O Sr. Ganimedes
Capítulo X
Passaram-se três semanas.
Velhacamente, o Leonel medicamentava-se para fingir que procurava curar aquele mal, que era nada mais nada menos que a destruição de todos os sonhos de ventura de sua esposa.
Lígia caíra numa tristeza profunda, e quando estava só, chorava ardentemente a sua desdita.
Acreditara na desculpa que o marido lhe dera, e era ela própria quem queria dar-lhe as fricções prostáticas, causando-lhe, porém, espanto a esquisita conformação genital do Leonel, de um raquitismo
infantil, que não tinha comparação possível com a do seu primeiro marido, banal e antiartístico, é certo, mas homem perfeito e viril na mais lata aceção da palavra, apesar dos seus cinquenta e seis anos quando
falecera.
Pensava que, mesmo que ele se curasse, nunca teria mais do que um rudimento de marido, ridículo e raro, que lhe mataria todas as suas ilusões e projetos.
Um dia, não podendo conter-se, contou tudo à tia Benedita.
Precisava desafogar com alguém a sua grande infelicidade, e só na tia, que amava como mãe, tinha a
confiança precisa para semelhantes revelações.
D. Benedita, pitadeando-se, ouviu-a com atenção, pendulando o corpo na sua cadeira de rodas.
— Isso que acabas de contar-me é grave, sobrinha, respondeu ela. Depois... é teu marido e gostas dele,
não é verdade?
— Sim, tia, amo-o muito, e mesmo por lhe ter amor é que mais sofro.
— Enfim, sobrinha, tem paciência, espera que ele se cure.
— O demónio é o resto que me contaste. Contra isso é que não há mudanças possíveis. Cada um é como Deus o fez!
E tomando nova pitada rematou:
— Parece-me, sobrinha, que não foste feliz no teu segundo matrimónio.
Lígia começou a chorar.
Também ela participava daquela desconfiança da tia Benedita.
*
O Leonel pediu a Lígia para dormirem em leitos separados, enquanto não se achasse bom.
Lígia acedeu, mandando arranjar-lhe o quarto na antecâmara do seu.
Aquela casa tornara-se um repositório de mágoa em vez do hilariante e festivo ninho de amor a que fora destinado.
O Leonel saía todas as noites. Às onze horas, o mais tardar meia-noite, quando recolhia, já a esposa
estava deitada. Almoçavam e jantavam juntos, trocando poucas falas.
O estado doentio permanecia o mesmo.
Demais, ele, além de não ter uma conversação interessante e animada, era frio e indiferente.
Beijava-a por cortesia, tratava-a com toda a consideração e respeito, e passava horas esquecidas a
falar com os papagaios e a brincar com dois gatos angoras que lhe tinham dado de presente.
Lígia começou a sentir um enorme vácuo no coração e a compreender que se enganara, deixando-se seduzir pela beleza estética daquele homem, que no fundo era um banal e um ignorante hediondo, como
em pequeno fora sempre um pateta e um piegas irritante.
Para quebrar a monotonia daquele viver horrendo, iam às vezes ao teatro, o que muito o contrariava,
porque nessas noites não podia encontrar-se com o Liberato, que debalde o esperava na casinha da rua do Trombeta, que o Leonel tinha alugado e mobilado ao seu gosto, vingando-se assim da partida que o conde da Lagoa Escura lhe fizera.
Sempre muito elegante, era esta a única qualidade recomendável do mísero efebo.
Lígia sofria terrivelmente, porque quantos mais dias passavam mais verificava que tendo adquirido um
marido fisicamente inútil, se ligara a um homem intelectualmente abaixo de toda a crítica.
Além de possuir bom gosto para ornamentações, o Leonel não sabia mais nada!
No entanto, parecia viver feliz. Comia bem, dormia magnificamente e os seus modos eram alegres e
satisfeitos!
Esta boa disposição do ânimo do marido mais a irritava, e o seu amor-próprio de mulher nova e
formosa começou a sentir-se ferido.
Parecia-lhe impossível que, dado o que se dava, aquele homem pudesse viver satisfeito!
Não sabia já dizer se ainda o amava ou se principiava a ter-lhe aversão.
O seu cérebro e o seu espírito debatiam-se numa luta medonha, rodeada de todos os confortos e comodidades que a sua grande fortuna lhe facultava.
Teve mesmo a superstição de que aquela desventura era uma vingança da alma do Bernardino que fora tão seu amigo, que lhe dera todas as felicidades materiais da vida, que a fizera rica e a quem ela nunca amara!
Tão pouco tempo guardara fidelidade à sua memória, que ele obrigara-a a ser-lhe fiel, dando-lhe um marido mais inútil que um eunuco!
E aterrava-a a ideia fixa, vívida, como um remorso, de que semelhante situação não podia acabar bem.
Desesperada, consultou o antigo médico de sua casa, homem experiente, já velho e de grande respeitabilidade.
O médico, que conhecia a crónica do Leonel, sorriu-se, depois fez uma cara triste e por fim respondeu:
— A doença de seu marido, minha senhora, parece-me incurável!!
— Porquê, doutor?
— Pancadas nesse sítio são sempre perigosas, quando não são fatais, e implicam com outros órgãos das proximidades... que é talvez aí onde reside todo o mal...
Lígia não percebeu o intencionalismo destas palavras e ficou muito impressionada com a declaração do médico.
— Mas… insistiu, não haverá meio de o curar?
O doutor limpou os vidros da luneta e respondeu:
— Creio que já é tarde…
*
Uma noite, Lígia, quando o marido veio jantar, disse-lhe:
— Esta noite vamos a S. Carlos; mandei alugar uma frisa.
O Leonel empalideceu.
S. Carlos era o teatro do conde, do capitalista Couto, do Safreti, do Dr. Sinfrónio Vareta, e de tantos outros sodomitas que o conheciam e que cá por fora faziam uma troça medonha ao seu casamento.
Não havia, porém, maneira de dizer que não, tanto menos que Lígia, nervosa e excitada, perdera muito do modo amorável e afetuoso dos primeiros dias de casada.
Encasacou-se, pois, e às oito e meia, estava com ela no teatro, provocando a beleza da gentil mulher as atenções de todos os homens e mesmo das outras mulheres.
Lígia estava verdadeiramente sedutora na sua esplendente toilette de crepe da China, lilás, com rendas
brancas, e decotada, evidenciando a formosura clássica do colo e a garganta escultural, onde cintilava um magnífico colar de pérolas e diamantes.
Pouco antes da orquestra romper a sinfonia, entrou na plateia um tenente de cavalaria, magnífico tipo de homem desembaraçado e gentil, que cumprimentou várias famílias que estavam nas frisas e nos camarotes de primeira ordem.
Lígia viu-o e teve um sobressalto.
Aquele tenente era o mesmo que lhe fizera a corte pouco antes de casar com o Leonel e que lhe
escrevera aquela carta apaixonada, que ela rasgara com a maior indiferença.
Também ele a viu e ficara extático a contemplá-la, numa adoração fixa, que chegava quase a ser impertinente!
Lígia desviara a vista e atendeu o marido que lhe dizia:
— Olha, os colarinhos para casaca já não são tão altos como os que se usavam a época passada!
Ela olhou-o com um modo aborrecido e comiserativo, e não lhe respondeu.
No intervalo do primeiro ato, o tenente chegou-se ao Raul de Noronha, um dos mundanos mais elegantes e conhecidos de Lisboa, e disse-lhe:
— Tu conheces aquele homem e aquela mulher que estão na frisa 17?
— Perfeitamente, respondeu o outro.
— Quem são?
— Ele, é o Leonel Martins da Gama Cabral, ex-amante do conde da Lagoa Escura, que o abandonou por o ter encontrado em flagrante delito de adultério com um marmanjo qualquer da sua especial
predileção. Ela é sua esposa legítima, viúva de um brasileiro que lhe deixou a bagatela de trezentos contos e pico.
O Nuno de Mascarenhas encarou o amigo com ar de dúvida.
— Isso que tu acabas de me dizer é verdade ou é chalaça tua?
— Porquê? Ignoras quem é aquele refinado?
E o Raul baixou a voz.
— Ignoro.
— Pois, meu velho, já vejo que não conheces os escândalos desta cidade de mármore e de granito à
beira mar plantada. Pergunta ao Safreti e ao Couto capitalista quem é aquele figurão, e eles te darão todas as informações que desejares. Aquilo foi sempre assim desde a escola.
— E a mulher sabe?
O Raul encolheu os ombros.
— Isso agora só ela o pode dizer. Que parece que não vive satisfeita, desconfio naquela expressão
melancólica e triste que sempre conserva.
— E porta-se bem?
— Creio que sim. Pelo menos ainda não ouvi a menor referência em seu desabono, apesar do espanto
de que toda a gente está possuída por ter escolhido para esposo um mariolão daquela laia.
Ia começar o ato.
Os dois amigos apertaram as mãos e sentaram-se nos seus lugares.
De vez em quando, o Nuno olhava disfarçadamente para a frisa onde estava Lígia com o marido, cuja aparição, na sua dupla qualidade de homem casado e de antiga mulher, fora o assunto de todas as
conversas antes de começar o espetáculo e no intervalo do primeiro ato.
De uma das vezes pareceu-lhe que ela o estava mirando, e por mais duas vezes os seus olhos se
encontraram rapidamente, porque Lígia baixara-os logo com aquela infinita expressão de tristeza que agora se lhe notava e que fazia com que a D. Eudóxia dissesse confidencialmente à D. Benedita que desconfiava que a sua afilhada e nora andava grávida!!!
— Do Espírito Santo, respondeu a boa velhota sorrindo-se.
À saída, o Nuno veio esperá-la no salão.
Lígia apareceu pelo braço do marido e ao passarem por diante de um grupo ouviram-se várias tosses secas e algumas risadas irónicas.
Neste rápido trajeto, de novo os seus olhos se encontraram, mas desta vez Lígia fixou-o bem.
O Nuno ficou indeciso. Achava estranha a fixidez e a expressão daquele olhar sereno, firme e indecifrável que ela lhe lançara.
Quando se achou dentro do trem, Leonel respirou. Toda a noite estivera sobre brasas.
A insistência com que certos tipos o olhavam, conversando depois em voz baixa e acabando alguns por soltarem sonoras gargalhadas, deu-lhe a perceber que se ocupavam da sua pessoa.
Jurou aos seus deuses que tão cedo não iria com a esposa ao S. Carlos.
*
O Nuno, depois de eles saírem, dirigiu-se ao Tavares para tomar um cálix de cognac, e toda a noite
levou a pensar se deveria escrever a Lígia ou desvendar primeiro o mistério que certamente existia na sua vida matrimonial.
Se ela conhecia o nível moral do marido e a sua desqualificação como homem, era sem dúvida tão
pulha e devassa como ele.
Se ignorava estas circunstâncias, tendo-o na conta de pessoa honrada e digna, laborava num triste erro
que urgia aclarar-lhe.
A noite trouxe-lhe bom conselho, e de manhã a sua linha de conduta estava traçada.
Começou por indagar onde Lígia morava, o que obteve facilmente. Em seguida, por intermédio do seu
impedido, que era amigo do guarda-portão da casa dela, soube que o Leonel saía quase todas as noites, só, aí pela volta das nove horas, recolhendo às onze e meia, o mais tardar à meia-noite.
Tratou de o espionar.
Ao tempo, já soubera tanta coisa a respeito dele, que quase lhe não restavam dúvidas que Lígia era vítima da mais ignóbil das mistificações.
O Safreti, piadista e irónico, contara-lhe tudo quanto o conde da Lagoa Escura lhe revelara a respeito do extraordinário efebo.
Era simplesmente hediondo!
Apurou, pois, que o Leonel saía todas as noites, conforme o seu impedido lhe dissera, e muito rápido, em passadinhas miúdas de mulher, vinha Avenida abaixo encontrar-se com um tipo alto, espadaúdo, de
grande bigodeira façanhuda, que o esperava defronte do elevador da Glória, metendo-se ambos no mesmo elevador ou passeando na Avenida um bocado, até que seguiam o caminho descrito.
À terceira vez, o tenente seguiu-os, e à distância viu-os entrar para a casinha da rua do Trombeta.
Mais quatro vezes verificou a mesma cena.
Era mister, pois, indagar que casa era aquela e quem nela vivia.
Tinham decorrido assim duas semanas.
No domingo, da segunda, fazia um lindo dia de março batido de sol e salubrizado por uma fresca
aragem de nordeste, o Nuno cruzou na Avenida o seu belo cavalo de Alter com a bem posta carruagem de Lígia, que passeava, acompanhada pelo esposo, muito aborrecido, olhando para aquilo tudo com o seu olhar parado, imbecil e enigmático.
De novo os seus olhares se cruzaram, mantendo o de Lígia a mesma fixidez com que o tinha fitado no salão de S. Carlos.
O Nuno andava nervoso e excitado. Preocupava-o o interesse de levar ao fim a conclusão daquele caso, que lhe parecia de sobeja importância.
Com toda a reserva, indagou a quem pertencia a casa da rua do Trombeta.
— Olhe, meu senhor, disse-lhe uma mulher baixa e gorda a quem se dirigira, que morava defronte e que estava a estender roupa numa corda presa na parede, quem o pode informar é a senhora Angélica, que é quem trata da casa.
— E onde mora a senhora Angélica?
— Ali, ao fim da rua, naquela portinha baixa que tem o postigo aberto.
— Já sei, muito obrigado.
— Não há de quê; vá com Nossa Senhora.
O Nuno dirigiu-se à porta indicada e bateu uma argolada.
— A senhora Angélica mora aqui? disse para a mulher que acudira ao chamamento.
— Sou eu mesma, senhor tenente. Há alguma novidade a respeito do meu neto? inquiriu assustada.
— Do seu neto?
— Sim, senhor tenente, do meu Francisco, que é soldado de Cavalaria 4; parece-me que é o regimento de V. Ex.ª.
— Ah, do 27 da 3.ª, não é verdade?
— Sim, meu senhor.
— Pertence à minha companhia e é bom rapaz, tanto que desejo que o promovam a cabo.
O rosto da senhora Angélica irradiou de alegria.
— Ah, senhor tenente, era um grande favor que V. Ex.ª me fazia, mas desculpe não o ter mandado
entrar. Esta minha cabeça, esta minha cabeça!
— Entro, porque tenho que falar-lhe em particular.
A senhora Angélica abriu a porta e o tenente entrou. Ela ofereceu-lhe logo uma cadeira.
— Estou às ordens de V. Ex.ª.
— Ora diga-me cá: vossemecê não é a mulher que trata daquela casa aqui da rua, que tem só rés-do-
chão e primeiro andar?
— Sou, sim, meu senhor, mas...
— De quem é essa casa?
— O senhorio é…
— Não lhe pergunto pelo senhorio, mas sim quem mora lá.
— Pois lá não mora ninguém.
— Não mora ninguém!?
— Eu lhe digo: ela está alugada a um rapaz muito novo e janota que quase todas as noites lá vai.
— Há quanto tempo?
— Há dois meses. Essa casa tem coisas muito esquisitas. Esteve muito tempo alugada a um sujeito de
idade, que parecia muito rico, e na sala estava o retrato do rapaz que a alugou agora. Um belo dia levaram os móveis, e tal sujeito despediu-me dizendo que já não precisava da casa. Esteve quase um semestre com escritos, até que o atual inquilino a alugou e mobilou com todo o luxo. Está um luxo. Está
um brinco.
— E sabe se vão lá mulheres?
— Nunca vi entrar nenhuma. Aí está outra ratice.
— Porquê?
— Porque lá dentro há roupas brancas e calçado de senhora. Muita dessa roupa finíssima, mando eu lavar e engomar.
O Nuno meditou um momento.
— Eu tinha grande interesse em que vossemecê me fizesse um favor, que eu saberia recompensar,
principiando por fazer cabo o seu neto.
— Oh, meu senhor, se estiver na minha mão há de ser servido, juro.
— Está.
— Então diga.
— Vossemecê tem as chaves dessa casa?
— Tenho, sim, senhor, para fazer as limpezas todas as manhãs.
— Precisava que me as emprestasse até amanhã. A senhora olhou-o admirada.
— O senhor tenente quer entrar lá?
— Quero. Descanse que não se trata de nenhuma mulher que atraiçoe o marido, nem de nenhuma vingança, ou da mais pequena coisa que a possa comprometer.
— Oh, meu senhor, mas eu sou a responsável!
— Já lhe disse que pode estar tranquila; dou-lhe a minha palavra de honra.
— E o meu neto será cabo?
— Há de ser, afirmo-lhe.
— Veja o que faz, senhor oficial. Pelo amor de Deus, não me comprometa.
— Tranquilize-se, senhora Angélica, isto é uma simples curiosidade e nada mais.
— Eu fio-me no senhor, ouviu?
— Pode fiar-se.
— Então aqui estão as chaves. A mais comprida é da porta da rua e a outra a da saleta.
O Nuno guardou-as no bolso.
— Amanhã cá lhas trago.
— Sem falta, senhor tenente, por causa da limpeza.
— Às dez horas cá as tem. É tarde?
— Até ao meio-dia não me fazem falta.
— Bem, tome lá para rapé.
E o Nuno deu-lhe quatro coroas.
Ela não queria aceitar.
— Guarde, guarde, que isto não tem nada com a promoção do seu neto.
*
O Nuno dirigiu-se logo a um serralheiro e mandou com toda a urgência fazer duas chaves iguais àquelas. À tarde estavam prontas.
Nessa noite viu o Leonel entrar em casa passava das onze e meia.
Embrulhado no seu capote, dirigiu-se à rua do Trombeta, silenciosa e solitária àquela hora.
A empresa era arriscada e por demais criminosa, de entrar na casa alheia com chaves falsas. Ele,
porém, precisava saber tudo, absolutamente tudo.
Abriu a porta e entrou na escada, acabava de dar meia-noite na torre de S. Roque.
Subiu às escuras e aplicou o ouvido à porta. De dentro não vinha o mais leve ruído nem o mínimo raio de luz.
Meteu a chave na fechadura e entrou.
Os seus pés encontraram uma alcatifa felpuda e macia que abafava os passos.
Riscou um fósforo e avançou na sala. As portas de dentro estavam fechadas. Acendeu uma das velas
das serpentinas colocadas sobre o Boule, e examinou o aposento. Estava mobilado com fino gosto e suprema elegância.
Por cima do sofá viu magnificamente emoldurados na mesma moldura o retrato de dois homens.
Conheceu-os.
Um, o mais novo, era o marido de Lígia; o outro era aquele marmanjola que o acompanhava sempre.
Dirigiu-se à alcova e viu o leito desmanchado, as roupas em desordem, e sobre uma linda bata de peluche vermelha, um par de meias de seda azuis claras, umas ligas vermelhas e um par de sapatinhos de cetim cor-de-rosa.
— Diabo, pensou ele. Isto são trajes de mulher!
E ficou perplexo, porque do muito que lhe tinham contado a respeito do Leonel escapou este detalhe
curioso.
Percorreu toda a casa, e verificou que junto da alcova havia um quarto quase vazio onde apenas estavam malas, panos do pó, vassouras, alguma roupa de homem, caixotes de vinho do Porto e outros
objetos que indicavam que esse quarto servia de arrecadação e não era frequentado. A um canto tinha uma grande cesta para roupa e várias caixas de madeira vazias. Comunicava com o corredor por uma
porta com chave. Em caso de necessidade fechar-se-ia por dentro.
Examinou as paredes e não viu maneira de as furar para observar o que se passasse na alcova.
Mas, se não era possível ver, tudo quanto se ouvisse chegaria ao tímpano com uma nitidez perfeita.
Estava resolvido.
Na manhã seguinte entregou as chaves à senhora Angélica, que o olhava desconfiada.
— Enganei-me, disse-lhe ele sorrindo-se e retorcendo o bigode. Não encontrei lá o que desconfiava.
— Oh, senhor tenente, pela sua boa sorte não diga a ninguém que eu lhe emprestei as chaves!
— Claro que não digo. Isso é segredo de nós os dois. Olhe, já hoje falei ao capitão a respeito do seu
neto. A coisa vai bem encaminhada.
— Deus lho pague senhor tenente, Deus lho pague. Se vejo o meu Francisco cabo não acredito.
— Pois há de ver.
*
Às oito e meia da noite, o Nuno dirigiu-se à rua do Trombeta e entrou na casa, rapidamente, sem despertar suspeitas. A senhora Angélica tinha a sua porta fechada.
Encerrou-se no quarto das arrecadações, fechando-se por dentro, e esperou.
Estava numa ansiedade terrível e seguia com impaciência o bater igual e metálico da máquina do seu
relógio.
Ouviu a pêndula da sala bater as nove horas e, logo quase a seguir, o relógio da casa de jantar dar as mesmas.
Decorreu mais meia hora, longa e aborrecida como se pode imaginar.
Finalmente, ouviu abrir a porta da escada e brilhar luz pela bandeira do quarto.
Sentiu vozes de homens e um deles dizer para outro:
— Espera meu amor, que eu vou vestir-me. Fuma esse charuto que é delicioso.
Espreitou pelo buraco da fechadura do quarto e reconheceu o Leonel, que avançava rapidamente pelo
corredor, fazendo ranger as suas belas botas de verniz.
O que ficara na sala cantarolava a meia-voz uma moda popular.
De novo, após alguns minutos, sentiu passos no corredor e tornou a ver o Leonel, de bata de peluche, curta adiante, e sapatinhos de cetim cor-de-rosa, e meias pretas bordadas!
Ficou como que petrificado! Agora tinha a revelação do mistério de naquela casa, onde não entravam
mulheres, existirem roupas femininas.
Sentiu que eles riam e falavam, mas não pôde perceber o que diziam, porque os pesados reposteiros
das portas abafavam as vozes.
Passados talvez uns vinte minutos sentiu-os entrar na alcova.
Colou o ouvido à parede:
— E tua mulher continua com maus modos? perguntou aquele que tinha voz mais forte e áspera.
— Maus modos não digo, filho, mas olha-me de uma maneira esquisita, que me deixa bastante
desconfiado. Já me não beija nem acarinha e...
— E tens muita pena disso?
O Leonel soltou uma gargalhada.
— Bem sabes que para mim, festas de mulher não valem nada.
— Disseste isso de um modo!...
— Para estares ao facto de tudo.
— Ela um dia raspa-se com algum súcio.
— Tomara eu que o fizesse, que já estou farto desta comédia, mas creio que o não fará, porque é muito
séria e honesta.
— Acredita na tua doença?
— Ao princípio acreditou. Agora não sei. Nunca mais tratou de mim, nem entra no meu quarto.
— Assim está bem.
E o Nuno, com o sangue em fogo, ouviu o ruído de um beijo!!
*
Por mais de uma vez, Nuno esteve para abrir a porta e desatar à pancada àqueles dois devassos da mais ignóbil espécie, tais eram as coisas medonhas que ouvia na alcova e que lhe davam a impressão da
cena que se estava passando. Conteve-o a ideia de que se encontrava na casa alheia, onde entrara com chaves falsas como um criminoso, e não saberia como, sem declarar que amava Lígia, justificar aquela invasão de domicílio, para a qual não lhe assistia nenhum direito legal.
Até às onze horas e meia teve que inteirar-se de toda aquela medonha crápula que excedeu tudo de quanto até ali, acerca do género, tinha conhecimento!
Era meia-noite e meia hora quando saiu para a rua, com a cabeça atordoada por tantas baixezas e perversões que lhe pareciam um sonho febril.
A inocência de Lígia estava de sobra comprovada.
Agora era dever de homem, abstraindo mesmo o sentimento amoroso que ela sempre lhe inspirara, arrancá-la da união daquele biltre indecentíssimo, a quem dera a mão de esposa, cujo nome usava, e com
quem aparecia na sociedade, deixando dúvidas acerca da sua ignorância ou conivência nos vícios desse homem.
O mundo é mau e podiam julgar dela aquilo que ela realmente não era: uma miserável tão devassa e
imoral como o marido!
Nuno amava-a bastante para não ter dúvidas em a salvar desta triste e desonesta situação.