O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 22 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Vinte

No qual ficamos sabendo finalmente quem era Tistu.

 

Ela o preocupava há vários dias; exigia todos os seus cuidados; era só nela que ele pensava. Ela, quem ? A escada.

— Tistu está construindo um a escada — diziam em Miraflores.

Mas era só o que sabiam . Um a escada para ser colocada onde? Para quê? Por que um a escada e não um a torre ou um a bandeira de flores?

Tistu desconversava.

Tenho vontade de fazer um a escada, só isso...

Escolhera o local, bem no centro do prado.

Um a escada, geralm ente, é trabalho de carpinteiro. Mas Tistu não pretendia usar m adeira cortada.

Com eçara por m eter o polegar na terra, bem fundo, em dois pontos bem distantes um do outro, m ais ou m enos a distância dos seus braços bem abertos.

— É preciso que as raízes desta escada sej am bastante fortes — explicava ao pônei, que acom panhava os trabalhos com grande interesse.

Duas árvores se ergueram , duas belas árvores esguias, de ram os espessos. Em m enos de um a sem ana tinham atingido trinta m etros. Cada m anhã Tistu, fiel aos ensinam entos de Bigode, dirigia-lhes um breve discurso. O m étodo deu o m elhor resultado.

As árvores eram de rara qualidade. O tronco, em sua elegância, lem brava o eucalipto, m as com a dureza do j acarandá. As folhas eram recortadas com o as da parreira, e os frutos brotavam verticalm ente, em pequenos cones, com o pinhas do pinheiro.

Mas quando as árvores passaram dos sessenta m etros, as folhas de parreira deram lugar a espinhos azulados, e apareceram botões de veludo. Carolo disse então que as árvores eram de um a espécie m uito com um no seu país e a que cham avam sorveira.

— Isto, sorveira? — protestou a cozinheira Am élia. — Não vê que está dando agora cachos brancos e perfum ados? Garanto que são abrunheiros, que conheço m uito bem , pois as flores servem para doce.

Mas nem Am élia nem Carolo estavam errados ou certos. Cada um via, naquelas árvores, a sua árvore predileta. Eram árvores sem nom e.

Em breve m ediam m ais de cem m etros. Nos dias de neblina j á não se via m ais onde acabavam .

Mas, dirão vocês, duas árvores, por m ais altas que sej am , j am ais serão um a escada.

Foi então que surgiu a glicínia. Um a glicínia diferente, híbrida, fortem ente cruzada com o lúpulo. Apresentava ainda a particularidade de crescer na horizontal entre os dois troncos. Apoiava-se solidam ente num deles, dava um salto, atingia o outro, contornava-o três vezes, fazia um nó com , sua própria haste, subia um pouco m ais, e repetia a proeza em sentido inverso. Assim se construíam os degraus da escada.

O espetáculo foi quando essa glicínia, de um a vez só, se cobriu de flores. Parecia correr do céu um a cascata cor de m alva.

— Se Bigode está m esm o lá em cim a, com o insistem em dizer — segredou Tistu ao Ginástico — aproveitará esta escada para descer, nem que sej a um pouquinho.

— Você fica pondo coisas na cabeça! — respondeu o pônei.

— É que eu sofro por não poder vê-lo... e por não saber... — respondeu Tistu.

A escada continuava a crescer. Fotografaram -na para os j ornais em cores, que escreviam a seu respeito: "A escada de flores de Miraflores (ex-Mirapólvora) é a oitava m aravilha do m undo."

Se a gente perguntasse aos leitores quais eram as sete prim eiras, ficariam bem atrapalhados para responder. Faça a pergunta a seus pais, para ver um a coisa!

Mas tudo isso não fez Bigode descer.

"Vou esperar ainda três m anhãs, decidiu Tistu; em seguida, sei o que m e resta fazer."

Chegou a terceira m anhã.

A lua se deitara, o sol não se levantara ainda e as estrelas estavam caindo de sono, quando Tistu saiu da cam a. Não era m ais noite, m as o dia não chegara ainda.

Tistu vestia a sua longa cam isola branca.

"Onde é que foram parar m eus chinelos?" perguntou a si m esm o. Encontrou um debaixo da cam a e o outro em cim a da côm oda.

Deixou-se escorregar pelo corrim ão, saiu pé ante pé, e chegou até a escada, no m eio do prado. Ginástico tam bém estava lá. Tinha o pêlo triste, a orelha caída, a crina em aranhada.

— Que é isso? Você j á está de pé? — perguntou-lhe Tistu.

— Não entrei ontem à noite na cavalariça — respondeu o pônei. — Confesso que passei a noite inteira tentando roer o pé dessas árvores; m as a m adeira é dura dem ais. Meus dentes não conseguiram ...

— Você quis então derrubar a m inha bela escada? — exclam ou Tistu. — Por que, Ginástico? Para im pedir que eu suba?

— Foi, disse o pônei.

Gotas de orvalho com eçaram a cintilar pela relva. E, ao m esm o tem po, Tistu viu duas lágrim as nos olhos do pônei.

É preciso prestar m uita atenção quando os cavalos choram . É sem pre por um a coisa im portante.

— Mas vam os, Ginástico, não soluce desse j eito, senão você vai acordar todo m undo. Por que é que você se preocupa? Você bem sabe que eu não sinto vertigens. Eu vou só subir e descer. Já estarei de volta quando o Carolo se levantar...

Mas Ginástico continuava chorando.

— Ah, bem que eu sabia... eu sabia que isso ia acontecer... — repetia ele.

— Eu trarei um a estrelinha para você — disse Tistu para consolá-lo. — Até logo, Ginástico.

— Adeus — disse o pônei.

Ele viu Tistu escalar os degraus e acom panhou a sua ascensão.

Tistu ia subindo no m esm o ritm o, leve e ligeiro. Dentro em pouco sua cam isola de dorm ir parecia m enor que um lenço.

Ginástico espichava o pescoço. Tistu dim inuía, dim inuía, j á era m enor que um a bola, que um a ervilha, que um a cabeça de alfinete, que um grão de poeira. Quando se tornou invisível, Ginástico afastou-se tristem ente, e foi roer a relva do prado, em bora não sentisse fom e.

Mas Tistu, de sua escada, via ainda a Terra.

"Olha só, disse consigo m esm o, os prados são azuis!"

Deteve-se um instante. Daquelas alturas, tudo m uda. A Casa-que-Brilha brilhava ainda, num m inúsculo reflexo de diam ante.

O vento se m etia pela cam isola de Tistu e a enchia com seu sopro.

"Vou segurar bem forte!" E prosseguiu a escalada. Mas, em vez de se com plicar, sua ascensão se tornava cada vez m ais fácil.

O vento se acalm ara. Tudo o que fora barulho ou ruído se tornava silêncio. O Sol faiscava com o um fogo gigantesco, m as sem queim ar. A Terra não era m ais que um a som bra, m ais que nada.

Tistu não percebeu logo que j á não havia escada. Som ente deu por isso quando verificou que perdera seus caros chinelos e tinha os pés descalços. Já não havia escada, e ele continuava a subir, sem dificuldade, sem fadiga. Um a grande asa branca o roçou.

"Que engraçado! pensou ele. Um a asa sem pássaro..."

E de repente ele entrou num a enorm e nuvem , alva, sedosa, m acia, onde j á não enxergava m ais nada.

Essa nuvem lem brava a Tistu algum a coisa..., um a coisa tão branca e tão suave... Sim , os bigodes do Bigode, m il, m ilhões de vezes m aior. Tistu subia por um a barba im ensa com o um a floresta.

Ouviu então um a voz, um a voz parecida com a de Bigode, m as im ensam ente m ais forte, m ais grave e m ais profunda... E ouviu essa voz dizer:

— Ah, você está aqui...

E ele desapareceu para sem pre naquele m undo invisível, do qual até as pessoas que escrevem histórias não sabem coisa algum a.

No entanto, para que o Sr. Papai e a Dona Mam ãe e todos que o am avam não ficassem preocupados, Tistu, pela últim a vez, m andou notícias suas por interm édio de Ginástico. Este pônei, com o j á dissem os, sabia m uita coisa.

Assim que perdera Tistu de vista, pusera-se a roer a relva do prado. E não estava com fom e. Mas roía, roía, apressava-se. Roía de um m odo curioso, com o se quisesse fazer um desenho ou seguir um traçado. E, à m edida que ia roendo, no lugar da relva roída punham -se a brotar botões de ouro, bem j untinhos e espessos. Logo que acabou, foi descansar.

Quando os m oradores da Casa-que-Brilha saíram aquela m anhã a cham ar Tistu por todos os cantos, viram no m eio do prado dois chinelinhos e um a frase escrita em belas letras douradas:

TISTU ERA UM ANJO!

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