O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 8 de 15

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O Sr. Ganimedes

Parte II

V

 

Na sua pequena casa de jantar da rua da Madalena, a D. Eudóxia, vestida de negro e com a cabeça

quase toda branca, almoçava tranquilamente em companhia do filho, o Leonel.

Que diferença entre o Leonel de hoje e aquele Leonel pequeno que, no dia da partida de Lígia para

Paris, lhe perguntara na gare se ela já não era a sua noiva!

Estava agora um belo rapaz de vinte anos, forte, robusto, apolíneo, verdadeiramente encantador, com o seu pequeno buço preto aveludado e fino, os fartos cabelos anelados, os grandes olhos profundos e

caridosos, lânguidos e ternos, que muitas mulheres invejavam, e as formas delicadas, opulentas, roliças, magníficas, salientando-se como apanágio de beleza, os pés e as mãos de admirável talhe e pequenez.

Havia apenas dois anos que o Policarpo morrera de um cirro de estômago, doença terrível, dolorosa, martirizante, de que a medicina o não pôde libertar.

Apenas com o exame de instrução primária, que a mais não chegara a sua curta inteligência, o Leonel

empregara-se num escritório de comissões pertencente a um amigo de seu pai, onde ganhava vinte mil réis por mês.

Era fiel, delicado e obediente, embora um pouco mandrião.

Os patrões gostavam dele, confessando aliás que tinha pouco jeito para o comércio.

Bom filho, estremecia os pais e nunca lhes dera o mínimo desgosto. A mãe então não via outro sol nem

outra lua.

O ordenado que ganhava era todo para a sua algibeira, mas as despesas que fazia ultrapassavam em

mais do quádruplo a importância desse vencimento.

Passava por ser um dos rapazes mais chiques de Lisboa. Sempre na moda, vestia com impecável correção e extrema elegância. As suas roupas brancas eram de finíssima seda no verão e de magnífica

flanela no inverno. Possuía uma valiosa coleção de anéis e alfinetes de gravata preciosos.

Só a corrente e a medalha do relógio custara-lhe duzentos e sessenta mil réis, com o seu monograma

em esmeraldas e brilhantes.

Tinha um anel que valia trezentos mil réis, e era raro o mês em que não aparecia com uma joia nova.

Andava de bicicleta e possuía assinatura em S. Carlos, onde comparecia no rigor da etiqueta.

Estava bem relacionado, e mantinha um porte grave, sério, distinto e insinuante.

A mãe achava-o adorável e o pai, torturado pela doença e não tendo a menor razão de queixa, não

inquiria de onde vinha ao filho aquela luxuosa grandeza que estadeava como um príncipe.

De resto, nunca se lhe conhecera um namoro, e quando os amigos o convidavam para depois do teatro e da ceia irem acabar a noite nos templos profanos de Citera, recusava sempre, aduzindo que era tarde e

não queria fazer esperar sua mãe, velha e doente.

Esta razão contentava a todos e não deixava margem para insistências.

Na rua, nos teatros e nos passeios, as mulheres faziam-lhe a corte, seduzidas por aquele rosto belo, juvenil e atraente, aliado a uma figura distinta, elegante e sugestiva. Ele, porém, distraído, não lhes dava

atenção e mantinha-se na sua rara e estranha invulnerabilidade.

Era de um asseio extremo e de uns cuidados com o seu corpo que a mais asseada e coquette mulher, não os teria melhores. Tomava banho todos os dias, de verão e de inverno, e polvilhava-se com pó de

arroz como uma coquette, sensual e lúbrica.

Imberbe, a barba parecia não querer romper, tendo apenas esse leve e acetinado buço, mais fraco que

o da Clementina Medeiros, notável no Avenida e no D. Amélia pelo seu buço negro de uma opulência rara.

Quando o pai morreu, a D. Eudóxia trespassou a loja por seis contos de réis, que empregou em

inscrições, e fez leilão das fazendas, pagando todas as contas aos fornecedores. Apurados, os seus haveres davam-lhe um rendimento de mil e oitocentos réis diários, que chegavam bem para ambos

manterem uma situação tranquila, embora modesta. Se não fosse a sua doença, com a qual gastou rios de dinheiro, o Policarpo teria deixado mais alguma coisa, mas aquele maldito cirro levara-o para a cova pesado a oiro. D. Eudóxia, porém, era muito económica e bem governada, e nem mesmo chegava a gastar

todo o rendimento.

Demais, o filho não lhe esbanjava nem um ceitil, antes estava sempre a mandar coisas para casa, em

notável abundância, frutas, vinho magnífico, legumes, queijos, manteiga, etc.

A mãe idolatrava-o.

Leonel era o modelo dos filhos e o exemplo dos rapazes de agora...

Também todos os seus desvelos, todos os seus carinhos e atenções eram para ele.

Era ela quem lhe preparava o banho todas as manhãs, que o despertava suave e ternamente, com essa

delicadeza afetuosa que só as mães possuem, quem lhe arranjava a roupa preciosa e fina, e quem vigiava o almoço para estar ao gosto dele.

Leonel tinha um quarto muito lindo, elegante, chique, quase rico, com magnífica mobília de pau-santo,

uma rica colcha de seda no leito, esplêndida coleção de perfumarias, alguns quadros de valor e bibelots do mais fino gosto sobre mesinhas e étagers. Parecia mais um quarto de uma mulher fina do que o de um

rapaz de vinte anos.

E a D. Eudóxia conservava-o numa ordem e num asseio impecáveis.

Doente, ia todos os dias passar um bocado com a D. Benedita, que vivia ainda, mas entrevecera de

todo.

Na sua ampla cadeira de rodas, a ilustre senhora passava a vida a ler e a conversar com algumas

pessoas amigas que a visitavam. A sua única preocupação era se morreria sem tornar a ver a sobrinha.

Havia doze anos que Lígia partira de Portugal com o marido, e nesse espaço de tempo nunca deixara de escrever duas vezes no mês regularmente, nem de lhe entregarem a sua pensão.

As coisas, porém, tinham tomado um caminho bem diferente daquele que o Bernardino imaginara.

A revolta política que originara a queda do império e o estabelecimento da república, lançara o Brasil numa luta civil que afetou todos os interesses e provocou um forte desequilíbrio comercial.

Na sua casa do Pará, os negócios levaram uma volta importante, que o obrigaram a um desfalque de perto de cinquenta contos fortes.

Era mister reparar estes rombos da fortuna, e como Lígia se dava bem no clima foi adiando a sua vinda

à Europa de ano para ano, atarefado sempre com a multiplicidade dos negócios que lhe floresciam desde que a ordem e a paz reentraram no país, de maneira que assim se passaram onze anos, até que uma

congestão cerebral o prostrou uma tarde, depois de jantar, quando bebera um grande copo de água gelada.

Lígia ficou viúva com trinta e dois anos de idade e senhora de uma fortuna de quatrocentos contos.

O marido deixara-a sua herdeira universal, afora dez contos para se construir uma escola para os dois

sexos, na sua aldeia, e outros dez ao seu amigo Policarpo Martins, e na falta deste a sua esposa D. Eudóxia.

Lígia nomeou logo um procurador sério e honesto para proceder à liquidação da sua fortuna, exceto as propriedades que possuía no Rio e davam bom rendimento. Estava ansiosa por voltar a Portugal.

Nunca gostara do Brasil, embora gozasse sempre perfeita saúde. A nostalgia da pátria assaltou-a com

intensidade, e apenas o cadáver do marido desceu à cova escreveu logo à tia Benedita e à D. Eudóxia participando-lhe a infausta notícia.

Aqueles onze anos viveu-os Lígia como que mergulhada num sonho.

Afetuoso, dedicado, carinhoso e bom, o marido fora para ela o melhor dos amigos e o mais apreciável dos homens. Estimava-o como se fora seu pai ou seu irmão e sentiu-lhe a morte com verdadeira mágoa.

No entanto, o seu coração de mulher, na parte misteriosa do mais belo dos seus sentimentos — o amor — nunca dera o menor rebate!

Foi, todavia, a mais dedicada das esposas e a mais honesta das mulheres. Nem por pensamento lhe passou uma só vez a ideia de trair o homem a quem ligara a sua existência.

Da vida de casada conservava a recordação dessa linda viagem a França, à Suíça e à Itália, que

durante quatro meses lhe absorveu todo o seu espírito culto e finíssimo.

Paris deslumbrara-a, mas Milão e Roma tinham-lhe deixado na memória uma impressão vibrante,

sobretudo a majestade imponente da catedral de S. Pedro e a vida elegante do Corso, mais singular e interessante do que a do Bois-de-Boulogne.

O Bernardino prometera-lhe, no regresso a Portugal, visitarem a Áustria, a Alemanha, a Bélgica e

Londres, mas infelizmente, coitado, não pudera cumprir essa promessa.

A Suíça com os seus lagos espelhentos e verdes, as suas montanhas cobertas de neve, a sua animação

de touristes, o Jungfrau e o Pilatos, os hotéis alcandorados nas encostas dessas penedias ciclópicas, a beleza de Davos Platz, procurado por centenas de tuberculosos lívidos, de grandes olhos profundos, sonhadores e tristes, Lucerna, Zurique, Berna, o sabor delicioso do leite, a frescura ideal da manteiga e a

serenidade bondosa e casta de todo aquele povo trabalhador e civilizado, tinham-lhe não somente perturbado o cérebro, mas deixado no espírito as mais doces e adoráveis recordações.

Ah, como ela teria gozado naquele cantinho da terra se o seu coração amasse o marido, se um

entusiasmo apaixonado e terno demorasse na sua alma, relevando-lhe de uma poeira de oiro e de um ideal de ternura todos aqueles quadros grandiosos e belos da natureza!

Sofria mesmo pela impossibilidade de pressentir esse sentimento pelo homem a quem pertencia e que

a idolatrava com celestial amor.

Quantas vezes nos braços dele procurara enganar-se a si própria, e a carne se recusara a obedecer-lhe!

Finalmente, que as exigências do Bernardino eram as mais modestas possíveis. Em onze anos de casada e, apesar da excessiva elevação da temperatura, nunca ele a vira em camisa!

Guardava nas suas relações matrimoniais uma santa castidade patriarcal, digna dos tempos bíblicos.

Uma tarde, a sua amiga Madalena de Matos, casada recentemente com o guarda-livros da casa, confidenciou-lhe segredos que a deixaram atónita!

Segredos capitosos da sua vida de casada que ela nunca imaginara que se executassem.

O marido, o Matos, adorava-a, e ela casara com ele por paixão. E na franqueza dos seus vinte e dois anos e na amizade que votava a Lígia, contou-lhe esses encantos da vida de dois entes que se amam, os

beijos ardentes e incondicionais que geram desejos, as carícias excitantes, os arrulhos amorosos, a arte de gozar, um mundo enfim de revelações, desde os ósculos que o marido lhe dava nos pequeninos pés

perfumados e brancos até ao impudor de tomarem os dois banho na mesma piscina, como Adão e Eva antes do pecado!

Lígia riu muito, mas quando meditou no caso concluiu:

— Sim, está bem, quando há amor de parte a parte deve ser assim!

E o seio arfou-lhe num movimento rápido e convulso. Ela, porém, não amava, e ainda que amasse seria

a mesma coisa.

O Bernardino possuía a castidade austera do marido, sob todos os prismas por que a moral dogmática encara este curioso espécimen social.

*

A criada trouxe o café do Leonel, um café precioso, odorífero, puro, como ele gostava e a mãe lhe

sabia preparar.

— Sabe, mamã, disse-lhe ele deitando na chávena um torrão de açúcar, domingo vou passar o dia a Sintra com o conde da Lagoa Escura. Naturalmente fico lá e só regresso a Lisboa na segunda-feira depois

do almoço.

— O conde é muito teu amigo, filho.

— Muito, mamã. Conheci-o há dois anos em S. Carlos, e foi aí que estabelecemos relações.

E depois de ter levado a chávena aos lábios, observou:

— O café hoje está um pouco mais fraco.

— Pois olha, filho, é do mesmo. Se queres vou fazer-te outro.

— Não, mamã, este está bom. Queres?

— Não, filho. Faz-me mal o café tão forte, e a ti não te pode fazer bem.

— Assim é que eu gosto dele.

— Então bebe. Queres conhaque?

— Um cálix.

Bateram à porta.

— Quem será? disse a D. Eudóxia.

— O correio, respondeu a criada.

E veio trazer numa salva uma carta tarjada de preto.

— É do Brasil, mamã, exclamou o Leonel.

— Ai, filho, aconteceu decerto alguma coisa triste. Abre-a e lê que a mim falta-me o ânimo.

O Leonel rasgou o envelope e leu:

 

Minha querida madrinha e amiga,

Escrevo-lhe esta sob a mais dolorosa das impressões. Meu marido faleceu ontem pelas cinco horas

da tarde, de uma congestão cerebral após ter bebido sobre o jantar um copo de água gelada.

O médico, chamado a toda a pressa, só pôde verificar o óbito.

Foi uma enorme desgraça. Um homem ainda moço, tão bom e tão meu amigo.

Por este correio escrevo a minha tia participando-lhe esta desgraça.

Ele deixou-me sua herdeira universal e dez contos de réis a seu falecido marido, o meu querido

padrinho, com a cláusula de passarem para si no caso dele já não ser vivo como infelizmente não é.

Tão depressa liquide, mandar-lhe-ei o cheque sobre Lisboa para a madrinha receber o que lhe

pertence.

Eu em breve regressarei a Portugal. Estou farta do Brasil.

No seguinte paquete serei mais extensa.

Estou muito aflita e incomodada com esta fatalidade.

Saudades ao Leonel e a madrinha aceite um beijo e um abraço desta sua

Afilhada e amiga

Lígia.

 

— Coitado do Bernardino! exclamou a D. Eudóxia. Deus lhe tenha a alma em descanso. Era um santo homem. Conheci-o na loja de teu pai ainda não éramos casados.

— A Lígia está, pois, viúva e rica, observou o Leonel.

— Rica, dizes tu? Riquíssima. A fortuna do Bernardino, depois de reconstituída, deve andar para cima de trezentos contos, segundo teu pai me dizia.

— Ela na carta não se mostra muito pesarosa, observou-lhe o Leonel.

— Ora, filho, aqui para nós, a Lígia casou com ele por interesse, e não por amor. Foi sempre uma excelente rapariga, mas era muito ambiciosa. A D. Benedita mesmo já me tem dito isto. O Bernardino

podia ser pai dela, tinha mais vinte e dois anos. Era uma grande diferença de idades.

— Esses dez contitos, disse o Leonel, fazem-nos bem bom arranjo.

— Ah, o Bernardino foi sempre muito nosso amigo, e era homem franco e obsequiador.

— Deus lhe fale na alma, rematou o Leonel secamente.

E esvaziando o cálix de conhaque, compôs o laço da gravata, acendeu um cigarro e, beijando a mãe,

saiu. Eram onze horas do dia.

De há muito que se despedira do escritório, passando a vida sem fazer nada, em vadiação pelas ruas de Lisboa, em passeios e festas com outros amigos tão vadios como ele.

A mãe não sabia de nada, e ele dissera-lhe que o patrão o incumbira de um serviço especial na bolsa e na alfândega que só começava às onze e meia, para assim se levantar tarde, almoçar tarde e fazer vida de

lorde.

O conde da Lagoa Escura, que por causa dele tivera um conflito com o Couto capitalista, pagava tudo generosamente.