O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 9 de 15

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O Sr. Ganimedes

Capítulo VI

 

Era muito recatada, quase misteriosa, aquela pequena casa da rua do Trombeta, ao Bairro Alto, de

aparência modesta e limpa.

Tratava dela todos os dias a senhora Angélica, mulher dos seus sessenta anos, viúva, que tinha um filho

soldado de cavalaria, uma filha casada com um oficial de marceneiro, e outra, a mais velha, a Ermelinda, enfermeira do hospital Estefânia.

A senhora Angélica vivia de fazer recados às raparigas perdidas que infestam aquele bairro, e de

alguma coisa que os filhos lhe davam.

Era serviçal atenciosa, reservada e muito amiga do asseio. Não se metia na vida de ninguém,

embirrava com mexericos e contos, o que era para notar em pessoa da sua condição.

Há dois anos que tratava da casinha da rua do Trombeta e nunca se dera a curiosidade de saber a quem ela pertencia ou quem a frequentava.

Todos os dias, às onze horas da manhã, ia lá limpar o pó, fazer a cama, esvaziar as águas e deixar tudo na melhor ordem e asseio. Muitos dias a cama estava intacta, sem que por isso deixasse de lhe pôr roupa

lavada todas as semanas.

Toda a casa, uma sala, um quarto de dormir, outro para lavagens, a cozinha, a casa de jantar e um quarto grande junto do primeiro e que estava desocupado, se encontrava mobilada com grande elegância

e apurado gosto.

Com a sua perspicácia de uma larga existência e trato da vida, ela estava firmemente convicta de que

aquela casa era um coté, como tantos outros cuja existência conhecia, onde algum D. Juan de boa sociedade se ia encontrar com a dama dos seus amores. E achava este caso tão vulgar, tão conhecido e corriqueiro, que já nem lhe ligava a menor atenção. Demais, uma vez, levada pela curiosidade, bem inata

no seu sexo, abrira as gavetas do toilette e encontrara nelas lindas camisas de seda e rendas, meias luxuosas e elegantes, sapatinhos e botinas do mais apurado gosto, caixas com ligas de variadas cores e

laços, além de sobre a pedra do mesmo toilette existir uma profusão de frascos de essências, caixas com pó de arroz, borlas, todo o arsenal enfim da toilette de uma mulher galante.

No entanto, nos numerosos quadros que enchiam as paredes, aguarelas, telas a óleo, fotografias

coloridas, gravuras antigas, etc., não existia um só de mulher. Eram tudo paisagens marinhas, interiores, flores, e algumas cabeças de estudo bem pintadas, todas de homens.

Na sala havia um único retrato, o de um rapaz quase imberbe, muito bonito e elegantemente vestido, cujo olhar lânguido e suave parecia contemplar com satisfação todo o aposento.

De resto, nos biscuits e bronzes que estavam sobre a consola e étagers, não se via a menor figura ou

grupo obsceno.

Ela nunca conseguira ver nenhum dos moradores da casa.

No dia um de cada mês, o seu ordenado de três mil réis lá estava, sobre a consola, dentro de um envelope com estes dizeres: «Para a senhora Angélica».

Pelo Natal e Páscoa davam-lhe sempre a consoada, que consistia numa nota de cinco mil réis.

Algumas vezes, à noite, passando por lá, via luz na sala através do vitrage que cobria os vidros das janelas.

Nessas ocasiões, a cama aparecia sempre desmanchada no dia seguinte.

Enfim, a senhora Angélica fazia o seu serviço, pagavam-lhe em dia; ergo, não tinha nada que ver com a

vida particular de cada um.

Mas, se ela não tinha, temos nós, porque dessa casa, ou para melhor, de tudo quanto a ela se liga, é que depende irresistivelmente o principal entrecho deste livro.

Assim é que às nove horas da noite desse cálido e estiolante mês de agosto, o Leonel, muito elegante e distinto no seu fato claro, rosa na lapela e luvas amarelas, chegou à porta da casa, abriu-a com a chave

que sempre trazia e entrou, fechando a porta com suavidade.

A casa tinha rés-do-chão e primeiro andar, mas estava tudo alugado por conta do mesmo inquilino, não servindo o rés-do-chão, que permanecia rigorosamente fechado.

Chegado à sala o Leonel viu as horas no lindo relógio antigo de bronze dourado, que estava sobre a consola, que regulava como uma pêndula.

Depois recolheu-se ao quarto interior, onde se começou a despir, arrumando o fato com todas as precauções.

Meia hora depois surgia desse quarto uma elegantíssima rapariga de cabelos frisados e sedosos, olhos

negros sensuais e ternos, e lábios de carmim, que desafiavam os mais ardentes beijos.

Vestia uma linda bata de cassa branca, presa na cintura gentil e delgada por um cinto de veludo negro,

cingia-lhe o colo alabastrino um fio de pérolas com uma cruz de ouro, e calçava uns elegantes sapatinhos de cetim negro, de salto peonado e muito decotados, deixando ver meia de seda cor-de-rosa com abertos no meio do pé pequeno e grácil.

Essa rapariga era o Leonel!!

Sentou-se no sofá, languidamente, como a mais romântica das mulheres, e como fazia calor abanava-se

com um belo leque de rendas.

Pelas mangas largas da bata surgiam-lhe os braços nus, alvos, cetinosos, completamente despilosados.

Folheou ao acaso um livro que começou a ler distraidamente, aplicando o ouvido aos rumores que

vinham da rua, que estava deserta àquela hora.

Em todo o aposento apenas se ouvia o tic-tac regular do pêndulo do relógio nas suas oscilações curtas

e rápidas.

Impaciente, ele batia nervosamente com o pé no tapete aveludado e caro.

Às dez horas em ponto alguém bateu à porta três pancadas.

Levantou-se rápido, exclamando:

— Finalmente.

E às escuras puxou a corda que abria o trinco da porta da escada.

Sentiram-se passos rápidos de homem, que entrou no corredor e depois na sala.

— Julguei que não viesses, amor! exclamou o Leonel com uma voz adocicada e dengosa que faria estremecer de indignação todos os cacetes e bengalas deste mundo.

— Tive serão, filho, perdoa, exclamou o recém-chegado, abraçando o outro e beijando-o como se ele fora a mais feminina de todas as mulheres.

— Estava tão triste com a tua demora!

— Ah, mas agora reparo: como tu estás encantador, como te fica bem o branco ao teu rosto de anjo! E que lindeza de sapatinhos!

— Vê, vê, meu querido, exclamou o Leonel erguendo a bata.

— Oh, meu adorável querubim, que lindas meias e que elegância de ligas. Estás o que se chama uma

tentação.

E agarrou-se ao Leonel num furor de carícias exóticas que a pena se recusa a reproduzir.

Leonel deixou-se cair no sofá num abandono voluptuoso de mulher lasciva, e cerrando os lindos olhos

negros, murmurou:

— Tu matas-me, meu amor.

O outro violou-lhe a bata, como se faz às mulheres que amamos, e exclamou beijando-o:

— Ih! ih! ih! filho!

— Que queres? amo-te tanto...

— Sim, mas eu tenho ciúmes do conde. Não posso conformar-me que esse velho rico e ocioso te possua à sua vontade, enquanto que eu apenas aproveito fugitivas ocasiões, amando-me tu tanto como

dizes.

— Dúvidas?

— Não, não duvido. Tenho provas do teu amor, mas mesmo por isso mais sofro.

— Que fazer, meu querido Liberato, eu sou pobre! O conde é quem me dá tudo, e não estou acostumado a trabalhar. Não poderia mudar de hábitos. Depois, bem sabes que a ele cedo por interesse e a ti entrego-

me por amor, amor verdadeiro, apaixonado, ardente, único, só teu e sempre teu.

— E agora quanto tempo gozaremos a nossa ventura, meu anjo?

— Até ao fim do mês. O conde partiu para as suas propriedades no alto Douro, com a família, para

cuidar da próxima vindima. Já me escreveu hoje uma longa carta cheia de saudade e...

— Cala-te, Leonel, cala-te; por quem és, não me faças sofrer.

— Perdoa, Liberato. Como te digo tudo.

— Sim, mas essas coisas não se dizem a um homem apaixonado como eu.

— Olha, menino, disse o Leonel muito terno, podes amanhã ir ao meu alfaiate mandar fazer o fato,

porque já lá dei ordem para te fornecerem o que quiseres.

— Obrigado, Leonel, muito obrigado. Dás licença que fume um cigarro?

— Quantos queiras, estás em tua casa.

O Liberato puxou da onça e do livro de mortalhas zig-zag e começou a fazer um cigarro com toda a pachorra.

Voluptuoso e meigo, o Leonel sentara-se a seu lado, pondo-lhe uma perna sobre as dele em atitude de

cocotte, a fim de deixar ver bem o primor das meias, a elegância das ligas, e a sedução dos sapatinhos de cetim.

*

O Liberato, empregado de um escritório de mangas e bicos de incandescência, era um celibatário de trinta e cinco anos, alto, forte, robusto, vigoroso, trigueiro, de grande bigodeira façanhuda e abundante,

olhos brilhantes e expressivos, muito simpático e insinuante. Dispunha de uma força pouco vulgar, e tocava guitarra e cantava o fado com uma perfeição inexcedível.

O Leonel, delicado, fino, distinto, bem-educado e quase aristocrata, concebera por ele uma verdadeira paixão, semelhante no seu repulsivo exotismo àquelas que muitas mulheres débeis e de nascimento escolhido tributam a homens grosseiros, de esfera e educação muito inferiores à sua.

Era o eterno caso das gentis condessas que se amancebam com o seu cocheiro.

Na hibridez dos seus instintos sensuais, o Leonel tinha todas as perversões morais e físicas de uma

cortesã caprichosa e histérica.

E que ninguém se admire do caso, porque ele está de sobra estudado pelas celebridades médicas mais notáveis da França, Itália e Alemanha, como o Dr. Krafft Ebing explica no seu livro O instinto sexual e

suas aberrações.

*

Devemos explicar que Leonel era um efebo por tendência moral, fisiológica e educativa, enquanto que o Liberato era um sodomita por vesânia mental desde os vinte e quatro anos, após um facto que explicaremos.

O arredondado das formas, a pequenez dos pés e das mãos, o timbre da voz, a ausência total de pilosidade no corpo e barba, contrastando com a abundância da cabeleira e das pestanas, a macieza da

pele, a timidez e cobardia que sempre manifestara desde criança, a ponto de o pai lhe chamar o último dos cagarolas, a sua inclinação para brincar com as raparigas fugindo do convívio dos indivíduos do seu sexo, a predileção por todos os brinquedos que pertencem às meninas e não aos rapazes, e a má

conformação do aparelho genital, deixavam prever a um observador perspicaz e estudioso que aquele homem continha em si muitos detalhes e verdadeiras qualidades do sexo feminino.

Aos dezoito anos engordara bastante e alterara-se-lhe a estatura, o que lhe dava uma bela presença, que junta à beleza do seu rosto era o encanto de todas as mulheres.

Na resumida roda de amigos que frequentava, quase todos tão efebos como ele, a começar pelo Jaime

poeta, que todos os catraeiros do Cais do Sodré conheciam à légua, e que uma vez na Figueira da Foz tivera uma aventura galante das mais indecentes, a qual logo no dia seguinte se soube em Lisboa, e em pleno Suíço chamavam-lhe o olhos de veludo, assim à laia de cognome de cocotte luxuosa com alta

cotação no mercado.

O desflorador da honestidade do Leonel fora um contínuo do Liceu, antigo sargento de cavalaria bruto e espadachim, que os rapazes temiam e respeitavam, e era chamado em particular quando se queria

conservar a ordem no estabelecimento.

Sodomita medonho, a beleza grácil do Leonel tentou-lhe o vício, e em troca de o defender contra as

partidas dos camaradas, abusou dele, iniciando-o nas mais desonestas práticas.

Pervertido, e conhecido o caso, o Leonel prestou-se às exigências lascivas dos colegas, e quando ainda não completara dezoito anos, já tinha pertencido ao major Terramonde, ao padre Amâncio,

explicador de matemática, ao mestre-de-obras Aparício Batalha, e ao capitalista Couto, de cujas mãos avaras passou para as do conde da Lagoa Escura, homem riquíssimo, distinto, ilustrado, do mais fino

gosto estético e artístico.

De depravação em depravação, todo o seu organismo se atrofiou, convencendo-se quase que nascera para as funções femininas, esquecendo por completo as do seu sexo.

Assim é que chegara aos vinte anos sem nunca ter tido contacto com mulher alguma!!

Fora o conde quem lhe aperfeiçoara o gosto pela efeminização, para a qual aliás ele sempre tivera

tendência desde pequeno.

E na casinha da rua do Trombeta passava horas esquecidas vestido de senhora, como esse célebre abade de Choisy, a quem o cardeal Mazzarino chamava ironicamente a mais linda mulher masculina da

corte de França!

O Jaime poeta, que também gostava de se vestir de mulher, dera-lhe sábias indicações acerca do

assunto.

No entanto, quem o visse desempenado, robusto, nutrido, elegante e vivaz, jamais reconheceria nele, a não se ser observador finíssimo, um dos aberrativos mais completos que passeavam pela Avenida e pelo

Chiado, seduzindo com a sua beleza as ingénuas mulheres, que nem ao de leve suspeitavam o que ele era.

Nada disto se dava com o Liberato. Esse fora um grande amigo de mulheres, conquistador terrível que

não deixava em paz toda aquela que lhe agradasse.

Aos vinte e cinco anos, porém, apanhara uma infeção sifilítica simplesmente horrenda. Caiu-lhe o cabelo, o corpo cobriu-se-lhe de chagas pustulosas, a garganta transformou-se- lhe numa ferida hedionda,

e todos os ossos e músculos se lhe torceram sob dores atrozes. Chegou quase a não ter amígdalas e o nariz salvou-se-lhe por um milagre, mediante o rigoroso tratamento que sofreu em Faro, para onde foi

levado em maca.

No tratamento dessa doença terrível, monumental, pavorosa, gastou todas as suas pequenas economias e perdeu o lugar no escritório onde estava empregado, pois durante dois anos foi um homem

completamente inútil.

Desde esse momento, votou às mulheres um ódio profundo, igual ao muito que tinha gostado delas.

Esse ódio chegou até a obcecação, não distinguindo as que não oferecem perigos das que os contêm

por motivo do seu género de vida. Nunca mais quis ter com mulheres o menor contacto, e deu em sodomita por deliberação irrevogável do seu espírito.

Constituindo o hábito uma segunda natureza, acabou por exceder os mais furibundos da seita, pois era

homem de grande pletora genésica.

Manteve sempre a sua dignidade pessoal, fazendo apenas ao Leonel, que por ele se apaixonara

violentamente, algumas concessões, pois que este efebo mais tinha de mulher em tudo do que de homem, sendo de todos os que conhecia, o mais fino o mais delicado e o mais feminil que era possível imaginar-se.

Exatamente como as chulas pervertidas, o Leonel, que explorava como uma cortesã encanecida a bolsa do conde da Lagoa Escura, gastava bastante com o Liberato, seu amante de alma, dando-lhe dinheiro e

presentes a cada momento.

E como um resplendor divino a iluminar toda esta crápula ignóbil, baixa, cloacina, pulha e repulsiva, alçava-se a figura doce e honestíssima da D. Eudóxia, venerando o filho com o seu santo amor de mãe e

tendo-o em conceito como o mais digno, o mais decente e o mais honesto dos homens.