O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 2 de 15

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O Sr. Ganimedes

Introdução

 

Desde a sua instituição em Portugal, em 1536, até ao início do século XIX, a Santa Inquisição, ou Tribunal do Santo Ofício, reprimiu a sodomia, "o abominável acto nefando" ou o "nefando pecado", que equiparava aos piores crimes, como a heresia. A simples menção da homossexualidade era escandalosa,

os homossexuais, perseguidos, escondiam-se e em sociedade ninguém se atrevia a nomear o “inominável”. Ao longo do século XIX, com o progresso do liberalismo e a extinção das ordens

religiosas, as mentalidades e a moral foram lentamente evoluindo e, na sequência de alguns escândalos com homossexuais que agitaram as páginas dos jornais sensacionalistas da época, Abel Botelho e Alfredo Gallis atreveram-se a publicar, já perto do final do século, romances cuja temática central era a

homossexualidade.

Nas suas obras, Botelho e Gallis apresentam ainda a homossexualidade como uma perversão, uma

doença social que é preciso erradicar, coincidindo com a opinião dos médicos portugueses que, à época, também se começavam a interessar pela inversão sexual dedicando-lhe dissertações académicas, como Adelino Pereira da Silva (A Inversão Sexual, Estudos Médicos Sociais, 1895) ou Egas Moniz (com um

capítulo dedicado à Homossexualidade, no volume 2 de A Vida Sexual, 1902). Foi assim que Abel Botelho incluiu o seu O Barão de Lavos (1891) na série de obras que designou por Patologia Social, e

Alfredo Gallis incluiu o romance Sáficas (1902) na série Tuberculose Social.

O “nefando pecado” passava a ser nomeável e até com algum pioneirismo em relação ao resto do mundo. Robert Howes refere que O Senhor Ganimedes (1906), de Alfredo Gallis, em conjunto com O

Barão de Lavos e O Bom Crioulo (1895), do brasileiro Adolfo Caminha, “são das primeiras obras literárias modernas numa língua europeia a tratar abertamente o tema da homossexualidade

masculina. É este o tema central das três e, embora não sejam pornográficas, a natureza das relações sexuais em causa é descrito muito claramente. Para além disso, situam-se localmente, em Lisboa e no Rio, e decorrem num período quase contemporâneo. (…) Em contraste com o tratamento encoberto dos

romances ingleses da época, os romances portugueses eram bastante mais abertos no retrato que faziam do sexo e da sexualidade, fornecendo assim casos de estudo esclarecedores sobre a circulação

deste novo tipo de conhecimento» [sexual].”

Como romancista, Alfredo Gallis foi um dos autores mais prolíficos da sua época, tendo conquistado grande popularidade com os seus cerca de três dezenas de romances, alguns dos quais com títulos

sugestivos da sensualidade que os impregna, nomeadamente A Amante de Jesus (1893), O Marido Virgem (1900), Devassidão de Pompeia (1909) ou O Abortador (1909). A partir de 1926, com o Estado

Novo e o progressivo retorno da estrita moral cristã, alguns dos seus livros viram-se mesmo proibidos (Mulheres Perdidas, Amor ou Farda: romance contra o militarismo, As Mártires da Virgindade e Sáficas), e Gallis foi sendo deliberadamente “esquecido” e as suas obras deixaram de ser editadas.

Em O Sr. Ganimedes, Alfredo Gallis começa por nos alertar logo no prólogo que o seu livro se destina

a "avisar as mulheres e castigar os efebos [efeminados] pela sua falta de brio e de sentimentos, fazendo ver aos pais que devem acostumar os seus filhos a serem homens desde pequenos, a fim de que a uma educação errada e maricas se não possa atribuir a causa da adoção miserável de hábitos e

costumes indignos do simples brio e respeito natural do homem pelo seu sexo." O tom moralista, no entanto, parece servir apenas para justificar o escandaloso, à época, conteúdo homossexual e um

erotismo soft que renasceu recentemente com As 50 Sombras de Grey e que foi responsável, tal no caso daquele romance contemporâneo, pelo enorme sucesso comercial das obras de Alfredo Gallis. Curiosamente, como observa Howes, “o enredo falha conspicuamente na validação da moral

tradicional”.

 

Bibliografia:

Adelino Pereira da Silva, A Inversão Sexual: Estudos Médico-Sociais (INDEX ebooks, 2014, ISBN: 978-989-8575-37-1 (ebook) e 978-989-8575-38-8 (papel) António Ventura, «Rabelais», isto é, Alfredo Gallis, o pornógrafo (posfácio a Aventuras Galantes, de Rabelais – pseudónimo de Alfredo Gallis, Tinta da China, Lisboa, 2011, págs 167-174, ISBN: 9789896711078)

Comissão do Livro Negro Sobre o Regime Fascista, Livros proibidos no regime fascista. Lisboa, Presidência do Conselho de Ministros, 1981

Egas Moniz, A Vida Sexual (França Amado, Coimbra, 1902) Paulo Jorge Fernandes , Mariano Cirilo de Carvalho: o "poder oculto" do liberalismo progressista (1876-1892), (Colecção Parlamento, Leya, 2010) Robert Howes, Cartoon and Literary Images of Homosexuality in Nineteenth Century Portugal (em Depicting Desire: Gender, Sexuality, and the Family in Nineteenth Century Europe: Literary and Artistic Perspectives, de Rachael Langford, Peter Lang, 2005, págs 133-147) Robert Howes, Concerning the Eccentricities of the Marquis of Valada: Politics, Culture and Homosexuality in Fin-de-Siècle Portugal (na revista Sexualities de fevereiro de 2002)