Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 10/12

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

A expressão atônita de Anne e suas exclam ações de espanto levaram -na a fazer um a pausa e, com um a voz m ais calm a, ela acrescentou:

– Minhas expressões a espantam . A senhorita precisa levar em conta os sentim entos de um a m ulher ferida e zangada. Mas tentarei m e controlar. Não vou ofendê-lo. Vou apenas lhe contar com o ele se m ostrou a m im . Os fatos falarão por si. Ele era am igo íntim o de m eu querido m arido, que confiava nele e o am ava, e que o considerava tão bom quanto ele próprio. Essa intim idade j á existia antes de m eu casam ento. Quando os conheci, os dois j á eram m uito am igos; e eu tam bém passei a apreciar m uito o sr. Elliot e a ter por ele a m ais alta consideração. Aos dezenove anos, com o a senhorita sabe, nós não refletim os com m uita seriedade; m as o sr. Elliot m e pareceu tão bom quanto os outros, e m uito m ais agradável do que a m aioria dos outros, e nós estávam os quase

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sem pre j untos. Passávam os a m aior parte do tem po na cidade, vivendo em

grande estilo. Na época, a situação dele não era tão boa quanto a nossa; o pobre

era ele; tinha aposentos no Tem ple, 86 e isso era o m áxim o que conseguia fazer para m anter as aparências de um cavalheiro. Sem pre que desej ava, podia ficar na nossa casa; era sem pre bem -vindo, um verdadeiro irm ão para nós. Meu pobre Charles, que tinha o tem peram ento m ais elegante, m ais generoso do m undo, teria dividido com ele seu últim o vintém ; sei que a bolsa de m eu m arido estava aberta para ele; sei que ele o aj udava com frequência.

– Essa deve ter sido m ais ou m enos a época da vida do sr. Elliot que sem pre m e despertou especial curiosidade, j ustam ente – disse Anne. – Deve ter sido m ais ou m enos a m esm a época em que ele conheceu m eu pai e m inha irm ã. Eu m esm a não cheguei a conhecê-lo, apenas ouvi falar nele; m as havia algo em sua conduta de então em relação a m eu pai e m inha irm ã, e, m ais tarde, nas circunstâncias de seu casam ento, que nunca pude conciliar de todo com seu com portam ento atual. Ela parecia revelar um tipo de hom em diferente.

– Eu sei a história toda, eu sei a história toda – exclam ou a sra. Sm ith. – Ele foi apresentado a Sir Walter e à sua irm ã antes de eu o conhecer, m as eu o ouvi se referir a eles inúm eras vezes. Soube que ele foi convidado e incentivado a encontrá-los, e sei que decidiu não aceitar. Talvez eu possa satisfazer sua curiosidade em relação a questões que a senhorita nem sequer espera; quanto ao casam ento dele, soube tudo a respeito na época. Estava ciente de todos os prós e contras; eu era a am iga a quem ele confidenciava suas esperanças e seus planos; e, em bora não conhecesse sua esposa antes do casam ento (a sua condição social inferior tornava isso de fato im possível), eu a conheci a vida toda depois do casam ento, ou pelo m enos durante seus dois últim os anos de vida, e posso responder a qualquer pergunta que a senhorita queira fazer.

– Não – respondeu Anne –, não tenho nenhum a pergunta especial a fazer em relação a ela. Sem pre ouvi dizer que eles não form avam um casal feliz. Mas gostaria de saber por que, nessa época de sua vida, ele desdenhou conhecer m eu pai com o o fez. Meu pai decerto estava disposto a lhe dedicar am avelm ente toda a atenção adequada. Por que o sr. Elliot se afastou?

– Naquela época – respondeu a sra. Sm ith –, o sr. Elliot só tinha um obj etivo em m ente: fazer fortuna, e por m eio de um processo m ais rápido do que honesto. Estava decidido a obtê-la por m eio do casam ento. Estava decidido, pelo m enos, a não prej udicá-la com um casam ento im prudente; e sei que ele acreditava (em bora não consiga decidir se j ustificadam ente ou não) que o seu pai e a sua irm ã, com suas cortesias e convites, estavam tentando organizar um enlace entre o herdeiro e a j ovem dam a, e teria sido im possível tal enlace corresponder às suas am bições de riqueza e independência. Posso lhe garantir que foi esse o m otivo do seu afastam ento. Ele m e contou tudo. Não tinha segredos com igo. Curioso que, logo depois de eu m e separar da senhorita em Bath, a prim eira e principal relação form ada por m im depois de casada tenha sido com seu prim o, e que, por ele, eu tenha ouvido falar continuam ente no seu pai e na sua irm ã. Enquanto ele descrevia um a das srtas. Elliot, eu pensava na outra com grande afeição.

– A senhora por acaso às vezes falou de m im para o sr. Elliot? – exclam ou Anne, acom etida por um a ideia súbita.

– Com certeza; m uitas vezes. Eu costum ava m e gabar de m inha Anne Elliot, e garantir que a senhorita era um a criatura m uito diferente de…

Ela se conteve bem a tem po.

– Isso esclarece algo que o sr. Elliot disse ontem à noite – exclam ou Anne. – Isso explica tudo. Eu descobri que ele estava acostum ado a ouvir falar em m im . Não conseguia entender com o. Quantas ideias loucas nós tem os quando o assunto som os nós m esm os! Quantos erros com etem os! Mas peço-lhe desculpas; eu a interrom pi. Então o sr. Elliot se casou unicam ente por dinheiro? E esse foi provavelm ente o prim eiro indício que abriu os olhos da senhora quanto ao seu caráter?

Nesse ponto, a sra. Sm ith hesitou um pouco.

– Ah! Essas coisas são por dem ais corriqueiras. Quando se vive no m undo, o fato de um hom em ou m ulher se casar por dinheiro é corriqueiro dem ais para nos chocar com o deveria. Eu era m uito j ovem , e só m e relacionava com pessoas j ovens, e nós form ávam os um grupo despreocupado e alegre, sem qualquer regra estrita de conduta. Vivíam os para nos divertir. Hoj e penso de form a diferente; o tem po, a doença e a tristeza m e fizeram m udar de opinião; naquela época, porém , devo dizer que não vi nada de repreensível na atitude do sr. Elliot. “Fazer o m elhor por si m esm o”, era esse o nosso lem a.

– Mas ela não era um a m ulher de condição m uito inferior?

– Sim ; e eu m e opunha a isso, m as ele não m e deu ouvidos. Dinheiro, dinheiro, era só o que ele queria. O pai dela era criador de gado, o avô tinha sido açougueiro, m as nada disso tinha im portância. Ela era um a m ulher bonita, tinha recebido um a educação decente, fora apresentada à sociedade por uns prim os, passara a conviver por acaso com o sr. Elliot e se apaixonara por ele; e ele não teve qualquer dificuldade ou escrúpulo com relação à sua origem . Toda a sua cautela foi dedicada a se certificar do verdadeiro tam anho de sua fortuna antes de se com prom eter. Pode estar certa que, sej a qual for a estim a que o sr. Elliot possa ter hoj e em dia pela própria condição social, quando j ovem ele não dava o m enor valor a isso. A possibilidade de vir a herdar Kelly nch significava algum a coisa, m as toda a honra da fam ília era para ele m ais reles do que o pó. Muitas vezes o ouvi afirm ar que, se os títulos de baronete estivessem à venda, qualquer um poderia com prar o seu por cinquenta libras, incluindo insígnias e divisas, sobrenom e e libré; m as não vou m e propor a repetir m etade do que o ouvi falar sobre esse assunto. Não seria j usto; m as a senhorita precisa de provas, pois isso tudo que acabo de lhe dizer não passa de afirm ações, e provas a senhorita terá.

– Minha cara sra. Sm ith, eu não quero prova algum a – exclam ou Anne. – A senhora não m e afirm ou nada contraditório em relação ao que o sr. Elliot aparentava ser alguns anos atrás. Pelo contrário, isso tudo parece confirm ar o que nós costum ávam os escutar e acreditar. Estou m ais curiosa para saber por que ele está tão diferente agora.

– Mas faça-m e um favor, e tenha a bondade de tocar a sineta para cham ar Mary ; não, espere: tenho certeza de que terá a bondade ainda m aior de ir a senhorita m esm a até m eu quarto e m e trazer a caixinha m archetada que irá encontrar na prateleira de cim a do arm ário.

Ao ver a am iga tão ansiosa e decidida, Anne fez o que ela pedia. A caixa foi trazida e posta na sua frente, e a sra. Sm ith, suspirando enquanto a destrancava, falou:

– Esta caixa está cheia de docum entos que pertencem a ele, ao m eu m arido; é apenas um a pequena parte dos papéis que tive de exam inar quando o perdi. A carta que estou procurando lhe foi escrita pelo sr. Elliot antes de nosso casam ento, e por acaso foi guardada; é difícil entender por quê. Mas m eu m arido era descuidado e pouco m etódico em relação a essas coisas, com o os hom ens geralm ente são; e, quando fui exam inar seus docum entos, encontrei esta carta j unto com outras ainda m ais triviais de diferentes pessoas espalhadas aqui e ali, enquanto m uitas cartas e m em orandos realm ente im portantes haviam sido destruídos. Aqui está; não quis queim á-la porque, ainda que estivesse j á naquela época m uito pouco satisfeita com o sr. Elliot, estava decidida a conservar todos os docum entos que provassem nossa antiga intim idade. Agora tenho m ais um m otivo para m e alegrar de poder m ostrá-la.

Era esta a carta, endereçada ao “Ilustre Cavalheiro Charles Sm ith, Tunbridge Wells”, e m arcada com a longínqua data de j ulho de 1803, Londres:

Meu caro Sm ith,

Recebi sua carta. Sua gentileza quase m e sufoca. Queria que a natureza

tivesse tornado m ais com uns os corações com o o seu, m as j á vivi vinte e três anos no m undo sem encontrar nenhum igual a ele. Garanto-lhe que agora não estou precisando dos seus serviços, pois tenho dinheiro novam ente. Pode dar-m e os parabéns: consegui m e livrar de Sir Walter e da senhorita sua filha. Eles voltaram para Kelly nch, e quase m e fizeram j urar ir visitá-los neste verão; m as a m inha prim eira visita a Kelly nch será com um avaliador, para m e dizer com o leiloar a propriedade da m aneira m ais vantaj osa. Não é im provável, porém , que o baronete volte a se casar; ele é tolo o suficiente para isso. Caso isso aconteça, no entanto, eles m e deixarão em paz, o que talvez sej a um a contrapartida honesta para a perda. Ele está ainda pior do que no ano passado.

Quisera eu ter qualquer outro nom e que não fosse Elliot. Estou farto desse

nom e. Quanto ao nom e Walter, graças a Deus posso abandoná-lo! E desej o que nunca m ais volte a m e ofender com m eu segundo W. de batism o, pois pretendo, pelo resto da vida, ser apenas, sinceram ente,

 

Wm . Elliot

 

Tal carta não pôde deixar de fazer Anne enrubescer, e a sra. Sm ith, ao observar o corado de suas faces, disse:

– Sei que os term os são m uito desrespeitosos. Em bora tenha m e esquecido das palavras exatas, lem bro-m e com perfeição do teor geral. Mas a carta revela bem o nosso hom em . Note bem as declarações que ele faz a m eu pobre m arido. Poderia haver algo m ais forte?

Anne não conseguiu superar de im ediato o choque e a hum ilhação de ver aquelas palavras usadas para se referir a seu pai. Foi obrigada a lem brar a si m esm a que ver aquela carta era um a violação das leis da honra, que ninguém deveria ser j ulgado ou conhecido por testem unhos dessa espécie, que nenhum a correspondência particular deveria ser lida por olhos alheios, antes de conseguir recuperar um a calm a suficiente para devolver a carta sobre a qual vinha refletindo e dizer:

– Obrigada. Isto é um a prova suficiente e incontestável: prova de tudo o que a senhora m e disse. Mas por que se relacionar conosco agora?

– Posso explicar isso tam bém – exclam ou a sra. Sm ith com um sorriso.

– Pode m esm o?

– Sim . Eu lhe m ostrei o sr. Elliot com o ele era doze anos atrás, e tornarei a m ostrá-lo com o é agora. Não posso fornecer outra prova escrita, m as posso prestar o testem unho oral m ais autêntico que se possa desej ar do que ele alm ej a agora, e do que está fazendo. Ele agora não está sendo hipócrita. De fato desej a se casar com a senhorita. As atenções que dedica atualm ente à sua fam ília são m uito sinceras; vêm do fundo do coração. Vou lhe revelar a fonte de m inhas inform ações: o seu am igo coronel Wallis.

– Coronel Wallis! A senhora o conhece?

– Não. A inform ação não chegou até m im por um a linha tão direta assim ; fez um ou dois desvios, m as nada im portante. O fluxo da água é tão bom quanto na origem ; e os pequenos sedim entos que se j untam pelo cam inho são facilm ente rem ovidos. O sr. Elliot conversa com o coronel Wallis sem reservas sobre as intenções que tem a seu respeito, e im agino que o coronel Wallis sej a ele próprio um personagem sensato, cuidadoso e perspicaz; m as o coronel Wallis tem um a esposa m uito bonita e tola, a quem conta coisas que seria m elhor não contar, e ele lhe repete tudo. Ela, por sua vez, tom ada pela energia transbordante da convalescência, repete tudo para sua enferm eira; e a enferm eira, ciente de m inha relação com a senhorita, m uito naturalm ente relata tudo a m im . Assim , na segunda-feira à noite, m inha boa am iga sra. Rooke m e revelou boa parte dos segredos de Marlborough Buildings. Quando falei na história toda, portanto, a senhorita pode ver que não estava exagerando tanto quanto supunha.

– Minha cara sra. Sm ith, sua fonte de inform ação é deficiente. Ela não basta. O fato de o sr. Elliot ter intenções em relação a m im não explica em nada o esforço que ele fez para se reconciliar com m eu pai. Isso tudo aconteceu antes de eu vir para Bath. Quando cheguei, encontrei-os j á m uito chegados.

– Eu sei disso; sei disso perfeitam ente, m as…

– Na verdade, sra. Sm ith, nós não devem os esperar obter inform ações verdadeiras nessas condições. Fatos e opiniões que passam pelas m ãos de tanta gente, sendo deform ados pela loucura de alguns e pela ignorância de outros, não podem conservar m uita verdade.

– Apenas ouça-m e por um instante. Logo poderá j ulgar o m érito geral da inform ação, depois de escutar alguns detalhes que a senhorita m esm a poderá contradizer ou confirm ar im ediatam ente. Ninguém im agina que a senhorita tenha sido a sua m otivação prim eira. Ele de fato a tinha visto antes de vir para Bath, e a havia adm irado, m as sem saber quem a senhorita era. Pelo m enos é o que diz m eu inform ante. É verdade? Ele por acaso a viu no verão ou no outono passado “em algum a região do oeste”, para usar suas próprias palavras, sem saber quem a senhorita era?

– Viu, sim . Por enquanto é tudo verdade. Foi em Ly m e. Eu por acaso estava em Ly m e.

– Bem – prosseguiu a sra. Sm ith com um tom de triunfo –, então conceda à m inha am iga o crédito devido pela confirm ação do prim eiro ponto. Ele a viu, portanto, em Ly m e, e a senhorita lhe agradou tanto que ele ficou im ensam ente satisfeito quando tornou a encontrá-la em Cam den Place e soube se tratar da srta. Anne Elliot, e, desse m om ento em diante, não tenho dúvidas, suas visitas à casa passaram a ter um duplo obj etivo. Mas havia outro m otivo, um m otivo anterior, que vou agora explicar. Caso haj a no m eu relato algum a coisa que a senhorita j ulgue falso ou im provável, por favor, m e detenha. Segundo o relato que ouvi, a am iga de sua irm ã, a senhora que atualm ente vive em sua casa e de quem j á a ouvi falar, chegou a Bath com a srta. Elliot e Sir Walter j á em setem bro (em sum a, na m esm a ocasião em que eles próprios aqui chegaram ), e desde então tem estado hospedada com eles; ainda segundo m eu relato, trata-se de um a m ulher inteligente, insinuante, bonita, pobre e convincente, que se porta de tal m aneira, por sua condição e seus m odos, a levar todos os conhecidos de Sir Walter a supor que sua intenção sej a se tornar Lady Elliot, e a se espantar com o fato de, aparentem ente, a srta. Elliot não perceber o perigo.

Nesse ponto, a sra. Sm ith fez um a curta pausa. Anne, porém , não teve nada a acrescentar, e ela então prosseguiu:

– Era sob esse prism a que os conhecidos da fam ília viam a situação bem antes de a senhorita retornar ao seu convívio; e o coronel Wallis, em bora na época não visitasse Cam den Place, prestava atenção suficiente em seu pai para perceber tudo; m as seu apreço pelo sr. Elliot tornava interessante para ele observar tudo o que acontecia na casa, e quando o sr. Elliot veio passar um ou dois dias em Bath, com o por casualidade ocorreu pouco antes do Natal, o coronel Wallis lhe inform ou sobre a aparente situação e sobre os boatos que com eçavam a circular. Mas a senhorita precisa entender que o tem po havia operado um a m udança m uito significativa na opinião do sr. Elliot quanto ao valor de um título de baronete. Ele é hoj e um hom em totalm ente m udado no que diz respeito às questões de sangue e parentesco. Com o há m uito tem po j á tem m ais dinheiro do que seria capaz de gastar, e nada a desej ar em relação a riquezas ou prazeres, ele aos poucos aprendeu a apostar a própria felicidade inteiram ente no título que vai herdar. Eu j á tinha a im pressão de que isso estava ocorrendo antes de as nossas relações cessarem , m as agora é um a sensação confirm ada. Ele não pode suportar a ideia de não se tornar Sir William . A senhorita pode im aginar, portanto, que a notícia que ouviu do am igo não lhe foi das m ais agradáveis, e pode im aginar o que esta acarretou; a decisão de retornar a Bath o quanto antes, de aqui fixar residência por algum tem po com o obj etivo de renovar as antigas relações, recuperar um a influência tal no seio da fam ília que lhe perm itisse avaliar o grau de risco que estava correndo e neutralizar a dam a caso j ulgasse isso necessário. Tal fato ficou decidido entre os dois am igos com o a única atitude a se tom ar; e o coronel Wallis dispôs-se a aj udar com o pudesse. Ele seria apresentado à fam ília, a sra. Wallis seria apresentada à fam ília, e todos seriam apresentados à fam ília. O sr. Elliot reapareceu conform e o planej ado; pediu desculpas que foram aceitas, com o a senhorita j á sabe, e tornou a ser acolhido pela fam ília; a partir daí, seu obj etivo constante, seu único obj etivo (antes de a sua chegada proporcionar um segundo) era vigiar Sir Walter e a sra. Clay. Ele não perdia nenhum a oportunidade para estar em sua com panhia, provocava todos os encontros possíveis, aparecia a qualquer m om ento em sua casa; m as eu não preciso entrar em detalhes quanto a isso. A senhorita pode im aginar o que um hom em astuto é capaz de fazer; e, de posse dessas inform ações, talvez se lem bre do que j á o viu fazer.

– Sim – respondeu Anne –, a senhora não está m e dizendo nada que não se encaixe com o que j á sei ou poderia im aginar. Há sem pre algo de ofensivo nos detalhes das atitudes ardilosas. As m anobras de egoísm o e duplicidade serão sem pre repulsivas, m as eu nada escutei que de fato m e espante. Sei de pessoas que talvez ficassem chocadas com essa descrição do sr. Elliot, que achariam difícil acreditar nisso, m as eu nunca m e deixei convencer. Sem pre desej ei conhecer outro m otivo para a sua conduta que não o aparente. Gostaria de saber a opinião atual dele quanto à probabilidade do acontecim ento que tanto tem e; se ele considera que esse perigo está dim inuindo ou não.

– Pelo que sei, ele acha que está dim inuindo – retrucou a sra. Sm ith. – Segundo ele, a sra. Clay o tem e, tem consciência de que ele percebe o que ela está tentando fazer, e não se atreve a continuar agindo com o poderia na sua ausência. No entanto, com o ele deverá se ausentar em algum m om ento, não entendo com o algum dia poderá ficar seguro enquanto ela estiver exercendo a atual influência. Segundo a enferm eira m e contou, a sra. Wallis tem a divertida opinião de que, quando a senhorita e o sr. Elliot se casarem , será incluída no contrato de casam ento um a cláusula proibindo o seu pai de se casar com a sra. Clay. Um a suposição m uito digna da inteligência da sra. Wallis; m as a m inha sensata enferm eira Rooke pode ver o quanto é absurda. “Com certeza, senhora, isso não irá im pedi-lo de se casar com nenhum a outra”, disse ela. E de fato, para falar a verdade, não acho que a enferm eira, no fundo, sej a um a forte opositora ao fato de Sir Walter contrair segundas núpcias. É preciso reconhecer que ela é um a defensora do casam ento; e (um a vez que sem pre tem os m otivações próprias) quem pode afirm ar que não acalente algum sonho passageiro de servir à próxim a Lady Elliot por recom endação da sra. Wallis?

– Folgo m uito em saber tudo isso – disse Anne depois de refletir um pouco. – Sob determ inados aspectos, vai ser m ais doloroso para m im estar na com panhia dele, m as eu saberei m elhor com o agir. Minha conduta agora será m ais direta. Está claro que o sr. Elliot é um hom em ardiloso, falso e m undano, e que nunca teve qualquer princípio m elhor a guiá-lo que não o egoísm o.

Mas a conversa sobre o sr. Elliot ainda não havia term inado. A sra. Sm ith fora obrigada a se desviar do curso inicial, e Anne havia esquecido, em prol de suas próprias preocupações fam iliares, todas as acusações feitas originalm ente contra ele; m as agora sua atenção foi atraída para a explicação dessas prim eiras sugestões, e ela escutou um relato que, em bora não j ustificasse de todo a profunda am argura da sra. Sm ith, provava que ele havia se m ostrado m uito insensível em sua conduta em relação a ela; m uito deficiente tanto em m atéria de j ustiça quanto de com paixão.

Ela ficou sabendo que (com o a relação estreita entre eles prosseguiu sem entraves após o casam ento do sr. Elliot) os três haviam continuado a estar sem pre j untos com o antes, e que o sr. Elliot levara o am igo a fazer despesas m uito além do que suas posses perm itiam . A sra. Sm ith não queria assum ir a culpa ela própria, e deu provas de extrem a delicadeza ao não j ogá-la no m arido; m as Anne pôde com preender que sua renda nunca havia sido com patível com o estilo de vida e que, desde o início, houvera grande quantidade de extravagâncias generalizadas e conj untas. Pelo relato que a esposa fez dele, pôde depreender que o sr. Sm ith tinha sido um hom em de sentim entos generosos, tem peram ento calm o, hábitos descuidados e discernim ento deficiente, m uito m ais afável do que o am igo e m uito diferente dele, por ele influenciado e provavelm ente por ele desprezado. O sr. Elliot, agora m uito rico devido ao casam ento, e propenso a todas as gratificações de prazer e vaidade passíveis de serem obtidas sem se com prom eter (pois todos os seus excessos o haviam transform ado em um hom em prudente), e tendo se tornado rico j ustam ente quando o am igo se deu conta da própria pobreza, parecia não ter tido qualquer preocupação com a situação financeira provável do am igo e, m uito pelo contrário, havia provocado e incentivado despesas cuj o resultado só podia ser a ruína – e o casal Sm ith, de fato, havia se arruinado.

O m arido m orrera bem a tem po de ser poupado de toda a extensão do desastre. No passado, o casal havia enfrentado dificuldades suficientes para pôr à prova a am izade dos am igos, e para dem onstrar que era m elhor não pôr à prova a do sr. Elliot, m as foi só depois da m orte do m arido que o terrível estado de suas finanças veio à tona por com pleto. Confiando na opinião do sr. Elliot, m ais devido aos sentim entos do que ao j uízo, o sr. Sm ith o havia nom eado seu executor testam entário; o sr. Elliot, porém , havia recusado a responsabilidade, e as dificuldades e provações que essa recusa havia causado à viúva, som adas ao sofrim ento inevitável de sua condição, tinham sido de tal m onta que não podiam ser com unicadas sem angústia nem escutadas sem um a indignação condizente.

Anne pôde em seguida ler algum as cartas escritas por ele na época em resposta às solicitações urgentes da sra. Sm ith, e todas deixavam evidente a m esm a firm e decisão de não se dedicar a um esforço inútil e, sob um disfarce de fria civilidade, a m esm a indiferença cruel em relação a qualquer m al que isso viesse a lhe causar. Era um retrato terrível de ingratidão e falta de hum anidade; e Anne sentiu, em alguns m om entos, que nenhum crim e m anifesto e flagrante poderia ter sido pior. Ela teve m uito o que escutar; todos os detalhes de antigas cenas tristes, todas as m inúcias de sucessivas preocupações que, em conversas passadas, tinham sido apenas obj eto de alusão, foram agora relatados com um a natural falta de entraves. Anne com preendia perfeitam ente o im enso alívio sentido pela am iga, e este só fez deixá-la m ais inclinada a estranhar o autocontrole de sua atitude habitual.

No relato de suas queixas, um detalhe causava especial irritação. A sra. Sm ith tinha bons m otivos para acreditar que um im óvel do m arido nas Índias Ocidentais, durante m uito tem po suj eito a um a espécie de interdição para garantir o pagam ento de suas dívidas, poderia ser recuperado, bastando para isso tom ar as m edidas adequadas; esse im óvel, em bora não fosse m uito grande, bastaria para torná-la com parativam ente rica. No entanto, não havia ninguém para interceder por ela no assunto. O sr. Elliot se recusava a fazer qualquer coisa, e ela própria nada podia fazer, duplam ente incapacitada de interceder pessoalm ente por seu estado de fraqueza física e de contratar alguém para fazê-lo por falta de dinheiro. Não tinha nenhum parente para aj udá-la nem sequer dando conselhos, nem condições de pagar pela aj uda da lei. Isso agravava de form a cruel a sua j á difícil situação. Sentir que poderia estar vivendo em condições m elhores, que um pequeno esforço no lugar certo poderia proporcionar isso, e tem er que a dem ora pudesse estar dim inuindo suas chances era difícil de suportar!

Era nesse ponto que ela esperava poder utilizar os préstim os de Anne j unto ao sr. Elliot. Antes daquela conversa, quando pensava que os dois iriam se casar, ficara m uito apreensiva com m edo de que o casam ento a fizesse perder a am iga; no entanto, ao ficar segura de que ele não poderia ter feito qualquer tentativa nesse sentido, um a vez que nem sequer sabia de sua presença em Bath, ocorreu-lhe im ediatam ente que algo poderia ser feito para aj udá-la graças à influência da m ulher que ele am ava, e vinha se preparando às pressas para conquistar o interesse de Anne até onde a cautela devida ao caráter do sr. Elliot perm itia quando o desm entido de Anne em relação ao suposto noivado m udou toda a situação; e, em bora este lhe tenha roubado a recém -surgida esperança de alcançar o obj etivo de sua prim eira preocupação, pelo m enos lhe deixou o reconforto de poder contar a história toda a seu m odo.

Após escutar essa descrição com pleta do sr. Elliot, Anne não pôde evitar m anifestar certa surpresa com o fato de a sra. Sm ith ter se referido a ele de m aneira tão favorável no início de sua conversa. “Ela parecera recom endá-lo e elogiá-lo!”

– Minha cara – foi a resposta da sra. Sm ith –, não havia m ais nada a fazer. Eu dava por certo o fato de que a senhorita iria se casar com ele, em bora talvez ele ainda não tivesse feito o pedido, e era tão im possível para m im contar a verdade a seu respeito quanto se ele fosse seu m arido. Quando falei em felicidade, foi com o coração sangrando por sua causa; no entanto, ele é um hom em sensato, agradável, e, com um a m ulher com o a senhorita, a situação não era totalm ente desesperadora. Ele tratou m uito m al a prim eira esposa. Os dois foram m uito infelizes j untos. Mas ela era ignorante e tola dem ais para m erecer respeito, e ele nunca a am ou. Eu estava disposta a torcer para que a senhorita tivesse m elhor sorte.

Anne não conseguiu adm itir em seu íntim o a possibilidade de ter sido convencida a se casar com ele sem um calafrio ao pensar na infelicidade que teria obrigatoriam ente se seguido. Afinal de contas, era bem possível que tivesse se deixado persuadir por Lady Russell! Nesse caso, qual das duas teria ficado m ais infeliz quando o tem po viesse, tarde dem ais, a tudo revelar?

Era m uito desej ável que Lady Russell não perm anecesse iludida por m ais tem po; e um a das últim as decisões na conclusão dessa im portante conversa, que as m anteve entretidas durante boa parte da m anhã, foi que Anne tinha total liberdade para revelar à am iga qualquer inform ação relacionada à sra. Sm ith na qual a conduta do sr. Elliot estivesse envolvida.

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CAPÍTULO 10

 

Anne foi para casa refletir sobre tudo o que havia escutado. Por um lado, seus sentim entos estavam tranquilizados com essas novas inform ações sobre o sr. Elliot. Ela não lhe devia m ais qualquer m anifestação de ternura. Ele se opunha ao capitão Wentworth com todas as suas introm issões inoportunas; e os danos causados por suas atenções na noite anterior, o m al irrem ediável que ele talvez tivesse causado, foi avaliado com sentim entos desprovidos de atenuantes ou de indecisão. Ela j á não sentia m ais qualquer pena dele. Mas esse era seu único m otivo de alívio. Sob todos os outros aspectos, ao olhar em volta ou pensar no futuro, ela via m ais razões para desconfiança e apreensão. Estava preocupada com a decepção e a dor que Lady Russell iria sentir; com as hum ilhações que iriam sofrer seu pai e sua irm ã, e com toda a aflição de prever m uitos m ales sem saber com o evitar qualquer um deles. Estava im ensam ente agradecida por saber o que sabia sobre ele. Nunca havia se considerado m erecedora de qualquer recom pensa por não desdenhar um a velha am iga com o a sra. Sm ith, m as ali estava um a enorm e recom pensa! A sra. Sm ith lhe contara coisas que ninguém m ais poderia ter contado. Ah, se essas inform ações pudessem ser com partilhadas com a fam ília! Mas era um a ideia vã. Ela precisava conversar com Lady Russell, contar a ela, pedir seus conselhos, e, depois de ter feito o m elhor possível, aguardar o acontecim ento com o m áxim o de autocontrole de que era capaz; e, no final das contas, a m aior falta de autocontrole estaria naquele cantinho de sua m ente que não podia ser revelado a Lady Russell, naquele fluxo de ansiedades e tem ores que deveriam perm anecer só seus.

Ao chegar em casa, descobriu que, conform e previra, de fato havia escapado de encontrar o sr. Elliot; que ele havia aparecido e que lhes fizera um a longa visita m atinal; no entanto, m al havia se parabenizado e com eçado a se sentir segura quando ouviu dizer que ele iria voltar à noite.

– Eu não tinha a m enor intenção de convidá-lo – disse Elizabeth de form a exageradam ente casual –, m as ele fez m uitas insinuações; pelo m enos é o que afirm a a sra. Clay.

– De fato, afirm o m esm o. Nunca vi ninguém na vida tentar com m ais afinco se fazer convidar. Pobre hom em ! Fiquei m esm o consternada por ele; pois a sua irm ã Anne, que tem um coração de pedra, parece decidida a se m ostrar cruel.

– Ah! – exclam ou Elizabeth. – Conheço bem dem ais esse j ogo para m e deixar enganar tão facilm ente pelas sugestões de um cavalheiro. No entanto, quando descobri o quão desolado ele estava por não encontrar m eu pai hoj e de m anhã, cedi na m esm a hora, pois realm ente nunca perderia um a oportunidade de reuni-lo com Sir Walter. Eles parecem m uito à vontade na com panhia um do outro! Am bos se com portam de m aneira m uito agradável. O sr. Elliot dem onstra grande respeito.

– Que m aravilha! – exclam ou a sra. Clay, sem no entanto se atrever a virar os olhos para Anne. – Exatam ente com o pai e filho! Não posso dizer isso, m inha cara srta. Elliot, com o pai e filho?

– Ah, eu não tenho qualquer controle sobre as palavras de ninguém . Se a senhora desej a pensar assim ! Mas j uro que não percebo nas atenções dele nada de superior às dos outros hom ens.

– Minha cara srta. Elliot! – exclam ou a sra. Clay, erguendo as m ãos e os olhos e enterrando todo o resto de seu espanto em um silêncio oportuno. – Ora, m inha cara Penelope, não precisa ficar tão alarm ada por causa dele. Eu o convidei. Mandei-o em bora com sorrisos. Quando descobri que ele am anhã iria m esm o passar o dia visitando seus am igos de Thornberry Park, tive pena dele.

Anne adm irou a capacidade de interpretação da am iga de sua irm ã, capaz de dem onstrar tanto prazer quanto o fez em relação à expectativa e à vinda j ustam ente da pessoa cuj a presença devia estar interferindo seriam ente com seu obj etivo principal. Era im possível que a sra. Clay sentisse outra coisa que não ódio pelo sr. Elliot; no entanto, era capaz de adotar um a expressão m uito dócil e tranquila, e de aparentar grande satisfação com a possibilidade reduzida de se dedicar a Sir Walter apenas a m etade do que teria feito em outras circunstâncias.

Para Anne, por sua vez, foi m uito desagradável ver o sr. Elliot entrar no recinto; e m uito doloroso vê-lo se aproxim ar dela e lhe dirigir a palavra. No passado, estava acostum ada a sentir que ele podia nem sem pre ser totalm ente sincero, m as agora via insinceridade em tudo. A deferência atenciosa que ele dem onstrava para com seu pai lhe parecia detestável se com parada à linguagem por ele utilizada anteriorm ente e, quando ela pensou em sua conduta cruel para com a sra. Sm ith, m al pôde suportar a visão de seus sorrisos e gentilezas de agora, nem a expressão de seus bons sentim entos falsos. Ela pretendia evitar qualquer alteração de com portam ento que desse m argem a um com entário da parte dele. Para ela, era um obj etivo im portante escapar de qualquer pergunta ou

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éclat; m as sua intenção era se m ostrar tão fria para com ele quanto fosse

com patível com a relação que tinham ; e recuar, com a m aior discrição possível, dos poucos passos de intim idade desnecessária que havia gradualm ente sido convencida a conceder. Assim , m ostrou-se m ais reservada e fria do que na noite anterior.

Ele quis tornar a despertar sua curiosidade quanto a com o e onde podia ter escutado elogios a seu respeito no passado; quis m uito ser gratificado com novas perguntas sobre isso; o feitiço, porém , estava rom pido: ele constatou que o calor e a anim ação de um recinto público eram necessários para atiçar a vaidade daquela sua m odesta prim a; constatou, pelo m enos, que isso não iria acontecer agora por m eio de qualquer um a das tentativas que ele pudesse arriscar em m eio às solicitações excessivam ente insistentes dos outros. Mal desconfiava que esse era agora um assunto que ia j ustam ente contra seu interesse, trazendo na m esm a hora à m ente de Anne todos os detalhes m enos perdoáveis de sua conduta.

Ela teve algum a satisfação ao descobrir que ele na realidade iria em bora de Bath na m anhã seguinte, que iria bem cedo, e que passaria a m aior parte dos dois dias seguintes fora. Foi convidado novam ente a ir a Cam den Place na noite de sua volta; de quinta-feira até sábado à noite, porém , sua ausência era certa. Já era ruim o suficiente ter alguém com o a sra. Clay sem pre diante de si; m as ver um hipócrita ainda m aior se unir a seu grupo parecia a destruição de qualquer paz e conforto possíveis. Era m uito hum ilhante pensar no constante engodo de que seu pai e Elizabeth estavam sendo vítim as; e pensar nos vários m otivos de hum ilhação que se preparavam para eles! O egoísm o da sra. Clay não era tão refinado nem tão repulsivo quanto o seu; e Anne teria apoiado o casam ento na hora, m esm o com todos os seus m ales, se pudesse assim se livrar dos estratagem as do sr. Elliot para tentar evitá-lo.

Na m anhã de sexta-feira, Anne tinha a intenção de ir bem cedo à casa de Lady Russell para lhe com unicar o que era preciso; e teria ido logo depois do desj ej um não fosse o fato de a sra. Clay tam bém estar de saída para cum prir a gentil tarefa de poupar algum trabalho à sua irm ã, o que a obrigou a esperar até ter certeza de que estaria a salvo dessa com panhia. Esperou a sra. Clay estar a um a distância razoável antes de com eçar a falar em passar a m anhã em Rivers Street.

– Muito bem – disse Elizabeth –, não tenho nada a dizer a ela exceto m andar lem branças. Ah! E você bem que poderia levar de volta aquele livro m açante que ela m e em prestou, e fingir que o li até o fim . Não posso ficar m e m artirizando continuam ente com todos os poem as e ensaios que são publicados no país. Não precisa dizer isso a ela, m as achei seu vestido horrendo na outra noite. Costum ava pensar que ela tivesse algum bom gosto em m atéria de vestuário, m as senti vergonha dela no concerto. Seu aspecto tinha algo de tão

form al, de tão 89 arrangé ! E ela se m antinha tão ereta quando sentada! Mande-lhe as m inhas m elhores lem branças, é claro.

– E as m inhas tam bém – acrescentou Sir Walter. – Meus m elhores votos. E pode dizer que tenho a intenção de ir visitá-la em breve. Um a visita de cortesia; m as deixarei apenas o m eu cartão. Visitas m atinais nunca são adequadas para m ulheres de sua idade, que se m aquiam tão pouco. Se ao m enos ela usasse ruge, não teria m edo de ser vista; da últim a vez em que lá estive, porém , reparei que as persianas foram baixadas na m esm a hora.

Enquanto seu pai falava, alguém bateu à porta. Quem poderia ser? Lem brando-se das visitas calculadas do sr. Elliot, que aparecia a qualquer hora, Anne teria pensado que era ele, não estivesse o sr. Elliot notoriam ente viaj ando, a m ais de dez quilôm etros dali. Após o costum eiro intervalo de incerteza, os sons habituais de pessoas se aproxim ando foram ouvidos, e “o sr. e a sra. Musgrove” foram conduzidos sala adentro.

A surpresa foi a em oção m ais forte causada pela aparição do casal; m as Anne ficou m uito satisfeita em vê-los; e os outros não lam entaram tanto a visita a ponto de não serem capazes de ostentar um ar de boas-vindas decente; e, assim que ficou claro que os dois, seus parentes m ais próxim os, não tinham ido até lá com qualquer expectativa de se fazer hospedar naquela casa, Sir Walter e Elizabeth puderam intensificar sua cordialidade e com ela honrar m uito bem as visitas. O casal tinha ido passar alguns dias em Bath com a sra. Musgrove, e estava

hospedado no White Hart. 90 Essa parte não dem orou a se esclarecer; no entanto, foi só quando Sir Walter e Elizabeth conduziram Mary até a outra sala para se deliciar com sua adm iração que Anne conseguiu interrogar Charles para obter um inform e sensato de sua vinda ou explicação para algum as alusões sorridentes a um a incum bência específica, alusões estas que tinham sido feitas explicitam ente por Mary, bem com o para um a certa confusão aparente quanto aos m em bros de seu grupo.

Descobriu então que, além de Charles e Mary, a sra. Musgrove, Henrietta e o capitão Harville tam bém faziam parte do grupo. Charles lhe fez um relato bem singelo e inteligível da história toda; um a narrativa na qual ela pôde constatar vários acontecim entos m uito típicos. O prim eiro im pulso em favor da viagem tinha sido a vontade do capitão Harville de visitar Bath a negócios. Ele havia com eçado a falar nisso um a sem ana antes; e, para ter algo que fazer, logo após a caçada, Charles havia sugerido acom panhá-lo, e a sra. Harville parecera gostar im ensam ente da ideia, que lhe parecia vantaj osa para o m arido; Mary, porém , não podia suportar a ideia de ficar sozinha, e havia se m ostrado tão infeliz com isso que, durante um ou dois dias, o proj eto inteiro parecera incerto ou m esm o abandonado. Fora então, porém , que o pai e a m ãe de Charles haviam se interessado pela viagem . Sua m ãe tinha alguns velhos am igos em Bath que desej ava visitar; aquela era um a boa oportunidade para Henrietta com prar um vestido de casam ento para si e para a irm ã; em sum a, o proj eto acabou se transform ando na viagem de sua m ãe, de m odo a tornar tudo m ais confortável e fácil para o capitão Harville; e ele e Mary foram incluídos no grupo para acom odar a vontade de todos. Tinham chegado a Bath na noite anterior. A sra. Harville, seus filhos e o capitão Benwick tinham ficado em Uppercross com o sr. Musgrove e Louisa.

A única surpresa de Anne foi que a situação estivesse suficientem ente avançada para j á se estar falando nos vestidos de casam ento de Henrietta. Im aginava que fossem haver dificuldades financeiras que im pediriam o casam ento de se realizar tão em breve; soube por Charles, porém , que m uito recentem ente (desde que Mary havia lhe escrito) Charles Hay ter havia sido solicitado por um am igo para ocupar um curato em nom e de um j ovem que só poderia assum ir a responsabilidade dali a m uitos anos; e que, graças a essa renda, além da quase certeza de algo m ais perm anente bem antes de expirado o prazo em questão, as duas fam ílias haviam acatado o desej o dos j ovens, e o casam ento provavelm ente iria ocorrer dali a poucos m eses, ao m esm o tem po que o de Louisa.

– E é um curato m uito bom – acrescentou Charles. – Fica a apenas quarenta quilôm etros de Uppercross, em um a região m uito bonita: um a parte m uito bonita

de Dorsetshire.91 Fica no m eio de algum as das m elhores terras do reino, cercada por três grandes proprietários, cada qual m ais cuidadoso e desconfiado que o outro; e Charles Hay ter talvez consiga um a recom endação especial para pelo m enos dois dos três. Não que ele vá dar a essas terras o valor devido – observou ele. – Charles não liga m uito para caça. É a sua pior característica.

– Fico m uito satisfeita, m uito m esm o – exclam ou Anne. – Fico particularm ente satisfeita que isso aconteça; e que, para duas irm ãs igualm ente m erecedoras, e que sem pre foram tão am igas, as felizes perspectivas futuras de um a não façam som bra às da outra… e que as duas possam gozar de prosperidade e conforto em igual m edida. Espero que seu pai e sua m ãe estej am felizes em relação às duas.

– Ah, sim ! Meu pai tam bém ficaria feliz caso os cavalheiros fossem m ais ricos, m as não vê nenhum outro defeito nos dois. O dinheiro, você sabe, ter de encontrar dinheiro, e para duas filhas ao m esm o tem po, não é um a operação das m ais agradáveis, e está lhe causando algum as dificuldades. Mas não estou querendo dizer que elas não tenham direito a esse dinheiro. É m uito j usto que recebam aquilo a que têm direito com o filhas; e estou certo de que para m im ele sem pre se m ostrou um pai m uito gentil e generoso. Mary não aprecia tanto assim o pretendente de Henrietta. Nunca apreciou, você sabe. Mas ela não lhe faz j ustiça, e não considera Winthrop com o deveria. Não consigo fazê-la com preender o valor da propriedade. Na época em que vivem os, é um casam ento m uito bom ; e eu sem pre gostei de Charles Hay ter, e não é agora que vou deixar de gostar.

– Pai e m ãe tão excelentes quanto o sr. e a sra. Musgrove devem estar felizes com o casam ento das filhas – exclam ou Anne. – Tenho certeza de que fazem tudo para lhes proporcionar felicidade. Que bênção para duas j ovens estar nas m ãos de pessoas assim ! Seu pai e sua m ãe parecem inteiram ente desprovidos de todos aqueles sentim entos am biciosos que tantos erros e infelicidade j á causaram a j ovens e velhos! Você agora j ulga Louisa totalm ente recuperada, suponho?

A resposta de Charles foi um pouco hesitante.

– Sim , acredito que sim ; ela está m uito recuperada; m as está m udada: j á não corre nem pula m ais, não ri nem dança; m uito diferente de antes. Basta alguém bater um a porta com força para ela se sobressaltar e estrem ecer com o um passarinho na água; e Benwick passa o dia inteiro sentado a seu lado lendo poem as ou sussurrando em seu ouvido.

Anne não pôde reprim ir um a risada.

– Sei que isso não deve ser m uito de seu agrado – disse ela –, m as acredito de fato que ele sej a um rapaz excelente.

– Com certeza é, sim : ninguém duvida disso; e espero que você não m e j ulgue tão pouco generoso a ponto de querer que todos os hom ens tenham os m esm os obj etivos e os m esm os prazeres que eu. Tenho grande apreço por Benwick; quando alguém consegue fazê-lo falar, ele tem m uito a dizer. Suas leituras não o prej udicaram , pois, além de ler, ele tam bém com bateu. É um suj eito coraj oso. Conheci-o m elhor na segunda-feira passada do que j am ais o conhecera antes. Nós passam os a m anhã inteira às voltas com os ratos nos grandes celeiros de m eu pai; e ele desem penhou seu papel tão bem que desde então gosto m ais dele.

Nesse ponto, os dois foram interrom pidos pela absoluta necessidade de Charles acom panhar os outros e ir adm irar espelhos e porcelanas. Mas Anne j á tinha escutado o suficiente para com preender a atual situação de Uppercross e se alegrar com a felicidade que lá reinava; e em bora seu j úbilo contivesse tam bém alguns suspiros, estes não tinham qualquer m aldade advinda da invej a. Ela com certeza gostaria de viver a m esm a sensação, m as não queria dim inuir a dos outros.

A visita transcorreu em um a atm osfera m uito bem -hum orada. Mary estava com um a disposição excelente, aproveitando a alegria e a m udança de ares, e tam bém tão satisfeita com a viagem na carruagem de quatro cavalos da sogra e com sua total independência de Cam den Place para se m ostrar inteiram ente inclinada a adm irar tudo com o devia, e a apreciar na m esm a hora todas as vantagens da casa conform e estas lhe eram descritas com riqueza de detalhes. Não tinha nada a solicitar ao pai ou à irm ã, e a sua própria im portância era adequadam ente aum entada pela visão de seus belos salões.

Continuar: parte 11 de 12