Persuasão

Jane Austen · Capítulo 2 de 5 · parte 6/12

Páginas do PDF

Persuasão

Persuasão

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.

Ainda não haviam deixado o Quebra-Mar quando o casal Harville veio se j untar a eles. O capitão Benwick tinha sido visto passando às carreiras por sua casa, e sua atitude dem onstrava que algo estava errado; os dois então haviam saído de casa na m esm a hora, e pelo cam inho haviam sido inform ados e direcionados ao local do acidente. Por m ais chocado que estivesse o capitão Harville, ele veio som ar ao grupo um a sensatez e um sangue-frio que se m ostraram im ediatam ente úteis, e bastou um olhar trocado entre ele e a esposa para ficar decidido o que deveria ser feito. Louisa seria levada para a sua casa, e todos tam bém deveriam ir para lá aguardar a chegada do m édico. O casal não aceitou discussão: foi obedecido, e logo o grupo inteiro estava sob seu teto. E enquanto Louisa, m ediante instruções da sra. Harville, era levada até o andar de cim a e posta na cam a da sra. Harville, auxílio, bebidas estim ulantes e fortificantes foram providenciados por seu m arido a todos os necessitados.

Louisa havia aberto os olhos um a vez, m as logo tornou a fechá-los sem ter aparentem ente recobrado os sentidos. No entanto, isso foi um a prova de vida útil para sua irm ã, e Henrietta, em bora totalm ente incapaz de perm anecer no m esm o quarto que Louisa, foi assim im pedida de desm aiar novam ente pela aflição da esperança m esclada ao m edo. Mary tam bém j á estava ficando m ais calm a.

O m édico chegou m ais rápido do que parecera possível. Foram todos tom ados pela apreensão enquanto ele exam inava a m oça, m as ele não se m ostrou desesperançoso. A cabeça havia sofrido um a séria contusão, m as ele j á tinha visto outros pacientes se recuperarem de ferim entos piores; de form a algum a se m ostrou sem esperanças, e falou com um a voz alegre.

O fato de o m édico não considerar a situação um caso perdido ou não ter dito que tudo estaria acabado dali a poucas horas foi no início recebido pela m aioria dos presentes com o algo que superava suas expectativas, e pode-se im aginar o êxtase provocado por tal boa notícia, a alegria silenciosa e profunda que deles se apoderou após algum as fervorosas exclam ações de gratidão aos céus.

Anne teve certeza de que j am ais iria esquecer o tom e a expressão com os quais o capitão Wentworth pronunciou as palavras “Graças a Deus!”. Tam pouco iria esquecer a visão que teve dele pouco depois, sentado j unto a um a m esa e nela apoiado sobre os braços cruzados, com o rosto escondido, com o quem está dom inado por m uitos sentim entos diversos da alm a e tenta acalm á-los por m eio de prece e reflexão.

Os m em bros de Louisa haviam sido poupados. O único ferim ento era o da cabeça.

Fez-se então necessário para o grupo pensar em qual seria a m elhor atitude a tom ar em relação à situação geral. Agora podiam conversar uns com os outros e deliberar sobre o assunto. Não havia dúvida de que Louisa teria de perm anecer onde estava, por m ais incom odados que estivessem os seus am igos em dar tanto trabalho assim ao casal Harville. Transportá-la era im possível. Os Harville calaram todos os protestos e, até onde conseguiram , todas as dem onstrações de gratidão. Já tinham previsto e providenciado tudo antes de os outros sequer com eçarem a pensar. O capitão Benwick teria que abrir m ão de seu quarto e arrum ar outro lugar para dorm ir. E tudo ficou assim acertado. A única coisa que os preocupava era o fato de não caberem m ais pessoas na casa; no entanto, talvez “pondo as crianças para dorm ir no quarto da em pregada ou encaixando um berço em algum lugar”, m al podiam conceber a ideia de não encontrar espaço para m ais duas ou três pessoas, caso estas fossem querer ficar, isso apesar de, no que tangia ao estado da srta. Musgrove, não ser preciso haver qualquer preocupação quanto a deixá-la inteiram ente sob os cuidados da sra. Harville. A sra. Harville era um a enferm eira m uito experiente, assim com o a sua am a-seca e criada, que j á m orava com ela havia m uito tem po e a acom panhara por toda parte. Com as duas, Louisa não poderia desej ar m elhores cuidados, fosse à noite ou durante o dia. E tudo isso foi dito com um a franqueza e um a sinceridade de sentim entos irresistíveis.

Charles, Henrietta e o capitão Wentworth estavam conversando os três, e durante algum tem po tudo que conseguiram trocar foram exclam ações de perplexidade e horror. “Uppercross, alguém precisa voltar para Uppercross… alguém precisa dar a notícia… com o dar essa notícia ao sr. e à sra. Musgrove… a m anhã j á está bem adiantada… j á se passou um a hora desde que deveríam os ter partido… será im possível chegar num a hora aceitável.” No início, não conseguiram tom ar nenhum a outra providência em relação ao assunto que não soltar essas exclam ações, m as depois de algum tem po o capitão Wentworth fez um esforço e disse:

– Precisam os tom ar um a decisão, e sem perder m ais nenhum m inuto. Cada m inuto faz diferença. Alguém precisa decidir partir para Uppercross agora m esm o. Musgrove, um de nós dois deve ir.

Charles concordou, m as declarou sua intenção de não sair dali. Trataria de incom odar o m enos possível o capitão e sra. Harville, m as não podia nem iria deixar a irm ã no estado em que esta se encontrava. Isso ao m enos ficou decidido, e Henrietta de início declarou a m esm a coisa. Ela, porém , foi logo convencida a pensar de outra form a. Que utilidade havia em ficar ali? Ela, que não fora nem sequer capaz de perm anecer no m esm o quarto com Louisa sem ser acom etida por sintom as que a tornavam inútil, m enos do que inútil! Henrietta foi então forçada a adm itir que não poderia ter qualquer utilidade, m as continuou resistindo à ideia de partir até que, ao pensar no pai e na m ãe, cedeu: aceitou ir em bora, e m ostrou-se ansiosa para voltar para casa.

O plano havia chegado a esse ponto quando Anne, que descia em silêncio do quarto de Louisa, não pôde evitar ouvir o que se seguiu, um a vez que a porta da antessala estava aberta.

– Então está decidido, Musgrove – exclam ou o capitão Wentworth. – O senhor fica, e eu levo sua irm ã de volta para casa. Quanto ao resto, quanto aos outros, se alguém deve ficar aqui para aj udar a sra. Harville, acho que só deve ser um a pessoa. A sra. Charles Musgrove naturalm ente irá querer voltar para j unto dos filhos, m as se Anne aceitar ficar, não há ninguém m ais adequado nem m ais capaz do que ela.

Anne estacou por um instante para se recuperar da em oção de ouvir tais palavras ditas a seu respeito. Os outros dois concordaram calorosam ente com o que o capitão acabara de dizer, e ela então apareceu.

– A senhorita ficará, tenho certeza de que ficará para cuidar dela – exclam ou ele, virando-se em sua direção e falando com um arrebatam ento, m as ao m esm o tem po com um a delicadeza que quase pareceram reviver o passado. Ela corou profundam ente, e ele se controlou e se afastou. Ela então se pronunciou m uito disposta, pronta e contente em perm anecer ali.

– Era isso que eu estava pensando, e torcendo para que m e deixassem fazer. Um a cam a no chão do quarto de Louisa bastará para m im , se a sra. Harville não se im portar.

Faltava apenas um a coisa para tudo ficar organizado. Em bora fosse um tanto desej ável que o sr. e a sra. Musgrove ficassem previam ente alarm ados por um certo atraso, o tem po necessário para os cavalos de Uppercross levarem Henrietta e o capitão Wentworth de volta até lá seria um prolongam ento cruel dessa incerteza, e o capitão Wentworth então sugeriu, e Charles Musgrove

59

concordou, que seria m uito m elhor ele alugar um a chaise da hospedaria e

deixar que a do sr. Musgrove fosse despachada para casa na m anhã seguinte bem cedo, quando haveria a vantagem suplem entar de poderem transm itir o relato de com o Louisa havia passado a noite.

O capitão Wentworth então saiu para preparar tudo o que lhe cabia, e para ser logo seguido pelas duas senhoras. Quando o plano foi com unicado a Mary, contudo, toda a concórdia em relação a ele se extinguiu. Ela dem onstrou forte desagrado, forte veem ência, e reclam ou m uito da inj ustiça de esperarem que ela fosse em bora em lugar de Anne; Anne, que não era nem sequer parente de

60

Louisa, enquanto ela era sua irm ã e tinha m ais do que ninguém o direito de

substituir Henrietta! Por que não poderia ser tão útil quanto Anne? Além disso, voltar para casa sem Charles, seu m arido! Não, era cruel dem ais. Em resum o, ela disse m ais do que o m arido pôde suportar e, com o nenhum dos outros pôde se opor depois de ele ceder, não houve rem édio: a troca de Anne por Mary foi inevitável.

Em ocasião nenhum a Anne havia se subm etido com m ais relutância aos pedidos cium entos e inj ustificados de Mary, m as não houve j eito, e assim partiram os quatro rum o à cidade, Charles am parando a irm ã enquanto o capitão Benwick am parava Anne. Por alguns instantes, enquanto cam inhavam apressados, ela recordou as circunstâncias detalhadas que os m esm os locais haviam testem unhado m ais cedo nesse m esm o dia. Ali ela havia escutado os planos de Henrietta para a partida do dr. Shirley de Uppercross; m ais adiante, tinha visto o sr. Elliot pela prim eira vez. Um m ero instante parecia ser tudo o que era possível dedicar a outro tem a que não Louisa ou aqueles envolvidos em seu bem -estar.

O capitão Benwick se m ostrou m uito atencioso e prestativo com Anne e, unidos com o estavam pela angústia daquele dia, ela sentiu por ele um a sim patia crescente, e a sim ples ideia de que talvez aquela fosse um a oportunidade para tornarem a se encontrar lhe deu prazer.

O capitão Wentworth os aguardava j unto a um a chaise puxada por quatro cavalos e estacionada, para seu conforto, no trecho m ais baixo da rua; m as a evidente surpresa e irritação diante da substituição de um a irm ã pela outra, a m udança de postura, o espanto, as expressões surgidas e logo reprim idas com as quais ele ouviu as palavras de Charles, tudo isso constituiu para Anne um a recepção das m ais constrangedoras, ou pelo m enos a convenceu de que ela só tinha valor pela utilidade que poderia ter j unto a Louisa.

Ela procurou m anter a calm a e ser j usta. Sem querer im itar os sentim entos de

um a Em m a por seu Henry,61 teria cuidado de Louisa pelo bem do capitão Wentworth com um zelo superior ao que recom enda a consideração, e esperava que ele não fosse tão inj usto a ponto de pensar que ela se exim iria sem m otivo dos deveres de um a am iga.

Enquanto isso, ela em barcou na carruagem . Depois de aj udar as duas j ovens a subir, ele se acom odou entre elas; e foi assim , sob essas circunstâncias carregadas de espanto e em oção para Anne, que ela deixou Ly m e. Era incapaz de prever com o correria a longa viagem , nem com o esta iria afetar seu com portam ento, nem qual seria a natureza de sua relação. No entanto, tudo correu de form a bem natural. O capitão Wentworth m ostrou-se m uito atencioso com Henrietta, virou-se diversas vezes em sua direção, e, quando falava, o que era raro, era sem pre com a intenção de avivar suas esperanças e m elhorar seu ânim o. De m odo geral, sua voz e seus m odos exibiam um a calm a calculada. Poupar Henrietta de qualquer agitação parecia ser o principal obj etivo. Som ente um a vez, quando ela se lam entava daquele últim o passeio inoportuno e m alfadado até o Quebra-Mar, lastim ando am argam ente que este nem sequer tivesse sido cogitado, ele exclam ou, com o quem perde o controle:

– Nem m e fale, nem m e fale. Ah, Deus m eu, se eu não houvesse cedido à vontade de Louisa no instante fatal! Se tivesse feito o que devia! Mas ela parecia tão ansiosa, tão decidida. Cara e doce Louisa!

Anne se perguntou se agora lhe ocorreria questionar a propriedade de sua opinião anterior com relação à felicidade e à vantagem universal da firm eza de caráter, ou se talvez ele não pensasse que, assim com o todas as outras virtudes da m ente, esta precisava ter a sua proporção e os seus lim ites. Em sua opinião, era quase im possível ele não perceber que um tem peram ento m aleável podia às vezes favorecer tanto a felicidade quanto um caráter m uito decidido.

Eles avançaram depressa. Anne ficou pasm a ao reconhecer tão cedo as m esm as colinas e os m esm os obj etos. A velocidade real, aguçada por um a certa apreensão em relação à conclusão da viagem , fez a estrada parecer ter apenas m etade da extensão que tinha na véspera. No entanto, a noite j á caía quando eles chegaram aos arredores de Uppercross, e a essa altura um silêncio total j á reinava entre eles havia algum tem po, e Henrietta estava recostada no canto com o rosto coberto por um xale, fazendo os outros torcerem para ter adorm ecido de tanto chorar. Então, quando estavam subindo a últim a colina, Anne se viu abordada de súbito pelo capitão Wentworth. Com um a voz baixa e cautelosa, ele disse:

– Tenho pensado no que seria m elhor fazerm os. Henrietta não deve aparecer logo no início. Ela não iria suportar. Estive pensando se não seria m elhor a senhorita ficar na carruagem j unto com ela enquanto eu entro para dar a notícia ao sr. e à sra. Musgrove. Acha que é um bom plano?

Ela achava que sim ; sua resposta o satisfez, e ele não disse m ais nada. Mas a lem brança daquele apelo perm aneceu para ela com o um prazer, um a prova de am izade, um a deferência à sua faculdade de j uízo, um grande prazer; e, quando elas se revelaram um a espécie de reconhecim ento da separação deles, nem assim seu valor dim inuiu.

Um a vez encerrada a difícil m issão de dar a notícia em Uppercross, e depois de deixar o pai e a m ãe tão tranquilos quanto possível, e a filha revigorada por estar em sua com panhia, o capitão Wentworth anunciou sua intenção de usar a m esm a carruagem para voltar para Ly m e; e, assim que os cavalos foram alim entados, ele partiu.

 

FIM DO LIVRO I

LIVRO II

CAPÍTULO 1

 

O restante da estada de Anne em Uppercross, que consistiu em apenas dois dias, foi passado sem sair da Casa Grande; e ela teve a satisfação de perceber que era extrem am ente útil ali, tanto com o com panhia im ediata quanto para aj udar com todas as providências para o futuro que, com o estado de espírito angustiado do sr. e da sra. Musgrove, teriam constituído dificuldades.

Na m anhã seguinte, receberam bem cedo notícias de Ly m e. O estado de Louisa perm anecia igual. Não surgira nenhum sintom a pior do que os anteriores. Algum as horas depois, Charles chegou trazendo um relato posterior e m ais detalhado. Estava razoavelm ente alegre. Não era de se esperar um pronto restabelecim ento, m as tudo estava correndo tão bem quanto a natureza do caso perm itia esperar. Ao falar dos Harville, ele pareceu incapaz de expressar o próprio apreço pela gentileza do casal, e em especial pelos esforços da sra. Harville com o enferm eira. “Ela não havia deixado nada m esm o a cargo de Mary. Ele e Mary tinham sido convencidos a voltar para sua hospedaria no início da noite anterior. Naquela m anhã, Mary tivera outro ataque histérico. Quando Charles partira, ela estava prestes a ir dar um passeio com o capitão Benwick, passeio este que ele torcia fosse lhe fazer bem . Quase desej ava que ela pudesse ter sido convencida a voltar para casa na véspera, m as a verdade era que a sra. Harville não deixava nada a cargo de ninguém .”

Charles iria voltar para Ly m e na m esm a tarde, e seu pai inicialm ente se m ostrou inclinado a acom panhá-lo, m as as senhoras não concordaram . O fato de ele ir só faria aum entar o trabalho dado aos outros e intensificar sua própria preocupação; pelo contrário, um plano m uito m elhor foi decidido e aplicado. Mandou-se buscar um a carruagem em Crewkherne, e Charles levou consigo um a pessoa m uito m ais útil à situação: tratava-se da velha am a-seca dos Musgrove que, depois de ter criado todos os filhos da fam ília e visto o últim o deles, o indolente e superprotegido Harry, despachado para a escola após os irm ãos, m orava agora no quarto de crianças deserto onde passava o tem po rem endando m eias e fazia curativos em todas as bolhas e hem atom as que pudesse encontrar, e que, consequentem ente, ficou m uito feliz em poder partir para aj udar a cuidar da querida srta. Louisa. Um vago desej o de m andar Sarah para Ly m e j á havia ocorrido antes à sra. Musgrove e a Henrietta m as, sem Anne, a decisão não teria chegado a ser tom ada, nem teria se tornado praticável tão cedo.

No dia seguinte, eles se viram em dívida para com Charles Hay ter por todas as detalhadas inform ações relativas a Louisa que era tão essencial obter a cada vinte e quatro horas. Ele fez questão de ir até Ly m e, e as notícias que trouxe tam bém foram encoraj adoras. O consenso era que os intervalos de lucidez e consciência estavam ficando m aiores. Todos os relatos confirm avam que o capitão Wentworth parecia ter fixado residência em Ly m e.

Anne iria deixá-los no dia seguinte, acontecim ento que todos aguardavam com apreensão. “O que iriam fazer sem ela? Não lhes restaria o m enor reconforto.” E tanto foi dito nesse sentido que Anne j ulgou não poder fazer nada m elhor a não ser lhes com unicar a inclinação generalizada de que tinha conhecim ento, e persuadir todos a partirem im ediatam ente para Ly m e. Teve pouca dificuldade em fazê-lo: logo ficou decidido que todos iriam , que partiriam no dia seguinte, que ficariam na hospedaria ou então alugariam outros aposentos, o que fosse m ais conveniente, e lá ficariam até a querida Louisa poder ser transportada. Precisavam poupar algum incôm odo às boas pessoas em cuj a casa ela estava agora; pelo m enos poderiam poupar à sra. Harville os cuidados com a própria filha; em sum a, os Musgrove ficaram tão felizes com a decisão que Anne se encantou com o que havia feito, e sentiu que não poderia passar sua últim a m anhã em Uppercross fazendo coisa m elhor que aj udar com os preparativos e despachá-los logo cedo, em bora a consequência tenha sido que foi deixada sozinha na casa vazia.

Com exceção dos dois m eninos no chalé, ela era a últim a, a últim a m esm o, a única rem anescente de todas as pessoas que haviam povoado e alegrado am bas as casas, de tudo o que havia conferido a Uppercross sua anim ação. Uns poucos dias, m as quantas m udanças!

Caso Louisa se recuperasse, tudo voltaria a ficar bem . Um a felicidade m aior até do que a anterior seria restaurada. Não podia haver dúvida, e na m ente de Anne não havia nenhum a, do que iria acontecer após o restabelecim ento. Dali a alguns m eses, aquela sala agora tão deserta, ocupada apenas por ela própria, calada e pensativa, talvez estivesse novam ente cheia de coisas felizes e alegres, de tudo aquilo que reluzia e brilhava na prosperidade do am or, de tudo aquilo que era tão diferente de Anne Elliot!

Um a hora de com pleto lazer para divagações desse tipo em um escuro dia de novem bro, enquanto um a grossa chuva borrava os poucos obj etos que se podia ver pelas j anelas, bastou para tornar o som da carruagem de Lady Russell extrem am ente bem -vindo; no entanto, em bora Anne quisesse partir, não foi capaz de deixar a Casa Grande, nem de lançar a Uppercross Cottage um olhar de adeus ou nem sequer de observar através das vidraças em baçadas as últim as hum ildes casas do vilarej o sem que seu coração se entristecesse. Algum as cenas ocorridas em Uppercross tornavam o lugar precioso. Ele perm anecia com o registro de m uitas sensações de dor, outrora intensas, m as agora m ais brandas, e de algum as ocasiões de indulgência, de trégua am igável e de reconciliação que nunca m ais poderiam ser esperadas, e que j am ais deixariam de ser preciosas. Ela deixou tudo para trás, tudo a não ser a lem brança de que essas coisas haviam ocorrido.

Anne não entrava em Kelly nch desde que saíra da casa de Lady Russell, em setem bro. Não houvera necessidade para tal, e ela dera um j eito de evitar e escapar das poucas ocasiões em que lhe fora possível ir à sua antiga propriedade. A prim eira vez em que lá voltou foi para tornar a ocupar o lugar que era seu nos m odernos e elegantes aposentos de Kelly nch Lodge, e alegrar os olhos da senhora da casa.

A alegria de Lady Russell em revê-la se confundia com um a certa ansiedade. Sua am iga sabia quem andava frequentando Uppercross. Felizm ente, porém , ou Anne havia engordado um pouco e ficado m ais bonita, ou então Lady Russell a apreciava por dem ais: o fato é que Anne, ao receber seus elogios quando as duas se reencontraram , pôde se divertir relacionando-os à silenciosa adm iração de seu prim o, e torcendo para ser abençoada com um a segunda prim avera de j uventude e beleza.

Quando as duas com eçaram a conversar, Anne logo percebeu um a m udança m ental em si m esm a. Os assuntos que ocupavam seu coração ao deixar Kelly nch, e que ela sentira desprezados e fora convencida a reprim ir na com panhia dos Musgrove, haviam agora se transform ado em um interesse m enor. Ultim am ente, ela havia até m esm o parado de acom panhar as notícias do pai, da irm ã e de Bath. As preocupações a eles relacionadas tinham sido engolidas pelas de Uppercross, e, quando Lady Russell recom eçou a falar sobre suas antigas esperanças e tem ores, m anifestando sua satisfação com a casa de

Cam den Place62 que eles haviam alugado e sua tristeza pelo fato de a sra. Clay ainda estar em sua com panhia, Anne teria ficado envergonhada caso alguém soubesse com quanto m ais interesse estava pensando em Ly m e e em Louisa Musgrove, bem com o em todos os conhecidos de lá; o quão m ais interessante eram para ela a casa e a am izade dos Harville e do capitão Benwick do que a casa do próprio pai em Cam den Place ou a intim idade da irm ã com a sra. Clay. Na realidade, foi obrigada a fazer um grande esforço para reagir ao que Lady Russell dizia com algo sem elhante a um a solicitude equivalente em relação a assuntos que, por natureza, deveriam interessála em prim eiro lugar.

No início, houve um certo constrangim ento em sua conversa sobre outro assunto. Era preciso falar sobre o acidente ocorrido em Ly m e. Na véspera, m al haviam se passado cinco m inutos desde a chegada de Lady Russell quando um relato com pleto lhe tinha sido feito; ainda assim , era preciso falar a respeito, ela precisava fazer perguntas, lam entar a im prudência, deplorar o resultado, e o nom e do capitão Wentworth devia ser m encionado por am bas. Anne teve consciência de não fazê-lo tão bem quanto Lady Russell. Foi incapaz de pronunciar aquele nom e e encarar a am iga nos olhos antes de lançar m ão do estratagem a de lhe contar rapidam ente o que pensava do relacionam ento entre ele e Louisa. Um a vez isso feito, o nom e parou de angustiá-la.

A Lady Russell só restou escutar com portadam ente e desej ar boa sorte ao casal, m as no fundo seu coração se agitava com um prazer zangado, com prazeroso desespero, ao pensar que o hom em que, aos vinte e três anos, parecera com preender ainda que parcialm ente o valor de um a m oça com o Anne Elliot, estava agora, oito anos depois, encantado com um a m oça com o Louisa Musgrove.

Os prim eiros três ou quatro dias transcorreram com grande tranquilidade, sem qualquer ocorrência digna de nota a não ser a chegada de um ou dois recados de Ly m e enviados para Anne, ela não sabia com o, que traziam relatos um tanto m ais anim adores sobre Louisa. Ao final desse período, a boa educação de Lady Russell não pôde m ais continuar adorm ecida, e as adm oestações m ais brandas que ela antes fazia a si m esm a ganharam o tom m ais firm e de “Preciso visitar a sra. Croft; realm ente preciso ir visitá-la logo. Anne, você teria coragem de ir com igo e fazer um a visita à casa? Não será fácil para nenhum a de nós duas.”

Anne não se esquivou; pelo contrário, realm ente sentia o que dizia ao observar:

– Acho que a senhora m uito provavelm ente vai sofrer m ais do que eu: seus sentim entos estão m enos conform ados com a m udança do que os m eus. Por ter ficado aqui na região, eu j á m e acostum ei.

E poderia ter dito ainda m ais sobre o assunto, pois na verdade tinha os Croft em tão alta estim a, e considerava o pai tão afortunado na escolha de seus inquilinos, e tinha tanta certeza de que a paróquia disporia de um bom exem plo e os pobres da m ais esm erada atenção e auxílio, que, por m ais desapontada e envergonhada que estivesse com a necessidade da m udança, não podia em sã consciência ter outra sensação que não a de que aqueles que haviam partido não m ereciam ficar, e de que Kelly nch Hall estava agora em m elhores m ãos do que as de seus donos. Sem dúvida algum a, essas convicções vinham acom panhadas de dor, e esta era aguda; m as pelo m enos im pediam a dor que Lady Russell sentiria ao entrar novam ente na casa e tornar a atravessar seus côm odos tão conhecidos.

Em m om entos assim , Anne não tinha forças para dizer a si m esm a: “Estes côm odos deveriam pertencer som ente a nós. Ah, que desgraça para eles! Que ocupação m ais indigna! Um a fam ília tão antiga, expulsa dessa form a! E seu lugar ocupado por desconhecidos!” Não, isso não acontecia; exceto quando pensava na m ãe, e quando se lem brava de onde ela costum ava se sentar e gerir a casa, não tinha qualquer suspiro dessa natureza para dar.

A sra. Croft sem pre a tratara com um a gentileza que lhe dava o prazer de se considerar um a favorita, e, nessa ocasião, ao recebê-la naquela casa, a atenção foi redobrada.

O triste acidente ocorrido em Ly m e logo se tornou o assunto dom inante, e, ao com pararem as últim as notícias que haviam recebido da inválida, ficou aparente que cada um a das senhoras havia recebido a sua inform ação na m esm a hora da m anhã da véspera; que o capitão Wentworth estivera em Kelly nch tam bém na véspera (pela prim eira vez desde o acidente), e que fora ele quem trouxera o últim o recado para Anne, recado este do qual ela não havia conseguido rastrear a origem ; que ele havia passado algum as horas ali, e em seguida voltado para Ly m e, e que agora não tinha qualquer intenção de sair de lá outra vez. Ela descobriu especificam ente que ele havia pedido notícias: afirm ara esperar que a srta. Elliot não estivesse dem asiado cansada devido aos seus esforços, aos quais se referiu com o intensos. Era um belo elogio, que despertou em Anne m ais prazer do que quase qualquer outra coisa poderia ter despertado.

Quanto à catástrofe em si, ela só podia ser discutida em um estilo por duas m ulheres ponderadas e sensatas, cuj o j uízo trabalhava com acontecim entos reais; e ficou decidido, sem hesitação, que a catástrofe se devia a m uita insensatez e m uita im prudência; que suas consequências eram das m ais alarm antes, e que era terrível pensar por quanto tem po ainda pairariam dúvidas sobre a recuperação da srta. Musgrove, e o quão predisposta ela ainda ficaria a sofrer posteriorm ente com a concussão! O alm irante resum iu tudo exclam ando:

– Ah, sim , um a história terrível, de fato. Um a novidade e tanto, não é m esm o, srta. Elliot? Um rapaz fazer a corte a um a m oça quebrando a sua cabeça. É isso que se cham a de m order e assoprar!

Os m odos do alm irante Croft não tinham um tom que fosse do inteiro agrado de Lady Russell, m as encantaram Anne. A bondade de seu coração e a sim plicidade de seu caráter eram irresistíveis.

– Deve ser m uito ruim para a senhorita vir aqui e nos encontrar m orando nesta casa – disse ele, despertando subitam ente de um pequeno enleio. – Confesso que não havia pensado nisso antes, m as deve ser m uito ruim . Mas vam os, não faça cerim ônia. Se quiser, pode se levantar e percorrer todos os côm odos da casa.

– Muito agradecida, senhor, m as em outra hora; agora não.

– Bem , quando quiser. Pode entrar na casa pelo lado dos arbustos a qualquer hora, e lá vai ver que guardam os nossos guarda-chuvas pendurados naquela porta. É um bom lugar, não acha? Mas – voltando atrás – a senhorita não vai achar que é um lugar bom , pois os seus guarda-chuvas ficavam sem pre pendurados no quarto do m ordom o. Enfim , é sem pre assim , acho eu. As m anias de um hom em podem ser tão boas quanto as de qualquer outro, m as sem pre gostam os m ais das nossas; de m odo que a senhorita poderá j ulgar por si m esm a se seria m elhor percorrer a casa ou não.

Ao ver que poderia recusar o convite, Anne o fez com m uito gosto.

– Aliás, fizem os m uito poucas m udanças – prosseguiu o alm irante, depois de pensar por alguns instantes. – Muito poucas. Já lhe falam os em Uppercross sobre a porta da lavanderia. Essa foi um a m elhoria de grande im portância. O m ais espantoso é pensar com o qualquer fam ília do m undo pôde suportar por tanto tem po o incôm odo de um a porta se abrindo daquele j eito! A senhorita dirá a Sir Walter o que fizem os, e que o sr. Shepherd j ulga que essa foi a m aior m elhoria que a casa j á teve. De fato, devo fazer j ustiça a nós m esm os e dizer que as poucas alterações que fizem os foram m uito para m elhor. No entanto, o crédito cabe à m inha m ulher. Eu fiz m uito pouco além de tirar do m eu quarto de vestir alguns dos espelhos m aiores que pertenciam ao seu pai. Um hom em excelente, e um com pleto cavalheiro, tenho certeza, m as, na m inha opinião, srta. Elliot – parecendo refletir seriam ente –, acho que ele deve ser um hom em bastante vaidoso para a sua idade. Quantos espelhos! Meu Deus! Eu não tinha com o fugir do m eu próprio reflexo. Então pedi a Sophy para m e dar um a aj udinha, e nós logo m udam os os espelhos de lugar; e agora estou bem à vontade com m eu pequeno espelho de barbear em um canto e um outro enorm e do qual nunca m e aproxim o.

Anne, que estava achando graça ainda que a contragosto, não soube o que responder, e o alm irante, tem endo não ter sido suficientem ente educado, retom ou o assunto dizendo:

– Da próxim a vez em que escrever para o seu pai, srta. Elliot, queira por favor transm itir a ele m eus cum prim entos e os da sra. Croft, e dizer que estam os m uito bem instalados aqui, e que não encontram os defeito algum na casa. A cham iné da sala de desj ej um solta um pouco de fum aça, reconheço, m as só quando o vento está soprando para o norte e com força, o que só acontece um as três vezes a cada inverno. E, som ando tudo, agora que j á visitam os a m aioria das casas das redondezas e podem os j ulgar, não há nenhum a que nos agrade m ais do que esta. Queira, por favor, dizer isso a ele, com m eus cum prim entos. Ele ficará feliz em saber.

Lady Russell e a sra. Croft estavam m uito satisfeitas um a com a outra, m as a relação iniciada com essa visita estava fadada a não ir m uito longe por enquanto, pois, quando o convite foi retribuído, os Croft anunciaram que iriam se ausentar por algum as sem anas para visitar parentes no norte do condado, e provavelm ente não voltariam para casa antes de Lady Russell partir para sua tem porada em Bath.

Assim se encerrou qualquer perigo de Anne encontrar o capitão Wentworth em Kelly nch Hall ou vê-lo na com panhia de sua am iga. Não havia risco nenhum , e ela sorriu ao pensar nas m uitas sensações de ansiedade que havia desperdiçado com o tem a.

CAPÍTULO 2

 

Em bora Charles e Mary tenham ficado m uito m ais tem po em Ly m e depois da chegada do sr. e da sra. Musgrove do que Anne considerava desej ável por quem quer que fosse, m esm o assim foram os prim eiros da fam ília a voltar para casa; e, assim que possível após seu retorno a Uppercross, o casal foi fazer um a visita a Kelly nch Lodge. Quando haviam partido, Louisa estava com eçando a se sentar, m as sua m ente, em bora lúcida, estava extrem am ente fraca, e os nervos suscitavam os cuidados m ais esm erados possíveis; e, em bora se pudesse dizer que ela de m odo geral estava passando bastante bem , ainda assim era im possível afirm ar quando seria capaz de suportar a m udança para casa; e seu pai e sua m ãe, que precisavam voltar a tem po de receber os filhos m ais novos para o feriado de Natal, não tinham quase nenhum a esperança de poder levá-la consigo.

Todos haviam ficado hospedados j untos. A sra. Musgrove tirara os filhos da sra. Harville de casa pelo m áxim o de tem po que pudera, e todos os m antim entos possíveis tinham sido m andados de Uppercross para dim inuir o incôm odo causado aos Harville, que, por sua vez, os convidaram para j antar todas as noites; em sum a, parecia haver um em bate de parte a parte para saber qual dos dois casais era m ais generoso e m ais hospitaleiro.

Mary sofrera as suas m azelas; m as, de m odo geral, com o ficou evidente pelo fato de lá perm anecer por tanto tem po, encontrara m ais m otivos para se divertir do que para sofrer. Charles Hay ter passara m ais tem po em Ly m e do que ela j ulgava adequado e, quando iam j antar na casa dos Harville, havia apenas um a criada servindo à m esa, e no início a sra. Harville sem pre dava a prim azia à sra. Musgrove; depois, no entanto, Mary recebera um pedido de desculpas tão obsequioso quando a sra. Harville descobrira quem era o seu pai, e todos os dias haviam sido tão cheios de acontecim entos, houvera tantas cam inhadas entre a casa em que estavam hospedados e a dos Harville, e ela pegara livros em prestados na biblioteca e os trocara com tanta frequência que a balança decerto fora favorável a Ly m e. Mary tam bém tinha sido levada até Charm outh, onde tinha se banhado e ido à m issa, e havia m uito m ais gente para observar na igrej a de Ly m e do que na de Uppercross; e tudo isso, unido à sensação de estar sendo tão útil, tornara a sua estada de duas sem anas realm ente agradável.

Anne pediu notícias do capitão Benwick. O sem blante de Mary se anuviou no m esm o instante. Charles riu.

– Ah, o capitão Benwick vai m uito bem , acredito, m as é um rapaz m uito estranho. Nunca sei o que está pensando. Nós o convidam os a voltar para casa conosco e passar um ou dois dias aqui; Charles se com prom eteu a levá-lo para caçar, e ele pareceu deveras encantado, e eu, por m inha parte, pensei que estivesse tudo com binado, m as não! Na noite de terça-feira, ele deu um a desculpa bem esfarrapada, dizendo que “nunca caçara” e que fora “m uito m alcom preendido”, e que havia prom etido isso e aquilo, e no final das contas descobri que não tinha a intenção de nos acom panhar. Acho que estava com m edo de achar a visita m açante, m as j uro que pensava que nós aqui no chalé fôssem os anim ados o suficiente para um hom em de coração partido com o o capitão Benwick.

Charles tornou a rir e disse:

– Ora, Mary, você sabe m uito bem o que de fato aconteceu. Foi tudo culpa sua (virando-se para Anne). Ele im aginou que, se viesse conosco, iria encontrá-la m orando aqui perto; achava que todo m undo m orasse em Uppercross e, quando descobriu que Lady Russell m orava a quase cinco quilôm etros de distância, ficou desapontado, e não teve coragem de vir. É essa a verdade, j uro por m inha honra. E Mary sabe que é.

Mary, porém , não aceitou a explicação de m uito bom grado, ou porque não considerava o capitão Benwick, devido à sua origem e à sua situação, digno de estar apaixonado por um a Elliot, ou então por não querer acreditar que Anne constituísse um atrativo m aior do que ela própria em Uppercross; não era possível saber. A sim patia de Anne, porém , não foi em nada dim inuída pelo que ela ouviu. Ela se declarou abertam ente lisonj eada, e prosseguiu com as perguntas.

– Ah, ele fala a seu respeito, fala a seu respeito em term os que… – exclam ou Charles. Mary o interrom peu.

– Charles, eu não o ouvi m encionar o nom e de Anne nem duas vezes sequer durante todo o tem po que passei lá. Anne, estou lhe dizendo, ele nunca fala em você.

– Não, realm ente que eu saiba não fala, de m odo geral – adm itiu Charles –, m as está bem claro que ele a adm ira m uitíssim o. Está com a cabeça inteiram ente ocupada por alguns livros que está lendo segundo sua recom endação, e quer conversar com você a respeito; descobriu não sei que coisa em um desses livros que acha que… ah, não vou conseguir m e lem brar, m as era algum a coisa m uito interessante… Eu o entreouvi com entando a respeito com Henrietta, e depois ele m encionou “a srta. Elliot” nos term os m ais elogiosos possíveis! Afirm o que foi assim , Mary, eu m esm o escutei, e você estava em outro aposento. “Elegância, doçura, beleza.” Ah, os charm es da srta. Elliot não tinham lim ites!

– E estou certa de que isso em nada contribui para a sua honra caso ele realm ente tenha dito essas coisas – exclam ou Mary em um tom arrebatado. – A srta. Harville m orreu faz m uito pouco, em j unho passado. Um coração assim não vale quase nada, a senhora não acha, Lady Russell? Tenho certeza de que irá concordar com igo.

– Tenho que ver o capitão Benwick antes de decidir – respondeu Lady Russell com um sorriso.

– E é provável que o vej a m uito em breve, posso lhe garantir – disse Charles. – Em bora ele não tenha tido coragem para vir conosco e partir novam ente para lhes fazer um a visita form al, algum dia virá a Kelly nch sozinho, pode ter certeza. Eu lhe inform ei sobre a distância e a estrada, e falei-lhe sobre a igrej a que tanto vale visitar, pois, com o ele aprecia esse tipo de coisa, pensei que seria um bom pretexto, e ele m e escutou com toda a com preensão e sinceridade de que foi capaz; e tenho certeza, pelo seu com portam ento, de que a senhora logo o verá por aqui. Pode ficar avisada, Lady Russell.

– Qualquer conhecido de Anne será sem pre bem -vindo em m inha casa – foi a educada resposta de Lady Russell.

– Ah, quanto a ele ser um conhecido de Anne – disse Mary –, acho que é m ais um conhecido m eu, pois passei as últim as duas sem anas encontrando-o todos os dias.

– Bem , que sej a então: com o conhecido de vocês duas, ficarei m uito feliz em ver o capitão Benwick.

– Garanto à senhora que não irá encontrar nada de m uito agradável em sua pessoa. Ele é um dos rapazes m ais sem graça que j am ais existiram . Passeou algum as vezes com igo de um a ponta à outra da praia sem dizer um a palavra sequer. Não é de form a algum a um rapaz bem -criado. Tenho certeza de que não vai gostar dele.

– Nisso nós duas não concordam os, Mary – disse Anne. – Acho que Lady Russell gostaria dele, sim . Acho que ficaria tão encantada com seu espírito que logo não veria qualquer deficiência em seus m odos.

– Tam bém acho, Anne – concordou Charles. – Tenho certeza de que Lady Russell gostaria dele. Ele é bem o tipo de rapaz que agrada a Lady Russell. Basta lhe dar um livro, e ele passa o dia inteiro lendo.

– Ah, sim , isso sim ! – exclam ou Mary com sarcasm o. – Ele é capaz de ficar sentado, m ergulhado em seu livro, e nem sequer perceber quando alguém lhe dirige a palavra ou quando alguém deixa cair a tesoura ou qualquer outra coisa que aconteça. Acha que Lady Russell iria gosta disso?

Lady Russell não pôde reprim ir um a risada.

– Por m ais que m e considere um a pessoa equilibrada e realista – disse ela –, j uro que j am ais teria im aginado que o m eu j ulgam ento a respeito de alguém fosse adm itir conj ecturas tão diversas. Estou m esm o curiosa para conhecer essa pessoa capaz de gerar opiniões tão diam etralm ente opostas. Gostaria que ele fosse convencido a nos fazer um a visita. E quando isso acontecer, Mary, pode estar certa de que irá ouvir m inha opinião; m as estou determ inada a não j ulgá-lo antes disso.

– A senhora não vai gostar dele; eu lhe garanto.

Lady Russell com eçou a falar de outra coisa. Mary relatou anim adam ente seu encontro com o sr. Elliot, ou m elhor, o fato de terem se desencontrado dele de form a tão extraordinária.

– Pois aí está um hom em que não tenho a m enor vontade de conhecer – disse Lady Russell. – O fato de ele ter se recusado a m anter relações cordiais com o chefe da própria fam ília m e deixou um a im pressão fortem ente desfavorável a seu respeito.

Tal afirm ação neutralizou a anim ação de Mary e a fez interrom per o relato bem quando estava se referindo ao porte dos Elliot.

Com relação ao capitão Wentworth, em bora Anne não tenha se atrevido a fazer qualquer pergunta, as inform ações espontâneas foram suficientes. Ele havia recuperado bastante o ânim o nos últim os tem pos, com o seria de se esperar. À m edida que Louisa ia m elhorando, ele tam bém m elhorava, e era agora um hom em m uito diferente do que tinha sido na prim eira sem ana. Não tinha visitado Louisa; e tinha tanto m edo de qualquer consequência nefasta que um encontro pudesse causar a ela que não insistiu de form a algum a para vê-la, m uito pelo contrário, parecia estar planej ando se ausentar por um a sem ana ou dez dias, até a cabeça da m oça estar m ais forte. Havia falado em descer até Ply m outh por um a sem ana, e queria convencer o capitão Benwick a acom panhá-lo; porém , com o Charles continuou afirm ando até o fim , o capitão Benwick parecia m uito m ais inclinado a ir a Kelly nch.

Não restam dúvidas de que, a partir desse dia, tanto Lady Russell quanto Anne pensaram algum as vezes no capitão Benwick. Lady Russell não podia escutar a cam painha sem sentir que talvez fosse um m ensageiro anunciando sua vinda; e Anne tam pouco podia voltar de algum passeio solitário e agradável pela propriedade do pai ou de algum a visita de caridade à aldeia sem im aginar se iria vê-lo ou ter notícias suas. O capitão Benwick, contudo, não apareceu. Ou estava m enos disposto a fazê-lo do que Charles havia suposto, ou então era dem asiado tím ido; e, depois de lhe conceder um a sem ana de indulgência, Lady Russell decidiu que ele era indigno do interesse que havia com eçado a suscitar.

Os Musgrove retornaram para receber seus alegres filhos e filhas em férias escolares, trazendo consigo os m eninos pequenos da sra. Harville, o que aum entou ainda m ais o barulho de Uppercross e dim inuiu o de Ly m e. Henrietta ficou com Louisa, m as o resto da fam ília agora ocupava outra vez seus lugares habituais.

Lady Russell e Anne foram visitá-los um a vez, e Anne não pôde evitar ter a sensação de que Uppercross havia recuperado a vida. Em bora nem Henrietta, nem Louisa, nem Charles Hay ter, nem o capitão Wentworth estivessem presentes, a sala não poderia apresentar um contraste m ais m arcante com o estado em que se encontrava da últim a vez em que ela a vira.

Logo em volta da sra. Musgrove estavam os pequenos Harville, que ela cuidava para proteger da tirania dos dois m eninos de Uppercross Cottage, trazidos j ustam ente para divertir os recém -chegados. De um lado havia um a m esa ocupada por algum as m eninas que não paravam de conversar enquanto cortavam seda e papel dourado; do outro, cavaletes e bandej as vergados sob o peso de patês e tortas frias ao redor dos quais m eninos agitados prom oviam grande algazarra; tudo com pletado pelas labaredas de um a lareira natalina que pareciam decididas a se fazer escutar apesar de todo o barulho produzido pelos outros. Charles e Mary, naturalm ente, tam bém estavam presentes durante a visita, e o sr. Musgrove fez questão de cum prim entar Lady Russell e de passar dez m inutos sentado a seu lado conversando com ela em voz bem alta, m as geralm ente em vão devido à gritaria das crianças sobre seu colo. Um a bela cena de fam ília.

Anne, a j ulgar por seu tem peram ento, teria considerado tal furacão dom éstico um m au rem édio para os nervos que o acidente de Louisa tanto haviam abalado. Mas a sra. Musgrove, que a fez se sentar ao seu lado de propósito para lhe apresentar seus m ais cordiais agradecim entos, e isso repetidas vezes, por toda a atenção que ela lhes havia dispensado, concluiu um a curta recapitulação dos sofrim entos que ela própria havia enfrentado observando, com um olhar satisfeito ao redor da sala, que, depois de tudo por que havia passado, nada era capaz de lhe fazer tanto bem quanto um pouco de alegria tranquila em casa.

Louisa agora se recuperava a olhos vistos. Sua m ãe chegava a pensar que talvez ela pudesse voltar para casa antes de seus irm ãos e irm ãs retornarem à escola. Os Harville haviam prom etido acom panhá-la e se hospedar em Uppercross quando ela voltasse. O capitão Wentworth por ora estava ausente: tinha ido visitar o irm ão em Shropshire.

– No futuro – com entou Lady Russell assim que as duas tornaram a se sentar dentro da carruagem –, preciso m e lem brar de não vir a Uppercross durante as férias de Natal.

Cada um tem seu gosto pessoal em m atéria de barulho, com o em relação a qualquer outro tem a; e os sons podem ser inofensivos ou extrem am ente incôm odos dependendo m ais de seu tipo do que de sua quantidade. Não m uito tem po depois, ao chegar a Bath em um a tarde chuvosa e atravessar a longa

63

sequência de ruas que iam da Old Bridge até Cam den Place, em m eio à m ovim entação de outras carruagens, ao pesado ronco de carroças e carrinhos, aos gritos dos vendedores de j ornais, de pão e de leite, e ao tilintar incessante das

64

solas dos sapatos, Lady Russell não fez qualquer reclam ação. Não: aqueles

eram barulhos que acom panhavam os prazeres do inverno; sua influência m elhorava-lhe o ânim o; e, assim com o a sra. Musgrove, ela sentia, em bora não o dissesse, que depois de um a longa estada no cam po nada seria capaz de lhe fazer tanto bem quanto um pouco de alegria tranquila.

Continuar: parte 7 de 12