Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 7/12

Páginas do PDF

Persuasão

Persuasão

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Anne não com partilhava esses sentim entos. Ainda nutria um a antipatia m uito determ inada, em bora tam bém m uito silenciosa, em relação a Bath; e teve o prim eiro vislum bre em baçado dos grandes prédios fum egando sob a chuva sem qualquer desej o de vê-los m elhor; e sentiu que seu avanço pelas ruas, por m ais desagradável que fosse, ainda assim estava excessivam ente veloz; pois quem ficaria feliz em vê-la quando chegasse? E pensou com afetuosa nostalgia na agitação de Uppercross e no isolam ento de Kelly nch.

A últim a carta de Elizabeth trouxera um a notícia de algum interesse. O sr. Elliot estava em Bath. Ele havia feito um a visita a Cam den Place, e depois um a segunda e um a terceira, e m ostrara-se extrem am ente atencioso. Caso Elizabeth e o pai não estivessem enganados, ele vinha se esforçando tanto para estreitar sua convivência e declarar o valor daquele vínculo quanto antes havia se esforçado para se m ostrar negligente. Se fosse m esm o verdade, isso era m aravilhoso, e Lady Russell nutria em relação ao sr. Elliot um a curiosidade e perplexidade m uito agradáveis, j á renunciando ao sentim ento que havia tão recentem ente externado para Mary de que ele era “um hom em que ela não tinha a m enor vontade de conhecer”. Estava com m uita vontade de conhecê-lo. Caso ele de fato estivesse tentando se reconciliar com o um m em bro da fam ília cum pridor do seu dever, devia ser perdoado por ter se desgarrado da árvore paterna.

Anne não estava tão anim ada assim com os acontecim entos, m as sentia-se m ais inclinada do que desinclinada a ver o sr. Elliot de novo, o que era m ais do que podia dizer em relação a várias outras pessoas em Bath.

Ela foi conduzida até Cam den Place, e Lady Russell então seguiu para seus

próprios aposentos em Rivers Street. 65

CAPÍTULO 3

 

Sir Walter havia alugado um a casa m uito boa em Cam den Place, situada em um ponto elegante e digno, com o condiz a um hom em de sua im portância; e tanto ele quanto Elizabeth estavam nela instalados com satisfação.

Anne adentrou a casa com o coração apertado, prevendo um aprisionam ento de m uitos m eses e perguntando com ansiedade a si m esm a: “Ah, quando irei deixar esta casa?” No entanto, um certo grau de cordialidade inesperada nas boas-vindas que recebeu lhe fez bem . O pai e a irm ã ficaram felizes em revê-la, em poder lhe m ostrar a casa e a m obília, e trataram -na com gentileza. O fato de ela ocupar um quarto lugar quando todos se sentaram para j antar foi considerado um a coisa boa.

A sra. Clay se m ostrou m uito agradável e sorridente, m as suas cortesias e sorrisos eram m ais praxe do que outra coisa. Anne sem pre pensara que, ao chegar a casa, iria sim ular a atitude adequada, m as não havia previsto a com placência dos outros. Todos os três estavam obviam ente de excelente hum or, e ela não dem orou a conhecer o m otivo. Nenhum dos três dem onstrou qualquer inclinação para escutá-la. Depois de tentar forçar algum elogio de que estivessem fazendo m uita falta em sua antiga vizinhança, elogio este que Anne não pôde dispensar, tiveram apenas algum as perguntas sem im portância a fazer antes de com eçarem a m onopolizar a conversa. Uppercross não despertava interesse algum , e Kelly nch m uito pouco: o tem a dom inante era Bath.

Os três tiveram o prazer de lhe garantir que, sob todos os aspectos, Bath havia m ais do que correspondido às suas expectativas. A sua casa era sem som bra de dúvida a m elhor de Cam den Place; seus salões tinham inúm eras vantagens claras em relação a todos os outros que tivessem visto ou dos quais tivessem tido notícia; e a superioridade não era inferior no que tangia ao estilo da decoração ou ao bom gosto da m obília. Eles j á haviam recusado m uitas apresentações, e m esm o assim continuavam a receber cartões de pessoas das quais não tinham qualquer

inform ação.66

Quanto divertim ento! Anne devia se espantar com a felicidade da irm ã e do pai? Espantar-se talvez não, m as decerto lam entava o fato de o pai não ver nada de degradante naquela m udança, de nada ver para lam entar nos deveres e na dignidade perdidos de um proprietário de terras, e de encontrar tantos m otivos para se m ostrar vaidoso na pequenez de um a cidade; e teve de suspirar, e sorrir, e se espantar tam bém , quando Elizabeth abriu as portas de dobrar e cam inhou exultante de um salão até o outro, gabando-se de sua am plidão: espantar-se com a possibilidade de aquela m ulher, que tinha sido senhora de Kelly nch Hall, encontrar m otivo de orgulho entre duas paredes separadas por um a distância que talvez nem chegasse a dez m etros.

Mas esse não era o único m otivo de sua felicidade. Eles tam bém tinham o sr. Elliot. Anne precisava ouvir m uitas coisas em relação ao sr. Elliot. Eles não apenas o haviam perdoado, m as estavam encantados com ele. Fazia m ais ou m enos duas sem anas que ele estava hospedado em Bath (tinha passado pela cidade em novem bro, a cam inho de Londres, quando naturalm ente ficara sabendo que Sir Walter havia se m udado para lá, em bora só tivesse passado vinte e quatro horas no local, m as não pudera fazer uso dessa inform ação); agora, porém , fazia duas sem anas que estava em Bath, e a prim eira coisa que fizera ao chegar fora deixar seu cartão de visita em Cam den Place, sucedendo tal gesto com convites m uito assíduos para se encontrarem e, quando de fato se encontraram , com tal franqueza de conduta, tal presteza para se desculpar pelo passado, tal em penho para ser considerado novam ente um parente, que as boas relações que eles tinham no passado foram totalm ente restabelecidas.

Eles não consideravam que o sr. Elliot tivesse qualquer defeito. Ele havia explicado toda a aparente negligência de que dera m ostras. Esta havia nascido de um com pleto m al-entendido. Ele j am ais pensara que tivesse rom pido relações com eles; tem era que eles houvessem rom pido relações com ele, e não sabia por que m otivo, e a boa educação o fizera guardar silêncio. Quanto à sugestão de ter se referido com desrespeito ou de form a descuidada à fam ília e ao seu prestígio, ele a escutou com grande indignação. Ele, que sem pre havia se gabado de ser um Elliot, e cuj os sentim entos em relação ao parentesco eram dem asiado rígidos para suportarem os costum es plebeus de hoj e em dia! Estava pasm o, de fato, m as seu caráter e sua conduta em geral iriam desm entir esses boatos. Sir Walter podia perguntar a todos que o conheciam ; e decerto o esforço que ele vinha fazendo para aproveitar aquela prim eira oportunidade de reconciliação, para tornar a estabelecer um a relação de parente e suposto herdeiro, era um forte indício de suas opiniões em relação ao assunto.

Tam bém as circunstâncias de seu casam ento foram j ulgadas passíveis de grandes atenuações. Sobre isso ele não falava pessoalm ente, m as um am igo m uito próxim o seu cham ado coronel Wallis, hom em m uito respeitável e com pleto cavalheiro (além de não ser um hom em feio, acrescentou Sir Walter),

67

que hoj e vivia em grande estilo em Marlborough Buildings e lhes havia sido apresentado pelo sr. Elliot m ediante sua solicitação pessoal específica, havia m encionado um a ou duas coisas em relação ao m atrim ônio que em m uito contribuíam para desacreditá-lo.

Fazia m uito tem po que o coronel Wallis conhecia o sr. Elliot, e tam bém havia conhecido bem a sua esposa, e entendia perfeitam ente a história toda. Ela com certeza não era um a m ulher de berço, m as era bem -educada, culta, rica e estava perdidam ente apaixonada por seu am igo. Fora esse o encanto. Ela o havia procurado. Sem esse atrativo, nem todo o dinheiro do m undo teria sido capaz de tentar Elliot, e Sir Walter, adem ais, tinha certeza de que ela havia sido um a m ulher m uito bonita. Tudo isso m elhorava bastante a situação. Um a m ulher m uito bonita, dona de um a grande fortuna, apaixonada por ele! Sir Walter pareceu aceitar isso com o um a desculpa com pleta; e, em bora Elizabeth não conseguisse ver as circunstâncias sob um viés tão favorável, aceitava que fossem grandes atenuantes.

O sr. Elliot havia feito várias visitas e j antado em sua com panhia um a vez, obviam ente encantado com a honra de ter sido convidado, um a vez que eles em geral não davam j antares; e havia ficado encantado, em sum a, com todas as dem onstrações de atenção entre prim os, e depositado toda a sua felicidade no fato de m anter relações estreitas com os m oradores de Cam den Place.

Anne escutou, m as sem entender de todo. Sabia que era preciso relativizar, e relativizar m uito, as ideias de seus interlocutores. O que ela estava ouvindo era um a história em belezada. Tudo que soava extravagante ou irracional no desenrolar da reconciliação talvez não tivesse outra origem que não a linguagem dos relatores. Mesm o assim , porém , teve a sensação de que havia algo m ais do que deixavam supor as sim ples aparências no fato de o sr. Elliot, depois de um intervalo de tantos anos, desej ar ser bem -recebido pela fam ília. De um ponto de vista m undano, ele não tinha nada a ganhar de um bom relacionam ento com Sir Walter, nem nada a arriscar caso contrário. Muito provavelm ente j á era o m ais rico dos dois, e a propriedade de Kelly nch seria sua com tanta certeza quanto o título de baronete. Um hom em sensato! E ele lhe parecera um hom em muito sensato. Por que então iria desej ar aquilo? Ela só conseguia pensar em um a solução: talvez fosse por causa de Elizabeth. Talvez de fato tivesse havido antigam ente algum a afeição de sua parte, em bora circunstâncias e percalços o tivessem conduzido por outro cam inho, e, agora que ele podia se dar ao luxo de fazer o que quisesse, talvez pretendesse lhe fazer a corte. Elizabeth era decerto um a m ulher m uito bonita, com m odos educados e elegantes, e talvez o sr. Elliot nunca tivesse com preendido o seu caráter, um a vez que só a havia encontrado em público e quando era ele próprio m uito j ovem . Com o o tem peram ento e a inteligência da irm ã poderiam suportar o exam e de seus olhos agora m ais experientes era outra preocupação, e um a preocupação tem erosa. Anne desej ava com ardor que ele não fosse m uito gentil nem m uito observador, caso Elizabeth fosse m esm o o alvo de sua estim a; e um a ou duas olhadelas durante a conversa sobre as frequentes visitas do sr. Elliot bastaram para deixar claro que Elizabeth estava disposta a acreditar que assim fosse, e que a sua am iga sra. Clay estava incentivando a ideia.

Anne m encionou as ocasiões em que o vira de relance em Ly m e, m as não obteve m uita atenção. “Ah, sim , talvez fosse o sr. Elliot. Eles não sabiam . Talvez fosse ele, sim .” Foram incapazes de escutar a descrição que ela fez dele. Estavam -no descrevendo eles próprios; sobretudo Sir Walter. Ele discorreu elogiosam ente sobre a aparência m uito cavalheiresca, sobre o ar elegante e na m oda, sobre o rosto bem -feito e o olhar sensível, m as, ao m esm o tem po, “teve de lam entar o fato de ele ter o m axilar inferior extrem am ente proem inente, defeito que o tem po parece ter intensificado; e tam pouco podia dizer que os anos não tivessem alterado quase todos os seus traços para pior. O sr. Elliot parecia pensar que ele (Sir Walter) tinha exatam ente a m esm a aparência de quando haviam se separado pela últim a vez”, m as Sir Walter “não pudera retribuir o elogio de form a plena, fato que o deixara constrangido. No entanto, não era a sua intenção reclam ar. O sr. Elliot tinha um a aparência m ais agradável do que a m aioria dos hom ens, e ele não tinha qualquer obj eção quanto a ser visto em sua com panhia onde quer que fosse”.

O sr. Elliot e seus am igos de Marlborough Buildings foram assunto de conversa durante toda a noite. “O coronel Wallis tinha se m ostrado tão im paciente para lhes ser apresentado! E o sr. Elliot tão ansioso para que isso acontecesse!”; e havia tam bém um a sra. Wallis, que eles ainda só conheciam de reputação, um a vez que ela esperava um bebê para qualquer m om ento; m as o sr. Elliot se referia a ela com o “um a m ulher de encanto extraordinário, totalm ente digna de ser conhecida em Cam den Place”, e assim que ela se recuperasse lhes seria apresentada. Sir Walter tinha a sra. Wallis em alta conta; dizia-se que era um a m ulher extrem am ente bonita, linda. “Ele ansiava por conhecê-la. Esperava que ela pudesse com pensar um pouco os m uitos rostos sem graça com que ele não parava de cruzar pelas ruas. A pior coisa de Bath era a quantidade de m ulheres sem graça na cidade. Não que ele quisesse dizer que não houvesse m ulheres bonitas, m as a quantidade de feias era m esm o desproporcional. Ele m uitas vezes havia observado, durante um a cam inhada, que um rosto bonito era seguido por trinta ou trinta e cinco m onstruosidades; e certa vez, quando estava em um a loj a de Bond Street, havia contado oitenta e sete m ulheres que tinham passado, um a após a outra, sem que houvesse entre elas nem sequer um rosto tolerável. Era um a m anhã gelada, sem dúvida, de um frio cortante que só podia ser suportado por um a m ulher em m il. Ainda assim , com certeza eram terrivelm ente num erosas as m ulheres feias de Bath; e os hom ens! Muito pior. Quantos espantalhos pelas ruas! O efeito produzido por um hom em de aparência decente deixava evidente o quão pouco acostum adas estavam as m ulheres com a visão de qualquer coisa que fosse tolerável. Ele nunca havia entrado em qualquer lugar de braços dados com o coronel Wallis (que tinha um belo porte m ilitar, em bora seus cabelos fossem ruivos) sem observar que os olhos de todas as m ulheres presentes se fixavam nele; os olhos de todas as m ulheres presentes certam ente se fixavam no coronel Wallis.” Modesto Sir Walter! Mas não lhe foi perm itido se esquivar do elogio. Sua filha e a sra. Clay se uniram para sugerir que o com panheiro do coronel Wallis podia ter um porte tão im ponente quanto o do coronel Wallis, e certam ente não tinha os cabelos ruivos.

– Com o vai Mary ? – indagou Sir Walter, no ápice do bom hum or. – Da últim a vez em que a vi, ela estava com o nariz verm elho, m as espero que isso não aconteça todos os dias.

– Ah, não, deve ter sido um a coincidência. Ela em geral tem passado m uito bem de saúde e está com um ótim o aspecto desde o final de setem bro.

– Se achasse que isso não fosse tentá-la a sair em dias de forte vento e arruinar a m aciez de sua pele, eu lhe m andaria um chapéu e um a peliça novos.

Anne estava ponderando se deveria se atrever a sugerir que um a capa ou um barrete não estariam expostos a tal uso indevido quando um a batida na porta interrom peu a conversa. “Um a batida na porta! E assim tão tarde! Eram dez da noite. Seria o sr. Elliot? Eles sabiam que ele devia j antar em Lansdown Crescent. Era possível que fizesse um a parada a cam inho de casa para saber com o estavam passando. Não conseguiam pensar em m ais ninguém . A sra. Clay estava convencida de que aquela era a batida do sr. Elliot.” A sra. Clay tinha razão. Com toda a pom pa que um m ordom o e um lacaio eram capazes de proporcionar, o sr. Elliot foi conduzido sala adentro.

Era o m esm o hom em , o m esm íssim o hom em , com a única diferença da roupa que estava usando. Anne se m anteve um pouco afastada enquanto os outros recebiam seus cum prim entos, e a irm ã suas desculpas por aparecer em hora tão inabitual, m as “ele não podia estar tão perto sem desej ar saber se nem ela nem sua am iga haviam se resfriado na véspera etc. etc.”; e tudo isso foi dito e escutado com a m aior educação possível, m as em seguida chegou o m om ento de sua participação. Sir Walter falou da filha caçula: “O sr. Elliot tinha de lhe dar licença para lhe apresentar sua filha caçula” (não houve tem po para lem brar de Mary ); e Anne, sorrindo e enrubescendo, exibiu de form a m uito adequada ao sr. Elliot os belos traços que ele de form a algum a havia esquecido, e na m esm a hora viu, divertindo-se com seu pequeno sobressalto de surpresa, que ele de form a algum a tinha conhecim ento de quem ela era. Seu espanto pareceu m uito grande, m as sua satisfação ainda m aior; os olhos dele brilharam ! E, falando com a m ais perfeita ênfase, ele se alegrou com aquela proxim idade entre prim os, fez alusão ao passado, e pediu para ser tratado com o alguém j á conhecido. Era tão atraente quanto dera a im pressão de ser em Ly m e, e seu porte ficava m ais altivo quando ele falava, e os seus m odos eram tão perfeitos em sua adequação, tão elegantes, tão naturais, tão singularm ente agradáveis, que ela só pôde com pará-los em sua excelência aos m odos de um a única pessoa. Não eram os m esm os, m as talvez fossem igualm ente bons.

Ele sentou-se em sua com panhia, e em m uito contribuiu para m elhorar sua conversa. Não havia qualquer dúvida de que se tratava de um hom em sensato. Dez m inutos bastaram para confirm ar isso. O tom de sua voz, as expressões de seu rosto, a sua seleção de assuntos, o fato de saber quando parar: tudo isso eram m ecanism os de um a m ente sensata e ponderada. Assim que pôde, ele com eçou a lhe falar sobre Ly m e, querendo com parar opiniões com relação ao lugar, m as sobretudo querendo m encionar o acaso de circunstâncias que os fizera pernoitar na m esm a hospedaria ao m esm o tem po; querendo inform ar o cam inho que havia feito, entender um pouco qual fora o seu e deplorar o fato de ter perdido tam anha oportunidade de lhe m anifestar seu respeito. Ela lhe fez um curto relato de seu grupo e do que tinham ido fazer em Ly m e. Conform e ele escutava, seu arrependim ento aum entou. Havia passado a noite inteira sozinho na sala ao lado daquela em que eles estavam ; ouvira vozes, e um a alegria incessante; pensara que eles deviam ser pessoas das m ais encantadoras e ansiara por a eles se j untar, m as com certeza não tivera a m enor desconfiança de ter nem sequer um a som bra de direito de se apresentar. Se ao m enos tivesse perguntado de que grupo se tratava! O nom e Musgrove teria lhe bastado com o inform ação. “Bem , isso serviria para curá-lo do hábito absurdo de nunca fazer qualquer pergunta em um a hospedaria, hábito por ele adotado, quando ainda j ovem , segundo o princípio de que ser curioso era m uita falta de educação.”

– Acho que as ideias que um rapaz de vinte e um ou vinte e dois anos tem em relação aos m odos necessários para fazer dele um cavalheiro são m ais absurdas do que as de qualquer outro grupo de pessoas no m undo – com entou ele. – A irracionalidade das atitudes por eles m uitas vezes em pregadas só é equivalente à irracionalidade de seus obj etivos.

Mas ele não deveria estar tecendo essas considerações apenas para Anne: sabia disso; e logo passou a se dividir tam bém entre os outros, e as referências a Ly m e passaram a ser apenas ocasionais.

As perguntas, porém , acabaram por provocar um relato da cena da qual ela havia participado em Ly m e logo após a sua partida da cidade. Após escutar a alusão a um “acidente”, ele teve de ouvir a história toda. Quando com eçou a fazer perguntas, Sir Walter e Elizabeth tam bém com eçaram a fazer perguntas, m as a diferença em sua form a de fazê-las não pôde passar despercebida. A única pessoa com quem Anne pôde com parar o sr. Elliot foi Lady Russell, em relação ao desej o de entender o que realm ente havia acontecido e ao grau de preocupação com o quanto ela devia ter sofrido por testem unhar o ocorrido.

Ele passou um a hora em sua com panhia. O elegante relogiozinho sobre o

68

console da lareira j á havia batido “as onze com seus ruídos de prata”, e o vigia

da rua j á com eçava a ser ouvido ao longe entoando a m esm a cantilena, antes de o sr. Elliot ou de qualquer um deles parecer sentir que ele havia se dem orado na visita.

Anne não poderia ter im aginado que a sua prim eira noite em Cam den Place fosse correr tão bem !

CAPÍTULO 4

 

Havia apenas um detalhe do qual Anne, ao voltar para j unto de sua fam ília, teria ficado m ais grata em se certificar até do que o fato de o sr. Elliot estar apaixonado por Elizabeth: o de o seu pai não estar apaixonado pela sra. Clay ; e, depois de algum as horas em casa, não estava nada descansada em relação a isso. Ao descer para o desj ej um , na m anhã seguinte, constatou que a intenção daquela senhora de partir de sua casa não havia passado de um fingim ento para m anter as aparências. Podia im aginar que a sra. Clay tivesse dito que “agora que a srta. Anne chegou”, não supunha que sua presença fosse desej ada, pois Elizabeth estava retrucando com um a espécie de sussurro: “Não por isso, de form a algum a. Garanto-lhe que para m im não é m otivo. Ela não significa nada para m im em com paração com a senhora”, e chegou a tem po de ouvir o pai dizer: “Minha cara senhora, isso não pode ser. A senhora ainda não viu nada de Bath. Esteve aqui apenas para se m ostrar útil. Não pode fugir de nós agora. Deve ficar para conhecer a sra. Wallis, a linda sra. Wallis. Bem sei que, para a sua m ente tão refinada, a visão da beleza é um a verdadeira gratificação.”

As palavras e a atitude de Sir Walter denotavam tam anha ansiedade que Anne não ficou surpresa em ver a sra. Clay olhar de relance para Elizabeth e para ela própria. Sua atitude talvez expressasse algum a cautela; m as o elogio feito a um a m ente refinada não pareceu causar em sua irm ã qualquer estranham ento. A dam a não pôde fazer outra coisa senão ceder a tal pedido conj unto e prom eter ficar.

Durante essa m esm a m anhã, quando Anne e o pai se encontraram por acaso sozinhos, ele com eçou a elogiá-la por sua aparência revigorada; j ulgava-a “m enos m agra de corpo e de rosto, com a pele e a tez m uito m ais viçosas e um sem blante m ais claro e fresco. Ela vinha usando algum produto em especial?”

– Não, nada.

– Apenas loção Gowland, 69 – supôs ele.

– Não, nada m esm o.

“Ah, isso o deixava surpreso!”; e ele acrescentou:

– Com certeza você não pode fazer nada m elhor do que continuar com o está; não pode m elhorar o que j á está bom ; m as, caso contrário, eu lhe recom endaria usar loção Gowland, usá-la com frequência durante os m eses da prim avera. A sra. Clay vem usando essa loção por recom endação m inha, e vej a só os resultados. Vej a com o a loção elim inou as sardas.

Ah, se Elizabeth tivesse escutado isso! Esse elogio tão pessoal talvez a houvesse espantado, sobretudo porque não parecia a Anne que as sardas estivessem de form a algum a atenuadas. Mas tudo deve seguir seu curso. Os danos daquele casam ento seriam m uito dim inuídos caso Elizabeth tam bém viesse a se casar. Anne, por sua vez, sem pre poderia ir m orar com Lady Russell.

Essa questão constituiu certa provação para o espírito equilibrado e as boas m aneiras de Lady Russell durante suas visitas a Cam den Place. Ver a sra. Clay em situação tão favorecida, e Anne tão m enosprezada, constituía para ela um a perpétua provocação naquela casa; e causava-lhe tam bém intensa irritação quando longe da casa, tanta quanto possível para alguém em Bath que bebia as águas, recebia todas as novas publicações disponíveis e tinha um a profusão de conhecidos.

Quando conheceu o sr. Elliot, tornou-se m ais caridosa ou m ais indiferente em relação aos outros. Os m odos do rapaz eram um a virtude que se podia constatar de im ediato; e, ao conversar com ele, constatou que as superficialidades estavam tão sustentadas por características m ais profundas que no início, conform e com entou com Anne, quase se viu a exclam ar: “Será m esm o o sr. Elliot?”, e não conseguiu conceber com credibilidade em sua m ente hom em m ais agradável ou m ais digno de estim a. Todas as qualidades se aliavam em sua pessoa: um a boa inteligência, opiniões corretas, conhecim ento do m undo e um coração sensível. Ele dava grande valor às relações entre parentes e ao prestígio fam iliar, sem dem onstrar qualquer orgulho ou fraqueza; vivia com a generosidade perm itida a um hom em rico, sem ostentação; tinha o próprio j uízo em relação a tudo o que era essencial, m as sem desafiar a opinião geral em qualquer questão de decoro público. Era sólido, observador, controlado, sincero; nunca se deixava levar por im pulsos ou por um egoísm o que se fizesse passar por convicção; apesar disso, tinha um a sensibilidade a tudo o que fosse agradável e belo e um apreço por todas as alegrias da vida dom éstica raros em hom ens com um tem peram ento dado a arroubos do espírito e a violentas agitações. Tinha certeza de que ele não havia sido feliz no casam ento. O coronel Wallis assim afirm ava, e Lady Russell assim constatava; m as a infelicidade não chegara ao ponto de lhe am argurar o espírito, ou tam pouco (com o ela logo com eçou a desconfiar) de im pedir que ele pensasse em escolher um a segunda esposa. A satisfação de Lady Russell com o sr. Elliot superava todo o pesar ocasionado pela sra. Clay.

Já fazia alguns anos que Anne havia com eçado a perceber que ela e sua excelente am iga podiam às vezes ter opiniões divergentes; portanto, não ficou surpresa com o fato de Lady Russell nada ver de suspeito ou estranho, nada que sugerisse outros m otivos que não os aparentes, no grande desej o do sr. Elliot de se reconciliar com os parentes. Na opinião de Lady Russell, era m uito natural que o sr. Elliot, em um a fase m adura da vida, considerasse m anter boas relações com o chefe de sua fam ília um obj etivo dos m ais desej áveis, e que lhe valeria a estim a de todas as pessoas sensatas; era o efeito m ais sim ples possível do tem po sobre um a m ente naturalm ente lúcida, outrora perdida na insensatez da j uventude. Anne, porém , perm itiu-se continuar sorrindo desse fato, antes de finalm ente m encionar o nom e “Elizabeth”. Lady Russell escutou, olhou para ela, e fez apenas o seguinte com entário cauteloso:

– Elizabeth! Muito bem ; o tem po dirá.

Tratava-se aí de um a referência ao futuro à qual Anne, após certa observação, sentiu que precisava se subm eter. Não podia ter certeza de nada por ora. Naquela casa, Elizabeth devia ter a prim azia, e estava tão acostum ada a ser tratada por todos com o “senhorita Elliot” que qualquer atenção particular parecia quase im possível. Além disso, era preciso lem brar que não faziam nem sete m eses que o sr. Elliot ficara viúvo. Um a certa dem ora de sua parte seria m uito

com preensível. Na verdade, Anne nunca podia pousar os olhos sobre o crepe70 ao redor de seu chapéu sem tem er que, na realidade, fosse ela quem estivesse se com portando de form a indesculpável ao atribuir a ele tam anha im aginação; pois, em bora o casam ento não tivesse sido m uito feliz, m esm o assim havia existido por tantos anos que ela não podia conceber um a recuperação m uito rápida da péssim a sensação de vê-lo term inado para sem pre.

Qualquer que viesse a ser o desfecho, o sr. Elliot era sem dúvida seu conhecido m ais agradável ali em Bath: ela não via ninguém que se pudesse com parar a ele; e era com grande satisfação que conversava com ele de vez em quando sobre Ly m e, que ele parecia tão ansioso quanto ela para tornar a visitar e conhecer m elhor. Eles rem em oraram várias vezes os detalhes de seu prim eiro encontro. Ele lhe deu a entender que havia olhado para ela com algum interesse. Ela sabia disso m uito bem ; e lem brava-se tam bém do olhar de outra pessoa.

Os dois nem sem pre pensavam da m esm a form a. Ele parecia prezar m ais do que ela a posição social e as relações. Não foi apenas com placência, m as sim um a identificação com a causa, que o fez solicitar de form a arrebatada seu pai e sua irm ã em relação a um assunto que ela j ulgava indigno de seu interesse. Certa m anhã, o j ornal de Bath anunciou a chegada da viscondessa Dalry m ple, agora viúva, e de sua filha, a ilustre srta. Carteret, e todo o conforto do nº — de Cam den Place foi abolido por m uitos dias; pois os Dalry m ple (m uito desafortunadam ente, na opinião de Anne) eram prim os dos Elliot; e estes se angustiavam pensando em com o se apresentar de form a adequada.

Anne nunca vira antes o pai e a irm ã em contato com m em bros da nobreza, e tinha de se confessar desapontada. Esperava coisa m elhor de seus altivos ideais em relação à própria posição social, e viu-se obrigada a form ular um desej o que j am ais teria podido prever: o desej o de que eles tivessem m ais orgulho; pois durante o dia inteiro tudo que seus ouvidos escutavam era “nossas prim as, Lady

Dalry m ple e a srta. Carteret” ou “nossas prim as Dalry m ple”.71

Sir Walter havia se encontrado um a vez com o falecido visconde, m as nunca tinha conhecido nenhum outro m em bro da fam ília; e as dificuldades da presente situação advinham do fato de que, desde a m orte do visconde, houvera um a suspensão de toda a correspondência form al quando, em consequência de um a perigosa doença contraída por Sir Walter na m esm a época, ocorrera um a desafortunada om issão por parte de Kelly nch. Nenhum a carta de pêsam es havia sido enviada para a Irlanda. A negligência havia sido retribuída ao pecador pois, quando a pobre Lady Elliot faleceu, por sua vez, nenhum a carta de pêsam es foi recebida em Kelly nch e, consequentem ente, havia m otivos de sobra para tem er que os Dalry m ple considerassem aquela relação encerrada. A questão era com o consertar essa preocupante situação para que eles fossem aceitos novam ente com o prim os; e era um a questão que, de m aneira m ais racional, nem Lady Russell nem o sr. Elliot consideravam desprovida de im portância. “Sem pre valia a pena preservar os vínculos fam iliares; sem pre valia a pena procurar boas com panhias; Lady Dalry m ple havia alugado um a casa por três m eses em Laura

Place, 72 e ali viveria em grande estilo. Já estivera em Bath no ano anterior, e Lady Russell a ouvira ser descrita com o um a m ulher encantadora. Era m uito desej ável que o vínculo fosse retom ado, caso isso fosse possível sem qualquer concessão de dignidade por parte dos Elliot.”

Sir Walter, porém , estava decidido a escolher sua própria linha de ação, e por fim escreveu um a carta m uito elegante à sua ilustre prim a contendo am plas explicações, arrependim entos e rogos. Nem Lady Russell nem o sr. Elliot puderam ler a carta; esta, no entanto, surtiu todo o efeito desej ado, pois foi sucedida por três linhas escritas com o garrancho da viúva viscondessa. “Ela estava m uito honrada, e ficaria m uito feliz em encontrá-los.” Um a vez encerradas as labutas da questão, era hora de com eçarem as gentilezas. Os Elliot foram visitar Laura Place, posicionaram os cartões de visita da viscondessa e da ilustre srta. Carteret no local onde pudessem ficar m ais visíveis, e com entavam com todo m undo sobre “nossas prim as de Laura Place” e “nossas prim as Lady Dalry m ple e a srta. Carteret”.

Anne sentiu vergonha. Ainda que Lady Dalry m ple e sua filha fossem pessoas m uito agradáveis, m esm o assim teria sentido vergonha da agitação por elas provocada, m as elas não o eram . Não havia qualquer superioridade em seus m odos, em sua cultura ou em seu intelecto. Lady Dalry m ple havia conquistado a fam a de ser “um a m ulher encantadora” pelo sim ples fato de saber sorrir e dar um a resposta cortês a todo m undo. A srta. Carteret, que tinha m enos ainda a dizer, era tão feia e tão desengonçada que j am ais teria sido tolerada em Cam den Place não fosse a sua origem .

Lady Russell confessou que esperava coisa m elhor; m esm o assim , aquela “era um a relação que valia a pena cultivar”; e, quando Anne se atreveu a externar sua opinião a respeito delas para o sr. Elliot, este concordou que as duas por si só não eram nada, m as seguiu afirm ando que, com o vínculo fam iliar, com o boa com panhia e com o pessoas capazes de reunir ao seu redor outras boas com panhias, tinham o seu valor. Anne sorriu e disse:

– O m eu conceito de boa com panhia, sr. Elliot, é estar acom panhada por pessoas inteligentes e bem -inform adas, que saibam conversar; é isso que cham o de boa com panhia.

– A senhorita está enganada – disse ele com delicadeza –, isso não é boa com panhia; é a m elhor com panhia possível. A boa com panhia requer apenas berço, educação e boas m aneiras, e, no que tange à educação, não é m uito exigente. Berço e boas m aneiras são fundam entais; m as um a educação deficiente não é de form a algum a um a coisa perigosa para a boa com panhia; pelo contrário, serve perfeitam ente. Minha prim a Anne discorda. Está sacudindo a cabeça. Não está convencida. É um a m oça exigente. Minha cara prim a – sentando-se ao seu lado –, a senhorita tem m ais direito de ser exigente do que qualquer outra m ulher que eu conheça, m as será que isso vai adiantar? Será que vai fazê-la feliz? Não seria m ais sensato aceitar a com panhia dessas boas senhoras em Laura Place e aproveitar o quanto possível as vantagens dessa relação? Pode estar certa de que, durante este inverno, elas só frequentarão pessoas da alta-roda em Bath, e, com o posição social é posição social, o fato de se saber sobre o parentesco será útil para garantir à sua fam ília (à nossa fam ília, devo dizer) o grau de consideração pelo qual todos devem os ansiar.

– Sim – disse Anne com um suspiro –, de fato, nós serem os conhecidos por serm os seus parentes! – em seguida, recuperando a com postura e sem querer ser respondida, ela arrem atou. – Com certeza considero que um esforço excessivo foi feito para assegurar essa relação. Im agino – sorrindo – que eu deva ser m ais orgulhosa do que o resto de vocês; m as confesso que m e irrita o fato de nos m ostrarm os tão ansiosos para que a relação sej a reconhecida, relação essa que, podem os estar certos, lhes é totalm ente indiferente.

– Perdoe-m e, cara prim a, a senhorita está subestim ando o próprio valor. Em Londres, talvez, com seu estilo de vida atual tão discreto, pode até ser assim ; m as, em Bath, Sir Walter Elliot e sua fam ília serão sem pre pessoas que vale a pena conhecer, e serão sem pre relações aceitáveis.

– Bem – disse Anne –, eu com certeza sou orgulhosa, orgulhosa dem ais para saborear um a acolhida que dependa tanto assim de lugar.

– A sua indignação m e encanta – disse ele –, e é m uito natural. Mas a senhorita agora está aqui, em Bath, e o obj etivo é se estabelecer nesta cidade com o m áxim o de consideração e dignidade que devem caber a Sir Walter Elliot. A senhorita diz que é orgulhosa; sei que m e cham am de orgulhoso, e não desej o acreditar que eu sej a diferente; pois os nossos orgulhos, caso fossem exam inados, teriam o m esm o obj etivo, não duvido, em bora talvez pareçam um pouco diferente. Quanto a um a coisa estou certo, cara prim a – prosseguiu ele falando m ais baixo, em bora não houvesse m ais ninguém no recinto –, quanto a um a coisa estou certo de que pensam os da m esm a form a. Estou certo de que pensam os que qualquer acréscim o ao círculo social do seu pai, sej a entre seus iguais ou entre seus superiores, pode ser útil para distrair seus pensam entos daqueles que estão abaixo dele.

Ao falar, ele olhou para o assento que a sra. Clay costum ava ocupar nos últim os tem pos: foi um a explicação suficiente do que estava querendo dizer; e, em bora Anne não pudesse acreditar que eles dois tivessem o m esm o tipo de orgulho, ficou satisfeita com ele por não gostar da sra. Clay ; e a sua consciência adm itiu que o fato de ele desej ar prom over excelentes relações para o pai era m ais do que desculpável diante da perspectiva de derrotá-la.

CAPÍTULO 5

 

Enquanto Sir Walter e Elizabeth tentavam com grande afinco prom over sua boa fortuna em Laura Place, Anne retom ou um a relação de um tipo inteiram ente diferente.

Ela havia feito um a visita à sua antiga professora, e ficara sabendo que um a antiga am iga sua da escola, que tinha para atrair sua atenção os dois fortes m otivos da gentileza passada e do sofrim ento atual, estava agora m orando em Bath. A srta. Ham ilton, agora sra. Sm ith, havia lhe dem onstrado gentileza em um a das épocas de sua vida em que isso tinha se m ostrado m ais valioso. Anne chegara à escola infeliz, lam entando a m orte da m ãe que tanto am ava, sentida com o afastam ento de casa e sofrendo com o um a m enina de catorze anos m uito sensível e não m uito anim ada podia sofrer em m om entos com o esse; e a srta. Ham ilton, três anos m ais velha do que ela, m as que apesar disso, por falta de parentes próxim os e de um a residência fixa, iria perm anecer m ais um ano na escola, havia se m ostrado prestativa e boa para com ela de um a form a que dim inuíra consideravelm ente sua tristeza, e que j am ais poderia ser lem brada com indiferença.

A srta. Ham ilton havia deixado a escola e se casado pouco depois, e dizia-se que havia desposado um hom em rico, e isso era tudo o que Anne sabia a seu respeito até a ocasião em que o relato da professora lhe expôs a situação da antiga am iga de m aneira m ais clara, m as m uito diferente.

Ela agora era viúva e pobre. O m arido tinha sido um hom em extravagante; e ao m orrer, cerca de dois anos antes, deixara seus negócios terrivelm ente com prom etidos. Ela fora obrigada a enfrentar dificuldades de todo tipo e, além dessas preocupações, havia sofrido com um a grave febre reum ática que, tendo por fim se instalado em suas pernas, a deixara por ora aleij ada. Era esse o m otivo que a fizera ir para Bath, e ela agora m orava em aposentos próxim os aos

banhos quentes73 e levava um a vida m uito m odesta, incapaz até m esm o de se dar ao luxo de ter um a criada e, naturalm ente, quase excluída da sociedade.

Sua am iga em com um assegurou a satisfação que um a visita da srta. Elliot causaria na sra. Sm ith, e Anne, portanto, não perdeu tem po para ir visitá-la. Não m encionou nada em casa do que havia escutado ou do que pretendia fazer. Ninguém ali dem onstraria qualquer interesse adequado. Consultou apenas Lady Russell, que com partilhou seus sentim entos de form a integral e teve m uito gosto em levá-la até tão perto dos aposentos da sra. Sm ith, em Westgate Buildings, quanto Anne aceitou ser conduzida.

A visita foi feita, a relação retom ada e o interesse de um a pela outra m ais do que reavivado. Os prim eiros dez m inutos tiveram lá a sua estranheza e a sua em oção. Doze anos haviam transcorrido desde o últim o encontro, e am bas eram pessoas um pouco diferentes do que a outra havia im aginado. Doze anos haviam transform ado Anne de um a prom issora, calada e im atura m enina de quinze anos em um a elegante j ovem m ulher de vinte e sete, dotada de todas as virtudes da beleza exceto o prim eiro viço da adolescência, e de m odos tão conscientes em sua correção quanto constantes em sua doçura; e doze anos haviam transform ado a bela e j á adulta srta. Ham ilton, com todo o brilho da saúde e confiança de superioridade, em um a viúva pobre, enferm a e indefesa, que recebia com o um favor a visita de sua antiga protegida; m as todos os aspectos constrangedores da visita logo se dissiparam , deixando apenas o interessante encanto de relem brar antigas preferências e conversar sobre os velhos tem pos.

Anne encontrou na sra. Sm ith a m esm a sensatez e os m esm os m odos afáveis que quase se atrevera a dar com o certos, e um a disposição para conversar e m ostrar-se alegre que superaram suas expectativas. Nem os desperdícios do passado – e ela havia levado um a vida m uito m undana – nem as restrições do presente, nem a doença nem a tristeza pareciam ter fechado seu coração ou estragado sua disposição.

Durante um a segunda visita, a sra. Sm ith falou com grande franqueza, e o espanto de Anne aum entou. Era quase im possível im aginar um a situação m ais lam entável do que a sua. Ela gostava m uito do m arido, e o havia enterrado. Estava acostum ada à riqueza, e esta havia desaparecido. Não tinha nenhum filho que pudesse reatar seus vínculos com a vida e a felicidade, nem parentes para aj udar na organização de negócios com prom etidos, nem saúde para tornar todo o resto suportável. Seus aposentos se lim itavam a um a sala de visitas barulhenta sucedida por um quarto de dorm ir escuro, e ela não conseguia passar de um para o outro sem um auxílio que só podia ser fornecido pela única criada disponível na casa, e nunca saía a não ser para ser conduzida até os banhos quentes. No entanto, apesar disso tudo, Anne tinha m otivos para crer que ela tivesse apenas alguns instantes de langor e depressão com parados a m uitas horas de ocupação e divertim ento. Com o era possível? Ela observou, exam inou, refletiu e por fim concluiu não se tratar apenas de um caso de força de caráter e resignação. Um espírito subm isso talvez fosse paciente, um a inteligência forte proporcionaria decisão, m as havia algo m ais: havia nela um a plasticidade da m ente, um a disposição para se deixar reconfortar, um a capacidade para passar em um instante do m al ao bem e para encontrar ocupações que lhe perm itissem se distrair de si m esm a que advinham exclusivam ente de sua índole. Esse era o m ais precioso presente dos céus; e Anne via na am iga um daqueles exem plos nos quais, graças a um a m isericordiosa ordenação, ele parece destinado a contrabalançar quase todas as outras deficiências.

Houvera um tem po, contou-lhe a sra. Sm ith, em que ela quase havia perdido as esperanças. Em com paração com seu estado ao chegar a Bath, não podia se dizer inválida agora. Na época, ela de fato era um a visão de dar dó; pois havia se resfriado durante a viagem , e m al tivera tem po de se acom odar em seus novos aposentos antes de ficar novam ente acam ada, e sofrera dores intensas e constantes; e tudo isso entre desconhecidos, com a necessidade absoluta de ter um a enferm eira constante, e com finanças particularm ente inadequadas na época para dar conta de qualquer despesa suplem entar. No entanto, havia suportado a fase difícil, e podia afirm ar que esta lhe fizera bem . Ela ficara reconfortada ao sentir que estava em boas m ãos. Tinha experiência suficiente do m undo para esperar qualquer vínculo súbito ou desinteressado de alguém , m as a doença havia lhe provado que a sua senhoria era um a m ulher de caráter, e que não iria m altratá-la; além do m ais, tinha sido particularm ente afortunada em relação à enferm eira, um a vez que a irm ã de sua senhoria, enferm eira profissional que sem pre m orava naquela casa quando não estava em pregada, por sorte estava disponível j usto a tem po para cuidar dela.

– E essa m ulher – disse a sra. Sm ith –, além de cuidar de m im de form a adm irável, de fato provou ser um a relação inestim ável. Assim que pude usar as m ãos, ela m e ensinou a tricotar, o que tem sido para m im um a grande diversão; e foi com ela que com ecei a fabricar estes porta-linhas, estas alm ofadas de alfinetes e estes porta-cartões de visita com os quais a senhorita sem pre m e vê tão ocupada, e que m e perm item fazer algum bem a um a ou duas fam ílias m uito pobres deste bairro. Ela conhece m uita gente, profissionalm ente é claro, com dinheiro para com prar, e vende as m inhas m ercadorias. Sabe sem pre oferecê-las no m om ento certo. A senhorita sabe, todos aqueles que escaparam recentem ente de um a grande dor têm o coração aberto, ou então quem está recuperando as bênçãos da boa saúde, e a enferm eira Rooke sabe perfeitam ente quando deve falar. É um a m ulher astuta, inteligente e sensata. Sua profissão lhe perm ite observar a natureza hum ana; e ela possui um arsenal de bom -senso e observação que, com o com panhia, a tornam m uitíssim o superior a m ilhares daquelas pessoas que, tendo recebido apenas “a m elhor educação do m undo”, não sabem nada que sej a de qualquer interesse. Pode cham ar isso de fofoca, se quiser, m as, quando a enferm eira Rooke dispõe de m eia hora de lazer para m e dedicar, tem sem pre algo de divertido e útil a relatar: algo que nos perm ite conhecer m elhor nossa própria espécie. Todo m undo gosta de saber o que anda

acontecendo, de estar 74 au fait quanto às m ais novas m aneiras de ser frívolo e tolo. Para m im , que passo tanto tem po sozinha, posso lhe garantir que a conversa dela é um deleite.

Anne, longe de querer obj etar àquele prazer, retrucou:

– Posso acreditar nisso com facilidade. As m ulheres dessa classe têm ótim as oportunidades e, se forem inteligentes, pode m uito bem valer a pena escutá-las. Quantas variedades da natureza hum ana elas têm o costum e de observar! E o seu conhecim ento não se lim ita apenas à sua insensatez, um a vez que elas às vezes a observam sob circunstâncias que podem ser m uito interessantes ou com oventes. Quantos exem plos elas devem testem unhar de afeto ardente, desinteressado e altruísta, de heroísm o, coragem , paciência, resignação; de todos os conflitos e os sacrifícios que m ais nos enobrecem . Um quarto de doente m uitas vezes pode valer tanto quanto m uitos livros.

– Sim , às vezes pode – disse a sra. Sm ith em um tom m ais cético –, em bora eu tem a que as suas lições m uitas vezes não sej am de natureza tão elevada quanto a que a senhorita descreve. Em algum as ocasiões, a natureza hum ana pode se m ostrar grandiosa ao enfrentar desafios; m as, de m odo geral, o que surge no quarto de um doente é sua fraqueza, não sua força; o que se ouve é seu egoísm o e sua im paciência, m ais do que generosidade e coragem . A am izade verdadeira é tão rara no m undo! E, infelizm ente – ela agora falava com a voz baixa e trêm ula –, há m uita gente que se esquece de pensar com seriedade até ser quase tarde dem ais.

Continuar: parte 8 de 12