O Menino do Dedo Verde
Capítulo Dezenove
No qual Tistu faz uma última descoberta
As histórias nunca param onde a gente im agina. Vocês pensavam talvez que tudo j á estivesse dito, e que j á conhecessem Tistu m uito bem . Pois fiquem sabendo que nunca conhecem os ninguém com pletam ente. Nossos m elhores am igos reservam sem pre surpresas.
É claro que Tistu j á não fazia m istério a respeito do polegar verde. Ao contrário, falava-se m uito disto, e Tistu se tornara um m enino célebre, não só em Mirapólvora (perdão, Miraflores), m as no m undo inteiro:
A fábrica ia às m il m aravilhas. As nove cham inés estavam cobertas, até em cim a, de trepadeiras e flores exuberantes. As oficinas recendiam os m ais raros perfum es.
Fabricavam -se tapetes de flores para o chão das casas e tapeçarias para substituir as cortinas e o papel de parede. Os j ardins eram despachados em vagões. O Sr. Papai tinha até recebido um a encom enda de tapa-arranha-céu, porque as pessoas que viviam nos apartam entos eram freqüentem ente, ao que se dizia, tom adas de um a espécie de febre, que as levava a se j ogarem pela j anela do centésim o-trigesim o andar. Vivendo tão distantes da terra, é com preensível que não se sentissem m uito norm ais, e j ulgava-se que as flores fariam passar aquelas vertigens.
Bigode tornara-se o grande conselheiro das culturas. Tistu não cessava de aperfeiçoar sua arte. Agora, ele inventava flores. Chegara a criar a rosa azul, de que cada pétala parecia um pedaço do céu. E fora bem sucedido em duas novas variedades de girassol: o girassol nascente, cor de aurora, e o girassol poente, entre púrpura e cobre.
Quando acabava, ia brincar no j ardim com a m enina que havia sarado. Ginástico só com ia do m elhor trevo branco.
— Então, está contente agora? — disse um dia o pônei a Tistu.
— Sim , estou m uito contente! — respondeu Tistu.
— Você não se aborrece?
— De m odo algum .
— Não sente vontade de nos deixar? Vai ficar conosco?
— Mas é claro. Por que essas perguntas engraçadas?
— Um a idéia...
— O que é que você quer dizer? Já não acabou a m inha história? — perguntou Tistu.
— Vam os ver... vam os ver... — disse o pônei, pondo-se a roer seus trevos.
Daí a algum as m anhãs, um a notícia correu pela Casa-que-Brilha, deixando todos m uito tristes. O j ardineiro Bigode não despertara.
— Bigode resolveu descansar para sem pre — explicou Dona Mam ãe a Tistu.
— Posso ir vê-lo dorm ir?
— Não, não pode. Você não pode m ais vê-lo. Partiu para um a viagem longa, m uito longa, e nunca m ais voltará.
Tistu não com preendia direito. "Não se viaj a de olhos fechados, pensou ele. Se está dorm indo, podia ter m e dado boa noite. E se partiu, podia ter m e dito adeus. Isto não está nada claro; estão m e escondendo algum a coisa."
E foi sondar a cozinheira Am élia.
— O coitado do Bigode está no céu; agora é m ais feliz que nós — disse Am élia.
"Se é feliz, por que dizer que é coitado? Se é coitado, com o poderá ser feliz?" perguntava-se Tistu.
Carolo tinha ainda um a outra opinião. Segundo ele, Bigode estava debaixo da terra, no cem itério.
Era m uita contradição.
Debaixo da terra ou no céu? Era preciso decidir. O j ardineiro não podia estar por toda parte ao m esm o tem po.
Tistu foi ao encontro de Ginástico.
— Eu sei — disse o pônei. — Bigode m orreu. Ginástico dizia sem pre a verdade. Era um de seus princípios.
— Morreu? — exclam ou Tistu. — Mas não houve guerra...
— Não é preciso guerra para m orrer — respondeu o pônei. — A guerra é apenas um a aj udante da m orte... Bigode m orreu porque era m uito velho. Toda vida term ina assim .
Tistu teve a im pressão de que o sol perdia o seu brilho, o prado- se tornava escuro e o ar difícil de respirar. São os sinais de um incôm odo que as pessoas grandes pensam que só elas sentem , m as que as pessoinhas da idade de Tistu sentem tam bém , e que se cham a desgosto.
Tistu envolveu com seus braços o pescoço do pônei e pôs-se a chorar na sua crina.
— Chora, Tistu, chora — dizia Ginástico. — É preciso. As pessoas grandes não querem chorar, e fazem m al, porque as lágrim as gelam dentro delas, e o coração fica duro.
Mas Tistu era um m enino diferente, que não se dobrava em face da desgraça antes de lhe pôr o dedo em cim a.
Enxugou suas lágrim as e pôs um pouco de ordem em suas idéias.
"No céu ou debaixo da terra?" — repetia ele.
Resolveu ir ver de perto. No dia seguinte, após o alm oço, saiu do j ardim e correu até o cem itério, um pouco no flanco da colina. Um cem itério bonito, cheio de árvores e nada triste.
"Parecem cham as da noite a brilhar durante o dia", pensou Tistu ao passar pelos ciprestes negros.
Viu um j ardineiro, de costas, varrendo um a aléia. Sentiu de repente um a louca esperança... Mas o j ardineiro voltou-se. Era um sim ples j ardineiro de cem itério, sem a m enor sem elhança com o que Tistu procurava.
— Por favor, o senhor sabe onde está o Sr. Bigode? — perguntou-lhe Tistu.
— Terceira aléia à direita — respondeu o j ardineiro, sem interrom per o trabalho.
"Então é aqui m esm o..." — concluiu Tistu.
Seguiu a direção indicada, cam inhou entre as sepulturas e deteve-se diante da últim a, novinha em folha. Na lápide de pedra lia-se esta inscrição, com posta pelo professor:
Aqui jaz Mestre Bigode,
jardineiro dos melhores.
Uma lágrima por ele,
que foi amigo das flores.
E Tistu pôs m ãos à obra. "Bigode não poderá resistir a um a peônia. Sentirá vontade de conversar com ela", pensava Tistu. Enterrou o polegar no chão, e esperou alguns instantes. A peônia brotou do solo, subiu, desabrochou, e inclinou a cabeça, pesada com o um repolho, por sobre a inscrição da lápide. E ele fez surgirem j acintos, cravos, lilases, m im osas e angélicas. A sepultura, em poucos m inutos, viu-se cercada de um bosque. Mas continuou sepultura.
"Talvez um a flor que ele não tenha conhecido, pensou ainda Tistu. Mesm o quando a gente está m uito cansado, a curiosidade atrai..."
Mas a m orte zom ba dos enigm as. Ela é que os propõe.
Um a hora inteira Tistu lançou m ão da m ais fértil fantasia para fabricar plantas j am ais sonhadas. Inventou, assim , a flor-borboleta, com dois pistilos em form a de antenas e duas pétalas estendidas, que se agitavam à m enor brisa. Tudo em vão.
Quando foi em bora, de m ão suj a, cabeça baixa, deixava atrás de si a m ais surpreendente sepultura que se tenha visto num cem itério. Mas Bigode não respondera.
Tistu atravessou o prado, em busca de Ginástico.
— Você j á sabe, Ginástico...
— Sim , eu sei — respondeu o pônei. — Você descobriu que a m orte é o único m al contra o qual as flores nada podem ...
E, com o o pônei era um m oralista, acrescentou:
— É por isso que os hom ens são m uito tolos ao procurar se prej udicarem uns aos outros, com o fazem constantem ente.
Tistu, de nariz para cim a, olhava as nuvens e refletia.