Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 11/12

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Elizabeth passou um curto tem po sofrendo bastante. Sentia que a sra. Musgrove e todo o seu grupo deveriam ser convidados para j antar com eles; m as não podia suportar que pessoas que sem pre haviam sido tão inferiores aos Elliot de Kelly nch testem unhassem a diferença de estilo e a redução do núm ero de criados que um tal j antar tornaria aparente. Era um com bate entre a convenção social e a vaidade; a vaidade, porém , levou a m elhor, e Elizabeth então ficou feliz de novo. Eis com o ela persuadiu a si m esm a: “São ideias antiquadas; um a hospitalidade assim é coisa de zona rural; nós não nos propom os a dar j antares; poucas pessoas em Bath o fazem ; Lady Alicia nunca o faz; ela nem sequer convidou a fam ília da própria irm ã, em bora esta houvesse passado um m ês na cidade; além do m ais, atrevo-m e a pensar que um j antar assim seria m uito inconveniente para a sra. Musgrove; que lhe causaria diversos transtornos. Tenho certeza de que ela preferiria não vir; não é possível que se sinta à vontade conosco. Vou convidá-los todos para um a noite aqui; isso vai ser bem m elhor; vai ser um a novidade e um prazer. Eles nunca viram dois salões com o estes na vida. Ficarão encantados em vir am anhã à noite. Será um a reunião norm al, pequena, m as m uito elegante.” Isso satisfez Elizabeth; e, um a vez o convite feito aos dois presentes, e a prom essa de convite feita aos ausentes, Mary tam bém se m ostrou inteiram ente satisfeita. Ela foi convidada especificam ente para conhecer o sr. Elliot e para ser apresentada a Lady Dalry m ple e à srta. Carteret, que felizm ente j á haviam se com prom etido com a visita; e não poderia ter recebido um a atenção m ais gratificante. A srta. Elliot teria a honra de convidar a sra. Musgrove no decorrer da m anhã; e Anne, acom panhada por Charles e Mary, saiu na m esm a hora para ir fazer um a visita a ela e Henrietta.

Seus planos de conversar com Lady Russell tiveram de ser abandonados por ora. Todos os três fizeram um a parada de alguns m inutos em Rivers Street; m as Anne se convenceu de que um dia de atraso na com unicação pretendida não teria im portância, e apressou-se em seguir para o White Hart, onde veria novam ente os am igos e com panheiros do outono anterior, com a im paciência e a disposição que suas m uitas lem branças contribuíam para gerar.

Encontraram a sra. Musgrove e a filha em casa, sozinhas, e Anne recebeu de am bas as m ais calorosas boas-vindas. A m elhora das perspectivas futuras de Henrietta e sua felicidade recente a haviam deixado cheia de atenção e interesse por todos aqueles de quem previam ente gostava; e o afeto verdadeiro da sra. Musgrove tinha sido conquistado pela utilidade de Anne em um a situação difícil. Sua cordialidade, seu calor e sua sinceridade a deleitavam ainda m ais pelo fato de lhe faltarem tais bênçãos em casa. Ela foi instada a lhes dedicar o m áxim o de tem po que pudesse, foi convidada a passar todos os dias e os dias inteiros com eles, ou m elhor, foi solicitada com o se fizesse parte da fam ília; em troca, entregou-se naturalm ente ao seu com portam ento habitual atencioso e prestativo e, quando Charles as deixou sozinhas, passou a escutar o relato da sra. Musgrove sobre Louisa e o de Henrietta sobre si m esm a, e a dar opiniões sobre com pras e fazer recom endações de loj as; nos intervalos, aj udava Mary com todas as suas necessidades, que iam de aj eitar um a fita a fazer um a conta, de encontrar as próprias chaves e arrum ar seus badulaques a tentar persuadi-la de que não estava sendo m altratada por ninguém ; pois Mary, em bora tenha passado a m aior parte do tem po entretida j unto a um a j anela com vista para a entrada do Pum p

Room , 92 não pôde evitar alguns instantes de dúvida.

Era de se esperar que a m anhã fosse atribulada. Um grupo grande hospedado em um hotel era garantia de um a situação sem pre cam biante e instável. A cada cinco m inutos surgia algum recado, em seguida um em brulho; e depois de apenas m eia hora de visita pareceu a Anne que a sala de j antar, por m ais espaçosa que fosse, estava preenchida quase até a m etade; um grupo de velhas am igas estava sentado ao redor da sra. Musgrove, e Charles voltou acom panhado pelos capitães Harville e Wentworth. A surpresa que a aparição deste últim o causou em Anne foi apenas passageira. Era im possível para ela ter deixado de pensar que a chegada de seus am igos em com um logo os faria ter um novo encontro. O últim o fora m uito im portante para revelar os sentim entos dele: Anne havia tirado desse encontro um a deliciosa convicção; no entanto, a j ulgar por sua expressão, tem ia que a m esm a desafortunada im pressão que o fizera ir em bora da sala de concerto ainda o dom inasse. Ele não parecia querer ficar suficientem ente próxim o dela para que os dois pudessem conversar.

Ela tentou perm anecer calm a e deixar as coisas seguirem seu curso, e tentou refletir bastante sobre o seguinte argum ento racional: “Com certeza, se houver um afeto constante de am bas as partes, nossos corações irão se entender dentro em pouco. Não som os m ais tão j ovens a ponto de nos deixar irritar por um a bobagem , enganar pelos acasos de qualquer instante e a ponto de brincar descuidadam ente com nossa própria felicidade.” Apesar disso, alguns m inutos depois, sentiu que o fato de estarem j untos dessa form a, nas atuais circunstâncias, só os poderia estar expondo a acasos e equívocos do tipo m ais nefasto.

– Anne – exclam ou Mary, ainda à j anela –, ali está a sra. Clay, tenho certeza, em pé debaixo da colunata acom panhada de um cavalheiro! Eu a vi dobrar a esquina de Bath Street há poucos instantes. Os dois parecem m uito entretidos. Quem é ele? Venha cá m e dizer. Meu Deus! Agora m e lem bro. É o sr. Elliot em pessoa.

– Não – Anne se apressou em dizer –, não pode ser o sr. Elliot, isso eu lhe garanto. Ele estava de partida de Bath hoj e às nove da m anhã, e só volta am anhã.

Enquanto falava, ela sentiu que o capitão Wentworth a estava olhando, e essa consciência a deixou irritada e constrangida, e a fez se arrepender de ter dito o que dissera, por m ais sim ples que fosse.

Mary, ofendida por pensarem que não sabia reconhecer o próprio prim o, com eçou a discorrer acaloradam ente sobre os traços da fam ília, e a afirm ar com um a convicção ainda m aior que era, sim , o sr. Elliot, cham ando Anne para ir ver com os próprios olhos, m as Anne não saiu de onde estava, e tentou aparentar calm a e indiferença. Sua aflição, no entanto, retornou ao reparar em sorrisos e olhares sugestivos entre duas ou três das senhoras presentes, com o se elas se considerassem a par de um segredo. Era evidente que o relato a seu respeito havia se espalhado, e a curta pausa que se sucedeu pareceu garantir que iria se espalhar ainda m ais.

– Venha, Anne, por favor, venha ver você m esm a! – exclam ou Mary. – Se não se apressar, vai chegar tarde dem ais. Eles estão se separando; estão apertando as m ãos. Ele está se virando para ir em bora. Não reconhecer o sr. Elliot, im agine só! Você parece ter se esquecido de tudo o que aconteceu em Ly m e.

Para tranquilizar Mary, e talvez para disfarçar o próprio constrangim ento, Anne avançou calada até a j anela. Chegou bem a tem po de confirm ar que era de fato o sr. Elliot, coisa em que não havia acreditado até então, antes de ele desaparecer para um dos lados da rua enquanto a sra. Clay se afastava rapidam ente para o outro; então, m ascarando a surpresa que lhe foi im possível não sentir ao testem unhar um a conversa aparentem ente tão am igável entre duas pessoas de interesses totalm ente opostos, disse com calm a:

– Sim , é m esm o o sr. Elliot, não há dúvida. Im agino que tenha m udado a hora da partida, só isso, ou talvez eu estej a enganada, talvez não tenha escutado bem – dito isso, andou de volta até a cadeira, j á recom posta, e torcendo para ter conseguido se sair bem da situação.

As visitas se despediram de sua am iga; e Charles, depois de acom panhá-las educadam ente até a porta e em seguida lhes fazer um a careta, zom bando delas por terem aparecido, com eçou dizendo:

– Bem , m ãe, eu fiz um a coisa pela senhora de que vai gostar. Fui ao teatro e reservei um cam arote para am anhã à noite. Não sou um bom m enino? Sei que a senhora adora peças; e há lugar no cam arote para nós todos. Nele cabem nove pessoas. Já convidei o capitão Wentworth. Tenho certeza de que Anne terá prazer em nos acom panhar. Nós todos gostam os de um a peça. Não fiz bem , m ãe?

A sra. Musgrove estava com eçando a expressar com m uito bom hum or sua plena vontade de assistir à peça, caso Henrietta e os outros assim quisessem , quando Mary a interrom peu ansiosam ente dizendo:

– Meu Deus! Charles, com o você pôde ter um a ideia dessas? Reservar um cam arote para am anhã à noite! Esqueceu-se de que am anhã à noite tem os com prom isso em Cam den Place, e de que fom os especificam ente convidados para conhecer Lady Dalry m ple e sua filha, além do sr. Elliot, ou sej a, todas as nossas relações fam iliares m ais im portantes, de propósito para encontrá-los? Com o pode ser tão esquecido?

– Ora! Ora! – retrucou Charles. – Que im portância tem um a reunião noturna? Nem vale a pena se lem brar disso. Se o seu pai quisesse nos ver, poderia ter nos convidado para j antar, penso eu. Você pode fazer com o preferir, m as eu vou ao teatro.

– Ah, Charles! Vai ser abom inável se fizer isso depois de ter prom etido ir a Cam den Place.

– Não, eu não prom eti. Apenas dei um sorriso am arelo e fiz um a m esura, e pronunciei as palavras “Muito gosto”. Não houve prom essa nenhum a.

– Mas, Charles, você tem de ir. Seria im perdoável se não fosse. Fom os convidados de propósito para serm os apresentados. Sem pre houve um a forte conexão entre a fam ília Dalry m ple e a nossa. Nada j am ais aconteceu com qualquer das duas que não fosse anunciado de im ediato. Nós som os parentes bem próxim os, sabe? E o sr. Elliot tam bém , que você deveria encontrar especialm ente! Devem os toda nossa atenção ao sr. Elliot. Pense só, o herdeiro de m eu pai: o futuro representante da fam ília.

– Não venha m e falar em herdeiros e representantes – exclam ou Charles. – Eu não sou daqueles que desdenham o poder em exercício para se prostrar diante do sol nascente. Se eu não com parecesse por respeito ao seu pai, consideraria um escândalo com parecer por respeito ao seu herdeiro. Quem é o sr. Elliot para m im ?

Essa pergunta descuidada despertou a m ais viva atenção de Anne, e ela viu que o capitão Wentworth tam bém era todo ouvidos, e olhava e escutava com toda a sua alm a; viu tam bém que as últim as palavras fizeram os olhos dele se virarem de Charles para ela com um a expressão intrigada.

Charles e Mary seguiram conversando no m esm o tom ; ele, m eio sério e m eio brincando, sustentando os planos para o teatro, e ela, sem pre m uito séria, discordando com veem ência, e sem deixar de afirm ar que, por m ais determ inada que estivesse a ir a Cam den Place, sentir-se-ia deveras m altratada caso eles fossem ao teatro sem ela. A sra. Musgrove interveio.

– É m elhor adiarm os o teatro. Charles, seria m elhor se você m udasse o cam arote para terça. Seria um a pena nos dividirm os, e estaríam os perdendo a srta. Anne tam bém , caso haj a um a reunião na casa do pai dela; e estou certa de que nem eu nem Henrietta iríam os ligar a m ínim a para a peça caso a srta. Anne não estivesse conosco.

Anne se sentiu de fato agradecida a ela por tam anha gentileza, e tam bém pela oportunidade que esta lhe proporcionou de dizer:

– Se dependesse apenas de m inha vontade, senhora, a reunião em m inha casa não representaria o m enor em pecilho (exceto no que diz respeito a Mary ). Não gosto desse tipo de reunião, e a trocaria de bom grado por um a peça de teatro, ainda m ais na sua com panhia. Mas talvez sej a m elhor não tentar fazer isso – ela havia term inado de falar, m as trem ia ao chegar ao fim da frase, consciente de que suas palavras estavam sendo escutadas, e não se atrevendo a tentar observar seu efeito.

Todos logo concordaram que o m elhor seria na terça-feira; e Charles apenas se reservou o direito de provocar a esposa insistindo que iria ao teatro no dia seguinte, ainda que ninguém m ais fosse.

O capitão Wentworth se levantou da cadeira e andou até a lareira, provavelm ente para poder dela se afastar logo em seguida e ir se acom odar, sem que isso parecesse tão óbvio, ao lado de Anne.

– A senhorita não está em Bath há tem po suficiente para ter aprendido a apreciar os eventos noturnos da cidade – disse ele.

– Ah, não! Esse tipo de evento não m e atrai. Não gosto de j ogar cartas.

– A senhorita era assim antes, eu sei. Não costum ava gostar de cartas; m as o tem po opera m uitas m udanças.

– Eu não m udei tanto assim – exclam ou Anne, e parou de falar, tem endo algum m al-entendido que nem sequer sabia qual era. Depois de aguardar alguns instantes, e com o se isso fosse o resultado de um sentim ento atual, ele disse:

– Um intervalo e tanto, de fato! Oito anos e m eio é um intervalo e tanto!

Coube à im aginação de Anne refletir, em um a ocasião m ais calm a, se ele teria ido m ais longe; pois, quando ainda não havia acabado de escutar as palavras por ele pronunciadas, foi solicitada em relação a outros assuntos por Henrietta, ansiosa para aproveitar o tem po livre de que agora dispunham e sair, e insistindo com os com panheiros para que não perdessem tem po, caso algum a outra pessoa aparecesse.

Eles foram obrigados a sair. Anne disse que estava totalm ente pronta, e tentou aparentar esse estado; m as sentiu que, se Henrietta conhecesse o pesar e a relutância de seu coração em deixar aquela cadeira, em se preparar para sair da sala, teria encontrado ali, com o afeto que nutria pelo prim o e com a segurança do afeto recíproco dele, um m otivo para ter pena dela.

Mas seus preparativos foram interrom pidos. Barulhos alarm antes se fizeram ouvir; outros visitantes se aproxim aram , e a porta foi aberta de supetão para Sir Walter e a srta. Elliot, cuj a entrada pareceu fazer um frio recair sobre a sala. Anne sentiu um a opressão instantânea, e para onde quer que olhasse via sintom as da m esm a sensação. O conforto, a liberdade, a alegria do recinto haviam evaporado e se transform ado em form alidade fria, silêncio decidido ou conversas insípidas, tudo para condizer com a elegância desalm ada de seu pai e de sua irm ã. Que hum ilhação constatar isso!

Seu olhar cium ento encontrou pelo m enos um m otivo de satisfação. O capitão Wentworth foi novam ente cum prim entado por am bos, e por Elizabeth de m aneira m ais graciosa do que antes. Ela chegou até a lhe dirigir a palavra um a vez, e a olhar para ele em m ais de um a ocasião. Na verdade, Elizabeth estava preparando um a grande cartada. Os acontecim entos seguintes explicaram tudo. Um a vez desperdiçados alguns m inutos com as insignificâncias de praxe, ela com eçou a fazer o convite que iria solicitar toda a obrigação rem anescente dos Musgrove.

– Am anhã à noite, para encontrar alguns am igos; não é um a ocasião form al – tudo foi dito de form a m uito graciosa, e os cartões de visita que ela havia trazido consigo, nos quais se podia ler “A srta. Elliot recebe”, foram postos sobre a m esa com um sorriso cortês e geral dirigido a todos os presentes, e um sorriso e um cartão m ais decididam ente dirigidos ao capitão Wentworth. A verdade era que Elizabeth j á havia passado tem po suficiente em Bath para entender a im portância de um hom em com sua atitude e aparência. O passado nada significava. O presente significava que o capitão Wentworth iria enfeitar m uito bem o seu salão. O cartão foi entregue com um gesto deliberado, e Sir Walter e Elizabeth se levantaram e foram em bora.

A interrupção, em bora significativa, havia sido breve, e a descontração e anim ação tornaram a tom ar conta da m aioria dos presentes um a vez fechada a porta, m as não de Anne. Ela só conseguia pensar no convite que havia presenciado com tam anho assom bro, e na form a com o este fora recebido; um a atitude de significado dúbio, m ais surpresa do que satisfeita, de reconhecim ento educado m ais do que propriam ente aceitação. Ela o conhecia: viu desprezo nos olhos dele, e não se atreveu a pensar que ele estivesse decidido a aceitar o convite para se redim ir de toda a insolência do passado. Seu ânim o m urchou. Ele continuou segurando o cartão na m ão depois de seu pai e sua irm ã saírem , com o quem reflete cuidadosam ente sobre o assunto.

– Vej am só, Elizabeth está convidando todo m undo! – sussurrou Mary de form a bem audível. – Só posso im aginar a satisfação do capitão Wentworth! Vej am , ele não consegue nem sequer largar o cartão.

Anne cruzou olhares com ele, viu suas faces corarem e sua boca form ar um a expressão passageira de desprezo, e virou-lhe as costas para não ver nem ouvir m ais nada que pudesse contrariá-la.

O grupo se separou. Os cavalheiros tinham os próprios com prom issos, as senhoras, os seus, e os dois não tornaram a se encontrar enquanto Anne perm aneceu com elas. Ela foi convidada com insistência para voltar e j antar em sua com panhia, para lhes dedicar o restante do dia, m as sua disposição tinha sido posta à prova durante tanto tem po que ela não se sentia m ais capaz de nada, e tudo que podia fazer era voltar para casa, onde estava certa de que poderia ficar tão calada quanto quisesse.

Depois de prom eter passar a m anhã inteira do dia seguinte em sua com panhia, portanto, ela concluiu o cansaço do dia com um a árdua cam inhada até Cam den Place, onde passou a noite escutando as providências atarefadas de Elizabeth e da sra. Clay para o evento do dia seguinte, a enum eração frequente das pessoas convidadas, e os detalhes cada vez m ais m inuciosos de todas as m elhorias que deviam fazer daquele evento o m ais elegante de seu gênero em toda Bath, enquanto em seu íntim o se atorm entava secretam ente com a dúvida incessante: o capitão Wentworth viria ou não? As duas estavam dando sua presença por certa, m as no caso de Anne essa era um a aflição im possível de aplacar por m ais de cinco m inutos. De m odo geral, pensava que ele viria, porque de m odo geral pensava que ele devesse vir; m as aquele era um caso que ela não conseguia encaixar em qualquer atitude determ inada m ovida fosse pelo dever, fosse por escolha própria, de form a a aplacar sem hesitação as insinuações de sentim entos inteiram ente opostos.

Ela só se distraiu das reflexões provocadas por essa incontrolável agitação para inform ar a sra. Clay de que ela tinha sido vista na com panhia do sr. Elliot três horas depois do horário em que ele deveria ter saído de Bath, pois, depois de esperar em vão a própria dam a fazer algum a alusão ao encontro, decidiu m encioná-lo, e pareceu-lhe ver culpa na expressão da sra. Clay ao escutar suas palavras. Foi um a coisa passageira, logo desapareceu; m as Anne acreditou ler naquela expressão a consciência de ter sido obrigada a escutar (quem sabe durante m eia hora), por algum a com plicação decorrente dos respectivos ardis ou então por algum a autoridade superior da parte dele, aos seus serm ões e suas reticências em relação às intenções dela para com Sir Walter. A sra. Clay, entretanto, exclam ou com um a im itação bastante razoável de naturalidade:

– Ah, sim ! É verdade. Im agine a senhorita que, para m inha grande surpresa, encontrei o sr. Elliot em Bath Street. Eu não poderia ter ficado m ais espantada. Ele deu m eia-volta e cam inhou com igo até o pátio do Pum p Room . Havia sido im pedido de partir para Thornberry, m as esqueço-m e por que exatam ente; pois eu estava com pressa e não pude lhe dar m uita atenção, e tudo que posso assegurar é que ele está decidido a não retardar sua volta. Ele queria saber a partir de que horas poderia chegar am anhã. Tudo em que conseguia falar era “am anhã”, e eu evidentem ente tam bém agora só consigo falar nisso, desde que entrei em casa e fiquei sabendo da extensão de seus planos e de tudo o que aconteceu, caso contrário não teria m e esquecido tão inteiram ente de m eu encontro com ele.

CAPÍTULO 11

 

Apenas um dia havia transcorrido desde a conversa de Anne com a sra. Sm ith; m as um interesse m ais arrebatador havia se apresentado, e ela agora estava tão indiferente à conduta do sr. Elliot, exceto quanto a suas consequências sobre um único assunto, que na m anhã seguinte foi m uito natural adiar novam ente a visita esclarecedora que faria a Rivers Street. Ela havia prom etido ficar com os Musgrove da hora do desj ej um até o j antar. Estava com prom etida, e o caráter do

sr. Elliot, assim com o a cabeça da sultana Sherazade,93 seria poupado por m ais um dia.

Não conseguiu, contudo, chegar pontualm ente ao seu com prom isso; o tem po estava desfavorável, e ela havia deplorado a chuva por causa da am iga, e ficado ela própria m uito contrariada, antes de poder iniciar a cam inhada. Quando chegou ao White Hart e se encam inhou para o quarto certo, constatou que não estava chegando na hora, e que tam pouco era a prim eira a chegar. Já estavam ali presentes: a sra. Musgrove conversando com a sra. Croft, e o capitão Harville com o capitão Wentworth; e ela logo ficou sabendo que Mary e Henrietta, dem asiado im pacientes para esperar, haviam saído na m esm a hora em que a chuva estiara, m as que voltariam dentro em pouco, e que a sra. Musgrove havia recebido as m ais rígidas instruções para m anter Anne ali enquanto as duas não voltassem . A Anne só restou aceitar, sentar-se, aparentar tranquilidade e sentir-se afundar im ediatam ente em todas as aflições das quais j ulgara que fosse provar apenas um pouco antes de concluída a m anhã. No entanto, não houve dem ora nem perda de tem po. Ela m ergulhou no m esm o instante na felicidade desse pesar ou no pesar dessa felicidade. Dois m inutos depois de ela adentrar a sala, o capitão Wentworth disse:

– Vam os escrever agora a carta sobre a qual estávam os falando, Harville, se puder m e fornecer o m aterial.

O m aterial estava todo ao alcance da m ão, sobre um a outra m esa; ele foi até lá e, praticam ente virando as costas a todos os presentes, pôs-se a escrever, m uito entretido.

A sra. Musgrove estava contando à sra. Croft a história do noivado de sua filha m ais velha, e j usto naquele tom de voz que era perfeitam ente audível ao m esm o tem po em que fingia ser um sussurro. Anne sentiu que não tinha lugar naquela conversa, m as, com o o capitão Harville parecia pensativo e sem vontade de conversar, não pôde evitar ouvir vários detalhes indesej áveis; detalhes do tipo “com o o sr. Musgrove e m eu cunhado Hay ter se encontraram inúm eras vezes para conversar a respeito; o que m eu cunhado Hay ter tinha dito em um dia, e o que o sr. Musgrove tinha proposto no dia seguinte, e o que tinha ocorrido a m inha irm ã Hay ter, e o que os j ovens desej avam , e o que eu disse no início que j am ais poderia aceitar, m as com o depois fui convencida a pensar que seria m uito adequado”, e várias outras coisas no m esm o estilo de com unicação franca: m inúcias que, m esm o que gozassem de todas as vantagens do bom gosto e da delicadeza que a bondosa sra. Musgrove era incapaz de fornecer, na verdade só tinham interesse para os principais envolvidos. A sra. Croft escutava de m uito bom hum or, e tudo o que dizia era sem pre m uito sensato. Anne torceu para am bos os cavalheiros estarem ocupados dem ais para escutar.

– Assim , m inha senhora, levando tudo isso em consideração – disse a sra. Musgrove com seu sussurro potente –, em bora pudéssem os ter desej ado outra coisa, no final das contas, porém , não acham os j usto adiar m ais a questão, pois Charles Hay ter estava m uito anim ado e Henrietta tam bém , quase tanto quanto ele; então pensam os que seria m elhor eles se casarem logo, e que tudo corra da m elhor form a possível, com o m uitos outros j á fizeram antes deles. De toda form a, na m inha opinião, isso será m elhor do que um longo noivado.

– Era j ustam ente esse o com entário que eu ia fazer – exclam ou a sra. Croft. – Acho preferível os j ovens se casarem logo com um a renda pequena e enfrentarem algum a dificuldade do que terem um noivado longo. Sem pre penso que nenhum a afeição m útua…

– Ah, m inha cara sra. Croft! – exclam ou a sra. Musgrove, sem conseguir deixá-la term inar a frase. – Não há nada que eu considere m ais abom inável para os j ovens do que um noivado longo. Foi isso que sem pre tentei evitar para m eus filhos. Não há problem a algum no fato de os j ovens noivarem , é o que eu costum ava dizer, contanto que haj a a certeza de poderem se casar dentro de seis m eses, ou m esm o doze. Mas um noivado longo!

– Sim , cara senhora, ou então um noivado incerto, ou um noivado que poderia ser longo – prosseguiu a sra. Croft. – Considero m uito pouco seguro e pouco sensato com eçar um noivado sem saber em que m om ento haverá condições de se casar, e, na m inha opinião, todos os pais deveriam evitar isso a qualquer custo.

Anne encontrou nessa conversa um interesse inesperado. Sentia que esta se aplicava a ela, sentiu um a excitação nervosa tom ar conta de todo o seu ser; e, na m esm a hora em que seus olhos se voltaram instintivam ente na direção da m esa m ais afastada, a pena do capitão Wentworth parou de se m over, ele ergueu a cabeça, parou por um instante, escutou, e então, no instante seguinte, virou-se para lançar um olhar, um só olhar rápido e significativo, em sua direção.

As duas senhoras seguiram conversando, insistindo nas m esm as verdades j á estabelecidas e ilustrando-as com exem plos dos efeitos nefastos de qualquer prática contrária que tivessem podido observar, m as Anne nada escutou com atenção; tudo não passava de um zum bido de palavras em seu ouvido, pois sua m ente estava tom ada pela confusão.

O capitão Harville, que na verdade não vinha escutando parte algum a da conversa, levantou-se então de sua cadeira e foi até um a j anela, e Anne, que aparentem ente olhava para ele, em bora fosse por total distração, reparou aos poucos que ele a estava cham ando para ir até o seu lado. Olhava para ela com um sorriso e um leve m eneio de cabeça que diziam : “Venha cá, tenho algo a lhe dizer”; e um a gentileza descontraída e sem afetação, que caracterizava os sentim entos de um a relação bem m ais antiga do que aquela de fato era, reforçava fortem ente o convite. Ela se levantou e foi até onde ele estava. A j anela j unto à qual se encontrava o capitão Harville ficava do outro lado da sala em relação a onde estavam sentadas as duas senhoras e, em bora m ais perto da m esa ocupada pelo capitão Wentworth, não perto dem ais. Quando Anne chegou, a atitude do capitão Harville retom ou a expressão séria e pensativa que parecia lhe ser natural.

– Olhe – disse ele, desfazendo um em brulho que tinha na m ão e m ostrando-lhe um a pequena pintura em m iniatura. – Sabe quem é este aqui?

– Claro; é o capitão Benwick.

– Sim , e a senhorita pode adivinhar para quem se destina a pintura. No entanto – sua voz se fez m ais grave –, não foi feita para ela. Srta. Elliot, está lem brada de quando cam inham os j untos em Ly m e, e de com o lam entam os a situação dele? Eu m al podia im aginar na ocasião… m as pouco im porta. Esta pintura foi feita na Cidade do Cabo. O capitão Benwick conheceu um j ovem e inteligente artista alem ão nessa cidade e, de acordo com um a prom essa feita à m inha pobre irm ã, posou para ele, e estava trazendo esta pintura para casa de presente para ela; e eu agora estou incum bido de m andá-la em oldurar adequadam ente para outra m ulher! Ele m e pediu isso! Mas a quem m ais poderia pedir? Espero poder com preender as suas m otivações. Mas de fato não m e desagrada passar a incum bência a outro. Ele vai assum ir a tarefa – olhando na direção do capitão Wentworth –; está escrevendo sobre isso agora m esm o – e, com os lábios trêm ulos, concluiu o discurso da seguinte m aneira: – Pobre Fanny ! Ela não o teria esquecido tão depressa.

– Não – respondeu Anne com a voz baixa e em ocionada –, nisso posso acreditar com facilidade.

– Não era de sua natureza. Ela o adorava.

– Não seria da natureza de qualquer m ulher que am asse de verdade.

O capitão Harville sorriu com o quem pergunta “Está dizendo isso em nom e de todas as m ulheres?”, e ela respondeu, sorrindo tam bém :

– Sim . Nós certam ente não os esquecem os tão depressa quanto vocês nos esquecem . Talvez esse sej a o nosso destino, e não o nosso m érito. Não conseguim os agir de outra form a. Vivem os em casa, tranquilas, isoladas, e som os dom inadas por nossos sentim entos. Já vocês precisam se esforçar. Têm sem pre um a profissão, obj etivos, negócios de algum a espécie, que os fazem voltar na m esm a hora para o m undo, e a ocupação e a m udança contínuas logo enfraquecem as im pressões.

– Adm itindo ser verdadeira essa sua afirm ação de que o m undo faz isso cedo dem ais com os hom ens (em bora eu não ache que vá adm iti-la), tal coisa não se aplica ao capitão Benwick. Ele não foi forçado a realizar esforço algum . A paz o fez retornar à terra firm e na m esm a época, e ele desde então tem m orado conosco, em nosso pequeno círculo fam iliar.

– É verdade – disse Anne –, é a m ais pura verdade; eu não estava m e lem brando; m as o que devem os dizer então, capitão Harville? Se a m udança não se deve a circunstâncias externas, decerto vem de dentro; deve ter sido a natureza, a natureza m asculina, que influenciou o capitão Benwick.

– Não, não, não foi a natureza m asculina. Não adm ito que sej a da natureza m asculina m ais do que da fem inina ser inconstante e esquecer quem se am a, ou quem j á se am ou. Acredito no contrário. Acredito em um a verdadeira analogia entre nossas estruturas físicas e m entais; e acho que, quando nossos corpos são m ais fortes, o m esm o se dá com os sentim entos; estes são capazes de suportar os tratam entos m ais rudes, e de enfrentar os m ais árduos clim as.

– Os seus sentim entos podem até ser m ais fortes – retrucou Anne –, m as o m esm o espírito de analogia m e perm itirá afirm ar que os nossos são m ais delicados. O hom em é m ais robusto do que a m ulher, m as não vive m ais tem po; isso que explica j ustam ente a m inha opinião quanto à natureza de seus afetos. Não, seria difícil dem ais para vocês caso fosse de outra form a. Vocês j á têm dificuldades, privações e perigos suficientes com que lidar. Estão sem pre se esforçando, trabalhando, expostos a todo tipo de risco e provação. Sua casa, seu país, seus am igos, tudo isso vocês têm que abandonar. Não têm tem po, nem saúde, nem vida para cham ar de seus. Realm ente, seria m uito difícil – com um a voz em bargada – se os sentim entos de um a m ulher viessem se som ar a isso tudo.

– Nós nunca vam os concordar em relação a isso – ia com eçando a dizer o capitão Harville quando um leve ruído cham ou a atenção de am bos para a área até então inteiram ente silenciosa da sala ocupada pelo capitão Wentworth. Sua pena havia caído no chão, só isso; m as Anne ficou espantada ao constatar que ele estava m ais próxim o do que havia im aginado, e sentiu-se um pouco inclinada a pensar que a pena só havia caído no chão porque ele estivera prestando atenção na conversa, esforçando-se para distinguir algum a palavra, em bora não pensasse que pudesse tê-los escutado.

– Já term inou sua carta? – indagou o capitão Harville.

– Ainda não, faltam algum as linhas. Daqui a cinco m inutos terei term inado.

– Por m im não há pressa. Só estarei pronto quando o senhor estiver. Estou m uito bem ancorado aqui – sorrindo para Anne –, m uito bem -abastecido, e não m e falta nada. Não estou com pressa nenhum a de receber qualquer sinal. Bem , srta. Elliot – baixando a voz –, com o eu ia dizendo, penso que nunca vam os concordar em relação a isso. Provavelm ente isso seria im possível para qualquer hom em e qualquer m ulher. Perm ita-m e observar, porém , que todas as histórias contrariam o que a senhorita diz… todas, em prosa e em verso. Se eu tivesse a m esm a m em ória que Benwick, poderia lhe recitar em um instante cinquenta citações que corroboram a m inha teoria, e não acho que j am ais tenha aberto um livro na vida que não tivesse algo a dizer sobre a inconstância fem inina. Todas as canções e ditados m encionam o tem peram ento volúvel da m ulher. Mas a senhorita vai m e dizer, talvez, que eles foram todos escritos por hom ens.

– Talvez eu o diga. Sim , sim , por favor, não vam os nos referir a exem plos de livros. Os hom ens tiveram todas as vantagens em relação a nós no que diz respeito a contar sua versão da história. Eles tiveram um a educação m uito m ais refinada; a pena sem pre esteve em sua m ão. Não vou aceitar nenhum a prova tirada dos livros.

– Mas com o então irem os provar algum a coisa?

– Isso nunca vai acontecer. Nunca poderem os esperar provar o que quer que sej a em relação ao assunto. Trata-se de um a diferença de opinião que não adm ite provas. Cada um de nós provavelm ente com eça com um a leve parcialidade em relação ao próprio sexo; e, a partir dessa parcialidade, interpretam os todas as circunstâncias em seu favor j á ocorridas em nosso círculo, m uitas das quais (talvez precisam ente nos casos que m ais nos im pressionam ) talvez sej am j usto do tipo que não se pode citar sem trair um a confidência, ou de algum a form a dizer o que não deveria ser dito.

– Ah! – exclam ou o capitão Harville com um tom m uito arrebatado –, se ao m enos eu pudesse fazê-la com preender o quanto um hom em sofre quando deita os olhos pela últim a vez na esposa e nos filhos, quando fica observando o barco que os leva em bora até este desaparecer, para em seguida virar as costas e dizer: “Só Deus sabe quando tornarem os a nos encontrar!” E depois, se ao m enos eu pudesse lhe dar um a ideia do brilho de sua alm a quando ele torna a vê-los; quando, após retornar de um a ausência de um ano, talvez, obrigado a adentrar outro porto, ele calcula em quanto tem po será possível fazê-los chegar até lá, fingindo enganar a si m esm o e dizendo: “Eles não poderão chegar antes do dia tal”, m as o tem po todo esperando que cheguem doze horas antes, e quando os vê chegar por fim , com o se o céu houvesse lhes dado asas, m uitas horas antes disso! Se eu pudesse lhe explicar tudo isso, e tudo o que um hom em é capaz de suportar e fazer, e tudo que se orgulha de fazer em nom e desses tesouros de sua vida! A senhora sabe que m e refiro apenas aos hom ens que têm coração! – com pletou ele, apertando o próprio peito com em oção.

– Ah! – exclam ou Anne com sofreguidão –, espero fazer j ustiça a tudo aquilo que o senhor sente, e a tudo o que sentem aqueles que se parecem com o senhor. Que Deus não m e perm ita subestim ar os sentim entos calorosos e leais de nenhum de m eus sem elhantes. Eu m ereceria o m ais com pleto desprezo caso m e atrevesse a im aginar que o verdadeiro afeto e a verdadeira constância fossem conhecidos apenas pela m ulher. Não, considero vocês, hom ens, capazes das m ais grandiosas e boas ações em suas vidas de casados. Acredito que possam desem penhar igualm ente todos os esforços im portantes e todas as obrigações dom ésticas, contanto que… se m e perm ite usar esse term o, contanto que tenham um obj eto. Ou sej a, enquanto a m ulher que am am viver e viver para vocês. O único privilégio que reivindico para m eu sexo (que não é dos m ais invej áveis; não há por que cobiçá-lo) é o de am ar por m ais tem po quando o obj eto ou a

esperança j á se foram !94

Ela não teria sido capaz de pronunciar outra frase logo em seguida; seu coração estava tom ado, seu peito dem asiado oprim ido.

– A senhorita é um a alm a boa – exclam ou o capitão Harville, pondo a m ão em seu braço com um gesto afetuoso. – Não há com o discutir. E, quando penso em Benwick, não sei o que dizer.

Sua atenção foi atraída pelos outros. A sra. Croft estava se retirando.

– Creio que aqui nos separam os, Frederick – disse ela. – Vou voltar para casa, e você tem um com prom isso com seu am igo. Hoj e à noite terem os todos o prazer de nos reencontrar em sua casa – e virando-se para Anne –, recebem os ontem o cartão de sua irm ã, e pelo que entendi Frederick tam bém recebeu o seu, em bora eu não o tenha visto; e você estará livre, não é m esm o, Frederick, assim com o nós?

O capitão Wentworth estava dobrando um a carta às pressas, e não pôde ou não quis responder inteiram ente à pergunta.

– Sim – disse ele –, é verdade, aqui nos separam os, m as Harville e eu logo irem os atrás de você; quer dizer, Harville, se estiver pronto, eu o estarei daqui a m eio m inuto. Sei que não ficará contrariado em ir em bora. Estarei a seu dispor daqui a m eio m inuto.

A sra. Croft se retirou, e o capitão Wentworth, após lacrar sua carta com grande rapidez, de fato ficou pronto, e chegou a dem onstrar um ar apressado e agitado que transm itia um a im paciência de partir. Anne não soube com o interpretar isso. Ouviu do capitão Harville o m ais gentil “Bom dia, que Deus a abençoe!”, m as dele não recebeu um a só palavra, um só olhar! Ele havia saído da sala sem olhar para ela!

No entanto, ela teve apenas tem po de chegar m ais perto da m esa à qual ele havia se sentado para escrever quando escutou passos voltando; a porta se abriu, e era ele. Pediu desculpas, pois havia esquecido as luvas, e na m esm a hora atravessou a sala até a m esa de escrever, e ali em pé, com as costas viradas para a sra. Musgrove, tirou um a carta do m eio dos papéis espalhados e a pôs diante de Anne, encarando-a por algum tem po com um olhar de súplica ardente, antes de recolher rapidam ente as luvas e tornar a sair da sala quase antes m esm o de a sra. Musgrove se dar conta de sua presença: tudo aconteceu em um instante!

É quase im possível descrever a revolução que esse instante operou em Anne. A carta, na qual m al se podia ler o destinatário, estava endereçada à “Srta. A. E —”, e era obviam ente a m esm a que ele havia dobrado com tanta pressa. Enquanto fingia estar escrevendo apenas para o capitão Benwick, ele tam bém estava escrevendo para ela! Do conteúdo daquela carta dependia tudo o que este m undo poderia lhe reservar! Qualquer coisa era possível, ela podia enfrentar qualquer coisa, m enos aquela incerteza. A sra. Musgrove tinha pequenos afazeres dos quais cuidar em sua própria m esa; Anne precisou confiar na proteção que estes proporcionavam e, deixando-se afundar na m esm a cadeira que ele havia ocupado, sucedendo-o no m esm o lugar em que ele havia se inclinado para escrever, seus olhos devoraram as seguintes palavras:

Não posso m ais escutar em silêncio. Preciso lhe falar com os m eios dos quais disponho. A senhorita m e dilacera a alm a. Estou dividido entre a agonia e a esperança. Não m e diga que chego tarde, que aqueles tão preciosos sentim entos desapareceram para sem pre. Ofereço-m e outra vez à senhorita com um coração ainda m ais seu do que quando a senhorita quase o partiu, oito anos e m eio atrás. Não se atreva a dizer que o hom em esquece com m ais facilidade do que a m ulher, que o seu am or m orre m ais cedo. Nunca am ei ninguém além da senhorita. Posso ter sido inj usto, fraco e ressentido, eu fui, m as nunca inconstante. Foi apenas por sua causa que vim a Bath. Só a senhorita m e faz refletir e fazer planos. Será que não percebeu isso? Será que não entendeu m eus desej os? Não teria aguardado nem sequer esses dez dias se pudesse ter lido seus sentim entos com o acho que a senhorita deve ter desvendado os m eus. Mal consigo escrever. A todo instante ouço algo que m e subm erge. A senhorita baixa a voz, m as sou capaz de distinguir as tonalidades dessa voz quando outros não poderiam fazê-lo. Ah, que boa criatura, que excelente criatura! A senhorita de fato nos faz j ustiça. Acredita m esm o que exista afeto e constância genuínos entre os hom ens. Acredite então que estes são m ais fervorosos e m ais constantes no seu

F.W.

Preciso ir, incerto de m eu destino, m as voltarei aqui ou tornarei a m e j untar a seu grupo assim que possível. Bastará um a palavra sua, um olhar, para eu decidir se entrarei na casa de seu pai esta noite ou nunca m ais.

Não era fácil se recuperar após a leitura de um a carta assim . Meia hora de solidão e reflexão talvez a houvessem tranquilizado; m as os m eros dez m inutos transcorridos antes de ela ser interrom pida, com todas as lim itações de sua situação, em nada contribuíam para deixá-la tranquila. Pelo contrário, cada instante trazia m ais agitação. A felicidade a subm ergia. E, antes m esm o de ela superar o prim eiro estágio dessa sensação tão intensa, Charles, Mary e Henrietta entraram na sala.

A absoluta necessidade de aparentar seu estado norm al produziu então um em bate im ediato; depois de um tem po, contudo, ela não conseguiu m ais fingir. Passou a não entender um a palavra sequer do que eles diziam , e foi obrigada a alegar um a indisposição e pedir licença para se retirar. Todos então puderam constatar que ela parecia m uito adoentada, ficaram chocados e preocupados, e por nada neste m undo iriam sair de casa sem ela. Foi terrível! Se ao m enos tivessem ido em bora e a deixado sozinha e em paz naquela sala, isso a teria curado; m as ver todos em pé ou aguardando à sua volta a distraía e, desesperada, ela disse que iria voltar para casa.

– Mas é claro, m inha cara – exclam ou a sra. Musgrove –, volte para casa agora m esm o, e cuide-se para estar disposta hoj e à noite. Queria que Sarah estivesse aqui para cuidar da senhorita, m as eu própria sou péssim a m édica. Charles, peça um a liteira. Ela não deve cam inhar.

Mas um a liteira seria insuportável. Seria pior do que tudo! Perder a possibilidade de dizer duas palavras ao capitão Wentworth durante um traj eto silencioso e solitário pela cidade (e ela estava quase certa de que iria encontrá-lo) era um torm ento. Anne protestou vivam ente contra a liteira, e a sra. Musgrove, que só conseguia pensar em um tipo de doença, depois de se assegurar com certa ansiedade que não houvera nenhum a queda – e de que Anne não havia escorregado recentem ente em nenhum m om ento e batido com a cabeça, de que estava inteiram ente segura de não ter caído –, pôde se separar dela com tranquilidade, convencida de encontrá-la m ais disposta à noite.

Ansiosa para não om itir qualquer precaução, Anne se esforçou e disse:

– Tem o que nem tudo tenha ficado perfeitam ente entendido, m inha senhora. Por favor, tenha a bondade de dizer aos outros cavalheiros que esperam os receber o grupo todo hoj e à noite. Tem o que talvez tenha havido algum m al-entendido; e desej o que assegure especialm ente o capitão Harville e o capitão Wentworth de que esperam os vê-los os dois.

– Ah, m inha cara; isso está entendido, posso lhe garantir. O capitão Harville não pensa em outra coisa que não ir à sua casa.

– A senhora acha? Mas estou receosa; e ficaria tão, tão decepcionada. Pode m e prom eter que falará com eles quando os vir novam ente? Im agino que tornará a ver os dois hoj e de m anhã. Por favor, prom eta.

– Com certeza prom eto, se a senhorita faz questão. Charles, se vir o capitão Harville em algum lugar, lem bre-se de lhe transm itir o recado da srta. Anne. Mas realm ente, m inha cara, não precisa ficar aflita. O capitão Harville se considera firm em ente com prom issado, isso eu posso garantir; e ouso dizer que o m esm o se aplica ao capitão Wentworth.

Anne não podia fazer m ais nada; m as seu coração tem ia que algum acaso infeliz viesse m acular a perfeição de sua felicidade. Esse tem or, porém , não durou m uito tem po. Ainda que ele não com parecesse pessoalm ente a Cam den Place, ela poderia lhe m andar um recado com preensível por interm édio do capitão Harville. Foi então que surgiu outra contrariedade m om entânea. A genuína preocupação e a boa índole de Charles o fizeram insistir para acom panhá-la até em casa; não houve com o dissuadi-lo. Foi quase um a crueldade. Mas ela não pôde se m ostrar m al-agradecida por m uito tem po; ele estava sacrificando um com prom isso com um arm eiro para lhe prestar o serviço, e ela partiu em sua com panhia sem outro sentim ento aparente que não a gratidão.

Estavam os dois na Union Street quando passos m ais apressados atrás deles e algum ruído conhecido proporcionaram a Anne dois segundos de preparação para a visão do capitão Wentworth. Este apareceu a seu lado; porém , sem saber se ali ficava ou seguia seu cam inho, não disse nada, apenas olhou. Anne conseguiu se controlar apenas o suficiente para receber esse olhar sem frieza. Suas faces outrora pálidas agora estavam coradas, e os m ovim entos antes hesitantes eram decididos. Ele pôs-se a cam inhar a seu lado. Dali a pouco, acom etido por um a ideia repentina, Charles perguntou:

– Para onde está indo, capitão Wentworth? Som ente até Gay Street, ou m ais adiante?

– Nem eu sei – retrucou o capitão Wentworth, surpreso.

– Por acaso vai até Belm ont? Vai passar por perto de Cam den Place? Porque, se for, não terei escrúpulos em lhe pedir que assum a m eu lugar e dê o braço a Anne para conduzi-la até a casa do pai. O cansaço desta m anhã j á lhe bastou, e ela não deve ir tão longe sem auxílio, e eu preciso encontrar aquele suj eito em Market Place. Ele prom eteu m e m ostrar um a arm a excelente que está prestes a despachar; disse que a m anteria desem brulhada até o últim o instante possível para que eu a pudesse ver; e, se eu não der m eia-volta agora m esm o, perderei a oportunidade. Pela descrição dele, a arm a se parece m uito com aquele m eu fuzil m enor de cano duplo que o senhor usou certo dia perto de Winthrop.

Continuar: parte 12 de 12