O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 15 de 15

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O Sr. Ganimedes

Capítulo XII

 

Oito e meia da noite.

Caía uma chuva miúda e fria que trespassava os ossos e punha nas ruas um lençol viscoso e umas poças de água onde se refletiam os candeeiros da iluminação pública e as luzes dos estabelecimentos

quase desertos.

Envolto no seu amplo capote de cavalaria, o Nuno rondava as imediações da rua do Trombeta, fumando o seu inseparável cigarro.

Súbito descobriu ao longe, na rua da Barroca, um vulto de mulher que caminhava apressadamente, resguardando-se da água com o seu guarda-chuva de pequeno diâmetro.

Pela elegância do talhe e maneira de andar, reconheceu Lígia.

Atravessou para o passeio por onde ela caminhava e quando ela, que já o reconhecera, passou junto dele, disse-lhe:

— Siga-me.

Tranquilamente, serenamente, sem despertar suspeitas, o Nuno aproximou-se da casa, meteu a chave à

porta e entrou.

Lígia entrou em seguida. Estavam às escuras.

Ele deu-lhe a mão, que através da luva encontrou fria de neve, e guiou-a na escada um tanto íngreme e

de degraus estreitos.

Chegado acima, abriu a porta da saleta e acendeu um fósforo.

— Não há tempo a perder, disse-lhe. Eles vêm invariavelmente às nove horas, pouco mais, e como a noite está má não se podem demorar.

— Aonde é o quarto?

— Ali.

E o Nuno, tomando pelo corredor, levou-a ao quarto dos caixotes.

— Por este buraco poderá ver tudo. Eu vou à alcova e depois me dirá se vê bem.

— Pois sim.

O Nuno correu à alcova, acendeu outro fósforo e, aproximando-se da parede, perguntou:

— Vê?

— Perfeitamente, respondeu Lígia.

Deu a volta, e entrando de novo no quarto, perguntou-lhe:

— Sempre quer ficar só?

— Quero.

— Bem. Eu fico na rua até que V. Ex.ª se retire. Aqui tem as chaves. A mais pequena é da saleta e a maior a da escada.

— Basta-me a primeira, visto por dentro abrir o trinco de porta.

— Tem razão. Até logo.

— Até logo.

Lígia fechou-se à chave no quarto e tirou do seio um pequenino revólver que pertencera ao Bernardino e que ele trazia sempre consigo.

Sentou-se em cima de um caixote de vinho e esperou.

Tinha os pés húmidos, porque a água trespassara-lhe as botas de finíssima pelica, como sempre usava.

Através das paredes sentiu o tenente fechar com precaução a porta da rua, e o bater do relógio da sala, que ela apenas lobrigara à claridade indecisa do fósforo, chegava-lhe distintamente ao ouvido apurado.

Tudo aquilo lhe parecia mais um sonho mau, um pesadelo horrível, do que a triste realidade da página

mais triste ainda da sua vida.

Na escuridão tumular daquele quarto, em cuja atmosfera fria e húmida pairava um cheiro acre de bafio

e de garrafas de vinho fino abertas e vazias, esse cheiro característico das despensas sem arejamento nem luz, ela viu passar-lhe pela memória as cenas mais culminantes da sua existência.

Regressando a esse passado longínquo de doze anos, evocou aquele dia de sol em que na companhia

do Martins, da tia Benedita, da D. Eudóxia e do Leonel, então uma criança casta e bela a quem ensinava as primeiras letras, foram todos alegres e satisfeitos buscar ao Lazareto o Bernardino, que, rico e

considerado, regressava à pátria após vinte anos de um trabalho honesto e persistente nesse Brasil distante, que foi sempre a terra da promissão dos portugueses ativos e trabalhadores que no seu país não encontram horizonte suficientemente vasto para o alongamento das suas ambições.

Tornou a ver com uma nitidez que a apavorava, isolada como estava naquela casa às escuras, o olhar sereno e bom do Bernardino fixo nela, nesse alegre almoço do Francfort, e caindo na catalepsia das

sugestões mentais, sentiu-se transportada pelo braço dele nesse magnífico passeio a Mafra, onde recebera a declaração do seu amor.

Depois passou-lhe pelo cérebro, em harmónico desfile de imagens vívidas, a compra do seu enxoval, a

cerimónia da igreja, a enorme alegria de Bernardino, o seu primeiro jantar de noivos, a sós, na pequenina sala do hotel em Sintra, de cuja janela se avistava um trecho da serra e da denticuladura do Castelo dos

Mouros, o passeio até à estação pela calada da noite estrelada, silenciosa e fresca, o regresso e a impetuosidade viril com que o marido se apossara do seu corpo de virgem, traduzindo num vigor pouco vulgar aos quarenta e dois anos, a sua forte organização de beirão sadio que soubera poupar a saúde!

Recordou a sua viagem à Suíça e à Itália; essas madrugadas encantadoras, alvorescentes, nos curiosos e confortáveis hotéis das verdejantes montanhas suíças com os seus píncaros cobertos de neves

perpétuas; esse leite divino, saboroso, extraordinariamente puro e bom, que ela bebia todas as manhãs, como nunca mais bebera outro igual; os seus passeios a Berna e a Lucerna; as viagens nos lagos poéticos e lindos como um poema; a ascensão ao Jungfrau em companhia de uma família inglesa muito

comunicativa e simpática, e depois a partida para a Itália, Roma, Florença, Milão, Turim, Nápoles e Veneza; o Vaticano, amplo como uma cidade; a catedral de S. Pedro com a sua cúpula arrojada a elevar-se para os seus céus na majestade imponente do cristianismo triunfante na sua longa existência de

dezanove séculos; as preciosidades espantosas da arte do homem espalhadas nesses museus que assombram; os restos gigantescos do Coliseu, preciosas relíquias brutais do passado de um grande povo dominador, que até nos seus vícios e crimes foi indiscutivelmente grande; os velhos canais da Veneza dos

Doges; a Ponte dos Suspiros e a praça de S. Marcos, com o seu leão alado e os seus pombos amoráveis,

parecendo que a sombra tétrica de Marino Faliero[3] ainda rondava as arcarias dos palácios da Velha

Senhoria que monopolizou o comércio do mundo até que os portugueses ensinaram aos povos o caminho marítimo para as Índias; o Vesúvio, com o seu eterno penacho de fumo negro e vómitos ciclópicos de lava incandescente, a Baía de Nápoles, de águas azuladas e tranquilas, atmosfera quente, mulheres

magníficas de grandes olhos cismadores e profundos, aromas de frutos maduros e flores frescas, as canções dolentes dos barqueiros, os vendedores do macarroni e os lazzaroni estendidos ao sol numa

beatífica indiferença de filósofos epicuristas por essa coisa bela e extenuante que se chama o trabalho e constitui a nota predominante das sociedades modernas.

Depois, a sua partida para o Brasil, os sucessos políticos daquele grande país, a queda do império, a

revolução, as hostilidades do almirante Custódio José de Melo [4] contra o governo constituído, os enormes desastres financeiros e comerciais, a atividade espantosa do Bernardino para travar a roda da

fortuna que por algum tempo lhe desandara, o modo afetuoso, amorável, sincero e de verdadeiro amigo que sempre lhe dispensara ainda nos maiores transes, as confidências extraordinárias que lhe fizera a esposa do guarda-livros da casa acerca do amor fisiológico dos homens, o seu desgosto por não poder

amar o marido que tinha por ela quase uma idolatria, e por último a morte dele, lançando-lhe ainda na agonia um olhar de carinho cheio de lealdade e estima!

Quando chegou a este ponto, Lígia sentiu que as lágrimas lhe rebentavam impetuosas e escaldantes.

Em meia hora tinha revivido doze anos da sua existência passada.

Respirou com essa ânsia que segue sempre às grandes impressões morais. Tirou o lenço para limpar as

lágrimas e aplicou o ouvido.

Abriram a porta e em casa entrava gente.

As alcatifas abafavam o ruído dos passos e os reposteiros o das vozes.

Mas como o seu sentido auditivo era finíssimo, pode perceber que na sala falavam homens.

Colheu de passagem algumas gargalhadas sonoras, e depois fez-se um grande silêncio, apenas cortado

pelo ruído de passos noutro aposento. Pelo buraco da parede esfuziou um raio de luz.

Lígia aproximou-se para espreitar, mas já não viu nada.

Ao cabo de um quarto de hora, essa luz tornou de novo a brilhar, e desta vez fixa.

A sua pupila, dilatada pela escuridão, contraiu-se àquela claridade inesperada, mas em breve, passada a primeira impressão, pode contemplar o seu marido de camisa de rendas com laços cor-de-rosa,

sapatinhos de cetim azul celeste, meias de seda escarlates, ligas espaventosas e uma pulseira lindíssima no braço esquerdo.

A seu lado, um homem alto, espadaúdo, anguloso, de grandes bigodes negros e com o corpo coberto de

pelos hirsutos e bastos como um gorila, afagava-o sensualmente.

Lígia reconheceu esse homem. Era o mesmo que visitara o Leonel quando ele dera a queda, e que pelos seus modos, tão afadistados e jocosos, tão mal a tinha impressionado.

Durante uma hora, Lígia não se retirou daquele posto de observação, de onde viu cenas verdadeiramente espantosas, medonhas, horríveis, como ela nunca imaginara que pudessem existir,

especialmente entre dois indivíduos do mesmo sexo!!!

Todo o seu pudor de mulher e de esposa estavam em plena revolta.

Se em vez de a separar daquele biltre nojento, que era seu marido, uma parede espessa, a separasse

apenas uma leve cortina, tê-lo-ia morto a tiro, tal era a repugnância e o ódio que ele lhe causava.

Entre aquela avalanche de devassidão houve um detalhe que a fez estremecer de horror ao lembrar-se

que tantas vezes o Leonel a beijara nos lábios, beijo frio e sem expressão, é certo, mas em todo o caso — beijo.

Tinha a cabeça em fogo e o espírito em completa excitação nervosa.

Por vezes receou que ia desmaiar.

Aquilo que acabava de ver excedia todos os raios da mais infame libertinagem reversiva.

Faltava-lhe o ar e vergavam-lhe as pernas. Teve de encostar-se à parede para não cair, e suavemente deixar-se curvar até se sentar no chão.

Na alcova, o Liberato proferia frases duras de bordel, e o Leonel dava gritinhos de cocotte lúbrica e

risadinhas de menina histérica!

Como tudo aquilo era baixo, porco e indigno!!

E era ela esposa de semelhante monstro!!

E aos trinta e dois anos de idade, formosa, rica e livre, apaixonara-se pela beleza rostal e pela elegância daquele perverso que era a vergonha do seu sexo!!

Quantas como ela não teriam tido sorte igual deixando-se levar pelas aparências dos bons rapazes sérios que não têm amantes nem extravagâncias com mulheres, destes que andam sempre agarrados aos

amigos como se eles fossem as deusas eleitas das suas almas?

Como as aparências enganam!

E era aquele o Leonel inocente, tímido, envergonhado e casto a quem ela ensinara o a b c e que lhe

chamava a sua noiva!!

Quão arrependida estava agora de ter recusado a corte do Nuno Vasconcelos, esse tipo magnífico de

homem viril que sempre se portara como um cavalheiro e que a amava tanto que não consentira que ela vivesse naquela burla infamante que era a vergonha das vergonhas.

E acudiu-lhe então à mente os risos e caras de troça com que em S. Carlos alguns rapazes olhavam

para a sua frisa, e aquelas tosses secas e escarninhas que ressoaram no salão à sua passagem pelo braço do marido!

Pelo cérebro passou-lhe então uma ideia, rápida como a fulguração de um relâmpago.

Súbito os seus nervos acalmaram-se e ficou tranquila à espera que aqueles dois nojentos saíssem.

— São horas de recolher a casa, ouviu dizer ao Leonel. É preciso a gente portar-se bem...

— Pulha! monologou Lígia.

*

O Nuno esperava-a na rua, com o capote encharcado, porque não cessara de chover.

— Enganei-a? perguntou.

— Não, o senhor é um homem de bem. Preciso meter-me num trem para chegar depressa.

Desceram à praça de Camões.

Lígia meteu-se num trem.

— Amanhã às nove da noite espero-o em minha casa, disse-lhe, apertando-lhe muito a mão. Perdoe-me

o incómodo que lhe dei.

— V. Ex.ª nunca me incomoda. Amo-a tanto! Ela inclinou-se na portinhola e segredou-lhe:

— Também o amo!

E atirou-se para dentro, enquanto o cocheiro tacava os cavalos, que partiram como uma seta.

*

O Nuno não pode, naquela noite, conciliar o sono.

Naquela frase — Também eu o amo! — Lígia dera-lhe a suprema felicidade, a tal ponto, que às vezes chegava a duvidar se ela a proferira e não seria antes um equívoco dos seus sentidos.

Mas… ela acrescentara —Amanhã espero-o em minha casa às nove horas.

Dessa entrevista dependia toda a certeza da índole das suas relações com aquela linda mulher, por

quem sentia uma atração irresistível.

Adormeceu, manhã quase clara, e despertou estonteado por esse vago indefinível que antecede sempre todas as situações mais intensivas e culminantes da nossa existência. No quartel, passou o dia

desenvolvendo uma atividade febril a fim de encurtar as horas que o separavam desse momento tão ansiosamente esperado.

Trocou com um camarada o serviço da noite, e às nove horas precisas batia à porta da casa de Lígia.

— A senhora espera V. Ex.ª, disse-lhe o guarda-portão respeitosamente.

Nuno foi introduzido na sala onde estivera dois dias antes.

Lígia não tardou a aparecer, encantadoramente bela no seu robe de veludo negro, que mais lhe fazia realçar a brancura mate da sua magnífica pele fresca e mimosa como uma magnólia.

Tinha os olhos pisados, denotando que não dormira, mas estava assim mais sugestiva e apetecível.

— Sabe? disse ela, escrevi hoje ao meu advogado para me vir falar. Vou propor ação de divórcio. Se o senhor Leonel se não opuser, tudo correrá sem escândalo, mas se ele reagir, preciso saber se posso

contar com o senhor para esclarecer os factos.

— Absolutamente, minha senhora. Não tenho a menor dúvida em contar tudo quanto sei.

— Nem mesmo que foi o senhor quem me forneceu as chaves dessa casa?

— Nem mesmo isso. Lígia pode sempre contar comigo seja para o que for.

E o Nuno tomou-lhe as mãos, que ela não retirou.

— Amo-a tanto! disse-lhe ele, encarando-a fixamente. Ela baixou os lindos olhos verdes, esses olhos

raros e belos, que eram a tentação de todos os homens.

Ele beijou-lhe as mãos perfumadas e brancas.

— Diga-me: exclamou ela; já pensou nas consequências desse amor que diz ter-me?

— Não sei qual seja o seu pensamento, Lígia!

— Ouça. Como todos os namorados, o senhor quer possuir-me. Não o acuso nem recrimino por isso.

Faz apenas o que fazem todos os homens, mas eu é que me encontro numa posição diferente da maioria das mulheres. Talvez não existam duas nas minhas circunstâncias. Tão depressa me separe juridicamente

do senhor Leonel, não estarei em Lisboa oito dias. Preciso fugir para longe dessa pústula humana, para sítio onde mais o não veja a ele nem ele a mim, nem mesmo me seja possível ouvir falar da sua pessoa. O senhor tem a sua carreira, a sua posição, e não pode como qualquer outro dispor da liberdade precisa

para me seguir. Não lhe oculto que o amo pelo muito digno e cavalheiro que tem sido, mas pensemos bem: vale a pena satisfazer-lhe um capricho para depois nos separarmos, Deus sabe talvez se para não

nos vermos mais?

E Lígia ficou pensativa e triste.

— Escute-me também, Lígia, respondeu o Nuno com toda a serenidade. É certo que tenho a minha

carreira e a minha posição social, mas, embora modestos, disponho de alguns recursos próprios que me permitem viver decentemente em qualquer parte do mundo. Não tenho família além de minha irmã Maria,

que se encontra bem casada, e de meu irmão Jacinto, que é capitão do exército em África. A vida militar não me seduz nem me tenta. Adquiri-a para ter uma posição qualquer. Bem sei que ela conduz a uma carreira brilhante, mas por si, Lígia, que amo com o mais sincero e profundo amor, tudo abandonarei.

Peço uma licença ilimitada e irei para onde Lígia for. Viver a seu lado, na sua companhia, vê-la a todas as horas e a todos os momentos, aspirar o mesmo ar, beber a mesma luz, tê-la, enfim, sempre junto a mim,

vale todas as posições. É a única prova que posso dar-lhe do meu sincero amor.

Lígia, radiante, apertou-lhe as mãos.

— Reconheço que me ama sinceramente. Pois bem, não o sacrificarei tanto. Iremos passar uns meses

no estrangeiro. Depois, à volta, adquira a sua colocação num corpo da província. Serei eu quem o acompanhará sempre para lhe não quebrar esse futuro que o Nuno era capaz de destruir por minha causa.

Não gosto do bulício nem da sociedade. Talvez na paz serena da vida dos campos eu encontre essa ventura e essa verdadeira felicidade que Deus nunca me concedeu. Tenho já direito a ser feliz, ao menos uma vez na vida, e oxalá, Nuno, que esse amor seja sincero e puro como o julgo.

— Duvidas?! exclamou ele, apertando-a nos braços.

— Não, Nuno, não duvido; não quero duvidar.

E os lábios de Lígia uniram-se fixamente aos do Nuno num longo beijo adorável, terno, passional,

voluptuoso, o primeiro que ela dera e recebera, aos trinta e dois anos de idade e casada duas vezes!

— Aqui não, meu amor. Vem.

*

Eram, pois, bem certas todas as revelações, que a sua amiga do Brasil lhe fizera acerca do amor dos homens.

O Nuno realizara todo esse vasto programa de carinhos e afetos que constituem o paraíso de uma mulher.

Como era meigo, fino, delicado, afetuoso, terno, expansivo, e como lhe teclara toda a sua sensibilidade

nervosa e amorável sempre retraída pela fatalidade indomável dos acontecimentos!

— És um anjo! disse-lhe ele, cobrindo-a de ardentes beijos.

— E tu, o meu ideal sempre sonhado, respondera-lhe ela, estreitando-o ao peito alabastrino e escultural.

O relógio bateu as onze horas.

— E agora, quando me darás esta felicidade sem nome?

— Eu te avisarei.

— Lígia, meu amor!

— Nuno, meu querido Nuno, como eu fui infeliz em não ter aceitado a tua corte! Adeus.

— Adeus.

*

Pretextando doença, Lígia nunca mais jantou nem almoçou à mesa com o marido, e da primeira vez que

ele fez menção de a beijar, ela afastou-o suavemente com um grande sentimento de nojo e disse-lhe:

— Não penses mais nisso.

Quando o advogado lhe apresentou o pedido de divórcio de sua esposa, o Leonel ficou muito

surpreendido. Nunca imaginara que ela chegasse a tanto!

Pediu licença para se ausentar um momento, e dirigindo-se aos aposentos de Lígia bateu à porta do

gabinete onde ela passava o dia enquanto ele não saía!

— Quem bate? exclamou ela.

— Eu, respondeu o Leonel. Posso entrar?

— Entre.

Lígia, sentada na chaise, lia o jornal.

— Que temos? exclamou ela sem levantar a cabeça.

Muito cobarde e embaraçado, o Leonel respondeu-lhe:

— O seu advogado acaba de me apresentar um pedido de divórcio feito pela senhora; é verdade que se

quer divorciar?

— Absolutamente verdade.

— Porquê? arriscou-se ele a perguntar.

Ela pousou o jornal na cadeira, e encarando-o com uma grande expressão de desprezo respondeu:

— Porque, meu caro senhor Leonel Martins da Gama Cabral, eu nunca gostei de mulheres, desculpe a rudeza da frase.

— Não a percebo!

— Ah, não?! Pois quando na sua casa da rua do Trombeta vestir camisas como as senhoras e calçar

meias, sapatos e ligas de mulher, e como mulher também, mas mulher perdida e devassa da pior espécie, se prestar com o seu amante às mais infames baixezas, perceberá então. Peço-lhe a fineza de se retirar, que a sua presença faz-me mal ao estômago...

E pegando de novo no jornal, Lígia voltou-lhe as costas.

Pálido como um cadáver, o Leonel assinou o pedido do divórcio, desistindo de intentar ação,

aceitando em absoluto a incompatibilidade de génios que Lígia dera como causa do seu pedido.

Lígia despediu os criados e, fechando a sua casa, ausentou-se para o Porto.

O Leonel recolheu a casa da mãe que, quando soube do caso, ficou como que assombrada por um raio.

— Mas que foi isso, filho?! Uma rapariga que sempre te estimou tanto?

— Ora, mamã, mulheres, e está dito tudo!!!

*

A sentença não se fez esperar.

Lígia pagava bem à justiça.

Ao cabo de um mês, o juiz declarava a separação de bens e de pessoas destes cônjuges singulares, embora existam muitos nos mesmos casos...

A casa da Avenida, vendeu-se, assim como todo o mobiliário, e uma manhã, no Sud-express, Lígia e o Nuno partiam para Paris, onde foram passar a lua-de-mel, a verdadeira, porque Lígia, embora casada duas vezes, nunca conhecera outra.

*

Na noite em que a sentença do divórcio lhe foi notificada, o Leonel, sem se lembrar que sua mãe

estava bastante desgostosa com aquele inesperado acontecimento, do qual Lígia não lhe dera a menor satisfação, exclamou para o Liberato na sala do seu ninho de amores da rua do Trombeta:

— Vou buscar uma garrafa de Madeira para bebermos à nossa felicidade, meu querido.

— Pois vai, menino, respondeu o outro enrolando um cigarro.

Às escuras, o Leonel entrou no quarto onde estavam os caixotes.

Como fazia luz na alcova onde fora vestir-se de senhora, conforme o costume, deu pelo buraco da parede de onde Lígia observara tudo.

— Oh, Liberato, oh, Liberato! exclamou ele.

— O que queres?

— Anda cá.

— Para quê?

— Anda cá, filho, vem ver.

O Liberato, gingando, entrou no quarto.

— Então o que há?

— Vê, vê!

E o Leonel apontava-lhe o ponto luminoso fixo na parede.

— Um buraco?!

— Sim, um buraco. Foi por ali que nos viram. Mas quem, se a gente é que tem a chave da casa?

— Vou espiolhar isto.

E o Liberato, acendendo uma vela, entrou de novo no quarto.

— Uma liga! disse ele, baixando-se. Aqui esteve fêmea.

— Deixa ver. Oh! é uma liga de minha mulher. Cá tem no fecho o seu monograma.

— Então foi ela quem nos viu!

— Com certeza.

— Isto foi traição da velha. Amanhã, ou ela escarra tudo ou lhe parto os cornos.

— Ai, por Deus e pela nossa felicidade te peço que não faças tal. Se a velha dá com a língua nos

dentes o que por aí não irá! Bem basta o conde, que se tem vingado que nem um canalha. Muito tenho eu sofrido por ti!!

— Bem, bem, não faças chiada. Finjamos que não sabemos nada.

— É melhor.

Foram para a alcova, e o Leonel enchendo os copos, exclamou, abraçando-se ao sodomita:

— Enfim, livre e só teu!

FIM

[1] Referência ao episódio do quarto ato da ópera Ernâni, de Verdi, em que Ernâni é obrigado a dar a

vida por Dom Rui em cumprimento de um juramento que havia feito.

[2] or «At.º Ven.» é uma redução, pouco utilizada correntemente, para Atento Venerador.

[3] Marino Faliero (1285-1355) foi eleito doge de Veneza em 1354, mas foi condenado e decapitado

após uma tentativa frustrada de se estabelecer como monarca absoluto.

[4] Custódio José de Melo (1840-1902) foi um militar da Marinha e político brasileiro. Após a

proclamação da República brasileira (1889), foi um dos líderes das Revoltas da Armada de 1891 e 1893.

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