O Sr. Ganimedes
Capítulo XI
Eram onze horas da manhã, dirigia-se Lígia para a mesa do almoço, linda e gentil, no seu magnífico
robe de crepe da China com rendas cremes, os cabelos esplendentes presos num gancho de ouro, e as mãos brancas esculturais, aristocráticas e cuidadas a primor, recamadas de anéis de fino gosto, quando o
criado lhe apresentou, numa salva de prata, uma carta que um moço acabava de trazer.
Lígia reconheceu a letra. Era da D. Eudóxia, sua sogra e madrinha.
Abriu-a e leu.
A mãe de seu marido participava-lhe que a tia Benedita, que se sentira muito incomodada depois do chá, tivera de madrugada o ameaço de uma congestão cerebral, sendo logo chamado um médico que
declarou perigoso o seu estado.
— Há alguma novidade? inquiriu o Leonel sentando-se à mesa e compondo o laço da gravata.
— Lê, respondeu Lígia, e apresentou-lhe a carta.
— Está velhinha, está velhinha, comentou servindo-se da mayonnaise de lagosta que o criado lhe apresenta.
Lígia levantou-se da mesa.
— Não almoças?
— Não. Almoça tu.
E chamando o criado, disse-lhe:
— Ó Bernardo, dê-me um copo de leite e mande já aprontar o trem.
O Leonel encolheu os ombros.
— Serve-me depressa para eu acompanhar a senhora, disse ao criado.
— Não te incomodes, observou Lígia com aquele modo triste e melancólico que nunca mais a deixara
desde a manhã seguinte à noite do seu casamento com o Leonel.
— Não me incomoda nada. Sempre fui muito amigo de tua tia e o meu dever é ir saber do seu estado
visto estar mal.
— Faze o que queiras.
E Lígia retirou-se aos seus aposentos para se vestir. Em menos de meia hora metia-se no trem com o
marido e dirigia-se a casa de D. Benedita.
A pobre senhora estava muito perigosa. O ataque repetira-se às nove da manhã e deixara-a paralítica
de todo o lado esquerdo, com a boca torcida e o olho pasmado e meio fechado, numa expressão horrível que pronunciava a morte. Perdera a noção das coisas e não reconheceu a sobrinha. Às três da tarde teve o terceiro ataque, fez um esforço para dizer qualquer coisa, olhou para Lígia, e expirou serenamente sem
soltar um ai, sem aflições nem torturas.
Contava sessenta e seis anos incompletos.
D. Eudóxia ofereceu-lhe um lugar no seu jazigo enquanto se não concluía o que Lígia mandara construir para si no cemitério dos Prazeres.
Com esse espírito serviçal, que era inato em Leonel, tratou do enterro com toda a solicitude.
Lígia, rigorosamente vestida de luto, acompanhou ao cemitério o cadáver daquela boa mulher que lhe servira de mãe e que, por laços de parentesco, era irmã de sua mãe.
E durante oito dias, as portas do seu palacete conservaram-se cerradas em sinal de sentimento.
O Nuno soube deste facto e, como homem fino e delicado que era, resolveu deixar decorrer algum
tempo antes de por em prática o que resolvera.
Verificou porém, que o Leonel, que durante três noites não saíra, logo na quarta fora para a casa da rua do Trombeta em companhia do Liberato.
Decorrida uma semana após a morte de D. Benedita, Lígia recebeu pelo correio a seguinte carta, que leu duas vezes entre admirada e surpreendida:
Ex.ma Sr.ª
Dão-se na vida matrimonial de V. Ex.ª factos de tal gravidade, que a minha dignidade de homem e a simpatia que sempre me mereceu não pode consentir que eles persistam sem ter com V. Ex.ª uma
conferência importante.
Neste desejo abdico por completo de todos os sentimentos que em tempos manifestei a V. Ex.ª
quando ainda estava viúva.
Prezo-me de ser um homem de bem, e se lhe mereço confiança, V. Ex.ª me indicará o dia e a hora em que me pode ouvir, pois o que lhe tenho a comunicar é grave e implica na sua reputação e
honestidade.
De V. Ex.ª
At.º Ven.or [2] com todo o respeito e consideração
Nuno de Freitas e Vasconcelos.
P. S. — V. Ex.ª pode responder-me para o “Grémio Literário”, Rua Ivens.
Lígia ficou pensativa.
Aquela carta era do tenente que lhe fizera a corte pouco antes de ela casar com o Leonel, e que em S.
Carlos não deixara de a contemplar.
Mas, na sua vida matrimonial dava-se realmente um facto tão grave, e que tão doloroso era, que ela ansiava por lhe conhecer as causas.
Desconfiou logo que se tratava de qualquer amante do marido e, nestes termos, não hesitou mais, escrevendo ao Nuno a seguinte resposta:
Ex.º Sr.
Amanhã, às duas da tarde, espero-o em minha casa.
Lígia.
E durante vinte e quatro horas o seu cérebro perdeu-se num verdadeiro mar de conjeturas, na expetativa de uma revelação que lhe provasse que o Leonel amava outra, de tal maneira que lhe era absolutamente impossível cumprir com os seus deveres matrimoniais!
A desconfiança da existência de uma amante enquistara-se no cérebro de Lígia de uma forma irredutível.
Sagaz, percebia que o marido estava magnificamente disposto de saúde, comia muito bem e nunca mais
cuidara de dar as fomentações destinadas a extinguirem aquele estado que ele atribuía à queda que dera da bicicleta.
À custa de bom dinheiro, mandara-o espionar por pessoa de toda a confiança, e ao cabo de oito dias soube que ele ia quase todas as noites a uma casa da rua da Trombeta em companhia de um homem alto e espadaúdo, com o qual se encontrava quase todas as noites.
Mais lhe garantiram que nesta casa isolada não habitava mulher alguma, nem para lá se via entrar de dia ou de noite qualquer outra, além da velha Angélica encarregada da limpeza, e que fora quem
fornecera estas indicações.
Angélica acrescentara, porém, que na casa existiam trajes femininos luxuosos e de apurado gosto, e este detalhe levara Lígia ao convencimento de que, fosse como fosse, àquela casa que seu marido
frequentava iam mulheres, ou mulher, aquela que lhe roubava desde o primeiro dia do seu casamento com o Leonel os justos e legais direitos da sua qualidade de esposa.
Demais, o modo indiferente, embora muito respeitoso e cortês, com que o marido a tratava, mais afirmaram no convencimento em que estava.
Precisava sair daquela situação que se lhe tornara horrendamente intolerável, tanto mais que morta sua
tia Benedita, não tinha com quem desafogar a enorme mágoa que lhe enlutava a alma.
A carta do Nuno fora como que a esperança da desvendação desse mistério, que para ela constituía
uma verdadeira tortura, um martírio indefinível de todas as horas e de todos os momentos.
Em sua casa não tinha o menor receio que o tenente lhe faltasse ao respeito, e, à mínima falta de cortesia ou frase que pudesse ferir a sua dignidade de mulher honesta, mandá-lo-ia pôr fora pelos seus
criados.
Parecia-lhe, porém, que tal não havia de suceder, porque o Nuno portara-se sempre com a maior
correção, além de que a sua qualidade de oficial brioso e digno, filho de mais a mais de gente de alta sociedade, lhe dava garantias de que ele, embora em tempo lhe houvesse feito a corte, saberia portar-se como um verdadeiro cavalheiro.
A ideia de que viria ao conhecimento da causa da sua infelicidade conjugal sobrepujava, porém, a todos os respeitos e considerações e nestes termos aguardou ansiosa a hora que tinha marcado para o
receber.
Às duas em ponto, o Nuno apresentou-se em casa de Lígia; o guarda-portão mandou-o subir e o criado introduziu-o na sala de visitas, elegante e ricamente mobilada, cujas janelas davam para a Avenida, quase
deserta àquela hora.
Lígia não tardou a aparecer sedutoramente formosa no seu traje de veludo preto, a que a obrigava o luto pela tia.
Ele cumprimentou-a, sentindo todo o sangue afluir-lhe ao coração, e ela, sentando-se, indicou-lhe uma cadeira próxima.
— Espero que V. Ex.ª, exclamou Lígia, quebrando aquele silêncio que se tornava embaraçoso para
ambos, me explicará claramente o que me mandou dizer na sua carta.
— Minha senhora, respondeu o Nuno, há coisas que pela sua qualidade se tornam tão melindrosas, que
se não podem explicar a uma senhora com a clareza que V. Ex.ª, com muita razão, exige.
— Não compreendo bem as suas palavras, observou Lígia.
— Procurarei fazer-me compreender se V. Ex.ª me der licença para lhe falar com a liberdade precisa
para essa compreensão.
— Fale, respondeu Lígia simplesmente.
— É certo que o senhor seu marido pretextou sofrer dos resultados da queda que, ainda em solteiro, dera da bicicleta, para não cumprir com os seus deveres conjugais?
Lígia fez-se muito vermelha e respondeu:
— Parece-me senhor, que essa pergunta tem tanto de impertinente como de vexatória para a minha dupla qualidade de mulher e de esposa.
— Sem dúvida, mas da resposta de V. Ex.ª dependem todas as minhas explicações.
Lígia hesitou um momento. Pensou em levantar-se e dar a conferência por terminada, mas o aguilhão venenoso do ciúme feriu-a na alma, e dominando-se respondeu:
— É verdade isso que me diz, e então?
— É verdade também que V. Ex.ª julga que seu marido tem uma amante, por causa da qual mantem esse
insólito procedimento?
— É, mas...
— Mas V. Ex.ª tem sido e continua a ser vilmente, infamemente enganada.
— Sempre é certo pois, que ele tem outra mulher?
O tenente sorriu-se.
— Antes fosse isso, replicou.
— Antes fosse isso, diz o senhor?! Porquê, ele não tem amante?
— Eu lhe digo. Pouco depois de ter escrito a V. Ex.ª a minha declaração, parti para o norte para um
outro regimento, para onde fui transferido, e como V. Ex.ª não me contestou, não insisti. Quando regressei a Lisboa, onde me convinha estar, encontrei V. Ex.ª já casada, e em S. Carlos ouvi tanta coisa a respeito
de seu marido, que por minha vez também quis saber.
— E o que soube?
— O bastante para pessoalmente ir a uma casa da rua do...
— Trombeta, completou Lígia.
— Ah! V. Ex.ª sabe?! exclamou Nuno, desnorteado.
— Sei, uma casa para onde ele vai quase todas as noites em companhia de um homem alto, forte, de
grandes bigodes negros, casa onde, segundo me informaram, nunca vai mulher alguma.
— E não lhe mentiram.
— Mas, nessa casa existem roupas de mulher!
— Também é verdade.
— Oh, senhor, que hei de eu então pensar de tudo isto?
— Perdoe-me o que vai ouvir. Seu marido, vicioso da mais ínfima espécie, é que é a amante desse homem que o acompanha.
Lígia ficou estática e como que petrificada, a olhar para o Nuno.
— O que o senhor acaba de me dizer é um horror! E tapou o rosto com as mãos.
— A pura verdade, minha senhora. Eu vi.
— O senhor viu?!
— Não tanto quanto desejava, mas ouvi o bastante para construir o quadro, e pelo que ouvi é que o meu ânimo não sofreu que V. Ex.ª mais tempo permanecesse num engano que é um ultraje e uma vergonha.
Se muitas pessoas pensam que V. Ex.ª ignora tudo, outras há que a imaginam cúmplice das baixezas de seu marido.
— Pois há quem me julgue assim? exclamou Lígia, indignada.
— Há, infelizmente; e por haver é que eu, que tanto a amei, não quis vê-la arrastar a sua existência amarrada a uma suspeita que é uma infâmia, e da qual V. Ex.ª está inocente. Se V. Ex.ª me fosse
indiferente, pouco ou nada me importaria com a sua vida particular, mas quando se ama uma mulher, como eu a amei a si, não podemos a sangue-frio vê-la alvo do escárnio do mundo com a convicção, aliás,
de que ela não é culpada.
Lígia passou as mãos pela fronte escaldante e fez um esforço supremo para dominar a enorme comoção de que estava possuída.
Muito pálida, encarou finalmente o seu interlocutor e, com voz pausada e grave, disse-lhe:
— Senhor Vasconcelos, eu creio piamente que V. Ex.ª é um homem de bem, que honra por igual o seu
nome, o seu sexo e a sua farda. Estou mesmo convencida que o senhor era incapaz de, por um despeito de amor não correspondido, vir a minha casa revelar-me monstruosidades do quilate dessas que acaba de dizer-me, assacando-as, sem razão nem fundamento, ao homem de quem uso o nome e que é meu marido.
Mas, e peço-lhe que se não ofenda com o que lhe vou dizer, há acusações de tal gravidade e importância, dependem delas de tal maneira o futuro de uma mulher, que lhe pedia a fineza de me facultar os meios de
por mim própria avaliar os factos para nunca me restar no espírito a menor hesitação ou dúvida de que laborei num erro, ou, por qualquer motivo embora desculpável me deixei levianamente sugestionar por umas revelações tremendas, cuja impressão moral V. Ex.ª decerto calculará o efeito que terão produzido
no meu espírito.
— Encontro toda a razão nas palavras que V. Ex.ª acaba de proferir, e muito ao contrário de me ofender com elas, agradeço-lhas do mais íntimo da alma, tanto mais que V. Ex.ª me fez um pedido que eu
desejava propor-lhe, mas para isso me sentia com pouco ânimo, temendo melindrá-la.
— Compreendo-o, senhor. Realmente o meu pedido talvez lhe possa parecer um pouco leviano e inconveniente. Assim é, na realidade, mas trata-se de meu marido; tenho trinta e dois anos já feitos, e sou
uma mulher casada em segundas núpcias. Se todas estas razões não absolvem por completo a inconveniência do meu desejo, justificam-no pelo menos até certo ponto.
O Nuno fez com a cabeça um gesto afirmativo.
— Quero certificar-me em absoluto dessa incrível monstruosidade moral do homem a quem liguei o meu destino, para, sem hesitações nem remorsos, sem fraquezas nem considerações de espécie alguma,
quebrar para todo o sempre essa cadeia que julguei ser de felicidade e se me apresenta de lodosa ignomínia.
— Estou em tudo e para tudo às ordens de V. Ex.ª.
— Diga-me, pois, como se poderá realizar o que lhe disse?
— Da mesma maneira que eu realizei a minha curiosidade, também movido pela mesma dúvida que
perdura no espírito de V. Ex.ª.
— Como há de ser então?
— Com as chaves que possuo, V. Ex.ª entrará na casa da rua do Trombeta e ocultar-se-á no tal quarto que fica ao lado da alcova. Se tem coragem para permanecer sozinha, eu retiro-me; se quiser que eu esteja, acompanhá-la-ei.
— Muito obrigado pela sua dedicação. Prefiro ficar só. O senhor dispensar-me-á a fineza de me esperar na rua até que eu saia. Podia dar-se um acaso qualquer, e se me encontrassem em companhia de
um homem, meu marido tinha o direito de duvidar do meu procedimento, o que seria para mim, num caso destes, a maior das contrariedades.
— E se por eventualidade inesperada esse caso se der?
— Não tenho medo. Sou bastante animosa para encarar de frente a situação. Diga-me: desse quarto vê-se o que se passa na alcova?
— Não, mas hoje vou lá e com uma verruma farei na parede um furo suficiente para V. Ex.ª tudo poder observar.
— Quando poderei ir?
— Amanhã mesmo, se assim o determinar.
— Seja. Às oito e meia estarei nas proximidades da rua. Não se aproxime de mim nem me fale. Basta
que abra a porta. Eu entrarei em seguida.
E Lígia levantou-se muito pálida e nervosa.
O Nuno fez-lhe uma vénia e apertou-lhe a mão perfumada, alva, escultural, recamada de anéis
preciosos, que ela lhe estendeu.
Quando o portão se fechou sobre ele, a pobre senhora deixou-se cair numa cadeira, dominada por um ataque de choro convulso, que era a contracrise dos seus nervos até ali sopeados por uma grande tensão
de energia e força de vontade.
E nessas lágrimas que lhe ressaltavam dos formosos olhos sobre o veludo do espaldar da cadeira, afundava-se de vez toda aquela esperança de felicidade e ventura que ela antevira no seu segundo
matrimónio.