O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 5 de 15

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O Sr. Ganimedes

Capítulo II

 

Quando chegaram a Belém ainda o paquete vinha ao largo demandando o quadro das quarentenas e

soltando para o azul da atmosfera os negros rolos de fumo das suas chaminés.

Com prazer souberam que os passageiros teriam livre prática, por os portos de onde vinha, estarem,

coisa rara, considerados limpos de febre-amarela.

Fretaram um bote e meteram-se nele com ordem de atracar ao vapor.

Muito medroso como sempre, o Leonel agarrava-se nervosamente ao braço roliço da Lígia, em cujo

pulso luzia uma bonita pulseira de prata polida.

O Policarpo estava comovido.

Após vinte anos de ausência ia tornar a ver o seu ex-marçano e caixeiro, que nesse prazo de tempo angariara uma bela fortuna e um nome respeitado e considerado na praça fluminense.

Agora, quase que se arrependia de não ter feito o mesmo.

Os negócios estavam maus, a concorrência era feroz e a muito custo conseguira arranjar um pequeno rendimento de mil e quinhentos réis diários, que era tudo quanto deixaria à mulher e ao filho se morresse

naquela ocasião.

Se seu pai não houvesse sido um político tão assanhado e um espírito tão sensível, certamente que ele teria herdado uma grande fortuna; mas o velho Sebastião Martins da Gama Cabral gastara muito dinheiro

com a política e ficara por fiador de muitos colegas que quebraram sem lhe pagar.

Morrera comendador de Cristo e cavaleiro da Conceição, vereador e grande influente político da sua

freguesia, banalidades estas que reverteram em desproveito da sua casa, porque os políticos, conhecendo-lhe o fraco, o exploraram uberrimamente, a exemplo do que as mesmas aves de arribação fizeram ao José Gregório da Rosa Araújo, que chegou a presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mas

esvaziou todas as belas peças de oiro que seu pai, o velho Cócó dos pastéis de nata, amontoara em sólidas arcas de carvalho com o labor de mais de meio século a fazer pastéis e a fabricar amêndoas.

O Policarpo não seguira as pisadas do pai. Embirrava com a política e nunca se metera nela.

O pai quisera mandá-lo para Coimbra e fazê-lo doutor, sonhando para ele com uma cadeira em S. Bento, mas o rapaz preferira o comércio e ficara na loja paterna muito tranquilamente a servir os

fregueses e a gozar os teatros e as touradas, de que era amador apaixonado, em companhia dos amigos.

O Sebastião levara para a cova o grande desgosto de não ter podido fazer do filho coisa de jeito, como

ele dizia, quando tantos outros vindos das berças andavam por aí no galarim da politica a botarem figura enquanto nas terras da sua naturalidade os parentes cavavam batatas para se alimentarem e andavam de tamancos e braços nus.

Agora é que o Policarpo estava arrependido de não ter também ido para o Brasil tentar fortuna como o Bernardino. Preocupava-o muito o futuro da mulher e do filho e encontrava-se velho para poder

acompanhar o segundo até lhe dar uma posição social que o deixasse morrer sem cuidados.

Pensando nestas coisas, assim chegou junto do paquete, que acabava de lançar ferro.

Na tolda formigavam centenas de indivíduos de todas as qualidades, idades e sexos.

Com a vista, o Policarpo procurou o Bernardino, mas não o viu.

— Subamos a bordo, disse ele à mulher, ele deve cá estar.

O bote aproximou-se da escada do portaló e todos a subiram, levando a Lígia o Leonel muito seguro, pois a criança estava transida de medo.

Quando entraram no convés, aproximou-se deles um homem robusto, bem trajado, com magníficos brilhantes no peitilho da camisa e nos anéis, que dirigindo-se ao Policarpo lhe disse sorrindo:

— Então já não me conhece, Sr. Martins?

O Policarpo afirmou-se um pouco e estendendo-lhe os braços exclamou:

— Olhem, cá está ele, o Bernardino. Mas como você está mudado, homem!

— Pudera, meu caro amigo. Vinte anos no Brasil não são dois dias.

As senhoras tinham-se aproximado.

— Minha mulher, exclamou o Policarpo, a nossa amiga D. Lígia de Vasconcelos e o meu morgadito.

Muito expansivo, o Bernardino apertou efusivamente as mãos enluvadas que as senhoras lhe estendiam e beijou o Leonel, dizendo:

— Como é bonito! Parece uma menina. Descansem, acrescentou, enquanto eu vou dar ordem para me conduzirem a bagagem para terra. Trago-lhes o papagaio e as bananas da praxe, acrescentou, sorrindo, e outras coisas que depois veremos.

E muito lépido e alegre lá foi pelo navio fora dar as suas ordens, enquanto o Leonel olhava muito espantado para toda aquela cena, completamente nova para ele.

— Você fica em minha casa, disse-lhe o Policarpo, obsequioso.

— Agradeço o seu oferecimento, meu caro amigo, respondeu o Bernardino, mas se me dá licença vou para o hotel. Já vê, homem só, com hábitos e costumes livres, preciso estar liberto de umas certas coisas

que seriam incómodas para si e para mim. Não se ofenda com esta minha sinceridade e espero que no seu íntimo me dará razão.

— Como queira, meu caro Bernardino. Concordo com o que me diz, mas creia que o meu oferecimento é feito com a melhor boa vontade deste mundo.

— Não duvido nem por sombras dessa sinceridade, e se o não aceito é por conveniência de nós

ambos. Isto não quer dizer que de vez em quando não lhe vá comer as sopas.

— Com certeza, que se assim não fizesse ficava mal consigo.

As bagagens estavam já no bote.

O Bernardino despediu-se do comandante, a quem ofereceu como lembrança uma linda cigarreira de prata cinzelada, e descendo a escada do portaló ofereceu a mão a Lígia para ela embarcar.

A formosa rapariga colheu os vestidos e saltou para o bote, deixando ver descuidadamente ao Bernardino as mais lindas e bem torneadas pernas de mulher que se poderiam desejar.

Já todos embarcados, vogando o bote através do rio, proa a Belém, a D. Eudóxia disse ao Bernardino,

que com incrível satisfação contemplava a vastidão do rio e a margem da cidade repleta de casaria:

— E o Sr. Bernardino volta ao Brasil?

— Volto, sim, minha senhora, daqui a três ou quatro meses. Preciso liquidar os meus negócios para

então fixar-me definitivamente em Portugal. Conto ir às Caldas tratar-me de um bocado de reumatismo articular que me martiriza bastante; depois vou à minha terra ver umas coisas que lá tenho e me ficaram

de meus pais, e só depois de tudo posto em ordem regressarei ao Rio. Conto lá chegar na estação quente, partindo daqui nos fins do outono. É a melhor época de partida, para quem já não está habituado ao inverno português.

— E gosta do Brasil? inquiriu a Lígia.

— Sim, minha senhora. É um belo país, com um largo futuro e umas opulências de natureza bastante

raras. Especialmente a vegetação é um assombro de grandeza e de variedade.

— Mas a febre-amarela!

— Eu lhe digo: realmente essa terrível doença existe lá no estado endémico, mas é relativamente

possível evitá-la havendo cuidado.

— Não apanhando sol?

— Não, não é bem o sol que prejudica, mas sim as cacimbas, e sobretudo os frutos da terra. Quem tiver muito cuidado com o estômago e muito asseio, quase que pode considerar-se indemne. Só depois de dez anos de aclimação é que eu ousei comer as mangas e os acajus. E ainda assim tive um ameaço febril,

que atalhei logo com uma poderosa desinfeção intestinal. Morrem de febre muitos europeus pelo modo de vida que levam e falta absoluta de critério para perceberem que não podem ali seguir o mesmo sistema

de vida que usavam nos seus países. Muitos desses, mesmo, morrem de moléstias várias, que os médicos classificam de febre-amarela para evitarem mais maçadas. Como esta é a fonte de morte mais fértil que existe no Brasil para os europeus, ela só, chega e sobra para justificar todos os óbitos.

— E o calor é muito?

— Sim, muitíssimo. Nos últimos anos já não me afrontava tanto, mas ao princípio sofri horrivelmente.

Há dias que mal se pode respirar, especialmente no Rio e no Pará.

— Eu talvez não me desse lá mal, acrescentou a Lígia sorrindo e mostrando a linda fieira dos seus preciosos dentes.

— É que V. Ex.ª dá-se mal com o frio?

— Muito, sou muito friorenta. Detesto o inverno: o meu tempo é este.

— Então com certeza que havia de gostar do Brasil, apesar que as noites são quase sempre frescas, mesmo no pino do verão. A temperatura ali sofre uma mudança brusca do dia para a noite.

— Deve ser bom para as pneumonias.

— Não. Essa doença é pouco vulgar no Brasil. Armazena-se de dia calor suficiente em todo o corpo para resistir à frescura da noite.

Tinham chegado à margem.

O Bernardino saltou em terra e ajudou as senhoras a desembarcarem, admirando sorrateiramente os lindos pezinhos da Lígia, que, muito rosada e alegre, estava verdadeiramente fascinante.

Sobre as malas lá vinham, numa grande gaiola de folha, dois magníficos papagaios bravios e bisonhos,

que ainda não sabiam falar e olhavam desconfiadamente para tudo que os rodeava.

Ultimadas as praxes aduaneiras meteram-se todos num trem e o Bernardino mandou bater para o Hotel

Francoforte, do qual tinham boas referências no Rio, era ainda então viva a sua proprietária, a D. Joaquina, mulher enérgica e de ação, que sabia como poucos dirigir o seu negócio.

— Convido-os para almoçar comigo, disse o Bernardino.

Todos agradeceram.

No trem, por mais de uma vez os seus olhos se encontraram com os de Lígia, que eram

verdadeiramente sedutores e raros no seu tom esmeraldino, de um brilho e duma expressão singulares.

O Bernardino estava bem conservado, apesar da sua cor um tanto macilenta e de no bigode já lhe alvejarem alguns cabelos brancos.

Era, porém, homem robusto, alto, bem conformado, pouco nutrido, musculoso, de expressão viva e insinuante, feições muito corretas e magnífica apresentação. Ao contrário da maioria dos portugueses que

persistem no Brasil muitos anos, o soutac da pronúncia brasileira quase que nele se não percebia.

Não tinha mesmo esses modos e ademanes especiais do país, conservando o gesto largo e desembaraçado de português legítimo.

Ostentava uma certa dignidade, porte inerente à sua qualidade de comendador, sem no entanto ser ridículo.

Intimamente, Lígia achava-o muito simpático e não se cansava de admirar-lhe os magníficos diamantes da camisa e do anel, que faiscavam em vibrações cintilantes de irisada luz.

Especialmente o do anel era uma verdadeira estrela. Custara-lhe, em S. Paulo, três contos de réis

fracos dissera ele tirando o anel do dedo e passando-o a Lígia.

Era de primeira água e pesava seis quilates e cinco oitavas.

Abancaram à mesa e veio o almoço regado com vinhos escolhidos, como ele recomendara.

Estavam todos com apetite.

Sob a influência do Bucelas branco e do Château Laffite, Lígia animara-se e estava linda.

Colhendo as frutas ou levando o copo aos lábios, as mangas largas e soltas da sua blouse deixavam-lhe a descoberto o seu braço escultural, branco, e aveludado, dessa brancura mate, que é a mais bela que

uma mulher pode possuir.

Nem um só dos seus movimentos passara despercebido ao Bernardino, que tinha para ela verdadeiros requintes de delicadeza.

O Leonel, guloso, atascava-se em doces sem proferir palavra e a mãe, babosa, beijava-o muito de momento a momento.

Quando acabaram de almoçar passava das duas horas da tarde.

O Porto e o Jerez animara-os bastante e conversaram muito.

O Bernardino bebia pouco.

Sem perder a linha, contara toda a sua vida de vinte anos e o muito que trabalhara para atingir a meta

dos seus sonhos.

O Policarpo descrevera-lhe o estado do comércio em Lisboa e como o negócio estava cada vez mais

difícil.

— Se o amigo precisa de algum dinheiro, disse o Bernardino, queira dizer, porque estou às suas ordens. Até vinte contos pode dispor, e sem juro, entenda-se.

O Policarpo agradeceu a oferta, mas observou que não queria meter-se em cavalarias altas. Continuaria como até ali. Tencionava reformar a loja, e nada mais.

— Uma limpezazita para que ela brilhe e ficarei por aqui.

O seu caracter tímido nervoso era avesso a inovações ou rasgos de audácia.

A D. Eudóxia suspirou e olhou para o filho, que estava muito atarefado a comer um biscoito molhado

em vinho do Porto.

Vieram charutos.

Os homens serviram-se.

— E o Sr. Bernardino nunca pensou em casar? interrogou Lígia.

— Não minha senhora. Tive sempre trabalho de mais para pensar nos encargos do matrimónio.

— É porque nunca encontrou uma senhora de quem gostasse.

— Talvez; mas o que não se encontra cedo, encontra-se tarde.

E o Bernardino fixou Lígia, que se ruborizou um pouco e baixou os olhos.

O Policarpo e a D. Eudóxia não perceberam o intencionalismo da resposta.

— Domingo, vem jantar connosco, disse o Policarpo.

— Domingo, não pode ser.

— Porquê?

— Porque estão convidados para irmos passar o dia a Sintra, e a sr.ª D. Lígia também.

Agradeceram penhorados.

— Tenham paciência, ajuntou o Bernardino, acendendo o charuto que deixara apagar. Já agora serão os

meus companheiros da estúrdia nestas férias de vinte anos que concedi a mim mesmo. Não tenho conhecimentos em Lisboa, nem os quero, e na companhia dos meus amigos terei muito prazer em me

distrair um pouco.

Com as lágrimas nos olhos (efeitos do Jerez), o Policarpo agradeceu comovido essa prova de afeto do seu antigo caixeiro.

— Venha hoje tomar café connosco, disse a D. Eudóxia.

— Aceito. Em sendo sete horas lá estarei. Deem-me, porém, a morada para poder lá ir e mandar-lhe o papagaio.

O Policarpo entregou-lhe um cartão.

O Leonel adormecera com a cabeça encostada aos braços cruzados sobre a mesa.

— Boa idade, observou o Bernardino.

— É um santinho, disse a Lígia recordando-o.

Despediram-se, e do alto do patamar da escada do hotel, o Bernardino ficou admirando a gentileza da

Lígia, cujas nádegas opulentas tremelavam em oscilações lascivas ao descer dos degraus.

— Linda rapariga, murmurou ele.

E como estava fatigado, foi-se deitar sobre a cama, onde não tardou a adormecer.

*

Às sete horas foi pontual em casa do Policarpo.

Este, ajudado por Lígia, que era dotada de um bom gosto muito artístico, arranjara a mesa a primor, repleta de doces finos, vinhos escolhidos e flores frescas.

O antigo serviço de prata que o velho Martins deixara, foi chamado a capítulo, assim como as

chávenas da China, autênticas, como talvez não existissem outras iguais em todo o país, chávenas do tempo do avô do Policarpo, que contavam mais de um século.

— Por ser a primeira vez, aceito o tom de gala com que este café me é oferecido, exclamou o Bernardino apenas entrou na casa de jantar.

E rapidamente, num relancear de olhos, procurou Lígia.

A formosa menina não tardou a aparecer, muito alegre e sorridente, deixando então ver o esplendor dos seus belos cabelos negros.

Sentando-se, o Bernardino pediu licença para oferecer ao Policarpo e à esposa duas insignificantes lembranças, e tirando da algibeira dois estojos entregou-os aos seus respetivos destinatários.

O do Policarpo continha um magnífico cronómetro de oiro, cadeia e medalha do mesmo metal, tendo

esta em rubis e diamantes o monograma da pessoa a quem era oferecido.

O da D. Eudóxia encerrava um par de brincos de brilhantes magníficos, artisticamente engastados em

coroa.

Ambos os brindes haviam sido feitos numa das melhores ourivesarias do Rio de Janeiro.

Os brindados agradeceram comovidos.

— Que lindos são! exclamou Lígia dilatando as grandes pupilas negras e luminosas à vista dos brincos que o Bernardino oferecera à D. Eudóxia.

— Põe lá para ver o efeito que fazem, disse-lhe esta.

A Lígia enfiou os brincos nas lindas orelhas cor-de-rosa e mirou-se ao espelho da casa de jantar.

As pedras despediam cintilações de fogo que se harmonizavam lindamente com a formosura da jovem

senhora.

Numa espécie de êxtase admirativo, o Bernardino admirava-a em silêncio.

— Fazem um efeito deslumbrante, observou a D. Eudóxia.

Lígia tirou-os e meteu-os no estojo com todo o cuidado, soltando um suspiro.

— Gosta muito de brilhantes a Sr.ª D. Lígia? interrogou o Bernardino.

— Muitíssimo; mas para brincos o que mais gosto são as esmeraldas. É a pedra da minha paixão.

— Também eu. É realmente uma pedra lindíssima quando reúne à pureza da cor a limpidez absoluta. Quando não tem jardim, como dizem os joalheiros.

A criada apareceu trazendo o café numa bela cafeteira de prata antiga.

Lígia, muito obsequiosa, serviu o Bernardino e ofereceu-lhe bolos.

A conversação generalizou-se, seguindo o Bernardino a contar várias peripécias da sua vida durante o

tempo que estivera no Brasil.

Por mais de uma vez os olhos do Bernardino se encontravam com os da jovem, que baixava os seus,

pudicamente.

Muito diplomaticamente, a conversação enveredou pelo tema do casamento, de maneira que ele ficou sabendo que Lígia não tinha namoro.

Esta revelação pareceu encher-lhe o espírito de prazer porque dali por diante mostrou-se mais alegre e expansivo e combinou todos os detalhes do passeio que desejava dar a Sintra no próximo domingo.

Almoçariam em Sintra, e findo o almoço partiriam para Mafra a ver o convento. Depois iriam à Ericeira e regressariam ao hotel para jantar.

E demorou-se assim até às nove da noite, muito satisfeito, e contente como se tivesse remoçado dez

anos.

Quando ele saiu a D. Eudóxia disse para o marido:

— Ou eu me engano muito ou o Bernardino gosta da Lígia.

— Seria a felicidade dela, respondeu o marido. O Bernardino vale pelo menos trezentos contos.