O Sr. Ganimedes
Capítulo VII
Estava-se em fins de janeiro, pleno inverno chuvoso e frio, mês ingrato para os pobres e de alegria
para os ricos no conforto das suas casas, no bom passadio das suas mesas, nos bailes, soirées, reuniões e teatros, que os reclamam sempre, como amenização agradável da mísera passagem da existência.
Funcionava S. Carlos, onde o Leonel tinha a sua cadeira de assinante, que só deixava de ocupar nas noites em que recebia o conde da Lagoa Escura no seu apartamento de cocotte na Rua do Trombeta.
Na última palavra da moda e da elegância, o Leonel, cuja existência crapulosa a maioria dos seus
amigos ignorava, porque ele mantinha uma aparência corretíssima que não dava margem à difamação, era o árbitro do chique entre os dilettanti.
As suas camisas, as suas casacas, os seus colarinhos, coletes e gravatas, apontavam-se como modelos dos últimos figurinos de Paris e Londres.
As mulheres bombardeavam-no com os seus olhares lânguidos e insinuantes, mas ele era de pedra.
Todos os seus afetos e expansões concentravam-se no Liberato, o seu único e apaixonado amor, a quem sofria brutalidades e rudezas que contrastavam flagrantemente com a distinção e delicadeza com que o
conde o tratava.
E como uma mulher enamorada pode fazer ao homem da sua paixão, ele espiava o outro, e tinha ciúmes e zelos, amuos e tristezas, se por acaso o via a conversar mais intimamente com algum rapaz suspeito!!!
Porque, coisa digna de reparo, os efebos reconhecem sempre os da sua seita, como as cortesãs descobrem as mulheres fáceis, ainda que estas guardem prudentemente todas as aparências que as possam
comprometer.
Estes amores, porém, exatamente o que sucede com as mulheres, traziam-no apreensivo e distraído da paixão que o conde lhe tributava, a ponto de algumas vezes uma suspeita atravessar o espírito do ilustre
titular.
Vigiava-o o melhor que era possível, atenta a sua posição, a sua qualidade de chefe de família, e o ser
muito conhecido em Lisboa, mas não descobrira motivo para a sua suspeita, a não ser o encontrá-lo menos efusivo do que dantes.
Queixara-se disso, e o Leonel só então compreendeu que o seu protetor andava desconfiado e por isso
redobrou de precauções nos seus encontros com o Liberato, recebendo-o altas horas, depois de verificar pessoalmente que o conde recolhera ao palácio.
A fim de o tentar pelas seduções da vaidade, que era o seu ponto fraco, o conde comprara-lhe um carrinho muito elegante e dispensara-lhe um cavalo dos seus para ele fazer o passeio da tarde em companhia de algum amigo.
*
Como quase não recebia visitas de ninguém e essas mesmas eram pessoas modestas que raras vezes
saíam de casa, antigas relações de seu marido, duas velhotas e um velhote estabelecido ao lado da loja do Martins e que já trespassara o estabelecimento, dispondo de uma fortuna muito razoável, D. Eudóxia
ignorava o género de vida que o filho levava, julgando-o na Bolsa em serviço do patrão, à hora a que ele quebrava as esquinas pelas ruas em companhia de outros vadios elegantes da sua igualha.
Em casa de D. Benedita, para onde a D. Eudóxia ia passar todas as noites até às dez horas, ativava-se
uma azáfama fora do vulgar.
Lígia escrevera, pedindo-lhe que lhe preparassem o seu antigo quarto, pois enquanto não arranjasse
casa sua viria viver para a da tia.
A vida de hotel, nova como ainda era, não lhe convinha nem estava acostumada a ela. Em hotéis apenas vivera durante a viagem de núpcias que fizera a Paris, Suíça e Itália, em companhia de seu
falecido marido.
Recomendara à tia que queria o quarto confortavelmente mobilado, para o que lhe enviava uma ordem
de oitocentos mil réis, a receber do seu correspondente em Lisboa.
Paralítica e sem relações, a D. Benedita ficou muito atrapalhada com aquele desejo da sobrinha, que aliás considerava justo, como de senhora rica que era.
Consultou a D. Eudóxia, que lhe prometeu falar ao filho.
O Leonel tinha um notável bom gosto artístico, de que era prova o seu quarto luxuoso e encantador que
a D. Benedita já vira uma vez. Com certeza que ele não lhe recusaria o favor de tratar do arranjo do quarto para quando Lígia chegasse.
No dia seguinte, ao almoço, porque nesse, ele não jantara em casa, mas sim em Cabo Ruivo, em
amoroso tête-à-tête com o Liberato, expôs-lhe o assunto.
O Leonel aceitou a missão, de que o encarregavam, com todo o júbilo.
— Ora essa, mamã, respondeu ele sorridente, pois em Cabo Ruivo gozara felicidades amorosas inarráveis, com todo o gosto farei o que a D. Benedita (que ainda lhe chamava menino) lhe pediu. De mais a mais para Lígia, a minha primeira professora...
— E a tua noiva, interrompeu a mãe. Lembras-te?
— Lembro, lembro, mamã!
E o Leonel deu uma gargalhada.
Cheia de amor maternal a D Eudóxia levantou-se e beijou-o carinhosamente, dizendo-lhe:
— Tu és a pérola dos filhos e dos rapazes.
O Leonel abraçou-a. A mãe era a única mulher de quem gostava.
À tarde a D. Benedita agradeceu-lhe muito o favor que ele ia prestar-lhe, e logo no dia seguinte o
Leonel, dando conta ao conde do pedido que tivera, lançou mãos à obra. Como não tinha que fazer, aquele serviço servia-lhe de distração.
Arranjou o quarto forrando as paredes com um lindo papel verde-malva e ouro, oleando o chão,
pondo-lhe cortinas brancas e reposteiros de seda vermelha e amortecendo a luz nas janelas com uma vitrage artística representando episódios da Idade Média. Um leito de pau-santo, estilo D. Luiz XV, uma mesa-de-cabeceira e um grande espelho de moldura de carvalho esmaltado completavam a mobília.
No quarto seguinte, colocou o toilette, a cómoda e o guarda-fato de nogueira da América, o chão alcatifado e as paredes forradas de cor-de-rosa pálido.
Ornamentou tudo com quadros e pequeninos étagers e mísulas com jarros, que deviam estar cheios de
flores frescas quando Lígia chegasse.
Ao Leonel não escapou o mais leve detalhe.
— Oh! exclamou a D. Benedita, pasmada, mas isto está um encanto!
— E ainda me sobraram quarenta mil réis, exclamou o Leonel radiante.
— Ah, menino, que jeito que tem para arranjar uma casa!
A D. Eudóxia lagrimejava com os elogios que a Benedita rendia ao filho.
Era a sua fraqueza e a sua cegueira de mãe extremosa e amantíssima.
*
Finalmente, a 29 de janeiro, pelas oito horas da manhã, o Clyde entrava no Tejo e fundeava em frente de Belém, arvorando a bandeira quarentenária.
Lígia devia, como os demais passageiros que se destinavam a Lisboa, permanecer oito dias no Lazareto.
O Leonel não a foi esperar por este motivo, escrevendo-lhe aliás em seu nome e no da mãe, participando-lhe que tão depressa findasse a quarentena lá estariam para lhe dar as boas vindas.
E assim foi.
Ao cabo de oito dias, que menos não pudera ser porque a febre-amarela grassava no Rio com intensidade e a bordo dera-se um caso fatal num passageiro de segunda, cujo cadáver fora lançado ao
mar cinco dias depois de o paquete sair, a D. Eudóxia e o Leonel, logo na manhã do dia nono, estavam no Lazareto.
Lígia abraçou-se à D. Eudóxia, exclamando:
— Há doze anos que a não via, minha querida madrinha.
E encarando com o Leonel disse:
— Mas como tu estás um homem! Deixa que te abrace e te trate por tu, acrescentou. Desculpa, mas conheci-te tão pequenino que não sei nem posso dar-te outro tratamento.
E o Leonel abraçou-a muito alegre e satisfeito.
— Como está nutrida! exclamou.
Efetivamente, Lígia engordara muito, sem aliás perder a elegância suprema de todas as suas linhas e
contornos.
Estava uma bela mulher, em plena maturação da vida; trinta e dois anos apenas, formosa, fresca, louçã, uma verdadeira sedução capaz de tentar um monge.
Perdera um pouco as suas antigas cores rosadas, mas essa mesma palidez, adquirida pelo clima do Brasil onde residira onze anos, mais linda a tornava ainda, dando-lhe um tom poético, doce, voluptuoso e meigo.
Os seus olhos, esses raros e expressivos olhos verdes que tinham sido a tentação do Bernardino, conservavam todo o brilho e expressão que sempre os revestira.
Trazia consigo a criada mulata que a servia desde o primeiro dia em que chegara ao Brasil e que lhe
era dedicada e fiel como um cão.
— Traz muita bagagem? inquiriu o Leonel.
— Ai filho, se tu me tratasses disso era favor que me fazias. Nada menos de sete malas e três baús. E notem que deixei intacta a minha casa do Rio. O que trago são apenas roupas, alguns objetos de uso, várias coisas de valor que me ofereceram e os meus fatos.
— E porque não vendeste a casa? inquiriu a D. Eudóxia.
— Não quis. Pode ser que um dia ainda volte ao Rio, pois tenho lá interesses, e assim já dispenso
hotéis. Demais, foi a casa onde vivi onze anos com meu marido e ficou ao cuidado da família do meu procurador, que mora no segundo andar.
— Tencionas voltar ao Brasil?
— Tão cedo, não. Estava ansiosa de tornar a ver Lisboa, de mais a mais sabendo que a tia era viva, graças a Deus. É possível que daqui a alguns anos lá vá ver as minhas propriedades.
— Tens muitas?
— Seis prédios no Rio e dois em S. Paulo.
E cheia de ansiedade perguntou:
— A tia está muito velhinha, pois não está?
— Não, nem por isso. Quase que não faz diferença do que era quando partiste. Apenas não pode andar,
porque a paralisia das pernas é completa.
— E o Leonel é bom rapaz?
— Oh! filha, não imaginas! É o modelo dos filhos e o exemplo dos rapazes. Nunca me deu o menor
desgosto. Obediente, dedicado, afetuoso, sem vícios a não ser o de fumar, e isso mesmo pouco, muito arranjado e sério, não se dando senão com pessoas finas: é um anjo, Lígia, é um anjo.
— Está um bonito rapaz e veste muito bem.
— Isso é a sua mania: vestir bem. É um figurino. Se o visses de casaca! Que bem lhe fica. Parece um príncipe.
— E em que se emprega?
— Está numa casa de comissões, onde ganha bem. Os patrões são muito amigos dele. Faz o serviço da
Bolsa, para onde vai ao meio-dia.
— E porque não seguiu ele uma carreira? Médico, militar, advogado, professor?
— Era fraquito de cabeça e não pôde com os estudos. Mas é muito esperto e ativo, muito fiel e
trabalhador. Os patrões estão contentíssimos com ele e já lá está há três anos.
— Está tudo já a bordo do bote, disse o Leonel aproximando-se e compondo o seu elegante fato de inverno e a gravata da moda, onde luzia um rubi rodeado de brilhantes.
Lígia pôs sobre os ombros a sua rica capa forrada de peles, e dando o braço à D. Eudóxia, embarcou.
*
Quando a viu, a D. Benedita sofreu uma comoção nervosa tão intensa, que conseguiu vencer a ataxia
das pernas e erguer-se na sua cadeira de rodas para a abraçar.
Lígia teve uma crise de choro nos braços dessa senhora que lhe servira de mãe, e durante alguns
minutos assim estiveram abraçadas sem poderem articular palavra.
Quando se tranquilizaram, a D. Eudóxia foi mostrar-lhe os seus aposentos.
— Oh, mas que lindo, que elegante, que bom gosto com que tudo isto está arranjado, exclamou
maravilhada.
— Foi o Leonel que cuidou de tudo, observou a D. Benedita.
— E também de pôr flores nas jarras?
— Também.
— Mas tu és um tesouro, exclamou Lígia sorrindo-lhe e envolvendo-o carinhosamente na ampla e doce
expressão do seu olhar adorável e bom.
— Lembras-te de quando ele te chamava a sua noiva, disse a D. Benedita.
— Perfeitamente.
E Lígia cravou no Leonel os seus olhos verdes, examinando-o com penetrante atenção.
Nesse tempo era ele um petiz de oito anos, débil, franzino, tímido e quase feminil, enquanto que agora,
doze anos volvidos, estava um belo rapaz na aurora da mocidade, apolíneo, sedutor, desenvolvido, magnífico, um homem em toda a florescência da vida, formoso como poucos, elegante como
pouquíssimos.
E nesse golpe de vista lançado sobre o homem que ela ainda conhecera em criança, na primavera da sua juventude cheia de ambições e de fantasias que a sorte lhe satisfizera, via os doze anos passados da
sua vida conjugal tão feliz e falta de consolos de alma como decerto não haveria em todo o mundo outra igual.
O Bernardino fora sempre um marido dedicado, afetuoso e bom por excelência. Nunca lhe vira um mau modo, nem uma frase menos amável se soltara dos seus lábios.
Para a manter no bem-estar que lhe oferecera e deixar-lhe uma fortuna sólida, lançara-se de novo ao
trabalho, a fim de reparar certas avarias de vulto que as questões políticas do país tinham aberto na sua vida comercial. Cansado, esse excesso de fadiga numa idade em que o repouso já de direito lhe
pertencia, irritava-lhe às vezes os nervos, mas para ela era sempre o homem carinhoso, cheio de afetos e cuidados que a sensibilizavam.
Na alma de Lígia existia, porém, um vácuo enorme que a torturava. Nunca pudera amar o Bernardino.
Estimava-o mais do que se ele fora seu pai ou irmão, mas amá-lo fora-lhe absolutamente impossível, tanto espiritual como carnalmente.
Depois, desde as confidências que recolhera da esposa do guarda-livros da casa, sua amiga íntima,
acerca dos encantos do amor físico entre dois seres que se amam, ainda mais esse vácuo se alargou.
Realmente as suas relações com o marido eram de uma materialidade desesperante e muitas vezes acudiam-lhe à memória as palavras de sua tia Benedita no seu regresso de Sintra após os oito dias da
lua-de-mel:
— «Banal, muito banal tudo isso», dissera ela.
Realmente, comparando o que se passava entre a sua amiga e o marido desta, e as suas relações com o Bernardino, estas rastejavam pela animalidade dos primeiros dias da criação.
Resignara-se, porém, numa honestidade de aço que todos reconheciam e respeitavam. Nunca
simpatizara com a vida mundana da sociedade fluminense, e por isso passava uma existência patriarcal cuidando da casa, das flores, dos pássaros, e desses mil nadas domésticos que lhe absorviam todo o
tempo.
De verão ia para o campo, para a sua elegante propriedade na Tijuca, e de inverno frequentava muito os teatros, especialmente aqueles onde funcionavam companhias portuguesas, sempre acompanhada do
marido.
Recebia poucas visitas e ainda fazia menos. Assim passara doze anos da sua vida como que num
sonho, com o coração por assim dizer adormecido, e o espírito tranquilo e sereno, embora não satisfeito.
A morte, essa finalização fatal de todo o drama da vida, viera modificar a sua situação. Estava rica e saudosa da pátria. Regulara os seus interesses, volvera a Portugal, e encontrava-se de novo no seu quarto
de solteira, nesse quarto burguês onde tantas vezes, ao romper do dia, com a formosa cabeça reclinada sobre o braço escultural, idealizara as mais belas fantasias que o destino lhe satisfez em toda a sua
essência material.
E a nota vivida e culminante desse período de doze anos era o Leonel, que ela deixara uma criança de vestidos de menina e cabelos compridos, e viera encontrar um belo rapaz, em toda a plenitude das
seduções do seu sexo.
E quanto mais olhava para ele, mais formoso e encantador o achava.