O Sr. Ganimedes
Parte II
V
Na sua pequena casa de jantar da rua da Madalena, a D. Eudóxia, vestida de negro e com a cabeça
quase toda branca, almoçava tranquilamente em companhia do filho, o Leonel.
Que diferença entre o Leonel de hoje e aquele Leonel pequeno que, no dia da partida de Lígia para
Paris, lhe perguntara na gare se ela já não era a sua noiva!
Estava agora um belo rapaz de vinte anos, forte, robusto, apolíneo, verdadeiramente encantador, com o seu pequeno buço preto aveludado e fino, os fartos cabelos anelados, os grandes olhos profundos e
caridosos, lânguidos e ternos, que muitas mulheres invejavam, e as formas delicadas, opulentas, roliças, magníficas, salientando-se como apanágio de beleza, os pés e as mãos de admirável talhe e pequenez.
Havia apenas dois anos que o Policarpo morrera de um cirro de estômago, doença terrível, dolorosa, martirizante, de que a medicina o não pôde libertar.
Apenas com o exame de instrução primária, que a mais não chegara a sua curta inteligência, o Leonel
empregara-se num escritório de comissões pertencente a um amigo de seu pai, onde ganhava vinte mil réis por mês.
Era fiel, delicado e obediente, embora um pouco mandrião.
Os patrões gostavam dele, confessando aliás que tinha pouco jeito para o comércio.
Bom filho, estremecia os pais e nunca lhes dera o mínimo desgosto. A mãe então não via outro sol nem
outra lua.
O ordenado que ganhava era todo para a sua algibeira, mas as despesas que fazia ultrapassavam em
mais do quádruplo a importância desse vencimento.
Passava por ser um dos rapazes mais chiques de Lisboa. Sempre na moda, vestia com impecável correção e extrema elegância. As suas roupas brancas eram de finíssima seda no verão e de magnífica
flanela no inverno. Possuía uma valiosa coleção de anéis e alfinetes de gravata preciosos.
Só a corrente e a medalha do relógio custara-lhe duzentos e sessenta mil réis, com o seu monograma
em esmeraldas e brilhantes.
Tinha um anel que valia trezentos mil réis, e era raro o mês em que não aparecia com uma joia nova.
Andava de bicicleta e possuía assinatura em S. Carlos, onde comparecia no rigor da etiqueta.
Estava bem relacionado, e mantinha um porte grave, sério, distinto e insinuante.
A mãe achava-o adorável e o pai, torturado pela doença e não tendo a menor razão de queixa, não
inquiria de onde vinha ao filho aquela luxuosa grandeza que estadeava como um príncipe.
De resto, nunca se lhe conhecera um namoro, e quando os amigos o convidavam para depois do teatro e da ceia irem acabar a noite nos templos profanos de Citera, recusava sempre, aduzindo que era tarde e
não queria fazer esperar sua mãe, velha e doente.
Esta razão contentava a todos e não deixava margem para insistências.
Na rua, nos teatros e nos passeios, as mulheres faziam-lhe a corte, seduzidas por aquele rosto belo, juvenil e atraente, aliado a uma figura distinta, elegante e sugestiva. Ele, porém, distraído, não lhes dava
atenção e mantinha-se na sua rara e estranha invulnerabilidade.
Era de um asseio extremo e de uns cuidados com o seu corpo que a mais asseada e coquette mulher, não os teria melhores. Tomava banho todos os dias, de verão e de inverno, e polvilhava-se com pó de
arroz como uma coquette, sensual e lúbrica.
Imberbe, a barba parecia não querer romper, tendo apenas esse leve e acetinado buço, mais fraco que
o da Clementina Medeiros, notável no Avenida e no D. Amélia pelo seu buço negro de uma opulência rara.
Quando o pai morreu, a D. Eudóxia trespassou a loja por seis contos de réis, que empregou em
inscrições, e fez leilão das fazendas, pagando todas as contas aos fornecedores. Apurados, os seus haveres davam-lhe um rendimento de mil e oitocentos réis diários, que chegavam bem para ambos
manterem uma situação tranquila, embora modesta. Se não fosse a sua doença, com a qual gastou rios de dinheiro, o Policarpo teria deixado mais alguma coisa, mas aquele maldito cirro levara-o para a cova pesado a oiro. D. Eudóxia, porém, era muito económica e bem governada, e nem mesmo chegava a gastar
todo o rendimento.
Demais, o filho não lhe esbanjava nem um ceitil, antes estava sempre a mandar coisas para casa, em
notável abundância, frutas, vinho magnífico, legumes, queijos, manteiga, etc.
A mãe idolatrava-o.
Leonel era o modelo dos filhos e o exemplo dos rapazes de agora...
Também todos os seus desvelos, todos os seus carinhos e atenções eram para ele.
Era ela quem lhe preparava o banho todas as manhãs, que o despertava suave e ternamente, com essa
delicadeza afetuosa que só as mães possuem, quem lhe arranjava a roupa preciosa e fina, e quem vigiava o almoço para estar ao gosto dele.
Leonel tinha um quarto muito lindo, elegante, chique, quase rico, com magnífica mobília de pau-santo,
uma rica colcha de seda no leito, esplêndida coleção de perfumarias, alguns quadros de valor e bibelots do mais fino gosto sobre mesinhas e étagers. Parecia mais um quarto de uma mulher fina do que o de um
rapaz de vinte anos.
E a D. Eudóxia conservava-o numa ordem e num asseio impecáveis.
Doente, ia todos os dias passar um bocado com a D. Benedita, que vivia ainda, mas entrevecera de
todo.
Na sua ampla cadeira de rodas, a ilustre senhora passava a vida a ler e a conversar com algumas
pessoas amigas que a visitavam. A sua única preocupação era se morreria sem tornar a ver a sobrinha.
Havia doze anos que Lígia partira de Portugal com o marido, e nesse espaço de tempo nunca deixara de escrever duas vezes no mês regularmente, nem de lhe entregarem a sua pensão.
As coisas, porém, tinham tomado um caminho bem diferente daquele que o Bernardino imaginara.
A revolta política que originara a queda do império e o estabelecimento da república, lançara o Brasil numa luta civil que afetou todos os interesses e provocou um forte desequilíbrio comercial.
Na sua casa do Pará, os negócios levaram uma volta importante, que o obrigaram a um desfalque de perto de cinquenta contos fortes.
Era mister reparar estes rombos da fortuna, e como Lígia se dava bem no clima foi adiando a sua vinda
à Europa de ano para ano, atarefado sempre com a multiplicidade dos negócios que lhe floresciam desde que a ordem e a paz reentraram no país, de maneira que assim se passaram onze anos, até que uma
congestão cerebral o prostrou uma tarde, depois de jantar, quando bebera um grande copo de água gelada.
Lígia ficou viúva com trinta e dois anos de idade e senhora de uma fortuna de quatrocentos contos.
O marido deixara-a sua herdeira universal, afora dez contos para se construir uma escola para os dois
sexos, na sua aldeia, e outros dez ao seu amigo Policarpo Martins, e na falta deste a sua esposa D. Eudóxia.
Lígia nomeou logo um procurador sério e honesto para proceder à liquidação da sua fortuna, exceto as propriedades que possuía no Rio e davam bom rendimento. Estava ansiosa por voltar a Portugal.
Nunca gostara do Brasil, embora gozasse sempre perfeita saúde. A nostalgia da pátria assaltou-a com
intensidade, e apenas o cadáver do marido desceu à cova escreveu logo à tia Benedita e à D. Eudóxia participando-lhe a infausta notícia.
Aqueles onze anos viveu-os Lígia como que mergulhada num sonho.
Afetuoso, dedicado, carinhoso e bom, o marido fora para ela o melhor dos amigos e o mais apreciável dos homens. Estimava-o como se fora seu pai ou seu irmão e sentiu-lhe a morte com verdadeira mágoa.
No entanto, o seu coração de mulher, na parte misteriosa do mais belo dos seus sentimentos — o amor — nunca dera o menor rebate!
Foi, todavia, a mais dedicada das esposas e a mais honesta das mulheres. Nem por pensamento lhe passou uma só vez a ideia de trair o homem a quem ligara a sua existência.
Da vida de casada conservava a recordação dessa linda viagem a França, à Suíça e à Itália, que
durante quatro meses lhe absorveu todo o seu espírito culto e finíssimo.
Paris deslumbrara-a, mas Milão e Roma tinham-lhe deixado na memória uma impressão vibrante,
sobretudo a majestade imponente da catedral de S. Pedro e a vida elegante do Corso, mais singular e interessante do que a do Bois-de-Boulogne.
O Bernardino prometera-lhe, no regresso a Portugal, visitarem a Áustria, a Alemanha, a Bélgica e
Londres, mas infelizmente, coitado, não pudera cumprir essa promessa.
A Suíça com os seus lagos espelhentos e verdes, as suas montanhas cobertas de neve, a sua animação
de touristes, o Jungfrau e o Pilatos, os hotéis alcandorados nas encostas dessas penedias ciclópicas, a beleza de Davos Platz, procurado por centenas de tuberculosos lívidos, de grandes olhos profundos, sonhadores e tristes, Lucerna, Zurique, Berna, o sabor delicioso do leite, a frescura ideal da manteiga e a
serenidade bondosa e casta de todo aquele povo trabalhador e civilizado, tinham-lhe não somente perturbado o cérebro, mas deixado no espírito as mais doces e adoráveis recordações.
Ah, como ela teria gozado naquele cantinho da terra se o seu coração amasse o marido, se um
entusiasmo apaixonado e terno demorasse na sua alma, relevando-lhe de uma poeira de oiro e de um ideal de ternura todos aqueles quadros grandiosos e belos da natureza!
Sofria mesmo pela impossibilidade de pressentir esse sentimento pelo homem a quem pertencia e que
a idolatrava com celestial amor.
Quantas vezes nos braços dele procurara enganar-se a si própria, e a carne se recusara a obedecer-lhe!
Finalmente, que as exigências do Bernardino eram as mais modestas possíveis. Em onze anos de casada e, apesar da excessiva elevação da temperatura, nunca ele a vira em camisa!
Guardava nas suas relações matrimoniais uma santa castidade patriarcal, digna dos tempos bíblicos.
Uma tarde, a sua amiga Madalena de Matos, casada recentemente com o guarda-livros da casa, confidenciou-lhe segredos que a deixaram atónita!
Segredos capitosos da sua vida de casada que ela nunca imaginara que se executassem.
O marido, o Matos, adorava-a, e ela casara com ele por paixão. E na franqueza dos seus vinte e dois anos e na amizade que votava a Lígia, contou-lhe esses encantos da vida de dois entes que se amam, os
beijos ardentes e incondicionais que geram desejos, as carícias excitantes, os arrulhos amorosos, a arte de gozar, um mundo enfim de revelações, desde os ósculos que o marido lhe dava nos pequeninos pés
perfumados e brancos até ao impudor de tomarem os dois banho na mesma piscina, como Adão e Eva antes do pecado!
Lígia riu muito, mas quando meditou no caso concluiu:
— Sim, está bem, quando há amor de parte a parte deve ser assim!
E o seio arfou-lhe num movimento rápido e convulso. Ela, porém, não amava, e ainda que amasse seria
a mesma coisa.
O Bernardino possuía a castidade austera do marido, sob todos os prismas por que a moral dogmática encara este curioso espécimen social.
*
A criada trouxe o café do Leonel, um café precioso, odorífero, puro, como ele gostava e a mãe lhe
sabia preparar.
— Sabe, mamã, disse-lhe ele deitando na chávena um torrão de açúcar, domingo vou passar o dia a Sintra com o conde da Lagoa Escura. Naturalmente fico lá e só regresso a Lisboa na segunda-feira depois
do almoço.
— O conde é muito teu amigo, filho.
— Muito, mamã. Conheci-o há dois anos em S. Carlos, e foi aí que estabelecemos relações.
E depois de ter levado a chávena aos lábios, observou:
— O café hoje está um pouco mais fraco.
— Pois olha, filho, é do mesmo. Se queres vou fazer-te outro.
— Não, mamã, este está bom. Queres?
— Não, filho. Faz-me mal o café tão forte, e a ti não te pode fazer bem.
— Assim é que eu gosto dele.
— Então bebe. Queres conhaque?
— Um cálix.
Bateram à porta.
— Quem será? disse a D. Eudóxia.
— O correio, respondeu a criada.
E veio trazer numa salva uma carta tarjada de preto.
— É do Brasil, mamã, exclamou o Leonel.
— Ai, filho, aconteceu decerto alguma coisa triste. Abre-a e lê que a mim falta-me o ânimo.
O Leonel rasgou o envelope e leu:
Minha querida madrinha e amiga,
Escrevo-lhe esta sob a mais dolorosa das impressões. Meu marido faleceu ontem pelas cinco horas
da tarde, de uma congestão cerebral após ter bebido sobre o jantar um copo de água gelada.
O médico, chamado a toda a pressa, só pôde verificar o óbito.
Foi uma enorme desgraça. Um homem ainda moço, tão bom e tão meu amigo.
Por este correio escrevo a minha tia participando-lhe esta desgraça.
Ele deixou-me sua herdeira universal e dez contos de réis a seu falecido marido, o meu querido
padrinho, com a cláusula de passarem para si no caso dele já não ser vivo como infelizmente não é.
Tão depressa liquide, mandar-lhe-ei o cheque sobre Lisboa para a madrinha receber o que lhe
pertence.
Eu em breve regressarei a Portugal. Estou farta do Brasil.
No seguinte paquete serei mais extensa.
Estou muito aflita e incomodada com esta fatalidade.
Saudades ao Leonel e a madrinha aceite um beijo e um abraço desta sua
Afilhada e amiga
Lígia.
— Coitado do Bernardino! exclamou a D. Eudóxia. Deus lhe tenha a alma em descanso. Era um santo homem. Conheci-o na loja de teu pai ainda não éramos casados.
— A Lígia está, pois, viúva e rica, observou o Leonel.
— Rica, dizes tu? Riquíssima. A fortuna do Bernardino, depois de reconstituída, deve andar para cima de trezentos contos, segundo teu pai me dizia.
— Ela na carta não se mostra muito pesarosa, observou-lhe o Leonel.
— Ora, filho, aqui para nós, a Lígia casou com ele por interesse, e não por amor. Foi sempre uma excelente rapariga, mas era muito ambiciosa. A D. Benedita mesmo já me tem dito isto. O Bernardino
podia ser pai dela, tinha mais vinte e dois anos. Era uma grande diferença de idades.
— Esses dez contitos, disse o Leonel, fazem-nos bem bom arranjo.
— Ah, o Bernardino foi sempre muito nosso amigo, e era homem franco e obsequiador.
— Deus lhe fale na alma, rematou o Leonel secamente.
E esvaziando o cálix de conhaque, compôs o laço da gravata, acendeu um cigarro e, beijando a mãe,
saiu. Eram onze horas do dia.
De há muito que se despedira do escritório, passando a vida sem fazer nada, em vadiação pelas ruas de Lisboa, em passeios e festas com outros amigos tão vadios como ele.
A mãe não sabia de nada, e ele dissera-lhe que o patrão o incumbira de um serviço especial na bolsa e na alfândega que só começava às onze e meia, para assim se levantar tarde, almoçar tarde e fazer vida de
lorde.
O conde da Lagoa Escura, que por causa dele tivera um conflito com o Couto capitalista, pagava tudo generosamente.