Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
Isso levou a irm ã a se pronunciar contra ele.
– Ah, Frederick! Não acredito no que está dizendo. Isso não passa de um refinam ento sem im portância! Mulheres podem ter tanto conforto a bordo de um navio quanto na m elhor casa da Inglaterra. Acredito ter passado tanto tem po a bordo quanto a m aioria das m ulheres, e não conheço nada que supere as acom odações de um a em barcação de guerra. Posso declarar que não tenho nenhum conforto ou am enidade à m inha volta, nem m esm o em Kelly nch Hall – e fez um a educada m esura na direção de Anne –, que supere o que sem pre tive a bordo da m aioria dos navios nos quais vivi, e foram cinco no total.
– Isso é inteiram ente diferente – retrucou seu irm ão. – Você estava vivendo com seu m arido, e era a única m ulher a bordo.
– Mas você certa vez conduziu de Portsm outh até Ply m outh a sra. Harville, sua irm ã, sua prim a e três filhos. Onde estava então esse seu galanteio tão aguçado e extraordinário?
– Inteiram ente m isturado com a m inha am izade, Sophia. Eu aj udaria qualquer esposa de um colega oficial que pudesse aj udar, e transportaria qualquer coisa que pertencesse a Harville até o fim do m undo se ele assim desej asse. Mas não vá im aginar que eu não tenha considerado tal fato um m al em si.
– Pode acreditar, elas todas viaj aram em pleno conforto.
– Pode ser que eu não as preze m ais por isso. Um a quantidade tão grande assim de m ulheres e crianças não tem o direito de se sentir confortável a bordo.
– Meu caro Frederick, você está falando da boca para fora. O que seria de nós, pobres esposas de m arinheiros, que tantas vezes precisam ser transportadas de um porto a outro para acom panhar nossos m aridos, se todos pensassem com o você?
– A form a com o penso, vej a você, não m e im pediu de conduzir a sra. Harville e toda a sua fam ília até Ply m outh.
– Mas detesto ouvir você falar com o um cavalheiro tão educado, e com o se as m ulheres fossem todas senhoras elegantes e não criaturas racionais. Nenhum a de nós espera navegar em águas calm as todos os dias de nossas vidas.
– Ah, querida! – disse o alm irante. – Quando ele tiver um a esposa, seu discurso será outro. Quando estiver casado, se tiverm os a sorte de viver para testem unhar outra guerra, verem os que ele fará com o você e eu fazem os, e com o m uitos outros j á fizeram . Nós o verem os m uito grato a qualquer um que lhe traga a sua esposa.
– Sim , verem os m esm o.
– Eu desisto – exclam ou o capitão Wentworth. – Quando as pessoas casadas com eçam a m e atacar dizendo: “Ah, você pensará bem diferente quando estiver casado!”, tudo que posso dizer é: “Não pensarei, não”, e elas então dirão de novo: “Pensará, sim ”, e a conversa estará encerrada.
Ele se levantou e afastou-se.
– Que grande viaj ante a senhora deve ter sido! – disse a sra. Musgrove à sra. Croft.
– Viaj ei bastante, senhora, durante os quinze anos de m eu casam ento, em bora m uitas m ulheres tenham viaj ado m ais. Atravessei o Atlântico quatro vezes, e fui e voltei um a vez das Índias Orientais, apenas um a, além de ter estado em diversos lugares m ais perto de casa: Cork, Lisboa, Gibraltar. Mas nunca passei do estreito, e nunca estive nas Índias Ocidentais. A senhora sabe que nem as Berm udas nem as Baham as são consideradas parte das Índias Ocidentais.
A sra. Musgrove não encontrou nenhum a palavra para discordar; não podia acusar a si m esm a de ter cham ado aqueles lugares de coisa algum a ao longo de toda a sua vida.
– E posso garantir à senhora – prosseguiu a sra. Croft – que nada é capaz de superar as acom odações de um navio de guerra; estou falando dos de categoria m ais alta, a senhora sabe. Naturalm ente, a bordo de um a fragata fica-se m ais confinado, em bora qualquer m ulher sensata possa estar perfeitam ente satisfeita a bordo de um a em barcação assim , e posso dizer, sem som bra de dúvida, que a parte m ais feliz de m inha vida foi vivida a bordo de um navio. Enquanto estávam os j untos, não havia nada a tem er, sabe? Graças a Deus! Sem pre fui abençoada com um a saúde excelente, e nenhum tipo de clim a m e faz m al. Sem pre enj oei um pouco durante as prim eiras vinte e quatro horas no m ar, m as depois disso nunca m ais soube o que é enj oo. A única ocasião em que realm ente sofri, sej a no corpo ou na m ente, a única ocasião em que de fato m e senti m al ou tive qualquer sensação de perigo foi no inverno que passei sozinha em Deal,
quando o alm irante (então 43 capitão Croft) estava no m ar do Norte. Na época, eu vivia o tem po inteiro assustada, e inventava todo tipo de m azela im aginária pelo fato de não saber com o que m e ocupar, nem quando teria notícias dele. Mas enquanto podíam os estar j untos nada m e incom odava, e nunca tive nem sequer a m ais leve indisposição.
– Sim , decerto. Sim , sim , de fato! Concordo inteiram ente com a senhora – foi a calorosa resposta da sra. Musgrove. – Não há nada tão ruim quanto a separação. Concordo inteiram ente com a senhora. Eu sei o que é isso, pois o sr. Musgrove sem pre com parece às sessões do tribunal do condado, e fico m uito grata quando elas term inam e ele volta para casa são e salvo.
A noite se encerrou com um a dança. Quando esta foi sugerida, Anne, com o sem pre, ofereceu seus préstim os, e em bora seus olhos ocasionalm ente se enchessem de lágrim as enquanto ela estava sentada na banqueta do piano, ficou extrem am ente grata por ter o que fazer, e não desej ou nada em troca a não ser passar despercebida.
Foi um a ocasião divertida e alegre, e ninguém parecia m ais bem disposto do que o capitão Wentworth. Anne sentia que ele tinha todos os m otivos para estar anim ado, o que a atenção e a deferência de todos os presentes, sobretudo das m oças, eram capazes de proporcionar. As irm ãs Hay ter, m oças da j á m encionada fam ília de prim os, aparentem ente viram ser-lhes concedida a honra de poderem se apaixonar por ele. Quanto a Henrietta e Louisa, am bas pareciam tão entretidas com ele que nada a não ser dem onstrações do m ais perfeito entendim ento entre as duas poderia ter feito pensar que não fossem rivais aguerridas. Quem poderia se surpreender que ele estivesse um pouco lisonj eado com um a adm iração tão universal, tão ávida?
Eram esses alguns dos pensam entos que ocupavam a m ente de Anne enquanto seus dedos se agitavam de form a m etódica, prosseguindo por toda um a m eia hora sem com eter qualquer erro e sem qualquer consciência. Uma vez apenas ela sentiu que ele a estava olhando, quem sabe observando seus traços m udados e tentando detectar neles as ruínas do rosto que outrora o havia seduzido, e uma vez apenas soube que ele devia tê-la m encionado: quase não percebeu até ouvir a resposta, m as então teve certeza de que ele havia perguntado ao seu par se a srta. Elliot nunca dançava. A resposta foi: “Ah, não, nunca! Ela desistiu para sem pre de dançar. Prefere tocar. Nunca se cansa de tocar.” Um a vez, tam bém , ele lhe dirigiu a palavra. Ao final da dança, tendo ela deixado o piano, ele havia se sentado na banqueta para tentar dedilhar um a m elodia da qual desej ava dar um a ideia às irm ãs Musgrove. Sem ter a intenção de fazê-lo, ela havia voltado àquela parte da sala, ele a vira e, levantando-se im ediatam ente, dissera, com um a polidez ensaiada:
– Queira m e perdoar, este lugar é seu.
E em bora ela tenha recuado na m esm a hora com um a decidida negativa, ele não se deixou convencer a se sentar novam ente.
Anne não desej ava m ais aqueles olhares nem aquelas palavras. Sua polidez fria, sua graça cerim oniosa eram piores do que tudo.
CAPÍTULO 9
O capitão Wentworth tinha ido para Kelly nch com o se ali fosse a sua própria casa, para ficar o quanto quisesse, um a vez que era alvo da gentileza fraterna tanto do alm irante quanto de sua esposa. Ao chegar, sua prim eira intenção era partir em breve rum o a Shropshire, onde visitaria o irm ão que m orava naquele condado, m as os atrativos de Uppercross levaram no a adiar os planos. Havia tanta sim patia, tanta adulação, tanto para enfeitiçá-lo na recepção que ali encontrou, os velhos eram tão hospitaleiros, os j ovens tão agradáveis, que ele não pôde senão decidir continuar onde estava, e passar m ais algum tem po confiando apenas na reputação do charm e e da perfeição da esposa de Edward.
Em pouco tem po, passou a visitar Uppercross diariam ente. Os Musgrove não poderiam ter se m ostrado m ais dispostos a convidá-lo do que ele a aceitar os convites, sobretudo pela m anhã, quando não tinha com panhia em casa, um a vez que o alm irante e a sra. Croft em geral saíam j untos para investigar com interesse a nova propriedade, seus gram ados e suas ovelhas, passeando com um vagar que não seria suportável para um a terceira pessoa, ou então saindo no
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cabriolé recentem ente adicionado ao seu patrim ônio.
Até então, a opinião dos Musgrove e seus dependentes em relação ao capitão Wentworth era unânim e. Por toda parte só havia um a invariável e calorosa adm iração; essa relação fam iliar, contudo, havia acabado de ser estabelecida quando um certo Charles Hay ter retornou ao convívio do grupo e se m ostrou consideravelm ente perturbado por ela, j ulgando o capitão Wentworth um verdadeiro estorvo.
Charles Hay ter era o m ais velho dos prim os e um rapaz m uito afável e cortês, e entre ele e Henrietta havia todas as m ostras de um vínculo afetivo anterior à chegada do capitão Wentworth. Ele era um sacerdote ordenado e, com o tinha um
curato 45 nas redondezas onde não precisava residir, vivia na casa do pai, a pouco m ais de três quilôm etros de Uppercross. Um a curta ausência de casa havia deixado sua bela desguarnecida de suas atenções naquele m om ento crítico e, quando ele retornou, teve o desgosto de ver os m odos de Henrietta consideravelm ente alterados, e de constatar a presença do capitão Wentworth.
A sra. Musgrove e a sra. Hay ter eram irm ãs. Am bas tinham dinheiro, m as os respectivos m atrim ônios haviam influenciado m aterialm ente o seu grau de prestígio. O sr. Hay ter tinha alguns bens próprios, m as estes eram insignificantes se com parados aos do sr. Musgrove, e, enquanto os Musgrove ocupavam o prim eiro escalão da sociedade rural da região, os j ovens da fam ília Hay ter, devido ao m odo de vida inferior, isolado e sem refinam ento dos pais e à sua própria educação deficiente, praticam ente não pertenciam a classe algum a a não ser por m eio de sua relação com Uppercross, com exceção desse filho m ais velho, que havia optado por se transform ar em um erudito e distinto cavalheiro, e que a todos os dem ais superava em intelecto e m odos.
As duas fam ílias sem pre haviam tido um a excelente relação, um a vez que não havia orgulho em um a das partes e tam pouco invej a na outra, e apenas um a consciência da própria superioridade por parte das irm ãs Musgrove suficiente para que considerassem agradável m elhorar a condição dos prim os. As atenções de Charles para com Henrietta haviam sido observadas sem qualquer reprovação pelo pai e pela m ãe da m oça. “Não seria um grande enlace para ela, m as, se Henrietta gostar do rapaz…” E Henrietta parecia de fato gostar do rapaz.
A própria Henrietta tinha certeza disso antes da chegada do capitão Wentworth, m as desse m om ento em diante o prim o Charles tinha sido praticam ente esquecido.
Até onde Anne podia observar, ainda pairavam dúvidas sobre qual das duas irm ãs seria a preferida do capitão Wentworth. Henrietta talvez fosse a m ais bonita, e Louisa a m ais alegre, e ela não sabia qual das duas, a m ais suave ou a m ais agitada, tinha m aior probabilidade de atraí-lo agora.
Fosse por terem a visão em botada ou um a confiança integral no com portam ento de am bas as filhas e de todos os rapazes que delas se aproxim avam , o sr. e a sra. Musgrove pareciam deixar tudo ao acaso. Não havia o m enor sinal de preocupação ou com entário a seu respeito na Casa Grande; em Uppercross Cottage, contudo, era diferente: o j ovem casal que ali m orava se m ostrava m ais propenso a especulações e conj ecturas, e bastou o capitão Wentworth encontrar as irm ãs Musgrove quatro ou cinco vezes e Charles Hay ter reaparecer para Anne ter de com eçar a escutar as opiniões do cunhado e da irm ã sobre qual das duas seria a preferida do capitão. Charles apostava em Louisa, Mary em Henrietta, m as os dois concordavam que a união dele com qualquer um a das duas seria um a grande alegria.
Charles “nunca tinha conhecido hom em m ais agradável na vida, e, pelo que tinha ouvido o próprio capitão Wentworth dizer certa vez, tinha total certeza de
que ele não havia acum ulado m enos de vinte m il libras 46 na guerra. Um a fortuna repentina. Além do m ais, havia a oportunidade do que ele ainda poderia ganhar com um a futura guerra, e Charles tinha certeza de que o capitão Wentworth tinha tanta probabilidade de se destacar quanto qualquer outro oficial da Marinha. Ah, seria um enlace esplêndido para qualquer um a das duas irm ãs!”
– Palavra que seria – retrucou Mary. – Meu Deus! Im agine só se um dia ele receber algum a grande honraria? E se um dia for nom eado baronete? “Lady Wentworth” soa m uito bem . Seria m esm o algo m aravilhoso para Henrietta. Ela então teria a prim azia em relação a m im , e Henrietta não acharia isso nada ruim . Sir Frederick e Lady Wentworth! Mas seria um título recém -criado, e não tenho grande apreço por títulos recém -criados.
Era m ais conveniente para Mary pensar que Henrietta fosse a preferida j ustam ente por causa de Charles Hay ter, cuj as intenções ela desej ava ver encerradas. Mary decididam ente desprezava a fam ília Hay ter, e pensava que seria um grande infortúnio ver renovada a conexão j á existente entre as duas fam ílias… considerava isso um a tristeza para si e para os filhos.
– Sabe – disse ela –, não consigo considerá-lo um bom partido para Henrietta, e, levando em conta as alianças feitas pelos Musgrove, ela não tem o direito de desperdiçar a si m esm a. Não acho que m oça nenhum a tenha o direito de fazer um a escolha que possa ser desagradável ou inconveniente para a parte mais importante da fam ília, e criar conexões ruins para aqueles que com elas não estão acostum ados. E, por favor, quem é Charles Hay ter? Um sim ples cura de zona rural. É um enlace inteiram ente inadequado para a srta. Musgrove de Uppercross.
O m arido, porém , não concordava com ela nesse quesito, pois, além de ter apreço pelo prim o, Charles Hay ter era um filho prim ogênito, e Charles via a situação da perspectiva do prim ogênito que ele próprio era.
– Você está falando besteira, Mary – foi, portanto, a sua resposta. – Não seria um casam ento maravilhoso para Henrietta, m as Charles, por interm édio dos Spicer, tem um a chance m uito boa de obter algo do bispo no decorrer do próxim o ano ou algo assim , e tenha a bondade de lem brar que ele é o filho prim ogênito: quando m eu tio m orrer, vai herdar bens consideráveis. A propriedade de Winthrop não tem m enos de cem hectares, isso sem falar na fazenda perto de Taunton, onde estão algum as das m elhores terras do país. Concedo a você que qualquer um dos prim os que não Charles seria um partido chocante para Henrietta, e de fato tal coisa não poderia acontecer. Ele, no entanto, é o único par possível, Charles é um suj eito de m uito boa índole, um suj eito m uito bom , e, quando Winthrop cair em suas m ãos, irá transform á-la em um lugar diferente, e viverá ali de um a m aneira m uito diferente, e com essa propriedade j am ais será um hom em digno de desprezo… um a boa propriedade hereditária. Não, não; Henrietta poderia fazer coisa bem pior do que se casar com Charles Hay ter, e, se ela ficar com ele e Louisa com o capitão Wentworth, estarei bastante satisfeito.
– Charles pode dizer o que quiser – exclam ou Mary para Anne assim que o m arido saiu do recinto –, m as seria um choque ver Henrietta se casar com Charles Hay ter; seria m uito ruim para ela, e pior ainda para mim. Portanto, é de se desej ar com fervor que o capitão Wentworth logo o rem ova por com pleto dos pensam entos dela, e tenho m uito pouca dúvida de que isso j á ocorreu. Ela m al prestou atenção em Charles Hay ter ontem . Queria que você tivesse estado lá para ver com o ela se com portou. Quanto ao fato de o capitão Wentworth gostar tanto de Louisa quanto de Henrietta, é tolice afirm ar tal coisa, pois ele com certeza gosta m uito m ais de Henrietta. Mas Charles é tão otim ista! Queria que você tivesse estado conosco ontem , pois assim poderia ter decidido quem tem razão; e tenho certeza de que teria pensado com o eu, a m enos que estivesse decidida a m e contrariar.
A ocasião em que Anne deveria ter visto todas essas coisas fora um j antar na casa do sr. Musgrove; ela, porém , havia ficado em casa, alegando ao m esm o tem po um a dor de cabeça e a recrudescência de um a indisposição no pequeno Charles. Tudo que tinha em m ente era evitar o capitão Wentworth, m as escapar de um a solicitação para servir de árbitro veio se som ar às vantagens de um a noite tranquila.
Quanto à opinião do capitão Wentworth, ela considerava m ais im portante ele conhecer os próprios sentim entos cedo o bastante para não pôr em risco a felicidade de nenhum a das duas irm ãs ou prej udicar a própria honra do que o fato de preferir Henrietta a Louisa ou Louisa a Henrietta. Qualquer um a das duas provavelm ente poderia ser para ele um a esposa afetuosa e de disposição agradável. Com relação a Charles Hay ter, Anne possuía um a delicadeza de espírito suscetível a se deixar afetar pela conduta irrefletida de um a m ulher bem -intencionada, e um coração propenso a se identificar com qualquer sofrim ento que esta acarretasse, m as, caso Henrietta estivesse equivocada quanto à natureza dos próprios sentim entos, j á não era sem tem po de essa alteração ser com unicada.
Charles Hay ter havia encontrado no com portam ento da prim a m uito com que se afligir e consternar. Sua consideração por ele era dem asiado antiga para que ela se m ostrasse tão inteiram ente distante a ponto de, em apenas dois encontros, extinguir qualquer esperança que j á houvesse existido, e deixá-lo sem outra alternativa que não ir em bora de Uppercross; m as a m udança nela ocorrida se tornava deveras alarm ante quando um hom em com o o capitão Wentworth podia ser considerado a causa provável. Charles Hay ter havia passado apenas dois
dom ingos fora. 47 Quando os dois se separaram , Henrietta se m ostrara interessada, fazendo j us até m esm o às m ais am biciosas expectativas do rapaz, pela possibilidade de este logo deixar o curato que atualm ente ocupava e trocá-lo pelo de Uppercross. Seu desej o m ais sincero parecia ser que o dr. Shirley, o reitor, que durante m ais de quarenta anos vinha cum prindo com zelo todos os deveres de seu cargo, m as agora estava ficando dem asiado doente para m uitos deles, se decidisse a solicitar os serviços de um cura, que oferecesse por esse cargo as m elhores condições possíveis, e que prom etesse o posto a Charles Hay ter. A vantagem de ter de ir apenas até Uppercross, em vez de viaj ar quase dez quilôm etros em outra direção, de ter um curato m elhor do que o atual sob todos os aspectos, de trabalhar com seu querido dr. Shirley, e de o querido e bom dr. Shirley poder ser poupado das tarefas que não podia m ais realizar sem extrem o cansaço, tudo isso havia representado m uito até m esm o para Louisa, m as havia representado tudo para Henrietta. Infelizm ente, porém , quando ele voltou, todo o fervor pela causa havia desaparecido. Louisa nem sequer escutou qualquer parte de seu relato da conversa que acabara de ter com o dr. Shirley : estava j unto à j anela à espera do capitão Wentworth; e até m esm o Henrietta teve, no m áxim o, apenas um a atenção parcial a lhe dedicar, e parecia ter esquecido todas as antigas dúvidas e preocupações relacionadas à negociação.
– Bem , fico m uito feliz m esm o, m as sem pre achei que o senhor fosse conseguir, sem pre tive certeza. Não m e parecia que… em sum a, o senhor sabe, o dr. Shirley precisa de um cura, e o senhor j á havia obtido a sua prom essa. Ele está chegando, Louisa?
Certa m anhã, logo depois do j antar na casa dos Musgrove ao qual Anne não estivera presente, o capitão Wentworth adentrou a sala de estar do chalé onde estavam apenas ela e o pequeno e enferm o Charles, deitado no sofá.
A surpresa de se ver quase a sós com Anne Elliot privou os m odos dele da com postura habitual: ele se espantou, e tudo que conseguiu dizer foi “Pensei que as srtas. Musgrove estivessem aqui: o sr. Musgrove m e disse que eu as encontraria aqui”, antes de cam inhar até a j anela para se recom por e avaliar com o deveria se com portar.
– Elas estão no andar de cim a com m inha irm ã; acredito que vão descer daqui a alguns instantes – foi a resposta de Anne, com toda a confusão que era natural. E, se o m enino não a houvesse cham ado para fazer algo para ele, ela teria saído da sala no instante seguinte e liberado o capitão Wentworth, bem com o a si m esm a.
O capitão perm aneceu j unto à j anela e, depois de dizer com educação “Espero que o m enino estej a m elhor”, calou-se.
Anne foi obrigada a se aj oelhar j unto ao sofá e ali ficar para atender seu paciente; assim perm aneceram durante alguns m inutos, quando, para sua im ensa satisfação, ela ouviu algum a outra pessoa atravessar o vestíbulo. Ao virar a cabeça, torceu para ver entrar o dono da casa, m as a pessoa que apareceu se revelou bem m enos propensa a facilitar a situação: era Charles Hay ter, provavelm ente tão contrariado ao ver o capitão Wentworth quanto o capitão Wentworth havia ficado ao ver Anne.
Ela tentou dizer apenas:
– Com o vai? Não quer se sentar? As outras j á vão chegar.
O capitão Wentworth, porém , afastou-se da j anela, aparentem ente não de todo refratário a um a conversa, m as Charles Hay ter logo pôs um fim às suas tentativas indo se sentar perto da m esa e pegando o j ornal, e o capitão Wentworth voltou à sua j anela.
O m inuto seguinte trouxe m ais um visitante. Depois de alguém do lado de fora lhe abrir a porta, o m enino m ais novo, criança extrem am ente robusta e extrovertida de dois anos de idade, fez um a irrupção decidida entre os presentes, e encam inhou-se diretam ente para o sofá de m odo a ver o que estava acontecendo e a solicitar seu quinhão de qualquer coisa boa que pudesse estar sendo distribuída.
Com o não havia nada para com er, tudo que lhe restou foi brincar um pouco, e, com o a tia não deixou que provocasse o irm ão adoentado, o m enino com eçou a se agarrar a ela, que estava aj oelhada, de tal m odo que, ocupada com o estava com Charles, ela não pôde se desvencilhar do m enino. Falou com ele, ordenou, pediu e insistiu, tudo em vão. Um a vez conseguiu em purrá-lo para longe, m as o m enino teve ainda m ais prazer em tornar a subir im ediatam ente em suas costas.
– Walter – disse ela –, desça daí agora m esm o. Você está se com portando m uito m al. Estou m uito zangada com você.
– Walter – gritou Charles Hay ter –, por que não faz o que estão m andando? Não está ouvindo sua tia falar? Venha cá, Walter, venha com o prim o Charles.
Mas Walter não se m oveu.
Dali a poucos instantes, porém , ela se viu liberta do m enino: alguém o estava tirando de cim a dela, em bora ele a houvesse feito inclinar tanto a cabeça que pôde sentir as m ãozinhas fortes serem retiradas de seu pescoço e a criança ser levada em bora com decisão antes de poder constatar que fora o capitão Wentworth quem a havia retirado.
Suas sensações ao fazer tal descoberta deixaram -na totalm ente sem palavras. Ela nem sequer conseguiu lhe agradecer. Tudo que conseguiu fazer foi se curvar acim a do pequeno Charles com as em oções tom adas por um a intensa desordem . A gentileza dele ao se adiantar para libertá-la, a m aneira e o silêncio com os quais isso havia ocorrido, os detalhes das circunstâncias som ados à convicção que ela logo se viu forçada a adm itir pelo ruído que ele estava produzindo deliberadam ente com o m enino de que pretendia evitar seu agradecim ento e, pelo contrário, desej ava dem onstrar que um a conversa com ela era o últim o de seus desej os, produziu tam anha m istura de em oções cam biantes, m as m uito dolorosas, que ela foi incapaz de se recuperar até que, graças à chegada de Mary e das irm ãs Musgrove, pôde confiar o pequeno paciente a seus cuidados e se retirar do recinto. Não podia ficar ali. Talvez aquela tivesse sido um a oportunidade para observar os am ores e os ciúm es dos quatro que agora estavam todos reunidos, m as ela não conseguiu ficar para nada disso. Era evidente que Charles Hay ter não tinha nenhum a inclinação favorável em relação ao capitão Wentworth. Ela teve a nítida im pressão de tê-lo ouvido dizer em um tom de voz irritado após a interferência do capitão Wentworth: “Você deveria ter obedecido a mim, Walter; eu lhe disse para não incom odar sua tia”, e podia com preender seu desagrado pelo fato de o capitão Wentworth fazer o que ele próprio deveria ter feito. Mas nem os sentim entos de Charles Hay ter nem os de m ais ninguém poderiam interessá-la antes de ela ter conseguido organizar m elhor os seus. Sentia vergonha de si m esm a, m uita vergonha de ter ficado tão nervosa, tão abalada por um a coisa tão banal; m as assim era, e ela precisava de um longo período de solidão e reflexão para se recom por.
CAPÍTULO 10
Novas oportunidades de fazer suas observações não dem oraram a se apresentar. Em pouco tem po, Anne j á estivera na com panhia dos quatro j untos vezes suficientes para form ar um a opinião, em bora tenha tido a sensatez de não afirm ar isso em casa, onde sabia que seu j ulgam ento não teria agradado nem ao m arido nem à m ulher, pois, em bora considerasse que a favorita fosse Louisa, não podia deixar de pensar, até onde se atrevia a j ulgar com base na m em ória e na experiência, que o capitão Wentworth não estava apaixonado por nenhum a das irm ãs. As duas estavam m ais apaixonadas por ele, m as m esm o isso não era am or. Tratava-se de um a pequena febre de adm iração, m as que poderia, e provavelm ente deveria, se transform ar em am or para alguns. Charles Hay ter parecia consciente de estar sendo desconsiderado, m as Henrietta às vezes parecia dividida entre os dois. Anne ansiava poder expor a cada um deles a própria situação e apontar alguns dos m ales aos quais estavam se expondo. Não achava que qualquer um deles estivesse sendo calculista. Para sua grande satisfação, acreditava que o capitão Wentworth não tivesse a m enor consciência da dor que estava ocasionando. Não havia em seus m odos nada de triunfo, qualquer triunfo m esquinho. Ele provavelm ente nunca tinha ouvido falar nem nunca tinha levado em consideração qualquer interesse de Charles Hay ter. Seu único erro era aceitar (pois aceitar era o term o adequado) as atenções de duas m oças ao m esm o tem po.
Depois de um curto com bate, porém , Charles Hay ter pareceu abandonar o cam po de batalha. Três dias se passaram sem que ele fizesse um a visita sequer a Uppercross; era um a m udança e tanto. Ele chegara até a recusar um convite habitual para j antar e, depois de ter sido flagrado em certa ocasião pelo sr. Musgrove com alguns livros grandes abertos diante de si, o sr. e sra. Musgrove tiveram certeza de que tudo não poderia estar norm al e, com o sem blante grave, com entaram sobre Charles correr o risco de m orrer de tanto estudar. Mary acreditava que ele havia recebido um a recusa clara de Henrietta, e torcia para isso, enquanto seu m arido vivia na constante expectativa de vê-lo no dia seguinte. Anne, por sua vez, só podia pensar que Charles Hay ter era um hom em sensato.
Certa m anhã, por volta desse período, quando Charles Musgrove e o capitão Wentworth tinham saído j untos para caçar, e quando as irm ãs de Uppercross Cottage estavam tranquilam ente sentadas trabalhando, receberam pela j anela a visita das irm ãs da Casa Grande.
Era um belo dia de novem bro, e as irm ãs Musgrove atravessaram o pequeno j ardim e pararam sem qualquer outro m otivo que não dizer que estavam indo fazer um a longa cam inhada, tendo concluído, portanto, que Mary não iria querer acom panhá-las. E, quando Mary respondeu de im ediato, um pouco ofendida por não ser considerada um a boa andarilha: “Ah, sim ! Eu gostaria m uito de acom panhá-las, gosto m uito de longas cam inhadas”, Anne ficou convencida, pela expressão das duas m oças, que isso era j ustam ente o que elas não queriam , e m ais um a vez adm irou o tipo de necessidade que os hábitos fam iliares pareciam produzir de que tudo devia ser com unicado, e todas as atividades realizadas em conj unto, por m ais indesej ável e inconveniente que isso fosse. Tentou dissuadir Mary do passeio, m as foi em vão, e, sendo assim , achou m elhor aceitar o convite m uito m ais cordial que lhe foi feito pelas irm ãs Musgrove para que as acom panhasse, um a vez que poderia ser útil para voltar antes com a irm ã e am enizar a interferência em qualquer plano que as duas pudessem ter.
– Não consigo im aginar por que elas iriam supor que eu não gosto de um a longa cam inhada – disse Mary enquanto subia para o andar de cim a. – Todo m undo vive supondo que não sou um a boa andarilha, m as elas não teriam gostado caso eu tivesse m e recusado a acom panhá-las. Quando as pessoas aparecem dessa form a deliberada para nos convidar, com o é que se pode dizer não?
Bem na hora em que elas estavam partindo, os cavalheiros retornaram . Haviam levado consigo um cão j ovem que, depois de arruinar sua caçada, os havia obrigado a voltar m ais cedo. Assim sendo, seu horário, sua força e sua energia os tornavam particularm ente dispostos para aquela cam inhada, e eles se j untaram às senhoras com prazer. Se Anne pudesse ter previsto tal encontro, teria ficado em casa; no entanto, m ovida por alguns sentim entos de interesse e curiosidade, im aginou que agora fosse tarde dem ais para m udar de ideia, e todos os seis partiram j untos na direção escolhida pelas irm ãs Musgrove, que obviam ente consideravam que cabia a elas guiar a cam inhada.
O obj etivo de Anne era não atrapalhar ninguém e, nos lugares em que as trilhas estreitas que cruzavam os cam pos tornavam necessárias m uitas separações, m anter-se j unto do cunhado e da irm ã. Para ela, o prazer da cam inhada devia advir do exercício e do dia ensolarado, da contem plação dos últim os sorrisos do ano sobre as folhas am areladas e as sebes ressequidas, e da repetição para si m esm a de algum as das m ilhares de descrições poéticas do outono, estação de influência singular e inesgotável sobre as personalidades frágeis e refinadas, e que havia inspirado em todos os poetas dignos de serem lidos algum a tentativa de descrição ou algum as estrofes sensíveis. Ocupou a m ente o quanto pôde com tais devaneios e citações, m as, sem pre que estava ao alcance da conversa do capitão Wentworth com qualquer das duas irm ãs Musgrove, era incapaz de não tentar escutá-la; no entanto, pouco ouviu de m uito notável. Era apenas um diálogo anim ado com o o que quaisquer j ovens que se conhecessem bem poderiam travar. Ele se m ostrava m ais interessado em Louisa do que em Henrietta. Louisa com certeza dava m ais m otivos para ele reparar nela do que a irm ã. Essa distinção pareceu ir aum entando, e então um a fala de Louisa cham ou a atenção de Anne. Depois de um dos m uitos elogios ao dia que vinham sendo despej ados continuam ente, o capitão Wentworth acrescentou:
– Que tem po glorioso para o alm irante e m inha irm ã! Eles pretendiam fazer um longo passeio hoj e de m anhã; talvez possam os acenar para eles de um a dessas colinas. Eles falaram em vir por estas bandas. Pergunto-m e onde vão capotar hoj e. Ah, acontece com frequência, posso lhes garantir! Mas m inha irm ã não liga: para ela tanto faz ser j ogada ou não para fora da carruagem .
– Ah, sei que o senhor está exagerando! – exclam ou Louisa. – Entretanto, se fosse m esm o assim , eu faria exatam ente a m esm a coisa no lugar dela. Se eu am asse um hom em com o ela am a o alm irante, estaria sem pre a seu lado, nada nunca iria nos separar, e eu preferiria ser derrubada por ele a ser conduzida em segurança por qualquer outra pessoa.
A frase foi dita com entusiasm o.
– É m esm o? – exclam ou ele, em pregando o m esm o tom . – Eu m uito a adm iro! – e durante algum tem po fez-se silêncio entre os dois.
Anne não conseguiu transferir a atenção de im ediato para algum a citação. As belas cenas outonais foram deixadas de lado por algum tem po, a não ser por algum delicado soneto carregado com a relevante analogia do ano que declinava j unto com a felicidade, e com im agens da j uventude, da esperança e da prim avera perdidas todas j untas, que viesse visitar sua lem brança. Quando eles com eçaram a tom ar ordenadam ente um a outra trilha, ela se esforçou para dizer: “Este não é um dos cam inhos para Winthrop?” Ninguém , porém , a escutou, ou pelo m enos ninguém lhe respondeu.
Seu destino, contudo, era de fato Winthrop ou suas redondezas – pois às vezes se podiam encontrar alguns rapazes passeando perto de casa; e depois de quase um quilôm etro de subida gradual pelo m eio de altas sebes, onde os arados em atividade e a trilha recém -aberta testem unhavam o esforço do agricultor para contrabalançar a doçura da m elancolia poética e sua intenção de fazer ressurgir a prim avera, chegaram ao cum e da m ais alta das colinas, que separava Uppercross de Winthrop, e logo puderam ter um a visão desim pedida dessa últim a localidade, no sopé da colina do outro lado.
Winthrop, desprovida de beleza ou dignidade, estendia-se à sua frente: um a casa sem atrativos, atarracada e confinada pelos celeiros e construções de um a fazenda.
– Meu Deus! – exclam ou Mary. – Aquilo ali é Winthrop. Eu não im aginava! Bem , agora acho m elhor darm os m eia-volta; estou m uito cansada.
Henrietta, constrangida e envergonhada, e sem ver nenhum prim o Charles percorrendo qualquer trilha, ou apoiado em qualquer portão, estava prestes a atender aos desej os de Mary. Charles Musgrove, porém , disse: “Não!”, e Louisa, com m ais ardor ainda, exclam ou: “Não, não!”, e, puxando a irm ã de lado, pareceu debater o assunto de form a acalorada.
Enquanto isso, Charles declarava com grande energia a decisão de ir visitar a tia, agora que estava tão perto, e com grande obviedade, em bora de m odo m ais tem eroso, tentava persuadir a esposa a ir tam bém . Esse, porém , foi um dos pontos nos quais a senhora se m ostrou decidida, e quando ele citou a vantagem de ela poder descansar um quarto de hora em Winthrop, um a vez que estava tão cansada, ela respondeu com um tom resoluto: “Ah, não, não m esm o!”, que subir aquela colina outra vez lhe faria m ais m al do que qualquer período sentada poderia lhe fazer bem – em sum a, sua atitude e seus m odos declaravam que ela não iria.
Após um a curta sucessão de debates e consultas dessa espécie, ficou decidido entre Charles e suas duas irm ãs que ele e Henrietta iriam descer apenas por alguns m inutos, para visitar a tia e os prim os, enquanto o resto do grupo ficaria aguardando por eles no alto da colina. Louisa parecia ser a principal arquiteta do plano, e, quando ela os acom panhou por um curto trecho da descida, ainda entretida em um a conversa com Henrietta, Mary aproveitou a oportunidade para olhar em volta com um ar de desprezo e dizer ao capitão Wentworth:
– Com o é desagradável ter parentes assim ! Mas eu lhe garanto que nunca entrei nessa casa m ais de duas vezes na vida.
Tudo que ela obteve com o resposta foi um sorriso artificial de aquiescência, seguido por um olhar desdenhoso ao m esm o tem po em que ele virava as costas, olhar esse cuj o significado Anne conhecia perfeitam ente.
O cum e da colina onde eles estavam era um lugar alegre. Louisa voltou, e Mary, depois de encontrar um local confortável para se sentar no degrau de um a passagem na sebe, m ostrou-se m uito satisfeita contanto que todos os outros perm anecessem à sua volta. No entanto, quando Louisa levou o capitão Wentworth um pouco m ais para longe para tentar colher avelãs em um a sebe próxim a, e depois de os dois saírem do alcance de sua visão e escuta, Mary não se m ostrou m ais satisfeita: com eçou a reclam ar do lugar em que estava sentada, teve certeza de que Louisa havia encontrado outro bem m elhor, e nada pôde im pedi-la de sair tam bém à procura de outro m elhor. Ela se virou e tornou a atravessar a m esm a passagem na sebe, m as não conseguiu ver os dois. Anne encontrou um bom lugar para a irm ã se sentar, sobre um aclive seco e ensolarado abrigado pela m esm a sebe j unto à qual não tinha dúvidas de que os dois ainda estavam , em algum ponto. Mary se sentou por alguns instantes, m as de nada adiantou: tinha certeza de que Louisa havia encontrado algum lugar m elhor, e quis prosseguir até encontrá-la.
Anne, ela própria deveras cansada, ficou satisfeita em se sentar, e logo pôde escutar o capitão Wentworth e Louisa na sebe atrás de si, com o se estivessem voltando pelo túnel irregular e selvagem que corria no centro. Estavam conversando ao se aproxim ar. A voz de Louisa foi a prim eira que ela conseguiu identificar. Esta parecia estar no m eio de um acalorado discurso. O que Anne ouviu prim eiro foi:
– De m odo que eu a m andei ir. Não pude suportar a possibilidade de ela desistir da visita por causa de tam anha bobagem . O quê? Eu por acaso iria deixar de fazer algo que estava decidida a fazer, e que sabia estar correto, por causa da atitude e da interferência de um a pessoa assim , ou de qualquer pessoa, aliás? Não, eu não m e deixo ser persuadida com tanta facilidade. Quando tom o um a decisão, está tom ada. E Henrietta tam bém parecia totalm ente decidida a fazer um a visita a Winthrop hoj e, m as quase desistiu por causa de um a com placência boba!
– Quer dizer que ela teria desistido não fosse pela senhorita.
– Teria, sim . Sinto-m e quase envergonhada ao dizer isso.
– Que felicidade a dela ter um a m ente com o a sua sem pre à disposição! Depois das indicações que a senhorita acabou de dar, que só fazem confirm ar m inhas próprias observações da últim a vez em que estive na com panhia dele, não preciso fingir que não vej o o que está acontecendo. Constato que o que estava em j ogo era m ais do que um a visita m atinal de obrigação à sua tia; e pobre dele, e dela tam bém , quando se tratar de coisas im portantes, quando os dois se virem em circunstâncias que exij am coragem e força de caráter, se ela não tem nem sequer a força de vontade necessária para resistir a um a interferência fútil em relação a um a questão banal com o essa. Sua irm ã é um a m oça m uito agradável, m as estou vendo que é a senhorita quem tem um tem peram ento decidido e firm e. Se valoriza a conduta ou a felicidade de sua irm ã, tente influenciar o m áxim o que puder o tem peram ento dela com o seu. Mas sem dúvida é isso que a senhorita sem pre fez. O pior dos m ales de um tem peram ento excessivam ente m aleável e indeciso é não se poder confiar em qualquer influência sobre ele. Nunca se pode ter certeza de que um a boa im pressão vá ser durável; qualquer um pode m odificá-la. Quem quiser ser feliz deve ser firm e. Vej a esta avelã, por exem plo – disse ele, catando um fruto de um galho m ais alto –, um a bela e reluzente avelã que, abençoada com um a força original, sobreviveu a todas as tem pestades do outono. Não tem um a única m ácula, um único defeito em lugar algum . Enquanto m uitas de suas com panheiras caíram e foram pisoteadas – prosseguiu ele, com um tom de solenidade brincalhão –, esta avelã ainda possui toda a felicidade de que se pode supor capaz um a avelã – ele então voltou ao tom de voz anterior, m ais arrebatado. – Meu prim eiro desej o em relação a todos por quem m e interesso é que sej am firm es. Se Louisa Musgrove quiser ser bela e feliz no outono de sua vida, é bom que valorize todas as faculdades atuais de seu espírito.
Ele havia term inado, e ficou sem resposta. Anne teria ficado surpresa caso Louisa houvesse respondido de pronto a tal discurso: tinham sido palavras tão interessantes, e ditas com um fervor tão profundo! Podia im aginar o que Louisa estava sentindo. Ela, por sua vez, não ousava se m exer por m edo de ser vista. Enquanto perm anecesse onde estava, um arbusto baixo de trepadeira de azevinho a protegia, e os dois foram se afastando. Antes de saírem do raio de alcance de seu ouvido, porém , Louisa tornou a falar.
– Mary tem razoável boa índole sob m uitos aspectos – falou –, m as às vezes m e irrita m uito com suas bobagens e seu orgulho… o orgulho típico dos Elliot. Ela carrega em si um a dose exagerada do orgulho dos Elliot. Nós queríam os tanto que Charles tivesse desposado Anne em seu lugar. Suponho que o senhor saiba que ele quis se casar com Anne?
Após um a pausa de alguns instantes, o capitão Wentworth perguntou:
– Está querendo dizer que ela recusou o pedido dele?
– Ah, sim ! Recusou, sim .
– Quando foi isso?
– Não sei ao certo, pois Henrietta e eu estávam os na escola na época, m as acho que foi cerca de um ano antes de ele se casar com Mary. Eu queria que ela tivesse aceitado. Nós todos a teríam os apreciado bem m ais, e papai e m am ãe ainda acham que, se ela recusou, foi por causa de sua grande am iga Lady Russell. Eles acham que talvez Charles não sej a suficientem ente culto e afeito aos livros para o gosto de Lady Russell, e que, portanto, ela persuadiu Anne a recusar o pedido.
O som da conversa estava se afastando, e Anne não ouviu m ais nada. Suas próprias em oções a m antinham im obilizada. Tinha m uito do que se recuperar antes de conseguir se m exer. Anne não havia tido de suportar inteiram ente o fardo de um bisbilhoteiro: não escutara nada negativo a seu respeito, m as escutara um a boa quantidade de inform ações m uito dolorosas. Via agora o j uízo que o capitão Wentworth fazia de seu próprio caráter, e o com portam ento dele havia dem onstrado um a quantidade suficiente de sentim ento e curiosidade a seu respeito para deixá-la extrem am ente agitada.
Assim que foi capaz, partiu à procura de Mary e, depois de encontrá-la, e de voltar a pé com ela até o lugar anterior j unto à passagem da sebe, encontrou algum reconforto ao ver o grupo todo reunido im ediatam ente depois, e logo outra vez a cam inho de casa. Seu espírito ansiava pela solidão e pelo silêncio que só um grupo grande era capaz de proporcionar.
Charles e Henrietta regressaram , trazendo consigo, com o era de esperar, Charles Hay ter. Anne nem sequer se esforçou para com preender os detalhes do que havia acontecido; nem m esm o o capitão Wentworth parecia ter sido posto a par de todos os porm enores, m as não restava dúvidas de que houvera um a retratação por parte do cavalheiro, e um a reaproxim ação por parte da dam a, e que os dois agora estavam bem felizes por estarem novam ente reunidos. Charles Hay ter estava m uito feliz, e os dois dem onstraram total dedicação um ao outro desde o prim eiro instante em que partiram todos j untos a cam inho de Uppercross.
Tudo agora parecia destinar Louisa ao capitão Wentworth: nada poderia ser m ais óbvio, e nos pontos do cam inho em que foi preciso se separar em vários grupos, ou m esm o quando isso não foi necessário, os dois andavam lado a lado tanto quanto o outro casal. Em um longo trecho de cam pina em que havia espaço de sobra para todos, ficaram assim divididos, form ando três grupos distintos, e Anne naturalm ente integrou o grupo de três que m enos anim ação e m enos com placência exibia. Pôs-se a cam inhar ao lado de Charles e Mary, e estava cansada o bastante para se alegrar em segurar o outro braço de Charles. Charles, porém , em bora se m ostrasse m uito bem -hum orado com ela, estava zangado com a esposa. Mary havia agido com ele de form a desconsiderada, e agora iria sofrer as consequências, que consistiam no fato de ele soltar seu braço quase a todo instante para cortar as pontas de algum as urtigas na sebe com o graveto que trazia na m ão. E quando Mary com eçou a protestar e a se lam entar do fato de estar sendo m altratada, com o de hábito, por ter de cam inhar j unto à sebe, enquanto Anne do outro lado não sofria qualquer incôm odo, ele largou o braço das duas para sair atrás de um a doninha que tinha visto de relance, e elas quase não conseguiram alcançá-lo.
Essa longa cam pina m argeava um a estrada que eles deviam atravessar no final, e, depois de o grupo inteiro chegar à saída da cam pina, a carruagem que seguia na m esm a direção e que j á vinha sendo escutada havia algum tem po estava se aproxim ando, e logo se revelou ser o cabriolé do alm irante Croft. Ele e a esposa tinham ido fazer o passeio que pretendiam , e estavam agora voltando para casa. Ao ficar sabendo da longa cam inhada que os j ovens tinham acabado de fazer, tiveram a gentileza de oferecer um lugar a um a das senhoras que estivesse particularm ente cansada: isso a pouparia de cam inhar m ais de um quilôm etro e m eio, e eles de toda form a iriam passar por Uppercross. O convite foi feito a todos, e todos o recusaram . As irm ãs Musgrove não estavam nada cansadas, e Mary ou ficou ofendida por não ter recebido o convite antes dos outros, ou então aquilo que Louisa cham ava de orgulho dos Elliot a im pediu de ser a terceira passageira de um cabriolé.
O grupo j á havia atravessado a estrada e estava atravessando um a passagem na sebe em frente, e o alm irante estava se preparando para tornar a partir com seu cavalo quando o capitão Wentworth atravessou a sebe em um instante para dizer algo à irm ã. O que ele disse pôde ser inferido pelos efeitos que produziu.