O Sr. Ganimedes
Capítulo VIII
Desvendar os mistérios que se albergam nas profundezas insondáveis do coração das mulheres, é
trabalho baldado que os maiores filósofos nunca conseguiram concluir, nem mesmo levantar uma ponta do véu que encobre esse mundo moral infinito, feito de trevas e de luz, de dedicações e de ódios, de
generosidades e de avarezas, de heroísmos e vinganças, que traz a vida em constantes desinquietações.
Cada mulher é um enigma vivo, e cada homem que as pretende decifrar, um asno da mais pura raça.
Lígia, como todas, não escapou à regra.
No seu coração virgem, no seu cérebro equilibrado e na sua carne ainda não superexcitada pelo delírio dos prazeres, acendeu-se pelo Leonel uma destas paixões súbitas que conduzem as mulheres às maiores
loucuras.
Aquela mocidade de rapaz afetuoso, terno, gentil, delicado, bom e meigo, tentava-a como uma sedução demoníaca.
Lia-lhe no olhar aveludado e lânguido uma bíblia de amor e de voluptuosidades infinitas.
Sentia desejos de unir à sua carne a carne daquele homem formoso e jovem, de confundir com os dele,
no mesmo beijo de amor, os seus lábios sequiosos, de o amar, de o possuir, de lhe chamar seu, de gozar finalmente as delícias desse sonho que ao de leve antevira sempre mas nunca experimentara, e vendo-o todos os dias, sempre belo e afetuoso, dedicado e serviçal, modelo dos filhos e dos homens bem-
educados, não lhe soube resistir e foi ela quem, com uma subtileza extrema, com toda a verdadeira arte da mulher experiente, começou a fazer-lhe a corte.
Demais, no seu espírito nasceram-lhe duas ideias trazidas pelo amor, pois como ele não há outro melhor mensageiro para conduzir razões que justifiquem e defendam a essência única do seu sentimento.
Estava só no mundo, rica, e precisava de alguém para tratar dos seus negócios e escudar-lhe a
reputação, além de que fazer feliz o homem que conhecera em criança, a quem ensinara as primeiras letras, lhe parecia uma ação tão generosa e meritória, que certamente mereceria a aprovação de Deus.
O Leonel parecia-lhe acanhado e tímido, sempre ruborizando-se quando ela o abraçava com expressão de encontro aos seus seios opulentos e túrgidos. E então, por mais de uma vez, sonhando com ele, atingira espasmos voluptuosos que lhe davam deliciosas sensações.
Coquette, aparecia-lhe sempre muito elegante e sugestiva, deixando-lhe ver os pés pequeninos e sedutores, que tinham sido a tentação do Bernardino, e por acaso, ao traçar a perna, punha às vezes a
descoberto um bocado dessa magnificência do seu corpo, que era estonteante.
O Leonel, porém, mantivera-se sempre numa honestidade de vestal, não ousando mesmo fixar a vista nesse trecho de perna que deixava adivinhar um paraíso de divinais encantos.
Duas suspeitas atravessaram o espírito de Lígia: ou ele era um tímido e um casto fora do vulgar, ou tinha alguma amante que o dominava, monopolizando-lhe todas as naturais tendências e impulsos do seu
sexo, distraindo-o por completo das outras mulheres.
Esta última suspeita foi a que radiou no seu espírito, porque uma mulher enamorada, a primeira coisa
que sente depois do seu amor, é um ódio profundo pelas outras mulheres.
Lígia saía pouco e não ia aos teatros, pois ainda estava viúva de seis meses apenas.
Essas saídas mesmo eram sempre de carruagem, em companhia da D. Eudóxia.
Foi numa delas, num dia de chuva, quando se apeou à porta da casa de modas Paris em Lisboa, no Chiado, para escolher um chapéu, que um gentil tenente de cavalaria se dirigiu a ela entregando-lhe a
carteira que tinha deixado cair ao apear-se do trem.
Era esse oficial um magnífico tipo de homem varonil e robusto, simpático e insinuante, delicado e cortês. Ela agradeceu-lhe o favor, e ele olhou-a de uma maneira estranha, fixa e penetrante.
Ao entrar na carruagem, viu-o parado à esquina distraidamente a fumar. Ele cortejou-a e ela correspondeu ao seu cumprimento.
No dia seguinte, tornou a vê-lo quando saía de casa para ir ao escritório do seu correspondente, e assim mais vezes, até que recebeu dele uma carta que era uma apaixonada declaração de amor.
Profundamente enamorada de Leonel, Lígia não respondeu, e a primeira vez que o encontrou na rua,
voltou-lhe a cara.
Percebera no entanto que o tenente era um magnífico exemplar de homem, nos casos de ser amado pela
mais exigente das mulheres, e ficou sabendo que ele se chamava Nuno de Freitas e Vasconcelos.
A indiferença do Leonel às suas seduções amorosas irritava-lhe o espírito e mais a excitavam naquela paixão que a assaltara com tão ardente intensidade.
Ainda tornou a ver o tenente mais duas vezes, e depois, por acaso, lendo os jornais, soube que ele tinha sido transferido para um regimento da província.
De lá, este escreveu-lhe nova carta mais apaixonada e expressiva do que a primeira. Lígia sorriu-se e rasgou-a indiferentemente.
O Leonel preenchia toda a sua alma, de maneira que nela não cabia outro afeto nem outra preocupação.
Em abono da verdade deve dizer-se que o ilustre efebo já percebera os sentimentos de que era alvo de parte de Lígia, e esse percebimento enchera-o de tédio e de aborrecimento.
Mulher era ele, e quase se indignava que uma verdadeira ousasse namorá-lo, ele que estava doidamente apaixonado pelo Liberato, seu amante de alma e por causa do qual praticava toda a casta de loucuras!
Era mister, porém, ser prudente e reservado.
Lígia era quase uma parenta, afilhada de sua mãe, à qual não queria por coisa alguma deste mundo dar
o mais pequeno desgosto.
Calculava que não correspondendo, ou fingindo não perceber aquela insistência, ela mudaria de ideia.
O conspícuo Ganimedes ignorava por completo o carácter das mulheres.
Muito diplomaticamente, Lígia sondou a D. Eudóxia, que com toda a sinceridade lhe declarou que nunca conhecera ao filho inclinação alguma amorosa, que estava mesmo convencida que ele nunca tivera namoro algum, gostando apenas de se divertir com os amigos, ir a S. Carlos, andar de bicicleta e vestir
no rigor da moda.
O espírito de Lígia tranquilizou-se um pouco e seguiu na sua missão de conquistar o amor do esquivo seu ex-discípulo das primeiras letras.
*
Chegara o Carnaval com toda a sua monumental sensaboria, carnaval chuvoso e porco, com os mesmos
mascarados de todos os anos, e a mesma farrapagem de sempre.
Estava-se em terça-feira gorda, ou seja na agonia desse curto tempo de doidice, de embriaguez e de folia.
Numa primeira ordem de S. Carlos, o conde da Lagoa Escura, muito aborrecido, assistia ao baile de máscaras em companhia da esposa e dos filhos, três lindas raparigas, que ninguém diria serem
descendentes de um sodomita de tal quilate!
De pé, correto e distinto na sua casaca, binoculava toda a sala e as várias máscaras que vinham entrando.
De repente, afirmou o binóculo num par que acabava de surgir.
Era ela uma mulher alta, vestida de espanhola, de cabelos loiros e mantilha, gentil, grácil,
elegantíssima, sedutora, exibindo uns pés adoráveis primorosamente calçados em meias de seda lilases com lantejoulas de prata e sapatos de cetim preto bordados a oiro e de salto à Luís XV.
Reclinava-se languidamente no braço de um dominó negro, homem de elevada estatura, de andar um
pouco gingão.
Toda a gente fixava a elegantíssima máscara que tinha um modo de andar verdadeiramente sugestivo e
tentador.
O binóculo do conde, que recuara para o fundo do camarote, não a perdia de vista.
Quando deixou de olhar, estava pálido e com a vista turva.
Reconhecera aqueles sapatos e aquelas meias que ele dera ao Leonel para a mise-en-scene do seu vício, e à força de se afirmar acabara por se convencer que era o próprio Leonel que as trazia, pois lhe
vira nos dedos os anéis que eram muito seus conhecidos.
Declarou à esposa que estava aborrecido e ia até ao grémio jogar um bocado e tomar o seu chá, e que se retirassem quando quisessem.
A condessa não estranhou esta resolução do marido, que tinha hábitos muito singulares.
— O papá vem buscar-nos? inquiriu a filha mais nova.
— Talvez, Maria.
E o conde, vestindo o pardessous, saiu do teatro.
Rápido, correu à rua do Trombeta, que ficava perto, entrou em casa, e a primeira coisa que viu foi o
fato do Leonel sobre a chaise-longue do quarto.
A gaveta do toilette estava aberta e revolvida.
— Grande malandro, rugiu ele furioso. Hei de saber tudo.
E, apagando a luz, escondeu-se naquele quarto que estava sempre devoluto.
Esperou talvez uma hora, e já estava resolvido a ir-se embora quando sentiu abrir a porta da rua e passos na escada.
Pouco depois ouviu a voz afeminada do Leonel exclamar:
— Ai, meu amor, a cabeleira afrontava-me.
— Tu quiseste ir assim, respondeu a voz grossa e forte do Liberato. Eu bem te disse que levasses dominó.
— Tens razão, mas como sei que gostas muito de me ver vestido de senhora, fiz-te a vontade. Não
estava bonito?
— Lá isso estavas. Toda gente olhava para ti.
— Bem via, mas eu, meu filho, sou só teu e só a ti amo.
O relógio da sala bateu as duas horas.
— Já duas horas! exclamou o Leonel, tão tarde!
— Porque não dormes comigo?
— Ai, isso não, por causa de minha mãe, que está em cuidado. Até às três horas sou teu.
— Não tires as meias nem a camisa, observou o Liberato, acendendo um cigarro.
— Já sei, escusavas de recomendar.
O conde ouviu o ruído característico de beijos, depois os dois entrarem na alcova, depois as mais
espantosas e atrozes revelações que se podem imaginar.
O Leonel tinha concedido ao Liberato tudo quanto uma mulher apaixonada ou uma prostituta sem brio
podem conceder, por amor ou por interesse, ao homem amado ou ao freguês vicioso.
Davam três horas quando os ouviu fechar a porta da rua.
Então saiu também e dirigiu-se para casa.
No dia seguinte, muito cedo, antes de almoço, saiu e chamando um negociante de móveis que havia próximo da rua do Trombeta, vendeu a mobília toda, mandando-a retirar.
Num lençol, embrulhou toda a roupa feminina que estava nas gavetas, e sobre essa trouxa pôs a carta que escrevera ao amante infiel.
Procurou a senhora Angélica, pagou-lhe dois meses e despediu-a, agradecendo-lhe os seus serviços.
*
Eram três horas da tarde quando o Leonel veio a casa a fim de arrumar a roupa que de véspera deixara
espalhada sobre a chaise-longue.
Ao entrar soltou um grito e exclamou:
— Fomos roubados!
Viu, porém, a trouxa no chão e sobre ela, pregada com um alfinete, a carta do conde.
Abriu-a. Era lacónica e dizia apenas:
Seu garoto,
Ouvi tudo escondido no quarto ao lado da alcova.
Esse com quem foi para S. Carlos gozar as meias de seda e os sapatos bordados, e a quem você se
prostitui por amor, que lhe pague.
Entre nós está tudo acabado.
Se me procurar, recebê-lo-ei com uma girândola de pontapés, seu grande...
A carta não tinha assinatura mas a letra era do conde, ele bem a conhecia.
Ficou atordoado.
O rompimento com o conde era a sua ruína, a perda total da sua vida lauta de vadio elegante,
desvergonhado e indecente.
Adeus joias, adeus cavalo, adeus trem, adeus dinheiro, e este último adeus era o que mais lhe custava.
Bem sabia que haviam muitos da seita que o perseguiam, mas nenhum deles era generoso como o
conde e este não deixaria de o desacreditar para seu prejuízo.
Demais, qualquer que tivesse, era um embaraço aos seus amores com o Liberato.
Ficou muito tempo a pensar e a olhar para a trouxa donde emergia o tacão de um dos sapatos que o perdera, e uma liga de seda cor-de-rosa, das que levara ao baile, onde vira também vestidos de mulher outros pulhas da sua igualha que nunca faltam aos bailes de máscaras, alguns tão bem postos no traje que
lhes não pertence, que muitas pessoas chegam a tomá-los por verdadeiras mulheres!
Acobardado, e parecendo-lhe ainda aquilo um sonho, esperou ansioso pela hora em que devia
encontrar-se com o Liberato, que já contara ao serralheiro Guilherme Lobo, um dos sodomitas mais temíveis que à noite passeavam pela baixa, a grande bacanal carnavalesca que tivera com o Leonel.
Apreensivo, comeu pouco, a ponto de a mãe lhe perguntar ansiosa se estava doente.
Desculpou-se com o ter-se deitado tarde, e às oito horas contava tudo ao Liberato a uma mesa da cervejaria da Trindade, em frente de dois copos de cerveja Pilsner.
— Como diabo não demos por ele! observou o Liberato.
— Não fez o menor ruído! disse o Leonel.
— E mesmo que o fizesse não o ouviríamos com a lambança que sempre fazes a folhas tantas.
O Leonel baixou os olhos pudicamente...
— E agora? interrogou o Liberato, batendo as palmas e mandando vir outra cerveja.
— Vou fazer-te uma confidência sobre a qual me darás a tua opinião, e dela depende o nosso futuro.
— Dize, respondeu o outro aplicando o ouvido.
O Leonel contou-lhe tudo quanto se passava a respeito da corte que Lígia lhe fazia.
— Se eu quiser e tu deres licença, caso com ela, rematou. É uma fortuna de quatrocentos contos. Poderemos então gozar o nosso amor sem medos nem sobressaltos. Que te parece?
O Liberato enrolou um cigarro, esvaziou um copo, riscou o fósforo, aspirou duas fumaças, e
respondeu:
— Já que tenho de ser... à força, antes com uma mulher do que com um homem! Ao menos dela não terei ciúmes. Digo-te que te cases, mas vê antes se ela te dota. É mais seguro, porque...
E disse-lhe umas coisas ao ouvido.
*
Uma felicidade radiante, inexplicável, única, uma sensação nova, deliciosa, sedutora, empolgante, bela, como até ali nunca tinha sentido, invadiu a alma de Lígia como um raio de luar entrando no mistério tranquilo de uma catedral por calma noite de ardente estio!
O seu amor nascente pelo Leonel, que era o seu primeiro amor, obtivera enfim essa correspondência que ela tanto ambicionava e que durante semanas a trouxera nervosa e preocupada na desconfiança de
que outra mulher possuísse o coração do famoso mancebo.
Quase que subitamente, o Leonel demonstrara-lhe um afeto intensivo e extremoso, que para os olhos de uma mulher de trinta e dois anos não podia sofrer equívocos.
Procurava-a com frequência e passava longas horas a seu lado, olhando-a com tão insistente ternura que às vezes era ela quem tinha de baixar os olhos para não se trair...
Acompanhava-a quando ela necessitava sair, sempre de carruagem, e não cessava de lhe gabar a formosura, o que lhe rejubilava a sua vaidade de mulher.
No entanto, o Leonel era muito inábil na arte de fazer a corte a uma senhora.
Essa inabilidade que Lígia surpreendia a cada instante, enchia-a de satisfação, porque lhe deixava perceber que ele nunca amara outra mulher, como aliás a D. Eudóxia tantas vezes lhe afirmara.
O Leonel estava realmente praticando um feito superior às suas forças.
Plenamente insensível às seduções femininas, tudo aquilo que fazia era artificial, estudado, calculado e com intenção reservada.
A magnificência das formas de Lígia e a sua empolgante formosura não conseguiram acender nele a mínima centelha de sensibilidade!!
Essa sensibilidade era toda para o Liberato, que, com os seus modos afadistados e a sua rudez natural o trazia plenamente apaixonado numa destas aberrações reversivas que muitos fisiologistas têm explicado, ligando o caso a fenómenos patológicos bem dignos de comiseração e lástima.
Chegara a copiar a elegância do modo de andar e de sentar-se que Lígia sempre tivera, para fazer exibir diante do Liberato iguais seduções!!!
Modificara um pouco o seu género de vida, evitando comparecer em S. Carlos para não se encontrar com o conde, que lhe voltara desprezivamente as costas a primeira vez que o viu depois do caso do baile de terça-feira gorda.
Alugara um quarto independente na rua das Gáveas, em casa de uma velhota viúva, e era ali que se juntava com o Liberato.
*
A falta de dinheiro, que Leonel sentira desde que se amancebara com o conde, irritava-lhe o ânimo. Todo o seu pecúlio eram uns miseráveis duzentos mil réis que possuía juntos, e as belas joias de que não queria desfazer-se.
Apressava, pois, o resultado final do amor de Lígia a fim de saber o caminho que devia tomar.
E muito ingenuamente confessou à mãe que amava a gentil viúva.
D. Eudóxia quase que ia desmaiando de alegria.
Também Lígia já lhe dissera que amava o Leonel, e muito desejaria que o título de noiva que ele lhe dava quando era pequenito, se realizasse a valer, agora que estava um homem.
Nessa mesma tarde, muito envergonhado e sem atinar com as frases, o singular efebo declarou-se à formosa mulher.
Lígia sentiu uma felicidade imensa invadir-lhe a alma, e com os olhos fitos nele, as mãos entre as suas, respondeu-lhe:
— E julgas-te feliz em ser meu marido, Leonel?
Ele fixou-a com aquele olhar aveludado e meigo que seduzia todas as mulheres e desvairava todos os sodomitas, e retorquiu-lhe:
— Felicíssimo, Lígia. Se eu te amo tanto!...
No dia seguinte, Lígia pedia à D. Eudóxia o filho em casamento, declarando que o dotava em vinte e cinco contos como presente de núpcias.
A D. Eudóxia abraçou-se a ela chorando.
D. Benedita aprovou plenamente a resolução da sobrinha.
O Leonel era um excelente rapaz, dotado das melhores qualidades desejáveis, e certamente Lígia havia de ser muito feliz, além de que se livrava assim de vir a cair nas mãos de alguns desses pescadores de viúvas ricas que tanto abundam em Lisboa.
*
À noite, na cervejaria da Trindade, o Leonel contou tudo ao Liberato.
— Está muito bem, respondeu ele. A pega não foi lá muito generosa, mas, enfim, com vinte e cinco contos já se pode ser independente. E quando é o casório?
— Para junho. Ela vai montar casa catita e dispor tudo para a consumação deste enorme sacrifício que
faço por ti!!! Mas também nós havemos de ter a nossa casa, descansa, e se puder apanhá-la, há de ser a antiga da rua do Trombeta, onde tivemos tantas horas felizes. Ainda está com escritos.
— Sim, ali é bom. Rua sossegada à noite, pouco concorrida de dia, e até se pode arranjar a Angélica para tratar dela outra vez.
— Já pensei nisso.
E os olhos do efebo tiveram um desses cúpidos reviramentos em que se manifestava o brilho sensual que lhe produzira a lembrança das cenas que ali passara com o amante.
Esvaziados os copos, o Leonel bateu as palmas.
— Rapaz, traz meia garrafa de champanhe, exclamou o Leonel.
— Viva o luxo! disse o Liberato.
— Vamos beber pela próxima e independente felicidade do nosso amor.
A rolha estalou, e o vinho doirado claro espumou nas taças, que os amigos tocaram alegremente.