O Sr. Ganimedes
Parte I
I
Soberbo de luz e de limpidez atmosférica aquele magnificente dia de agosto, em cuja atmosfera quente
pairavam os perfumes penetrantes dos frutos maduros e dos cravos em flor.
No nosso céu peninsular, de um azul de turquesa, puríssimo, não se divisava nem o mais leve floco de
uma nuvem.
O bom sol de Portugal envolvia no seu amplo manto de luz todo o vasto estuário do Tejo, onde à superfície espelhenta e tranquila das águas se balouçavam barcos de vela e de vapor de todas as
nacionalidades e dimensões.
Pequeninos vapores de reboque e da fiscalização aduaneira singravam no rio, fazendo ouvir o silvo
agudo dos seus apitos de alarme, enquanto pesadas fragatas a custo navegavam com as grandes velas largas brandamente impelidas por uma fraca aragem do nordeste.
Lá muito ao longe, na linha extrema do horizonte, a desenhar-se no vago esboço de uma silhueta esguia,
descortinava-se a torre do Bugio, ereta sobre esse enorme rochedo perdido no meio do mar.
Eram oito horas da manhã.
O sol ainda não aquecera bastante as camadas atmosféricas, e uma leve brisa outonal, como que vinda de longínquas paragens, confortava os pulmões enchendo-os de vida e de conforto.
Na cidade ia a animação matinal que caracteriza essa hora ridente do acordar do trabalho quotidiano
das populações.
Ainda então não havia carros elétricos, nem a linha férrea de Cascais, nem as obras do porto.
A largura do rio era mais vasta e o panorama mais pitoresco.
A passo de chouto as mulas dos americanos trotavam pelo aterro tirando os pesados carros.
No conjunto, porém, o aspeto da cidade pouco diferia daquele que hoje conserva, à parte a grande
mole de prédios em construção que se viam nos chamados bairros novos.
Às sete em ponto já o honrado comerciante Policarpo Martins da Gama Cabral, sua esposa D. Eudóxia
e o seu filho único, o pequeno Leonel, nascido após onze anos de um matrimónio estéril, estavam vestidos e prontos para irem para Belém esperar o seu amigo Bernardino Pena Pina, que regressava do Brasil depois de uma ausência de vinte e um anos certos.
Bernardino, protótipo de provinciano trabalhador e ativo que vem a Lisboa procurar vida, era natural de Cabeceiras de Cambra e aos doze amos entrara como marçano para a loja de fazendas brancas que o
Policarpo possuía na rua dos Fanqueiros.
Ativo, esperto, honrado e diligente, ali se conservara até aos vinte anos, época em que, sendo já caixeiro havia quatro, se resolveu a partir para o Brasil para tentar fortuna.
O patrão quisera dar-lhe sociedade no estabelecimento, reconhecendo que ele era um excelente empregado, mas o Bernardino, ambicioso e na força da energia da vida, recusara, manifestando o seu
desejo de ser rico.
A loja do patrão não poderia nunca satisfazer-lhe esse desejo.
Além de ser restrito o seu negócio, os interesses não davam grande margem, porque o Policarpo, timorato e de vistas curtas, não tendo ânimo nem decisão para desenvolver o estabelecimento, contentara-se em tirar dele o bastante para viver regularmente e manter-se sem credores nem letras a prazo.
Possuía umas inscrições e um pequeno prédio na rua de S. João dos Bem-casados, que eram até à data os únicos bens de que dispunha e com isso se julgava feliz.
Solteiro, gozava a vida a seu modo, e muito metodicamente, em companhia da mãe velha e cardíaca, a quem prometera não casar enquanto ela vivesse.
Forçoso pois foi deixar partir o Bernardino, sugestionado pelas cartas de um colega e amigo que há
cinco anos fora para Manaus, onde estava realizando magníficos interesses.
Amigo do patrão, que sempre o tratara muito bem, pois o Policarpo era um excelente homem, bondoso,
afável, delicado e serviçal, amigo dos seus empregados, o Bernardino ficara sempre correspondendo-se com ele.
Assim foi, que tanto um como outro iam sucessivamente tendo mútuo conhecimento dos sucessos que
lhes iam sucedendo na vida.
O Policarpo ficara mesmo sendo correspondente do seu antigo caixeiro, e era quem lhe recebia o
dinheiro que este mandava aos pais velhos, que viviam na terra.
Ao cabo de três anos o Bernardino soube que o seu patrão se casara.
Tendo-lhe falecido a mãe e não estando acostumado a viver só, Policarpo casou com D. Eudóxia,
senhora de quase trinta anos de idade, filha de um general reformado, antigo freguês da casa, ainda do tempo do pai do Policarpo, que ele namorava havia uns quatro anos e pico, seduzido pelos lindos olhos e
cabelos negros que ela possuía.
Por seu turno a vida do Bernardino ia de vento em popa. Já estava sócio do seu colega, com casa de secos e molhados, e metera-se num negócio de compra de baldios, do qual esperava tirar grandes lucros,
porque se projetava a passagem por eles de uma nova linha de caminho-de-ferro.
Dez anos volvidos o Policarpo soube que ele estava subdiretor de um banco e dono de uma grande
casa de comissões no Rio de Janeiro, para onde se transferira depois de haver realizado o trespasse da casa de Manaus, que deu a cada sócio um lucro de sessenta contos fortes.
Prestando grandes serviços à colónia portuguesa, o governo português agraciou-o com a comenda de
Cristo.
Era pouco mais ou menos a milésima edição de todo o português esperto, ativo e trabalhador, que
emigra para o Brasil a procurar fortuna.
E assim foram decorrendo os anos.
Os pais do Bernardino faleceram sem tornarem a ver o filho, que na velhice os amparara bem com as
avultadas quantias que lhes mandava do Brasil.
Sempre tencionando vir vê-los, sempre também a multiplicidade dos negócios da sua importante casa não lhe permitiu essa projetada visita à pátria.
Depois dos pais mortos o Bernardino mandara dizer ao Policarpo que agora só voltaria quando tivesse arranjado o pão da velhice e liquidasse a sua fortuna, se por acaso um dia a chegasse a ter.
Chegou efetivamente esse dia, e muito mais largo e ridente do que ele sempre imaginara.
Com quarenta e três anos de idade e vinte e dois de residência naquele grande país, o Bernardino encontrava-se de posse de uma fortuna realizável avaliada em mais de trezentos contos fortes.
Solteiro, assaltou-o então a nostalgia da pátria, essa doença moral tão vulgar naqueles que durante muitos anos estão ausentes do seu país, doença que no português é mais intensa que em qualquer homem de outra nacionalidade, talvez por este nosso feitio amorável e romântico que faz com que os ecos das
nossas serras, o murmúrio dos nossos rios, a florescência dos nossos campos, quiçá até o calor do nosso sol e as urzes das nossas montanhas, nos deixem no coração raízes que não se despegam nunca.
Pôs em ordem os seus negócios com esse método e prudência a que o seu carácter ponderoso e refletido e uma larga vida de trabalho comercial haviam servido de mentor, e procedeu à liquidação.
Não estava velho, mas encontrava-se cansado.
Tinha trabalhado muito desde os doze anos e era já tempo de colher os frutos dessa existência laboriosa e ativa.
Gozara sempre de boa saúde e estava afeito ao clima, mas a sua querida terra portuguesa sorria-lhe como um encanto novo, agora que não precisava de trabalhar mais nem tinha cuidados que o preocupassem.
O Brasil, que percorrera quase todo nas suas viagens comerciais, deixara-o satisfeito.
Dera-se lá muito bem, nele conquistara a sua independência e o seu futuro, mas a sua pátria não era
aquela, por muito que a ela se houvesse adaptado durante o largo período de vinte e dois anos de permanência.
Não sendo fácil alijar de si a totalidade absoluta dos seus negócios, liquidou os principais, e resolveu
vir à Europa passar uma temporada. Voltaria de novo ao Rio a ultimar a liquidação completa de vários interesses ligados ao Banco de que era diretor e à sua importante casa comercial, na qual dera sociedade
ao filho do seu antigo colega e sócio, que morrera deixando uma fortuna considerável, e só então se retiraria definitivamente para Portugal.
Nestes termos escrevera ao seu ex-patrão, amigo e correspondente Policarpo, anunciando-lhe o seu
próximo regresso pelo paquete da linha inglesa, o Thamar, que devia chegar a Lisboa no dia 14 de agosto.
Eis, pois, o motivo por que a família do Policarpo, então contando já as suas cinquenta e duas primaveras, estava a postos às sete horas da manhã para ir esperar o Bernardino, pois o paquete devia fundear em Belém às nove horas.
— Leva a sombrinha, disse ele à esposa. Faz muito calor, e o sol deste mês é prejudicial.
— Oh mamã, nós vamos no americano? perguntou o Leonel, que contava então oito anos e era um rapazinho bonito, de grandes olhos e cabelos negros e ondulados, de uma correção de feições
encantadoras tão lindas e mimosas que mais parecia uma menina do que um rapaz.
— Vamos sim, menino, respondeu a mãe que o adorava e não via no mundo outro sol nem outra lua.
Ao cabo de onze anos de casada, Deus dera-lhe aquela joia de filho, muito meigo, muito afetuoso,
muito bonzinho, que era o encanto da sua alma e o seu maior orgulho.
Os médicos declararam-lhe que esse facto, aliás tantas vezes repetido em cônjuges estéreis durante
muitos anos, se devia atribuir à influência dos banhos do mar em Espinho, que ela tomara demoradamente na época que precedera a sua inesperada gravidez.
Não passara bem de saúde durante ela, mas fora muito feliz no parto e a criança nascera um verdadeiro
encanto, muito limpo, muito gordinho e muito robusto.
O Policarpo fora sempre muito saudável e a D. Eudóxia, apesar de nutrida, talvez em excesso, também
não sofria de doença alguma de mau carácter, afora um bocado de herpetismo, para o qual lhe aconselharam os banhos do mar, fortes e tonificantes.
O nascimento do filho viera, pois, derramar uma intensa claridade de ventura naquele lar, até ali um
tanto ou quanto melancólico, apesar de os dois esposos serem muito amigos e viverem na melhor harmonia.
Muito amiga de crianças, a D. Eudóxia levara onze anos a lastimar-se por Deus não lhe conceder um filho.
Chegara mesmo nesse sentido a fazer uma promessa ao Senhor dos Passos da Graça, mas a veneranda
imagem não lhe atendeu os desejos, deixando esse encargo às ondas potentes de Espinho, que foram para o caso verdadeiramente milagrosas.
A criança, apesar da sua bela aparência externa, não era robusta, e os pais rodearam-na dos mais extremos e afetuosos cuidados.
Assim foi crescendo e desenvolvendo-se cada vez mais linda e louçã.
Não era estúpido nem rude o pequeno Leonel, possuindo mesmo uma natural sagacidade e finura de inteligência muito viva, embora tivesse para o estudo pronunciada negação.
Os pais não o forçaram, esperando que com a idade lhe viesse o estímulo próprio.
Criado numa atmosfera mole e estiolante, entre mimos e delicadezas como se fora uma menina, o pequenito afeminara-se demasiado, tendo modos, gestos, ademanes e tendências de rapariga.
Aos oito anos ainda usava saias e os cabelos compridos em caracóis que lhe desciam até aos ombros. Era muito meigo e afável, extremamente pacífico e tímido, não tendo essas diabruras próprias dos
rapazinhos da sua idade.
No talhe do rosto e dos olhos, no relevo das formas, na cor mate da pele e na pequenez dos pés e das mãos dir-se-ia que a natureza o talhara mais para fêmea do que para varão.
Instintivamente ele mesmo não procurava a companhia das crianças do seu sexo. Preferia sempre brincar com meninas, cujos modos e ademanes imitava perfeitamente.
Por esse motivo a mãe, não o querendo misturar com rapazes grosseiros de colégio, tomara-lhe como
professora das primeiras letras uma sua vizinha de dezoito anos, a menina Lígia, órfã de pai e mãe, que vivia em companhia de sua tia Benedita, respeitável matrona de cinquenta e nove primaveras, viúva de um coronel do exército falecido em África.
Amicíssima de crianças, Lígia afeiçoara-se ao seu discípulo com entranhado afeto e ainda o afeminara mais do que ele já estava.
Leonel chegara, pois, aos oito anos de idade sem conhecer o trato de outro homem além de seu pai, que o estremecia.
Esta existência primordial passada entre saias tornara-o cobarde e muito sensível, não gostando senão
de senhoras.
Assim é que, nesta linda manhã de agosto, em que ele devia acompanhar os pais a Belém a esperar o
Bernardino que regressava do Brasil, o encontramos vestido de piquet branco com uma faixa azul celeste na cintura, os negros cabelos em canudos até aos ombros, peúgas de seda aberta, sapatinhos de polimento, um fio de ouro ao pescoço com um medalhão representando a Virgem Imaculada e chapéu
também de piquet branco com uma pena gris.
Tal e qual se fosse uma menina, ninguém ao vê-lo diria que era um rapaz!
Bateram à porta.
— Deve ser a Lígia, exclamou a D. Eudóxia.
A criada foi abrir.
Era efetivamente a Lígia, encantadora e sugestiva, na sua modesta mas elegante toilette de verão, de percal claro, um cinto de couro branco a cingir-lhe a estreita cintura, uma romeira de rendas creme e um
chapéu de palha enfeitado de veludo preto com uma grande fivela de aço.
Luvas brancas de peau suède e sapatos amarelos de entrada curta a estojarem-lhe os pequeninos pés muito benfeitos e arqueados, através de cujas meias pretas arrendadas se lhe via a brancura láctea da
pele.
Lígia era uma verdadeira formosura singular, na alvorada florescente dos vinte anos.
Alta, gentilíssima de talhe, os seios opulentos e tércios harmonizavam com a curva pronunciadíssima das nádegas, que quando ela andava tinham tremulações sedutoras.
Era oval o seu juvenil e lindo rosto emoldurado em bastos cabelos negros, frisados, lustrosos,
relevado por uns grandes e expressivos olhos verdes que tinham uma expressão sensual e picante, amortecendo por vezes em deliciosos esmorecimentos de sedutora ternura.
A boca vermelha e desdenhosa era um pouco grande, velando duas preciosas fileiras de magníficos dentes brancos pequeninos e iguais como pérolas.
O nariz ostentava uma bela correção clássica, e na face esquerda tinha um sinalzinho castanho que lhe
dava especial graça.
Era pois, em resumo, o que se chama uma linda rapariga.
Adoradores não lhe faltavam, mas qual Argus vigilante, a tia Benedita inquiria logo da qualidade e
mais atributos desses pretendentes e como todos continham a pelintrice vulgar dos rapazes namoradeiros despedia-os com todo o desplante dizendo à sobrinha:
— Desculpa, Lígia, mas aquilo não te convinha. Antes ficar solteira do que casar pobre.
A sobrinha também não reagia.
De todos esses pretendentes deslumbrados pela sua formosura ainda não aparecera nenhum que lhe
merecesse real simpatia.
Boa rapariga, honesta, dedicada, afetuosa, diligente e trabalhadeira, no fundo da sua alma era ambiciosa.
Reconhecera-se bela, e compreendia que essa beleza era merecedora de receber em prémio esses confortos de luxo e de elegância que via noutras que não valiam um só dos seus lindos pezinhos brancos
e rosados, que ela tratava com desvelado esmero, pois neles tinha especial vaidade pelo muito que lhos gabavam.
Com as suas preleções sobre as agruras dos matrimónios sem fortuna, a tia Benedita alentava as
ambições da sobrinha, fazendo-lhe ver que poderia, linda como era, encontrar um homem rico que a mantivesse na opulência.
Demais, estava ainda muito nova, vinte anos apenas e naquela idade podia esperar.
Refletida como era, Lígia concordava que estes conselhos da tia eram todos para a sua felicidade e assim se conservava sem namoro à espera que a sorte lhe deparasse um homem de fortuna que lhe
pudesse satisfazer essas ambições de luxo e de bem-estar com que sempre sonhara.