Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
– Srta. Elliot, tenho certeza de que a senhorita está cansada – exclam ou a sra. Croft. – Deixe-nos ter o prazer de levá-la até em casa. Aqui cabem perfeitam ente três pessoas, posso lhe garantir. Se fôssem os todos com o a senhorita, acredito que pudessem caber quatro. Venha, aceite, por favor.
Anne ainda estava na estrada, e em bora por instinto tenha com eçado a recusar, não lhe foi perm itido persistir na recusa. A insistente gentileza do alm irante veio se som ar à da esposa; não foi possível recusar: os dois se esprem eram até ocupar o espaço m ais exíguo possível de m odo a lhe deixar um canto do assento, e o capitão Wentworth, sem dizer nada, virou-se para ela e se ofereceu silenciosam ente para aj udá-la a subir no cabriolé.
Sim , ele havia conseguido. Ali estava ela, acom odada no cabriolé, e com a sensação que fora ele quem a havia posto ali, de que aquilo fora um feito de sua vontade e de suas m ãos, de que ela o devia à percepção que ele tivera de seu cansaço e à sua decisão de lhe conceder algum descanso. Ficou m uito afetada ao constatar essa disposição dele em relação a si que todas as suas atitudes tornavam aparente. Aquela pequena ocorrência parecia vir com pletar tudo o que se passara antes. Ela o com preendia. Era incapaz de perdoá-la, m as não conseguia se m ostrar insensível. Em bora a condenasse pelo passado, e em bora nutrisse em relação a este um ressentim ento intenso e inj ustificado, em bora não se im portasse nem um pouco com ela e estivesse com eçando a se afeiçoar a outra, ainda assim não suportava vê-la sofrer sem o desej o de aliviar seu desconforto. Isso era um resquício do sentim ento que outrora nutria por ela, um im pulso de am izade pura, em bora não assum ida, um a prova de que ele tinha um coração afetuoso e bom , prova que ela não conseguiu presenciar sem em oções tão m isturadas de prazer e dor que foi incapaz de saber qual dos dois sentim entos prevalecia.
Suas prim eiras respostas à gentileza e aos com entários de seus com panheiros de viagem foram dadas de form a inconsciente. Os três j á haviam percorrido m etade do cam inho pela estrada esburacada quando ela se pôs a prestar atenção no que o casal estava dizendo. Constatou então que estavam falando de “Frederick”.
– Ele certam ente tem a intenção de escolher um a daquelas duas m oças, Sophy, m as não há com o saber qual das duas – disse o alm irante. – Tam bém parece j á estar correndo atrás delas há tem po suficiente para ter se decidido. Ah, isso tudo é por causa da paz. Se houvesse um a guerra agora, ele j á teria resolvido esse assunto há m uito tem po. Nós m arinheiros não podem os nos dar ao luxo de cortej ar as dam as por m uito tem po em épocas de guerra, srta. Elliot. Quantos dias se passaram , querida, entre a prim eira vez em que eu a vi e o dia em que nós nos sentam os j untos em nossos aposentos de North Yarm outh?
– É m elhor não falar nisso, querido, pois, soubesse a srta. Elliot o pouco tem po que levam os para tom ar um a decisão, j am ais se deixaria convencer de que possam os ser felizes j untos – retrucou a sra. Croft em um tom agradável. – Mas eu j á conhecia seu caráter bem antes de conhecê-lo de fato.
– Bem , e eu tinha ouvido dizer que você era um a m oça m uito bonita, e, além do m ais, por que deveríam os ter esperado? Não gosto de m e dem orar m uito em
questões desse tipo. Queria que Frederick soltasse um pouco m ais as velas 48 e trouxesse um a dessas m oças para nos visitar em Kelly nch. Lá eles estariam sem pre acom panhados. E am bas são m oças m uito agradáveis; m al consigo distinguir um a da outra.
– De fato, são m oças m uito bem -dispostas, sem qualquer afetação – concordou a sra. Croft com um tom de elogio m ais m oderado, que levou Anne a desconfiar que talvez a sua percepção m ais aguçada na realidade não considerasse nenhum a das duas totalm ente digna de seu irm ão. – E a fam ília é m uito respeitável. Não se poderia desej ar um a aliança m elhor. O poste, m eu caro alm irante! Com certeza vam os bater nesse poste.
Porém , m udando ela própria as rédeas de direção com tranquilidade, a sra. Croft felizm ente fez com que evitassem o perigo. Em outra ocasião, ao estender a m ão na hora certa, ela im pediu que caíssem dentro de um a vala e trom bassem com um a carroça de estrum e. E Anne, achando divertido aquele estilo de condução que im aginava ser bastante representativo de com o o casal conduzia sua vida de form a geral, viu-se por eles depositada em segurança no chalé.
CAPÍTULO 11
Estava chegando a hora da volta de Lady Russell; a data j á estava até m arcada, e Anne, que havia com binado de ir ficar com a am iga assim que ela se instalasse novam ente em Kelly nch, ansiava por partir logo, e com eçava a pensar em com o o seu conforto seria afetado pela m udança.
Esta a colocaria no m esm o vilarej o do capitão Wentworth, a pouco m enos de um quilôm etro de onde ele m orava; os dois teriam de frequentar a m esm a igrej a, e as duas fam ílias seriam obrigadas a se frequentar. Isso era um a desvantagem para ela. Por outro lado, contudo, o capitão passava tanto tem po em Uppercross que, quando se m udasse de lá, era de se pensar que ela na verdade o estaria deixando para trás, e não se aproxim ando m ais dele; e, de m odo geral, ela acreditava que, em relação a essa questão interessante, sairia ganhando, com o quase certam ente sairia ganhando com a m udança de com panhia ao trocar a pobre Mary por Lady Russell.
Queria que fosse possível evitar encontrar o capitão Wentworth em Kelly nch Hall: aqueles m esm os côm odos haviam testem unhado encontros anteriores que seria dem asiadam ente doloroso lem brar. Mas torcia com ainda m ais ansiedade para Lady Russell e o capitão Wentworth j am ais se encontrarem onde quer que fosse. Os dois não gostavam um do outro, e nenhum reencontro agora poderia rem ediar isso; além do m ais, se Lady Russell os visse j untos, talvez j ulgasse que ele estava se m ostrando dem asiado seguro de si, e Anne m uito pouco.
Tais eram seus principais m otivos de preocupação com relação à m udança de Uppercross, onde avaliava j á ter passado um tem po suficientem ente longo. O fato de ter se m ostrado útil nos cuidados com o pequeno Charles sem pre a faria lem brar com carinho da estada de dois m eses naquela casa, m as o m enino agora ia ficando m ais forte a cada dia, e ela não tinha nenhum outro m otivo para ficar ali.
A conclusão da visita, porém , tom ou um rum o que ela absolutam ente não previra. Depois de dois dias inteiros sem dar o ar de sua graça em Uppercross ou m andar notícias, o capitão Wentworth tornou a aparecer entre eles para se j ustificar com um relato daquilo que havia provocado a sua ausência.
Um a carta do am igo capitão Harville, que finalm ente havia descoberto onde ele estava, tinha lhe inform ado que este e a fam ília estavam passando o inverno
em Ly m e,49 e que os dois, portanto, sem sabê-lo, estavam a pouco m ais de trinta quilôm etros um do outro. Desde um grave ferim ento dois anos antes, o capitão Harville não vinha gozando de boa saúde, e a aflição do capitão Wentworth para vê-lo o havia convencido a ir im ediatam ente para Ly m e. Lá havia passado vinte e quatro horas. Assim , ele se viu redim ido por com pleto: sua am izade foi calorosam ente elogiada, um vivo interesse pelo am igo foi despertado, e a descrição por ele feita da bela região de Ly m e foi tão apreciada pelo grupo que as consequências foram um forte desej o de ver Ly m e com os próprios olhos e o proj eto de ir até lá.
Todos os j ovens ansiavam por conhecer a cidade. O capitão Wentworth m encionou a possibilidade de voltar lá ele próprio, um a vez que ficava a pouco m ais de vinte e sete quilôm etros de Uppercross, e que durante o m ês de novem bro o tem po não era nada ruim . E, para resum ir, Louisa, ainda m ais anim ada com a viagem do que todos os outros, havia decidido ir, e, além do prazer de fazer o que desej ava, agora convencida do m érito de m anter as próprias decisões, resistiu a todos os desej os do pai e da m ãe para adiar a viagem até o verão. Assim , ficou decidido que iriam todos para Ly m e: Charles, Mary, Anne, Henrietta, Louisa e o capitão Wentworth.
O prim eiro plano im pensado fora partir de m anhã e voltar à noite; m as o sr. Musgrove não concordou com isso pelo bem dos cavalos. Quando a questão foi ponderada de form a racional, constatou-se que um dia em m eados de novem bro não deixaria m uito tem po para visitar um lugar novo, um a vez deduzidas as sete horas exigidas pela natureza do terreno para o traj eto de ida e volta. Consequentem ente, todos passariam a noite lá, e a sua volta só deveria ser aguardada para o j antar do dia seguinte. Todos consideraram isso um a alternativa bem m ais sensata. E, em bora tenham se encontrado na Casa Grande bem cedo para o desj ej um e partido com grande pontualidade, j á passava tanto do m eio-dia quando as duas carruagens – a do sr. Musgrove com as quatro senhoras, e a
caleche50 de Charles na qual este conduzia o capitão Wentworth – se puseram a descer a longa colina em direção a Ly m e e a abordar o aclive ainda m ais íngrem e da cidade em si, que ficou m uito claro que talvez não tivessem tem po para nada a não ser olhar em volta antes que a luz e o calor do dia se fossem .
Um a vez organizada a hospedagem e encom endado o j antar em um a das hospedarias, a coisa seguinte a fazer era sem dúvida ir im ediatam ente ver o m ar. O ano estava dem asiado avançado para que se pudesse aproveitar qualquer diversão ou atração pública que Ly m e pudesse proporcionar: os quartos das hospedarias estavam todos fechados, os hóspedes quase todos j á tinham partido e praticam ente não restava nenhum a fam ília com exceção dos m oradores do local; e, não havendo nada para adm irar nos prédios em si, o que irá atrair o olhar do visitante é a localização notável da cidade, cuj a rua principal quase
adentra a água, e o cam inho até o Quebra-Mar,51 dando a volta na pequena e aprazível enseada que no verão fica coalhada de pessoas e casinhas de banho am bulantes; é o Quebra-Mar em si, com suas antigas m aravilhas e suas novas m elhorias, com a linha de colinas m uito bela a se estender rum o ao leste da cidade; e m uito estranho será o visitante que não perceber os charm es dos arredores im ediatos de Ly m e a ponto de querer conhecer m elhor a cidade. As cenas de suas cercanias: Charm outh, com seus terrenos altos e grandes extensões de bosques, e m ais ainda, com sua graciosa e protegida enseada precedida por escuros penhascos, que fragm entos de rochedos baixos a despontar da areia transform am no m elhor ponto para observar o m ovim ento das m arés e para se entregar a um a despreocupada contem plação; a diversidade dos bosques do alegre vilarej o de Up Ly m e; e, acim a de tudo, Pinny, com seus desfiladeiros verdes a se abrir entre rom ânticos rochedos, onde as árvores espaçadas e pom ares luxuriantes m ostram que m uitas gerações devem ter transcorrido antes de o desm oronam ento parcial da colina preparar o terreno para o estado atual, cuj o cenário tão esplendoroso e belo m ais do que rivaliza com as paisagens sem elhantes da fam osa ilha de Wight; todos esses lugares devem ser visitados e revisitados para que se possa dar a Ly m e o seu devido valor.
Depois de passar pelos aposentos de locação agora desertos e desolados, o grupo de Uppercross, ainda descendo a rua, logo se viu à beiram ar; e, detendo-se ali para adm irar o m ar, com o devem se deter ao voltar a ele pela prim eira vez todos os que chegam a m erecer nele deitar os olhos, seguiram em direção ao Quebra-Mar, que era seu obj etivo tanto por si quanto devido ao capitão Wentworth, pois a residência dos Harville era um a pequena casa j unto ao pé de um velho cais de data desconhecida. O capitão Wentworth se dirigiu até lá para ter com o am igo; enquanto isso, os outros seguiram em frente, e ficou com binado que ele os encontraria no Quebra-Mar.
Nenhum deles estava de form a algum a cansado de se espantar e adm irar o cenário, e nem m esm o Louisa parecia achar que haviam se separado do capitão Wentworth por m uito tem po quando o viram voltar em sua direção acom panhado por m ais três pessoas, todas elas j á conhecidas graças à sua descrição com o sendo o capitão Harville, sua esposa e o capitão Benwick, que se encontrava hospedado com o casal.
Algum tem po antes, o capitão Benwick havia sido nom eado prim eirotenente do Laconia; e o relato a seu respeito feito pelo capitão Wentworth ao voltar da prim eira visita a Ly m e, seus calorosos elogios ao excelente rapaz e oficial que sem pre havia tido em alta conta, que j á deveriam ter lhe garantido a estim a de todos os ouvintes, haviam sido seguidos por um a curta história sobre sua vida particular que o tornava altam ente interessante aos olhos de todas as dam as. Ele havia sido noivo da irm ã do capitão Harville, e agora estava de luto pela sua m orte. O casal passara um ou dois anos aguardando fortuna e prom oção. A fortuna havia se m aterializado, um a vez que a rem uneração que acom panhava a função de prim eiro-tenente era m uito generosa; a prom oção tam bém havia chegado, enfim; m as Fanny Harville não tinha vivido para ver nenhum a dessas duas coisas. A m oça m orrera no verão do ano anterior, enquanto o capitão Benwick estava no m ar. O capitão Wentworth considerava im possível um hom em ser m ais afeiçoado a um a m ulher do que o pobre Benwick havia sido a Fanny Harville ou m ais profundam ente afligido pelo terrível desfecho. Segundo o seu j uízo, ele tinha um tem peram ento propenso a um sofrim ento profundo, que aliava sensações m uito fortes a m odos discretos, sérios e introvertidos, e a um gosto pronunciado pela leitura e por atividades sedentárias. Para concluir o interesse da história, a am izade que o unia ao casal Harville parecia, se é que tal fato era possível, ter sido aguçada pelo acontecim ento que punha fim a qualquer perspectiva de aliança fam iliar entre eles, e o capitão Benwick agora m orava com o casal em tem po integral. O capitão Harville havia alugado por um ano e m eio a casa em que estavam m orando: seu gosto, sua saúde e sua fortuna o faziam preferir um a residência não m uito cara e próxim a ao m ar; além disso, a beleza da região e o isolam ento de Ly m e durante o inverno pareciam perfeitam ente adaptados à disposição do capitão Benwick. A solidariedade e a sim patia geradas para com o capitão Benwick foram m uito grandes.
“Apesar disso tudo”, pensou Anne consigo m esm a enquanto avançavam ao encontro dos recém -chegados, “talvez ele não carregue no coração um a tristeza m aior do que a m inha. Não consigo acreditar que suas possibilidades tenham sido anuladas para sem pre. Ele é m ais j ovem do que eu; se não em anos, ao m enos em sentim entos; é m ais j ovem com o hom em . Irá se recuperar, e será feliz com outra m ulher.”
Todos se encontraram e foram apresentados. O capitão Harville era um hom em alto e m oreno, dotado de um sem blante sensível e bem -intencionado; m ancava ligeiram ente e, por ter os traços m arcados e a saúde depauperada, parecia bem m ais velho do que o capitão Wentworth. O capitão Benwick parecia, com o de fato era, o m ais j ovem dos três e, se com parado aos outros dois, era um hom em baixo. Tinha um rosto agradável e um ar m elancólico, com o era natural que tivesse, e evitava qualquer conversa.
Em bora não pudesse se com parar ao capitão Wentworth em m atéria de boas m aneiras, o capitão Harville era um perfeito cavalheiro, sem afetação, caloroso e atencioso. A sra. Harville, ligeiram ente m enos refinada do que o m arido, parecia no entanto nutrir os m esm os bons sentim entos; e nada poderia ter sido m ais agradável do que o desej o de am bos de considerar todos no grupo seus am igos pessoais pelo fato de serem am igos do capitão Wentworth, nem eles poderiam ter se m ostrado m ais gentis e hospitaleiros nos convites que fizeram para que todos prom etessem j antar em sua casa. O j antar j á encom endado na hospedaria foi por fim , em bora não de bom grado, aceito com o desculpa; m as o casal pareceu quase m agoado pelo fato de o capitão Wentworth ter levado todo aquele grupo até Ly m e sem considerar natural que fossem j antar em sua casa.
Tam anho foi o afeto dem onstrado para com o capitão Wentworth durante todo esse diálogo, e tão encantador o charm e de um a hospitalidade assim tão incom um , tão diferente do estilo habitual dos convites feitos de parte a parte e dos j antares em que im perava a form alidade e a afetação, que Anne sentiu que sua disposição provavelm ente não seria beneficiada por um a intim idade m aior com seus colegas oficiais. “Essas pessoas todas seriam agora m inhas am igas”, foi o que pensou; e teve de lutar contra um a grande inclinação para se sentir deprim ida.
Do Quebra-Mar, foram todos até a residência dos novos am igos, e se depararam com um a casa tão exígua que ninguém a não ser aqueles cuj o convite partisse do coração poderia tê-la j ulgado capaz de abrigar tanta gente. A própria Anne se espantou por alguns instantes com isso, m as a sensação logo se dissipou graças aos sentim entos m ais agradáveis advindos da visão de todos os estratagem as e adaptações agradáveis encontrados pelo capitão Harville para dar ao espaço disponível o m elhor aproveitam ento possível, para suprir as deficiências de m obília, e para proteger as j anelas e portas das tem pestades que o inverno traria. A variedade na decoração dos aposentos, onde os itens com uns providenciados pelos proprietários da casa, de feitio ordinário e sem graça, contrastavam com uns poucos obj etos feitos de um a espécie rara de m adeira trabalhada com esm ero e com alguns curiosos e valiosos artefatos trazidos de países distantes visitados pelo capitão Harville, tudo isso se revelou para Anne m ais do que interessante: por estar ligado à sua profissão, ao fruto de seu trabalho e aos efeitos que este tinha sobre seus hábitos, o retrato de tranquilidade e felicidade dom éstica que isso representava provocava nela algo a m ais – ou a m enos – do que a gratificação.
O capitão Harville não era m uito afeito à leitura, m as havia providenciado um a excelente acom odação e fabricado estantes m uito bonitas para um a razoável coleção de volum es bem -encadernados pertencentes ao capitão Benwick. O fato de ser m anco o im pedia de praticar m uitos exercícios, m as um a m ente útil e engenhosa parecia lhe proporcionar um a atividade interior constante. Ele desenhava, lustrava, praticava carpintaria e colagens; fabricava brinquedos
para as crianças; inventava novas agulhas e alfinetes; 52 e, quando nada m ais havia a fazer, ia se sentar em um dos cantos da sala para trabalhar em sua enorm e rede.
Quando saíram da casa, Anne sentiu que deixava para trás um a grande felicidade. E Louisa, ao lado de quem se pegou cam inhando, se entregou a enleios de adm iração e deleite com relação ao tem peram ento dos oficiais da Marinha: discorreu sobre a am izade que os unia, o sentim ento fraterno, a atitude franca, a retidão de caráter; afirm ou estar convencida de que eles eram m ais dignos e m ais calorosos do que qualquer outro grupo de hom ens no país; que só eles sabiam viver, e que som ente eles m ereciam respeito e am or.
Voltaram todos à hospedaria para se trocar e j antar, e tudo havia corrido tão bem até então que ninguém encontrou nenhum defeito nas circunstâncias, apesar de os fatos de estarem “tão inteiram ente fora da tem porada”, de “Ly m e não ser nenhum grande centro” e de “não haver m uita esperança de terem com panhia” terem provocado profusos pedidos de desculpa por parte dos proprietários da hospedaria.
A essa altura, Anne constatou que j á estava tão m ais acostum ada à com panhia do capitão Wentworth do que inicialm ente im aginara ser possível que sentar-se à m esm a m esa e trocar com ele as civilidades que se esperava de tal situação (e que nunca passavam disso) estavam se transform ando em quase nada.
As noites j á estavam escuras dem ais para que as senhoras se encontrassem novam ente antes da m anhã seguinte, m as o capitão Harville havia lhes prom etido um a visita ainda nesse dia; e de fato apareceu, trazendo tam bém o am igo, o que era m ais do que o esperado, pois todos haviam concordado que o capitão Benwick dava todas as indicações de se sentir oprim ido pela presença de tantos desconhecidos. No entanto, ele tornou a se aventurar em sua com panhia, em bora sua disposição com certeza não parecesse condizer com a alegria generalizada do grupo.
Enquanto os capitães Wentworth e Harville conduziam a conversa em um dos cantos da sala e, relem brando o passado, forneciam num erosas anedotas para ocupar e entreter os outros, coube a Anne ficar sentada um tanto afastada na com panhia do capitão Benwick; e um excelente im pulso de sua natureza a levou a travar conhecim ento com ele. Era um rapaz tím ido, dado a pensam entos abstratos, m as a encantadora tranquilidade do sem blante de Anne e seus m odos delicados logo surtiram efeito, e ela viu recom pensados os seus prim eiros esforços. Tratava-se evidentem ente de um rapaz com gosto apurado para a leitura, em bora sobretudo para a poesia; e, além de estar convencida de ter lhe proporcionado ao m enos um a noite de conversa sobre tem as pelos quais seus com panheiros habituais provavelm ente não tinham qualquer apreço, ela teve tam bém a esperança de poder lhe ser útil fazendo algum as sugestões relativas à necessidade e às vantagens de se lutar contra a tristeza que brotaram naturalm ente da sua conversa. Pois, em bora tím ido, ele não parecia reservado: parecia, pelo contrário, que aqueles sentim entos estavam contentes em poder se libertar dos costum eiros grilhões; assim , depois de falar sobre poesia, sobre a riqueza da época atual nessa m atéria, e de fazer um a breve com paração de opiniões quanto aos poetas de prim eira linha, e de tentar decidir se Marmion era
preferível à 53 Dama do lago , e com o o Giaour se com parava à Noiva de
Abydos 54 , e m ais ainda, com o se deveria pronunciar “giaour”, ele se m ostrou tão íntim o conhecedor de todos os m ais afetuosos cantos do prim eiro poeta, e de todas as arrebatadas descrições de agonia sem rem édio do segundo, repetiu com tão trêm ula em oção as várias estrofes descrevendo um coração partido ou um a m ente destruída pela m aldade, e deu tantas m ostras de querer ser com preendido, que ela se atreveu a esperar que ele nem sem pre lesse apenas poesia, e a dizer que achava que o fardo da poesia era poder ser raram ente saboreada com segurança por pessoas que a apreciavam de fato, e que os fortes sentim entos que eram os únicos capazes de avaliá-la eram j ustam ente aqueles que só deveriam prová-la com m oderação.
Com o a expressão no rosto dele dem onstrava não dor, m as satisfação com essa alusão à sua situação, ela sentiu-se encoraj ada a prosseguir e, j ulgando estar na posição superior de um a m ente m ais experim entada, atreveu-se a recom endar um a quantidade m aior de prosa em suas leituras diárias. Quando instada a ser m ais específica, m encionou as obras de nossos m elhores m oralistas, as coletâneas das m ais belas cartas e as m em órias de autores de grande valor e extenso sofrim ento que lhe ocorreram no m om ento com o capazes de despertar e fortalecer o espírito por m eio dos m ais elevados preceitos e dos m ais fortes exem plos de resistência m oral e religiosa.
O capitão Benwick escutou com atenção, parecendo grato pelo interesse que aquelas palavras sugeriam . E, em bora tenha sacudido a cabeça e soltado suspiros que eram um a declaração de sua pouca fé na eficácia de qualquer livro para um a tristeza com o a sua, anotou os nom es daqueles que ela recom endou e prom eteu procurá-los e lê-los.
Encerrada a noite, Anne não pôde evitar se divertir ao pensar que tinha ido até Ly m e aconselhar paciência e resignação a um rapaz que nunca tinha visto antes. Tam pouco, ao pensar m ais seriam ente sobre o assunto, pôde evitar tem er que, a exem plo de m uitos outros grandes m oralistas e pregadores, sua eloquência tivesse alcançado um nível que a própria conduta, se exam inada, não seria capaz de honrar.
CAPÍTULO 12
Anne e Henrietta, as duas prim eiras do grupo a despertar no dia seguinte, concordaram em dar um passeio até o m ar antes do café da m anhã. Foram até as dunas adm irar o m ovim ento das ondas que, sob um a boa brisa vinda do sudoeste, subiam com toda a grandiosidade perm itida por um litoral tão pouco acidentado. Am bas elogiaram a m anhã, glorificaram o m ar, deleitaram -se com a brisa fresca, e guardaram silêncio, até Henrietta recom eçar subitam ente a falar dizendo:
– Ah, sim ! Estou convencida de que, com m uito poucas exceções, a brisa do m ar sem pre faz bem . Não resta dúvida de que ela prestou um grande serviço ao dr. Shirley depois de sua doença, que com pletou um ano na prim avera passada. Ele m esm o declarou que vir passar um m ês em Ly m e lhe fez m ais bem do que todos os rem édios que tom ou, e que estar perto do m ar sem pre o faz se sentir j ovem outra vez. Não posso deixar de pensar que é um a pena ele não m orar o tem po todo perto do m ar. Acho de fato que seria m elhor ele se m udar de Uppercross e vir m orar em Ly m e. Você não acha, Anne? Não concorda com igo que seria a m elhor coisa que ele poderia fazer, tanto para si m esm o quanto para a sra. Shirley ? Ela tem prim os aqui, você sabe, além de m uitos conhecidos, o que tornaria sua vida bem alegre, e tenho certeza de que ficaria feliz por m orar em um lugar onde pudesse dispor de cuidados m édicos caso ele viesse a ter um novo ataque. De fato, considero m uito triste pessoas excelentes com o o dr. Shirley e sua esposa, que passaram a vida inteira fazendo o bem , terem que desperdiçar seus últim os dias em um lugar com o Uppercross, onde, com exceção de nossa fam ília, parecem isolados do resto do m undo. Gostaria que os am igos dele lhe fizessem essa proposta. Acho de fato que deveriam fazê-la. Quanto a obter um a dispensa, acho que não haveria dificuldade algum a quanto a isso nesta fase de sua vida e com o caráter que ele tem . Minha única dúvida é se algo seria capaz de convencê-lo a abandonar sua paróquia. Ele é tão rígido e cheio de escrúpulos em seus conceitos; excessivam ente escrupuloso, devo dizer. Você não acha que ele está sendo excessivam ente escrupuloso, Anne? Não acha que sacrificar a própria saúde em nom e de deveres que podem m uito bem ser desem penhados por outra pessoa é um a atitude equivocada? Além disso, em Ly m e, a m enos de trinta quilôm etros de distância, ele estaria perto o suficiente para ficar sabendo se as pessoas achassem que houvesse m otivo para reclam ação.
Durante esse discurso, Anne sorriu consigo m esm a m ais de um a vez, e abordou o assunto tão disposta a fazer o bem discorrendo sobre os sentim entos de um a m oça quanto o havia feito com um rapaz, em bora nesse caso o bem fosse m enos im portante, pois o que poderia fazer a não ser concordar? Anne falou sobre o assunto tudo aquilo que era razoável e adequado, dem onstrou os sentim entos condizentes para com o repouso do dr. Shirley, afirm ou o quão desej ável seria ele ter algum rapaz ativo e respeitável com o cura residente, e teve até a cortesia de fazer um a alusão à vantagem de o cura residente em questão ser casado.
– Com o eu gostaria – disse Henrietta, m uito satisfeita com sua interlocutora –, com o eu gostaria que Lady Russell m orasse em Uppercross e conhecesse bem o dr. Shirley. Sem pre ouvi falar da sra. Russell com o um a m ulher de grande influência com todos! Sem pre a im agino com o alguém capaz de persuadir um a pessoa a qualquer coisa! Tenho m edo dela, com o j á lhe disse antes, tenho m uito m edo por ela ser tão inteligente, m as a respeito im ensam ente, e queria que tivéssem os um a vizinha com o ela em Uppercross.
Anne achou divertida aquela form a de Henrietta se m ostrar agradecida, e tam bém achou divertido que o curso dos acontecim entos e os novos interesses das opiniões de Henrietta tivessem valido à sua am iga as boas graças da fam ília Musgrove. No entanto, tudo que teve tem po para fazer foi dar um a resposta genérica e desej ar que houvesse outra m ulher assim em Uppercross antes de todos os assuntos cessarem quando as duas viram Louisa e o capitão Wentworth vindo em sua direção. Eles tam bém tinham vindo dar um passeio antes de o café da m anhã ficar pronto, m as Louisa, lem brando-se logo em seguida de que tinha um a com pra a fazer, convidou-os a acom panharem -na até a cidade. Todos se puseram à sua disposição.
Quando chegaram aos degraus que subiam da praia, um cavalheiro, que no m esm o instante se preparava para descer, recuou com educação e parou para lhes dar passagem . Os quatro subiram e passaram por ele e, quando passaram , o rosto de Anne cham ou sua atenção, e ele a olhou com um a adm iração ardorosa e tão intensa que ela não pôde se m ostrar insensível. Ela estava com um aspecto excelente nesse dia: os traços m uito regulares, m uito bonitos, haviam sido insuflados novam ente com o viço e o frescor da j uventude graças à brisa que vinha soprando em seu rosto e à anim ação dos olhos que esta tam bém havia produzido. Ficou claro que o cavalheiro (um cavalheiro deveras, a tirar pelos m odos) a adm irava im ensam ente. O capitão Wentworth olhou para trás e a encarou na m esm a hora de um a form a que m ostrava que havia percebido. Lançou-lhe um breve olhar, um olhar brilhante que parecia dizer: “A senhorita encantou esse hom em , e até eu, agora, estou vendo novam ente algo da antiga Anne Elliot.”
Depois de aj udar Louisa com sua obrigação e de flanar ainda um pouco pela cidade, os três voltaram para a hospedaria, e Anne, logo em seguida, quando estava indo rapidam ente do quarto para a sala de j antar, quase trom bou com o m esm o cavalheiro de antes, que saía de aposentos contíguos. Antes, havia im aginado que ele tam bém fosse um forasteiro, com o eles, e determ inado que um cavalariço bem -apanhado que passeava perto das duas hospedarias quando haviam retornado devia ser o seu criado. O fato de tanto o patrão quanto o em pregado estarem de luto corroborava a ideia. Agora estava provado que os dois ocupavam a m esm a hospedaria que o seu grupo, e esse segundo encontro, por m ais breve que tenha sido, tam bém tornou a confirm ar, pela expressão do cavalheiro, que ele considerava Anne m uito bonita, e, pela prontidão e propriedade de suas desculpas, que era um hom em de boas m aneiras excepcionais. Parecia ter em torno de trinta anos e, em bora não fosse bonito, tinha um a aparência agradável. Anne sentiu que gostaria de saber quem ele era.
O grupo j á havia quase term inado o café da m anhã quando o barulho de um a carruagem (quase a prim eira que escutavam desde a chegada em Ly m e) atraiu
m etade dele até a j anela. “Era o 55 curricle de um cavaleiro… apenas deu a volta das estrebarias até a frente da hospedaria… alguém devia estar de partida… A carruagem era conduzida por um criado de luto…”
A palavra curricle fez Charles Musgrove pular da cadeira para ir com pará-lo ao seu próprio, e o criado de luto despertou a curiosidade de Anne; e estavam todos os seis reunidos a tem po de ver o dono da carruagem sair pela porta em m eio às m esuras e aos cum prim entos dos donos da hospedaria e tom ar seu lugar para partir.
– Ah! – exclam ou o capitão Wentworth sem dem ora, relanceando os olhos por um breve instante na direção de Anne. – É o m esm o cavalheiro por quem passam os.
As irm ãs Musgrove concordaram e, depois de ficarem todos observando o cavalheiro com atenção até tão longe colina acim a quanto possível, voltaram à m esa do desj ej um . Logo depois, o garçom da hospedaria entrou no recinto.
– Por gentileza, poderia nos dizer o nom e do cavalheiro que acaba de ir em bora? – perguntou o capitão Wentworth na m esm a hora.
– Sim , senhor: aquele era o sr. Elliot, um cavalheiro de grande fortuna, que chegou ontem à noite de Sidm outh. Im agino que tenham ouvido a carruagem enquanto estavam j antando. E ele agora está indo para Crewkherne, a cam inho de Bath e de Londres.
– Elliot! – m uitos do grupo haviam se entreolhado, e m uitos repetido o nom e, antes m esm o de todas as inform ações terem sido dadas, ainda que com a arguta rapidez de um garçom .
– Por Deus, deve ser o nosso prim o! – exclam ou Mary. – Deve ser o nosso sr. Elliot, deve, sim ! Não acham que deve ser, Charles, Anne? E de luto, estão vendo, j ustam ente com o o nosso sr. Elliot deve estar. Que coisa extraordinária! E na m esm a hospedaria que nós! Anne, não deve ser o nosso sr. Elliot, herdeiro de papai? Senhor, por gentileza – disse ela, virando-se para o garçom –, por acaso não ouviu dizer, por acaso o criado dele não disse se ele pertencia à fam ília de Kelly nch?
– Não, senhora, ele não m encionou nenhum a fam ília em particular, m as disse que o patrão era um cavalheiro m uito rico, e que algum dia seria um baronete.
– Pronto! Estão vendo? – exclam ou Mary, extasiada. – Foi o que eu disse! O herdeiro de Sir Walter Elliot! Tinha certeza de que essa inform ação seria revelada, caso fosse m esm o verdade. Podem ter certeza de que esse é um fato que os criados gostam de alardear aonde quer que ele vá. Mas Anne, vej a só que coisa m ais extraordinária! Queria ter olhado para ele com m ais atenção. Queria que tivéssem os sabido a tem po de quem se tratava, e que ele nos tivesse sido apresentado. Que pena não term os sido apresentados! Você acha que ele tinha o porte dos Elliot? Eu m al olhei para ele, estava prestando atenção nos cavalos, m as acho que ele tinha algo do porte dos Elliot. Que estranho eu não ter reparado no brasão! Ah, o sobretudo estava pendurado na porta da carruagem escondendo o brasão, foi isso, senão tenho certeza de que o teria visto, e a libré do em pregado tam bém : se o criado não estivesse de luto, teria sido possível reconhecê-lo pela
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libré.
– Juntando todas essas circunstâncias deveras extraordinárias, é de se pensar que o fato de a senhora não ter sido apresentada ao seu prim o tenha sido obra do destino – com entou o capitão Wentworth.
Quando conseguiu atrair a atenção de Mary, Anne tentou persuadi-la discretam ente de que havia m uitos anos o seu pai e o sr. Elliot não tinham um a relação que tornasse desej ável qualquer tentativa de apresentação.
Ao m esm o tem po, no entanto, ter visto o prim o constituía para ela um a gratificação secreta, e saber que o futuro proprietário de Kelly nch era sem som bra de dúvida um cavalheiro, e parecia um hom em sensato. Fossem quais fossem as circunstâncias, não iria m encionar a segunda ocasião em que os dois haviam se encontrado; por sorte, Mary não deu m uita atenção ao fato de terem passado perto dele no prim eiro passeio, m as teria se sentido bastante dim inuída pelo fato de Anne ter esbarrado com ele dentro da hospedaria e recebido suas bem -educadas desculpas, enquanto ela j am ais sequer chegara perto dele. Não: aquele breve encontro entre prim os devia perm anecer totalm ente em segredo.
– Naturalm ente, da próxim a vez que m andar um a carta para Bath, você vai m encionar que vim os o sr. Elliot – disse Mary. – Acho que m eu pai com certeza deveria ficar sabendo; conte tudo sobre ele.
Anne evitou um a resposta direta, m as aquele era j ustam ente um fato que ela considerava não apenas que não devesse ser com unicado, m as tam bém que devesse ser om itido. Estava a par da ofensa feita a seu pai lá se iam m uitos anos, desconfiava da responsabilidade que Elizabeth tinha no ocorrido, e não duvidava que pensar no sr. Elliot sem pre provocasse a irritação de am bos. Mary nunca escrevia ela própria para Bath; todo o fardo de m anter um a correspondência lenta e insatisfatória com Elizabeth recaía sobre Anne.
Pouco depois de term inado o café da m anhã, o capitão e a sra. Harville chegaram acom panhados do capitão Benwick; ficara com binado que todos dariam com eles um últim o passeio por Ly m e. Deveriam partir para Uppercross à um a da tarde, e até lá ficariam j untos e ao ar livre pelo m áxim o de tem po possível.
Anne viu o capitão Benwick se aproxim ar dela assim que todos saíram para a rua. A conversa da noite anterior não o havia desencoraj ado a buscar novam ente sua com panhia, e os dois passaram algum tem po cam inhando j untos, conversando com o da prim eira vez sobre Sir Walter Scott e Lord By ron, e ainda incapazes, com o antes, e com o quaisquer outros leitores, de j ulgar exatam ente equivalentes os m éritos de um e de outro, até que algo causou um a m udança quase generalizada em seu grupo e, em lugar do capitão Benwick, ela se viu lado a lado com o capitão Harville.
– Srta. Elliot – disse-lhe ele, falando com a voz um tanto baixa –, a senhorita fez um bem im enso levando esse pobre rapaz a falar tanto. Gostaria que ele tivesse um a com panhia assim com m ais frequência. Sei que é ruim para ele ficar isolado com o sem pre fica, m as o que podem os fazer? Não podem os nos separar dele.
– Não – concordou Anne –, posso entender que isso sej a im possível. Mas com o tem po, talvez… Sabem os do que o tem po é capaz em caso de tristeza, e o senhor não deve se esquecer, capitão Harville, de que o seu am igo é o que se pode cham ar de um enlutado recente… pelo que sei, tudo aconteceu no verão passado.
– Sim – com um profundo suspiro –, é verdade, em j unho.
– E talvez ele não tenha ficado sabendo de im ediato.
– Ele só ficou sabendo na prim eira sem ana de agosto, quando voltou do Cabo com o capitão do Grappler. Eu estava em Ply m outh, m uito receoso de ter notícias; ele m andou cartas, m as o Grappler tinha ordens de ir para Portsm outh. Era lá que ele receberia a notícia, m as da boca de quem ? Não da m inha. Antes
ser enforcado no lais de verga. 57 O único capaz de dar a notícia era esse nosso bom rapaz – disse ele, apontando para o capitão Wentworth. – O Laconia tinha atracado em Ply m outh na sem ana anterior; não havia o m enor risco de ser posto novam ente no m ar. Quanto ao resto, ele arriscou: pediu um a licença, m as, sem esperar resposta, viaj ou noite e dia até chegar a Portsm outh, de onde na m esm a hora seguiu rem ando até o Grappler e passou um a sem ana sem sair de perto do pobre rapaz. Foi isso que ele fez, e ninguém m ais poderia ter salvado o pobre Jam es. A senhorita pode avaliar a estim a que tem os por ele!
Anne tinha um a opinião m uito clara sobre essa questão, e respondeu aquilo que os seus próprios sentim entos foram capazes de form ular, ou que os do capitão pareciam capazes de suportar, pois ele estava dem asiado afetado para retom ar o assunto e, quando tornou a falar, foi de outro tem a inteiram ente diferente.
A sra. Harville, depois de em itir a opinião de que o m arido j á teria cam inhado m ais do que o suficiente quando chegassem a casa, determ inou a direção do grupo todo no que seria o seu últim o passeio: todos acom panhariam o casal até a porta de sua casa, e em seguida voltariam e partiriam da cidade. Segundo todos os seus cálculos, havia tem po suficiente para tal, m as, ao se aproxim arem do Quebra-Mar, houve um a vontade tão generalizada de por ele passear m ais um a vez, e todos se m ostraram tão inclinados a isso, e Louisa passou a m anifestar tam anha determ inação, que a diferença de um quarto de hora, j ulgou-se, não faria a m enor diferença. Assim , com todas as educadas despedidas e todas as gentis trocas de convites e prom essas que se poderia im aginar, eles se separaram do capitão e da sra. Harville na porta da residência do casal e, ainda acom panhados pelo capitão Benwick, que parecia não querer deixá-los, foram se despedir devidam ente do Quebra-Mar.
Anne viu que o capitão Benwick se aproxim ava dela. O “m ar azul-escuro” de
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Lord By ron não pôde deixar de lhes vir à m ente com a visão que tinham diante de si, e ela lhe concedeu de bom grado toda a sua atenção enquanto isso foi possível. Mas logo foi inevitavelm ente atraída em outra direção.
O vento estava dem asiado forte para que o ponto m ais elevado do novo Quebra-Mar fosse agradável para as senhoras, e elas concordaram em descer os degraus até a parte m ais baixa, e todos aceitaram descer em silêncio e com cuidado o íngrem e lance de escada, com exceção de Louisa: esta exigiu saltar os degraus com o auxílio do capitão Wentworth. Em todas as cam inhadas que haviam feito, ele tivera de aj udá-la a saltar as sebes; isso provocava nela um a sensação deliciosa. Nessa ocasião, a dureza do piso para os pés de Louisa o fez hesitar, m as m esm o assim ele a segurou. Ela desceu os degraus em segurança, e na m esm a hora, para dem onstrar seu contentam ento, tornou a subi-los correndo para saltar de novo até lá em baixo. O capitão a aconselhou a não fazê-lo, j ulgando o choque forte dem ais; m as não, todos os seus argum entos e pedidos foram em vão, e Louisa sorriu e disse: “Estou decidida, vou saltar.” Ele então estendeu os braços, m as ela se precipitou por m eio segundo e caiu no patam ar inferior do Quebra-Mar, e foi recolhida do chão desacordada!
Não havia ferim ento, nem sangue, nem qualquer hem atom a visível, m as seus olhos estavam fechados e ela havia parado de respirar, e o sem blante era a cara da m orte. Que instante terrível para todos os que estavam à sua volta!
O capitão Wentworth, que a havia recolhido, aj oelhou-se com ela nos braços e a fitou com um rosto tão pálido quanto o dela e um silêncio tom ado pela agonia.
– Ela está m orta! Está m orta! – gritou Mary, agarrando-se ao m arido e contribuindo com o terror que ele sentia para deixá-lo paralisado. Dali a m ais um instante, Henrietta, sucum bindo a essa certeza, perdeu tam bém os sentidos, e teria caído nos degraus não fossem o capitão Benwick e Anne, que a seguraram e am pararam ao m esm o tem po.
– Não há ninguém para m e aj udar? – foram as prim eiras palavras pronunciadas pelo capitão Wentworth com um tom desesperado, com o se todas as suas forças tivessem se esvaído.
– Vá aj udá-lo, vá aj udá-lo – exclam ou Anne –, pelo am or de Deus, vá aj udá-lo. Eu posso segurá-la sozinha. Deixe-m e aqui, vá aj udá-lo. Esfregue as m ãos dela, esfregue suas têm poras. Tom e, aqui estão alguns sais: leve-os, leve-os.
O capitão Benwick obedeceu, e na m esm a hora Charles largou a esposa, e am bos foram aj udá-lo. E Louisa foi erguida e am parada com m ais firm eza pelos três, e tudo o que Anne havia recom endado foi feito, m as em vão. Enquanto isso, o capitão Wentworth, cam baleando até j unto da m ureta para se segurar, exclam ou, tom ado pela m ais excruciante agonia:
– Ah, m eu Deus! Seu pai e sua m ãe!
– Um m édico! – disse Anne.
Ele ouviu o que ela dissera, e aquilo pareceu despertá-lo na m esm a hora. E dizendo apenas:
– Sim , sim , um m édico agora m esm o – j á estava partindo depressa quando Anne sugeriu com convicção:
– Não seria m elhor se o capitão Benwick fosse? Ele sabe onde encontrar um m édico.
Todos que ainda conseguiam raciocinar puderam constatar a vantagem da ideia, e em poucos instantes (tudo aconteceu em poucos instantes) o capitão Benwick j á havia confiado aos cuidados do irm ão a pobre form a cadavérica da j ovem e partido para a cidade com a m aior rapidez possível.
Quanto ao grupo desolado que ali ficou, quase não era possível dizer quem sofria m ais dos três que ainda conservavam toda a sua razão: o capitão Wentworth, Anne ou Charles, que, com portando-se com o um irm ão realm ente m uito afetuoso, estava curvado j unto a Louisa tom ado por soluços de dor, e só podia desviar os olhos de um a irm ã para ver a outra em um estado igualm ente inerte, ou então testem unhar a agitação histérica da esposa a lhe solicitar um a aj uda que ele era incapaz de proporcionar.
Anne, que estava cuidando de Henrietta com toda a força, todo o zelo e toda a atenção que o instinto era capaz de proporcionar, ainda tentava, a intervalos regulares, dar algum conforto aos outros: acalm ar Mary, anim ar Charles, tranquilizar o capitão Wentworth. Os dois hom ens pareciam olhar para ela à espera de instruções.
– Anne, Anne, o que devem os fazer agora? – exclam ou Charles. – Pelo am or de Deus, o que devem os fazer agora?
Os olhos do capitão Wentworth tam bém se viraram em sua direção.
– Não seria m elhor levá-la para a hospedaria? Sim , tenho certeza de que é o m elhor: levem -na com cuidado para a hospedaria.
– Sim , sim , para a hospedaria – repetiu o capitão Wentworth, com parativam ente controlado e ansioso para fazer algum a coisa. – Eu m esm o posso carregá-la. Musgrove, cuide das outras.
A essa altura, a notícia do acidente j á havia se espalhado entre os operários e pescadores espalhados pelo Quebra-Mar, e m uitos haviam se j untado ao seu redor para aj udar se fosse preciso, ou pelo m enos para adm irar o espetáculo de um a m oça m orta, ou m elhor, de duas m oças m ortas, pois a situação se revelou duas vezes m ais interessante do que o prim eiro relato pudera sugerir. Henrietta foi confiada aos cuidados de alguns dos m ais bem -apessoados desses espectadores, pois, em bora houvesse recuperado parcialm ente os sentidos, ainda era incapaz de andar sozinha. E assim , com Anne a cam inhar a seu lado enquanto Charles cuidava da esposa, seguiram todos em direção à hospedaria, percorrendo de volta, tom ados por sensações indizíveis, o m esm o cam inho que haviam percorrido antes, tão pouco tem po antes e com o coração tão leve.