O Sr. Ganimedes
Capítulo IX
Uma existência completamente nova começou então para Lígia.
Por doze contos de réis comprou numa das ruas da Avenida um elegante palacete-chalé, composto de rés-do-chão, primeiro andar e jardim, pertencente a um brasileiro, que tendo perdido a esposa
desgostara-se de Lisboa e fora residir para o Porto em companhia de duas filhas já senhoras.
Mobilou-o com todo o gosto e elegância, ajudada pelo Leonel, que como já sabemos tinha um gosto especial para estas coisas, adquirido no convívio do conde, que era um artista de primeira ordem e cujo
palácio em Lisboa tinha fama de ser um verdadeiro templo de arte, onde se encontravam preciosidades raras, antigas e modernas, além da beleza de todas as decorações e mobiliário.
O seu amor pelo Leonel atingira o grau de uma verdadeira paixão.
A extrema formosura e distinta elegância do filho da D. Eudóxia deram-lhe volta à cabeça e no seu espírito sereno acordaram desejos ardentes de voluptuosidades doces auferidas nos braços daquele rapaz
de vinte anos.
Às vezes assaltava-a a ideia da diferença de idades, pois quase que podia ser mãe dele, mas, revendo-
se ao espelho, confessava a si própria que era bela, fresca e louçã como uma rosa em abril, e que nenhuma outra mulher possuía uma tez mais pura, uns olhos mais brilhantes, uns cabelos mais lindos, uns seios mais túrgidos, um ventre e um colo mais esculturais e umas formas mais corretas e estonteantes, que
fariam a felicidade e o encanto de qualquer homem, por mais jovem que ele fosse!
Quando se apeava do trem e entrava nas lojas, surpreendia, com a sua natural perspicácia de mulher,
os olhares intencionais admirativos com que todos os homens a examinavam.
Convidara a tia Benedita para vir viver em sua companhia, mas a prudente senhora, agradecendo-lhe a lembrança, respondeu-lhe:
— Deixa-me antes viver cá no meu canto. Vocês são duas crianças, o Leonel especialmente, e tu estás doidinha por ele. Vivam apenas os dois na sua casa sem testemunhas, que é o melhor. Ainda se eu lhes
pudesse ser útil! Mas para andar nesta cadeira fico melhor aqui, se com isto te não ofendo.
— A tia nunca me ofende. Convidei-a a viver connosco pelo muito que a estimo, mas longe de mim a ideia de contrariar.
— Não, Lígia, não me contrarias, eu é que os iria contrariar.
No fundo, Lígia achava que sua tia Benedita tinha razão.
Ela preferia viver apenas com o marido naquele doce sonho de uma felicidade de amor que se lhe apresentava ao espírito como o paraíso na terra.
Qualquer pessoa estranha, parecia-lhe um embaraço ao correr desses caudais de ternura que ela sentia
prestes a rebentarem-lhe do seu coração apaixonado de mulher de trinta anos que nunca amara.
O desejo da tia Benedita agradou-lhe, pois, sobremaneira.
E seguiu alegre, satisfeita, radiante e jubilosa nos arranjos do ninho dos seus amores, que dia a dia adquiria as aparências de um verdadeiro palácio de conto das mil e uma noites, tal era o gosto, a finura e
a arte com que o estavam decorando sob as indicações dela e do Leonel, ao qual por conta do seu dote entregara um conto de réis para o enxoval.
*
Ao todo, Lígia destinara para as despesas do seu novo estado a importante verba de cinquenta contos, ou seja a oitava parte da sua fortuna, que regulava por quatrocentos contos fortes.
Um caso imprevisto, porém, veio impressioná-la bastante. O Leonel dera uma queda da bicicleta, torcendo um pé e ferindo-se no cóccix.
Recolheu ao leito, onde persistiu duas semanas sem poder ter-se em pé.
O médico declarara que a queda fora desastrosa, especialmente a pancada que recebera nesse osso tão delicado e que tanta importância exerce em todo o sistema nervoso.
Não houvera, porém, fratura, o que diminuía a gravidade do desastre.
Lígia foi para ele de uma solicitude extrema, que não desmerecia em nada a de D. Eudóxia.
Não lhe abandonava o leito senão o tempo indispensável dos afazeres práticos da vida, e demonstrou-
lhe sempre uma ternura, um afeto e uma dedicação que o faziam sofrer, por constatar que lhe era impossível corresponder àquele grande e desinteressado amor, como ao de outra qualquer mulher.
Não podendo conter-se, o Liberato veio visitá-lo.
Lígia, que estava presente, antipatizou com ele, com a sua corpulência hercúlea, os seus bigodes de granadeiro, os seus modos grosseiros e desabusados, e a sua voz de estentor ressoando em frases banais
e galhofeiras que lhe irritavam os seus nervos delicados e sensíveis.
Leonel sentiu uma grande alegria quando o viu, mas conteve-se.
Lígia não se retirara do quarto, o que contrariou bastante o Liberato, que não demorou a visita.
— Quem é este homem tão grosseiro? perguntou ela.
— É o cobrador do escritório, respondeu o Leonel. Um excelente rapaz, não imaginas! Aquilo é o
coração mais nobre e dedicado que tenho conhecido. Sob aquela aparência rude, oculta os melhores sentimentos que se podem desejar. É muito meu amigo e os patrões estimam-no muito. Devo-lhe bastantes
finezas.
— Sendo como dizes, respondeu Lígia, é pena que tenha uma apresentação tão desastrada.
— Desculpa. O pobre rapaz não tem culpa de ser filho de gente baixa e não haver recebido a precisa
educação para saber tratar com gente de certa ordem.
— Ai, eu embirro tanto com gente mal-educada, suspirou Lígia.
— Tens razão, ajuntou o Leonel distraidamente.
*
Só ao cabo de vinte dias é que o Leonel se encontrou completamente curado e em estado de poder sair.
O seu amigo Liberato viera ainda visitá-lo mais três vezes.
Da primeira, por acaso, Lígia tinha saído, e das duas seguintes aproveitara propositadamente, por conselho do amigo, a ausência dela, que todos os dias, das duas às quatro horas, permanecia na sua casa
da Avenida determinando o arrumamento e disposição dos móveis, louças, vidros, pratas, etc.
— Porque não queres que eu cá venha quando ela cá está? inquiriu o Liberato.
— Porque ela embirrou contigo a primeira vez que te viu. Não gostou do teu modo alegre e piadista.
— Olha lá a marquesa não se ofenda! respondeu o Liberato acendendo um cigarro.
— Cala-te, que pode vir por aí a minha mãe.
— Diabo, tu estás cada vez mais cagão. Se não fosse o dote, palavra que não consentia que te casasses.
— Ai, filho, nem tu sabes o sacrifício que vou fazer!
O Liberato olhou-o de revés e chupando o cigarro, monologou:
— Sei, sei, estou certo disso...
*
Chegou finalmente o grande dia.
Na véspera, Lígia entregou ao noivo um estojo contendo uma magnífica abotoadura de brilhantes que
pertencera ao Bernardino, um lindo alfinete de esmeraldas e pérolas, e um envelope contendo um cheque de vinte e cinco contos ao portador, que era o seu dote e presente de núpcias.
O Leonel dera-lhe um meio adereço de turquesas e brilhantes que lhe custara quatrocentos mil réis, obra-prima de fino gosto, signè Leitão, que ela achou um verdadeiro encanto.
Mais uma vez, a D. Eudóxia tornou a ser madrinha do casamento de Lígia.
O Leonel escolhera para padrinho, à última hora, o comendador Teixeira Galo, a quem em tempo concedera os seus favores e que caiu das nuvens quando recebeu semelhante convite.
Homem fino, discreto e muito bem-educado, aceitou sem fazer a menor referência a coisas passadas, limitando-se a esboçar nos lábios um leve sorriso irónico.
Estava ao facto da mancebia do Leonel com o conde da Lagoa Escura e das causas que haviam
determinado a rutura dessas exóticas e repulsivas relações.
Não acreditava que o filho da D. Eudóxia sofresse uma regeneração nos seus hábitos de efebo
reconhecido.
Quando ele lhe declarou que a noiva era uma viúva muito rica, o comendador teve um calafrio.
— Uma viúva já não era uma ignorante, pensou ele, e o Leonel, ou havia de portar-se com galhardia ou
fazer a mais triste das figuras.
Achava-o bonito de mais e homem de menos para esse efeito, e lembrava-se de umas certas
particularidades que ele em tempos lhe contara e lhe revelaram que a natureza quando o gerara com certeza que se enganou com o sexo que lhe dera.
Não pode conter-se que lhe não dissesse:
— Então já conheces mulheres?
Muito corado, o Leonel respondeu-lhe:
— Não, ainda não.
— Diabo, retorquiu o comendador, vê lá no que te vais meter, e de mais a mais com uma viúva.
— Conhece-me desde pequeno.
O comendador encolheu os ombros murmurando:
— E que tem isso?
*
Lígia quis que o seu casamento fosse como o primeiro, o mais modesto possível.
Tencionava jantar na sua casa em companhia da D. Eudóxia, da tia Benedita, do marido, do padrinho deste e de mais duas senhoras amigas, a mulher e a filha do seu correspondente, que também foram
convidadas.
O Leonel convidara também o seu amigo Arnaldo Sarilhos, repórter de um jornal da noite, a quem
emprestara muitos cinco tostões em troca de ele, que era uma língua de víbora, não contar a toda a gente o que sabia a seu respeito.
Convidara-o para que desse a notícia do casamento na gazeta e para o fazer testemunha de que a
passada maledicência terminava definitivamente naquele dia.
Divinal, simplesmente divinal estava Lígia, na sua elegantíssima toilette de cetim lilás com rendas
pretas, como competia à sua qualidade de viúva.
A alegria e a felicidade irradiavam no seu rosto formosíssimo, esplendendo como um sol, quando o Leonel primorosamente encasacado apareceu na igreja para a realização da cerimónia.
— A noiva é uma linda mulher, diziam os curiosos do sexo forte.
— Ai, mas o noivo é uma beleza de rapaz, murmuravam as mulheres embasbacadas para o Leonel, que
estava realmente uma sedução, gentil, elegante, distinto, apolíneo enfim.
A um canto, meio oculto com uma das colunas que sustinham o coro, o Liberato observava a cena retorcendo a respeitável bigodeira e ruminando projetos, nascidos de saber o Leonel possuidor da bonita
quantia de vinte e cinco contos.
O sacerdote proferiu o conjugo vobis sacramental e fez aos noivos uma prática muito moral e
romântica, olhando de soslaio para o Leonel, cuja crónica lhe chegara vagamente aos ouvidos por intermédio do coadjutor, que era homem enfronhado em todos os escândalos da capital e das relações do capitalista Couto, a quem o conde disputara em tempo a posse do famoso efebo.
O gentil mancebo estava pálido como a cera.
Quando proferiu o sim da praxe que o ligava para sempre àquela formosa mulher por tantos apetecida
e desejada, pareceu-lhe que a alterosa cúpula do templo ia desabar sobre ele.
A conquista legal e ampla daquela verdadeira flor da carne em plena exuberância da vida, conquista que para outro qualquer constituiria a mais suprema das felicidades, era exatamente o que lhe infundia
maior pavor.
A sua aversão às mulheres fora sempre profunda, já por uma acentuada reversão sexual tantas vezes cientificamente debatida, já porque a cultura persistente do vício constituíra nele um hábito que era uma
segunda natureza.
De Lígia, adorável mulher em toda a pujança dos mais sugestivos encantos e seduções que uma mulher pode possuir, boa, meiga, amorável, rica, elegante, tentadora, que o amava com a mais intensa paixão, só
sabia espiar-lhe a maneira de andar e o fino gosto com que se calçava para assim aparecer diante do Liberato, desse rude e brutal sodomita por quem nutria a mais exótica e brutal das paixões!
A ideia de que tinha de se deitar com uma mulher e tatear-lhe as carnes aveludadas e excitantes, irritava-o profundamente!!
Deu, pois, o braço a Lígia, radiante de ventura, atravessando com ela o templo entre a admiração dos
curiosos que o enchiam, e na sacristia assinou com mão trémula o termo matrimonial.
Os seus olhos meigos e tentadores debalde tinham procurado entre os circunstantes o Liberato, que,
escondido atrás da coluna do coro, se retirara depois da bênção nupcial.
O seu pensamento, porém, voava para ele e para esse quarto ignóbil da rua das Gáveas, onde tinham lugar os seus amores repulsivos e nojentos.
*
— Estás tão triste, meu amor! disse-lhe Lígia apenas o trem começou a rodar.
— Um pouco nervoso, respondeu ele. Desculpa.
E a sua mão gelada estremeceu violentamente na da esposa, que lha tomara por natural instinto amorável.
Chegados a casa, Lígia esperou debalde que ele a abraçasse e beijasse com esse fogo natural da sua juventude, provocado pelos encantos e beleza que ela possuía.
Junto da mãe, com o olhar abstrato e como que fixo num ponto indefinido no espaço, o Leonel deixou-a recolher aos seus aposentos para mudar de toilette, e não a seguiu.
Embora um pouco despeitada, atribuiu à timidez aquele procedimento do marido.
Depois de vestida, chamou-o para o consultar acerca de uma coisa fútil.
— Tua mulher chama-te, disse-lhe a mãe.
O Leonel, como que acordando de um sonho, foi ter com ela, respondendo com toda a gravidade às perguntas que lhe eram feitas.
— Então nem ao menos me dás um beijo! exclamou Lígia com a seta da desconfiança a ferir-lhe o
coração duas horas depois de casada!
Automaticamente, o Leonel beijou-a no rosto umas poucas de vezes; mas com a sua fina perceção de
mulher, Lígia percebeu que aqueles beijos não tinham calor, nem expressão, nem intencionalismo.
Um mundo de suposições, qual delas a mais dolorosa, atravessou o cérebro da gentil mulher, magoando-a profundamente.
— Anda cá, Leonel, disse ela sentando-se num sofá; sê franco, diz-me: tu namoravas alguma rapariga ou tinhas alguma amante?
— Não, Lígia. Juro-te pela vida de minha mãe. Nem namorava rapariga alguma nem tinha nenhuma
amante. Nunca namorei nem nunca tive amantes, podes acreditar.
Havia tanta sinceridade na maneira como ele dissera aquelas palavras e o seu rosto conservava-se tão tranquilo, que Lígia não duvidou mais.
— Perdoa-me ter duvidado de ti, exclamou ela abraçando-o carinhosamente. Mas, vejo-te tão indiferente e frio, que cheguei a desconfiar que a recordação de outra mulher te preocupasse ao ponto de
te esqueceres de mim.
Ele sorriu-se franca e lealmente, e fazendo um esforço, enlaçou-a nos braços e beijou-a nos lábios vermelhos e quentes.
Lígia sentiu a vertigem da voluptuosidade, apertou-o ao coração e soltou um suspiro, cerrando as pálpebras veludíneas que encobriam o brilho esmeraldino dos seus verdes olhos.
*
Tim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, tim, tim.
Onze horas da noite dadas no elegante relógio de bronze dourado e jaspe colocado sobre o artístico
fogão de mármore do boudoir que precedia o quarto de Lígia.
Sentado na magnífica chaise-longue forrada de peluche grená com guarnições de cetim verde-malva, o
Leonel, ainda encasacado, olhava abstratamente as velas de cera cor-de-rosa que ardiam serenamente nas duas serpentinas de cinco lumes que ladeavam o relógio. Estava muito pálido e nervoso.
A esposa retirara-se havia pouco, dizendo-lhe que quando tocasse a campainha elétrica podia entrar na
alcova nupcial.
Leonel aguardava esse momento, que para todos os homens constitui o mais inolvidável de toda a sua
existência, com o mesmo terror com que um condenado a pena última espera tristemente na prisão a leitura da fatal sentença.
Lígia, relembrando as cenas de amor que a sua amiga do Rio lhe confidenciara, perdera essa timidez e
indiferença que tinham presidido à sua noite de núpcias com o primeiro marido, e tornara-se coquette.
Demais, amava o Leonel e desejava-o carnalmente no acordar de uma voluptuosidade intensa, própria
dos seus esplendentes trinta e dois anos tão cheios de vida e de seduções.
Vestira uma leve camisa de seda gris, opulenta de rendas e extremamente decotada, deixando-lhe a descoberto os seios olímpicos de Vénus gloriosa, conservara calçadas as lindas meias do noivado e as
ligas luxuosas com fivelas de diamantes, e soltara os abundantes cabelos que lhe emolduravam deliciosamente o rosto sedutor e insinuante.
Perfumara as carnes brancas e rijas com a mais fina essência de muguet, de Deletrez, tirara os anéis preciosos, conservando apenas a aliança conjugal, e estendendo o braço alvo e torneado que era um encanto, fez soar o timbre dando sinal ao marido.
O Leonel, ao ouvir aquele sinal, teve um sobressalto comparável ao que Ernâni deveria ter sentido
quando a buzina de Rui Gomes da Silva lhe recordou o seu terrível juramento[1].
Ergueu-se do sofá e trémulo, agitado, frio, com todo o sangue a paralisar-lhe nas veias, afastou o
reposteiro e entrou no quarto.
Lígia sorriu-lhe amoravelmente e disse-lhe:
— Creio que não te deitarás de casaca...
— Ah, respondeu ele, eu já me dispo.
E nervosamente, atabalhoadamente, começou a despir-se, atirando com o fato ao acaso para cima das
cadeiras.
Lígia reparou naqueles modos, mas atribuiu-os a um frenesim sensual, à pressa de ele se encontrar nos seus braços, e esta ideia sorriu-lhe à sua imaginação de mulher enamorada.
Quando ele se meteu na cama com a maior reserva e pudicícia, ela cingiu-o ao coração e disse-lhe após um longo beijo de amor:
— Como eu te amo, meu querido Leonel!
Ele não respondeu, e afastou-se um pouco subtil e suavemente do contacto dessas carnes frescas de mulher nova, que tinham a macieza de veludo.
Lígia esperou o que naturalmente toda a mulher espera em semelhante ocasião, tanto mais uma viúva de trinta e dois anos.
O marido, porém, mantinha-se insensível!!
Ela então perdeu as reservas e acanhamentos.
Era necessário ter arte e audácia para vencer o que julgava a timidez daquele homem quase uma
criança, e reflexionando que a sua idade e posição lhe davam direitos soberanos, apoderou-se do marido com todas as liberdades e seduções de uma mulher coquette e desejosa.
Tudo quanto aceitavelmente sensual uma mulher pode exercer, para despertar os desejos do homem amado, ela exerceu com a mais requintada galanteria e coquetismo.
O Leonel porém, estava morto...
— Mas que te passa, filho? que tens tu? o que é isto? exclamou nervosa, fixando o marido com persistência, como querendo ler-lhe no olhar a revelação daquele terrível mistério!
— Sabes, disse-lhe ele muito triste, o médico disse-me que por muito tempo ficaria assim em resultado da queda!
Lígia soltou um grande suspiro, beijou o marido na fronte e depois desatou a chorar convulsivamente.
Ele afagava-a como um autómato, declarando-lhe que tinha fé que aquilo havia de passar, e para que ela dormisse melhor, descalçou-lhe as lindas meias, pensando que o Liberato havia de gostar muito de o
ver com umas assim!
Apagaram a luz, e durante muito tempo o Leonel ouviu o choro abafado e convulsivo da esposa, até que adormeceu eram quase quatro horas da madrugada.
Ao almoço, a tia Benedita, que nessa noite ficara em casa de Lígia, pois se sentira um pouco indisposta depois do jantar, vendo-lhe os olhos vermelhos e as fundas olheiras que os bistravam, pois a desditosa senhora não dormira um minuto sequer, sorriu-se com finura e murmurou:
— Desta vez sim!!!