O Sr. Ganimedes
Prólogo
Onde é que começa e onde é que acaba a moral do romance?
Esta pergunta acode-me naturalmente à imaginação quando me lembro de que, à falta de outros argumentos, os improdutivos me acusam de as minhas obras serem imorais, citando delas a
escabrosidade de algumas passagens e episódios, deixando, porém, em propositado esquecimento o fundo da tese, que elas atacam ou defendem com a arma rija da verdade.
A moral, como a justiça, como a honra, como o pudor, como o brio, como todos os demais sentimentos humanos, está sujeita a convencionalismos e regras variáveis segundo as circunstâncias, o meio e as pessoas sobre as quais ela incide e faz sentir o seu influxo.
Em muitos casos mesmo, onde se lê moralidade, deve ler-se: hipocrisia.
Há no mundo complexos quadros de moral esboçados sobre uma espessa e larga tela de imoralismo,
como aquela das mulheres adúlteras por vício e ausência de sentimentos pundonorosos conhecidos como tais, e que são recebidas em todas as casas, ao passo que as portas dessas mesmas casas se fecham à pobre rapariga incauta, que levada pelos impulsos de um amor sentido e verdadeiro, confiou em demasia
nas falsas promessas do homem que depois a abandonou com a sua desonra e com a sua vergonha na imensidade hostil da sua crítica social.
É imoral toda a mulher que à chuva, ao frio, ao relento, passa horas à janela nas rijas noites de inverno, chamando os transeuntes para angariar a mísera praca com que paga o seu parco sustento à dona do lupanar que a explora, mas cumprimenta-se respeitosamente em S. Carlos, na Avenida, no Chiado, no
Cambaret dos gourmets, etc., etc., a elegante e fina coquette que em casa da sua modista se prostituiu chiquemente em exibições de rendas caras e sedas perfumadas a troco de uns brincos de brilhantes ou de
um cheque de cem mil réis, com toda a delicadeza introduzido num sachet de bons glacês.
É imoral todo o livro que abra sem piedade os bordos purulentos destas chagas sociais, castigando os delinquentes, avisando os incautos, prevenindo os ingénuos e irritando os velhacos, mas têm foras de
santidade, cheiros litúrgicos de pura moral em ação, aqueles que suavemente, com palavrinhas mansas e períodos românticos oleosos e castos, vão ensinando o adultério por meios tão doces e púdicos, que
quando a mulher concede o seu corpo ao amante, esquecendo o que deve ao marido e a si própria, até fica convencida de que praticou a oitava obra de misericórdia — enterrar os vivos — que esqueceu aos fabricantes dos catecismos católicos.
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O que o romance moral propriamente dito pode produzir nos espíritos fracos e nos temperamentos
nervosos, excitáveis, passionais e sensíveis, está de sobejo constatado para que me alongue nessa consideração.
Toda a gente sabe a série de suicídios e de paixões que a publicação do Werther causou em toda a Alemanha.
Era uma obra demasiado moral e apaixonada, romântica e idealista, fora da prática da vida, que levara até à morte voluntária as que julgavam incuráveis os seus sofrimentos morais, verdadeiros ou imaginários, como os romances de grandes paixões idealistas conduzem ao adultério as mulheres que se
julgam agravadas nas suas esperanças pelo prosaísmo do matrimónio, ou feridas pelos maridos nos modos de ver a vida conjugal.
Com um castigo tão rude e doloroso como aquele que apliquei à heroína do meu romance, Os predestinados, poucas mulheres sentirão desejos de serem adúlteras, muito especialmente se têm filhas.
Com o doce encanto que em geral se observa nos adultérios dos romances moralistas, o não ser-se
adúltera é quase sintoma de falta de gosto ou de imbecilidade espiritual.
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Juvenal disse: ridendo castigat mores.
Eu não pretendo castigar os costumes rindo, mas sim apresentando-os em toda a sua nua e crua simplicidade, rasgando de alto a baixo esse véu de hipocrisia em que eles se envolvem; expor bem
firmemente aos tartufos que nem todos se resignam a aceitar sem protesto como coisa legal e pura esta atmosfera de crápula e de deboche particular em que todos vivemos.
As coisas são o que são, e ao romance moderno cabe o papel de traduzir a sociedade a que pertence, corrigindo-a e aplicando-lhe sobre as pústulas o cautério doloroso de uma crítica impiedosa.
É possível que os moralistas da última hora se indignassem menos se eu suprimisse nos meus livros
umas cenas e detalhes talvez um tanto ou quanto escabrosos, mas essa supressão equivaleria a uma castração, porque são exatamente essas cenas e detalhes o banho químico que revela a chapa onde foram
fotografados os indivíduos.
Sem elas, toda a ação, ficaria como que apagada num ténue esfumamento de linhas confusas sobre um fundo sem relevo nem colorido, e os personagens assim apresentados perderiam muito da sua intensidade
pictural.
Foi este o processo seguido por Zola em todas as suas obras, cuja maior soma de leitura é aquela que
diz respeito à descrição do meio onde os personagens se vão desenvolvendo como uma cultura bacteriológica.
No momento em que o cenário esteja em antagonismo com as individualidades apresentadas, a ação
decorre incoerente e dúbia.
É necessário, uma vez por outra, apresentar bem nítido o desenho dos caracteres e dos locais que
produziram toda a dissolvência deletéria do nível moral de um indivíduo.
É possível, pois, que os meus livros sejam imorais na sua epiderme superficial, mas se lhe enterrarem bem fundo na derme o escalpelo da observação fria e justa, imparcial e séria, encontrarão a moral em
toda a contextura da sua rede nervosa.
Poderão objetar-me que a sugestividade de várias cenas perverte e excita os temperamentos lascivos e os caracteres fracos.
É possível que assim suceda até ao ponto em que o reverso da medalha começa a manifestar-se.
Desde, porém, que essa manifestação se revele, a antítese resulta logo, e o que a principio surgiu como uma tentação, acaba por se desenhar como uma expiação e um aviso.
O meu livro Sáficas foi mais proveitoso e leal conselheiro para os pais ingénuos e de boa-fé, que todas as catilinárias que se escrevem contra o amor vil e torpe da mulher pela mulher.
Assim, também, na presente obra abordo uma tese que mais lhe poderia chamar uma chaga social, o efebismo.
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Com um impudor que ultrapassa as raias da inconsciência, apontam-se a dedo e citam-se aí por toda essa Lisboa o nome de efebos de profissão, uns que dessa infâmia fazem modo de vida, outros que
executam por vício e pleno esquecimento do que devem à dignidade do seu sexo.
Dizem vários autores que se nasce efebo como as mulheres nascem tríbades, em consequência do desenvolvimento exagerado do clitóris.
É possível que se deem ambos estes fenómenos fisiológicos, dos quais existem exemplares curiosos observados por vários médicos, mas em regra o efebo é o produto legítimo de uma educação errada ou
descuidada e o hábito adquirido cria uma segunda natureza puramente artificial, com pleno prejuízo da verdadeira, da que é inerente a todas as criaturas.
A sodomia e o masturbismo são dois vícios que uma vez adquiridos tarde ou nunca se perdem.
Ora o homem, como todos os animais da criação, não é naturalmente sodomita nem masturbador.
Se agentes externos lhe não desvirtuarem as suas tendências naturais, a não ser que possua as tais
deformações fisiológicas de que tratam alguns médicos e são raras, a sua inclinação genésica é toda para a fêmea.
Está averiguado que entre os marinheiros que persistem muitos dias no mar sem contato com as
mulheres é que a sodomia se encontra mais vulgarizada, assim como nas penitenciárias muitos reclusos endoidecem em consequência dos excessos da masturbação.
Nos colégios bem conceituados, tanto particulares como oficiais, a vigilância do internato para obstar ao primeiro destes vícios é rigorosa.
Um pai sensato e conhecedor dos males do mundo, deve evitar por todos os meios ao seu alcance que
os filhos tenham uma educação afeminada, essa educação piegas e bandalha que faz com que muitos rapazes de sete e oito anos pareçam meninas, de cabelos compridos, fatos amaricados, modos e atitudes
femininas, verdadeiros embriões de futuros efebos quando caiem sob a queixada tremebunda dos grandes tubarões da seita.
Rapazes educam-se como rapazes e raparigas como raparigas.
Nada de inverter os sexos nem os papéis que a cada um naturalmente competem.
Muitos destes meninos-meninas sofrem nos colégios as primeiras investidas dos mais velhos, já pervertidos pela malária colegial. A pouco e pouco vão-se acostumando e enviciando insensivelmente,
convencendo-se que nasceram para dar prazer aos outros, e concluindo por gozarem com esses mesmos prazeres que facultam, se a mão providencial de uma mulher, a criada da casa ou a prima solteirona, roída de desejos cúpidos não os salvar desse abismo onde fatalmente vêm a cair.
Quando eu andava no Liceu Francês, estudando instrução primária, teria os meus doze anos se tanto, existia no colégio um rapazito muito bonito que vendia os seus ligeiros favores por seis penas novas!
As penas eram uma espécie de moeda, com a qual se fazia no colégio grandes transações entre os rapazes, inclusive esta!
O rapaz ganhava centenas de penas novas por mês e tinha verdadeiros apaixonados e um eleito ao qual
dispensava por amor as suas amáveis condescendências.
Nunca gastei com ele nem uma pena velha, por que em casa desemperrava a alavanca do prazer com a
Maria Delfina, uma rapariga dos seus vinte anos que já tinha tido dois filhos e não cabia por uma porta.
Passaram muitos anos e vim a saber que esse ganimedes de colégio, então já homem feito, era um efebo de marca, requestado e solicitado como se fosse uma bela e interessante mulher!
E como este, quantos e quantos rapazes se encontram em iguais circunstâncias?
Eu vi há anos socarem-se valentemente à porta do salão da Trindade, dois tubarões, ricos e bem
colocados, que disputavam a posse de um lindo efebo que apareceu no baile de máscaras vestido de noiva, tão lindo e bem posto que a mais formosa rapariga não o venceria.
Ainda vive esse reversivo, que não faz segredo do seu impudor e sendo já homem para além dos trinta
e tantos continua na mesma!
Ora a gente é senhor do que é seu, como ele diz, agora o que não tem é o direito de enganar outros
como tem sucedido a muita mulher séria e honesta, que enamorando-se destes pultrastres, casam com eles e acabam por se encontrarem ligadas a uns seres cujo nome as desonra com a fama dos seus vícios, e cujos vícios as insultam nas suas legais e justas exigências de mulheres casadas.
E o mal tem alastrado tanto que todas as prevenções que se façam para por de sobreaviso as incautas, são poucas.
A índole deste livro é pois essa: avisar as mulheres e castigar os efebos pela sua falta de brio e de sentimentos, fazendo ver aos pais que devem acostumar os seus filhos a serem homens desde pequenos, a fim de que a uma educação errada e maricas se não possa atribuir a causa da adoção miserável de
hábitos e costumes indignos do simples brio e respeito natural do homem pelo seu sexo.
Será isto uma intenção imoral?
É possível que o seja para os sacerdotes deste culto baixo e porco dos prazeres contranatura.
Para os homens dignos e honestos, que para fraqueza da carne só conhecem o único alvo que a natureza criou, a mulher, certamente que a minha obra merecerá aplauso deles e até o de todas as mulheres que a
lerem, pois que a mulher tem sempre pelo efebo uma repugnância e um desprezo positivamente instintivos.