de lim peza urbana.

"Um pouco de relva beberia essa água lam acenta e tornaria os cam inhos m ais agradáveis; em seguida, volúbeis e clem atites em quantidade reforçariam os pobres barracos, quase a desm oronar", pensava Tistu, cuj o polegar em riste ia deixando im pressões digitais em todas feiúras do traj eto.

Nos barracos vivia m uito m ais gente do que eles podiam conter; essa gente havia de ter, é claro, um m au aspecto. "Vivendo apertados assim uns contra os outros, sem um raio de sol, tornam -se pálidos com o as chicórias que o Bigode conserva na adega. Eu não gostaria que m e tratassem com o um pé de chicória!"

Tistu resolveu fazer crescerem gerânios ao longo das j anelas, para que as crianças vissem um pouco de cor.

— Mas por que toda essa gente m ora em casinhas de coelho? — perguntou de repente.

— Porque não possuem outra casa, é claro. Isso é um a pergunta idiota — respondeu o Sr. Trovões.

— E por que é que eles não têm outra casa?

— Porque não têm trabalho.

— E por que é que eles não têm trabalho?

— Porque não têm sorte.

— Então, quer dizer que eles não têm coisa algum a?

— Sim , e a m iséria é isto.

"Pois am anhã" — disse Tistu consigo — "eles terão ao m enos algum as flores."

Ele viu um hom em batendo na. m ulher e um a criança fugir chorando.

— A m iséria torna os hom ens ruins? — perguntou Tistu.

— Quase sem pre — respondeu o Sr. Trovões, que com eçou a lançar um a fanfarra de terríveis palavras.

De acordo com o seu discurso, a m iséria devia ser um a horrível galinha negra, de olhos ferozes, bico adunco, de asas tão grandes quanto o m undo, chocando continuam ente horrendos pintinhos. O Sr. Trovões os conhecia todos pelo nom e: havia o pinto-roubo, que se apoderava das carteiras dos transeuntes e assaltava os bancos; o pinto-em briaguez, que tom ava um aperitivo atrás do outro e acabava caído na sarj eta; o pinto-vício, sem pre à espreita de qualquer coisa desonesta; o pinto-crim e, sem pre de revólver na m ão; o pinto-revolução, sem dúvida o pior de todos...

— Tistu você não está m e ouvindo! — exclam ou o Sr. Trovões. — Para com eçar, pare de encostar o dedo nessas im undícies! Que m ania é essa de ficar apalpando todas as coisas? Ponha as suas luvas.

— Eu esqueci as luvas — disse Tistu.

— Recom ecem os nossa lição. Que é preciso para lutar contra a m iséria e suas terríveis conseqüências? Pense um pouco... É preciso um a coisa que com eça com a letra o.

— Ouro?

— Não. É preciso ordem!

Tistu perm aneceu um instante calado. Não parecia m uito convencido. E, quando acabou de refletir, ele disse:

— Esta sua ordem , Sr. Trovões, o senhor tem certeza de que ela existe? Eu não acredito.

As orelhas do Sr. Trovões ficaram tão verm elhas, tão verm elhas, que j á não pareciam orelhas, m as tom ates.

— Porque se a ordem existisse — prosseguiu Tistu na m aior calm a — não haveria m iséria.

A nota recebida aquele dia por Tistu não foi das m elhores. O Sr. Trovões anotou no caderninho: "Menino distraído e raciocinador. Os sentim entos generosos privam -no do senso da realidade".

Mas no dia seguinte... Vocês j á adivinharam . No dia seguinte os j ornais de Mirapólvora anunciavam um a verdadeira inundação de volúbeis. Os conselhos de Bigode haviam sido tom ados ao pé da letra.

Arcos cor do céu velavam a feiúra dos barracos, fileiras de gerânios debruavam os cam inhos de relva. Os quarteirões deserdados, cuj a proxim idade era evitada de tão horríveis de se ver, haviam -se tornado os m ais belos da cidade. As pessoas iam visitá-los com o se visita um m useu.

Seus habitantes resolveram , então, aproveitar as circunstâncias. Puseram um a borboleta bem à entrada e cobravam cinco cruzeiros. Apareceram assim vários em pregos: de guia, de guarda, de fotógrafo e vendedor de cartão-postal.

Juntaram um a fortuna.

Para em pregar esse dinheiro, resolveram construir entre as árvores um grande edifício com novecentos e noventa e nove apartam entos m uito bonitos, dotados de fogão elétrico, onde os antigos m oradores da favela pudessem viver confortavelm ente. E, com o era preciso m uita gente para construí-lo, ninguém m ais ficou sem trabalho.

Bigode não se esqueceu de dar os parabéns a Tistu .logo que pôde.

— Ah, esta das favelas, foi de tirar o chapéu! Mas está faltando ali um pouco de perfum e. De outra vez, não esqueça do j asm im . Cresce depressa e é bastante cheiroso.

Tistu prom eteu, na próxim a vez, caprichar bastante.