O Menino do Dedo Verde
Capítulo Dois
No qual apresentamos ao mesmo tempo Tistu, seus pais e a Casa-que-Brilha
Os cabelos de Tistu eram louros e crespos na ponta. Com o raios de sol que term inassem num pequeno cacho ao tocar na terra. Tistu tinha grandes olhos azuis e faces rosadas e m acias. Todo m undo o beij ava.
Porque as pessoas grandes, sobretudo de nariz grande, rugas na testa e cabelo no ouvido, estão sem pre beij ando as criancinhas de face m acia e rosada. Eles dizem que as crianças gostam , e isto é outra das idéias que inventaram . Porque são eles, os grandes, que gostam , e as crianças de face m acia e rosada são m uito boazinhas em prestar-se a isso.
Todo m undo que via Tistu exclam ava:
— Oh, que garoto bonito!
Mas Tistu não ficava vaidoso. A beleza lhe parecia um a coisa inteiram ente natural. E até se surpreendia com o fato de todos os hom ens, todas as m ulheres e todas as crianças não serem com o seus pais e ele próprio.
Porque os pais de Tistu, é bom dizer logo, eram tam bém m uito bonitos. Foi de tanto olhá-los que ele se habituou a pensar que o norm al é ser bonito, enquanto a feiúra lhe parecia um a exceção e m esm o um a inj ustiça.
O pai de Tistu, que se cham ava Sr. Papai, tinha os cabelos negros cuidadosam ente fixados com brilhantina; era alto e se vestia com apuro; não se via grão de poeira na gola do seu paletó, e perfum ava-se com água-de-colônia.
Dona Mam ãe, loura e leve, tinha as faces m acias com o a pele das flores, unhas verm elhas com o pétalas de rosa, e espalhava em torno dela, quando saía do quarto, o perfum e de um buquê.
Realm ente Tistu era um felizardo. Pois, além do Sr. Papai e de Dona Mam ãe, inteiram ente dele, podia servir-se ainda da im ensa fortuna de am bos.
Com efeito, o Sr. Papai e Dona Mam ãe, com o j á perceberam , eram m uito ricos.
Habitavam num a casa esplêndida, de m uitos andares, com pórtico, varanda, escadaria, escadinhas, altas j anelas dispostas de nove em nove, torrezinhas guarnecidas com chapéus pontudos, tudo isso dentro de um j ardim m aravilhoso.
Em cada aposento da casa havia tapetes tão espessos e m acios que a gente andava sem fazer barulho. Para brincar de esconder era ótim o, com o tam bém para correr descalço, — coisa proibida, que fazia Dona Mam ãe dizer:
— Tistu, calce os chinelos, você vai se resfriar!
Mas Tistu nunca se resfriou por causa dos tapetes.
Havia tam bém o corrim ão da escada grande. Um corrim ão em cobre, m uito polido, im enso S m aiúsculo que nascia nas alturas da casa e tom bava com o um relâm pago de ouro sobre a pele de urso do vestíbulo.
Logo que se pilhava sozinho, Tistu m ontava no corrim ão e deslizava vertiginosam ente. Esse corrim ão era o seu tobogã particular, o seu tapete voador, o seu cam inho m ágico, diariam ente polido e lustrado com furioso ardor pelo criado Carolo.
Pois o Sr. Papai e Dona Mam ãe gostavam de tudo que brilha, e fazia-se grande esforço para que eles ficassem contentes.
O cabeleireiro, graças à brilhantina de que j á falam os, conseguira fazer da cabeleira do Sr. Papai um capacete de m il reflexos, que todo m undo adm irava. Os sapatos do Sr. Papai eram tão bem engraxados, tão bem lustrados, que davam a im pressão, quando ele andava, de irem chutando faíscas.
As unhas cor-de-rosa de Dona Mam ãe, polidas diariam ente com o o corrim ão, brilhavam com o dez j anelinhas ao levantar do sol. Em torno do pescoço, orelhas, pulsos e dedos de Dona Mam ãe, cintilavam colares, brincos, pulseiras e anéis de pedras preciosas. Quando saía à noite, para teatro ou baile, as estrelas em palideciam .
O criado Carolo, graças a um pó que inventara, tinha feito do corrim ão a obra-prim a que j á sabem os. Servia-se do m esm o pó para lustrar as m açanetas das portas, os candelabros de prata, os lustres de cristal, bem com o os saleiros, açucareiros e fivelas. -
Quanto aos nove carros que dorm iam na garage, quase era preciso, para vê-los, colocar óculos escuros. Quando saíam j untos pela estrada e entravam pelas ruas, o povo parava nas calçadas. Era com o se a Galeria dos Espelhos tivesse saído a passeio.
— Gente, é o Palácio de Versalhes! — exclam avam os m ais cultos.
Os distraídos tiravam o chapéu, pensando tratar-se de um enterro. As vaidosas aproveitavam para contem plar-se nas portas e retocar a pintura.
Na cavalariça, nove cavalos lustrosos, cada qual m ais belo que o outro. Aos dom ingos, quando havia visitas, instalavam os nove no j ardim , para ornam entar a paisagem . O Negrão ficava sob a m agnólia, em com panhia de sua m ulher Belinha. O pônei Ginástico punha-se perto do quiosque. Diante da casa, sobre a relva verde, alinhavam -se os seis cavalos groselha, raça de cavalos verm elhos, extrem am ente raros, criados pelo Sr. Papai, que m uito se orgulhava deles.
Os m oços da cavalariça, uniform izados de j óquei, corriam de um cavalo ao outro com a escova na m ão, pois era preciso que brilhassem tam bém , sobretudo aos dom ingos.
— Meus cavalos devem ser com o j óias! — dizia o Sr. Papai a seus j óqueis.
Mas esse hom em , tão am igo do fausto, era tam bém um hom em bom , e todos se esforçavam por obedecer-lhe. De m odo que os j óqueis escovavam cuidadosam ente os cavalos: nove pêlos para um lado, nove para o outro. Tanto que as garupas dos cor de groselha davam a im pressão de enorm es rubis.
As crinas e as caudas eram trançadas com papel prateado.
Tistu adorava todos esses cavalos. De noite, sonhava que estava dorm indo com eles na palha dourada da cavalariça. Durante o dia, ia a todo m om ento visitá-los.
Quando com ia chocolate, guardava cuidadosam ente o papel prateado, que entregava ao j óquei do pônei Ginástico. Porque, de todos os anim ais, Ginástico era o predileto. E isto se com preende, pois Tistu e o pônei eram quase do m esm o tam anho.
Assim , vivendo na Casa-que-Brilha, j unto ao cintilante Papai e a perfum ada Mam ãe, no m eio de belas árvores, belos carros e belos cavalos, Tistu era um m enino im ensam ente feliz.