O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 13 de 15

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O Sr. Ganimedes

Capítulo X

 

Passaram-se três semanas.

Velhacamente, o Leonel medicamentava-se para fingir que procurava curar aquele mal, que era nada mais nada menos que a destruição de todos os sonhos de ventura de sua esposa.

Lígia caíra numa tristeza profunda, e quando estava só, chorava ardentemente a sua desdita.

Acreditara na desculpa que o marido lhe dera, e era ela própria quem queria dar-lhe as fricções prostáticas, causando-lhe, porém, espanto a esquisita conformação genital do Leonel, de um raquitismo

infantil, que não tinha comparação possível com a do seu primeiro marido, banal e antiartístico, é certo, mas homem perfeito e viril na mais lata aceção da palavra, apesar dos seus cinquenta e seis anos quando

falecera.

Pensava que, mesmo que ele se curasse, nunca teria mais do que um rudimento de marido, ridículo e raro, que lhe mataria todas as suas ilusões e projetos.

Um dia, não podendo conter-se, contou tudo à tia Benedita.

Precisava desafogar com alguém a sua grande infelicidade, e só na tia, que amava como mãe, tinha a

confiança precisa para semelhantes revelações.

D. Benedita, pitadeando-se, ouviu-a com atenção, pendulando o corpo na sua cadeira de rodas.

— Isso que acabas de contar-me é grave, sobrinha, respondeu ela. Depois... é teu marido e gostas dele,

não é verdade?

— Sim, tia, amo-o muito, e mesmo por lhe ter amor é que mais sofro.

— Enfim, sobrinha, tem paciência, espera que ele se cure.

— O demónio é o resto que me contaste. Contra isso é que não há mudanças possíveis. Cada um é como Deus o fez!

E tomando nova pitada rematou:

— Parece-me, sobrinha, que não foste feliz no teu segundo matrimónio.

Lígia começou a chorar.

Também ela participava daquela desconfiança da tia Benedita.

*

O Leonel pediu a Lígia para dormirem em leitos separados, enquanto não se achasse bom.

Lígia acedeu, mandando arranjar-lhe o quarto na antecâmara do seu.

Aquela casa tornara-se um repositório de mágoa em vez do hilariante e festivo ninho de amor a que fora destinado.

O Leonel saía todas as noites. Às onze horas, o mais tardar meia-noite, quando recolhia, já a esposa

estava deitada. Almoçavam e jantavam juntos, trocando poucas falas.

O estado doentio permanecia o mesmo.

Demais, ele, além de não ter uma conversação interessante e animada, era frio e indiferente.

Beijava-a por cortesia, tratava-a com toda a consideração e respeito, e passava horas esquecidas a

falar com os papagaios e a brincar com dois gatos angoras que lhe tinham dado de presente.

Lígia começou a sentir um enorme vácuo no coração e a compreender que se enganara, deixando-se seduzir pela beleza estética daquele homem, que no fundo era um banal e um ignorante hediondo, como

em pequeno fora sempre um pateta e um piegas irritante.

Para quebrar a monotonia daquele viver horrendo, iam às vezes ao teatro, o que muito o contrariava,

porque nessas noites não podia encontrar-se com o Liberato, que debalde o esperava na casinha da rua do Trombeta, que o Leonel tinha alugado e mobilado ao seu gosto, vingando-se assim da partida que o conde da Lagoa Escura lhe fizera.

Sempre muito elegante, era esta a única qualidade recomendável do mísero efebo.

Lígia sofria terrivelmente, porque quantos mais dias passavam mais verificava que tendo adquirido um

marido fisicamente inútil, se ligara a um homem intelectualmente abaixo de toda a crítica.

Além de possuir bom gosto para ornamentações, o Leonel não sabia mais nada!

No entanto, parecia viver feliz. Comia bem, dormia magnificamente e os seus modos eram alegres e

satisfeitos!

Esta boa disposição do ânimo do marido mais a irritava, e o seu amor-próprio de mulher nova e

formosa começou a sentir-se ferido.

Parecia-lhe impossível que, dado o que se dava, aquele homem pudesse viver satisfeito!

Não sabia já dizer se ainda o amava ou se principiava a ter-lhe aversão.

O seu cérebro e o seu espírito debatiam-se numa luta medonha, rodeada de todos os confortos e comodidades que a sua grande fortuna lhe facultava.

Teve mesmo a superstição de que aquela desventura era uma vingança da alma do Bernardino que fora tão seu amigo, que lhe dera todas as felicidades materiais da vida, que a fizera rica e a quem ela nunca amara!

Tão pouco tempo guardara fidelidade à sua memória, que ele obrigara-a a ser-lhe fiel, dando-lhe um marido mais inútil que um eunuco!

E aterrava-a a ideia fixa, vívida, como um remorso, de que semelhante situação não podia acabar bem.

Desesperada, consultou o antigo médico de sua casa, homem experiente, já velho e de grande respeitabilidade.

O médico, que conhecia a crónica do Leonel, sorriu-se, depois fez uma cara triste e por fim respondeu:

— A doença de seu marido, minha senhora, parece-me incurável!!

— Porquê, doutor?

— Pancadas nesse sítio são sempre perigosas, quando não são fatais, e implicam com outros órgãos das proximidades... que é talvez aí onde reside todo o mal...

Lígia não percebeu o intencionalismo destas palavras e ficou muito impressionada com a declaração do médico.

— Mas… insistiu, não haverá meio de o curar?

O doutor limpou os vidros da luneta e respondeu:

— Creio que já é tarde…

*

Uma noite, Lígia, quando o marido veio jantar, disse-lhe:

— Esta noite vamos a S. Carlos; mandei alugar uma frisa.

O Leonel empalideceu.

S. Carlos era o teatro do conde, do capitalista Couto, do Safreti, do Dr. Sinfrónio Vareta, e de tantos outros sodomitas que o conheciam e que cá por fora faziam uma troça medonha ao seu casamento.

Não havia, porém, maneira de dizer que não, tanto menos que Lígia, nervosa e excitada, perdera muito do modo amorável e afetuoso dos primeiros dias de casada.

Encasacou-se, pois, e às oito e meia, estava com ela no teatro, provocando a beleza da gentil mulher as atenções de todos os homens e mesmo das outras mulheres.

Lígia estava verdadeiramente sedutora na sua esplendente toilette de crepe da China, lilás, com rendas

brancas, e decotada, evidenciando a formosura clássica do colo e a garganta escultural, onde cintilava um magnífico colar de pérolas e diamantes.

Pouco antes da orquestra romper a sinfonia, entrou na plateia um tenente de cavalaria, magnífico tipo de homem desembaraçado e gentil, que cumprimentou várias famílias que estavam nas frisas e nos camarotes de primeira ordem.

Lígia viu-o e teve um sobressalto.

Aquele tenente era o mesmo que lhe fizera a corte pouco antes de casar com o Leonel e que lhe

escrevera aquela carta apaixonada, que ela rasgara com a maior indiferença.

Também ele a viu e ficara extático a contemplá-la, numa adoração fixa, que chegava quase a ser impertinente!

Lígia desviara a vista e atendeu o marido que lhe dizia:

— Olha, os colarinhos para casaca já não são tão altos como os que se usavam a época passada!

Ela olhou-o com um modo aborrecido e comiserativo, e não lhe respondeu.

No intervalo do primeiro ato, o tenente chegou-se ao Raul de Noronha, um dos mundanos mais elegantes e conhecidos de Lisboa, e disse-lhe:

— Tu conheces aquele homem e aquela mulher que estão na frisa 17?

— Perfeitamente, respondeu o outro.

— Quem são?

— Ele, é o Leonel Martins da Gama Cabral, ex-amante do conde da Lagoa Escura, que o abandonou por o ter encontrado em flagrante delito de adultério com um marmanjo qualquer da sua especial

predileção. Ela é sua esposa legítima, viúva de um brasileiro que lhe deixou a bagatela de trezentos contos e pico.

O Nuno de Mascarenhas encarou o amigo com ar de dúvida.

— Isso que tu acabas de me dizer é verdade ou é chalaça tua?

— Porquê? Ignoras quem é aquele refinado?

E o Raul baixou a voz.

— Ignoro.

— Pois, meu velho, já vejo que não conheces os escândalos desta cidade de mármore e de granito à

beira mar plantada. Pergunta ao Safreti e ao Couto capitalista quem é aquele figurão, e eles te darão todas as informações que desejares. Aquilo foi sempre assim desde a escola.

— E a mulher sabe?

O Raul encolheu os ombros.

— Isso agora só ela o pode dizer. Que parece que não vive satisfeita, desconfio naquela expressão

melancólica e triste que sempre conserva.

— E porta-se bem?

— Creio que sim. Pelo menos ainda não ouvi a menor referência em seu desabono, apesar do espanto

de que toda a gente está possuída por ter escolhido para esposo um mariolão daquela laia.

Ia começar o ato.

Os dois amigos apertaram as mãos e sentaram-se nos seus lugares.

De vez em quando, o Nuno olhava disfarçadamente para a frisa onde estava Lígia com o marido, cuja aparição, na sua dupla qualidade de homem casado e de antiga mulher, fora o assunto de todas as

conversas antes de começar o espetáculo e no intervalo do primeiro ato.

De uma das vezes pareceu-lhe que ela o estava mirando, e por mais duas vezes os seus olhos se

encontraram rapidamente, porque Lígia baixara-os logo com aquela infinita expressão de tristeza que agora se lhe notava e que fazia com que a D. Eudóxia dissesse confidencialmente à D. Benedita que desconfiava que a sua afilhada e nora andava grávida!!!

— Do Espírito Santo, respondeu a boa velhota sorrindo-se.

À saída, o Nuno veio esperá-la no salão.

Lígia apareceu pelo braço do marido e ao passarem por diante de um grupo ouviram-se várias tosses secas e algumas risadas irónicas.

Neste rápido trajeto, de novo os seus olhos se encontraram, mas desta vez Lígia fixou-o bem.

O Nuno ficou indeciso. Achava estranha a fixidez e a expressão daquele olhar sereno, firme e indecifrável que ela lhe lançara.

Quando se achou dentro do trem, Leonel respirou. Toda a noite estivera sobre brasas.

A insistência com que certos tipos o olhavam, conversando depois em voz baixa e acabando alguns por soltarem sonoras gargalhadas, deu-lhe a perceber que se ocupavam da sua pessoa.

Jurou aos seus deuses que tão cedo não iria com a esposa ao S. Carlos.

*

O Nuno, depois de eles saírem, dirigiu-se ao Tavares para tomar um cálix de cognac, e toda a noite

levou a pensar se deveria escrever a Lígia ou desvendar primeiro o mistério que certamente existia na sua vida matrimonial.

Se ela conhecia o nível moral do marido e a sua desqualificação como homem, era sem dúvida tão

pulha e devassa como ele.

Se ignorava estas circunstâncias, tendo-o na conta de pessoa honrada e digna, laborava num triste erro

que urgia aclarar-lhe.

A noite trouxe-lhe bom conselho, e de manhã a sua linha de conduta estava traçada.

Começou por indagar onde Lígia morava, o que obteve facilmente. Em seguida, por intermédio do seu

impedido, que era amigo do guarda-portão da casa dela, soube que o Leonel saía quase todas as noites, só, aí pela volta das nove horas, recolhendo às onze e meia, o mais tardar à meia-noite.

Tratou de o espionar.

Ao tempo, já soubera tanta coisa a respeito dele, que quase lhe não restavam dúvidas que Lígia era vítima da mais ignóbil das mistificações.

O Safreti, piadista e irónico, contara-lhe tudo quanto o conde da Lagoa Escura lhe revelara a respeito do extraordinário efebo.

Era simplesmente hediondo!

Apurou, pois, que o Leonel saía todas as noites, conforme o seu impedido lhe dissera, e muito rápido, em passadinhas miúdas de mulher, vinha Avenida abaixo encontrar-se com um tipo alto, espadaúdo, de

grande bigodeira façanhuda, que o esperava defronte do elevador da Glória, metendo-se ambos no mesmo elevador ou passeando na Avenida um bocado, até que seguiam o caminho descrito.

À terceira vez, o tenente seguiu-os, e à distância viu-os entrar para a casinha da rua do Trombeta.

Mais quatro vezes verificou a mesma cena.

Era mister, pois, indagar que casa era aquela e quem nela vivia.

Tinham decorrido assim duas semanas.

No domingo, da segunda, fazia um lindo dia de março batido de sol e salubrizado por uma fresca

aragem de nordeste, o Nuno cruzou na Avenida o seu belo cavalo de Alter com a bem posta carruagem de Lígia, que passeava, acompanhada pelo esposo, muito aborrecido, olhando para aquilo tudo com o seu olhar parado, imbecil e enigmático.

De novo os seus olhares se cruzaram, mantendo o de Lígia a mesma fixidez com que o tinha fitado no salão de S. Carlos.

O Nuno andava nervoso e excitado. Preocupava-o o interesse de levar ao fim a conclusão daquele caso, que lhe parecia de sobeja importância.

Com toda a reserva, indagou a quem pertencia a casa da rua do Trombeta.

— Olhe, meu senhor, disse-lhe uma mulher baixa e gorda a quem se dirigira, que morava defronte e que estava a estender roupa numa corda presa na parede, quem o pode informar é a senhora Angélica, que é quem trata da casa.

— E onde mora a senhora Angélica?

— Ali, ao fim da rua, naquela portinha baixa que tem o postigo aberto.

— Já sei, muito obrigado.

— Não há de quê; vá com Nossa Senhora.

O Nuno dirigiu-se à porta indicada e bateu uma argolada.

— A senhora Angélica mora aqui? disse para a mulher que acudira ao chamamento.

— Sou eu mesma, senhor tenente. Há alguma novidade a respeito do meu neto? inquiriu assustada.

— Do seu neto?

— Sim, senhor tenente, do meu Francisco, que é soldado de Cavalaria 4; parece-me que é o regimento de V. Ex.ª.

— Ah, do 27 da 3.ª, não é verdade?

— Sim, meu senhor.

— Pertence à minha companhia e é bom rapaz, tanto que desejo que o promovam a cabo.

O rosto da senhora Angélica irradiou de alegria.

— Ah, senhor tenente, era um grande favor que V. Ex.ª me fazia, mas desculpe não o ter mandado

entrar. Esta minha cabeça, esta minha cabeça!

— Entro, porque tenho que falar-lhe em particular.

A senhora Angélica abriu a porta e o tenente entrou. Ela ofereceu-lhe logo uma cadeira.

— Estou às ordens de V. Ex.ª.

— Ora diga-me cá: vossemecê não é a mulher que trata daquela casa aqui da rua, que tem só rés-do-

chão e primeiro andar?

— Sou, sim, meu senhor, mas...

— De quem é essa casa?

— O senhorio é…

— Não lhe pergunto pelo senhorio, mas sim quem mora lá.

— Pois lá não mora ninguém.

— Não mora ninguém!?

— Eu lhe digo: ela está alugada a um rapaz muito novo e janota que quase todas as noites lá vai.

— Há quanto tempo?

— Há dois meses. Essa casa tem coisas muito esquisitas. Esteve muito tempo alugada a um sujeito de

idade, que parecia muito rico, e na sala estava o retrato do rapaz que a alugou agora. Um belo dia levaram os móveis, e tal sujeito despediu-me dizendo que já não precisava da casa. Esteve quase um semestre com escritos, até que o atual inquilino a alugou e mobilou com todo o luxo. Está um luxo. Está

um brinco.

— E sabe se vão lá mulheres?

— Nunca vi entrar nenhuma. Aí está outra ratice.

— Porquê?

— Porque lá dentro há roupas brancas e calçado de senhora. Muita dessa roupa finíssima, mando eu lavar e engomar.

O Nuno meditou um momento.

— Eu tinha grande interesse em que vossemecê me fizesse um favor, que eu saberia recompensar,

principiando por fazer cabo o seu neto.

— Oh, meu senhor, se estiver na minha mão há de ser servido, juro.

— Está.

— Então diga.

— Vossemecê tem as chaves dessa casa?

— Tenho, sim, senhor, para fazer as limpezas todas as manhãs.

— Precisava que me as emprestasse até amanhã. A senhora olhou-o admirada.

— O senhor tenente quer entrar lá?

— Quero. Descanse que não se trata de nenhuma mulher que atraiçoe o marido, nem de nenhuma vingança, ou da mais pequena coisa que a possa comprometer.

— Oh, meu senhor, mas eu sou a responsável!

— Já lhe disse que pode estar tranquila; dou-lhe a minha palavra de honra.

— E o meu neto será cabo?

— Há de ser, afirmo-lhe.

— Veja o que faz, senhor oficial. Pelo amor de Deus, não me comprometa.

— Tranquilize-se, senhora Angélica, isto é uma simples curiosidade e nada mais.

— Eu fio-me no senhor, ouviu?

— Pode fiar-se.

— Então aqui estão as chaves. A mais comprida é da porta da rua e a outra a da saleta.

O Nuno guardou-as no bolso.

— Amanhã cá lhas trago.

— Sem falta, senhor tenente, por causa da limpeza.

— Às dez horas cá as tem. É tarde?

— Até ao meio-dia não me fazem falta.

— Bem, tome lá para rapé.

E o Nuno deu-lhe quatro coroas.

Ela não queria aceitar.

— Guarde, guarde, que isto não tem nada com a promoção do seu neto.

*

O Nuno dirigiu-se logo a um serralheiro e mandou com toda a urgência fazer duas chaves iguais àquelas. À tarde estavam prontas.

Nessa noite viu o Leonel entrar em casa passava das onze e meia.

Embrulhado no seu capote, dirigiu-se à rua do Trombeta, silenciosa e solitária àquela hora.

A empresa era arriscada e por demais criminosa, de entrar na casa alheia com chaves falsas. Ele,

porém, precisava saber tudo, absolutamente tudo.

Abriu a porta e entrou na escada, acabava de dar meia-noite na torre de S. Roque.

Subiu às escuras e aplicou o ouvido à porta. De dentro não vinha o mais leve ruído nem o mínimo raio de luz.

Meteu a chave na fechadura e entrou.

Os seus pés encontraram uma alcatifa felpuda e macia que abafava os passos.

Riscou um fósforo e avançou na sala. As portas de dentro estavam fechadas. Acendeu uma das velas

das serpentinas colocadas sobre o Boule, e examinou o aposento. Estava mobilado com fino gosto e suprema elegância.

Por cima do sofá viu magnificamente emoldurados na mesma moldura o retrato de dois homens.

Conheceu-os.

Um, o mais novo, era o marido de Lígia; o outro era aquele marmanjola que o acompanhava sempre.

Dirigiu-se à alcova e viu o leito desmanchado, as roupas em desordem, e sobre uma linda bata de peluche vermelha, um par de meias de seda azuis claras, umas ligas vermelhas e um par de sapatinhos de cetim cor-de-rosa.

— Diabo, pensou ele. Isto são trajes de mulher!

E ficou perplexo, porque do muito que lhe tinham contado a respeito do Leonel escapou este detalhe

curioso.

Percorreu toda a casa, e verificou que junto da alcova havia um quarto quase vazio onde apenas estavam malas, panos do pó, vassouras, alguma roupa de homem, caixotes de vinho do Porto e outros

objetos que indicavam que esse quarto servia de arrecadação e não era frequentado. A um canto tinha uma grande cesta para roupa e várias caixas de madeira vazias. Comunicava com o corredor por uma

porta com chave. Em caso de necessidade fechar-se-ia por dentro.

Examinou as paredes e não viu maneira de as furar para observar o que se passasse na alcova.

Mas, se não era possível ver, tudo quanto se ouvisse chegaria ao tímpano com uma nitidez perfeita.

Estava resolvido.

Na manhã seguinte entregou as chaves à senhora Angélica, que o olhava desconfiada.

— Enganei-me, disse-lhe ele sorrindo-se e retorcendo o bigode. Não encontrei lá o que desconfiava.

— Oh, senhor tenente, pela sua boa sorte não diga a ninguém que eu lhe emprestei as chaves!

— Claro que não digo. Isso é segredo de nós os dois. Olhe, já hoje falei ao capitão a respeito do seu

neto. A coisa vai bem encaminhada.

— Deus lho pague senhor tenente, Deus lho pague. Se vejo o meu Francisco cabo não acredito.

— Pois há de ver.

*

Às oito e meia da noite, o Nuno dirigiu-se à rua do Trombeta e entrou na casa, rapidamente, sem despertar suspeitas. A senhora Angélica tinha a sua porta fechada.

Encerrou-se no quarto das arrecadações, fechando-se por dentro, e esperou.

Estava numa ansiedade terrível e seguia com impaciência o bater igual e metálico da máquina do seu

relógio.

Ouviu a pêndula da sala bater as nove horas e, logo quase a seguir, o relógio da casa de jantar dar as mesmas.

Decorreu mais meia hora, longa e aborrecida como se pode imaginar.

Finalmente, ouviu abrir a porta da escada e brilhar luz pela bandeira do quarto.

Sentiu vozes de homens e um deles dizer para outro:

— Espera meu amor, que eu vou vestir-me. Fuma esse charuto que é delicioso.

Espreitou pelo buraco da fechadura do quarto e reconheceu o Leonel, que avançava rapidamente pelo

corredor, fazendo ranger as suas belas botas de verniz.

O que ficara na sala cantarolava a meia-voz uma moda popular.

De novo, após alguns minutos, sentiu passos no corredor e tornou a ver o Leonel, de bata de peluche, curta adiante, e sapatinhos de cetim cor-de-rosa, e meias pretas bordadas!

Ficou como que petrificado! Agora tinha a revelação do mistério de naquela casa, onde não entravam

mulheres, existirem roupas femininas.

Sentiu que eles riam e falavam, mas não pôde perceber o que diziam, porque os pesados reposteiros

das portas abafavam as vozes.

Passados talvez uns vinte minutos sentiu-os entrar na alcova.

Colou o ouvido à parede:

— E tua mulher continua com maus modos? perguntou aquele que tinha voz mais forte e áspera.

— Maus modos não digo, filho, mas olha-me de uma maneira esquisita, que me deixa bastante

desconfiado. Já me não beija nem acarinha e...

— E tens muita pena disso?

O Leonel soltou uma gargalhada.

— Bem sabes que para mim, festas de mulher não valem nada.

— Disseste isso de um modo!...

— Para estares ao facto de tudo.

— Ela um dia raspa-se com algum súcio.

— Tomara eu que o fizesse, que já estou farto desta comédia, mas creio que o não fará, porque é muito

séria e honesta.

— Acredita na tua doença?

— Ao princípio acreditou. Agora não sei. Nunca mais tratou de mim, nem entra no meu quarto.

— Assim está bem.

E o Nuno, com o sangue em fogo, ouviu o ruído de um beijo!!

*

Por mais de uma vez, Nuno esteve para abrir a porta e desatar à pancada àqueles dois devassos da mais ignóbil espécie, tais eram as coisas medonhas que ouvia na alcova e que lhe davam a impressão da

cena que se estava passando. Conteve-o a ideia de que se encontrava na casa alheia, onde entrara com chaves falsas como um criminoso, e não saberia como, sem declarar que amava Lígia, justificar aquela invasão de domicílio, para a qual não lhe assistia nenhum direito legal.

Até às onze horas e meia teve que inteirar-se de toda aquela medonha crápula que excedeu tudo de quanto até ali, acerca do género, tinha conhecimento!

Era meia-noite e meia hora quando saiu para a rua, com a cabeça atordoada por tantas baixezas e perversões que lhe pareciam um sonho febril.

A inocência de Lígia estava de sobra comprovada.

Agora era dever de homem, abstraindo mesmo o sentimento amoroso que ela sempre lhe inspirara, arrancá-la da união daquele biltre indecentíssimo, a quem dera a mão de esposa, cujo nome usava, e com

quem aparecia na sociedade, deixando dúvidas acerca da sua ignorância ou conivência nos vícios desse homem.

O mundo é mau e podiam julgar dela aquilo que ela realmente não era: uma miserável tão devassa e

imoral como o marido!

Nuno amava-a bastante para não ter dúvidas em a salvar desta triste e desonesta situação.