O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 18 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Dezesseis

No qual se sucedem as mais espantosas notícias.

 

Todo m undo sabe que os j ornais só falam de guerra usando letras m aiúsculas. Essas letras ficam enfileiradas num arm ário especial. E era j ustam ente diante desse arm ário de m aiúsculas que o diretor de O Relâmpago de Mirapólvora, diário bem conhecido, sofria terríveis hesitações.

Ia e vinha, suspirava, enxugava a fronte, o que é sem pre sinal de em oção e perplexidade. O hom em estava m uito contrariado.

Mal pegava um a grande m aiúscula, dessas que são reservadas para as grandes vitórias, logo a punha de lado. Ora escolhia um a das m aiúsculas m édias, que servem para as guerras que se arrastam , para as expedições que não term inam , para as retiradas im previstas. Mas essa m aiúscula tam bém não servia: voltava para o arm ário.

Num certo m om ento pareceu decidir-se pelas pequenas letras capitais, que se usam para as notícias que põem todo m undo de m au hum or, com o: "Novo im posto sobre as com potas", ou: "Falta de água por dois dias". Mas essas letras tam bém não resolviam o caso. E o diretor de O Relâmpago suspirava cada vez m ais fundo. Realm ente, era um hom em no auge da contrariedade.

Ele devia anunciar aos habitantes de Mirapólvora, seus fiéis leitores, um a notícia tão inesperada e de tão graves conseqüências, que não sabia com o se arranj ar. A guerra entre os Voulás e os Vaitim boras havia fracassado. E quem poderá convencer o público de que um a guerra possa parar de repente, sem vencedores, sem vencidos, sem conferências internacionais, sem nada de nada?

Ah, o pobre diretor teria gostado de im prim ir, em toda a extensão da prim eira página, um título sensacional, com o por exem plo: "Fulm inante avanço dos Voulás" ou "Irresistível ataque das tropas Vaitim boras".

Mas isso era im possível. Os repórteres enviados até a pastilha cor-de-rosa eram categóricos: a guerra não acontecera, e seu fracasso punha em questão a qualidade das arm as fornecidas pela Fábrica de Mirapólvora, assim com o a com petência técnica do Sr. Papai, de suas oficinas e de todo o pessoal.

Em sum a, tratava-se de um verdadeiro desastre!

Experim entem os, com o diretor de O Relâmpago, reconstituir o desenrolar dos trágicos acontecim entos.

Plantas trepadeiras e colantes se tinham enraizado nas caixas de arm am ento! Com o se m eteram lá? Por que razão? Ninguém podia explicá-lo.

A hera, a briônia, a cam panilha e a erva-de-passarinho form avam em volta das m etralhadoras e dos revólveres um espesso em aranhado, que o visgo do m eim endro negro vinha agravar.

Essas caixas, tanto os Voulás com o os Vaitim boras acabaram desistindo de recuperá-las.

Os repórteres, nos seus relatórios, frisavam a ação particularm ente nociva da bardana, erva m edicinal cuj os bagos verm elhos são m unidos de ganchos. A bardana se alastrara pelas baionetas. Que fazer com fuzis que desabrochavam , com baionetas que não m ais espetavam , e que os m ais belos buquês privavam de toda eficácia? Só j ogando no lixo.

Igualm ente inaproveitáveis os m agníficos cam inhões, tão conscienciosam ente listrados de cinza e am arelo! Espinheiros, carrapichos e urtigas de toda espécie brotavam fartam ente nos assentos, provocando im ediata urticária nos m otoristas. Foram eles, aliás, as únicas vítim as da guerra. As brancas enferm eiras condenaram à im obilidade e às com pressas m ornas esses pobres soldados, que cruéis com ichões im pediam de sentar.

Situa-se aqui o lastim ável incidente causado por um a espécie de não-m e-toques. Que um a hum ilde flor do cam po possa desencadear o pânico entre com batentes, isto se explica facilm ente, quando sabem os que é provida de cápsulas que explodem ao m enor contato.

Os m otores estavam repletos dessa planta, que pululava no carburador das autom etralhadoras e no reservatório das m otocicletas. Mal se dava partida, à m enor pressão no acelerador produziram -se e propagaram -se surdas explosões, que não causaram o m ais leve dano m as abalaram fortem ente o m oral das tropas.

Passem os aos tanques. Tinham as torres bloqueadas. Roseiras bravas, às quais se m isturavam a m adressilva e as buganvílias, lançavam raízes, cachos, pedúnculos e ram os espinhentos em torno das engrenagens. Os tanques, portanto, estavam tam bém fora de com bate.

Nem um só aparelho fora poupado pela m isteriosa invasão! Surgiam plantas por todo lado, plantas teim osas, ativas, com o que dotadas de vontade própria.

Nas m áscaras contra gases desenvolvia-se a aquiléia esternutatória. O repórter de O Relâmpago garantia que a um m etro dessas m áscaras as pessoas j á se punham a espirrar cerca de cinqüenta espirros.

Ervas m alcheirosas se aloj avam no interior dos porta-vozes. Os oficiais tiveram de renunciar a essas cornetas onde cresciam arruda e alho-de-urso.

Mudos, im óveis, im potentes, os dois exércitos haviam estacado, um diante do outro.

As m ás notícias voam . O Sr. Papai j á estava a par de tudo, e bem im aginam os em que estado de desespero. Suas arm as floresciam com o acácias na prim avera.

Mantinha-se em constante contato com o diretor de O Relâmpago, que lhe fazia a leitura, pelo telefone, dos m ais pungentes telegram as... Só restava um a esperança: os canhões, os fam osos canhões de Mirapólvora.

Pois, com o dizia o Sr. Papai, dois exércitos im obilizados podem ainda entrar em com bate, desde que disponham de bons canhões.

Esperou-se até à noite. Um últim o telegram a desfez todas as ilusões.

Os canhões de Mirapólvora haviam atirado, não resta dúvida; m as haviam atirado flores.

Um a chuva de am ores-perfeitos, papoulas e m iosótis abatera-se sobre os contingentes dos Voulás, que haviam respondido inundando os Vaitim boras de gerânios, m argaridas e beij os. Um general tivera o quépi arrebatado por um buquê de violetas.

Não se conquista um país com rosas, e as batalhas de flores nunca foram levadas a sério.

A paz foi im ediatam ente concluída entre os Voulás e os Vaitim boras. Os dois exércitos se retiraram , e o deserto cor de pastilha cor-de-rosa foi devolvido ao seu céu, à sua solidão e à sua liberdade.