Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 8/12

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Persuasão

Persuasão

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Anne pôde constatar a infelicidade que esses sentim entos revelavam . O m arido não tinha sido com o deveria, e a esposa havia sido obrigada a ter contato com aquela porção da hum anidade que a levava a fazer um j uízo pior do m undo do que ela esperava que este m erecesse. No entanto, no caso da sra. Sm ith, isso foi apenas um a em oção passageira; ela a espantou, e logo acrescentou, em outro tom :

– Tam bém não suponho que a situação atual de m inha am iga sra. Rooke possa fornecer m uitos elem entos capazes de m e interessar ou de m e instruir. Ela está cuidando som ente da sra. Wallis, em Marlborough Buildings; apenas um a m ulher bonita, boba, esbanj adora e seguidora da m oda, acredito eu; e é claro que não terá nada a relatar exceto sobre rendas e vestidos. Mas tenho a intenção de m e aproveitar da sra. Wallis. Ela tem m uito dinheiro, e m inha intenção é que com pre todas as coisas caras que tenho para vender.

Anne j á havia feito várias visitas à am iga quando sua existência foi descoberta em Cam den Place. Por fim , tornou-se necessário falar sobre ela. Sir Walter, Elizabeth e a sra. Clay voltaram certa m anhã de Laura Place com um convite repentino de Lady Dalry m ple para a m esm a noite, e Anne j á havia se com prom etido a fazer um a visita a Westgate Buildings. Não lam entou o fato de ter essa desculpa. Tinha certeza de que eles só haviam sido convidados porque Lady Dalry m ple, que um forte resfriado m antinha confinada em casa, estava agora satisfeita por poder fazer uso da relação que lhe havia sido im posta com tanta insistência; e foi com grande vivacidade que recusou o convite: “Havia se com prom etido a visitar um a velha am iga de escola naquela noite.” Os outros não tinham m uito interesse por qualquer fato relacionado a Anne, m as m esm o assim fizeram perguntas suficientes para entender quem era essa velha am iga de escola; Elizabeth reagiu com desdém , e Sir Walter com severidade.

– Westgate Buildings! – exclam ou ele. – E quem a srta. Anne Elliot irá visitar em Westgate Buildings? Um a certa sra. Sm ith. Um a viúva. E quem era o seu m arido? Um dos cinco m il Sm ith cuj o sobrenom e se pode encontrar por toda parte. E quais são os seus atrativos? O fato de ser velha e doente. Palavra, srta. Anne Elliot, que gosto extraordinário esse seu! Tudo aquilo que causa repulsa nos outros, m ás com panhias, côm odos m iseráveis, ar viciado, relações vis, tudo isso a encanta. Mas com certeza poderá adiar até am anhã o encontro com essa senhora: ela não está assim tão próxim a do fim , im agino, a ponto de não esperar ver raiar um novo dia. Quantos anos ela tem ? Quarenta?

– Não, senhor, ela ainda não com pletou trinta e um anos; m as eu não acho que possa adiar o com prom isso, pois essa é a única noite por algum tem po que poderá convir tanto a ela quanto a m im . Ela am anhã vai tom ar seus banhos quentes, e o senhor sabe que nós tem os com prom isso até o final da sem ana.

– E o que Lady Russell acha dessa relação? – indagou Elizabeth.

– Não vê nenhum m al nela – respondeu Anne. – Pelo contrário, ela a aprova, e em quase todas as m inhas visitas à sra. Sm ith foi ela quem m e levou até lá.

– Os prédios de Westgate Buildings devem ter ficado m uito surpresos com a aparição de um a carruagem parada j unto à sua calçada! – observou Sir Walter. – É bem verdade que a viúva de Sir Henry Russell não tem nenhum a honraria para enfeitar seu brasão, m as m esm o assim possui um a bela carruagem , e sem dúvida se sabe que está transportando um a filha da fam ília Elliot. Um a viúva cham ada sra. Sm ith que m ora em Westgate Buildings! Um a viúva pobre, que m al tem do que viver, entre trinta e quarenta anos; um a reles sra. Sm ith, um a sra. Sm ith sem qualquer distinção, dentre todas as pessoas e todos os nom es do m undo, ser a am iga escolhida pela srta. Anne Elliot, e ser por ela preferida às suas próprias relações fam iliares na nobreza da Inglaterra e da Irlanda! Sra. Sm ith! Que nom e!

A sra. Clay, que estava presente durante todo esse diálogo, j ulgou então recom endável se retirar do recinto, e Anne poderia ter dito m uitas coisas e ansiava por dizer algum as, em defesa de sua am iga, cuj a situação não era m uito diferente da am iga de seu pai e de sua irm ã, m as o respeito pessoal que tinha pelo pai a im pediu. Ela não respondeu nada. Deixou que ele se lem brasse sozinho de que a sra. Sm ith não era a única viúva de Bath entre trinta e quarenta anos, com poucas posses e sem um sobrenom e distinto.

Anne honrou seu com prom isso, os outros honraram o deles, e naturalm ente na m anhã seguinte ela ficou sabendo que tinham tido um a noite agradabilíssim a. Ela havia sido a única ausente do grupo, um a vez que Sir Walter e Elizabeth não apenas haviam se colocado ao inteiro dispor de Lady Dalry m ple, m as além disso haviam tido a satisfação de ser por ela solicitados a buscar outros convivas, e tinham se dado ao trabalho de convidar Lady Russell e o sr. Elliot; e o sr. Elliot fizera questão de pedir licença m ais cedo ao coronel Wallis, e Lady Russell de reorganizar todos os seus com prom issos da noite, para ir à sua casa. Anne ouviu de Lady Russell toda a história daquilo que um a noite dessas era capaz de proporcionar. Para ela, o m aior foco de interesse era o fato de a conversa da am iga com o sr. Elliot ter girado m uito em torno de sua pessoa; de ter sido desej ada, tido a sua ausência lam entada, e ao m esm o tem po de ter sido louvada por se ausentar em nom e de um a causa tão nobre. As suas visitas cheias de gentileza e com paixão à antiga colega de escola, doente e enfraquecida, pareciam ter deixado o sr. Elliot encantado. Ele a considerava um a m oça deveras extraordinária: um m odelo de excelência fem inina, por seu tem peram ento, seus m odos, seu intelecto. Conseguia fazer frente até m esm o a Lady Russell em um a conversa sobre seus m éritos; e Anne não pôde ouvir tantas coisas da am iga, não pôde se saber tão grandem ente estim ada por um hom em sensato sem experim entar m uitas das sensações agradáveis que a am iga pretendia criar.

Lady Russell agora tinha um a opinião totalm ente form ada a respeito do sr. Elliot. Estava tão convencida de que o seu obj etivo a longo prazo era conquistar Anne quanto de que ele a m erecia, e j á estava com eçando a calcular o núm ero

de sem anas que iria libertá-lo de todas as am arras rem anescentes da viuvez 75 e deixá-lo livre para exercer de m aneira m ais aberta os seus poderes de agradar. Não falou com Anne nem sequer com m etade da convicção que sentia em relação ao assunto, e atreveu-se a pouco m ais do que sugestões quanto ao que poderia vir a acontecer, a um possível envolvim ento por parte dele, ou ao caráter desej ável de tal enlace, supondo que o envolvim ento fosse real e correspondido. Anne a escutou sem fazer qualquer exclam ação brusca; apenas sorriu, enrubesceu e sacudiu de leve a cabeça.

– Você sabe m uito bem que eu não sou nenhum a casam enteira – disse Lady Russell –, pois bem sei com o são incertos todos os acontecim entos e cálculos hum anos. Tudo que estou querendo dizer é que, se o sr. Elliot em algum m om ento vier a lhe fazer a corte, e se estiver disposta a aceitá-lo, acho que haveria grande possibilidade de vocês dois serem felizes j untos. Ninguém poderá deixar de considerar esse enlace m uito adequado, m as acho que talvez possa ser tam bém m uito feliz.

– O sr. Elliot é um hom em extrem am ente agradável e, sob m uitos aspectos, eu o tenho em alta conta – disse Anne –, m as nós não iríam os com binar.

Lady Russell deixou passar o com entário, e tudo o que disse em resposta foi:

– Confesso que poder im aginar você com o a futura senhora de Kelly nch, a futura Lady Elliot, olhar para a frente e vê-la ocupar o lugar de sua querida m ãe e herdar todos os seus direitos e toda a sua popularidade, além de todas as suas virtudes, seria a m aior gratificação possível para m im . Você j á é o retrato de sua m ãe em aparência e disposição e, se eu pudesse im aginá-la na m esm a condição que ela em m atéria de posição social, sobrenom e e endereço, governando e fazendo prosperar a m esm a casa, e superior a ela som ente pelo fato de ser ainda m ais estim ada, isso, querida Anne, m e encantaria com o poucas coisas poderiam m e encantar neste estágio da vida! o viúvo deveria guardar antes de noivar novam ente.

Anne se viu obrigada a se virar para o outro lado, levantar-se, ir até um a m esa m ais afastada e nela se apoiar, fingindo-se entretida com algum a coisa, de m odo a disfarçar as sensações causadas por essa possibilidade. Durante alguns instantes, sua im aginação e seu coração se deixaram enfeitiçar. A ideia de se transform ar no que a m ãe havia sido, de ver o precioso nom e “Lady Elliot” reviver em sua pessoa, de voltar a m orar em Kelly nch e tornar a cham ar a casa de seu lar, seu lar para todo o sem pre, era tão atraente que no início ela foi incapaz de resistir. Lady Russell não disse m ais nada, querendo deixar a questão progredir naturalm ente; e acreditando que se o sr. Elliot pudesse, naquele m om ento, com toda a propriedade, revelar o que sentia! Em sum a, ela acreditava naquilo que Anne não acreditava. A m esm a im agem do sr. Elliot expondo seus sentim entos fez Anne tornar a se recom por. Todo o encanto de Kelly nch e de “Lady Elliot” desapareceu. Ela j am ais poderia aceitá-lo. E não apenas porque seus sentim entos ainda estavam avessos a qualquer hom em exceto um ; seu j uízo, ao avaliar seriam ente as possibilidades de tal acontecim ento, era contrário ao sr. Elliot.

Em bora agora j á fizesse um m ês que os dois se conheciam , ela não estava convencida de conhecer de fato o seu caráter. Que ele era um hom em inteligente, agradável, que sabia conversar, em itia opiniões acertadas, que parecia j ulgar de form a correta e era um hom em de princípios, tudo isso estava bastante claro. Ele com certeza sabia o que era correto, e tam pouco ela conseguia apontar qualquer quesito de dever m oral que ele houvesse obviam ente transgredido; ainda assim , teria hesitado em responder por sua conduta. Desconfiava do seu passado, ainda que não do presente. Os nom es de antigos sócios ocasionalm ente m encionados, as alusões a antigas práticas e atividades, tudo isso lhe inspirava suspeitas nada favoráveis em relação ao que ele fora. Podia ver que tivera m aus hábitos; que viaj ar aos dom ingos era para ele algo

corriqueiro; 76 que houvera um a fase de sua vida (e provavelm ente um a fase nada curta) em que havia se m ostrado, no m ínim o, descuidado em relação a todos os assuntos sérios; e que, em bora hoj e pudesse pensar de form a bem diferente, quem poderia conhecer ao certo os verdadeiros sentim entos de um hom em inteligente e cauteloso, agora com idade suficiente para saber o valor de um bom caráter? Com o seria possível algum dia ter certeza de que seu espírito houvesse realm ente se purificado?

O sr. Elliot era um hom em racional, discreto, refinado, m as não era um hom em franco. Nunca exibia qualquer arroubo de sentim ento, qualquer arrebatam ento de indignação ou deleite diante da m aldade ou da bondade alheia. Isso, na opinião de Anne, era um defeito claro. As suas prim eiras im pressões eram im possíveis de apagar. Ela valorizava acim a de tudo a franqueza, a sinceridade, os tem peram entos vivazes. Um a personalidade calorosa e entusiasm ada ainda a encantava. Sentia poder confiar m uito m ais na sinceridade daqueles que às vezes exibiam algum a expressão ou diziam algum a palavra descuidada ou apressada do que na daqueles cuj a presença de espírito j am ais variava ou cuj a língua nunca escorregava.

O sr. Elliot era agradável de form a dem asiadam ente generalizada. Por m ais diversos que fossem os tem peram entos dos m oradores da casa de seu pai, ele agradava a todos. Era dem asiado paciente, dava-se dem asiado bem com todo m undo. Havia lhe falado com algum a franqueza sobre a sra. Clay ; parecera entender totalm ente o que ela estava tentando fazer, e parecera desprezá-la; apesar disso, a sra. Clay o considerava tão agradável quanto os outros.

Lady Russell devia estar vendo algo a m enos ou a m ais do que sua j ovem am iga, pois nada constatava digno de suscitar desconfiança. Não podia im aginar nenhum hom em que fosse m ais exatam ente com o deveria ser do que o sr. Elliot, e tam pouco nutria sensação m ais deliciosa do que a esperança de vê-lo receber a m ão de sua am ada Anne na igrej a de Kelly nch no outono do ano seguinte.

CAPÍTULO 6

 

Era agora o início do m ês de fevereiro, e Anne, que j á estava em Bath fazia um m ês, estava ficando ansiosa para receber notícias de Uppercross e de Ly m e. Ansiava por saber m uito m ais do que Mary lhe contava. Fazia três sem anas desde que tivera qualquer notícia. Sabia apenas que Henrietta tinha voltado para casa; e que Louisa, em bora sua recuperação fosse considerada veloz, continuava em Ly m e; e estava pensando m uito em todos eles certa noite quando um a carta de Mary, m ais grossa do que de costum e, lhe foi entregue; para aum entar ainda m ais seu prazer e sua surpresa, a carta lhe foi entregue com os cum prim entos do alm irante e da sra. Croft.

Os Croft deviam estar em Bath! Esse fato a interessava. Eles eram pessoas pelas quais seu coração se deixava naturalm ente atrair.

– O que é isso? – exclam ou Sir Walter. – Os Croft estão em Bath? Os Croft que alugaram Kelly nch? O que lhe trouxeram ?

– Um a carta de Uppercross Cottage, senhor.

– Ah! Esse tipo de carta é um passaporte m uito conveniente. Sem pre garante um a apresentação. De toda form a, eu teria feito um a visita ao alm irante Croft. Conheço m inhas obrigações para com m eu inquilino.

Anne não conseguiu ouvir m ais nada; nem sequer teria sido capaz de dizer que com entários seu pai fez sobre a tez do pobre alm irante: estava fascinada pela carta. Esta com eçara a ser escrita vários dias antes.

1º de fevereiro de —

Minha querida Anne,

Não peço desculpas por m eu silêncio, pois sei o pouco valor que se dá às cartas em um lugar com o Bath. Você deve estar dem asiado feliz nessa cidade para se preocupar com Uppercross, que, com o bem sabe, fornece pouco m aterial sobre o qual escrever. Tivem os um Natal m uito sem graça: o sr. e a sra. Musgrove não deram um só j antar durante todo o período de férias. Não considero os Hay ter convidados dignos de nota. As férias, porém , finalm ente acabaram : acho que nenhum a criança j am ais teve férias tão longas. Eu pelo m enos não tive. A casa ficou vazia ontem , com exceção dos pequenos Harville; m as você ficará surpresa em saber que eles nunca voltaram para casa. Que m ãe estranha deve ser a sra. Harville para se separar dos filhos por tanto tem po assim . Eu não entendo. Em m inha

opinião, não são crianças bem -educadas, de form a algum a, m as a sra. Musgrove parece apreciá-las bastante, se não m ais do que os próprios netos. Que tem po horrível tem os tido! Isso talvez não se sinta em Bath, com todas essas suas belas calçadas, m as no cam po faz diferença. Não recebo a visita de vivalm a desde a segunda sem ana de j aneiro, com exceção de Charles Hay ter, que tem aparecido com m uito m ais frequência do que seria desej ável. Cá entre nós, acho m esm o um a pena Henrietta não ter ficado em Ly m e tanto tem po quanto Louisa, pois isso a teria m antido um pouco afastada dele. Hoj e a carruagem partiu para trazer de volta am anhã Louisa e os Harville. Mas nós só fom os convidados a ir j antar em sua casa no dia seguinte, pois a sra. Musgrove tem e que a filha estej a m uito cansada com a viagem , o que não é m uito provável, levando em conta os cuidados que irá receber, e seria m uito m ais conveniente para m im ir j antar lá am anhã. Folgo em saber que você considera o sr. Elliot tão agradável, e gostaria de poder conhecê-lo tam bém , m as tenho tido a m inha sorte habitual: estou sem pre longe quando algum a coisa boa está acontecendo; sem pre a últim a da fam ília a receber atenção. Há quanto tem po a sra. Clay está com Elizabeth! Será que ela pretende ir em bora algum dia? Em bora talvez nós não fôssem os convidados ainda que ela liberasse o quarto. Diga-m e o que pensa a respeito. Não espero que m eus filhos sej am convidados, você sabe. Podem os m uito bem deixá-los na Casa Grande durante um m ês ou seis sem anas. Acabo de receber a notícia de que os Croft estão partindo para Bath quase neste instante: acham que o alm irante está sofrendo de gota. Charles ouviu a notícia por acaso: eles não tiveram a civilidade de m e inform ar, nem se ofereceram para levar nada. Não acho que estão m elhorando em nada com o vizinhos. Nunca os vem os, e isso é realm ente um exem plo de extrem a desatenção. Charles se une a m im para lhe enviar nosso carinho e tudo o m ais. Com afeto,

Mary M.

 

Sinto dizer que não estou passando nada bem ; e Jem im a acaba de m e dizer que o açougueiro anda dizendo que há um a dor de garganta correndo por aqui. Com certeza irei pegá-la, e você sabe com o as m inhas dores de garganta são sem pre piores do que as de todo m undo.

Assim term inava a prim eira parte da carta, que fora posteriorm ente colocada dentro de um envelope contendo um a quantidade quase m aior ainda de páginas.

Deixei m inha carta em aberto para poder lhe m andar notícias de com o Louisa passou na viagem , e agora estou bem contente por ter feito isso, pois

m uito tenho a acrescentar. Em prim eiro lugar, recebi ontem um recado da sra. Croft se oferecendo para levar o que fosse preciso para você, um recado m uito educado, m uito sim pático, dirigido a m im com o deve ser; assim , poderei deixar m inha carta do tam anho que quiser. O alm irante não parece m uito doente, e torço sinceram ente para que Bath lhe faça tanto bem quanto ele desej a. Ficarei realm ente feliz em tê-los de volta. Nossa vizinhança não pode abrir m ão de um a fam ília tão agradável. Mas voltando a Louisa. Tenho algo a relatar que vai deixá-la m ais do que surpresa. Ela e os Harville voltaram para cá com toda a segurança em um a terça-feira, e à noite fom os até lá para saber com o ela estava passando, e ficam os m uito surpresos ao ver que o capitão Benwick não fazia parte do grupo, pois ele tam bém havia sido convidado, assim com o os Harville; e qual você acha que é o m otivo para isso? Nem m ais nem m enos do que o fato de ele estar apaixonado por Louisa, e ter decidido não aparecer em Uppercross antes de ter obtido um a resposta do sr. Musgrove; pois tudo j á tinha ficado decidido entre ele e Louisa antes de ela voltar para casa, e ele j á havia escrito ao seu pai por interm édio do capitão Harville. Ora, pela m inha honra! Isso não a deixa espantada? Pelo m enos ficarei surpresa se você algum dia tiver tido algum a indicação nesse sentido, pois eu nunca tive. A sra. Musgrove afirm a com solenidade que nunca soube nada a respeito. Mas nós estam os todos m uito satisfeitos; em bora isso não sej a equivalente a ela desposar o capitão Wentworth, é infinitam ente m elhor do que desposar Charles Hay ter; e o sr. Musgrove escreveu dando seu consentim ento, e o capitão Benwick é aguardado para hoj e. Segundo a sra. Harville, seu m arido está m uito sentido por causa de sua pobre irm ã, m as am bos têm Louisa em grande estim a. De fato, a sra. Harville e eu concordam os quanto ao fato de gostarm os ainda m ais dela depois de tê-la aj udado a convalescer. Charles se pergunta o que o capitão Wentworth dirá a respeito; m as, se você bem se lem bra, eu nunca o j ulguei afeiçoado a Louisa; nunca pude ver nada nesse sentido. Assim term ina, com o você vê, qualquer dúvida quanto ao capitão Benwick ser seu adm irador. Ainda não entendo com o Charles foi capaz de im aginar algo assim . Espero que ele agora se m ostre m ais sensato. Com certeza esse não é um grande enlace para Louisa Musgrove, m as é um m ilhão de vezes m elhor do que se casar com um m em bro da fam ília Hay ter.

Mary não precisava ter tem ido que a irm ã estivesse em qualquer m edida preparada para aquela notícia. Ela nunca havia ficado m ais espantada na vida. O capitão Benwick e Louisa Musgrove! Era quase m aravilhoso dem ais para se acreditar, e foi só à custa de m uito esforço que ela conseguiu perm anecer na sala, m anter um a aparência de tranquilidade e responder às perguntas norm ais da ocasião. Felizm ente para ela, não foram m uitas. Sir Walter quis saber se os Croft viaj avam com quatro cavalos, e se iriam ficar hospedados em um a parte de Bath que tornasse conveniente um a visita sua e da srta. Elliot, m as dem onstrou pouca curiosidade além disso.

– Com o vai Mary ? – indagou Elizabeth, m as prosseguiu sem esperar a resposta. – E o que os Croft vieram fazer em Bath?

– Foi por causa do alm irante. Acham que ele está com gota.

– Gota e decrepitude! – com entou Sir Walter. – Pobre velho cavalheiro!

– Eles têm algum conhecido aqui? – quis saber Elizabeth.

– Não sei; m as não posso im aginar que, na idade do alm irante Croft, e com a sua profissão, ele não tenha m uitos conhecidos em um lugar com o este.

– Desconfio que o alm irante Croft vá ficar m ais conhecido em Bath com o o inquilino de Kelly nch Hall – disse Sir Walter com frieza. – Elizabeth, você acha que podem os nos aventurar a apresentá-lo j unto com a esposa em Laura Place?

– Ah, não! Acho que não. Levando em conta a nossa posição j unto a Lady Dalry m ple com o seus prim os, devem os tom ar m uito cuidado para não constrangê-la com qualquer relação que ela possa não aprovar. Se não fôssem os parentes, isso não teria im portância; m as, com o som os seus prim os, ela teria escrúpulos em recusar qualquer sugestão nossa. É m elhor deixarm os os Croft encontrarem pessoas do nível deles. Há vários hom ens de aparência estranha andando por esta cidade que, segundo ouvi dizer, são m arinheiros. Os Croft poderão se relacionar com eles!

Foi esse o grau de interesse pela carta dem onstrado por Sir Walter e Elizabeth; depois de a sra. Clay a ter honrado com um a atenção m ais decente, perguntando pela sra. Charles Musgrove e seus adoráveis m eninos, Anne ficou livre para se retirar.

No quarto, tentou com preender a situação. Bem fazia Charles em se perguntar com o o capitão Wentworth devia estar se sentindo! Talvez ele houvesse abandonado o cam po de batalha, desistido de Louisa, deixado de am á-la ou descoberto que não a am ava. Anne não podia suportar pensar em traição ou leviandade, nem em nada aparentado a um m au com portam ento entre ele e seu am igo. Não podia suportar que um a am izade com o a sua fosse rom pida de form a inj usta.

O capitão Benwick e Louisa Musgrove! A anim ada Louisa Musgrove, sem pre a conversar alegrem ente, e o capitão Benwick, cabisbaixo, pensativo, em otivo e afeito à leitura, pareciam personificar respectivam ente tudo aquilo que não conviria ao outro. Que m entes m ais diversas! O que poderia ter ocasionado a atração entre os dois? A resposta logo se apresentou. Fora a situação. Os dois haviam sido forçados a conviver por várias sem anas, e haviam feito parte do m esm o pequeno círculo fam iliar: desde a partida de Henrietta, deviam estar dependendo quase exclusivam ente um do outro, e Louisa, recém -restabelecida de sua enferm idade, estava em um estado interessante, e o capitão Benwick não estava inconsolável. Quanto a isso, Anne não pudera evitar um a desconfiança anterior; e, ao contrário da conclusão tirada por Mary, a j ulgar pelo desenrolar dos acontecim entos, estes só faziam confirm ar a ideia de que ele havia experim entado um a afeição nascente por Anne. No entanto, ela não pretendia tirar disso nada para gratificar a própria vaidade m uito além do que Mary poderia ter perm itido. Estava convencida de que qualquer j ovem suficientem ente agradável que o tivesse escutado e aparentado se identificar com ele teria feito j us à m esm a honra. O capitão Benwick tinha um coração afetuoso. Precisava am ar alguém .

Anne não via m otivos para os dois não serem felizes j untos. Para com eçar, Louisa possuía um entusiasm o razoável por todas as coisas navais, e os dois logo iriam se tornar m ais parecidos. Ele ficaria m ais alegre, e ela aprenderia a apreciar Scott e Lord By ron; não, isso decerto j á havia acontecido; é claro que os dois haviam se apaixonado graças à poesia. Pensar em Louisa Musgrove transform ada em um a pessoa provida de gosto literário e reflexão sentim ental era divertido, m as Anne não duvidava de que assim fosse. O dia em Ly m e, o tom bo no Quebra-Mar, tudo isso poderia influenciar a saúde, os nervos, a coragem e o tem peram ento de Louisa até o final da vida, da m esm a form a que parecia ter influenciado seu destino.

A conclusão de tudo isso era que, se a m ulher que havia se m ostrado sensível aos m éritos do capitão Wentworth podia ter a perm issão de preferir outro hom em , não havia nada naquele noivado capaz de provocar um assom bro duradouro; e, contanto que o capitão Wentworth não tivesse com isso perdido um am igo, tam pouco havia nada a lastim ar. Não, não era a lástim a que fazia o coração de Anne bater contra a sua vontade e suas faces corarem ao im aginar o capitão Wentworth livre e desim pedido. Ela nutria sentim entos que tinha vergonha de exam inar a fundo. Sentim entos m uito parecidos com a alegria, com um a desm esurada alegria!

Ela ansiava por encontrar os Croft; quando o encontro ocorreu, contudo, ficou evidente que eles ainda não tinham tido qualquer indicação da novidade. A visita de cerim ônia foi feita e retribuída, e Louisa Musgrove, assim com o o capitão Benwick, foi m encionada sem nem ao m enos um m eio sorriso.

Os Croft haviam se instalado em acom odações em Gay Street, acom odações estas que eram do inteiro agrado de Sir Walter. Este não tinha qualquer vergonha da relação, e na verdade pensava e falava m uito m ais no alm irante do que o alm irante j am ais pensava ou falava nele.

Os Croft conheciam tantas pessoas em Bath quanto poderiam desej ar, e consideravam sua relação com os Elliot apenas um a questão de etiqueta, nem de longe propensa a lhes proporcionar qualquer prazer. Trouxeram consigo do cam po o hábito de andar sem pre j untos. O alm irante recebera a recom endação de cam inhar para evitar a gota, e a sra. Croft parecia acom panhá-lo em todas as ocasiões, e cam inhar o quanto fosse necessário para o bem do m arido. Anne os via por onde fosse. Lady Russell a levava para sair em sua carruagem quase todo dia de m anhã, e ela sem pre pensava neles e sem pre os via. Conhecendo, com o ela conhecia, os sentim entos que nutriam um pelo outro, aquela visão era sem pre para ela um retrato m uito atraente da felicidade. Ela sem pre os observava por quanto tem po pudesse, encantada em pensar que entendia sobre o que poderiam estar conversando enquanto cam inhavam , felizes e independentes, ou igualm ente encantada ao ver o caloroso aperto de m ão do alm irante sem pre que encontrava algum velho am igo, e ao observar a anim ação da conversa quando ocasionalm ente form avam um pequeno círculo de m em bros da Marinha, círculo este em que a sra. Croft parecia tão inteligente e interessada quanto qualquer um dos oficiais à sua volta.

Anne tinha com prom issos dem ais com a sra. Russell para passear sozinha com frequência; certa m anhã, porém , cerca de um a sem ana ou dez dias depois da chegada dos Croft, j ulgou m elhor deixar a am iga, ou m elhor, a carruagem da am iga, na parte m ais baixa da cidade, e voltar sozinha para Cam den Place, e ao subir Milsom Street teve a sorte de esbarrar com o alm irante. Ele estava parado sozinho em frente a um a loj a de gravuras, com as m ãos unidas nas costas, contem plando fascinado um a gravura qualquer, e ela não som ente poderia ter passado sem que ele a visse, m as foi obrigada a tocá-lo além de falar com ele antes de conseguir atrair sua atenção. No entanto, quando ele reparou nela e a reconheceu, foi com a franqueza e o bom hum or de sem pre.

– Ah! É a senhorita? Obrigado, obrigado. Isso sim é m e tratar com o am igo. Estou aqui adm irando um a ilustração, com o pode ver. Nunca consigo passar por esta loj a sem dar um a paradinha. Mas vej a só que espécie de navio desenharam aqui! Já viu algo parecido? Que estranhos personagens devem ser os desenhistas para pensar que alguém iria arriscar a vida em um a casca velha e disform e com o essa! No entanto, eis aqui dois cavalheiros presos dentro dela e parecendo m uito à vontade, olhando para os rochedos e m ontanhas em volta com o se não fossem em borcar no instante seguinte, com o com certeza deve acontecer. Pergunto-m e onde esse barco foi construído – e riu com vontade. – Eu não confiaria nele nem sequer para atravessar um a poça. Bem – virando-se para ela –, para onde está indo? Quer que vá a algum lugar para a senhorita ou que a acom panhe? Posso lhe ser útil em algum a coisa?

– Não, obrigada, a m enos que desej e m e dar o prazer de sua com panhia no pequeno trecho em que nossos traj etos coincidem . Estou indo para casa.

– Farei isso de m uito bom grado, e iria até m ais além . Sim , sim , façam os um belo passeio j untos, e tenho algo a lhe contar enquanto cam inham os. Tom e, segure m eu braço; isso; não m e sinto confortável a m enos que estej a de braços dados com um a m ulher. Meu Deus! Mas que barco! – com entou ele, olhando para a gravura pela últim a vez enquanto com eçavam a andar.

– O senhor disse que tinha algo a m e contar?

– Tenho, sim , e logo o farei. Mas eis ali um am igo vindo em nossa direção, o capitão Bridgen; m as vou apenas dizer “com o vai” quando passarm os. Não vou parar. “Com o vai?” Bridgen está espantado por m e ver com outra pessoa que não m inha esposa. Pobrezinha, ela não pode sair de casa. Está com um a bolha em

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um dos calcanhares do tam anho de um a m oeda de três xelins. Se olhar para o

outro lado da rua, a senhorita poderá ver o alm irante Brand a descê-la acom panhado pelo irm ão. Uns salafrários, os dois! Que bom que não estão deste lado da rua. Sophy não os suporta. Eles certa vez m e pregaram um a peça terrível: levaram em bora alguns de m eus m elhores hom ens. Em outra ocasião eu lhe conto a história toda. Lá vem o velho Sir Archibald Drew com o neto. Olhe, ele nos viu; está beij ando a m ão na sua direção; pensa que a senhorita é m inha esposa. Ah, a paz veio cedo dem ais para esse rapaz. Pobre Sir Archibald! O que está achando de Bath, srta. Elliot? A cidade nos convém m uito bem . Sem pre encontrando um ou outro velho am igo; todos os dias de m anhã as ruas estão cheias deles; o que não nos falta é conversa; e depois nós nos afastam os de todos eles e nos trancam os em casa, puxam os nossas cadeiras e saboream os o m esm o aconchego que teríam os se estivéssem os em Kelly nch, sim , ou m esm o que tínham os quando estávam os em North Yarm outh ou em Deal. Nossas acom odações aqui tam bém nos agradam , posso lhe dizer, por nos fazerem pensar nas prim eiras que tivem os em North Yarm outh. O vento atravessa da m esm a form a um dos arm ários.

Depois de avançarem m ais um pouco, Anne se atreveu a perguntar novam ente o que o alm irante tinha a lhe contar. Esperava que, quando saíssem de Milsom Street, sua curiosidade seria satisfeita; m as foi ainda obrigada a esperar, pois o alm irante havia decidido não com eçar a falar antes de chegarem ao espaço m ais am plo e silencioso de Belm ont; e, com o ela na realidade não era a sra. Croft, teve que deixá-lo fazer com o preferia. Assim que estavam subindo Belm ont, ele com eçou:

– Bem , a senhorita vai ouvir algo que a deixará espantada. Prim eiro, porém , precisa m e lem brar o nom e da j ovem sobre quem vou falar. Aquela com quem todos tem os andado tão preocupados, sabe. A srta. Musgrove que passou por toda aquela situação. Seu nom e de batism o… vivo m e esquecendo do seu nom e de batism o…

Anne sentiu vergonha de aparentar entender tão rapidam ente quanto o fez; depois de ouvi-lo, porém , pôde inform ar com segurança o nom e “Louisa”.

– Sim , sim , srta. Louisa Musgrove, é esse m esm o o nom e. Gostaria que as m oças não tivessem tantos belos nom es de batism o. Eu nunca iria m e esquecer caso todas se cham assem Sophy, ou algo assim . Bem , a senhorita bem sabe que nós todos pensávam os que essa srta. Louisa fosse se casar com Frederick. Ele passou sem anas a cortej á-la. O único m otivo de perplexidade era por que os dois estavam esperando tanto, isso até o incidente em Ly m e; depois disso, é claro, ficou evidente que deveriam esperar a cabeça dela se recuperar. Mas m esm o depois do acidente havia algo de estranho no com portam ento dos dois. Em vez de ficar em Ly m e, Frederick foi para Ply m outh, e em seguida foi visitar Edward. Quando voltam os de Minehead, ele j á tinha partido para a casa de Edward, e lá está desde então. Nós não o vem os desde o m ês de novem bro. Nem m esm o Sophy foi capaz de entender isso. Agora, porém , a situação tom ou um rum o m uito estranho; pois essa senhorita, essa m esm a srta. Musgrove, em vez de se casar com Frederick, vai se casar com Jam es Benwick. A senhorita conhece Jam es Benwick?

– Um pouco. Conheço um pouco o capitão Benwick.

– Bem , ela vai se casar com ele. Não, o m ais provável é que j á estej am casados, pois não im agino o que os faria esperar.

– Achei o capitão Benwick um rapaz m uito agradável – disse Anne –, e pelo que sei ele tem excelente caráter.

– Ah, sim , sim ! Não há nada a dizer contra Jam es Benwick. É bem verdade que ele é apenas um capitão de fragata, prom ovido no verão passado, e nós estam os em um a época ruim para subir de patente, m as tirando isso, que eu saiba, não tem nenhum outro defeito. Um rapaz excelente e de bom coração, posso lhe garantir; além do m ais, ele é um oficial m uito ativo e zeloso, o que talvez sej a m ais do que se poderia supor, pois seus m odos afáveis não lhe fazem j ustiça.

– Nisso o senhor está equivocado; os m odos do capitão Benwick nunca m e fariam concluir que lhe falte energia. Considerei seus m odos particularm ente agradáveis, e posso lhe garantir que são agradáveis para todos.

– Bem , bem , senhoras são j uízes m elhores, m as Jam es Benwick é um pouco

piano 78 dem ais para m im ; e, em bora a nossa opinião provavelm ente não sej a isenta, Sophy e eu não podem os deixar de pensar que os m odos de Frederick superam os dele. Frederick tem algo que é m ais do nosso gosto.

Anne se sentiu encurralada. Sua intenção havia sido apenas se opor à noção por dem ais corriqueira de que energia e afabilidade eram incom patíveis entre si, não apresentar os m odos do capitão Benwick com o os m elhores possíveis; depois de algum a hesitação, estava com eçando a dizer “Não tive a intenção de fazer qualquer com paração entre os dois am igos…”, m as o alm irante a interrom peu dizendo:

– E isso com certeza é verdade. Não é apenas fofoca. Quem nos contou foi o próprio Frederick. Sophy recebeu um a carta dele ontem dando a notícia, e ele havia acabado de ficar sabendo por um a carta de Harville escrita na hora m esm o, de Uppercross. Im agino que estej am todos em Uppercross.

Anne não pôde resistir a essa oportunidade; portanto, disse:

– Eu espero, alm irante, espero m esm o que não haj a nada no estilo da carta do capitão Wentworth que tenha deixado o sr. e a sra. Croft particularm ente aflitos. No outono passado, certam ente parecia haver algum afeto entre ele e Louisa Musgrove; espero, porém , que este se tenha dissipado de am bos os lados de form a equilibrada, e sem violência. Espero que a carta dele não tenha sido escrita com o tom de um hom em m altratado.

– De form a algum a, de form a algum a: não há qualquer protesto ou queixa do início ao fim .

Anne olhou para o chão de m odo a esconder o sorriso.

– Não, não; Frederick não é hom em de choram ingar e reclam ar; ele tem energia dem ais para tal. Se a m oça gosta m ais de outro hom em , é m elhor que fique com ele.

– Sem dúvida. Mas o que eu quis dizer foi que espero não haver nada na form a de escrever do capitão Wentworth que leve o senhor a supor que ele se considere m altratado pelo am igo, coisa que pode transparecer, com o o senhor bem sabe, sem que sej a dita com todas as letras. Eu ficaria m uito triste se um a am izade com o a que existia entre ele e o capitão Benwick fosse destruída, ou m esm o prej udicada por um a circunstância assim .

– Sim , sim , eu a entendo. Mas a carta não contém nada dessa natureza. Ele não faz o m enor ataque a Benwick; não chega sequer a dizer: “Isso m e espanta. Tenho m otivos pessoais para ficar espantado com isso.” Não, por sua form a de escrever não seria possível adivinhar que ele algum dia tenha considerado essa senhorita (qual é m esm o o nom e dela?) para si. Ele espera sinceram ente que os dois sej am felizes j untos; e não há nada de rancoroso em um desej o assim , suponho.

Anne não sentiu a convicção total que o alm irante pretendia transm itir, m as teria sido inútil insistir m ais no assunto. Assim , contentou-se em fazer com entários banais ou em lhe dedicar um a atenção silenciosa, e o alm irante prosseguiu falando com o desej ava.

– Pobre Frederick! – disse ele, por fim . – Ele agora precisa com eçar tudo de novo com outra pessoa. Acho que devem os convidá-lo para vir a Bath. Sophy precisa lhe escrever e im plorar que venha. Tenho certeza de que aqui haverá m oças bonitas que bastem . De nada adiantaria voltar para Uppercross, j á que creio que a outra srta. Musgrove está com prom etida com o prim o, o j ovem cura. Seria m elhor tentarm os fazê-lo vir a Bath, não acha, srta. Elliot?

CAPÍTULO 7

 

Enquanto o alm irante Croft dava seu passeio com Anne e expressava o desej o de trazer o capitão Wentworth para Bath, este j á estava a cam inho da cidade. Antes m esm o de a sra. Croft lhe escrever, ele j á havia chegado, e Anne o viu na vez seguinte em que saiu de casa.

O sr. Elliot acom panhava as duas prim as e a sra. Clay. Os três cam inhavam por Milsom Street. Com eçou a chover, não m uito, m as o suficiente para tornar desej ável encontrar um abrigo para as senhoras, e o suficiente para tornar m uito desej ável que a srta. Elliot pudesse voltar para casa na carruagem de Lady Dalry m ple, que fora vista aguardando a um a curta distância dali; assim , ela,

Anne e a sra. Clay entraram na Molland’s,79 enquanto o sr. Elliot ia ter com Lady Dalry m ple para pedir sua aj uda. Ele logo veio se j untar de novo às prim as, naturalm ente depois de ter obtido sucesso em seu pedido; Lady Dalry m ple teria prazer em levá-las até em casa, e viria buscá-las dali a poucos m inutos.

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A carruagem de Lady Dalry m ple era um a barouche que não com portava

m ais de quatro pessoas de form a confortável. A srta. Carteret acom panhava a m ãe; consequentem ente, não era sensato esperar que fosse possível acom odar todas as três senhoras de Cam den Place a bordo. Não havia dúvida em relação à srta. Elliot. Quem quer que viesse a passar algum aperto, não seria ela, m as foi preciso algum tem po para decidir qual seria a escolha m ais acertada entre as outras duas. Caía um a chuvinha de nada, e Anne foi totalm ente sincera ao dizer que preferia voltar a pé com o sr. Elliot. Mas a sra. Clay tam bém considerava a chuva um a coisinha de nada; para ela, praticam ente não caía nenhum a gota do céu, e suas botas eram m uito grossas, bem m ais grossas do que as da srta. Anne! Em sum a, a sua educação a tornou tão ansiosa para que a deixassem voltar cam inhando com o sr. Elliot quanto Anne, e a questão foi debatida entre as duas com um a generosidade tão polida e determ inada que os outros foram obrigados a decidir em seu lugar; a srta. Elliot afirm ou que a sra. Clay j á estava um pouco resfriada, e o sr. Elliot, quando consultado, decidiu que as botas de sua prim a Anne eram um tantinho m ais grossas.

Ficou decidido, portanto, que a sra. Clay voltaria na carruagem ; e eles haviam acabado de tom ar essa decisão quando Anne, sentada j unto à j anela da confeitaria, viu com m uita certeza e de form a m uito distinta o capitão Wentworth descendo a rua a pé.

Ela foi a única a reparar no próprio sobressalto, m as sentiu-se na m esm a hora a pessoa m ais tola, incom preensível e absurda do m undo! Durante alguns m inutos, não conseguiu ver nada diante de si: tudo era confusão. Ficou perdida, e, depois de repreender os próprios sentidos para que voltassem a funcionar, constatou que as outras ainda estavam à espera da carruagem , e que o sr. Elliot (sem pre atencioso) estava de partida rum o à Union Street, onde faria um a com pra para a sra. Clay.

Anne então sentiu-se fortem ente inclinada a ir até a porta da confeitaria; queria ver se estava chovendo. Por que deveria desconfiar que tivesse algum outro m otivo? O capitão Wentworth j á devia ter passado. Levantou-se, decidida a ir até lá; por que m etade de si era sem pre tão m ais sensata do que a outra m etade, e sem pre desconfiava que a outra fosse pior do que na realidade era? Ela iria até a porta ver se estava chovendo. No entanto, foi obrigada a voltar dali a poucos segundos pela aparição do capitão Wentworth em pessoa acom panhado por um grupo de dam as e cavalheiros, obviam ente conhecidos seus, e com os quais ele devia ter se encontrado um pouco depois de Milsom Street. O capitão ficou m ais obviam ente espantado e confuso ao vê-la do que ela j am ais tinha podido observar; ficou bastante verm elho. Pela prim eira vez desde que haviam tornado a se encontrar, ela sentiu que estava se m ostrando a m enos sensível dos dois. Tinha sobre ele a vantagem de ter podido se preparar durante alguns instantes. Todos os prim eiros efeitos de um a forte surpresa, incontroláveis, ofuscantes, estonteantes, j á haviam cessado para ela. Apesar disso, ela ainda tinha m uito a sentir! Agitação, dor, prazer; um m isto de deleite e tristeza.

Ele a cum prim entou, e em seguida virou-lhe as costas. O constrangim ento foi o que sobressaiu em seus m odos. Ela não poderia ter qualificado o seu com portam ento nem de frio nem de am igável, nem de qualquer outra coisa com m ais segurança do que constrangido.

Depois de um curto intervalo, porém , ele veio até ela e tornou a falar. Os dois trocaram perguntas sobre assuntos com uns: provavelm ente nenhum dos dois aprendeu nada com o que escutou, e Anne continuou consciente de que ele se m ostrava bem m enos desenvolto do que antes. Por terem estado tanto tem po j untos, os dois haviam passado a se falar com um a dose considerável de aparente indiferença e calm a; m as ele agora j á não conseguia se portar assim . O tem po, ou então Louisa, o haviam m odificado. Havia nele um novo tipo de consciência. Parecia m uito disposto, e não tinha o aspecto de alguém que padecia fosse na saúde ou na m ente, e falou de Uppercross, dos Musgrove, e sim , até m esm o de Louisa, e chegou a adotar aquele seu ar de m alícia ao citar o nom e dela; ainda assim , o capitão Wentworth não estava à vontade, nem confortável, e tam pouco foi capaz de fingir que assim estava.

Anne não ficou surpresa, m as entristeceu-se ao constatar que Elizabeth não o cum prim entava. Viu que ele viu Elizabeth, e que Elizabeth tam bém o viu, e que houve de am bas as partes um reconhecim ento interior com pleto; sentiu-se convencida de que ele estava prestes a ser cum prim entado com o um conhecido, chegou a esperar por isso, e teve a dor de ver a própria irm ã virar as costas com um a frieza inabalável.

A carruagem de Lady Dalry m ple, cuj a dem ora j á causava grande im paciência na srta. Elliot, então apareceu; o criado veio anunciar sua chegada. Estava recom eçando a chover, e houve certo atraso, agitação e falatório suficientes para fazer todos os presentes na confeitaria entenderem que Lady Dalry m ple estava ali para conduzir a srta. Elliot. Por fim , a srta. Elliot e sua am iga, acom panhadas apenas pelo criado (pois seu prim o ainda não havia retornado), saíram , e o capitão Wentworth, ao vê-las sair, virou-se para Anne e, por seus m odos m ais do que por suas palavras, ofereceu-lhe os seus préstim os.

– Fico-lhe m uito agradecida – foi a resposta dela –, m as não vou acom panhá-las. A carruagem não com porta tantos passageiros. Voltarei a pé, prefiro assim .

– Mas está chovendo.

– Ah, m uito pouco! Nada que m e incom ode.

Após um a pausa de alguns instantes, ele disse:

– Em bora só tenha chegado à cidade ontem , j á m e equipei adequadam ente para Bath, com o pode constatar – apontando para um guarda-chuva novo. – Caso estej a decidida a voltar a pé, gostaria que a senhorita aceitasse usá-lo; em bora

ache que seria m ais prudente se m e deixasse cham ar um a liteira. 81

Continuar: parte 9 de 12