Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
Às vezes, as reuniões na Casa Grande eram increm entadas por outras visitas. A vizinhança não era grande, m as todos vinham ver os Musgrove, que tinham m ais j antares e recebiam m ais pessoas e m ais visitantes a convite ou por acaso do que qualquer outra fam ília. Eram os m ais populares das redondezas.
As m oças adoravam dançar, e a noite ocasionalm ente se encerrava com um pequeno baile im provisado. Um a fam ília de prim os m orava a um a distância de Uppercross que podia ser percorrida a pé; de situação m enos confortável, eles dependiam dos Musgrove para toda a sua diversão, apareciam a qualquer hora ou aj udavam a tocar qualquer instrum ento ou a dançar em qualquer lugar; e Anne, que m uito preferia o posto de m úsico a algum outro m ais ativo, passava horas tocando contradanças para eles, gentileza que sem pre trazia seu talento m usical à atenção do sr. e sra. Musgrove m ais do que qualquer outra coisa, e com frequência provocava o seguinte elogio: “Muito bem , srta. Anne! Muito bem , m esm o! Meu Deus! Com o esses seus dedinhos voam !”
Assim passaram -se as prim eiras três sem anas de sua estada. O dia de São Miguel chegou, e então o coração de Anne foi levado de volta a Kelly nch. Um a casa adorada entregue às m ãos de outros, todos os preciosos quartos, m óveis, bosques e paisagens com eçando a ter de aceitar outros olhos, outras pernas! No dia 29 de setem bro, ela praticam ente não conseguiu pensar em m ais nada, e à noite teve um a m ostra de em patia de Mary que, quando levada a notar o dia do m ês em que estavam , exclam ou:
– Meu Deus, não é hoj e o dia em que os Croft vão se m udar para Kelly nch? Que bom que não pensei nisso antes. Com o m e deprim e!
Os Croft ocuparam a casa com um a agilidade tipicam ente naval, e era preciso lhes fazer um a visita. Mary, por sua parte, deplorou essa necessidade. “Ninguém sabia o quanto isso a faria sofrer. Ela adiaria a visita o quanto pudesse.” Contudo, não descansou antes de persuadir Charles a levá-la até lá certo dia bem cedo e, ao voltar, estava tom ada por um estado de agitação im aginária m uito anim ado e agradável. Anne havia se alegrado sinceram ente por não ter havido m eios de participar da visita. Desej ava, entretanto, conhecer os Croft, e ficou satisfeita por estar em casa quando a visita foi retribuída. Eles foram a Uppercross: o chefe da casa não estava, m as as duas irm ãs sim , e, com o Anne teve de entreter a sra. Croft enquanto o alm irante ia se sentar j unto a Mary e se fazia m uito agradável com com entários bem -hum orados sobre seus dois m eninos, teve toda a oportunidade de procurar um a sem elhança que, em bora ausente nos traços, se fazia notar na voz ou no estilo dos sentim entos e expressões.
Ainda que não fosse alta nem gorda, a sra. Croft tinha um a silhueta quadrada, ereta e vigorosa que dava à sua pessoa um ar de im portância. Tinha brilhantes olhos escuros, bons dentes e um sem blante agradável sob todos os aspectos, em bora um a com pleição averm elhada e castigada pelo clim a, consequência de ter passado quase tanto tem po no m ar quanto o m arido, fizesse parecer que tivesse vivido alguns anos a m ais no m undo do que seus verdadeiros trinta e oito. Tinha m odos francos, espontâneos e decididos, com o alguém que não nutrisse qualquer desconfiança por si m esm o nem tivesse dúvidas quanto à m aneira de agir, m as sem qualquer indício de rispidez ou ausência de bom hum or. Anne, com efeito, ficou-lhe grata por dem onstrar para com ela um a grande consideração em tudo que estivesse relacionado a Kelly nch, e isso lhe agradou, sobretudo considerando que ela havia se convencido logo no prim eiro m inuto, ou m esm o no segundo em que as duas foram apresentadas, de que não havia nem sequer o m ais ínfim o sinal de qualquer conhecim ento ou desconfiança por parte da sra. Croft que pudesse torná-la de algum a form a parcial. Anne estava deveras descansada quanto a isso, e consequentem ente se m ostrou repleta de força e coragem , até o instante em que as súbitas palavras da sra. Croft a atingiram com o um choque:
– Vej o agora que foi a senhorita, e não sua irm ã, que m eu irm ão teve o prazer de conhecer quando m orou nesta região.
Anne torceu para ter passado da idade de enrubescer, m as certam ente não havia passado da idade de ficar em ocionada.
– Talvez não tenha ficado sabendo que ele se casou – acrescentou a sra. Croft.
Anne pôde então responder com o devia, e, quando as palavras seguintes da
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sra. Croft explicaram que estava se referindo ao sr. Wentworth, ficou feliz ao
constatar nada ter dito que não pudesse se aplicar a qualquer um dos dois irm ãos. Sentiu im ediatam ente com o fazia sentido que a sra. Croft estivesse pensando e falando sobre Edward, e não Frederick; envergonhada do próprio esquecim ento, dedicou-se a inquirir com adequado interesse sobre o estado atual de seu antigo vizinho.
O resto correu com tranquilidade até, quando o casal estava de saída, ela ouvir o alm irante dizer a Mary :
– Estam os esperando para breve a visita de um irm ão da sra. Croft; acho que a senhora o conhece de nom e, não?
O alm irante foi interrom pido pelo feroz ataque dos dois m eninos, que a ele se agarraram com o a um velho am igo, declarando que não devia ir em bora. E, com o ficou dem asiado entretido com a sugestão de levá-los consigo dentro do bolso do casaco etc. para ter tem po de term inar ou recordar o que havia com eçado a dizer, Anne teve de se convencer sozinha, da m elhor m aneira que foi capaz, de que ainda se tratava do m esm o irm ão. Não pôde, contudo, ter certeza suficiente para não ficar ansiosa por saber se algo fora dito sobre o assunto na outra casa, que os Croft haviam visitado anteriorm ente.
Estava com binado que os m oradores da Casa Grande iriam j antar nessa noite em Uppercross Cottage e, com o o ano j á estava dem asiado adiantado para tais visitas serem feitas a pé, os ouvidos j á estavam apurados à espera da carruagem quando a m ais j ovem das irm ãs Musgrove entrou. A prim eira ideia que lhes passou pela cabeça foi que ela viera pedir desculpas e dizer que elas deveriam j antar sozinhas, e Mary j á estava pronta para se m ostrar ofendida quando Louisa consertou a situação dizendo que só tinha vindo a pé para deixar m ais lugar para a harpa que estava sendo trazida na carruagem .
– E vou lhes dizer o m otivo – prosseguiu ela –, e contar todos os detalhes. Vim na frente lhes avisar que papai e m am ãe estão m uito contrariados hoj e à noite, sobretudo m am ãe; ela está pensando tanto no pobre Richard! E nós concordam os que seria m elhor trazer a harpa, pois o instrum ento parece diverti-la m ais do que o piano. Vou lhes dizer por que ela está contrariada. Hoj e de m anhã, quando os Croft foram nos visitar (eles vieram aqui em seguida, não foi?), por acaso m encionaram que o irm ão dela, o capitão Wentworth, acaba de regressar à Inglaterra, ou de desem barcar, ou algo assim , e que estava vindo visitá-los quase im ediatam ente. E por grande infortúnio m am ãe então se lem brou, depois de os dois j á terem ido em bora, que Wentworth, ou algum nom e m uito parecido, era com o se cham ava o capitão do pobre Richard em determ inado m om ento; não sei quando nem onde, m as foi bem antes de ele m orrer, pobre rapaz! Depois de verificar as cartas e pertences de Richard, m am ãe descobriu que estava certa, e tem certeza absoluta de que deve se tratar do m esm o hom em , e não consegue pensar em outra coisa que não o pobre Richard! De m odo que devem os todos nos m ostrar o m ais alegres possível, para ela não ficar rum inando pensam entos tão som brios.
As verdadeiras circunstâncias desse lam entável episódio da história fam iliar eram que os Musgrove tinham tido o infortúnio de ter um filho insuportável, um incorrigível, e a boa fortuna de perdê-lo antes dos vinte anos com pletos; que o rapaz tinha sido despachado para o m ar por ser estúpido e incontrolável em terra; que havia sido em qualquer tem po obj eto de m uito pouco apreço por parte da fam ília, ainda que fosse isso que m erecesse; e que raram ente era citado, e quase não fora pranteado quando a notícia de sua m orte distante havia chegado a Uppercross dois anos antes.
Na verdade, em bora agora as irm ãs estivessem fazendo tudo que podiam para reabilitá-lo cham ando-o de “pobre Richard”, o rapaz não passava do estúpido, insensível e im prestável Dick Musgrove, e, fosse vivo ou m orto, nunca havia realizado nada para fazer j us a m ais do que a abreviação do próprio nom e.
Richard havia passado vários anos no m ar e, no decurso das transferências às quais todos os aspirantes estão suj eitos, sobretudo os aspirantes dos quais todos os capitães desej am se ver livres, passara seis m eses a bordo da fragata do capitão Frederick Wentworth, cham ada Laconia. E fora a bordo da Laconia, e sob a influência de seu capitão, que ele havia escrito as únicas duas cartas que seu pai e sua m ãe j am ais haviam recebido dele ao longo de toda a sua ausência; as únicas duas cartas desinteressadas, m elhor dizendo: todas as outras tinham sido m eras solicitações de dinheiro.
Em am bas as cartas, ele havia tecido loas ao seu capitão. Seus pais, no entanto, estavam m uito pouco habituados a cuidar de tais assuntos, e m ostravam -se tão pouco observadores e interessados em nom es de hom ens ou em barcações que tais loas não haviam surtido quase nenhum efeito na ocasião. E o fato de a sra. Musgrove ter sido subitam ente tom ada, nesse dia, pela lem brança do nom e de Wentworth com o estando relacionado ao seu filho parecia ser um daqueles extraordinários rom pantes m entais que às vezes ocorrem .
Ela havia consultado as cartas, e constatado que suas suposições estavam corretas. E a releitura delas após tão longo intervalo, o filho desaparecido para sem pre, e toda a força de seus defeitos esquecida, tudo isso havia afetado m uito a sua disposição e feito com que ela m ergulhasse em um a tristeza m uito m aior do que quando ficara sabendo da sua m orte. O sr. Musgrove foi afetado da m esm a form a, em bora em m enor m edida, e ao chegarem ao chalé os dois estavam obviam ente ansiosos prim eiro para serem ouvidos em relação ao assunto, e depois para receber todo o consolo que um a com panhia alegre pudesse proporcionar.
Ouvi-los falar tanto no capitão Wentworth, repetir tantas vezes o seu nom e, rem em orar anos passados, e por fim concluir que talvez, que provavelm ente sim, ele iria se revelar o m esm o capitão Wentworth que eles se lem bravam de ter encontrado um a ou duas vezes depois de retornarem de Clifton – um rapaz m uito agradável –, em bora não soubessem dizer se isso havia ocorrido sete ou oito anos antes, constituiu um a nova espécie de provação para os nervos de Anne. Ela descobriu, contudo, que era um a provação com a qual teria de se acostum ar. Já que a visita dele estava sendo aguardada ali no cam po, precisava se treinar para tornar-se insensível a tais assuntos. E parecia que ele não apenas estava sendo aguardado, e para breve, m as tam bém que os Musgrove, em calorosa gratidão pela gentileza por ele dem onstrada para com o pobre Dick, e tam bém em grande respeito a seu caráter, confirm ado com o este havia sido pelo fato de o pobre Dick ter passado seis m eses sob sua tutela e se referido a ele em term os altam ente elogiosos, em bora não desprovidos de erros ortográficos, com o “um sugeito agradável e bem -apessoado, apenas um pouco esigente dem ais com o instrutor a bordo”, estavam inclinados a tentar encontrá-lo assim que ficassem sabendo de sua chegada.
A decisão de assim fazer aj udou a reconfortá-los ao longo da noite.
CAPÍTULO 7
Dali a bem poucos dias, veio a notícia de que o capitão Wentworth estava em Kelly nch, de que o sr. Musgrove tinha ido visitá-lo e voltado tecendolhe fartos elogios, e de que ele havia aceitado o convite dos Croft para j antar em Uppercross antes do final da sem ana seguinte. O sr. Musgrove ficara m uito desapontado ao constatar que era im possível confirm ar um a data anterior, tão im paciente estava para m ostrar sua gratidão, para ter o capitão Wentworth sob o seu teto e para recebê-lo com o que houvesse de m ais forte e de m elhor em sua adega. Um a sem ana, porém , teria de transcorrer; apenas um a sem ana, pelas contas de Anne, e os dois teriam de se encontrar; e ela não dem orou a desej ar poder ficar segura nem que fosse apenas por essa sem ana.
O capitão Wentworth retribuiu de m uito pronto a civilidade do sr. Musgrove, e Anne quase apareceu lá na m esm a m eia hora. Na verdade, ela e Mary estavam de saída para a Casa Grande, onde, com o ficou sabendo depois, teriam inevitavelm ente esbarrado com ele, quando foram im pedidas pelo m enino m ais velho, trazido para casa naquele m esm o instante, vítim a de um a queda feia. O estado da criança deixou a visita totalm ente em segundo plano, m as Anne não ficou indiferente ao risco que havia corrido, m esm o em m eio à séria preocupação que posteriorm ente vieram a sentir por causa do m enino.
Constatou-se que ele havia deslocado a clavícula, e sofrido um ferim ento nas costas que deu origem às ideias m ais alarm antes. Foi um a tarde de aflição, e Anne teve de fazer tudo ao m esm o tem po: m andar cham ar o boticário, m andar encontrar e inform ar o pai da criança, dar apoio à m ãe e im pedir sua histeria, controlar os criados, tirar do recinto o m enino m ais novo e cuidar e consolar o pobrezinho que havia se m achucado. Além disso, assim que se lem brou de fazê-lo, teve de m andar avisar a outra casa, o que acarretou a vinda de com panheiros curiosos e assustados em lugar de úteis auxiliares.
A volta de seu cunhado foi o prim eiro reconforto: Charles sabia m elhor do que ninguém com o cuidar da esposa; e a segunda bênção foi a chegada do boticário. Até este chegar e exam inar o m enino, suas apreensões foram agravadas pelo fato de serem vagas; eles desconfiavam que o dano fosse grave, m as não sabiam onde havia ocorrido; nessa hora, porém , a clavícula foi logo recolocada no lugar e, em bora o sr. Robinson tenha repetidam ente apalpado, esfregado e feito cara de sério, e em bora tenha dito palavras em voz baixa para o pai e a tia, ainda assim todos deviam torcer pelo m elhor, e deviam poder se separar e j antar em um estado de relativa tranquilidade. E foi então, logo antes de se separarem , que as duas j ovens tias puderam se afastar do tem a do estado de saúde do sobrinho para dar inform ações sobre a visita do capitão Wentworth; as duas ficaram cinco m inutos depois do pai e da m ãe, e fizeram questão de expressar o quão encantadas estavam com o capitão, com o o consideraram m ais bonito e infinitam ente m ais agradável do que qualquer outro conhecido seu que pudesse ter gozado de sua preferência anteriorm ente, com o ficaram contentes ao ouvir o pai convidá-lo para j antar, e tristes quando ele disse que não podia, e novam ente contentes quando ele, respondendo aos novos e insistentes convites de seu pai e de sua m ãe para j antar em sua com panhia no dia seguinte, havia aceitado – isso m esm o, no dia seguinte! E ele havia aceitado de m aneira tão agradável, com o se estivesse devidam ente lisonj eado por ser o alvo de sua atenção. Em sum a, tinha feito e dito tudo com um a graça tão perfeita que as duas podiam garantir a todos os presentes que ele havia lhes virado a cabeça! Dito isso, saíram am bas correndo, tão cheias de alegria quanto de am or, e aparentem ente m ais preocupadas com o capitão Wentworth do que com o pequeno Charles.
A m esm a história e os m esm os deleites foram repetidos quando as duas m oças apareceram acom panhadas do pai, com a noite j á escura, para saber notícias. E o sr. Musgrove, agora não m ais tão preocupado com o herdeiro quanto no início, pôde contribuir com sua confirm ação e seus elogios, e esperava que agora não houvesse qualquer m otivo para cancelar a visita do capitão Wentworth, e só podia lam entar que os m oradores do chalé provavelm ente não fossem querer deixar o m enino para ir encontrálo. “Ah, não! Não podem os deixar o m enino.” O susto fora dem asiado forte e dem asiado recente para pai e m ãe suportarem tal ideia, e Anne, na alegria da fuga, não pôde evitar associar o próprio enfático protesto ao da irm ã e do cunhado.
Charles Musgrove, na verdade, m ostrou-se m ais inclinado depois: “O m enino estava passando tão bem , e ele queria tanto ser apresentado ao capitão Wentworth, que talvez fosse à Casa Grande à noite; não j antaria fora de casa, m as talvez fizesse um a visita de m eia hora.” Nisso, porém , encontrou a forte oposição da esposa:
– Oh, não! Charles, não suporto que você vá, não suporto m esm o. Im agine se acontecesse algum a coisa!
O m enino teve um a noite tranquila, e no dia seguinte estava passando bem . Som ente o tem po poderia garantir que a coluna vertebral não sofrera danos, m as o sr. Robinson não encontrara nada que j ustificasse um aum ento na preocupação, e consequentem ente Charles Musgrove com eçou a não sentir m ais a necessidade de ficar confinado. O m enino deveria ser m antido na cam a e entretido com as diversões m ais calm as possíveis, m as o que um pai poderia fazer? Aquele era um caso para m ulheres, sem dúvida, e seria um absurdo que ele, sem utilidade algum a em casa, se trancasse lá dentro. Seu pai queria m uito que ele conhecesse o capitão Wentworth e, não havendo m otivo suficiente que o im pedisse, ele iria encontrá-lo; e tudo term inou com um a declaração ousada e pública de sua parte, assim que chegou da caçada, da intenção de se aprontar na m esm a hora e ir j antar na outra casa.
– Nada poderia estar indo m elhor do que o m enino – disse ele –, de m odo que acabei de m andar avisar a m eu pai que iria j antar em sua casa, e ele considerou que eu estava certo. Com o a sua irm ã está aqui com você, m eu am or, não tenho qualquer escrúpulo. Você não iria querer deixá-lo sozinho, m as pode ver que não tenho serventia. Anne m andará m e cham ar se houver algum problem a.
Maridos e esposas em geral entendem quando é vão apresentar resistência. Pelo m odo de falar de Charles, Mary percebeu que ele estava m uito decidido a ir ao j antar, e que de nada adiantaria contrariá-lo. Assim , não disse nada até ele sair da sala, m as assim que apenas Anne estava presente para escutar, falou:
– Então você e eu terem os de nos arrum ar sozinhas com esse pobre m enino doente, e ninguém vai se aproxim ar de nós a noite inteira! Eu sabia que seria assim . Isso sem pre acontece com igo. Sem pre que há algo desagradável ocorrendo, os hom ens dão um j eito de se safar, e Charles é tão ruim quanto qualquer outro. Quanta insensibilidade! Devo dizer que é m uito insensível da parte dele fugir de seu pobre filhinho. E toda essa conversa sobre com o o m enino está bem ! Com o ele pode saber que o m enino está bem ou que não haverá algum a m udança súbita daqui a m eia hora? Eu não pensava que Charles fosse ser tão insensível. Então lá vai ele sair para se divertir, enquanto eu, por ser a pobre m ãe, não tenho perm issão para sair de casa; m as estou certa de que sou a pessoa m enos indicada para estar perto do m enino. O fato de eu ser a m ãe é j ustam ente o m otivo pelo qual m eus sentim entos deveriam ser poupados. Eu não estou à altura dessa tarefa. Você viu com o fiquei histérica ontem .
– Mas isso foi apenas o efeito de seu alarm e tão repentino… do choque. Você não tornará a ficar histérica. Atrevo-m e a dizer que não terem os nada com o que nos preocupar. Entendi perfeitam ente as instruções do sr. Robinson, e não tenho qualquer tem or; e na realidade, Mary, em nada m e espanta a atitude de seu m arido. Cuidar de crianças não é tarefa para hom ens; essa não é a área dele. Um a criança doente é sem pre da alçada exclusiva da m ãe: em geral, os seus próprios sentim entos fazem com que assim sej a.
– Espero gostar tanto de m eu filho quanto qualquer outra m ãe, m as não sei se teria m ais utilidade no quarto de um doente do que Charles, pois não posso ficar repreendendo e im portunando um a pobre criança doente; e você viu, hoj e de m anhã, que sem pre que eu lhe dizia para ficar quieto ele com eçava sem falta a saracotear. Não tenho paciência para esse tipo de coisa.
– Mas você ficaria à vontade passando a noite toda longe do pobre m enino?
– Sim ; se o pai pode fazê-lo, por que eu não poderia? Jem im a é m uito cuidadosa! Poderia nos m andar notícias dele de hora em hora. Realm ente acho que Charles poderia m uito bem ter dito ao pai que nós iríam os todos. Agora não estou m ais alarm ada do que ele em relação ao pequeno Charles. Fiquei extrem am ente alarm ada ontem , m as hoj e a história é bem diferente.
– Bem , se você não achar que j á está tarde para avisar sobre sua presença, im agino que deva ir, assim com o o seu m arido. Deixe que cuido eu do pequeno Charles. O sr. e sra. Musgrove não vão poder achar nada de errado na sua ida se eu ficar com ele.
– Está falando sério? – exclam ou Mary, e seus olhos se puseram a brilhar. – Meu Deus! Mas que boa ideia, m uito boa, m esm o. Com certeza tanto faz eu ir ou ficar, pois não tenho qualquer serventia aqui em casa… tenho? E ficar aqui só m e causa aflição. Você, que não tem sentim entos de m ãe, é de longe a pessoa m ais adequada. Com você, o pequeno Charles faz qualquer coisa; ele sem pre a obedece à risca. Vai ser m uito m elhor do que deixá-lo apenas com Jem im a. Ah, eu irei com certeza! Estou certa de que devo ir se puder, tanto quanto Charles, pois eles querem m uito que eu conheça o capitão Wentworth, e sei que você não se im porta em ficar sozinha. Foi m esm o um a ideia excelente essa sua, Anne. Vou avisar Charles e m e aprontar agora m esm o. Se houver algum problem a, você sabe que pode m andar nos cham ar em poucos instantes; m as ouso dizer que não vai haver nada para alarm á-la. Pode estar certa de que eu não iria se não estivesse inteiram ente tranquila em relação a m eu querido filho.
No instante seguinte, ela j á estava batendo na porta do quarto de vestir do m arido, e, quando Anne a seguiu escada acim a, chegou a tem po de ouvir a conversa toda, que com eçou com Mary dizendo, em um tom exultante:
– Tenho a intenção de acom panhá-lo, Charles, pois não tenho m ais serventia em casa do que você. Nem que eu m e trancafiasse para sem pre j unto com o m enino conseguiria persuadi-lo a fazer qualquer coisa de que ele não goste. Anne vai ficar; Anne se ofereceu para ficar em casa e cuidar dele. Foi ela m esm a quem sugeriu, e, portanto, vou com você, o que vai ser m uito m elhor, pois desde a terça-feira não j anto na outra casa.
– É m uita gentileza de Anne – foi a resposta de Charles –, e ficarei satisfeito se você for com igo; m as parece m uito duro ela ficar em casa sozinha para cuidar de nosso filho doente.
Anne estava agora perto o suficiente para defender a própria causa, e com o a sinceridade de sua atitude logo bastou para convencê-lo de algo cuj o convencim ento era no m ínim o m uito agradável, Charles não teve m ais qualquer escrúpulo em deixá-la sozinha para ir j antar, em bora ainda quisesse que ela fosse se j untar a eles depois que o m enino tivesse se recolhido para dorm ir, e gentilm ente a incentivou a deixá-lo voltar para buscá-la, m as ela não se deixou persuadir; sendo assim , logo teve o prazer de vê-los sair j untos e m uito anim ados. Esperava que houvessem saído para se divertir, por m ais estranha que houvesse sido a gênese de tal diversão; ela, por sua vez, pôde se sentir tão reconfortada quanto talvez j am ais se sentisse na vida. Sabia que o fato de ficar em casa seria m uito útil para o m enino; e que im portância tinha para ela que Frederick Wentworth estivesse a pouco m enos de um quilôm etro de distância, sendo agradável com outras pessoas?
Ela teria gostado de conhecer seus sentim entos em relação a um encontro com ela. Talvez ele fosse indiferente, se é que podia haver indiferença em tais circunstâncias. Ou ele era indiferente ou não queria encontrá-la. Caso tivesse desej ado vê-la novam ente, não precisaria ter esperado todo esse tem po; teria feito o que ela não podia deixar de pensar que, em seu lugar, ela própria teria feito há m uito tem po, quando os acontecim entos haviam proporcionado a ele a independência que era a única coisa que lhe faltava.
Seu cunhado e sua irm ã voltaram encantados com o novo conhecido e com a visita de m odo geral. Houve m úsica, cantoria, conversas, risos, tudo m uito agradável. O capitão Wentworth tinha m odos encantadores, sem exibir nenhum a tim idez ou reserva. Parecia que todos eles j á se conheciam à perfeição, e ele viria caçar com Charles na m anhã seguinte m esm o. Viria tom ar o café da m anhã, m as não em Uppercross Cottage, em bora essa tivesse sido a sugestão original, pois depois havia sido pressionado a ir à Casa Grande em vez disso, e parecia tem er incom odar a sra. Charles Musgrove por causa do m enino, e, portanto, de algum a form a, eles m al entenderam com o, tudo term inou com Charles com binando de ir encontrá-lo na casa do pai para o café da m anhã.
Anne entendeu tudo. Ele queria evitar encontrá-la. Soube que havia perguntado por ela de form a casual, com o era adequado para um antigo conhecido sem grande intim idade, parecendo lhe atribuir tão pouca im portância quanto ela, m ovido, talvez, pelo m esm o desej o de evitar um a apresentação quando os dois se encontrassem .
As atividades m atinais do chalé sem pre ocorriam m ais tarde do que as da outra casa, e no dia seguinte a diferença foi tão grande que Mary e Anne estavam apenas com eçando o desj ej um quando Charles entrou e disse que eles estavam saindo para caçar, que tinha vindo buscar os cachorros, e que as irm ãs estavam vindo logo atrás com o capitão Wentworth. Suas irm ãs tinham a intenção de fazer um a visita a Mary e ao m enino, e o capitão Wentworth tam bém havia sugerido lhes fazer um a curta visita caso não fosse incom odar; e em bora Charles tivesse respondido que o estado da criança não era de natureza a tornar a visita um incôm odo, o capitão Wentworth não se deu por satisfeito antes de vê-lo seguir na frente para avisar.
Mary, m uito lisonj eada por tal atenção, m ostrou-se encantada em recebê-lo, enquanto Anne era dom inada por m il sensações diferentes das quais a que m ais a consolava era que tudo logo iria term inar. E tudo logo term inou. Dois m inutos depois da chegada de Charles, os outros apareceram ; estavam na sala de estar. Seu olhar cruzou por um instante com o do capitão Wentworth, e os dois trocaram um a leve m esura, um a cortesia; ela ouviu sua voz – ele falou com Mary, disse tudo o que era apropriado, disse algum a coisa às irm ãs Musgrove, o suficiente para indicar um a relação am igável –; a sala parecia cheia, cheia de pessoas e vozes, m as poucos m inutos puseram fim à situação. Charles apareceu à j anela, tudo estava pronto, seu visitante fez um a m esura e se foi, as irm ãs Musgrove tam bém se foram após decidir de repente acom panhar os caçadores até o final do vilarej o; a sala se esvaziou, e Anne pôde term inar seu café da m anhã da m elhor form a que foi capaz.
“Acabou! Acabou!”, repetia ela para si m esm a vezes sem conta, com aflita gratidão. “O pior j á passou!”
Mary disse algum a coisa, m as ela não conseguiu prestar atenção. Ela o tinha visto. Os dois tinham se encontrado. Novam ente haviam estado j untos no m esm o recinto!
Logo, porém , com eçou a raciocinar consigo m esm a e a tentar m oderar as próprias sensações. Oito anos, quase oito anos haviam se passado desde que tudo term inara. Que absurdo retom ar a agitação que esse intervalo havia em baçado e banido para longe! O que oito anos não eram capazes de fazer? Acontecim entos de todo tipo, m udanças, distanciam entos, partidas… tudo, tudo podia ser incluído em tal intervalo, e tam bém o esquecim ento do passado… nada m ais natural, nada m ais certo! Oito anos representavam quase um terço de seu tem po de vida.
Infelizm ente, apesar de todas as ponderações, Anne constatou que, para sentim entos represados, oito anos talvez não fossem quase nada.
Mas com o interpretar os sentim entos dele? Seria assim que ele estava tentando evitá-la? E no instante seguinte ela j á se odiava pela loucura que havia feito tal pergunta.
Quanto a um a outra pergunta, que talvez nem m esm o sua m ais profunda sensatez tivesse sido capaz de im pedir, ela logo se viu poupada de toda a incerteza, pois, após as irm ãs Musgrove voltarem para term inar sua visita a Uppercross Cottage, recebeu espontaneam ente de Mary a seguinte inform ação:
– O capitão Wentworth não se m ostrou m uito galante com você, Anne, em bora tenha sido m uito atencioso com igo. Quando eles saíram , Henrietta perguntou a ele o que achava de você, e ele respondeu que “você estava tão m udada que ele não a teria reconhecido”.
Mary não tinha sensibilidade suficiente para respeitar a da irm ã de um a form a habitual, m as nem sequer desconfiou que estivesse abrindo algum a ferida específica.
“Irreconhecível!” Anne aceitou sem resistir, tom ada por um a profunda e silenciosa consternação. Devia ser m esm o assim , e ela não podia revidar, pois o capitão não estava m udado, ou pelo m enos não para pior. Ela j á havia reconhecido isso para si m esm a e não podia pensar diferente, ele que pensasse dela o que lhe aprouvesse. Não; os anos que haviam destruído sua beleza e viço só tinham feito dotá-lo de um a aparência ainda m ais vistosa, viril e franca, e não haviam de form a algum a dim inuído seus atrativos. Seus olhos tinham visto o m esm o Frederick Wentworth.
“Tão m udada que ele não a teria reconhecido!” Eram essas as palavras que ela não conseguia esquecer. No entanto, logo com eçou a se alegrar por tê-las escutado. Elas tinham um efeito calm ante, tranquilizavam sua agitação, equilibravam -na, e consequentem ente deveriam torná-la m ais feliz.
Frederick Wentworth havia usado essas palavras, ou palavras sem elhantes, m as sem fazer ideia de que seriam repetidas para ela. Julgara-a terrivelm ente m udada e, no prim eiro instante depois de ser solicitado, dissera o que realm ente sentia. Ele não havia perdoado Anne Elliot. Ela o havia m altratado, abandonado e decepcionado. Pior ainda: ao fazê-lo, havia dem onstrado um a fraqueza de caráter que o tem peram ento decidido e confiante dele não podia suportar. Havia desistido dele para agradar aos outros. Havia cedido aos efeitos de um a persuasão excessiva. Havia sido fraca e acanhada.
Ele havia nutrido por Anne um a grande afeição, e desde então nunca havia encontrado outra m ulher que j ulgasse igual a ela; contudo, a não ser por um a sensação de curiosidade natural, não tinha o m enor desej o de tornar a encontrá-la. O poder que ela exercia sobre ele havia desaparecido para sem pre.
Seu obj etivo agora era se casar. Ele estava rico e, um a vez que havia retornado à terra firm e, tinha a firm e intenção de form ar fam ília assim que se sentisse adequadam ente tentado; na realidade, estava olhando em volta, pronto para se apaixonar com toda a rapidez que um a m ente alerta e um gosto veloz pudessem perm itir. Qualquer um a das duas irm ãs Musgrove conviria a seu coração, caso conseguissem capturá-lo; resum indo, seu coração estava disponível para qualquer j ovem agradável que cruzasse seu cam inho, exceto Anne Elliot. Essa era a sua única exceção secreta quando ele disse à irm ã, em resposta às suas suposições:
– Sim , Sophia, aqui estou eu, m uito disposto a fazer um casam ento tolo. Qualquer m ulher entre quinze e trinta anos poderia servir, bastando se m ostrar disposta. Um pouco de beleza, alguns sorrisos, uns poucos elogios à Marinha, e serei um hom em perdido. Isso não deveria bastar para um sim ples m arinheiro, que não teve convívio suficiente com m ulheres para se tornar exigente?
Ela sabia que o irm ão tinha afirm ado isso para ser contradito. Seu olhar brilhante e orgulhoso exibia a alegre convicção de que ele era, sim , exigente; e Anne Elliot não estava ausente de seus pensam entos quando ele descreveu com grande seriedade a m ulher que gostaria de conhecer. “Um a m ente decidida e m odos doces”, tal era o início e o fim de sua descrição.
– É essa a m ulher que eu quero – disse ele. – É claro que poderei m e contentar com alguém um pouco inferior, m as a diferença não deve ser m uita. Se eu for um tolo, serei um tolo de verdade, pois dediquei m ais reflexão ao assunto do que a m aioria dos hom ens.
CAPÍTULO 8
Desse m om ento em diante, o capitão Wentworth e Anne Elliot se encontraram diversas vezes no m esm o círculo. Em pouco tem po, estavam j antando j untos, em sociedade, na casa do sr. Musgrove, pois o estado de saúde do m enino não podia m ais fornecer à tia um a desculpa para se ausentar; e esse foi apenas o com eço de outros j antares e encontros.
Se os antigos sentim entos iriam renascer era algo que seria preciso testar, pois sem dúvida o passado devia surgir na lem brança de cada um deles; era im possível não voltar a ele; e o ano de seu noivado não podia deixar de ser citado pelo capitão nas pequenas narrativas e descrições suscitadas pela conversa. Sua profissão o qualificava para falar, e sua disposição o levava a fazê-lo; e “Isso foi no ano seis” ou “Isso ocorreu antes de eu partir para o m ar, no ano seis” foram ditos durante a prim eira noite que os dois passaram j untos; e em bora a voz dele não tenha hesitado, e em bora ela não tenha tido m otivo para desconfiar que seus olhos tivessem relanceado em sua direção enquanto ele falava, Anne sentiu a total im possibilidade, pelo conhecim ento que tinha de sua m ente, de ele não ser visitado por lem branças da m esm a form a que ela. A associação de ideias im ediata devia ser a m esm a, em bora ela nem de longe im aginasse que a dor fosse igual.
Os dois não tinham qualquer conversa, nem qualquer relação que não aquelas exigidas pela sim ples civilidade. Haviam significado tanto um para o outro! E agora nada! Houvera um tem po em que, no m eio de todo o grande grupo que agora ocupava a sala de estar de Uppercross, eles teriam tido m uita dificuldade em deixar de falar um com o outro. Com exceção, talvez, do alm irante e da sra. Croft, que pareciam particularm ente próxim os e felizes (Anne não teria feito nenhum a outra exceção, m esm o entre os casados), não poderia ter havido um par de corações tão aberto, nem gostos tão sim ilares, sentim entos tão harm oniosos, com portam entos tão am ados. Agora eles eram com o dois estranhos; não, pior do que estranhos, pois nunca poderiam vir a se conhecer. Viviam um afastam ento perpétuo.
Quando ele falava, ela escutava a m esm a voz e reconhecia o m esm o espírito. O grupo exibia um a ignorância generalizada em relação a todos os tem as navais, e ele foi alvo de m uitas perguntas, sobretudo por parte das irm ãs Musgrove, que pareciam praticam ente não ter olhos senão para ele, em relação ao m odo de vida a bordo, aos regulam entos diários, à com ida, aos horários etc. E a surpresa com os relatos que ele fez, ao serem inform adas sobre o grau de conforto e am enidades possível a bordo, provocou nele um divertim ento agradável que fez Anne recordar os dias em que ela tam bém era ignorante, e em que ela tam bém havia sido acusada de im aginar que os m em bros da Marinha vivessem em barcados sem nada para com er, nem qualquer cozinheiro para preparar a com ida que houvesse, nem qualquer criado para servir ou faca e garfo para usar.
Enquanto assim escutava e refletia, Anne foi despertada por um sussurro da sra. Musgrove, que, dom inada por um pesar profundo, não pôde evitar dizer:
– Ah, srta. Anne, se os céus houvessem perm itido poupar m eu pobre filho, ouso dizer que ele a esta altura j á seria um hom em igualzinho.
Anne reprim iu um sorriso, e escutou com educação enquanto a sra. Musgrove desabafava um pouco m ais seus sentim entos; assim , durante uns poucos m inutos, não pôde acom panhar a conversa dos outros. Quando pôde perm itir que sua atenção tom asse novam ente o rum o natural, viu as irm ãs Musgrove pegando o
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Registro da Marinha (seu próprio Registro da Marinha, o prim eiro a existir em
Uppercross) e sentando-se lado a lado para exam iná-lo, dizendo querer encontrar os navios que o capitão Wentworth havia com andado.
– Lem bro-m e que o seu prim eiro navio foi o Asp; vam os procurar o Asp.
– Não vão encontrá-lo aí. Ele agora não passa de um a ruína. Fui o últim o hom em a com andá-lo. Na época, o navio j á quase não tinha condições para servir. Foi j ulgado apto apenas ao serviço costeiro por um ou dois anos, e assim fui m andado para as Índias Ocidentais.
As m oças pareciam deveras assom bradas.
– O Alm irantado – prosseguiu ele – de vez em quando se diverte m andando algum as centenas de hom ens para o m ar em um navio sem condições de uso. Mas ele tem m uitos hom ens para cuidar, e, dentre os m ilhares que poderiam m uito bem ir parar no fundo do oceano, é im possível distinguir a tripulação da qual a falta será m enos sentida.
– Ora! Ora! – exclam ou o alm irante –, escutem só a conversa desses j ovens! Nunca houve em sua época navio m elhor do que o Asp. Para um a velha
chalupa,37 não havia igual. Sorte do hom em que obteve o seu com ando! Ele sabe que devia ter havido ao m esm o tem po vinte outros candidatos ao seu posto m elhores do que ele. Hom em de sorte o que consegue algo assim tão depressa, e sem outro apoio que não seus próprios m éritos.
– Eu percebi m inha sorte, alm irante, posso lhe garantir – respondeu o capitão Wentworth, sério. – Fiquei tão satisfeito com m eu posto quanto se poderia desej ar. Na época, estar no m ar era um grande obj etivo para m im ; um obj etivo m uito grande. Eu queria estar fazendo algum a coisa.
– Certam ente devia querer. O que um rapaz j ovem com o o senhor faria em terra durante seis m eses seguidos? Quando um hom em não tem esposa, logo quer zarpar novam ente.
– Mas, capitão Wentworth – exclam ou Louisa –, com o o senhor deve ter ficado irritado ao ver o Asp e constatar a velharia que tinham lhe dado!
– Antes desse dia eu j á sabia m uito bem com o era o navio – disse ele, sorrindo. – Não tinha m ais descobertas a fazer do que a senhorita teria em relação ao
m odelo e à resistência de qualquer velha peliça38 que tivesse visto ser em prestada a m etade de suas conhecidas até onde a sua m em ória alcançasse, e que finalm ente, em um dia de forte chuva, viesse parar em suas m ãos. Ah, ele era para m im o velho e querido Asp! Fazia tudo que eu queria. Eu sabia que faria. Sabia que ou afundaríam os j untos ou ele m e guiaria para o m eu sucesso, e nunca tive dois dias seguidos de m au tem po durante todo o período que passei com ele no m ar, e, depois de m e divertir a valer enfrentando alguns corsários, tive a sorte de, na volta para casa, no outono seguinte, m e deparar j ustam ente com a
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fragata francesa que cobiçava. Levei-a para o porto de Ply m outh, e ali tive
outra sorte. Fazia m enos de seis horas que estávam os no canal quando caiu um a tem pestade que durou quatro dias e quatro noites, e que teria destruído o pobre
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Asp em m etade desse tem po, j á que nosso entrevero com a Grande Nação não
havia m elhorado m uito as condições do navio. Vinte e quatro horas depois, eu teria sido apenas um galante capitão Wentworth em um curto parágrafo no canto dos j ornais, e, com o teria afundado a bordo de um a sim ples chalupa, ninguém teria reparado em m im .
Apenas Anne sentiu os próprios calafrios, m as as exclam ações de pena e horror das irm ãs Musgrove foram tão francas quanto sinceras.
– E então, suponho eu – disse a sra. Musgrove em voz baixa, com o quem pensa alto –, então ele foi com andar o Laconia, onde conheceu nosso pobre rapaz. Charles, querido – cham ando o filho para si –, pergunte ao capitão Wentworth onde foi que ele conheceu seu pobre irm ão. Sem pre m e esqueço.
– Foi em Gibraltar, m ãe, disso eu sei. Dick tinha sido deixado em Gibraltar, doente, com um a recom endação de seu antigo capitão para o capitão Wentworth.
– Ah, m as Charles, diga ao capitão Wentworth que ele não precisa ter m edo de m encionar o pobre Dick na m inha frente, pois seria, pelo contrário, um prazer ouvi-lo ser citado por tão bom am igo.
Charles, ligeiram ente m ais atento às probabilidades de isso acontecer, só fez m enear a cabeça em resposta e se afastou.
As m oças agora estavam procurando o Laconia no registro, e o capitão Wentworth não pôde renunciar ao prazer de pegar o precioso volum e com as próprias m ãos para lhes poupar o trabalho e ler m ais um a vez em voz alta as
inform ações relativas ao nom e do navio,41 sua categoria e sua atual classe de suboficiais, observando por cim a das páginas que aquele navio tam bém havia sido um dos m elhores am igos que o hom em j am ais tivera.
– Ah, que dias felizes tive quando com andei o Laconia! Com o ganhei dinheiro fácil com ele! Um am igo e eu fizem os um agradabilíssim o cruzeiro pelas Ilhas
Ocidentais. 42 Pobre Harville, m inha irm ã! Você sabe com o ele era ávido por dinheiro, pior até do que eu. Tinha um a esposa. Suj eito excelente! Jam ais m e esquecerei da sua felicidade. Toda a alegria que sentia era por ela. Desej ei que estivesse novam ente com igo no verão seguinte, quando tive a m esm a sorte no Mediterrâneo.
– E tenho certeza – disse a sra. Musgrove – de que o dia em que o fizeram capitão desse navio foi um dia de sorte para nós. Nós j am ais esquecerem os o que o senhor fez.
Suas em oções a faziam falar baixo, e o capitão Wentworth, que havia escutado apenas essa parte, e de cuj os pensam entos Dick Musgrove provavelm ente estava inteiram ente ausente, olhou para ela com um ar de expectativa, com o quem espera um a continuação.
– Meu irm ão – sussurrou um a das m oças –, m am ãe está pensando no pobre Richard.
– Pobrezinho do m eu querido! – continuou a sra. Musgrove –, ele havia se tornado tão constante, e tão bom correspondente quando sob seus cuidados! Ah! Que felicidade teria sido se ele nunca o houvesse abandonado. Posso lhe garantir, capitão Wentworth, que sentim os m uito por ele o ter abandonado.
Diante desse discurso, o rosto do capitão Wentworth exibiu um a expressão m om entânea, um certo relancear dos olhos brilhantes e um a certa contração da bela boca, suficientes para convencer Anne de que, longe de com partilhar os desej os da sra. Musgrove em relação ao filho, ele provavelm ente havia se esforçado para se livrar do rapaz. Mas essa dem onstração de diversão íntim a foi dem asiado fugidia para ser detectada por qualquer pessoa que o conhecesse m enos do que ela. No instante seguinte, ele j á estava perfeitam ente controlado e sério, e quase na m esm a hora foi até o sofá em que ela e a sra. Musgrove estavam sentadas, acom odou-se ao lado desta últim a e entabulou com ela um a conversa em voz baixa sobre o filho, fazendo-o com um a em patia e graça naturais que dem onstravam a m ais cortês consideração por tudo o que havia de real e sensato nos sentim entos da m ãe.
Os dois na realidade estavam sentados no m esm o sofá, pois a sra. Musgrove havia aberto espaço para ele na hora; estavam separados apenas por ela. De fato, não era um a barreira desprezível. A sra. Musgrove tinha um tam anho generoso, substancial, infinitam ente m ais adaptado pela natureza a exprim ir boa disposição e bom hum or do que afeto e em oção; e, enquanto as agitações da form a esbelta e do sem blante pensativo de Anne podiam ser consideradas inteiram ente ocultas, o capitão Wentworth m erecia algum crédito pela seriedade com a qual escutava os fundos e gordos suspiros da sra. Musgrove por causa do destino de um filho a quem , quando vivo, ninguém nunca dera a m enor im portância.
O porte físico e a tristeza m ental certam ente não precisam ser proporcionais. Um a pessoa grande e volum osa tem o m esm o direito de se m ostrar profundam ente aflita que a m ais graciosa das criaturas. Porém , sej a isso j usto ou não, existem conj unções pouco felizes que a razão tentará em vão defender… que o gosto não consegue tolerar… e que serão tom adas pelo ridículo.
O alm irante, depois de dar duas ou três voltas pela sala com as m ãos nas costas para arej ar a cabeça e de ter tido a atenção cham ada pela esposa, aproxim ou-se do capitão Wentworth e, sem qualquer consideração pelo que poderia estar interrom pendo, e pensando apenas no que ocupava a própria m ente, com eçou dizendo:
– Frederick, se você tivesse chegado um a sem ana m ais tarde em Lisboa na prim avera passada, teria sido solicitado a transportar Lady Mary Grierson e as filhas.
– É m esm o? Então fico contente por não ter chegado um a sem ana m ais tarde!
O alm irante o repreendeu por essa falta de gentileza. Ele se defendeu, em bora tenha sido dizendo que j am ais aceitaria de bom grado nenhum a senhora a bordo de um de seus navios, exceto para algum baile ou visita que durassem um as poucas horas.
– No entanto, se bem m e conheço, não é por falta de galanteio em relação a elas – disse ele –, m as sim por saber com o é im possível, sej am quais forem os esforços que se façam , sej am quais forem os sacrifícios, proporcionar a bordo o conforto de que as senhoras precisam . Não há de haver falta de galanteio, alm irante, no fato de qualificar as exigências fem ininas em relação a todo tipo de conforto pessoal com o altas, e é isso que faço. Detesto ouvir que há senhoras a bordo, e detesto vê-las a bordo, e nenhum navio sob m eu com ando, se eu puder evitar, j am ais irá transportar um a fam ília de senhoras para onde quer que sej a.