Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
Sir Walter não era um hom em m uito sensato; no entanto, tinha vivência de m undo suficiente para sentir que era pouco provável que se apresentasse algum candidato m ais irrepreensível sob todos os aspectos do que o alm irante Croft parecia ser. Tal era a extensão de seu entendim ento, e sua vaidade encontrava um alento adicional na posição social do alm irante, elevada o suficiente, m as não excessivam ente elevada. “Aluguei m inha casa para o alm irante Croft” iria soar m uito bem ; m uito m elhor do que para algum sim ples sr. X; um senhor (salvo, talvez, um a m eia dúzia de hom ens no país) requeria sem pre um a nota explicativa. Um alm irante fala por si só, e ao m esm o tem po nunca pode fazer um baronete parecer pequeno. Em todas as suas negociações e contatos, Sir Walter Elliot deveria ter a prim azia.
Nada podia ser feito sem consultar Elizabeth, m as sua inclinação no sentido de um a m udança estava se tornando tão forte que ela ficou feliz em vê-la acertada e apressada pela aparição de um inquilino, de m odo que não pronunciou qualquer palavra para adiar a decisão.
O sr. Shepherd tinha, portanto, plenos poderes para agir, e, assim que tal fato ficou estabelecido, Anne, que havia escutado com grande atenção a conversa toda, saiu da sala para buscar no ar fresco um alento para as faces coradas, e, enquanto cam inhava por um de seus arvoredos preferidos, disse, com um leve suspiro:
– Mais alguns m eses, e talvez ele estej a andando por aqui.
CAPÍTULO 4
Por m ais suspeitas que pudessem ser as aparências, ele não era o sr. Wentworth, antigo cura de Monkford, m as sim um certo capitão Frederick Wentworth, seu irm ão, que, depois de prom ovido a capitão de fragata devido aos com bates em
Santo Dom ingo, 28 e sem ter recebido nenhum a outra m issão im ediata, viera a Som ersetshire no verão de 1806; e com o nem seu pai nem sua m ãe eram vivos, passara m etade do ano em Monkford. Na época, era um rapaz incrivelm ente vistoso, dono de grande inteligência, espirituosidade e sagacidade; e Anne era um a j ovem extrem am ente atraente, dotada de suavidade, m odéstia, bom gosto e sensibilidade. Metade da som a desses atrativos talvez j á tivesse bastado, de parte a parte, pois ele nada tinha para fazer, e ela praticam ente ninguém para am ar; m as o encontro de tão copiosas qualidades foi infalível. Os dois foram se conhecendo aos poucos e, depois de se conhecerem , apaixonaram -se rápida e profundam ente. Seria difícil dizer qual dos dois viu no outro perfeição m ais altaneira ou qual dos dois foi m ais feliz: ela ao ouvir as declarações e pedidos dele ou ele em vê-los aceitos.
Seguiu-se um curto período de extrem a felicidade, m as um curto período apenas. Logo surgiram problem as. Quando consultado, em bora não tenha chegado a recusar seu consentim ento ou a dizer que aquilo j am ais poderia acontecer, Sir Walter reagiu à questão com toda a negatividade de um grande espanto, um a grande frieza, um grande silêncio, e a decisão professa de nada
fazer pela filha. 29 Considerava o enlace m uito degradante; e Lady Russell, em bora com um orgulho m ais tem perado e perdoável, j ulgava-o um grande infortúnio.
Anne Elliot, apesar dos atributos do berço, da beleza e do espírito, desperdiçar a si m esm a aos dezenove anos, envolver-se aos dezenove anos em um noivado com um rapaz que nada tinha para recom endá-lo a não ser ele m esm o, e sem qualquer esperança de alcançar um a boa situação a não ser os acasos de um a profissão m uito incerta, e sem parentes para nem sequer garantir sua progressão nesse ofício, seria de fato um desperdício que lhe causava desgosto só de pensar! Anne Elliot, tão j ovem , conhecida por tão poucos, arrebatada por um desconhecido sem relações ou fortuna, ou m elhor, condenada por ele a um estado de dependência extenuante, cheio de aflição, fadado a arruinar sua j uventude! Aquilo não podia ser, não se pudesse ser evitado graças a qualquer intervenção possível de am izade, a qualquer conselho de alguém que tinha em relação à j ovem am or e direitos que eram praticam ente os de um a m ãe.
O capitão Wentworth não tinha posses. Tivera sorte na profissão, m as, ao gastar com liberalidade o que havia ganhado com igual liberalidade, não acum ulara nada. Estava, porém , confiante de que logo iria se tornar rico: cheio de vida e energia, sabia que logo teria um navio para com andar, e logo ocuparia um cargo que conduziria a tudo aquilo que desej ava. Sem pre fora um hom em de sorte; sabia que continuaria a sê-lo. Tal confiança, potente por seu próprio arrebatam ento e cativante pela rapidez de espírito com a qual ele m uitas vezes a expressava, poderia ter bastado para Anne; Lady Russell, no entanto, via a situação com olhos m uito diferentes. O tem peram ento sanguíneo do rapaz e seu caráter destem ido tinham sobre ela um efeito bem diferente. Tudo que via neles era um agravam ento do m al. Isso apenas lhe atribuía um com portam ento perigoso. Ele era inteligente, era obstinado. Lady Russell tinha pouco apreço pela rapidez de espírito, e verdadeiro horror por tudo que se assem elhasse à im prudência. Desaprovava o enlace sob todos os aspectos.
A oposição gerada por esses sentim entos foi forte dem ais para Anne conseguir com bater. Jovem e afável com o era, talvez lhe tivesse sido possível resistir à contrariedade do pai, em bora esta não tivesse sido abrandada por nenhum a palavra ou olhar gentil da irm ã; m as Lady Russell, a quem sem pre am ara e em quem sem pre confiara, não a podia estar aconselhando em vão todo esse tem po com opiniões tão sólidas e m odos tão carinhosos. Ela foi persuadida a considerar o noivado um a decisão errada: indiscreta, im própria, praticam ente incapaz de sucesso e indigna deste. Mas o que a im pulsionou a agir e rom per o noivado não foi apenas um a cautela egoísta. Caso não houvesse im aginado estar agindo pelo bem dele, até m ais do que pelo próprio, não teria sido capaz de desistir. A convicção de estar sendo prudente e altruísta, sobretudo para o bem dele, foi seu m aior consolo em m eio à infelicidade da separação, um a separação definitiva; e todos os consolos foram necessários, pois ela ainda teve de enfrentar toda a dor suplem entar das opiniões dele, que não se deixou persuadir de form a algum a e m ostrou-se irredutível, sentindo-se lesado por um rom pim ento tão forçado. Depois disso, ele havia deixado a região.
Poucos m eses haviam se passado entre o início e o fim do relacionam ento, m as o sofrim ento de Anne por sua causa não term inou tão depressa. Durante m uito tem po, o afeto e o arrependim ento enevoaram todas as alegrias da j uventude, e a perda precoce do viço e da energia foi o efeito duradouro.
Mais de sete anos haviam transcorrido desde a conclusão desse pequeno rom ance cheio de m elancolia, e o tem po havia neutralizado grande parte e talvez todo o afeto singular que ela nutria por ele, m as ela havia depositado um a confiança excessiva no tem po em si: não obtivera qualquer aj uda de um a m udança de ares (com exceção de um a visita a Bath logo após o rom pim ento) nem de algum a novidade ou am pliação de suas am izades. Ninguém que se com parasse a Frederick Wentworth tal com o este sobrevivia em sua lem brança j am ais havia adentrado o círculo de Kelly nch. Com seu refinam ento de espírito e seu gosto exigente, nenhum outro relacionam ento, único rem édio inteiram ente natural, feliz e suficiente nessa fase de vida, havia sido possível dentro dos estreitos lim ites da sociedade que os rodeava. Por volta dos vinte e dois anos, ela havia recebido um a proposta para m udar de nom e do m esm o rapaz que, pouco depois, encontrou em sua irm ã caçula um a disposição m ais favorável; e Lady Russell havia lam entado sua recusa, pois Charles Musgrove era o prim ogênito de um hom em cuj as terras e influência só perdiam na região para as do próprio Sir Walter, além de ter boa índole e boa aparência. E ainda que Lady Russell pudesse ter pedido m ais quando Anne tinha dezenove anos, teria se regozij ado em vê-la, aos vinte e dois, afastada de form a tão respeitável das desigualdades e inj ustiças da casa paterna e instalada de form a tão perm anente perto de sua própria residência. Nesse caso, porém , Anne não dera ouvidos a conselhos; e em bora Lady Russell, ainda convencida do próprio j uízo, j am ais desej asse reviver o passado, com eçou a nutrir um a ansiedade quase desesperançada de ver Anne se deixar tentar por algum hom em talentoso e independente a adentrar um a condição para a qual a j ulgava particularm ente apta devido a seu tem peram ento afetuoso e a seus hábitos caseiros.
Nenhum a das duas conhecia a opinião da outra, fosse esta constante ou m utável, sobre o principal aspecto da conduta de Anne, pois o assunto nunca era m encionado. No entanto, aos vinte e sete anos, Anne pensava de form a m uito diferente da que fora levada a pensar aos dezenove. Não culpava Lady Russell, nem culpava a si m esm a por ter se deixado guiar por ela; m as sentia que, caso alguém m ais j ovem em situação parecida viesse lhe pedir conselhos, j am ais ouviria dela tam anha certeza de infelicidade im ediata nem tam anha incerteza de felicidade futura. Estava convencida de que, quaisquer que fossem as desvantagens de um a reprovação em casa, e quaisquer as aflições inerentes à profissão dele, todos os prováveis tem ores, dem oras e decepções que tivessem de enfrentar, m esm o assim ela teria sido um a m ulher m ais feliz caso tivesse m antido o noivado do que tinha sido ao sacrificá-lo. E isso, ela acreditava plenam ente, caso o quinhão habitual ou m ais até do que o quinhão habitual de tais preocupações e incertezas tivesse lhes cabido, sem levar em conta os resultados reais que, de fato, teriam lhes proporcionado um a prosperidade m ais precoce do que se poderia ter suposto. Todas as expectativas arrebatadas do rapaz, toda a confiança em si m esm o haviam se j ustificado. Parecia que seu tem peram ento e ardor haviam previsto e direcionado seu cam inho rum o ao sucesso. Pouco depois de rom pido o noivado, ele havia obtido um a nova m issão, e tudo o que dissera a Anne que iria acontecer havia de fato acontecido. Ele havia se destacado e sido prom ovido à patente superior em pouco tem po, e àquela altura, depois de várias capturas, j á devia ter acum ulado um a bela fortuna. Anne dispunha apenas das inform ações fornecidas pelos registros da Marinha e pelos j ornais, m as não tinha dúvidas de que ele agora fosse um hom em rico; adem ais, o que depunha a favor de sua constância, não tinha qualquer m otivo para acreditar que estivesse casado.
Com o Anne Elliot poderia ter sido eloquente! Com o eram eloquentes, pelo m enos, a sua defesa de um relacionam ento precoce e afetuoso e a sua j ovial confiança no futuro, em contraste com a cautela excessivam ente aflita que parece desm erecer a energia e desacreditar a Providência! Forçada a ser prudente quando j ovem , ela havia aprendido a ser rom ântica ao envelhecer: a sucessão natural de um início nada natural.
Com todas essas circunstâncias, lem branças e sentim entos, ela não podia ouvir a notícia de que a irm ã do capitão Wentworth provavelm ente iria se m udar para Kelly nch sem que a antiga dor voltasse à tona; e foram necessários m uitos passeios e m uitos suspiros para neutralizar a agitação que essa notícia provocou. Disse e repetiu para si m esm a que aquilo era um a loucura, antes de conseguir controlar suficientem ente os próprios nervos para suportar sem incôm odo as constantes conversas sobre os Croft e sua vida. Nisso, porém , foi auxiliada pela total indiferença e aparente inconsciência de seus três únicos am igos cientes desse segredo em seu passado, que pareciam quase negar qualquer lem brança dele. Podia com preender a superioridade das m otivações de Lady Russell, em relação às do pai e de Elizabeth, para agir assim ; podia entender todos os sentim entos nobres que m otivavam a calm a dela. De onde quer que viesse, porém , a atm osfera de indiferença generalizada que reinava entre os três era m uito forte, e, caso o alm irante Croft viesse m esm o a alugar Kelly nch Hall, Anne se alegrou novam ente na convicção que sem pre havia lhe proporcionado grande reconforto de que, entre todas as suas relações, o passado só era conhecido por essas três pessoas, e que nenhum a das três, segundo ela acreditava, j am ais iria m encionar qualquer palavra a respeito, e na certeza de que, da parte dele, apenas o irm ão com quem m orava na época havia tido qualquer inform ação sobre o breve noivado entre os dois. Esse irm ão fora m orar longe do cam po havia m uito tem po e, com o ele era um hom em sensato, e além do m ais solteiro na ocasião, ela nutria um a forte confiança de que nenhum ser hum ano havia escutado a história de sua boca.
A irm ã, sra. Croft, m orava fora da Inglaterra, para onde havia acom panhado o m arido em um posto no exterior, e sua própria irm ã, Mary, estava na escola quando tudo havia acontecido, e o orgulho de uns e a delicadeza de outros nunca haviam lhe perm itido obter qualquer inform ação a respeito posteriorm ente.
Com essas garantias, ela esperava que o relacionam ento com os Croft, que ela supunha provável visto que Lady Russell continuaria m orando em Kelly nch e Mary a apenas cinco quilôm etros de distância, não fosse precisar incluir nenhum constrangim ento especial.
CAPÍTULO 5
Na m anhã m arcada para a visita do alm irante Croft e sua esposa a Kelly nch Hall, Anne achou m uito natural sair para seu passeio quase diário à casa de Lady Russell e ficar fora até a visita term inar, quando então achou m uito natural lam entar ter perdido a oportunidade de conhecê-los.
Esse encontro entre as duas partes se revelou altam ente satisfatório, e selou na m esm a hora o acordo. Am bas as senhoras j á estavam predispostas a um acordo e, portanto, não viram nada um a na outra a não ser boas m aneiras. Quanto aos cavalheiros, tam anho foi o bom hum or cordial, tam anha a generosidade franca e confiante por parte do alm irante, que Sir Walter não pôde deixar de ser influenciado; além do m ais, os elogios do sr. Shepherd haviam despertado nele a sua m elhor e m ais cortês disposição ao lhe garantir que o alm irante o conhecia por reputação com o um m odelo de boa estirpe.
A casa, o terreno e os m óveis foram aprovados, os Croft foram aprovados, os term os, os prazos, tudo e todos os envolvidos estavam em seu devido lugar; e os auxiliares do sr. Shepherd se puseram a trabalhar sem que tivesse havido qualquer adendo prelim inar a fazer ao contrato de aluguel.
Sir Walter, sem hesitação, afirm ou que o alm irante era o m em bro da Marinha m ais bem -apessoado que j á havia conhecido, e chegou a dizer que, se o seu próprio lacaio pudesse ter lhe arrum ado os cabelos, não teria vergonha de ser visto em sua com panhia em lugar algum ; o alm irante, por sua vez, com am ável em patia, com entou com a esposa quando os dois estavam atravessando a propriedade para voltar para casa:
– Achei m esm o que fôssem os chegar logo a um acordo, querida, apesar do que nos disseram em Taunton. O baronete não inventou a roda, m as parece inofensivo.
Elogios recíprocos que teriam sido considerados m ais ou m enos equivalentes.
Os Croft se m udariam para a casa no final de setem bro, 30 e, com o Sir Walter sugeriu que a fam ília se transferisse para Bath no decorrer do m ês, não se podia perder tem po com os preparativos necessários.
Convencida de que Anne não receberia perm issão para ter qualquer utilidade ou im portância na escolha da casa em que iriam m orar, Lady Russell se m ostrou pouco disposta a deixar que a levassem em bora tão depressa, e quis tom ar providências para que a j ovem ficasse para trás até ela própria poder levá-la até Bath depois do Natal. No entanto, com o tinha com prom issos que a afastariam de Kelly nch por várias sem anas, não pôde fazer o convite com pleto com o gostaria, e Anne, em bora receosa de enfrentar o possível calor de setem bro sob a claridade ofuscante de Bath, e triste por não poder aproveitar os belos e m elancólicos m eses de outono no cam po, não pensava que, considerando todas as circunstâncias, fosse querer ficar. Seria m ais correto e m ais sensato, e, portanto, m enos sofrido, ir em bora j unto com os outros.
No entanto, um acontecim ento inesperado lhe proporcionou outro dever. Mary, frequentem ente indisposta, sem pre m uito ciosa das próprias reclam ações e constantem ente habituada a recorrer a Anne quando havia algum problem a, não estava se sentindo m uito bem ; prevendo que não teria um dia sequer de boa saúde durante todo o outono, pediu, ou m elhor, exigiu, pois não se tratou realm ente de um pedido, que Anne, em vez de ir para Bath, ficasse em Uppercross Cottage lhe fazendo com panhia pelo tem po que ela j ulgasse necessário.
– Não posso prescindir de Anne – foi o raciocínio de Mary ; e a resposta de Elizabeth foi:
– Então tenho certeza de que é m elhor Anne ficar, pois ninguém vai precisar dela em Bath.
Ser qualificada de útil, ainda que de form a inadequada, pelo m enos é m elhor do que ser rej eitada com o inteiram ente inútil. E Anne, feliz por ter algum a utilidade, feliz pelo fato de lhe incum birem algum tipo de dever, e com certeza nada infeliz pelo fato de isso ocorrer no cam po, e no seu próprio cam po que ela tanto adorava, concordou im ediatam ente em ficar.
Esse convite de Mary anulou todas as dificuldades de Lady Russell, e consequentem ente logo ficou com binado que Anne só iria para Bath quando Lady Russell a levasse, e que todo o período até lá seria dividido entre Uppercross Cottage e Kelly nch Lodge.
Até então, tudo estava na m ais perfeita ordem , m as Lady Russell quase se assustou ao constatar que um a parte do plano traçado em Kelly nch Hall não era nada conveniente quando esta lhe ocorreu, a saber, que a sra. Clay havia se com prom etido a acom panhar Sir Walter e Elizabeth até Bath para servir de im portante e valiosa aj udante a esta últim a em todas as tarefas que tinha pela frente. Lady Russell lam entou im ensam ente o recurso a tal expediente, e foi tom ada por considerações, tristezas e tem ores; e a afronta que isso representava para Anne, pelo fato de a sra. Clay ser tão útil enquanto Anne não tinha utilidade algum a, em m uito agravou a situação.
Anne, por sua vez, j á havia se tornado im une a esse tipo de afronta, m as foi tão sensível à im prudência do arranj o quanto Lady Russell. Graças a m uita observação discreta e a um conhecim ento do tem peram ento do pai que ela m uitas vezes desej ava que fosse m enor, sabia ser m ais do que possível que aquele convívio estreito tivesse sérias consequências para a fam ília. Não im aginava que o pai atualm ente tivesse qualquer pensam ento nesse sentido. A sra. Clay tinha sardas, um dente saltado e o punho desgracioso, características sobre as quais ele vivia com entando quando ela não estava presente; no entanto, era j ovem , e não havia dúvida de que, falando de m aneira geral, fosse um a m ulher de aspecto agradável e possuísse, graças a um raciocínio veloz e a m odos que estavam sem pre tentando agradar, atrativos m uito m ais perigosos do que qualquer outro encanto m eram ente físico. Tão im pressionada ficou Anne com o grau do perigo que esses atrativos representavam que não pôde deixar de tentar torná-los perceptíveis aos olhos da irm ã. Tinha pouca esperança de ser bem -sucedida, m as pensava que Elizabeth, cuj a situação na eventualidade de um a tal reviravolta ficaria m uito pior do que a sua, j am ais deveria ter m otivos para repreendê-la por não ter soado o alerta.
Ela falou, e aparentem ente só fez ofender. Elizabeth foi incapaz de entender com o um a desconfiança tão absurda assim podia lhe ocorrer, e respondeu com indignação afirm ando que cada um dos envolvidos estava perfeitam ente ciente de sua posição.
– A sra. Clay nunca se esquece de quem é – disse ela, arrebatada –, e, com o eu conheço m elhor os sentim entos dela do que você, posso lhe garantir que em relação ao casam ento estes são particularm ente agradáveis, e que ela reprova m ais do que a m aioria das pessoas qualquer desigualdade de condição e prestígio. Quanto a m eu pai, realm ente não acho que ele, depois de ter se m antido solteiro durante tanto tem po por nossa causa, deva ser alvo de suspeita agora. Se a sra. Clay fosse um a m ulher m uito bonita, concordo que talvez fosse errado tê-la com tanta frequência em m inha com panhia; não que houvesse algo no m undo, estou certa, capaz de levar m eu pai a fazer um enlace tão degradante, m as isso poderia deixá-lo infeliz. Mas a pobre sra. Clay, que, apesar de todos os seus m éritos, j am ais pôde ser qualificada nem sequer de aceitavelm ente bonita! Eu realm ente acho que a pobre sra. Clay pode ficar hospedada aqui em perfeita segurança. Até parece que você nunca ouviu m eu pai m encionar os defeitos físicos dela, em bora eu saiba que deve ter ouvido isso um as cinquenta vezes. Aquele dente! Aquelas sardas! Sardas que não m e desagradam tanto quanto a ele. Já vi rostos que não foram consideravelm ente enfeiados por elas, m as ele lhes tem horror. Você j á deve tê-lo ouvido com entar sobre as sardas da sra. Clay.
– Não há quase nenhum defeito físico que não possa ser aos poucos com pensado por um tem peram ento agradável – respondeu Anne.
– Pois eu penso m uito diferente – retrucou Elizabeth, seca. – Um tem peram ento agradável pode até realçar a beleza dos traços, m as j am ais conseguirá disfarçar sua feiura. De toda form a, porém , com o tenho m uito m ais em risco do que qualquer outra pessoa em relação a esse assunto, considero um tanto desnecessário você vir m e dar conselhos.
Anne não tinha m ais nada a dizer; estava satisfeita com o final da conversa, e tinha algum a esperança de ter feito um bem . Em bora se ressentisse daquela suspeita, Elizabeth talvez ficasse m ais atenta graças a ela.
A últim a tarefa dos quatro cavalos da carruagem 31 era conduzir Sir Walter, a srta. Elliot e a sra. Clay até Bath. O grupo partiu m uito anim ado; Sir Walter se preparou ensaiando m esuras condescendentes para saudar qualquer arrendatário ou cam ponês aflito que pudesse ter a ideia de aparecer, ao m esm o tem po em que Anne, dom inada por um a espécie de tranquilidade tristonha, cam inhava até Kelly nch Lodge, onde iria passar a prim eira sem ana.
Encontrou a am iga não m ais bem -disposta do que ela. Lady Russell estava m uito abalada com aquela separação. A respeitabilidade da fam ília lhe era tão cara quanto a sua própria, e o hábito havia tornado precioso seu contato diário. Era doloroso ver a propriedade vazia, e pior ainda im aginar as novas m ãos que logo iriam se apoderar dela. Assim , para fugir da solidão e da m elancolia de um vilarej o tão m udado, e para não atrapalhar a chegada do alm irante Croft e sua esposa, ela havia decidido iniciar sua ausência de casa quando chegasse a hora de transferir Anne. Assim , a m udança das duas se deu ao m esm o tem po, e Anne foi deixada em Uppercross Cottage durante a prim eira etapa da viagem de Lady Russell.
Uppercross era um vilarej o de tam anho m édio que, alguns anos antes, ainda era inteiram ente construído no estilo inglês antigo, contendo apenas duas casas cuj a aparência superava as dos pequenos proprietários rurais e cam poneses: a m ansão do distinto cavalheiro da cidade, com seus m uros altos, portões im ponentes e árvores ancestrais, construção sólida e desprovida de confortos m odernos, e a pequena residência paroquial cercada por seu próprio j ardim bem -arrum ado, com um a videira e um a pereira podadas em volta das j anelas. Na ocasião do casam ento do filho do distinto cavalheiro, porém , o vilarej o havia sido agraciado com um a casa alçada à condição de chalé para a sua residência, e assim Uppercross Cottage, com sua varanda, as j anelas altas e outros m im os, tinha a m esm a probabilidade de atrair a atenção de algum viaj ante quanto o aspecto e o terreno m ais sólidos e consideráveis da Casa Grande, que ficava pouco m enos de m eio quilôm etro adiante.
Anne j á havia se hospedado ali m uitas vezes. Conhecia os hábitos de Uppercross tão bem quanto os de Kelly nch. As duas fam ílias se encontravam com tam anha frequência, e estavam tão acostum adas e entrar e sair da casa um a da outra a qualquer hora, que ela ficou um tanto surpresa ao encontrar Mary sozinha; estando sozinha, porém , era quase certo que estivesse indisposta e desanim ada. Em bora m ais bem -provida do que a irm ã m ais velha, Mary não possuía nem a com preensão nem o tem peram ento de Anne. Quando estava bem , feliz, e recebia as atenções adequadas, tinha um ótim o hum or e um a disposição excelente; m as qualquer m al-estar a derrubava. Mary não dispunha de recursos para ficar sozinha, e, tendo herdado um a porção razoável da vaidade dos Elliot, era m uito propensa a som ar a qualquer outra preocupação a de se considerar negligenciada e m altratada. Fisicam ente, era inferior às duas irm ãs e, m esm o no auge do viço, alcançara som ente a condição de ser considerada “um a m oça vistosa”. Estava agora deitada no sofá desbotado da bonita salinha de estar cuj os m óveis outrora elegantes vinham se tornando cada vez m ais surrados devido ao efeito de quatro verões e duas crianças; e ao ver Anne aparecer, cum prim entou-a dizendo:
– Finalm ente você chegou! Estava com eçando a pensar que nunca iria vê-la. Estou tão doente que m al consigo falar. Passei a m anhã inteira sem ver vivalm a!
– Sinto m uito por encontrá-la indisposta – respondeu Anne. – Você m e m andou notícias tão boas na quinta-feira!
– Sim , fiz o m elhor que pude, é o que sem pre faço, m as estava longe de m e sentir bem na ocasião. E acho que nunca estive tão doente na vida quanto hoj e de m anhã; com certeza não tinha a m enor condição de ser deixada sozinha. Im agine se eu fosse acom etida de repente por algum m al-estar terrível, e não pudesse tocar a sineta! Quer dizer que Lady Russell não quis descer? Acho que ela não esteve aqui nem três vezes no últim o verão.
Anne deu a resposta adequada, e pediu notícias do m arido da irm ã.
– Ah! Charles saiu para caçar. Não o vej o desde as sete da m anhã. Ele fez questão de ir, m esm o eu tendo lhe dito o quanto estava doente. Disse que não iria dem orar m uito, m as ainda não voltou, e j á é quase um a da tarde. Garanto a você que não vi ninguém desde hoj e de m anhã.
– Seus m eninos vieram ficar com você?
– Sim , enquanto pude suportar sua algazarra. Mas eles são tão incontroláveis que m e fazem m ais m al do que bem . O pequeno Charles não dá ouvidos a nada do que eu digo, e Walter está ficando igualzinho.
– Bem , você logo, logo vai m elhorar – retrucou Anne em um tom j ovial. – Sabe que eu sem pre a curo quando venho aqui. Com o vão seus vizinhos da Casa Grande?
– Não sei dizer. Não vi nenhum deles hoj e, com exceção do sr. Musgrove, que passou aqui rapidam ente e falou com igo pela j anela, m as sem apear do cavalo; e em bora eu tenha dito a ele o quanto estava adoentada, nenhum dos vizinhos veio m e visitar. Im agino que não fosse conveniente para as senhoritas Musgrove, e elas nunca saem do cam inho por causa dos outros.
– Talvez eles ainda venham antes de a m anhã term inar. É cedo.
– Não faço a m enor questão, isso eu lhe garanto. Eles falam e riem dem ais para o m eu gosto. Ah, Anne, estou tão indisposta! Foi m uita m aldade sua não vir na quinta-feira.
– Mary, querida, lem bre-se do relato positivo que você m e m andou do seu estado! Você escreveu no tom m ais anim ado possível dizendo que estava passando m uito bem , e que eu não m e apressasse. Sendo assim , devia saber que m eu desej o seria ficar com Lady Russell até o final; além de m eus sentim entos por ela, tenho andado realm ente m uito ocupada e tido m uito o que fazer, tanto que não teria sido possível ir em bora de Kelly nch m ais cedo.
– Meu Deus! O que é que você pode ter para fazer?
– Muitas coisas, eu lhe garanto. Mais do que sou capaz de m e lem brar em poucos segundos, m as posso lhe citar algum as. Estou fazendo um a cópia do catálogo dos livros e quadros do m eu pai. Fui várias vezes ao j ardim com Mackenzie para tentar entender e fazê-lo entender quais plantas de Elizabeth são para Lady Russell. Tenho todas as m inhas pequenas preocupações para resolver, livros e partituras para separar, e todos os m eus baús para arrum ar novam ente, pois não tinha entendido a tem po qual seria o arranj o para o transporte. E tive de fazer um a coisa, Mary, de natureza m ais difícil: visitar quase todas as casas da paróquia para um a espécie de despedida. Fiquei sabendo que as pessoas assim o desej avam . Mas tudo isso ocupou m uito tem po.
– Ah, que sej a… – após alguns instantes de pausa, ela tornou a falar. – Mas você não m e perguntou nada sobre nosso j antar na casa dos Poole ontem .
– Então você foi? Não perguntei porque im aginei que você tivesse sido obrigada a desistir do j antar.
– Ah, sim ! Eu fui. Estava m e sentindo m uito bem ontem ; não havia nada de errado com igo até hoj e de m anhã. Teria sido estranho se eu não houvesse ido.
– Fico m uito satisfeita por você ter estado bem ontem , e espero que o j antar tenha sido agradável.
– Nada digno de nota. É sem pre possível saber de antem ão com o vai ser um j antar, e quem vai estar presente; e com o é desagradável não ter a própria carruagem . O sr. e a sra. Musgrove m e levaram , e ficam os tão apertados! Os dois são m uito grandes e ocupam m uito espaço, e o sr. Musgrove sem pre se senta na frente. De m odo que lá fui eu, im prensada no banco de trás com Henrietta e Louisa, e acho bem provável que isso explique a m inha doença hoj e.
Um pouco m ais de perseverança de Anne para se m ostrar paciente e anim ada operou quase um a cura em Mary. Ela logo conseguiu se sentar ereta no sofá e com eçou a ter esperanças de poder se levantar quando chegasse a hora do j antar. Então, esquecendo-se do assunto, foi até o outro lado da sala aj eitar um arranj o
de flores, depois com eu sua porção de frios,32 e por fim sentiu-se disposta o suficiente para sugerir um pequeno passeio.
– Aonde deveríam os ir? – indagou ela quando ficaram prontas. – Im agino que você não vá querer aparecer na Casa Grande antes de eles virem visitá-la.
– Não tenho a m enor obj eção quanto a isso – respondeu Anne. – Jam ais faria tanta cerim ônia com pessoas que conheço tão bem quanto a sra. e as srtas. Musgrove.
– Ah! Mas elas deveriam vir visitar você assim que possível. Deveriam sentir o que lhe é devido na condição de minha irm ã. Mas nós podem os ir passar algum tem po em sua com panhia, e depois disso podem os aproveitar nosso passeio.
Anne sem pre havia considerado im prudente esse estilo de se relacionar com os outros; no entanto, havia parado de tentar im pedir tal coisa, pois acreditava que, em bora houvesse constantem ente m otivos para se sentir ofendido de parte a parte, nenhum a das duas fam ílias era capaz de prescindir daquele vínculo.
Assim , foram as duas à Casa Grande, e ali passaram toda a m eia hora33 sentadas no antiquado salão quadrado dotado de um pequeno tapete e de um piso reluzente, ao qual as atuais filhas da casa iam aos poucos im prim indo o adequado ar de confusão com o acréscim o de um piano de cauda e de um a harpa, de vasos de flores em suportes altos, e de m esinhas espalhadas por toda parte. Ah! Se os m odelos originais dos retratos pendurados nas paredes revestidas de m adeira, se aqueles senhores traj ando veludo m arrom e aquelas senhoras de cetim azul tivessem visto o que acontecia, se tivessem tom ado conhecim ento de tam anho desrespeito a qualquer ordem e arrum ação! Os próprios retratos pareciam fitar a cena com um ar de espanto.
Assim com o as suas casas, a fam ília Musgrove estava atravessando um a fase de m udanças, e talvez de m elhoria. O pai e a m ãe seguiam o estilo inglês tradicional, e os j ovens o estilo m oderno. O sr. e a sra. Musgrove eram pessoas m uito boas; sim páticas e hospitaleiras, não m uito cultas, e nada elegantes. Os filhos tinham m entes e m odos m ais m odernos. Eram um a fam ília num erosa, m as os dois únicos filhos crescidos, com exceção de Charles, eram Henrietta e Louisa, duas m oças de dezenove e vinte anos que haviam trazido de um a escola em Exeter toda a gam a habitual de habilidades e agora, assim com o m ilhares de outras j ovens, viviam para andar vestidas na m oda e para serem felizes e alegres. Suas roupas eram da m elhor qualidade, seus rostos bastante bonitos, sua disposição extrem am ente boa, seus m odos francos e agradáveis; elas gozavam de prestígio em casa e de grande estim a fora dela. Anne sem pre as via com o duas das pessoas m ais felizes dentre todos os seus conhecidos; apesar disso, era salva por um a confortável sensação de superioridade do desej o de um a eventual m udança, com o som os todos, e não teria trocado sua m ente m ais culta e elegante por todas as diversões das irm ãs Musgrove, e não lhes invej ava nada a não ser seu relacionam ento aparentem ente excelente e o fato de se darem tão bem , aquele bem -hum orado afeto m útuo que ela própria havia tido tão pouco na com panhia de qualquer um a das irm ãs.
As duas foram recebidas com grande cordialidade. Não parecia haver nada de errado por parte da fam ília da Casa Grande, que em geral, com o Anne bem sabia, era a m enos culpada das duas. A m eia hora transcorreu de form a bastante agradável em conversas leves, e ela não ficou nem um pouco surpresa no final quando, após um convite direto de Mary, as irm ãs Musgrove resolveram se j untar ao seu passeio.
CAPÍTULO 6
Anne não precisava daquela visita a Uppercross para saber que a m udança de um grupo de pessoas para outro, ainda que os dois estej am separados por apenas cinco quilôm etros, m uitas vezes significa um a m udança total de conversa, opiniões e ideias. Ela nunca tinha se hospedado ali antes sem se im pressionar com esse fato ou sem desej ar que outros m em bros da fam ília Elliot pudessem ter, com o ela, o privilégio de constatar o quão desconhecidas ou pouco im portantes eram ali questões que em Kelly nch Hall eram tratadas com o de notório saber e interesse generalizado. No entanto, m esm o com toda essa experiência, achava que agora tinha de se conform ar com o fato de que um a outra lição havia se tornado necessária para ela na arte de com preender nossa própria insignificância fora de nosso círculo de origem ; pois sem dúvida, ao ali chegar com o havia chegado, com o coração totalm ente tom ado pelos assuntos que durante m uitas sem anas haviam ocupado de form a tão com pleta as duas casas em Kelly nch, ela esperava um pouco m ais de curiosidade e em patia do que encontrou nos com entários distintos m as m uito parecidos do sr. e da sra. Musgrove: “Quer dizer então, srta. Anne, que Sir Walter e sua irm ã j á viaj aram ? E que parte de Bath acha que eles vão escolher para m orar?”, e isso sem nem ao m enos esperar um a resposta; ou ainda na contribuição das duas m oças ao dizer: “Espero que nós possam os ir a Bath no inverno. Mas lem bre-se, papai, se form os,
tem os de ficar em um lugar bom ; nada daqueles seus Queen Squares!”, 34 ou então no aflito adendo de Mary : “Ora, eu com certeza ficarei contente quando vocês todos tiverem ido se divertir em Bath!”
Tudo que Anne pôde fazer foi tom ar a decisão de, no futuro, evitar enganar a si m esm a dessa form a, e pensar com um a gratidão redobrada na bênção extraordinária de ter um a am iga que lhe dem onstrasse real em patia com o Lady Russell.
Os senhores da fam ília Musgrove tinham seus próprios anim ais de caça para m anter e m atar, seus próprios cavalos, cães e j ornais para distraí-los, enquanto as senhoras se m antinham totalm ente ocupadas com todos os outros tem as habituais: cuidados com a casa, vizinhos, vestidos, danças e m úsica. Ela reconhecia que tudo isso era m uito adequado, que qualquer pequena com unidade social devia escolher os assuntos de suas próprias conversas, e esperava em breve poder se tornar um m em bro digno de algum apreço naquela com unidade para a qual agora havia sido transferida. Diante da possibilidade de passar pelo m enos dois m eses em Uppercross, era m uito im portante para ela m oldar o quanto possível sua im aginação, sua lem brança e todas as suas ideias ao estilo de Uppercross.
Anne não sentia qualquer tem or em relação a esses dois m eses. Mary não era tão detestável nem era um a irm ã tão desnaturada quanto Elizabeth, e tam pouco tão inacessível a qualquer influência sua; tam bém não havia nos outros m oradores do chalé qualquer coisa que pudesse prej udicar seu conforto. Ela sem pre havia se dado bem com o cunhado, e os sobrinhos, que a am avam quase tanto e a respeitavam bem m ais do que a própria m ãe, lhe proporcionavam interesse, diversão e exercício salutar.
Charles Musgrove era educado e agradável; sua sensatez e seu tem peram ento eram sem dúvida superiores aos da m ulher, m as ele não possuía faculdades intelectuais, conversa ou graça que tornasse o passado e a ligação que tinham tido um a contem plação perigosa; em bora ao m esm o tem po Anne achasse, assim com o Lady Russell, que um enlace m ais equilibrado poderia tê-lo feito m elhorar m uito, e que um a m ulher verdadeiram ente com preensiva poderia ter dado m ais solidez a seu caráter e m ais utilidade, racionalidade e elegância a seus hábitos e ocupações. Na atual situação, ele nada fazia com m uito zelo a não ser caçar; tirando isso, seu tem po era desperdiçado sem o benefício da leitura ou de qualquer outra coisa. Charles tinha um a ótim a disposição que nunca parecia afetada pelos desânim os ocasionais da esposa, cuj a irracionalidade ele às vezes suportava a ponto de causar adm iração em Anne, e de m odo geral, em bora com frequência houvesse pequenas desavenças (das quais ela às vezes participava m ais do que desej ava, solicitada por am bas as partes), os dois podiam passar por um casal feliz. Estavam sem pre em perfeita sintonia quanto ao fato de querer m ais dinheiro e a um a forte inclinação para receber qualquer belo presente do pai dele; nisso, porém , bem com o na m aior parte dos tem as, Charles se m ostrava superior, pois enquanto Mary considerava um a grande vergonha o presente não ser dado, ele por sua vez sem pre opinava que o pai tinha m uitos outros usos para o próprio dinheiro, e o direito de gastá-lo com o bem entendesse.
Quanto à adm inistração dos filhos, a teoria de Charles era m uito m elhor do que a da m ulher, e a sua prática não era tão ruim . “Eu poderia adm inistrá-los m uito bem não fosse a interferência de Mary ”, era o que Anne sem pre o escutava dizer, e nisso depositava m uita fé; porém , quando escutava Mary reclam ar por sua vez que “Charles m im a tanto as crianças que eu depois não consigo fazê-las respeitar nada”, nunca tinha a m enor tentação de dizer: “Tem razão.”
Um dos aspectos m enos agradáveis de sua estada em Uppercross era que am bas as partes lhe faziam confidências em dem asia, e ela partilhava de form a excessiva o segredo das reclam ações de cada casa. Com o se sabia que gozava de algum a influência j unto à irm ã, ela era continuam ente solicitada a exercê-la além dos lim ites do praticável, ou pelo m enos ouvia insinuações nesse sentido. “Gostaria que você conseguisse persuadir Mary a parar de ficar achando que está doente”, era o discurso de Charles; e, quando tom ada por um a disposição m elancólica, assim falava Mary : “Acho que, m esm o se Charles m e visse m orrer, não pensaria que há nada de errado com igo. Anne, tenho certeza de que, se você quisesse, poderia persuadi-lo de que estou de fato m uito doente… m uito m ais do que j am ais irei confessar.”
“Detesto m andar as crianças para a Casa Grande, em bora a avó viva querendo vê-las, pois ela os adula e m im a a tal ponto, lhes dá tantas bobagens e tantos doces para com er, que eles sem pre voltam enj oados e contrariados pelo resto do dia”, dizia Mary. E a sra. Musgrove aproveitava a prim eira oportunidade que tinha de ficar sozinha com Anne para dizer: “Ah, srta. Anne! É im possível não desej ar que a sra. Charles tivesse um pouco dos seus m étodos com essas crianças. Com a senhorita eles são criaturas bem diferentes! De m odo geral, porém , não há dúvida de que são m uito m im ados! Que pena a senhorita não poder persuadir sua irm ã a adm inistrar m elhor esses m eninos. Pobrezinhos, são as crianças m ais bonitas e saudáveis que j á se viu, não há dúvida, m as a sra. Charles não sabe m ais com o devem ser tratadas…! Que Deus m e perdoe, com o elas são indóceis às vezes! Eu lhe garanto, srta. Anne, que isso im pede que eu queira vê-las em nossa casa com a m esm a frequência que poderia querer. Acredito que a sra. Charles não estej a m uito contente com o fato de eu não as convidar com m ais frequência, m as a senhorita sabe que é m uito ruim ter crianças que é preciso ficar controlando a cada instante: ‘não faça isso’ e ‘não faça aquilo’, ou então que só se consegue m anter sob um controle tolerável dando-lhes m ais bolo do que é bom para a sua saúde.”
Além disso, ela recebia a seguinte com unicação de Mary : “A sra. Musgrove considera todos os seus criados tão confiáveis que questionar esse fato seria um a alta traição; tenho certeza, porém , sem qualquer exagero, que a criada de quarto principal e a lavadeira, em vez de cuidarem dos seus afazeres, passam o dia inteiro sassaricando pelo vilarej o. Eu as encontro aonde quer que vá; e posso afirm ar que nunca entro duas vezes na ala de m inha casa reservada aos m eninos sem cruzar com elas. Se Jem im a não fosse a criatura m ais confiável, m ais leal do m undo, isso bastaria para estragá-la, pois ela m e diz que as duas a vivem tentando a ir passear tam bém .” E da sra. Musgrove ela escutava: “Para m im é um a lei, srta. Anne, não interferir em qualquer assunto de m inha nora, pois sei que não seria próprio, m as à senhorita eu posso contar, porque a senhorita talvez consiga endireitar as coisas, que não tenho a babá da sra. Charles em m uito alta conta: ouço histórias estranhas a seu respeito, ela vive por aí sassaricando, e posso declarar, por conhecim ento próprio, que é um a m oça tão bem -apanhada que basta para estragar qualquer em pregado de quem se aproxim e. Sei que a sra. Charles confia piam ente nela, m as estou lhe dando apenas um a pista, para a senhorita ficar atenta; assim , caso vir algo fora do lugar, não precisará ter m edo de m encioná-lo.”
Havia ainda o protesto de Mary de que a sra. Musgrove tinha grande inclinação a não lhe conceder a prim azia que lhe era devida quando iam todos j antar na Casa Grande com outras fam ílias, e ela não via m otivo algum para que a consideração dos seus chegasse ao ponto de fazê-la perder sua posição social. E certo dia, quando Anne estava passeando acom panhada apenas das duas irm ãs Musgrove, um a das j ovens, depois de falar sobre posição social, pessoas de boa posição social e invej a da posição social alheia, disse:
– Não tenho escrúpulos em com entar com a senhorita com o algum as pessoas se com portam de m aneira insensata em relação à própria procedência, pois o m undo inteiro sabe o quão descontraída e indiferente a senhorita se m ostra a esse respeito, m as gostaria que alguém sugerisse a Mary que seria bem m elhor se ela não se m ostrasse tão tenaz, e sobretudo se não ficasse o tem po todo se adiantando para tom ar o lugar de m am ãe. Ninguém duvida de seu direito de ter prim azia sobre m am ãe, m as seria m ais digno de sua parte não insistir tanto nisso. Não que m am ãe ligue a m ínim a para esse assunto, m as sei que m uitas pessoas j á perceberam .
Com o Anne poderia resolver todas essas questões? Tudo que podia fazer era escutar com paciência, abrandar a insatisfação de cada um e desculpar uns com os outros, fazer a eles todas as sugestões da indulgência necessária entre vizinhos tão próxim os, e tornar essas sugestões m ais am plas quando se destinassem aos ouvidos da irm ã.
Sob todos os outros aspectos, a estada com eçou e correu m uito bem . Sua disposição m elhorou com a m udança de ares e assuntos, e com o fato de estar cinco quilôm etros afastada de Kelly nch; a indisposição de Mary dim inuiu por ter um a com panhia constante, e o convívio diário das irm ãs com a outra fam ília, um a vez que não havia no chalé nenhum afeto, confidência ou ocupação im portante o suficiente para ser por ele interrom pido, era na verdade um a vantagem . Certam ente esse convívio era intensificado ao m áxim o, pois as duas fam ílias se encontravam todas as m anhãs e praticam ente não passavam nenhum a noite separadas, m as Anne acreditava que ela e a irm ã não teriam passado tão bem sem a visão das silhuetas respeitáveis do sr. e sra. Musgrove em seus lugares habituais ou sem as conversas, os risos e as cantorias de suas filhas.
Anne tocava piano m uito m elhor do que am bas as irm ãs Musgrove, m as com o não tinha voz, nem intim idade com a harpa, nem pais carinhosos para ficarem sentados a seu lado dizendo-se encantados, ninguém ligava m uito para suas apresentações m ais do que por civilidade ou enquanto as outras duas descansavam , e ela estava consciente disso. Sabia que, ao tocar, estava proporcionando prazer apenas a si m esm a, m as essa não era um a sensação nova. Com exceção de um curto período em sua vida, ela nunca, desde os catorze anos, desde a perda de sua querida m ãe, havia experim entado a felicidade de ter alguém a escutá-la ou de ser encoraj ada por um a apreciação j usta ou verdadeiro bom gosto. Em m atéria de m úsica, estava habituada desde sem pre a se sentir sozinha no m undo, e a terna parcialidade do sr. e da sra. Musgrove em relação à apresentação das próprias filhas, bem com o sua total indiferença à de qualquer outra pessoa, causava-lhe m uito m ais prazer por eles do que tristeza por si própria.