O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 13 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Onze

No qual Tistu resolve ajudar o Doutor Milmales.

 

Foi ao visitar o hospital que Tistu ficou conhecendo a m enina doente.

O hospital de Mirapólvora, graças à generosidade do Sr. Papai, era um belo hospital, m uito grande, m uito lim po, e provido de tudo que fosse preciso para cuidar de um doente. As largas j anelas deixavam entrar o sol, e as paredes eram brancas e luzidias. Tistu não achou que o hospital fosse feio; pelo contrário. No entanto ele sentiu... com o explicá-lo... ele sentiu que algum a coisa m uito triste ali estava escondida.

O Dr. Milm ales, diretor do hospital, via-se logo, era um hom em m uito sábio e m uito bondoso. Tistu achou que ele se parecia um pouco com o j ardineiro Bigode, um Bigode que não tivesse bigodes e que usasse grossos óculos de tartaruga. E Tistu lhe disse o que pensava.

— A sem elhança deve decorrer — respondeu o Dr. Milm ales — de Bigode e eu term os um a tarefa parecida: ele cuida da vida das flores, eu da vida das pessoas.

Mas cuidar da vida das pessoas era im ensam ente m ais difícil; Tistu logo o com preendeu, só de ouvir o Dr. Milm ales. Ser m édico era travar um a batalha ininterrupta. De um lado a doença, sem pre a entrar no corpo das pessoas; do outro a saúde, sem pre querendo ir em bora. E depois, havia m il espécies de doença e um a única saúde. A doença usava todo tipo de m áscara para que não a pudessem reconhecer: um verdadeiro carnaval. Era preciso desm ascará-la, desanim á-la, pô-la para fora, e ao m esm o tem po atrair a saúde, segurá-la, im pedi-la de fugir.

— Você j á esteve doente, Tistu? — perguntou o Dr. Milm ales.

— Nunca, Doutor.

— Nunca m esm o?

Realm ente, o doutor não se lem brava de que o tivessem cham ado por causa de Tistu, enquanto Dona Mam ãe tinha m uitas enxaquecas e o Sr. Papai sofria às vezes do estôm ago. O criado Carolo tivera um a bronquite no últim o inverno. Mas Tistu, nada de nada. Eis um garoto que desde o nascim ento não sabia o que fosse varicela, angina, resfriado... Um caso raro de saúde perfeita!

— Eu lhe agradeço m uito a lição que m e deu, Dr. Milm ales; ela m e interessa m uito — disse Tistu.

O Dr. Milm ales m ostrou a Tistu a sala onde se preparavam pequenas pílulas cor-de-rosa contra tosse, pom ada am arela contra bolhas e pós branquicentos contra febre. Mostrou-lhe a sala onde a gente pode olhar através do corpo de um a pessoa com o através de um a j anela, para ver onde a doença se escondeu. E m ostrou-lhe tam bém a sala com teto de espelho, onde se cura apendicite e tanta coisa que am eaça a vida.

"Se aqui im pedem o m al de ir adiante, tudo devia parecer alegre e feliz, pensava Tistu. Onde estará escondida a tristeza que estou sentindo?..."

O Dr. Milm ales abriu a porta do quarto da m enininha doente.

— Vou deixar você aqui, Tistu. Venha depois até m eu escritório.

Tistu entrou.

— Bom dia — disse ele à m enininha doente. Ela lhe pareceu m uito bonita, m as extrem am ente pálida. Seus cabelos negros se desenrolavam pelo travesseiro. Teria m ais ou m enos a idade de Tistu.

— Bom dia — respondeu polidam ente, sem m over a cabeça.

Seus olhos estavam pregados no teto. Tistu sentou-se perto da cam a, com o chapéu branco sobre os j oelhos.

— O Dr. Milm ales m e disse que as suas pernas não andavam . Será que j á m elhorou no hospital?

— Não — respondeu a m enina, sem pre m uito polida; — m as isso não tem im portância.

— Por quê? — perguntou Tistu.

— Porque não tenho lugar nenhum para ir.

— Pois eu tenho um j ardim — disse Tistu, para dizer qualquer coisa.

— Você tem m uita sorte. Se eu tivesse um j ardim , talvez sentisse vontade de sarar para passear entre as flores.

Tistu logo olhou para o seu polegar, pensando: "Se o problem a é esse..." Mas perguntou ainda:

— Você não se aborrece m uito nessa cam a?

— Não m uito. Fico olhando o teto. Conto os buraquinhos.

"Flores seria m uito m elhor" — pensou Tistu. E se pôs a cham ar interiorm ente: "Papoulas, papoulas!... Botões-de-ouro, m argaridas, j unquilhos!"

As sem entes entraram pelas j anelas, a não ser que Tistu as tenha trazido nos sapatos.

— Mas, em todo caso, você não se sente infeliz?

— Para a gente saber se é infeliz, é preciso prim eiro ter sido feliz. Eu j á nasci doente.

Tistu com preendeu que a tristeza do hospital estava escondida nesse quarto, na cabeça da m enina. Ele tam bém estava ficando m uito triste.

— Você recebe visitas?

— Muitas. De m anhã, antes do alm oço, a Irm ã Term ôm etro. Depois vem o Dr. Milm ales; ele é m uito bonzinho, conversa com igo e m e faz um agrado. À hora do alm oço, chega a Irm ã Pílula. Depois, com a m erenda, entra a Irm ã Inj eção Que Dói. E, por fim , vem um m oço de branco, que acha que as m inhas pernas estão m elhor. Am arra um a cordinha em cada um a para que elas possam m over-se. Todos eles dizem que eu vou sarar. Mas eu prefiro ficar olhando o teto, que não m e prega m entiras.

Enquanto ela falava, Tistu se tinha levantado e entrara rapidam ente em ação em torno da cam a.

"Para esta m enina sarar, pensava ele, é preciso que ela desej e ver o dia seguinte. Um a flor, com sua m aneira de abrir-se, de im provisar surpresas, poderia talvez aj udá-la... Um a flor que cresce é um a verdadeira adivinhação, que recom eça cada m anhã. Um dia ela entreabre um botão, num outro desfralda um a folha m ais verde que um a rã, num outro desenrola um a pétala... Talvez esta m enina esqueça a doença, esperando cada dia um a surpresa..."

O polegar de Tistu não tinha descanso.

— Pois eu acho que você vai sarar — disse ele.

— Você tam bém acha?

— Acho sim . Tenho certeza. Até logo!

— Até logo! — respondeu polidam ente a m enina doente. — Você tem a sorte de ter um j ardim ...

O Dr. Milm ales esperava Tistu atrás de sua grande m esa niquelada, repleta de livros.

— Então, Tistu — perguntou ele— que foi que você aprendeu? Que sabe de m edicina?

— Aprendi — respondeu Tistu — que a m edicina não pode quase nada contra um coração m uito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?

O Dr. Milm ales ficou espantado com tanta sabedoria num garoto tão pequeno.

— Você aprendeu sozinho a prim eira coisa que um m édico deve saber.

— E qual é a segunda, Doutor?

— É que para cuidar direito dos hom ens é preciso am á-los bastante.

Ele deu um punhado de caram elos a Tistu e pôs um a boa nota em seu caderno.

Mas o Dr. Milm ales ficou ainda m ais espantado no dia seguinte, quando entrou no quarto da m enina.

Ela sorria: tinha despertado em pleno cam po.

Narcisos brotavam em torno à m esa de cabeceira, os cobertores eram um edredom de pervincas, a gram a crescia no tapete. E finalm ente a flor, a flor em que Tistu se desvelara, um a esplêndida rosa, que não parava de se transform ar, de abrir um a folha ou um botão, e que subia pela cabeceira da cam a, ao longo do travesseiro. A m enina j á não olhava o teto; ela contem plava a flor.

De noite suas pernas com eçaram a m over-se. A vida era boa.