O Sr. Ganimedes
Capítulo III
Todas as tardes o Bernardino era certo a tomar café em casa do Martins. Depois saíam os dois aí por
volta das oito e meia, iam até à loja, onde permaneciam até cerca das dez e meia, hora habitual de fechar, davam uma volta na Avenida, quase toda em obras, vinham até ao Suíço tomar um refresco e despediam-
se, indo o Bernardino para o hotel e o Policarpo para casa. Nesses passeios, o Bernardino falou por várias vezes na Lígia, inquirindo do seu modo de vida, família e comportamento. O Martins deu-lhe as melhores referências. Não só era filha de boa família, como rapariga muito séria e honesta, bem-educada
e magnífica dona de casa. Nunca lhe conhecera namoros nem leviandades e já há quatro anos que mantinham relações. Parece impossível, tão formosa como é, observara o Bernardino, não ter namoro!
Tem a seu lado a tia Benedita que você há de conhecer, que a educou desde pequena e não admitia namoricos. Aí tinha você um bom casamento, ajuntou o Policarpo com um sorriso. Nova, bela, bem-educada, uma verdadeira magnificência de formas em plena aurora da mocidade, que mais queria você?
Olhe que com um pedacinho daqueles merecia bem a pena prender-se nos laços do matrimónio. Depois, a sua fortuna era bastante para a fazer feliz e dar-lhe todas as alegrias e prazeres da vida que as raparigas
sempre apreciam.
E baixando a voz, confidenciou coisas particulares...
O Bernardino parou.
— Por aí estou descansado, disse ele, tirando um charuto da algibeira. Gastei-me pouco e graças a Deus não me falta.
— Então não tem que temer.
O Bernardino, pensativo, não respondeu e mudou de assunto.
No entanto, os seus olhares eram cada vez mais expressivos e as suas atenções e amabilidades para
Lígia não podiam passar despercebidas, tanto mais que ela era muito inteligente e subtil.
No sábado, véspera da ida a Sintra, a D. Eudóxia apresentara-lhe a tia Benedita, matrona dos seus
cinquenta e três bem puxados, viúva, austera, grave, bem-educada, esperta e simpática, que passara uma vida de casada pouco vulgar e cujos segredos desceriam com ela ao túmulo.
O marido fora um sensualista de primeira ordem e com ela manuseara durante vinte e um anos de
matrimónio todo o dicionário das mais intensas luxúrias. Nos seus tempos fora uma boa mulher, sem ser formosa.
O marido achara-a sempre muito a seu gosto e dedicara-se-lhe com amor, auferindo as inapreciáveis delícias a que se prestava o temperamento ardentíssimo e voluptuoso da esposa.
«Com esta que é só minha é que eu devo gozar tudo», pensava ele segundo o seu modo de ver, e se bem
o pensou, melhor o fez.
Não tinham filhos.
Quando ele morreu, Benedita teve um desgosto colossal e jurou que mais nenhum homem a possuiria.
Assim cumpriu, dedicando-se à educação de Lígia, filha de sua irmã Andresa, que, ao contrário, fora
infelicíssima com o casamento.
Um reumático gotoso, persistente e violento, fazia-a sofrer muito e extorquira-lhe todas as ardências da sua carne, que quando casada vibrava rápida em ansiosos desejos concupiscentes.
Engordara muito e tornara-se devota.
A lembrança do marido nunca mais se lhe apagara da alma e a morte dele a mergulhara em profunda
tristeza.
Bastante inteligente e sagaz, via as pessoas e o mundo pelo seu verdadeiro prisma.
A sua conversação fluente e cordata agradou extraordinariamente ao Bernardino, que, no labutar de
uma ativa vida comercial de vinte e dois anos, aprendera maduramente a apreciar as pessoas de bom pensar.
Demais, ele era naturalmente um homem sério e grave, dotado de raro bom senso, do qual sempre dera sobejas provas.
Por isso todas as teorias e modos de ver da D. Benedita lhe causaram a melhor das impressões.
Compreendeu que estava ali uma mulher séria e austera, cuja influência deveria ter-se exercido salutarmente sobre a educação de Lígia.
Por seu turno, também a D. Benedita simpatizara muito com ele. Achara-o um homem extremamente apreciável sobre o triplo ponto de vista do dinheiro, da idade e do modo de pensar, e enquanto assim reflexionava não lhe passara despercebida a maneira como ele olhava para Lígia.
Essa maneira é sempre especial e característica quando um homem gosta de uma mulher ou uma mulher de um homem. Por mais esforços que reúnam para disfarçarem o que lhes vai na alma, eles resultam vãos
à observação perspicaz de qualquer pessoa prática do mundo.
A D. Benedita percebeu, pois, perfeitamente que o Bernardino gostava da sobrinha, e este percebimento encheu-a de júbilo.
Aquele sim, aquele é que era o marido que ela sempre sonhara para Lígia.
Rico, e de idade madura, sem ser velho, era o melhor que se poderia desejar para fazer a felicidade da
formosa menina. Oxalá ele estivesse resolvido a prender-se nos doces laços do matrimónio!
*
Estava um verdadeiro encanto aquela manhã de verão, perfumada e luminosa, quando Policarpo, a D.
Eudóxia e o filho, o Bernardino e a Lígia, tomaram o primeiro comboio para Sintra.
Tinham convidado a D. Benedita, que não pode aceitar, porque com o calor o reumático ainda a
torturava mais do que com o frio do inverno.
Cantava nas ramagens a passarada alegre e descuidosa, e das árvores dos pomares que ladeavam a linha férrea, carregadas de frutos maduros, exalavam-se penetrantes e apetitosos perfumes.
Estava um céu azul, de uma serenidade inconcebível, um azul puro, uniforme, a perder de vista, onde não perpassava o mais ténue farrapo de nuvem.
Nas eiras amontoavam-se os molhos de espigas maduras, em feixes prontos para a descasca.
Pelas encostas dos montes pastavam rebanhos de cabras e carneiros retouçando a pouca erva que encontravam, enquanto alguns fugiam a saltos às pedras que lhes jogavam para os afastar da via-férrea.
E o comboio, silvando, passava rápido, deslocando na retina, em marcha contrária, todo este cenário
campesino que alegrava o espírito.
Lígia estava simplesmente encantadora. O ar fresco da madrugada tingira-lhe de vivo carmim as faces
mimosas e os lábios sensuais e delicados.
Os seus belos olhos verdes tinham cintilações esmeraldinas e o vento desmanchara-lhe um pouco os cabelos da fronte, que esvoaçavam em lindas espirais negras e lustrosas.
Toda vestida de piquet branco, com um elegante cinto de veludo negro, as curvas opulentas dos quadris e a elevação venusina dos seios relevavam-se em linhas sedutoras que deslumbravam
estonteadamente o Bernardino.
Calçava luvas de camurça e botas amarelas de bico estreito e salto alto, que lhe elegantizavam os pequeninos pés admiravelmente talhados.
Um chapéu de palha, enfeitado de rosas chá, completavam a sua linda e simples toilette de campo.
Ao apearem-se em Sintra, o Bernardino, que descera primeiro, tornou a surpreender-lhe a perna
magnífica, roliça, musculosa e bem torneada, cuja alvura láctea surgia como um sonho de volúpia através do arrendado das meias pretas.
Era indiscutível a formosura pouco vulgar daquela rapariga em plena alvorada da mocidade.
Meteram-se num trem e mandaram seguir para Mafra, pois era ainda muito cedo para almoçarem.
As senhoras tomaram os lugares de honra, colocando o pequeno Leonel entre elas. O Policarpo sentou-
se defronte da esposa e o Bernardino em frente de Lígia.
Mal conservada a estrada, o trem solavancava e a cada um destes solavancos os joelhos do Bernardino tocavam os de Lígia, tão roliços e fofos como se fossem duas almofadas de veludo.
Estes contactos punham-lhe no sangue e nos nervos vibrações elétricas que o desvairavam.
Lígia, muito alegre e risonha, deixando ver as fieiras preciosas da dentadura, ria contente e não
reparava nesses contínuos choques dos seus joelhos contra os do Bernardino. Apenas por um movimento de instintivo pudor encolhera um pouco as pernas para não ficar com elas entaladas entre as dele.
Quando chegaram a Mafra eram nove horas e meia. O calor começou a fazer-se sentir. Descansaram
um pouco no hotel da vila, escovaram-se do pó e foram almoçar, almoço alegre, expansivo, de verdadeira satisfação entre pessoas amigas.
Aí, os olhares de Lígia e do Bernardino trocaram-se várias vezes com certa eloquência.
Quando terminaram e se ergueram da mesa para irem visitar a basílica, ele ofereceu-lhe o braço, que ela aceitou, ruborizando-se.
Parecem noivos! exclamou a D. Eudóxia, a quem o Colares branco sugerira uma frase inspirada.
A Lígia fez-se muito vermelha e o Bernardino parando, respondeu:
— Nada mais fácil; somos solteiros.
E sentiu no seu braço estremecer o braço de Lígia…
Aquele sol, aquele dia hilariante de verão, aquele espaço amplo e belo, aquela atmosfera quente e carinhosa, e aquele almoço farto e saudável, regado com excelente vinho, animaram-no e, distanciando-
se um pouco dos amigos, declarou a Lígia o seu amor.
A jovem esperava essa declaração mais dia menos dia, mas não tão cedo, e muito menos naquele
momento.
Ouviu-o em silêncio, e quando ele terminou respondeu-lhe apenas:
— Creio nas suas palavras e saberei corresponder-lhe.
Uma onda de alegria, luminosa, intensa, polícroma, verdadeiramente empolgante, inundou o coração do Bernardino, como se sobre ele tivesse desabado um mundo de ventura.
Pareceu-lhe que o sol brilhava com mais fulgor, que o céu era mais azul, que as aves cantavam melhor e até que a enorme mole do convento a poderia erguer nos braços como se fosse um brinquedo de cartão. Sentiu em si outra vida, outra alma, outro ânimo, outro espírito, e só então se lembrou que tinha uma
grande fortuna, mediante a qual podia encher de felicidades aquela linda mulher que trazia ali a seu lado, pelo seu braço, e que era o seu primeiro amor!
Tomou audácia, e até entrarem no templo não se cansou de dirigir a Lígia as mais amorosas e apaixonadas palavras, sem arte talvez, mas com um grande cunho de expressiva sinceridade.
Lígia ouvia-o sorridente e satisfeita. O seu amor-próprio de mulher sentia-se mimado em ser a
preferida daquele homem riquíssimo, que tantas desejariam para marido ou para amante.
Não era um rapaz na flor da vida, também não era um velho, e fisicamente possuía uma boa figura e um
rosto insinuante e ainda fresco: Era o que positivamente se chama um homem em plena idade viril.
— O que é que têm dito? O que é que têm dito, que se afastaram tanto, tanto da gente? exclamou a D Eudóxia, a quem o Colares branco tornara atrevida e indiscreta.
— Que com o dinheiro que se gastou na construção desta monstruosidade se tinha feito muita obra útil, respondeu o Bernardino. Não é verdade, D. Lígia?
— É, respondeu a jovem sorrindo com esse sorriso especial das mulheres quando dizem uma mentira inocente.
Esse dia foi até ali o mais feliz da vida do Bernardino. Nem mesmo quando recebeu a comenda de
Cristo, que lhe encheu de satisfação o seu orgulho de provinciano de baixa estirpe, se sentira tão venturoso.
A beleza, a mocidade, a elegância e os olhos verdes de Lígia, valiam bem todas as comendas e grã-cruzes deste mundo, que por muito que satisfaçam a vaidade nunca têm a virtude de agitar, como o amor, as fibras do coração num verdadeiro êxtase de inefável felicidade.
Perdida a primeira emoção que lhe causara a surpresa das palavras do Bernardino, Lígia, que era muito atilada e animosa, medira num relance toda a vastidão daquelas palavras e como que por instinto, em vez de se retrair, tornara-se expansiva e confiante, conversando animadamente com ele através
daquelas extensas galerias e corredores do enorme convento.
Não cabendo em si de felicidade, o Bernardino ainda achava pequena para a sua ventura toda aquela brutal e esmagadora grandiosidade de mármore.
Do alto do telhado, onde se liga o zimbório gigantesco e se descortina um panorama soberbo, respirou o ar a plenos pulmões e apertando a mão de Lígia, disse-lhe:
— Se casar comigo, iremos a Roma ver o Vaticano, que ainda é maior do que isto.
Lígia teve a vertigem do sonho constante da sua vida: — viajar — e por isso lhe respondeu:
— O Sr. Bernardino não está a divertir-se com uma pobre rapariga como eu, sem fortuna, sem pais e
sem merecimentos, quando tem tanta senhora rica que desejará ser sua esposa?
— Peço-lhe, Lígia, que não faça de mim esse conceito. Amo-a com toda a sinceridade, e hoje mesmo
lho provarei. Se me aceita para seu marido, será minha esposa em breve tempo. Na minha idade e na minha posição um namoro seria ridículo e caricato. Tenho de si e de sua tia as melhores referências, e por isso não encontro motivo para entreter tempo. O que tem de ser, seja. Talvez lhe pareça um pouco
rápida de mais esta minha resolução, e nesse caso dar-lhe-ei o tempo que quiser para pensar.
— Não tenho que pensar. Acredito nas suas palavras e nos seus delicados sentimentos. Proceda como
entender.
— Aceita então casar comigo? inquiriu ele aproximando-se de Lígia.
— Aceito.
O Bernardino lançou um olhar em torno e vendo o Policarpo, a D. Eudóxia e o Leonel embasbacados a admirarem o campanário, levou aos lábios a mão de Lígia e beijou-lha efusivamente.
A jovem ruborizou-se, mas não reagiu.
Esse beijo fora-lhe grato à sua vaidade de mulher, que se via assim tão efusivamente requestada por um homem tão rico, mas deixou-lhe o coração quieto numa grande tranquilidade que a surpreendeu!
«Amá-lo-ei depois», pensou ela alongando a vista até ao horizonte, onde o oceano traçava uma larga fita de espuma ao longo da costa.
Quando às cinco horas da tarde, de regresso a Sintra, se sentaram à mesa em gabinete aparte para estarem mais à vontade, todos repararam na extrema alegria de que o Bernardino estava possuído.
Essa alegria tirara-lhe a vontade de comer.
Ao assado, mandou vir champagne, e antes de desrolhar a garrafa disse para o Bernardino:
— Agora que estamos todos reunidos depois de um dia bem passado, tenho um grande favor a pedir ao
meu caro amigo e antigo patrão, que eu nunca me esqueço que foi em sua casa que comecei a minha vida, favor que espero me não recusará.
Lígia parou de comer e encarou-o com os seus grandes e expressivos olhos.
— O que o meu caro Bernardino me pedir é uma ordem, respondeu o Policarpo; diga o que deseja?
— Desejo que o meu bom amigo se encarregue de pedir, em meu nome, à senhora D. Benedita, tia da senhora D. Lígia, a mão de sua sobrinha, com quem pretendo consorciar-me.
Lígia empalideceu.
— Bravo, bravo, exclamou o Policarpo. Eu sempre esperei isso. Está o meu amigo servido. Amanhã mesmo me encarregarei de satisfazer o seu pedido.
— Que eu muito agradeço, exclamou o Bernardino comovido.
— Dou-te os parabéns, Lígia, observou a D. Eudóxia, limpando as lágrimas que o Colares tinto lhe
fizera assomar aos olhos; é o melhor marido que podias desejar.
Lígia beijou-a muito sensibilizada.
O Policarpo desrolhou a garrafa e, enchendo as taças, berrou:
— À saúde dos noivos!
— Então a Lígia já não é a minha noiva?! exclamou o Leonel muito espantado, com uma expressão
imbecil a iluminar-lhe o lindo rosto de querubim.
O Bernardino sorriu-se e a D. Eudóxia respondeu:
— A tua noiva vai ser o colégio, que bem precisas dele, filho.
Encheram-se de novo as taças e os brindes choveram, de maneira que veio outra garrafa para os concluir.
O Bernardino estava radiante.
Lígia, muito correta e serena, tinha no cérebro um mundo de fantasias em plena ebulição.
A sua união a um homem que possuía trezentos contos de fortuna e era generoso e franco, causava-lhe
vertigens. E pela imaginação passavam-lhe em tropel joias de alto preço, toilettes de fino gosto, carruagens, teatros, salas luxuosas, viagens à Itália, à Suíça, a Paris, a Viena, um mundo enfim de
prazeres e de bem-estar, como ela sempre ambicionara no seu quarto de donzela pobre, num terceiro andar da rua da Madalena, onde vivia desde os dez anos, em que sua querida mãe falecera e onde fora recolhida pela tia Benedita.
E à volta, dentro do comboio, na penumbra do vagão, com os olhos semicerrados e o Bernardino a seu lado, ainda lhe parecia mentira tudo quanto horas antes acabara de passar-se, e era nem mais nem menos
do que a completa e absoluta mudança e transformação de toda a sua existência.
A caminho de casa, pelo braço do Bernardino, este ainda lhe disse:
— O meu amigo Policarpo pode apresentar o meu pedido?
— Certamente, respondeu ela.
— Quanto é boa e quanto lhe devo! disse-lhe ele.
Lígia olhou-o à claridade do lampião da iluminação pública e leu-lhe no rosto franco, simpático e leal, toda a ventura que enchia a alma daquele homem, plenamente enamorado dela e que a requestava com a mais pura e digna honestidade, oferecendo-lhe o título de esposa.
*
Muito satisfeito por poder prestar um serviço ao seu ex-caixeiro e atual amigo respeitável, o comendador Bernardino Pena Pina, o Policarpo almoçou nesse dia mais tarde para dar tempo a que a D.
Benedita estivesse nos casos de o receber, e aí por volta das onze horas subiu ao terceiro andar e bateu.
A criada mandou-o logo entrar e atravessou o corredor lepidamente, dizendo com voz esganiçada:
— Está ali o Sr. Martins que quer falar à senhora.
A D. Benedita acabara de almoçar e lia o Diário de Notícias. Tirou os óculos, pousou o jornal sobre a mesa e, erguendo-se a custo, disse para Lígia, que costurava entre a janela:
— Que quererá o vizinho Policarpo a esta hora?
Bateu surdamente no solo os seus sapatos de tapete, que usava sempre de verão e de inverno, e foi à sala receber o Martins.
Lígia parara de coser e ficara-se pensativa a olhar um ponto vago do espaço.
Ela bem sabia qual era o fim da visita do Policarpo.
Dormira mal e custara-lhe a conciliar o sono, tendo no cérebro um mundo de pensamentos. Ao cabo de um quarto de hora, ouviu a tia vibrar a campainha para chamar a criada e esta aparecer quase em seguida e dizer-lhe:
— Ó menina Lígia, a sua tia diz que chegue lá.
Lígia, um pouco mais nervosa e comovida, levantou-se e foi à sala.
— Mandei-te chamar, disse a D. Benedita com modo grave e solene, para ouvir a tua opinião acerca de um pedido que o nosso vizinho e amigo, o Sr. Policarpo Martins, acaba de fazer-me.
— A tia dirá.
— Digo, digo, o Sr. Martins veio pedir-me a tua mão para o seu amigo Bernardino, que deseja casar contigo. É da tua vontade este casamento?
Lígia baixou os olhos, ruborizou-se e respondeu com firmeza:
— É, sim, senhora.
— Agora está bem, exclamou a D. Benedita esfregando as mãos. Pode dizer ao seu amigo que com
todo o gosto lhe concedo a mão de minha sobrinha visto ser do agrado dela. Que eu cá não faço nem desfaço casamentos. Uma vez que ela quer, está concedido, e só me resta aplaudir a escolha que fez e que
é própria de uma menina judiciosa e sensata, como minha sobrinha sempre foi. Não digo isto por ela estar presente e ser minha sobrinha, mas porque é a verdade.
— Há de ser muito feliz, ajuntou o Policarpo. O meu amigo Bernardino é um excelente homem, um
grande carácter e um belíssimo coração. Aquilo é trigo sem joio. Com bastante pena minha, saiu de minha casa para ir para o Brasil, o que foi a sua felicidade. Demais é ainda um homem moço e possui uma
magnífica fortuna. A D. Lígia não podia encontrar melhor marido. Há de ser a mais venturosa das mulheres, creia.
— Deus o oiça, vizinho, Deus o oiça, ajuntou a D. Benedita. Estimo Lígia como se fora minha filha, e
vê-la feliz será o descanso mais completo dos poucos dias que me restam de vida.
Muito impressionada, Lígia beijou a tia.
O Policarpo também sentiu assomar-lhe uma lágrima ao canto do olho, pois era em extremo sensível a
todas as cenas patéticas e amoráveis.
Conversaram ainda mais um bocado e o Martins levantou-se, indo transmitir ao Bernardino o bom resultado da sua missão.
— Desde já o convido para padrinho do meu casamento, disse-lhe o Bernardino muito alegre e satisfeito.
— Obrigado pela distinção, respondeu o Martins. O que lhe garanto, acrescentou, é que você leva uma das raparigas mais bonitas e de melhores sentimentos que tenho conhecido.
— É realmente muito formosa! disse o Bernardino passando-lhe pela mente a imagem encantadora de
Lígia.