O Sr. Ganimedes

Alfredo Gallis · Capítulo 7 de 15

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O Sr. Ganimedes

Capítulo IV

 

Desde aquele dia memorável nos faustos da sua vida, até ali composta apenas de trabalho e de

ambições de riqueza sem nuances que lhe afetassem o coração, o Bernardino começou a sentir-se empolgado por uma existência verdadeiramente nova.

Lígia enchia-lhe a alma de uma luz radiante e sumptuosa, levemente cendrada pela suavidade do seu olhar, pela doçura das suas palavras, pela correção honestíssima do seu porte.

Pouco a pouco, com essa intimidade que entre eles se ia estabelecendo em cada dia que passava, ele

descobria nela novos atrativos e seduções.

Burguês prático e observador, não lhe passava despercebido o espírito de ordem e de arranjo

doméstico que presidia a todos os atos da jovem senhora.

Com muita delicadeza e quase acanhamento, pedira-lhe licença para lhe oferecer o enxoval. Era um pequenino brinde de núpcias que desejava oferecer-lhe, e por isso esperava que ela não lhe recusasse

esse favor.

Lígia acedeu da melhor boa vontade, pois bem sabia que só à custa de grande sacrifício sua tia lhe

poderia fazer um enxoval menos que modesto.

O Bernardino entendeu-se com o Martins e por intermédio de um colega deste, que tinha largo trato com uma casa de Paris, encomendou o enxoval para essa casa, tendo a D. Eudóxia obtido de Lígia todas

as medidas.

Os vestidos foram confecionados num dos mais hábeis ateliers de Lisboa, o calçado mandado fazer no

Coimbra, os chapéus escolhidos no Paris-em-Lisboa e as joias no Leitão.

O Bernardino gastou para cima de quatro contos, e dos magníficos solitários de peitilho de camisa mandou fazer uns lindos brincos para oferecer à sua futura esposa.

Decorriam os dias e o Bernardino cada vez estava mais enamorado de Lígia.

Todas as tardes, antes de jantar, ia vê-la, e à noite saía com ela, com o Martins e a D. Eudóxia a darem

belos passeios de carruagem, ou pela Avenida, onde se sentavam a tomar ar até às onze horas.

Lígia começava a encarar com interesse a sua situação e a estimar aquele homem que ia ser seu marido, que não amava, é certo, mas que lhe agradava muito pelas suas qualidades, maneiras, dedicações

e afeto.

Os preparativos do casamento empolgaram-lhe o ânimo juvenil com esse sabor penetrante da

novidade.

Quando foi à modista provar os vestidos, magníficos e elegantes, sentiu-se cheia de orgulho e de satisfação. Nunca se vira na posse de sedas tão belas e distintas, rendas caras, aplicações do mais fino

gosto, essa sedução enfim das coisas bonitas e ricas que só o dinheiro faculta.

A vaidade inerente ao seu sexo despertou nela e quase que se sentia tonta à vista daqueles doze

vestidos lindíssimos, daquelas capas ricas e chapéus modelos, daquelas matinées e blusas de aprimorado gosto, que deram que fazer a todas as costureiras do atelier, que a miravam com luminosos e

invejosos olhos.

O dono da casa desfazia-se em atenções e a contramestra chamava-lhe mademoiselle.

Começava a sentir a influência da riqueza a emoldurar-lhe a vida numa outra atmosfera muito diferente

daquela em que sempre vivera.

O Coimbra estava-lhe manufaturando botas de doze mil réis o par, de pelica finíssima, forradas de

seda branca e salto artisticamente peonado.

Os sapatos para o casamento, todos de cetim branco, bordados a aljôfares, eram um verdadeiro primor no género.

E quando o enxoval veio para sua casa em grandes caixas com a etiqueta do fabricante, acondicionado com suprema arte, todo de finíssima cambraia e linho de Holanda, delicioso de rendas e bordados, com o

seu monograma a cetim branco, ela passou dias em companhia da tia Benedita e da D. Eudóxia a examinar todos aqueles primores dos quais se evolava um suave aroma de voluptuosidade.

Só meias de seda tinham vindo seis dúzias! O Bernardino não quisera doutras.

O adereço nupcial era uma maravilha de riqueza, de elegância e de bom gosto.

Entretanto, já na paroquial da Madalena tinham corrido os dois primeiros pregões.

Aproximava-se rapidamente o momento supremo em que ela ia ligar o seu destino ao daquele homem que a adorava.

O Bernardino não pusera casa.

Tencionava ir passar a lua-de-mel para o Buçaco, partindo em seguida para uma viagem a Paris, Suíça e Itália, verdadeira viagem de noivos, que eram os sonhos dourados de Lígia.

Só depois dessa viagem e de ter regularizado as coisas no Rio é que voltaria a Lisboa para aqui fixar residência.

Tencionava mandar construir uma casa na Avenida da Liberdade, então ainda em começo, mas cujo

local achava muito bonito e central.

A D. Benedita custava-lhe muito a conformar-se com a separação da sobrinha, com quem vivia há

tantos anos e criara desde pequena como se fora sua filha.

— Tenho o pressentimento de que a não torno a ver, dissera ela, chorando, à D. Eudóxia.

— Qual! A viagem dura para aí uns seis meses, se tanto.

— Mas o Bernardino diz que vai ao Brasil! acrescentou chorosa.

— E que vá! Hoje vai-se ao Brasil em quinze dias. Não pense nessas coisas, D. Benedita.

A boa senhora abanava a cabeça tristemente e ficava-se a pensar naquela separação que tanto lhe custava.

Finalmente chegou a véspera do dia do casamento; estava-se em fins de setembro. Mais algumas horas

e Lígia estaria uma senhora casada.

Dois dias antes, o Bernardino fizera o seu testamento, garantindo Lígia contra qualquer desgraçada surpresa do acaso, deixando-lhe metade da sua fortuna, caso ele morresse sem filhos.

À noite, depois do chá, em casa da D. Benedita, oferecera-lhe as joias nupciais que entregara à D. Eudóxia.

Além dos brincos de brilhantes, dera-lhe mais um adereço completo de turquesas e brilhantes, cinco

anéis preciosos, um colar de pérolas, um relógio com o monograma dela em rubis, um leque de tartaruga e ouro, um lorgnon de ouro cravejado de safiras, um jogo de travessas para o cabelo, uma pulseira de

rubis e brilhantes de alto preço, e um enfeite para cabelo, de diamantes e pérolas.

Quando, depois de ele sair, Lígia abriu aqueles finos estojos de peluche que encerravam tão preciosos objetos, ficou maravilhada.

Antes de se deitar, a tia Benedita foi ter com ela ao quarto e, sentando-se à beira do leito, disse-lhe:

— Daqui a poucas horas vais ser uma senhora casada e por isso, como ignoras os mistérios do

matrimónio, vim ter contigo para te fazer algumas recomendações.

Lígia abriu muito os seus grandes olhos verdes, sem saber onde a tia queria chegar.

A D. Benedita assoou-se e baixando a voz começou a confidenciar-lhe vários mistérios do amor.

Lígia ruborizava-se mas escutava com atenção.

— Percebes?

— Sim, senhora, percebo.

— Nada de resistências escusadas. É teu marido, e na sua idade essas resistências prejudicam às vezes o entusiasmo do homem. Deixa-o proceder como ele quiser.

— Mas sem luz.

— Sem luz ou com ela, como ele desejar.

— Mas tenho vergonha, tia.

— Terás; o mesmo me aconteceu a mim, mas acima de tudo é teu marido e não o deves contrariar.

Depois fez-lhe outra pergunta.

— Ah, exclamou Lígia, isso não tem perigo; ainda faltam mais de quinze dias.

— Está bem, está bem. É sempre uma coisa desagradável para o homem quando ela nos sucede na

noite do noivado. Para ele e para nós. Já te arranjei uma caixinha com vaselina bórica para levares contigo.

— Para quê? inquiriu a jovem.

D. Benedita explicou.

Lígia sentiu as orelhas a escaldarem.

Todas aquelas explicações, aliás necessárias às raparigas que vão casar, boliam-lhe com os nervos e feriam o seu pudor de virgem.

D. Benedita, porém, era minuciosa e perita no assunto. Entrou em detalhes, apontou acasos prováveis,

fez recomendações atiladas e judiciosas, indicou melhor maneira de se comportar e retirou-se muito cônscia de ter exercido uma missão importante, advertindo à sobrinha que às sete horas da manhã, a criada viria preparar-lhe o banho, para o que já lá estava a tina no quarto.

Às oito viria a cabeleireira penteá-la e a D. Eudóxia vesti-la.

Todas as peças de roupa branca do noivado, as meias de seda, os sapatos, o espartilho, etc., já estavam metodicamente dispostas sobre o pequenino chaise longue do quarto da jovem.

*

Lígia não podia conciliar o sono. As explicações da tia Benedita dançavam-lhe macabramente no

cérebro, formando quadros esquisitos e imagens confusas que ela não podia definir com precisão e certeza.

Invadiu-a um misto de receio e de curiosidade, esse amálgama fantasioso que se gera sempre no

espírito da mulher honesta à beira de desvendar o grande mistério do homem físico, nas suas, para ela desconhecidas, manifestações carnais.

Muitas vezes Lígia, na força da mocidade, saudável e robusta, tinha sonhos extraordinários, amoráveis, voluptuosos, intensos, que lhe determinavam uma sensação deliciosa, da qual, ao acordar, encontrava em si evidente prova.

Mas... nesses sonhos nunca apercebera aquilo de que a tia Benedita lhe falara e cuja descrição fizera com um relevo literário que não deixava dúvidas nem admitia ignorâncias…

Sentira-se nesses sonhos lúbricos beijada por algum rapaz bonito que lhe dera nas vistas e nada mais.

A sua mente escandecida ampliava em demasia as descrições da tia Benedita e quase que chegava a ter medo.

A muito custo adormeceu, passava das duas da madrugada, e só acordou quando a criada, entrando no quarto e abrindo as portas de dentro, fez entrar nele um jorro de claridade, ao passo que dizia com a sua

voz esganiçada:

— São sete horas, menina, vou preparar-lhe o banho.

Lígia abriu os olhos, estendeu os formosos braços, passou os dedos pelos opulentos cabelos e sentou-

se na cama estremunhada, e linda como uma visão celeste.

Era uma das raras mulheres que se podiam ver ao levantar da cama.

Tinha os olhos brilhantes, as faces rosadas e os lábios vermelhos como cravos.

A mocidade e a saúde espalhavam-se nesse rosto fresco e belo duma grande correção de linhas.

— Está pronto o banho, menina, disse a criada entrando de novo no quarto e vazando na tina um grande

panelão cheio de água a ferver.

— Bem, podes retirar-te.

— Quer que a ajude?

— Não. Quando vestir o espartilho te chamarei para me puxares os cordões.

A criada retirou-se, fechou a porta, e Lígia tirando a camisa saltou da cama em plena nudez.

O divino Praxiteles se a visse tê-la-ia invejado para modelo da sua celebrada Vénus!

Seria difícil imaginar um corpo mais belo, mais escultural mais formoso e correto que o de Lígia.

A terciez venusina do ventre, a correção dos seios deslumbrantes, pouco volumosos, brancos,

aveludados, de uma rijeza que pareciam talhados em mármore, feridos no centro por dois mimosos botões de rosa desmaiada, o talhe do colo e da garganta, o torneado dos braços e das pernas, de uma opulência rara na coxa e de uma delicadeza grácil no artelho, onde começava um pé pequenino, branco,

cetinoso, de falanges muito bem cuidadas e planta nacarada, as nádegas polpudas, rijas, alvas de neve e o dorso magnificente, bipartido por um rego delicioso que terminava nos dois mais sugestivos e apetitosos

hemisférios que a natureza pode generosamente conceder a uma mulher de boa plástica.

Junte-se a isto as florescências capilares mais espessas, aveludadas e sedutoras que é dado fantasiar, e ter-se-á assim o esboço daquele encanto feminino de rara valia, que em poucas horas passaria a ser do

comendador Bernardino Pena Pina.

De um salto, alçando a linda perna de deslumbrante alvura, Lígia meteu-se no banho, tendo o cuidado

de não molhar os cabelos para se poder pentear.

A água cristalina, da qual se evolava uma ténue atmosfera de vapor, formava como que uma grande lente a ampliar as curvas, os contornos, as superfícies e os encantos daquele corpo divinal.

A temperatura quente do banho deu-lhe ao sangue e aos nervos uma sensação de delícia, porque ela cerrou os olhos, alongou os braços, esticou as pernas e deixou-se estar assim numa quietude adorável

durante talvez cinco minutos, em que pelo seu cérebro perpassou um mundo inteiro de sonho e de ilusão.

Era bela, excessivamente bela, como uma odalisca do harém de algum rajá indiano!

Aquele corpo encantador merecia todas as joias de mais alto preço, mas, melhor do que elas, uma

chuva de apaixonados beijos que levassem aos mais recônditos encantos que o exornavam as doces e intensas vibrações do amor.

O Bernardino, quando a visse, sofreria um deslumbramento.

Passado aquele instante de moleza e de volúpia, Lígia, revendo vaidosa as suas formas admiráveis, pôs-se de pé dentro da tina, e lançando mão de um finíssimo sabonete Lubin que tinha posto sobre uma

cadeira, mergulhou-o na água e esfregou-se com ele, cobrindo de branca e perfumada espuma todas as carnes níveas e mimosas.

Mergulhou de novo até que a água dissolveu essa camada branca que lhe dava as aparências de uma estátua de neve.

Saltou da tina e a um amplo lençol de felpa enxugou-se muito bem, findo o que, passou sobre todo o

corpo uma grande borla de arminho cheia de fino pó de arroz.

A tonificação do banho dera-lhe à carne juvenil e fresca um leve tom rosado que a tornava

pecadoramente apetitosa.

Sentou-se numa cadeira baixinha forrada de tapete e calçou as meias do noivado, de seda branca, todas arrendadas, que lhe chegavam um palmo acima do joelho, meias preciosas de finíssima malha e

primoroso rendilhado, com o seu monograma bordado a ouro a meia altura da perna, o que era o último chique parisiense. Prendeu-as na perna musculosa e roliça com as ligas de cetim brancas com grandes laços de moirée e rendas, tendo no centro uns lindos botões de flor de laranja. Em seguida, calçou os

primorosos sapatos nupciais, também de cetim branco, de saltos altos à Luiz XV e entrada curta, bordados na frente a pequeninos aljôfres e missanga branca, pelos quais o Bernardino pagara quinze mil réis, pois eram o que de mais elegante, delicioso e distinto se fabricava no género.

Assim calçada, ergueu-se e reviu com deslumbramento a sua encantadora beleza.

Estava supinamente sugestiva no contraste indescritível do busto nu com as rijas pomas eretas, o ventre

escultural e virgíneo, e aquelas seduções da arte a revestirem-lhe os pés e as pernas de inigualável sedução. O mais fervoroso asceta, se a visse, teria prevaricado, esquecendo todos os seus votos de castidade!

Satisfeita de si própria, cônscia de que estava irresistível, enfiou a camisa do noivado, esplêndido primor de seda branca repleta de rendas finas, tão leve e subtil que através dela se lhe viam as formas

venusinas.

Os lindíssimos seios ficaram-lhe verdadeiramente estojados num mundo de rendas.

Vestiu depois as calças de finíssima e transparente cambraia, todas em folhos de rendas sobrepostas e

que mal lhe chegavam aos joelhos, calças afrodisíacas, elegantes, tentadoras, que mais lhe revelavam a beleza das meias e dos sapatinhos.

E só depois de ter apenas nus os braços admiráveis e o colo, pois vestira sobre a camisa o corpete de seda branca com entremeios caros, é que chamou a criada para lhe apertar o espartilho.

— Ai como a menina está linda! exclamou a rapariga mirando-a com crescente admiração.

Lígia sorriu-se.

— Achas? interrogou.

— Ainda a menina me pergunta! Só essas meias e esses sapatos vão dar volta à cabeça do seu noivo.

— Não digas tolices, Ana. Estica esses cordões com jeito, toma cuidado.

Lígia colocou o espartilho primoroso no seu busto gentil e a criada esticou-o com certa perícia. Ficou

com uma cintura deliciosa, que mais lhe revelava a opulência das nádegas e a eretilidade dos seios.

Pronta, vestiu as duas saias brancas, todas de cambraia e rendas, enfiou um penteador e mandou entrar

a cabeleireira, que esperava na sala, assim como a D. Eudóxia, que, quase pronta, lhe vestiria o vestido do noivado.

Hábil na sua arte, a cabeleireira, faladora e pedante, arranjou-lhe um penteado artístico e simples que

lhe ia divinamente ao rosto, e sobre o qual colocou a grinalda de flor de laranjeira.

A D. Eudóxia e a tia Benedita davam pareceres e emitiam opiniões acerca do frisamento dos bandós.

Os magníficos cabelos da jovem noiva, prestavam-se a tudo com uma docilidade infinita.

Penteada, a D. Eudóxia ajudou-a a vestir a soberba toilette nupcial que dois dias estivera em exposição na loja que o mandara vir de Paris e fora a tentação e o sonho de todas as raparigas solteiras

que passavam por aquela rua, e a tia Benedita pôs-lhe nas orelhas os soberbos brincos de brilhantes que o Bernardino lhe oferecera como cadeau de noces.

— Estás um anjo, filha, exclamou a D. Benedita levando o lenço aos olhos para limpar as lágrimas.

Deus te faça feliz.

— Não podia ter uma afilhada mais linda, rematou a D. Eudóxia.

— Que pena a tia não poder acompanhar-me, disse Lígia.

— Não tens mais pena que eu, mas este maldito reumático quase que nem me deixa pôr de pé. Seria uma nota triste para o teu casamento, esta velha trôpega a arrastar-se pela igreja e a precisar que a

ajudassem a subir e a descer do trem. A D. Eudóxia fez o favor de me substituir.

— O que eu muito agradeço, disse Lígia.

— Agora é um instantinho enquanto vou pôr o chapéu e volto a colocar-te o véu, disse a D. Eudóxia. O

Policarpo já marchou para ir buscar o noivo.

De pé, junto da janela para não amarrotar o vestido, Lígia mirava a rua banal e estúpida, onde o grito

dos vendilhões contrastava na sua rudez com a atmosfera de elegância e de riqueza que começava a envolvê-la.

Achou aquela rua detestável, de um acre e bolorento sabor burguês!

Do seu fato e corpo exalavam-se aromas penetrantes de essências caras; ela, que gastava do Robert, defronte do Gymnasio, pequenas porções de perfumes baratos, a pataco e a três vinténs a grama, tinha

agora caixas magníficas cheias de frascos de cristal contendo os mais exquiss perfumes que o Bernardino lhe dera.

Como presentes de noivado, a D. Eudóxia oferecera-lhe um bonito anel de rubis e brilhantes, o

Policarpo, um serviço de toilette de cristal e prata, e o Leonel, um binóculo de madrepérola.

A tia Benedita dera-lhe o seu meio adereço de brilhantes e esmeraldas antigo, o mesmo com que se

casara, prova soberana de afeto e dedicação pela sobrinha.

A criada pedira-lhe licença para lhe oferecer um lenço de rendas.

Por expressa determinação, o Bernardino prevenira o Policarpo de que não queria brinde algum,

custando imenso que ele consentisse em aceitar um curioso berloque para cadeia de relógio, que pertencera ao bisavô do seu antigo patrão e padrinho de casamento.

*

Às dez horas em ponto, Lígia, depois de proferir o sim sacramental com voz firme e clara, estava esposa do Bernardino! Fora este quem empalidecera durante toda a cerimónia, impressionado com a

beleza da noiva, e ouvindo de todos os lados dizerem:

— É muito formosa!

Lígia pensava em tudo menos na felicidade de se unir ao homem que a elegera para esposa e de haver conquistado esse supremo ideal de todas as mulheres.

O seu coração estava frio e tranquilo como um floco de neve pendente do galho de uma árvore em

gélida e tranquila madrugada de janeiro.

O amor, esse sonho eterno que embala todos os corações e aquece todas as almas, não tomara parte naquele ato solene da sua existência.

Considerava o Bernardino um homem muito aceitável, muito bondoso, muito simpático, e sobretudo muito rico e... nada mais.

Cumpriria com ele os seus deveres de esposa, como sempre tinha cumprido os de sobrinha para com

sua tia Benedita. Dava o seu corpo em troca daquela boa posição social, mas reservava-se o direito de conservar a alma e o coração plenamente alheados dessa troca.

Como nunca tinha amado, o seu espírito, sem recordações nem saudades, mantinha-se em paz perante aquele contrato que lhe assegurava um futuro sem receios e um presente próspero e amplo como sempre ambicionara.

E ao vê-la tão tranquila e sorridente, o Bernardino julgou-se amado e pensou que a felicidade dela era igual àquela que lhe enchia a alma.

De volta da igreja, vieram a casa da tia Benedita cumprimentá-la e juntamente para a noiva mudar de toilette.

A boa senhora, muito impressionada, teve um violento ataque de choro abraçando-se à sobrinha.

Faça-a feliz, senhor meu sobrinho, faça-a feliz que ela tudo merece, exclamou com a voz entrecortada pelas lágrimas.

— Creia, minha respeitável tia, respondeu o Bernardino um tanto sensibilizado, que em tudo quanto a felicidade de Lígia depender de mim, ela a terá.

— Oh, obrigada, obrigada, pelas suas palavras. Creio nelas, porque sei que o senhor é um verdadeiro

homem de bem.

— Nada de tristezas, exclamou o Policarpo. Hoje é dia de alegria e nada de choros.

— Diz bem, padrinho, observou Lígia, tirando o véu e a grinalda de flor de laranja.

Depois recolheu-se pela última vez ao seu quarto de solteira, onde a D. Eudóxia, a ajudou a mudar de fato, vestindo uma elegante toilette de seda cor-de-cinza, com que tencionava partir para Sintra no

comboio da tarde para passar os primeiros oito dias da lua-de-mel.

As malas arrumadas e providas de tudo para aquela primeira étape da sua vida de casada, já estavam

fechadas e arrumadas com esse espírito de arranjo e previdência que caracterizava Lígia.

A D. Benedita não se esqueceu de meter numa delas a providencial caixinha de vaselina bórica.

O almoço serviu-se em casa do Martins, opíparo e delicado como o Bernardino mandara vir do

Ferrari, assistindo apenas as pessoas nossas conhecidas e dois sujeitos, hóspedes do mesmo hotel onde ele residia e com os quais tinha travado relações mais íntimas, pois eram seus conhecidos do Pará.

O Bernardino estava pletórico de felicidade.

Lia-se-lhe nos olhos, que não se fartavam de contemplar a beleza da esposa, essa ventura sem igual que nos dá a posse da mulher amada.

Lígia, recebendo parabéns e elogios de todos, como que existia nas regiões de um sonho estranho!

Estava bela, supinamente bela.

Para não tirar o espartilho, a criada substituíra-lhe as meias de seda do noivado e os sapatinhos

brancos por outras cor-de-lilás e umas botinas altas de pelica bronzeada, que lhe assentavam no pé como uma luva e relevavam o belo torneado da perna sedutora.

A espaços, o Bernardino fixava esses pés adoráveis, capazes de darem volta à cabeça de um santo.

Ele comeu pouco. A alegria de que estava possuído tirara-lhe o apetite.

Lígia, pelo contrário, almoçou esplendidamente, mostrando-se sempre animada e expansiva.

Os fulgores que os seus belos brincos de brilhantes despediam cada vez que movia a cabeça, e que ela muito bem via no espelho, enchiam-na de plena satisfação.

Com prazer, contemplou também os dedos recamados de magníficos anéis preciosos e as narinas

dilataram-se-lhe naquele ambiente novo, onde perpassavam odores de riqueza e de luxo.

O Bernardino acabara por convencer a D. Benedita a aceitar uma pensão de vinte mil réis mensais

para ter outra criada que tratasse dela, visto o seu mau estado de saúde e falta de forças.

Às quatro da tarde, partiram os noivos no comboio para Sintra, onde já tinham no melhor hotel, dois quartos e uma sala preparados.

Fazia calor.

Antes do jantar foram dar um passeio de trem até Colares. Apearam-se e deram um pequenino passeio

na várzea, em cujas águas paradas se refletiam os raios avermelhados do sol declinante. No alto de um eucalipto robusto, uma cigarra cantava.

Lígia estava alegre e satisfeita e de vez em quando sorria-se para o esposo, dizendo-lhe:

— Isto é lindo, é encantador!

E ele, com os olhos fitos nos dela, mergulhava a alma naquele oceano de ventura que lhe dava a posse

de uma mulher tão linda e sedutora, a quem poucas horas antes ligara indissoluvelmente o seu destino, a sua sorte, a sua vida.

Quereria dizer-lhe muitas coisas, expandir em catadupas de frases amoráveis toda a rejubilante

felicidade de que estava possuído, mas essa felicidade era tanta, tanta, que as palavras confundiam-se-lhe no cérebro num bloco espesso e monstruoso. E tão distraído estava que foi necessário o barqueiro gritar-

lhe: «Oh patrão, agache a cabeça», para não dar uma forte pancada de encontro às traves que sustêm a pontezinha de troncos rústicos que existe a meio caminho da várzea.

Naquele estreito canal, onde as silvas se emaranhavam nos troncos nodosos de árvores seculares,

havia sombras apetitosas a que o declinar da tarde dava um vago sabor de mistério. E a essa claridade difusa, espécie de pulverização de prata suspensa na atmosfera, a beleza ideal de Lígia emergia desse

fundo bucólico de folhagem, como as aparições fantásticas das fadas formosíssimas dos contos árabes.

Junto dela, furtivamente, o marido apertou-lhe a pequenina mão alva e macia como um lírio.

Lígia sorriu-lhe e correspondeu automaticamente a essa pressão que não lhe excitou um músculo, que

não lhe produziu um frémito!

Os seus olhos verdes expressivos e voluptuosos fixaram-se firme e persistentemente nos do marido, lendo neles toda a sinceridade do enorme afeto e sentido amor que ele lhe votava e de que dera a mais

completa e exuberante prova.

Encheu-se-lhe o coração bondoso e terno de uma grande piedade, e no mais íntimo da alma jurou a si própria que procuraria fazê-lo feliz, tanto quanto estivesse ao alcance dos seus recursos.

E instintivamente encostou-se-lhe ao braço com uma grande confiança e tranquilidade, muito consciente da sua posição de esposa.

Ele passou-lhe o braço em torno da cintura flexível e delicada e puxou-a levemente para si.

Lígia segredou-lhe:

— O barqueiro observa-nos.

E disse-lhe isto sem a mais leve contrariedade do seu espírito, até irritada por se sentir tão insensível às aspirações amorosas daquele homem que era seu marido, que não amava, e ao qual se ligara no

exclusivo ideal de satisfazer as suas ambições de rapariga pobre e formosa, ardendo em desejos de estadear esse luxo que via noutras que não valiam um só dos seus lindos pezinhos.

Pensava se seria possível algum dia vir a amá-lo à custa do tempo, do convívio e da intimidade, como

se o amor, esse misterioso sentimento da alma humana, fosse uma coisa que se adquirisse por método, quando em verdade é uma estrela que se acende num fugitivo momento da existência.

Desembarcaram e, metendo-se no trem, regressaram a Sintra, jantando na pequenina sala dos seus aposentos reservados.

O Bernardino rejuvenescia de felicidade.

Servia-a com extremo cuidado e de vez em quando beijava-a no pescoço alvo de neve, e no rosto, onde o ar oxigenado do campo pusera o tom delicado das rosas.

Lígia jantou regularmente.

Sem comoções nem excitamentos nervosos, o coração tranquilo cedia lugar ao estômago para este exercer a sua ação natural tantas vezes prejudicada pelo outro.

Aquele primeiro jantar com a sua linda esposa, em calmo e remansoso tête-à-tête, teve para o Bernardino encantos indefiníveis e para Lígia o travo agridoce da novidade.

Achou mesmo tudo aquilo muito engraçado e agradável, e quando ao café ele a abraçou com apaixonada ternura comprimindo-lhe os seios virginais, rígidos e lerdos, ela experimentou uma vaga comoção indefinível, o rebate da sua carne juvenil tocada pelo macho.

— Queres dar uma volta para ajudarmos a digestão? interrogou ele.

— Com todo o gosto. Deve mesmo fazer-nos bem. A noite está tão serena. Aonde vamos?

— Até à Vila Estefânia. É perto.

— Mesmo que fosse longe não me importaria. Eu gosto de andar.

— Ainda bem, porque também eu tenho esse gosto.

Lígia teve uma inspiração.

Serenamente, como se fosse praticar uma obra piedosa, lançou os braços em torno do pescoço do marido e ofereceu-lhe os lábios vermelhos e húmidos, onde ele lhe depositou uma onda de beijos quentes

e apaixonados.

Por um momento, aquela carícia excitante estonteou-a um pouco; mas como o maldito coração continuava a funcionar com o isocronismo de um pêndulo, pronto se acalmou e, pondo nos ombros uma

leve capa de rendas e dando o braço ao esposo, saíram do hotel seguidos pelo olhar curioso e pelo sorriso minaz de uma criada da casa.

Estava uma noite soberba, noite de verão pleno, de uma quietude e serenidade encantadora.

Não corria a mais leve aragem, e por entre o negro profundo do arvoredo espesso, os pirilampos acendiam em tremulações luminosas as suas fulgurações esverdeadas.

Do Duche para lá, a escuridão da estrada era completa.

Vagos rumores de água jorrando chegavam até aos ouvidos de Lígia, a quem a poesia do local pusera

no coração uma doçura infinita.

Muito arrimado a ela, o marido, silencioso e avaro da sua ventura, fumava com delícia o seu invejável charuto baiano, aromático e bem fabricado, do qual se evolavam azuladas espirais de fumo que se

perdiam no espaço.

Foram assim até à estação do caminho-de-ferro, onde entraram, descansando um bocado.

No céu estrelado e sereno corriam céleres, leves flocos de nuvens de formas caprichosas e fantásticas.

Começava a esfriar:

— Tens frio? inquiriu o Bernardino, solícito.

— Frio, positivamente, não, mas está a noite húmida.

— Então recolhamo-nos ao hotel, não te parece?

Lígia hesitou um pouco, mas, aconchegando a capa, respondeu:

— É melhor.

Deram o braço e voltaram pelo mesmo caminho.

Enigmática e sagaz a criada disse-lhe:

— Se V. Ex.ª precisar de alguma coisa fará favor de chamar.

— Sim, respondeu Lígia secamente.

Aproximava-se o momento supremo.

O Bernardino acendeu a palmatória que estava sobre mesinha de cabeceira, e exclamou:

— Esperarei ali na sala que tu te deites.

Lígia tornou-se muito vermelha e fez-lhe com a cabeça um sinal de assentimento.

Ele então abriu a janela da sala, de onde se avistava um trecho do Castelo dos Mouros e ficou a tomar o ar fresco da noite e a saborear o seu belo charuto baiano.

A denticuladura interessante das muralhas do castelo, fábrica artística desse homem de gosto que se

chamou El-Rei D. Fernando, recortava-se no fundo negro do espaço ao clarão do luar que vinha rompendo.

E para baixo, toda a serra pendia como um enorme pano negro formado pela copa frondosa do cerrado

arvoredo.

Corria agora uma aragem muito subtil e leve que purificava os pulmões.

O Bernardino esteve assim uma boa meia hora, durante a qual o seu charuto se gastou e pelo cérebro

passou-lhe, como numa revista animatográfica, todos os quadros do seu passado, desde a sua vinda para Lisboa, para a loja do Policarpo Martins, até à primeira vez em que vira Lígia, sua esposa.

A cerimónia do casamento, como datava de poucas horas, baralhava-se lhe no cérebro nessa confusão em que se envolvem sempre as cenas mais recentes da nossa vida.

Por muito tranquilo que diligenciasse estar, a ideia de que em breve iria tomar posse absoluta daquela

linda mulher no alvorecer da juventude, impressionava-o nervosamente.

E tentava afastar de si essa ideia com receio de que uma superstição moral o inutilizasse para o

cumprimento do seu dever marital.

Apesar dos seus quarenta e pico, o Bernardino era um homem robusto e saudável. Poupara-se muito no capítulo mulheres, na ânsia fixa de dar ao trabalho todas as suas forças e cuidados, a fim de conquistar

essa fortuna que excedera em muito as suas primitivas ambições.

Finalmente decidiu-se.

Fechou a janela e, entreabrindo a porta do quarto, exclamou:

— Posso entrar?

— Podes, respondeu Lígia.

O Bernardino viu-a então no leito com a formosa cabeça estojada no amplo almofadão de rendas, os braços cruzados sobre o peito e as formas venusinas do busto a revelarem-se vagamente sob as roupas.

Com uma rapidez de relâmpago, o Bernardino começou a despir-se, e quando ficou em trajos menores apagou a luz!

Era um envergonhado e um tímido.

Não só teve vergonha de que sua mulher o visse descomposto, mas também não lhe quis violar à claridade os encantos que se ocultavam sob essa linda camisa de dormir tão luxuriosamente recamada de

rendas finas.

Lígia sentiu-lhe o contacto da carne cabeluda e rija de encontro à sua, macia e cetínea que era um primor.

Ele enlaçou-a com os braços musculosos e, aconchegando-a, disse-lhe:

— Tem paciência, Lígia. Isto tem que ser.

Ao soar da última badalada da meia-noite, vibrada com um som cavo no sino da torre da cadeia, vibração que se perdeu ao longe de encontro ao arvoredo da montanha, Lígia soltou um grito abafado.

Consummatus est.

*

Oito dias depois regressavam a Lisboa.

Foram logo visitar a D. Benedita, que entristecera muito com a separação da sobrinha.

Lígia estava um encanto. Rosada, gentil, bela, uma verdadeira flor da mocidade, a quem nem mesmo o primeiro oitavário da lua-de-mel esmaecera a incomparável frescura do seu rosto formosíssimo.

O Bernardino também estava bem. Talvez com as olheiras mais fundas e arroxeadas, mas de resto

muito bem-disposto e satisfeito.

Quando achou a ocasião propícia, a D. Benedita chamou a sobrinha ao quarto, e ali, cerrando os olhos

piscos e a meia-voz, fez-lhe perguntas minuciosas e indiscretas que o estado de casada de Lígia e o dela de viúva plenamente autorizavam.

Lígia respondeu-lhe com a maior sinceridade e franqueza.

D. Benedita, frisando os lábios num ricto de despeito, murmurou como que falando consigo:

— Banal, muito banal e prosaico tudo isso.

— Porquê, tia?

— Por nada, sobrinha. Falo com os meus botões...

E arrastando-se até à casa de jantar rememorava a arte, a finura, a elegância, o gosto e a capitosidade

excitante e amorosa como o seu defunto marido lhe houvera colhido a virgindade, contava então ela vinte e uma primaveras.

*

Partiram para o Luso em viagem de núpcias e dali para as Pedras Salgadas, onde o Bernardino fez uma curta estação de águas. Percorreram em seguida todo o Minho, esse ridente e encantado jardim de

Portugal, duma beleza inigualável e que Lígia admirou com sentimento e satisfação.

O Bernardino não a levou à sua aldeia. Tinha lá parentes muito pobres, verdadeiros labregos rudes e

toscos que não desejava que a esposa, fina e bem-educada, os visse e soubesse que eram seus parentes.

Regulou, pois, os seus negócios por intermédio de um procurador e ao cabo de um mês voltou a Lisboa, tencionando partir para França, Alemanha e Itália, viagem larga e instrutiva, que fora sempre o

seu desejo constante que contava realizar em companhia de qualquer amigo e o acaso determinara que a fizesse ao lado de uma linda rapariga, adorável de carácter e de qualidades, que era sua mulher legítima.

Na gare extensa e luminosa, onde os comboios se alinhavam e o Sud express os devia conduzir ao centro da Europa civilizada, o pequeno Leonel, agarrado à D. Eudóxia, que em companhia do marido e da D. Benedita viera despedir-se dos noivos, disse, volvendo para Lígia os seus belos e aveludados

olhos negros:

— Então já não és a minha noiva?!

— Sou, sim, Leonel, sou sempre a tua noiva.

E Lígia beijou-o enquanto o marido, um pouco afastado, conversava com o Martins.

Vibrou o segundo sinal da partida.

Muito elegante e apetitosa no seu traje de viagem, Lígia subiu lesta para o wagon que a devia conduzir a essa excursão opulenta e deliciosa que fora sempre um dos ideais das suas ambições.

Boa viagem, berrou o Policarpo com a voz comovida.

— Adeus, Lígia, soluçou a D. Benedita chorando.

Ela sorria impressionada e saudava os seus bons amigos e a tia que tanto a estimava.

Até à entrada do túnel, viram-na acenar-lhes com o seu belo lenço de renda, dizendo-lhes adeus.

Depois o comboio sumiu-se na negrura profunda daquele buraco enorme, cada qual debandou para o seu lado e um novo comboio envolto em fumo e em pó entrou pesadamente na gare silvando com irritante

estridência.

— Quando é que ela volta, mamã? perguntou o pequeno Leonel.

— Não sei, filho, respondeu a D. Eudóxia.