Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 12/12

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Persuasão

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Não pôde haver qualquer obj eção. Tudo que pôde haver foi um a prontidão da m ais adequada e um a conduta da m ais condizente com o espaço público em que se encontravam ; isso além de sorrisos contidos e espíritos que se deleitavam com um enleio secreto. Dali a m eio m inuto, Charles j á estava de novo no pé da Union Street, e os dois seguiram j untos: e logo palavras suficientes haviam sido trocadas para que decidissem tom ar a direção do cam inho de cascalho, com parativam ente m ais tranquilo e protegido, onde o poder da conversa de fato foi capaz de transform ar o presente em um a bênção e prepará-lo para toda a im ortalidade que as m ais felizes considerações quanto a seu futuro j untos podiam gerar. Ali os dois trocaram novam ente os sentim entos e as j uras que no passado haviam parecido ser a garantia de tudo, m as que haviam sido sucedidos por tantos anos de distância e separação. Ali revisitaram outra vez o passado, talvez tom ados por um a felicidade ainda m ais intensa naquele reencontro do que na prim eira ocasião; m ais afetuosos, m ais experientes, m ais seguros do caráter, da sinceridade e do afeto um do outro; m ais capazes de agir e m ais j ustificados em fazê-lo. E ali, ao percorrer lentam ente o aclive gradual, alheios a qualquer outro grupo à sua volta, sem ver os políticos com seu andar saltitante, as donas de casa atarefadas, as m oças que flertavam ou as babás com suas crianças, puderam se entregar a essas lem branças e reconhecim entos, e sobretudo à explicação dos acontecim entos que haviam antecedido im ediatam ente aquele instante, tão pungentes e de interesse tão inesgotável. Todas as ínfim as variações da sem ana anterior foram rem em oradas; e a véspera e a m anhã desse m esm o dia deram m argem a infinitas conversas.

Ela não o havia interpretado m al. O ciúm e que sentira do sr. Elliot havia sido de fato um estorvo, gerando dúvida e torm ento. Este havia com eçado a agir desde o prim eiro instante de seu encontro com ela em Bath; e havia retornado, após um curto intervalo, para arruinar o concerto; e isso o havia influenciado em tudo o que tinha dito, feito ou deixado de dizer ou fazer durante as últim as vinte e quatro horas. Havia aos poucos com eçado a ceder à esperança m ais feliz que os olhares, as palavras ou as ações de Anne ocasionalm ente davam a entender; e havia sido derrotado enfim pelos sentim entos e pelo tom de voz que pudera escutar durante a conversa dela com o capitão Harville; e fora sob o seu dom ínio irresistível que ele havia pegado um a folha de papel e derram ado os próprios sentim entos.

Nada do que ele havia escrito deveria ser retirado ou relativizado. Ele insistia que nunca am ara ninguém exceto ela. Ela nunca fora substituída. Ele não acreditava nem m esm o algum dia ter conhecido um a m ulher igual a ela. Pelo m enos um a coisa era obrigado a reconhecer: que havia sido fiel de form a inconsciente, não intencional, até; que sua intenção era esquecê-la, e que ele acreditava tê-la esquecido. Havia se im aginado indiferente, quando na verdade estava apenas zangado; e tinha sido inj usto em relação aos seus m éritos, pois estes o tinham feito sofrer. Seu caráter estava agora gravado em sua m ente com o a própria im agem da perfeição, o m ais belo exem plo de coragem e delicadeza; m as ele era obrigado a adm itir que som ente em Uppercross havia aprendido a lhe fazer j ustiça, e que som ente em Ly m e havia com eçado a entender os próprios sentim entos.

Em Ly m e, havia aprendido lições de m ais de um tipo. A adm iração passageira do sr. Elliot pelo m enos o fizera despertar, e as cenas no Quebra-Mar e na casa do capitão Harville haviam confirm ado a superioridade de Anne.

Quanto às suas tentativas anteriores de se afeiçoar a Louisa Musgrove (tentativas m ovidas por um orgulho zangado), ele afirm ou que sem pre j ulgara isso im possível; que não gostava, que não podia gostar de Louisa; em bora som ente nesse dia, som ente depois de ter podido refletir, tenha sido capaz de entender a excelência e a perfeição da m ente com a qual a de Louisa não podia se com parar, ou o poder absoluto e sem rival que esta exercia sobre a sua. Som ente então havia aprendido a diferenciar firm eza de princípios da obstinação causada pela teim osia, entre arroubos tem erários da resolução de um a m ente ponderada. Som ente então tinha visto tudo aquilo capaz de exaltar em sua estim a a m ulher que havia perdido; e com eçara então a se arrepender do orgulho, da insensatez, do louco ressentim ento que o haviam im pedido de tentar reconquistá-la quando ela ressurgiu em seu cam inho.

A partir dessa data, sua penitência havia sido severa. Logo depois de superados o horror e o rem orso dos prim eiros dias após o acidente de Louisa, logo depois de ele recom eçar a se sentir vivo, havia percebido que, em bora vivo, não estava livre.

– Descobri que Harville m e considerava um hom em com prom etido! – disse ele. – Que nem Harville nem a esposa tinham qualquer dúvida quanto a nosso afeto m útuo. Fiquei surpreso e chocado. Até certo ponto, pude contradizê-lo na hora, m as, quando com ecei a refletir que outras pessoas talvez tivessem sentido a m esm a coisa… a fam ília dela, ou até m esm o a própria Louisa… não pude m ais agir com o gostaria. Minha honra m e obrigava a ser dela caso ela assim desej asse. Eu havia sido descuidado. Não havia pensado seriam ente no assunto antes. Não havia considerado que m eu excesso de intim idade m e expunha obrigatoriam ente a m uitos tipos de consequências nefastas; e que eu não tinha o direito de tentar ver se conseguia m e afeiçoar a algum a das duas m oças com o risco de gerar algum boato desagradável, ainda que não houvesse outros efeitos nefastos. Eu havia m e enganado redondam ente, e tinha de suportar as consequências.

Em sum a, ele havia descoberto, tarde dem ais, que estava enredado; e que, j ustam ente quando se convenceu de não nutrir qualquer afeto por Louisa, tinha de se considerar com prom etido com ela caso os sentim entos da j ovem fossem com o os Harville supunham . Isso o convenceu a ir em bora de Ly m e e aguardar em outro lugar o seu com pleto restabelecim ento. Tentaria de bom grado enfraquecer, por todos os m eios legítim os possíveis, qualquer sentim ento ou suposição a seu respeito que pudesse existir; assim , fora para a casa do irm ão com a intenção de voltar a Kelly nch depois de algum tem po e agir com o exigiriam as circunstâncias.

– Passei seis sem anas com Edward – disse ele –, e j ulguei-o feliz. Não conseguia ter qualquer outro prazer. Não m erecia nenhum . Ele m e pediu m uito especificam ente notícias da senhorita; perguntou até se estava m uito alterada fisicam ente, sem desconfiar que, aos m eus olhos, a senhorita j am ais poderia se alterar.

Anne sorriu e deixou passar o com entário. Era um a gafe agradável dem ais para ser repreendida. É relevante para um a m ulher de quase vinte e oito anos ser tranquilizada quanto a não ter perdido nenhum dos charm es de outrora; m as o valor desse elogio era indescritivelm ente intensificado para Anne pela com paração com palavras anteriores e pela sensação de que este era o resultado, e não a causa, do ressurgim ento de seu caloroso afeto.

Ele havia perm anecido em Shropshire, deplorando a cegueira do próprio orgulho e os erros dos próprios cálculos, até se ver subitam ente liberado de Louisa pela espantosa e feliz notícia de seu noivado com Benwick.

– Foi então – disse ele – que o m eu período m ais som brio se encerrou; pois eu agora poderia pelo m enos com eçar a m e m over em direção à felicidade; podia m e esforçar; podia fazer algum a coisa. Mas ter esperado tanto tem po sem agir, im aginando apenas coisas ruins, tinha sido terrível. Em m enos de cinco m inutos eu disse a m im m esm o: “Na quarta-feira j á estarei em Bath”, e foi o que fiz. Terá sido im perdoável pensar que valia a pena vir? E chegar m unido de algum a esperança? A senhorita estava solteira. Era possível que, assim com o eu, ainda conservasse os sentim entos do passado. Além do m ais, eu tinha um m otivo para m e anim ar. Jam ais poderia duvidar que a senhorita tornaria a ser am ada e cortej ada por outros, m as sabia com certeza que havia recusado pelo m enos um hom em m ais ilustre do que eu; e não podia evitar perguntar a m im m esm o com frequência: “Terá sido por m inha causa?”

O prim eiro encontro dos dois em Milsom Street deu m argem a m uitas conversas, e o concerto ainda m ais. Aquela noite parecia ter sido constituída inteiram ente de m om entos inesquecíveis. O instante em que ela havia se adiantado para falar com ele no Salão Octogonal, o instante em que o sr. Elliot havia aparecido para levá-la em bora e um ou dois instantes subsequentes m arcados pelo ressurgim ento da esperança ou pelo aum ento da tristeza foram debatidos com energia.

– Ver a senhorita – exclam ou ele –, vê-la no m eio de pessoas que não poderiam desej ar o m eu bem ; ver o seu prim o tão próxim o, conversando e sorrindo, e pensar em todas as horríveis vantagens e conveniências de tal enlace! Pensar que este devia ser o desej o certo de qualquer pessoa que pudesse esperar influenciá-la! Mesm o que seus próprios sentim entos fossem relutantes ou indiferentes, pensar no forte apoio de que ele dispunha! Será que isso não bastava para tornar ridículos os m eus anseios? Com o assistir àquilo sem agonia? A sim ples visão de sua am iga sentada atrás da senhorita, a lem brança do que havia ocorrido, a consciência da influência dela, a im pressão indelével, inalterável do que a persuasão um dia havia ocasionado… isso tudo não estava contra m im ?

– O senhor deveria ter separado as duas situações – respondeu Anne. – Não deveria ter desconfiado de m im agora; a situação é m uito diferente, e m inha idade tam bém . Se eu errei ao ceder um a vez à persuasão, lem bre-se de que cedi à persuasão exercida em favor da segurança, não do risco. Quando cedi, pensei estar cedendo ao dever, m as neste caso atual não é possível alegar qualquer dever. Se eu m e casasse com um hom em que m e é indiferente, teria corrido todos os riscos e violado todos os deveres.

– Talvez eu devesse ter raciocinado assim – respondeu ele –, m as fui incapaz. Não pude extrair qualquer benefício do conhecim ento que havia adquirido em relação ao seu caráter. Não consegui fazer uso dele; estava soterrado, incapacitado, perdido em m eio àqueles sentim entos antigos que eu vinha tentando reprim ir ano após ano. Só conseguia pensar na senhorita com o alguém que havia cedido, que havia desistido de m im , que teria se deixado influenciar por qualquer outra pessoa que não eu. Encontrei-a acom panhada pela m esm a pessoa que a havia aconselhado naquele triste ano. Não tinha m otivos para pensar que sua autoridade agora houvesse dim inuído. Era preciso acrescentar a ela a força do hábito.

– Pensei que m eu com portam ento em relação ao senhor poderia lhe ter poupado todas essas dúvidas – disse Anne.

– Não, não! Seu com portam ento talvez refletisse apenas a descontração conferida por um noivado com outro hom em . Foi acreditando nisso que eu a deixei; no entanto, estava decidido a vê-la novam ente. Pela m anhã fiquei m ais anim ado, e senti que ainda tinha um m otivo para perm anecer na cidade.

Por fim , Anne chegou em casa outra vez, e m ais alegre do que qualquer m em bro de sua fam ília poderia im aginar. Com toda a surpresa e a incerteza, e todas as outras partes dolorosas da m anhã, dissipadas por essa conversa, ela tornou a entrar em casa tão feliz que foi obrigada a tem perar essa felicidade com algum as apreensões passageiras de que esta não poderia perdurar. Um intervalo de reflexão séria e agradecida era o m elhor rem édio para tudo o que havia de perigoso em um a satisfação tão intensa assim ; ela então se retirou para o quarto, e fez-se firm e e destem ida na gratidão por sua alegria.

A noite chegou, os salões foram ilum inados, o grupo se reuniu. Era apenas um a reunião de carteado, apenas um a m istura de pessoas que nunca haviam se encontrado antes com pessoas que se encontravam com dem asiada frequência; um acontecim ento banal, grande dem ais para ser íntim o e pequeno dem ais para ser variado; para Anne, porém , nunca houvera noite m ais curta. Radiante e em belezada pela sensatez e pela felicidade, e m ais adm irada do que poderia notar ou dar im portância, ela dem onstrou alegria e paciência com todos que a rodeavam . O sr. Elliot estava presente; ela o evitou, m as conseguiu sentir pena dele. Divertiu-se tentando entender o casal Wallis. Lady Dalry m ple e a srta. Carteret logo seriam para ela duas prim as inofensivas. Mostrou-se indiferente à sra. Clay, e não encontrou qualquer m otivo para enrubescer no com portam ento público do pai e da irm ã. Com os Musgrove houve as alegres conversas propiciadas por um a total descontração; com o capitão Harville, um a relação am igável entre irm ão e irm ã; com Lady Russell, tentativas de conversa que um a deliciosa consciência vinha interrom per; com o alm irante e a sra. Croft, tudo aquilo de singular cordialidade e fervoroso interesse que a m esm a consciência buscava ocultar; e, com o capitão Wentworth, instantes de com unicação que ocorreram com frequência, e sem pre a esperança de haver outros, e sem pre a consciência de que ele estava presente!

Foi durante um desses breves encontros, todos aparentem ente dedicados à adm iração de um a bela exposição de plantas de interior, que ela disse:

– Estive pensando no passado, e tentando distinguir com im parcialidade o certo do errado, com relação a m im m esm a, quero dizer; e devo acreditar que, por m ais que isso tenha m e feito sofrer, tive razão, tive inteira razão em m e deixar guiar pela am iga que o senhor irá aprender a am ar m ais do que am a agora. Para m im , ela era com o pai ou m ãe. Mas não m e entenda m al. Não estou dizendo que ela não errou em seu conselho. Talvez esse tenha sido um daqueles casos em que o conselho só é bom ou ruim dependendo dos desdobram entos; e eu, por m inha parte, com certeza j am ais darei um conselho assim em nenhum a circunstância nem parecida. O que quero dizer é que tive razão em acatar-lhe o conselho, e que, caso tivesse agido de outra form a, teria sofrido m ais prolongando o noivado do que sofri ao rom pê-lo, porque teria sofrido na consciência. Hoj e, até onde tal sentim ento é possível para a natureza hum ana, não tenho nenhum m otivo para repreender a m im m esm a; e, se não m e engano, um forte senso de dever não é um a coisa ruim para um a m ulher.

Ele olhou para ela, olhou para Lady Russell e, tornando a olhar para ela, respondeu com um tom de fria deliberação:

– Não está na hora ainda, m as há esperança de ela ser perdoada com o tem po. Tenho certeza de que logo terei sim patia por ela. Mas tam bém estive pensando no passado, e ocorreu-m e se não teria havido alguém m ais inim igo m eu do que essa senhora. Eu próprio. Responda-m e se, quando voltei à Inglaterra, no ano oito, dono de alguns m ilhares de libras, e fui nom eado capitão do Laconia, se nessa época eu houvesse lhe escrito, a senhorita teria respondido à m inha carta? Em sum a, teria reatado o noivado nessa ocasião?

– Se eu teria reatado? – foi tudo que ela respondeu; m as seu tom de voz não deu m argem a dúvidas.

– Meu Deus! – exclam ou ele. – A senhorita teria aceitado! Não que eu não tenha pensado nisso, nem desej ado tal fato com o a única coisa capaz de coroar todos os m eus outros sucessos; m as fui orgulhoso, orgulhoso dem ais para tornar a pedir. Não conseguia entender a senhorita. Fechei os olhos, e não quis entendê-la nem lhe fazer j ustiça. Essa é um a lem brança que deveria m e fazer perdoar a todos antes de perdoar a m im m esm o. Seis anos de separação e sofrim ento poderiam ter sido evitados. Esse tam bém é um tipo de dor novo para m im . Sem pre fui acostum ado à satisfação de m e j ulgar m erecedor de todas as bênçãos que recebia. Ufanava-m e de m eus esforços honrados e de m inhas recom pensas j ustas. Assim com o outros grandes hom ens em situação adversa, porém – acrescentou ele com um sorriso –, preciso tentar subj ugar m inha m ente ao m eu destino. Preciso aprender a tolerar ser m ais feliz do que m ereço.

CAPÍTULO 12

 

Quem pode duvidar do que aconteceu em seguida? Quando dois j ovens assim decidem se casar, é quase certo que, graças à perseverança, acabem por consegui-lo, por m ais pobres que sej am , por m ais im prudentes ou por m ais pouco provável que sej a a sua contribuição à satisfação final do outro. Talvez essa sej a um a m oral triste para concluir esta história, m as acredito que sej a a verdade; e, se casais assim obtêm sucesso, com o poderiam duas pessoas com o o capitão Wentworth e Anne Elliot, favorecidos pela m aturidade m ental, pela consciência de seu direito, e por um a fortuna própria da qual usufruir, fracassar na derrota de qualquer oposição? Na verdade, eles poderiam ter suportado bem m ais do que tiveram de enfrentar, pois pouca coisa os perturbou a não ser a falta de cortesia e calor hum ano. Sir Walter não fez qualquer obj eção, e Elizabeth não fez nada de m uito ruim a não ser adotar um ar frio e indiferente. O capitão Wentworth, dono de um a fortuna de vinte e cinco m il libras, e tão bem -sucedido em sua profissão quanto o m érito e o esforço poderiam ter perm itido, não era m ais um hom em qualquer. Ele era agora considerado digno o suficiente para cortej ar a filha de um baronete tolo e perdulário, desprovido de sensatez ou princípios suficientes para perm anecer na situação em que a providência o havia colocado, e que agora só podia dar à filha um a pequena parcela do quinhão de dez m il libras que deveria lhe caber m ais tarde.

De fato, Sir Walter, em bora não nutrisse qualquer afeto por Anne, e em bora a sua vaidade não se beneficiasse o bastante da ocasião para que esta lhe causasse qualquer contentam ento, estava longe de pensar que o capitão era um m au partido para ela. Pelo contrário, depois de ver o capitão Wentworth m ais vezes, depois de vê-lo em m uitas ocasiões à luz do dia e de observá-lo bem , ficou m uito im pressionado com seu charm e pessoal, e sentiu que a superioridade de sua aparência talvez pudesse com pensar a superioridade social de Anne; e tudo isso, aliado ao fato de o sobrenom e Wentworth lhe soar agradável aos ouvidos, perm itiu a Sir Walter finalm ente em punhar a pena, de m uito bom grado, para anotar o casam ento no livro de honra.

A única pessoa cuj os sentim entos contrários poderia causar qualquer ansiedade séria era Lady Russell. Anne sabia que esta devia estar tendo algum a dificuldade para entender e abrir m ão do sr. Elliot, e que devia estar se esforçando para vir de fato a conhecer e fazer j ustiça ao capitão Wentworth. Isso, porém , era o que Lady Russell precisava fazer agora. Ela precisava sentir que havia se equivocado em relação aos dois; que se deixara influenciar pelas aparências em am bos os casos; e que, com o os m odos do capitão Wentworth não se encaixavam com suas próprias ideias, havia sido rápida dem ais em desconfiar que indicassem um caráter perigosam ente im petuoso; e que, com o os m odos do sr. Elliot lhe haviam j ustam ente agradado por sua propriedade e correção, por sua boa educação e delicadeza geral, havia sido rápida dem ais em ver neles o resultado indubitável de opiniões corretas e de um a m ente bem -equilibrada. A Lady Russell só restava agora adm itir que havia se equivocado com pletam ente e adotar um novo conj unto de opiniões e esperanças.

Algum as pessoas possuem um a rapidez de percepção, um a delicadeza no discernim ento do caráter, um a com preensão natural, em sum a, que nenhum a experiência é capaz de igualar nos outros, e Lady Russell havia sido m enos bem -dotada nesse quesito do que sua j ovem am iga. Ela era, porém , um a m ulher excelente, e se o seu segundo obj etivo era ser sensata e fazer um j uízo correto das coisas, o seu prim eiro era ver Anne feliz. Am ava Anne m ais do que am ava as próprias qualidades e, um a vez superado o constrangim ento inicial, não teve m uita dificuldade para desenvolver um afeto de m ãe pelo hom em que estava garantindo a felicidade daquela sua outra filha.

De todos na fam ília, Mary foi provavelm ente quem ficou m ais im ediatam ente satisfeita com o acontecim ento. Ter um a irm ã casada era um fato respeitável, e ela poderia se gabar de ter tido um papel m uito im portante naquele enlace ao hospedar Anne consigo durante o outono; além disso, com o a irm ã precisava ser m elhor do que as irm ãs de seu m arido, era m uito agradável que o capitão Wentworth fosse um hom em m ais rico que o capitão Benwick e que Charles Hay ter. Ela talvez tenha tido algum m otivo para sofrer, quando as duas tornaram a se encontrar, ao ver que Anne havia recuperado seus direitos de irm ã m ais

velha,95 96 além de se tornar proprietária de um pequeno landau m uito bonito; m as podia prever um futuro de grandes consolos. Anne não teria um Uppercross Hall do qual se tornar senhora, não tinha propriedades nem era chefe de fam ília; e, se ao m enos fosse possível im pedir o capitão Wentworth de se tornar baronete, ela e Anne não iriam trocar de posição.

Seria bom que a m ais velha das três irm ãs se contentasse igualm ente com sua situação, pois um a m udança ali não era m uito provável. Elizabeth logo sofreu a hum ilhação de ver o sr. Elliot se afastar, e desde então ninguém em situação adequada se apresentou para sequer criar as esperanças infundadas que com ele naufragaram .

O sr. Elliot recebeu de form a inesperada a notícia do noivado da prim a Anne. Ela vinha perturbar seus planos m ais bem -elaborados de felicidade dom éstica, e sua m aior esperança de m anter Sir Walter solteiro graças à atenção que os direitos de um genro lhe teria possibilitado. No entanto, em bora frustrado e decepcionado, ele ainda foi capaz de fazer algo em prol do próprio interesse e da própria satisfação. Foi em bora de Bath dali a pouco tem po; e, quando a sra. Clay tam bém partiu logo depois, e quando as notícias seguintes que se teve dela foi que estava instalada em Londres sob sua proteção, seu j ogo duplo ficou evidente, assim com o ficou evidente o quão determ inado ele estava a não ser derrotado por um a m ulher astuciosa.

O afeto da sra. Clay levara a m elhor sobre seus interesses, e ela havia sacrificado em nom e do rapaz a possibilidade de tram ar por m ais tem po para conquistar Sir Walter. No entanto, além de afeto, ela possuía tam bém alguns talentos; e agora j á não se sabe m ais qual das duas inteligências calculistas levará a m elhor, a dele ou a dela; nem se, depois de im pedir que ela se tornasse a esposa de Sir Walter, ele talvez não tenha sido convencido e adulado o suficiente para no final das contas transform á-la na esposa de Sir William .

Não resta dúvida de que Sir Walter e Elizabeth ficaram chocados e hum ilhados com a perda de sua com panheira e com a descoberta de sua duplicidade. Ainda tinham , é bem verdade, as prim as im portantes, j unto às quais podiam buscar reconforto; m as em pouco tem po com eçariam a sentir que perseguir e baj ular os outros sem serem perseguidos e baj ulados de volta proporciona um a satisfação claudicante.

Anne, tendo logo adquirido a certeza de que Lady Russell tencionava am ar o capitão Wentworth com o deveria, não teve m ais nada para fazer som bra à sua futura felicidade a não ser o que advinha da consciência de não ter para apresentar a ele nenhum parente do tipo que um hom em sensato pudesse valorizar. Nesse ponto, sentia m uito intensam ente a própria inferioridade. A desproporção de posses não era nada, e não lhe causava um segundo sequer de pesar; m as não ter um a fam ília que o recebesse e estim asse de form a adequada, nem qualquer respeitabilidade, harm onia ou sim patia para oferecer em troca de todo o valor e da acolhida im ediata que recebeu dos irm ãos e irm ãs dele, constituiu um a fonte tão aguda de pesar quanto sua m ente era capaz de experim entar em circunstâncias que eram , sob todos os outros aspectos, de intensa felicidade. Anne tinha apenas duas am igas no m undo para acrescentar à lista do m arido: Lady Russell e a sra. Sm ith. A estas, porém , ele se m ostrou m uito disposto a se afeiçoar. Apesar de todos os erros com etidos por Lady Russell no passado, nutria por ela agora um a estim a sincera. Em bora não chegasse a dizer que a j ulgava certa por tê-los separado no passado, estava disposto a dizer quase tudo o m ais a seu favor, e a sra. Sm ith, por sua vez, possuía várias qualidades para conquistar sua estim a de form a rápida e perm anente.

As boas ações da sra. Sm ith para com Anne por si só j á bastavam , e o seu casam ento, em vez de privá-la de um a am iga, garantiu-lhe dois. Ela foi a prim eira pessoa a visitar o casal em sua nova casa, e o capitão Wentworth, ao lhe perm itir iniciar o processo de recuperação do im óvel do m arido nas Índias Ocidentais, ao escrever em seu nom e, agir em seu nom e e aj udá-la com todas as pequenas dificuldades do caso com a presteza e o esforço de um hom em destem ido e am igo determ inado, retribuiu plenam ente os serviços que ela havia prestado ou que j am ais pretendera prestar à sua esposa.

As alegrias da sra. Sm ith não foram em nada dim inuídas por esse increm ento em sua renda, acrescido de um a m elhora de saúde e da aquisição de am igos que podia encontrar com frequência, pois sua boa disposição e energia m ental não lhe faltaram ; enquanto essas principais fontes de felicidade perdurassem , ela teria sido capaz de enfrentar até m esm o níveis m ais elevados de prosperidade m aterial. Poderia ter se tornado extrem am ente rica e perfeitam ente saudável, e ainda assim continuado feliz. A fonte dessa felicidade estava no fulgor de sua disposição, assim com o a de sua am iga Anne estava no afeto de seu coração. Anne era a ternura em pessoa, e encontrava no afeto do capitão Wentworth um a retribuição inteiram ente à altura. A única coisa que poderia fazer os seus am igos desej arem que esse afeto fosse m enor era a profissão dele, e o tem or de um a futura guerra era a única nuvem capaz de obscurecer a luz que dela em anava. Anne tinha orgulho de ser esposa de um m em bro da Marinha, m as era obrigada a pagar o preço de um alarm e repentino pelo fato de o m arido pertencer a um a profissão que, caso isso sej a possível, distingue-se ainda m ais pelas virtudes dom ésticas do que pela im portância nacional.

 

FIM

1. Condado no sudoeste da Inglaterra, atualm ente cham ado apenas de Som erset.

2. Livro de registro dos baronetes, m enos im portante dos títulos hereditários da Inglaterra, atualm ente obsoleto. Em bora não sej am nobres nem tenham o direito de integrar a Câm ara dos Lordes, os baronetes têm direito ao tratam ento Sir.

3. Sir Walter despreza os inúm eros títulos concedidos m ais recentem ente.

4. O term o original é Esquire, abreviação Esq., título originalm ente concedido na Inglaterra aos m em bros da classe situada im ediatam ente abaixo dos cavaleiros e m ais tarde estendido a todos os cidadãos não nobres cuj a posição social e prestígio fizessem j us a tal tratam ento. Hoj e é apenas um a form a m ais pom posa de se dizer “senhor”, não indicando nenhum a distinção especial.

5. Sir William Dugdale (1605-86), genealogista inglês do séc.XVII.

6. No original, High Sheriff, cargo cerim onial representante da Coroa num condado.

7. No original, “representante de um borough”, ou sej a, distrito adm inistrativo com direito a um assento no Parlam ento.

8. Monarca restaurado ao trono do Reino Unido em 1660, após curto período de República, que concedeu títulos aos que perm aneceram leais a ele – com o a fam ília de Sir Walter.

9. Antigo form ato de livro obtido a partir da im pressão de doze páginas em cada face de um a folha de papel que seria dobrada quatro vezes.

10. De acordo com o Segundo Estatuto de Westm inster (de 1285), tanto o título quanto os bens e propriedades de um a fam ília eram transm itidos apenas aos herdeiros do sexo m asculino; às filhas m ulheres cabia apenas um dote estabelecido pelo pai de acordo com suas posses. O herdeiro pressuposto pode ser excluído da linha sucessória pelo nascim ento de um herdeiro direto (herdeiro aparente) ou de outro herdeiro pressuposto m ais bem -posicionado.

11. Criado pessoal de um nobre, responsável pela vestim enta e aparência de seu senhor.

12. Isto é, esperança de vê-la se casar com o detentor de algum título im portante, o que faria com que o nom e de Anne figurasse nesse livro tam bém j unto à fam ília do m arido.

13. O uso do sobrenom e cabe som ente à filha m ais velha; as dem ais filhas devem ser tratadas pelo prim eiro nom e.

14. Apesar de ser a prim eira em im portância na hierarquia das m ulheres da própria casa, em eventos sociais Elizabeth ficava abaixo de Lady Russell, viúva de um cavaleiro.

15. Fam oso m ercado de cavalos londrino.

16. Em sinal de luto.

17. A propriedade de Sir Walter tinha de ser transm itida integralm ente em herança, com exceção de um a pequena parte passível de venda.

18. Lady Russell m ora em um chalé dentro da propriedade de Kelly nch, com o ficará claro posteriorm ente.

19. Lodge, nesse caso, designa um a pequena casa ou chalé localizado no terreno de um a propriedade senhorial.

20. Referência aos Tratados de Paris (1814-15) que puseram fim às Guerras Napoleônicas e forçaram Napoleão ao exílio na ilha de Elba e depois à derrota definitiva na batalha de Waterloo, em j unho de 1815. Nessa época Jane Austen com eçava a escrever Persuasão.

21. Um alm irante, ou o capitão do navio, tinha o direito de leiloar os itens de qualquer navio capturado por ele e ficar com os lucros para si.

22. Menos de um a década antes dos acontecim entos de Persuasão, a Marinha inglesa derrotara Napoleão na Batalha de Trafalgar (1805), liderada pelo alm irante Nelson (1758-1805), e rom pera o bloqueio naval que isolava a Inglaterra da Europa continental, im posto por Napoleão (1806). Dois dos irm ãos de Jane Austen serviram na Marinha.

23. No original, quarter sessions, reuniões trim estrais dos tribunais de j ustiça dos condados ingleses.

24. Um a das três esquadras da Marinha real inglesa: verm elha, branca e azul, em ordem decrescente de im portância.

25. Batalha naval das Guerras Napoleônicas travada em 1805 que firm ou a Inglaterra com o potência naval suprem a na Europa.

26. Uniform e dos criados de um a casa nobre, norm alm ente confeccionados nas cores do brasão da fam ília, para distingui-los dos criados de outras casas.

27. Wentworth era o sobrenom e dos condes de Strafford, descendentes de Thom as Wentworth (1593-1641), partidário e representante de Carlos I.

28. Batalha naval de Santo Dom ingo (1806), na qual os ingleses derrotaram os franceses.

29. Ou sej a, Sir Walter decidiu não conceder nenhum dote a Anne.

30. No original, Michaelmas, dia de São Miguel Arcanj o, 29 de setem bro.

31. Isto é, antes de deixarem de pertencer aos Elliot, que deles estavam abrindo m ão por razões econôm icas.

32. A sociedade inglesa do séc.XIX considerava o café da m anhã e o j antar, que deveria ser servido às cinco horas da tarde, as refeições m ais im portantes do dia. Para preencher o período entre um a refeição e outra, servia-se ao m eio-dia um alm oço leve que consistia de frios, frutas e doces.

33. O tem po m áxim o apropriado a um a visita form al pela m anhã.

34. Queen’s Square foi um a das prim eiras áreas de Bath a serem m odernizadas, no início do séc.XVIII, pelo arquiteto inglês John Wood (1704-54), e era um a região elegante quando Jane Austen ali se hospedou com a fam ília, em 1799. Quando ela escrevia Persuasão, no entanto, o bairro j á não gozava de tanto prestígio, daí o com entário desdenhoso das irm ãs Musgrove.

35. Ou sej a, com o vim os, ao irm ão m ais velho.

36. Publicação oficial que anualm ente lista os oficiais da Marinha e outras inform ações náuticas.

37. Em barcações de pequeno porte usadas pela Marinha Real inglesa durante o séc. XIX, dotada de um m astro e equipada com canhões.

38. Peça de roupa ou colcha feita ou forrada de pele.

39. Navio de guerra veloz. Esse, por pertencer à frota francesa, valia m uito m ais do que em barcações corsárias.

40. A França.

41. Lacônia, ou Lacedem ônia, região do sul da Grécia cuj a cidade m ais im portante (e hoj e capital) é Esparta, na Antiguidade um a cidade-Estado em inentem ente m ilitar. A palavra “lacônico” deriva do nom e da região, dada a reputação dos espartanos, j unto aos atenienses, de falarem de m aneira concisa.

42. Não é certo de que ilhas se trata. É possível que sej am as Hébridas (arquipélago na costa oeste da Escócia), as Índias Ocidentais (Caribe) ou ainda os Açores.

43. Ou sej a, a m aior sensação de perigo que a sra. Croft experim entou foi m esm o em terras inglesas, quando o m arido navegava águas próxim as: Deal é um a cidade litorânea no sul da Inglaterra, no condado de Kent, que chegou a ser um dos portos m ais m ovim entados do país, e o m ar do Norte situa-se entre a costa britânica, a oeste, e a Noruega e a Dinam arca, a leste.

44. Carruagem leve de duas rodas puxada por apenas um cavalo, com lugar para duas pessoas.

45. O cargo de cura (pároco); pode se referir tam bém à residência na qual vive o cura.

46. De acordo com o Arquivo Nacional inglês, vinte m il libras na década de 1800 equivaleriam hoj e a aproxim adam ente um m ilhão de libras.

47. Isto é, duas sem anas com pletas.

48. Isto é, apressasse um pouco as coisas.

49. Hoj e Ly m e Regis, em Dorset, cidade portuária na costa sul da Inglaterra. Jane Austen lá esteve em 1804.

50. Carruagem de quatro rodas e dois lugares, puxada por um a parelha de cavalos e aberta na frente.

51. Quebra-m ar que separa as praias de Monm outh e Cobb Gate. A prim eira m enção escrita a ele se deu no séc.XIII, quando era feito de m adeira. O Quebra-Mar passou por diversas reconstruções, e hoj e é de pedra e apresenta dois níveis em que se pode cam inhar: um no topo e outro na base da construção.

52. Provavelm ente, pelo contexto, para rem endar redes de pesca.

53. Marmion (1808) e A dama do lago (1810) são obras do poeta, rom ancista e ensaísta rom ântico escocês Sir Walter Scott (1771-1832), considerado o pioneiro do rom ance histórico.

54. Giaour e A noiva de Abydos (am bas de 1813) são obras do poeta e satirista rom ântico inglês Lord By ron (1788-1824), um dos principais expoentes do rom antism o na literatura.

55. Carruagem leve de duas rodas puxada por um a parelha de cavalos.

56. Ver tam bém nota 26. O brasão da fam ília costum ava ser pintado na lateral de suas carruagens.

57. O extrem o de um a verga, isto é, da peça de m adeira ou m etal em que é fixada a parte superior da vela num navio.

58. Referência ao poem a de Lord By ron “Childe Harold’s Pilgrim age” (1812), que narra as viagens de um j ovem desiludido com um a vida de excessos, com diversas m enções às águas escuras. Considera-se que o poem a representa a m elancolia e a desilusão de toda um a geração com as prolongadas guerras do período pós-revolucionário.

59. Carruagem leve que pode ser puxada por dois a seis cavalos.

60. Na verdade, cunhada. Era com um então cunhados e cunhadas se tratarem por “irm ão/irm ã”.

61. Referência ao poem a “Henry and Em m a” (1709), de Matthew Prior (1664-1721), em que a heroína Em m a prova o am or que sente por Henry dem onstrando consideração pela m ulher que supõe ser sua rival.

62. Atualm ente cham ada de Cam den Crescent, a rua foi proj etada em 1788, sendo, portanto, estranham ente recente para satisfazer a predileção costum eira de Lady Russell pelo tradicional. Na época em que Jane Austen escreveu o livro, Candem Place delim itava o extrem o norte da cidade de Bath.

63. Antiga ponte sobre o rio Avon, ao sul de Bath, para a travessia de pedestres e bondes. Foi dem olida em 1964.

64. No original, pattens: proteção usada por cim a dos sapatos para abrigá-los da chuva e da lam a, constituída por um solado de m adeira preso ao sapato por um a correia de couro e m ontado sobre um anel m etálico que, em contato com o chão, produz o “tilintar” aqui descrito.

65. Rua central e de grande prestígio em Bath.

66. Cartões de visita deixados num a casa quando os anfitriões não estavam presentes para receber um a visita ou quando a visita era desconhecida ou pouco conhecida da casa e queria se apresentar. Nesse caso, se quisesse m anter contato, a fam ília responderia com outro cartão.

67. Endereço respeitável próxim o da Roy al Crescent, um a das ruas de m aior prestígio em Bath até hoj e.

68. Alusão a “The Rape of the Lock” (O rapto da m adeixa, 1712), de Alexander Pope (1688-1744), que satiriza a corte inglesa. Se no poem a onze horas da m anhã é inapropriadam ente tarde para a personagem Belinda acordar, aqui, onze da noite seria inapropriadam ente tarde para um a visita.

69. Produto criado pelo boticário John Gowland em 1740 e m uito usado na época de Jane Austen para com bater problem as de pele, e cuj a fórm ula continha m ercúrio. Em bora Sir Walter sugira um uso continuado, por ser um a loção de característica m uito abrasiva os m édicos recom endavam o uso esporádico e apenas em casos de erupções m ais “insistentes”.

70. Faixa de tecido preto usada em volta do chapéu em sinal de luto.

71. Há aqui provavelm ente um a ironia quanto ao caráter aristocrático dos Dalry m ple, pois a nobreza irlandesa era m enosprezada por não ter registros escritos e contar apenas com a tradição oral para lhe avalizar o berço.

72. Ainda hoj e o m ais im ponente endereço de Bath.

73. Isto é, as águas term ais de Bath, razão do nom e da cidade.

74. “A par”, em francês no original.

75. Isto é, quantas sem anas faltavam para se com pletar o período de um ano de luto que

76. Subentende-se: deixando de frequentar a m issa na igrej a local.

77. Moeda de pouco m ais de três centím etros de diâm etro que entrou em circulação em 1811 para suprir provisoriam ente a carência de m oedas de baixo valor que se deu durante as Guerras Napoleônicas e possibilitar pequenas trocas com erciais. Sua produção foi interrom pida em 1816 após a principal reform ulação ocorrida no sistem a pré-decim al inglês, e ela foi recolhida em 1820, sendo praticam ente desconhecida nos dias de hoj e.

78. Isto é, suave, devagar dem ais. Gíria da época im portada da term inologia italiana para a m úsica clássica.

79. Renom ada confeitaria de Bath, que de fato existiu na época de Jane Austen. Localizada na Milsom Street, servia com o um a espécie de ponto de encontro para a sociedade local.

80. Carruagem de duas rodas puxada por quatro cavalos, com dois bancos de dois lugares situados frente a frente.

81. Cadeira portátil, apoiada sobre duas varas laterais, usada com o m eio de transporte e carregada em geral por dois hom ens (originalm ente escravos), e não por anim ais.

82. Ainda de luto, pois não se com pletara o período de um ano protocolar desde a m orte de Fanny Harville.

83. Ou sej a, pediria Anne em casam ento – o que no caso não m udaria o sobrenom e dela, j á que ele tam bém é Elliot.

84. Personagem do rom ance Cecilia (1782), de Fanny Burney (1752-1840), que, nos espetáculos, tem o hábito de se sentar ao lado das pessoas com quem desej a estreitar relações.

85. Ou sej a, em Londres.

86. Região na qual estão localizadas duas das quatro associações de advogados de Londres, conhecidas com o Inns of Court (Inner Tem ple e Middle Tem ple; as outras são Lincoln’s Inn e Gray ’s Inn). Instituições de origem m edieval, eram um m isto de universidade, clube e sindicato, e funcionavam tam bém com o aloj am ento para aqueles que praticavam a advocacia, com o o sr. Elliot e o pai da sra. Clay. O bairro originalm ente abrigava a sede inglesa da Ordem dos Tem plários.

87. Sobre a redação original deste capítulo e do seguinte, ver a Apresentação, p.7.

88. “Dem onstração pública”, em francês no original.

89. “Artificial”, em francês no original.

90. Antigo hotel de Bath dem olido em m eados do séc. XX.

91. Condado no sudeste da Inglaterra. Assim com o seu vizinho Som ersetshire, teve o nom e m odificado desde os tem pos de Jane Austen, sendo hoj e apenas Dorset.

92. Literalm ente, “Sala da Bom ba”, local onde se bom beava e bebia a água m edicinal de Bath. Localizada na parte sul da cidade – bem em frente ao White Hart Inn, hotel que realm ente existiu e no qual os Musgrove ficam hospedados no rom ance –, o Pum p Room abriga hoj e um restaurante.

93. Narradora do clássico da literatura árabe As mil e uma noites, Sherazade é casada com o rei da Pérsia, conhecido por m atar suas esposas após a noite de núpcias, m as consegue sobreviver graças às histórias que lhe conta.

94. Esta conversa sobre a diferença entre a constância do am or do hom em e da m ulher – significativam ente entreouvida pelo capitão Wentworth – foi incluída por Jane Austen apenas na versão definitiva do rom ance, estando ausente da prim eira.

95. Pois, por ser solteira, Anne havia perdido a prim azia para Mary, ainda que esta fosse m ais nova que ela.

96. Carruagem de quatro rodas, capota dupla m óvel e dois bancos de passageiros, um de frente para o outro.