Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
Ela ficou m uito agradecida, m as recusou todas as ofertas, repetindo a convicção de que a chuva não iria dem orar m uito a passar e acrescentando:
– Estou só aguardando o sr. Elliot. Tenho certeza de que ele vai chegar daqui a poucos instantes.
Mal havia pronunciado essas palavras quando o sr. Elliot entrou na confeitaria. O capitão Wentworth se lem brava dele com perfeição. Não havia qualquer diferença entre ele e o hom em que ficara parado nos degraus em Ly m e, adm irando Anne enquanto ela passava, a não ser na atitude e na aparência, bem com o nos m odos de um conhecido e am igo especial. Ele entrou ansioso, pareceu ter olhos e atenção apenas para ela, desculpou-se pela dem ora, lam entou tê-la deixado esperando e m ostrou-se ansioso para levá-la em bora dali sem m ais dem ora e antes que a chuva apertasse; e poucos instantes depois os dois saíram j untos, de braços dados, e ela só teve tem po para um olhar suave e encabulado e para um “Bom dia para o senhor!” enquanto passava.
Assim que os dois saíram de cena, as senhoras do grupo do capitão Wentworth puseram -se a falar a seu respeito.
– Posso ver que a prim a não desagrada ao sr. Elliot.
– Ah, não, isso está bem claro! Já é possível adivinhar o que vai acontecer. Ele está sem pre na sua com panhia; acho que praticam ente vive com a fam ília. Que hom em m ais bem -apessoado!
– Sim , e a srta. Atkinson, que j antou com ele certa vez na casa dos Wallis, disse que ele é o hom em m ais agradável que ela j am ais encontrou.
– Eu acho Anne Elliot bonita; m uito bonita, quando se olha com atenção. Não é costum e dizer isso, m as confesso que a adm iro m ais do que à irm ã.
– Ah, eu tam bém !
– E eu tam bém . Não há com paração possível. Mas os hom ens vivem todos loucos atrás da srta. Elliot. Anne é delicada dem ais para o seu gosto.
Anne teria ficado particularm ente grata ao prim o caso ele tivesse cam inhado a seu lado até Cam den Place sem dizer nada. Nunca havia achado tão difícil escutá-lo, em bora nada fosse capaz de superar a sua solicitude e o seu cuidado, e em bora os seus assuntos fossem principalm ente do tipo propenso a ser sem pre interessante: elogios calorosos, j ustos e sensatos a Lady Russell, além de insinuações m uito racionais contra a sra. Clay. Mas tudo em que Anne conseguia pensar agora era no capitão Wentworth. Não conseguia entender os seus sentim entos atuais, nem saber se ele estava de fato m uito desapontado ou não; e até isso ficar esclarecido, não era capaz de se com portar norm alm ente.
Torceu para, com o tem po, vir a se tornar sábia e sensata; infelizm ente, porém , infelizm ente tinha de confessar a si própria que ainda não o era.
Outra circunstância que lhe era essencial conhecer era quanto tem po ele pretendia passar em Bath; ou ele não havia m encionado o fato, ou então ela não conseguia se lem brar. Talvez ele estivesse apenas de passagem . Mas era bem m ais provável que tivesse vindo para ficar. Nesse caso, dada a probabilidade de todo m undo se encontrar com todo m undo em Bath, Lady Russell m uito provavelm ente o veria em algum lugar. Será que se lem braria dele? O que iria acontecer?
Anne j á tinha sido obrigada a contar a Lady Russell que Louisa Musgrove iria se casar com o capitão Benwick. Fora-lhe um tanto custoso assistir à surpresa da am iga; e agora, caso Lady Russell por acaso fosse levada a frequentar o m esm o am biente que o capitão Wentworth, seu conhecim ento im perfeito da situação talvez acrescentasse m ais um a cam ada de preconceito em relação a ele.
Na m anhã seguinte, Anne saiu com a am iga, e passou a prim eira hora em um a espécie de incessante e tem erosa tocaia para vê-lo, m as foi em vão; por fim , contudo, j á na volta, quando estava descendo Pulteney Street, viu-o na calçada da direita, e a um a distância tal que o tornava visível de quase toda a extensão da rua. Muitos outros hom ens andavam à sua volta, e m uitos grupos cam inhavam na m esm a direção, m as não havia com o confundi-lo. Ela olhou instintivam ente para Lady Russell, m as não por qualquer m edo insensato de que a am iga o reconhecesse tão rapidam ente quanto ela própria o havia feito. Não, não era de se im aginar que Lady Russell fosse vê-lo antes de estarem quase na m esm a altura da rua. No entanto, olhava para a am iga de vez em quando, ansiosa, e, quando a hora em que esta o veria foi se aproxim ando, em bora não tenha se atrevido a olhar de novo (pois sabia que o próprio estado não estava em condições de ser visto), m esm o assim teve perfeita consciência de que os olhos de Lady Russell estavam virados exatam ente na direção dele – em sum a, de que ela o estava observando com atenção. Conseguia com preender plenam ente o tipo de fascínio que ele devia exercer na m ente de Lady Russell, e com o devia lhe ser difícil desviar os olhos, e o espanto que ela devia estar sentindo ao constatar que ele havia envelhecido oito ou nove anos, e além do m ais sob clim as estrangeiros e no serviço ativo, sem nada perder de sua graça pessoal!
Por fim , Lady Russell virou a cabeça. “Com o será que ela vai falar nele?”
– Você deve estar se perguntando o que atraiu m eu olhar por tanto tem po – disse ela. – Mas eu estava olhando um as cortinas sobre as quais Lady Alicia e a sra. Frankland estavam m e falando ontem à noite. Elas descreveram as cortinas das j anelas do salão de um a das casas situadas nesta calçada e deste lado da rua com o as m ais belas e de m elhor caim ento em toda Bath, m as não sabiam dizer o núm ero exato da casa, e eu estava tentando descobrir qual poderia ser. Mas confesso que não consigo ver por aqui nenhum a cortina que corresponda à sua descrição.
Anne suspirou, enrubesceu e sorriu, de pena e de desdém , quer pela am iga ou por si m esm a. A parte que m ais a incom odou foi que, em m eio a todo aquele desperdício de prem editação e cautela, ela havia perdido o m om ento certo de observar se ele as tinha visto.
Um ou dois dias transcorreram sem novidades. O teatro ou os salões públicos, onde era m ais provável que ele estivesse, não eram suficientem ente prestigiosos para os Elliot, cuj os divertim entos vespertinos se lim itavam à estupidez elegante das festas particulares às quais com pareciam com cada vez m ais frequência; e Anne, cansada dessa estagnação, farta de não saber nada e im aginando-se m ais forte pelo fato de a sua força não ter sido testada, estava im paciente para ver chegar a noite do concerto. Tratava-se de um concerto organizado por Lady Dalry m ple em benefício de um a pessoa que ela patrocinava. É claro que os Elliot deveriam com parecer. Esperava-se m uito que fosse um bom concerto, e o capitão Wentworth era um grande apreciador de m úsica. Se ao m enos ela conseguisse ter com ele m ais alguns m inutos de conversa, im aginava que fosse ficar satisfeita; quanto à iniciativa de falar com ele, ela se sentia tom ada por total coragem caso a oportunidade se apresentasse. Elizabeth havia lhe virado as costas, Lady Russell o ignorava; essas circunstâncias a fortaleciam ; e ela sentia que lhe devia atenção.
Anne havia m ais ou m enos prom etido à sra. Sm ith visitá-la nessa noite m as, durante um a visita curta e apressada, desculpou-se e adiou o com prom isso, substituindo-o pela prom essa m ais definitiva de um a visita m ais longa no dia seguinte. A sra. Sm ith aceitou a troca com m uito bom hum or.
– Mas é claro, basta m e contar tudo quando vier – pediu ela. – Com quem irá ao concerto?
Anne citou o nom e de todos os presentes. A sra. Sm ith não respondeu nada m as, quando Anne estava indo em bora, disse, com um a expressão m eio séria, m eio m aliciosa:
– Bem , eu desej o de coração que o seu concerto sej a tão bom quanto a senhorita espera. Não deixe de vir m e ver am anhã, se puder, pois estou com eçando a ter o pressentim ento de que não receberei m ais m uitas visitas suas.
Anne ficou espantada e atônita; no entanto, após alguns instantes de incerteza, foi obrigada a ir em bora depressa, e contente por ter de fazê-lo.
CAPÍTULO 8
À noite, Sir Walter, as duas filhas e a sra. Clay foram os prim eiros de todos os convidados a chegarem à sala do concerto; com o era preciso aguardar Lady Dalry m ple, foram se acom odar j unto a um a das lareiras da Sala Octogonal. No entanto, m al haviam acabado de se instalar quando a porta tornou a se abrir e o capitão Wentworth entrou sozinho. Anne era a que estava m ais próxim a dele e, adiantando-se um pouco, dirigiu-lhe a palavra. Ele estava se preparando para fazer um a m esura e seguir em frente, m as o suave “Com o vai?” de Anne o fez se desviar de um a linha reta para vir se postar ao seu lado e, por sua vez, fazer-lhe perguntas, apesar da presença form idável de seu pai e de sua irm ã ao fundo. O fato de eles estarem ao fundo aj udava Anne; ela não sabia qual era a sua expressão facial, e sentia coragem para fazer tudo aquilo que j ulgava certo.
Enquanto os dois conversavam , sussurros entre seu pai e Elizabeth lhe cham aram a atenção. Ela não conseguiu distinguir as palavras, m as pôde adivinhar o assunto; e, quando o capitão Wentworth fez um a m esura distante, com preendeu que o pai havia j ulgado adequado lhe conceder essa sim ples dem onstração de que o conhecia, e teve j usto o tem po de ver, com um olhar de soslaio, a própria Elizabeth fazer um a ligeira m esura. Esta, em bora atrasada, relutante e desgraciosa, era m elhor do que nada, e seu ânim o m elhorou.
No entanto, após discorrer sobre o tem po, Bath e o concerto, a conversa com eçou a arrefecer, e por fim tornou-se tão esparsa que ela im aginava que ele fosse partir a qualquer m om ento, m as isso não aconteceu; ele não parecia estar com a m enor pressa para deixá-la, e então, com um a energia renovada, um pequeno sorriso e um leve brilho nos olhos, disse:
– Eu quase não a vej o desde a nossa estada em Ly m e. Tem o que deva ter sofrido com o choque, e m ais ainda por não ter se deixado ser por ele dom inada na ocasião.
Anne lhe garantiu que não era o caso.
– Que m om ento terrível, que dia terrível! – disse ele, e passou a m ão pelos olhos com o se a lem brança ainda fosse por dem ais dolorosa, m as, instantes depois, novam ente com um m eio sorriso, continuou a falar. – O dia teve alguns efeitos, porém , algum as consequências que é preciso considerar o contrário de terríveis. Quando a senhorita teve a presença de espírito de sugerir que Benwick seria a m elhor pessoa para ir cham ar um m édico, m al poderia ter im aginado que ele acabaria sendo um dos m ais preocupados com o restabelecim ento de Louisa.
– Certam ente não poderia ter im aginado tal coisa. Mas parece que… Espero que sej a um enlace m uito feliz. Am bos os interessados têm bons princípios e bom tem peram ento.
– Sim – concordou ele, sem olhar diretam ente para ela –, m as acho que a sem elhança term ina aí. Desej o de todo o coração que os dois sej am felizes, e qualquer circunstância que favoreça isso m e alegra. Eles não têm qualquer dificuldade a enfrentar em casa, nenhum a oposição, nenhum capricho, nenhum m otivo para dem ora. Os Musgrove estão se com portando com o sem pre, de form a m uito honrada e gentil, apenas com a ansiedade que um verdadeiro coração de pai e m ãe dem onstra em relação ao bem estar da filha. Tudo favorece m uito, m uito m esm o, a sua felicidade; m ais talvez do que…
Ele se deteve. Pareceu tom ado por um a súbita lem brança, e provar um gostinho da m esm a em oção que tornou verm elhas as bochechas de Anne e a fez cravar os olhos no chão. Depois de pigarrear, porém , ele prosseguiu dizendo:
– Confesso que penso existir certa disparidade, um a disparidade dem asiado grande, e em um quesito não m enos essencial do que o tem peram ento. Considero Louisa Musgrove um a j ovem m uito afável, de índole doce, e inteligência não lhe falta, m as Benwick é m ais do que isso. É um hom em instruído, am ante dos livros; e confesso que o fato de se com prom eter com ela m e causa algum a surpresa. Caso isso houvesse sido devido à gratidão, caso ele houvesse aprendido a am á-la por acreditar que ela o estivesse preferindo, teria sido diferente. Mas não tenho m otivos para supor tal coisa. Pelo contrário, o sentim ento parece ter sido inteiram ente espontâneo e natural de sua parte, e isso m e deixa surpreso. Um
hom em com o ele, na sua condição!82 Com um coração partido, ferido, quase despedaçado! Fanny Harville era um a criatura m uito superior, e a sua afeição por ela era de fato afeição. Um hom em não se recupera depois de ter dedicado assim o coração a um a m ulher! Nem deve se recuperar; isso é im possível.
Mas ele não prosseguiu, fosse por consciência de que o am igo havia se recuperado ou por algum outro tipo de consciência; e Anne, que apesar do tom de voz arrebatado com que a últim a parte fora pronunciada, e apesar dos vários ruídos da sala, das batidas quase incessantes da porta e do burburinho tam bém incessante de pessoas passando, havia distinguido cada palavra, ficou espantada, agradecida, encabulada, e com eçou a respirar depressa e a experim entar m il sensações em um m esm o instante. Era-lhe im possível falar sobre aquilo; no entanto, após um a pausa, sentindo a necessidade de falar e sem desej ar de form a algum a um a m udança com pleta de assunto, fez apenas um pequeno desvio dizendo:
– O senhor passou um bom tem po em Ly m e, não foi?
– Um as duas sem anas. Não podia ir em bora antes de plenam ente confirm ado o restabelecim ento de Louisa. Estava envolvido dem ais com o acidente para m e tranquilizar tão depressa. A culpa havia sido m inha, exclusivam ente m inha. Ela não teria sido tão teim osa caso eu não tivesse sido fraco. A região em torno de Ly m e é m uito bonita. Cam inhei e cavalguei bastante, e quanto m ais via, m ais m otivos encontrava para adm irar.
– Eu gostaria m uito de tornar a visitar Ly m e – com entou Anne.
– É m esm o? Não teria im aginado que a senhorita pudesse ter encontrado em Ly m e qualquer coisa passível de inspirar tal sentim ento. Com todo o horror e a preocupação na qual esteve envolvida, com toda a tensão e o esgotam ento nervoso! Teria im aginado que suas últim as im pressões em relação a Ly m e fossem de forte repulsa.
– As últim as horas sem dúvida foram m uito penosas – retrucou Anne –, m as, um a vez passada a dor, a lem brança do lugar m uitas vezes se torna prazerosa. Não se am a m enos um lugar pelo fato de nele se ter sofrido, a m enos que tenha havido apenas sofrim ento, nada além de sofrim ento, o que não foi nem de longe o caso em Ly m e. Nós só ficam os ansiosos e preocupados durante as últim as duas horas, e antes disso havíam os nos divertido bastante. Quanta novidade, quanta beleza! Viaj ei tão pouco que qualquer lugar novo seria interessante para m im , m as em Ly m e há beleza de verdade e, para resum ir – disse ela, corando de leve com algum as lem branças –, de m odo geral m inhas im pressões em relação ao lugar são m uito agradáveis.
Quando ela se calou, a porta tornou a se abrir, e j ustam ente o grupo que estavam aguardando apareceu. “Lady Dalry m ple, Lady Dalry m ple!”, repetiam todos com alegria; e, com toda a im paciência com patível com um a elegância afoita, Sir Walter e as duas senhoras que o acom panhavam se adiantaram para recebê-la. Lady Dalry m ple e a srta. Carteret, escoltadas pelo sr. Elliot e pelo coronel Wallis, que por casualidade chegaram quase no m esm o instante, adentraram o salão. Os outros foram se j untar a eles, e Anne logo se viu necessariam ente incluída no grupo. Foi separada do capitão Wentworth. Sua conversa tão interessante, quase por dem ais interessante, teve de ser interrom pida por algum tem po, m as m odesto foi o pesar em com paração com a felicidade que o provocou! Nos últim os dez m inutos, ela havia descoberto m ais sobre os sentim entos dele em relação a Louisa, sobre todos os seus sentim entos, do que se atrevia a im aginar; assim , foi tom ada por sensações deleitáveis, ainda que agitadas, que cedeu às dem andas do grupo e às civilidades requeridas pela ocasião. Mostrou-se bem -hum orada com todos. Havia escutado coisas que a dispunham a se m ostrar cortês e gentil com qualquer um , e a sentir pena de todos por não serem tão felizes quanto ela.
Essas deliciosas em oções foram um pouco atenuadas quando, ao se afastar do grupo para proporcionar ao capitão Wentworth a ocasião de ir ter outra vez com ela, viu que ele havia deixado o recinto. Ainda teve tem po de vê-lo entrar na sala de concerto. Ele fora em bora; havia desaparecido; ela experim entou um instante de tristeza. Mas “eles tornariam a se encontrar. Ele iria procurar por ela, iria encontrá-la bem antes de encerrada a noite, e por ora talvez não houvesse problem a em estarem separados. Ela precisava de um pequeno intervalo para se recuperar.”
Logo depois, com a chegada de Lady Russell, o grupo ficou com pleto, e tudo o que lhes restou foi se reunir e tom ar o rum o da sala de concerto, ostentando ao m áxim o a im portância de sua situação, atraindo o m áxim o de olhares, provocando o m áxim o de cochichos e incom odando o m áxim o de pessoas possível.
Felizes, m uito felizes estavam tanto Elizabeth quanto Anne Elliot ao adentrarem a sala. Elizabeth cam inhava de braços dados com a srta. Carteret, com os olhos pregados nas costas largas da viúva viscondessa Dalry m ple logo à sua frente, e não parecia haver nada que pudesse desej ar que não estivesse a seu alcance; e Anne… m as seria um a ofensa à natureza da felicidade de Anne fazer qualquer com paração entre esta e a de sua irm ã; a segunda tinha com o origem som ente um a vaidade egoísta, a prim eira som ente um a generosa afeição.
Anne nada viu nem deu qualquer im portância à elegância do salão. Sua felicidade vinha de dentro. Seus olhos brilhavam e suas faces estavam coradas; m as ela não sabia disso. Tudo em que conseguia pensar era na últim a m eia hora transcorrida e, enquanto todos se acom odavam em seus lugares, sua m ente a rem em orou rapidam ente. A escolha de assuntos do capitão, suas expressões faciais, e m ais ainda seus m odos e seu olhar, ela só podia interpretá-los de um a form a. Sua opinião quanto à inferioridade de Louisa Musgrove, opinião esta que ele parecera fazer questão de expressar, sua surpresa com o capitão Benwick, seus sentim entos em relação a um prim eiro e sólido vínculo afetivo; frases iniciadas que ele não conseguia term inar, seus olhares m eio esquivos e sua expressão m ais do que um pouco significativa, tudo, tudo afirm ava que seu coração no m ínim o estava voltando a considerá-la, que a raiva, o ressentim ento, o desej o de evitá-la haviam desaparecido, e que tinham sido sucedidos não som ente por am izade e apreço, m as pela m esm a ternura do passado. Sim , um pouco da ternura do passado! Ela não conseguia atribuir um significado m enor àquela m udança. Ele com certeza a am ava.
Esses pensam entos, j untam ente com as visões que os acom panhavam , ocupavam -na e abalavam -na dem ais para que lhe restasse qualquer poder de observação; e ela atravessou a sala sem pousar os olhos nele, sem nem sequer tentar localizá-lo. Um a vez escolhidos os lugares, e um a vez todos adequadam ente acom odados, ela olhou em volta para ver se ele por acaso estava na m esm a parte do salão, m as não; seus olhos não conseguiram alcançá-lo e, com o o concerto estava com eçando, ela teve que se contentar, por ora, com um a felicidade m ais m odesta.
O grupo estava dividido e disposto em dois bancos contíguos; Anne estava sentada no prim eiro deles, e o sr. Elliot, com o auxílio do am igo coronel Wallis, havia m anobrado para conseguir se sentar ao seu lado. A srta. Elliot, por sua vez, cercada pelas prim as e alvo principal dos galanteios do coronel Wallis, parecia m uito contente.
A disposição m ental de Anne estava inteiram ente favorável à diversão proporcionada pela noite; a m úsica a ocupava j usto o suficiente: ela se em ocionou com a delicadeza, anim ou-se com a alegria, prestou atenção na técnica e teve paciência para as partes m açantes, e nunca na vida apreciou tanto um concerto, pelo m enos durante o prim eiro ato. Já quase no fim , no intervalo que se seguiu a um a canção italiana, pôs-se a explicar para o sr. Elliot a letra da canção. Os dois dividiam o m esm o program a.
– Esse é quase o sentido, ou m elhor, o significado das palavras – disse ela –, pois com certeza não se deve falar em sentido no caso de um a canção de am or italiana, m as é o significado m ais próxim o que sou capaz de fornecer, pois não tenho pretensões de conhecer a língua. Sou um a péssim a estudiosa de italiano.
– Sim , sim , posso ver que é m esm o. Posso ver que não conhece nada sobre o assunto. Tem apenas conhecim ento suficiente para traduzir m ediante o m eu pedido essas linhas de italiano invertidas, transpostas e abreviadas em um inglês claro, com preensível e elegante. Não precisa dizer m ais nada quanto à sua ignorância. Isso j á é um a prova cabal.
– Não vou m e opor a um a gentileza tão delicada, m as ficaria contrariada caso fosse interrogada por um verdadeiro conhecedor.
– Não tive o prazer de fazer tantas visitas a Cam den Place sem ficar conhecendo um pouco a srta. Anne Elliot – respondeu ele. – E de fato a considero um a pessoa dem asiado m odesta para que o m undo em geral possa ter ciência sequer da m etade de seus talentos, e dem asiado talentosa para que a m odéstia caia bem em qualquer outra m ulher.
– Por favor, por favor! Seu elogio é excessivo. Até m e esqueço o que vem agora – disse ela, virando-se para o program a.
– Talvez eu j á conheça o seu tem peram ento há m ais tem po do que a senhorita desconfia – disse o sr. Elliot, falando baixo.
– É m esm o? Com o? O senhor só conhece o m eu tem peram ento desde que cheguei a Bath, com exceção do que pode ter ouvido a m eu respeito antes entre m eus próprios parentes.
– Eu j á a conhecia de reputação m uito antes de a senhorita chegar a Bath. Ouvi-a ser descrita por pessoas que a conheciam intim am ente. Sua aparência, sua disposição, seus talentos, seus m odos: tudo m e foi descrito, tudo m e foi apresentado.
O sr. Elliot não ficou desapontado com o interesse que pretendia despertar. Ninguém consegue resistir ao charm e de tal m istério. Ter sido descrita tem pos atrás a um conhecido recente, e sem saber por quem , é algo irresistível; e Anne foi tom ada pela curiosidade. Aquilo lhe deu o que pensar, e ela o interrogou com anim ação; m as foi em vão. Ele se deliciou com as perguntas, m as não quis respondê-las.
“Não, não, em algum outro m om ento, talvez, m as agora não.” Ele não iria m encionar nom e algum naquele instante, m as podia lhe garantir que isso havia acontecido. Muitos anos antes, havia escutado um a descrição da srta. Anne Elliot capaz de inspirar nele o m ais alto apreço por seus m éritos e despertar a m ais viva curiosidade para conhecê-la.
Anne não conseguia pensar em ninguém capaz de ter falado a seu respeito com tam anha parcialidade anos antes exceto o sr. Wentworth de Monkford, irm ão do capitão Wentworth. Ele podia m uito bem ter conhecido o sr. Elliot, m as ela não teve coragem de perguntar.
– Há m uito que o nom e Anne Elliot m e soa interessante – disse ele. – Há m uito que ele exerce um fascínio sobre m inha m ente; e, caso eu m e atrevesse,
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sussurraria m eu desej o de que esse nom e nunca viesse a m udar.
Tais foram , acreditava ela, as suas palavras; no entanto, m al havia escutado seu som quando sua atenção foi atraída por outros sons logo atrás de si que tornaram tudo o m ais sem im portância. Seu pai e Lady Dalry m ple estavam conversando.
– Um hom em bem -apessoado, m uito bem -apessoado – com entou Sir Walter.
– De fato, um rapaz m uito bonito! – disse Lady Dalry m ple. – Com um estilo que raram ente se costum a ver em Bath. Seria irlandês?
– Não, eu conheço o nom e dele. É um conhecido distante. Cham a-se Wentworth, capitão Wentworth, e é oficial da Marinha. A irm ã é casada com m eu inquilino de Som ersetshire, Croft, que está alugando Kelly nch.
Antes de Sir Walter chegar a esse ponto da conversa, os olhos de Anne j á haviam tom ado a direção certa, e distinguido o capitão Wentworth em pé no m eio de um grupo de hom ens a um a curta distância de onde ela estava. Quando seus olhos pousaram nele, os dele pareceram se desviar. Foi o que pareceu acontecer. Era com o se tivesse chegado um segundo atrasada; e, enquanto se atreveu a ficar observando, ele não tornou a olhar; m as o concerto ia recom eçar, e ela foi forçada a fingir dedicar sua atenção à orquestra, e a olhar para a frente.
Quando conseguiu dar outra espiadela, ele havia se afastado. Mesm o que quisesse, não poderia ter chegado m ais perto dela; ela estava cercada e isolada, m as preferia ter conseguido cruzar olhares com ele.
O discurso do sr. Elliot tam bém a deixava preocupada. Ela não tinha m ais qualquer inclinação para conversar com ele. Desej ou que não estivesse sentado tão perto.
O prim eiro ato term inou. Ela torceu para isso trazer algum a m udança benéfica; e, após algum tem po sem que os m em bros do grupo dissessem nada, alguns decidiram sair em busca de chá. Anne foi um a das poucas que prefeririam ficar onde estava. Perm aneceu sentada, assim com o Lady Russell; m as teve o prazer de se livrar do sr. Elliot; e não pretendia, fossem quais fossem os seus sentim entos em relação a Lady Russell, esquivar-se de um a conversa com o capitão Wentworth caso este viesse a lhe proporcionar um a oportunidade. Pelo com portam ento de Lady Russell, estava convencida de que a am iga o tinha visto.
Mas ele não apareceu. Anne algum as vezes pensou distingui-lo ao longe, m as ele nunca apareceu. O ansioso intervalo transcorreu sem que nada acontecesse. Os outros voltaram , a sala tornou a se encher, bancos foram solicitados e reocupados, e m ais um a hora de prazer ou penitência teria de ser tolerada, m ais um a hora de m úsica capaz de proporcionar deleite ou bocej os, conform e um gosto verdadeiro ou fingido por ela prevalecesse. Para Anne, aquela hora prom etia ser sobretudo de agitação. Ela não podia sair daquela sala tranquila sem ver o capitão Wentworth m ais um a vez, sem ter com ele trocado m ais um olhar de am izade.
Na reorganização dos lugares houve m uitas m udanças cuj o resultado lhe foi favorável. O coronel Wallis não quis tornar a se sentar, e o sr. Elliot foi convidado por Elizabeth e pela srta. Carteret para se sentar entre elas de um a form a im possível de recusar; graças a algum as outras m udanças e a um a certa m aquinação de sua própria lavra, Anne conseguiu se sentar bem m ais perto da extrem idade do banco do que da prim eira vez, m uito m ais ao alcance de alguém que passasse. Não pôde fazê-lo sem se com parar à srta. Larolles, a inim itável
srta. Larolles; 84 m as m esm o assim o fez, e com igual insucesso; m uito em bora, graças a um aparente êxito na form a de um a abdicação precoce de seus assentos por parte de vizinhos m ais próxim os, antes do final do concerto tenha acabado ficando bem na ponta do banco.
Tal era sua situação, com um lugar vazio ao seu lado, quando o capitão Wentworth tornou a aparecer. Ela o viu não m uito longe de onde estava. Ele tam bém a viu; tinha, porém , o sem blante sério, e parecia pouco decidido, e foi só m uito lentam ente que por fim se aproxim ou o suficiente para falar com ela. Anne sentiu que devia estar havendo algum problem a. A m udança era inegável. A diferença entre a sua disposição de agora e a que ele havia dem onstrado no Salão Octogonal era m arcante. O que seria aquilo? Ela pensou no pai, em Lady Russell. Teria havido algum a troca de olhares desagradável? Ele com eçou discorrendo com gravidade sobre o concerto, m ais parecido com o capitão Wentworth de Uppercross; confessou-se decepcionado, pois esperava m ais do canto; e, em sum a, devia confessar que não ficaria triste quando chegasse o fim . Anne respondeu, e defendeu tão bem a apresentação, respeitando m esm o assim as opiniões dele de m aneira tão agradável, que a disposição do capitão m elhorou, e quando ele tornou a retrucar foi novam ente com um quase sorriso. Os dois ainda conversaram por m ais alguns m inutos, e a m elhora se m anteve; ele chegou até a baixar os olhos para o banco, com o se visse ali um lugar m uito digno de ser ocupado, quando nesse instante um toque no om bro de Anne a obrigou a se virar. Era o sr. Elliot. Este lhe pediu licença e disse que precisava dela para explicar italiano de novo. A srta. Carteret estava m uito ansiosa para ter um a ideia geral do que seria cantado a seguir. Anne não pôde recusar; m as esse foi o sacrifício à boa educação m ais custoso de sua vida.
Alguns m inutos transcorreram inevitavelm ente, em bora na m ínim a quantidade possível; e quando ela recuperou outra vez o controle sobre o próprio tem po, quando pôde se virar e olhar com o havia feito antes, viu-se abordada pelo capitão Wentworth para um a espécie de adeus reservado, em bora apressado. “Ele tinha que lhe desej ar boa-noite, pois estava de saída; precisava chegar em casa o quanto antes.”
– Não vale a pena ficar para esta canção? – perguntou Anne, subitam ente acom etida por um a ideia que a deixava ainda m ais ansiosa para se m ostrar encoraj adora.
– Não! – respondeu ele com ím peto. – Não há nada aqui por que valha a pena ficar – e foi em bora na m esm a hora.
Ciúm e do sr. Elliot! Era o único m otivo com preensível. O capitão Wentworth estava com ciúm e de seu afeto! Um a sem ana antes, ou m esm o três horas antes, ela não poderia ter acreditado nisso! Por alguns instantes, a satisfação que sentiu foi deliciosa. Infelizm ente, porém , pensam entos bem diferentes lhe acorreram à m ente em seguida. Com o esse ciúm e poderia ser aplacado? Com o fazer a verdade chegar até ele? Com o, com todas as desvantagens específicas de suas respectivas situações, ele j am ais poderia vir a conhecer seus verdadeiros sentim entos? Pensar na atenção que lhe dedicava o sr. Elliot era para ela um a torm enta. O m al que isso havia causado era incalculável.
CAPÍTULO 9
Na m anhã seguinte, Anne se lem brou com prazer da prom essa de ir visitar a sra. Sm ith, o que significava que estaria fora de casa na hora m ais provável da visita do sr. Elliot, pois evitar o sr. Elliot era para ela quase um obj etivo principal.
Sentia por ele um a grande boa vontade. Apesar dos danos causados pela atenção que ele lhe havia concedido, ela lhe devia gratidão e apreço, talvez com paixão. Não podia evitar pensar nas circunstâncias extraordinárias que haviam cercado seu encontro, e no direito que ele parecia ter de interessá-la, levando em conta sua situação peculiar, seus próprios sentim entos e sua antiga predisposição em relação a ela. Era tudo m uito extraordinário; lisonj eiro, m as penoso. Havia m uito a lam entar. Nem sequer valia a pena pensar em com o ela poderia ter se sentido em relação a ele caso não houvesse um capitão Wentworth na situação, pois havia um capitão Wentworth; e, quer a conclusão da atual incerteza fosse boa ou m á, seu afeto iria lhe pertencer para sem pre. Anne estava segura de que um a união entre os dois não seria capaz de afastá-la m ais dos outros hom ens do que um a separação definitiva.
Jam ais devaneio m ais belo de am or intenso e fidelidade eterna atravessou as ruas de Bath do que aquele que acom panhou Anne de Cam den Place a Westgate Buildings. Quase bastou para espalhar ar puro e perfum e por todo o cam inho.
Ela estava certa de que teria um a acolhida agradável; e sua am iga lhe pareceu nessa m anhã particularm ente agradecida pela sua visita, e quase deu a im pressão de não a estar aguardando, em bora as duas tivessem com prom isso m arcado.
Um relato do concerto foi solicitado na m esm a hora, e as lem branças de Anne eram felizes o bastante para anim ar suas feições e deixá-la contente em discorrer sobre o assunto. Tudo que podia contar o fez de bom grado, m as esse tudo era pouco para alguém que lá estivera, e insatisfatório para um a interrogadora com o a sra. Sm ith, que, graças ao atalho proporcionado por um a lavadeira e por um garçom , j á havia escutado bem m ais coisas sobre o sucesso geral e as consequências da noite do que Anne era capaz de relatar, e ela então passou a pedir em vão diversos detalhes sobre os presentes. A sra. Sm ith conhecia de nom e todas as pessoas com algum a im portância ou notoriedade em Bath.
– Os pequenos Durand estavam presentes, im agino – disse ela –, com as bocas abertas para sorver a m úsica com o filhotes de pardal esperando para ser alim entados. Eles nunca perdem um concerto.
– Sim ; não os vi pessoalm ente, m as ouvi o sr. Elliot com entar que estavam na sala.
– E os Ibbotson, estavam lá? E as duas beldades j ovens com o oficial irlandês alto que os boatos dizem estar interessado em um a delas?
– Não sei. Acho que não.
– E a velha Lady Mary Maclean? Nem preciso perguntar. Sei que ela nunca falta; e a senhorita deve tê-la visto. Ela devia fazer parte de seu grupo; afinal, com o a senhorita estava acom panhada por Lady Dalry m ple, naturalm ente ocupou os lugares de honra ao redor da orquestra.
– Não, era isso que eu tem ia. Isso m uito m e teria desagradado, sob todos os aspectos. Felizm ente, porém , Lady Dalry m ple sem pre prefere ficar m ais afastada; e nós estávam os m uito bem localizados, para ouvir a m úsica, quero dizer; para ver eu não diria o m esm o, pois aparentem ente vi m uito pouco.
– Ah! A senhorita viu o suficiente para sua diversão pessoal. Posso com preender isso. É possível saborear um a satisfação dom éstica até m esm o no m eio de um a m ultidão, e isso a senhorita teve. Vocês form avam um grupo grande por si sós, e a senhorita não desej ava nada além disso.
– Mas eu deveria ter olhado m ais em volta – respondeu Anne, consciente, ao falar, de que na verdade não havia deixado de olhar em volta, de que a única coisa que havia faltado era o alvo desses olhares.
– Não, não; a senhorita tinha coisa m elhor a fazer. Nem precisa m e dizer que teve um a noite agradável. Posso ver isso em seus olhos. Vej o exatam ente com o as horas passaram , e vej o que a todo instante teve algo agradável para escutar. Nos intervalos do concerto, foram as conversas.
Anne deu um m eio sorriso e perguntou:
– Está vendo isso nos m eus olhos?
– Estou, sim . Sua atitude m e inform a sem som bra de dúvida que ontem à noite a senhorita estava acom panhada pela pessoa que j ulga ser a m ais agradável do m undo, a pessoa que no presente m om ento a interessa m ais do que todo o resto do m undo reunido.
Um rubor se espalhou pelas faces de Anne. Ela não conseguiu responder nada.
– E, sendo assim – prosseguiu a sra. Sm ith depois de um a curta pausa –, espero que acredite que sei dar valor à sua gentileza por ter vindo m e visitar esta m anhã. Foi realm ente m uita bondade sua vir até aqui quando deve ter tantas outras m aneiras m ais agradáveis de ocupar seu tem po.
Anne não ouviu. Ainda estava tom ada pelo espanto e pela incom preensão provocados pela perspicácia da am iga, incapaz de im aginar com o qualquer inform ação sobre o capitão Wentworth poderia ter chegado aos seus ouvidos. Depois de m ais um curto silêncio, a sra. Sm ith falou:
– Diga-m e, por favor, o sr. Elliot sabe de sua relação com igo? Ele sabe que estou em Bath?
– O sr. Elliot! – repetiu Anne, erguendo os olhos com surpresa. Bastaram alguns instantes de reflexão para lhe m ostrar o erro de interpretação que a am iga havia com etido. Ela entendeu na m esm a hora e, recuperando a coragem j unto com a sensação de segurança, logo prosseguiu, m ais controlada. – A senhora conhece o sr. Elliot?
– Eu o conheci m uito bem – respondeu a sra. Sm ith com gravidade –, m as a nossa relação é antiga. Já faz m uito tem po que não nos encontram os.
– Eu não sabia disso. A senhora nunca m encionou o nom e dele antes. Se houvesse m encionado, eu teria tido o prazer de falar com ele sobre a senhora.
– Para confessar a verdade – disse a sra. Sm ith, tornando a assum ir o tom alegre de sem pre –, é exatam ente esse prazer que eu desej o que a senhorita tenha. Quero que fale sobre m im com o sr. Elliot. Quero que suscite o interesse dele. Ele tem condições de m e prestar um serviço essencial; e, se a senhorita tiver a bondade, m inha cara srta. Elliot, de tornar esse um obj etivo pessoal tam bém seu, é claro que terá sucesso.
– Eu ficaria m uitíssim o feliz com isso; espero que não duvide de m inha disponibilidade para lhe ser útil, nem que sej a em algo m uito pequeno – respondeu Anne. – Mas desconfio que a senhora estej a j ulgando o m eu poder sobre o sr. Elliot, o m eu direito de influenciá-lo, m aior do que é na realidade. Tenho certeza que, de um a form a ou de outra, a senhora se im buiu dessa im pressão. Mas deve m e considerar apenas parente do sr. Elliot. Caso, sob essa perspectiva, a senhora pense haver algum a coisa que um a prim a possa lhe pedir com propriedade, im ploro-lhe para não hesitar em requisitar m inha aj uda.
A sra. Sm ith lançou-lhe um olhar penetrante, e então, sorrindo, falou:
– Estou vendo que fui um pouco prem atura; peço que m e desculpe. Eu deveria ter aguardado algum a inform ação oficial. Mas então, m inha cara srta. Elliot, com o sua velha am iga, dê-m e um a indicação de quando poderei falar. Na sem ana que vem ? Com certeza na sem ana que vem poderei supor que tudo j á estará acertado, e com eçar a traçar m eus próprios planos egoístas com base na boa fortuna do sr. Elliot.
– Não – retrucou Anne –, nem na sem ana que vem , nem na outra, nem na outra. Posso lhe garantir que nada da natureza que a senhora está supondo ficará acertado em qualquer sem ana que sej a. Eu não vou m e casar com o sr. Elliot. Posso saber por que acha que vou?
A sra. Sm ith tornou a olhar para ela, olhou com intensidade, sorriu, balançou a cabeça e exclam ou:
– Ora, com o eu gostaria de entendê-la! Com o gostaria de saber o que está tram ando! Tenho o forte palpite de que a sua intenção não é ser cruel quando chegar o m om ento certo. Até esse m om ento chegar, com o a senhorita sabe, nós m ulheres nunca tem os a intenção de ter ninguém . É um a praxe entre nós recusar todos os hom ens até eles fazerem o pedido. Mas por que a senhorita deveria ser cruel? Deixe-m e tentar defender m eu… não posso cham á-lo de atual am igo, m as deixe-m e tentar defender m eu antigo am igo. Onde poderia encontrar pretendente m ais adequado? Onde poderia esperar conhecer um hom em m ais cavalheiro, m ais agradável? Perm ita-m e recom endar o sr. Elliot. Tenho certeza de que só escutou boas coisas a seu respeito do capitão Wallis; e quem poderia conhecê-lo m elhor do que o capitão Wallis?
– Minha cara sra. Sm ith, não faz m uito m ais de seis m eses que a esposa do sr. Elliot m orreu. Ele não deveria estar fazendo a corte a ninguém .
– Ah, se essas forem as suas únicas obj eções, o sr. Elliot está seguro, e não m e preocuparei m ais com ele! – exclam ou a sra. Sm ith com m alícia. – Não se esqueça de m im quando estiver casada, é só o que peço. Deixe que ele saiba que sou sua am iga, e ele então não j ulgará excessivo o esforço necessário, do qual agora, com o é m uito natural, com todos os negócios e com prom issos que tem , ele foge e tenta se esquivar; isso talvez sej a m uito natural. Noventa e nove em cada cem hom ens fariam o m esm o. É claro que ele não tem com o saber a im portância que isso tem para m im . Bem , m inha cara, eu torço e tenho confiança de que a senhorita será m uito feliz. O sr. Elliot é sensato o bastante para com preender o valor de um a m ulher assim . Sua paz não será destruída com o a m inha foi. A senhorita estará segura quanto às questões m ateriais, e segura quanto ao seu caráter. Ele não se deixará tirar do cam inho certo, nem se deixará conduzir à ruína por outros.
– Não – disse Anne –, não tenho qualquer dificuldade para acreditar nisso em relação a m eu prim o. Ele parece ter um tem peram ento calm o e decidido, nada suscetível a im pressões perigosas. Tenho grande respeito por ele. Não tenho m otivos para pensar de outra form a, não por nada que tenha tido a oportunidade de observar. Mas não faz m uito tem po que o conheço; e acho que ele não é hom em de se deixar conhecer intim am ente com rapidez. Será, sra. Sm ith, que essa form a de m e referir a ele não bastará para convencê-la de que ele nada significa para m im ? Com certeza é um a form a calm a o suficiente. E eu j uro que ele nada significa para m im . Se algum dia ele m e pedir em casam ento (coisa que tenho m uito pouco m otivo para im aginar que estej a cogitando fazer), não vou aceitar. Garanto-lhe que não vou aceitar. Garanto-lhe que o sr. Elliot não teve qualquer participação, com o a senhora está supondo, em qualquer prazer que o concerto de ontem à noite tenha podido m e proporcionar: não é o sr. Elliot. Não é o sr. Elliot que…
Ela se calou, arrependendo-se, com um forte rubor, de ter dado a entender tanta coisa; m as dizer m enos não teria sido suficiente. A sra. Sm ith ainda não teria acreditado no fracasso do sr. Elliot caso não houvesse com preendido que havia outra pessoa. Com isso, porém , ela não insistiu m ais, parecendo não fazer qualquer outra suposição; e Anne, ansiosa para não dar m argens a novas observações, m ostrou-se im paciente para saber por que a sra. Sm ith havia im aginado que ela iria se casar com o sr. Elliot; de onde havia tirado essa ideia, ou de quem a tinha escutado.
– Diga-m e, por favor, com o isso lhe passou pela cabeça?
– Passou-m e pela cabeça, para com eçar, ao descobrir quanto tem po vocês dois passavam j untos – respondeu a sra. Sm ith –, e ao sentir que essa seria a coisa m ais vantaj osa do m undo que se pudesse desej ar para qualquer pessoa relacionada com um de vocês; e pode acreditar que todos os seus conhecidos pensaram a m esm a coisa a seu respeito. Mas eu só ouvi falar nisso dois dias atrás.
– E alguém de fato lhe disse isso?
– A senhorita reparou na m ulher que lhe abriu a porta quando esteve aqui ontem ?
– Não. Não foi a sra. Speed, com o de hábito, nem a criada? Não reparei em ninguém específico.
– Foi a m inha am iga sra. Rooke, a enferm eira Rooke, que, aliás, estava m uito curiosa para vê-la, e ficou encantada em estar aqui para lhe abrir a porta. Ela só voltou de Marlborough Buildings no dom ingo; e foi ela quem m e disse que a senhorita iria se casar com o sr. Elliot. Escutou isso da própria sra. Wallis, que não m e parecia ser um a pessoa m al-inform ada. Ela passou um a hora sentada aqui com igo na noite de segunda-feira, e contou-m e a história toda.
– A história toda! – repetiu Anne, rindo. – Im agino que não tenha podido contar um a história m uito com prida com base em um a notícia tão pequena e desprovida de fundam ento.
A sra. Sm ith não respondeu nada.
– No entanto – continuou Anne sem dem ora –, em bora não sej a verdade que eu tenha esse tipo de influência sobre o sr. Elliot, ficaria m uito feliz em lhe ser útil de qualquer form a possível. Devo com entar com ele que a senhora está em Bath? Quer que eu dê algum recado?
– Não, obrigada: certam ente não. No calor do m om ento, e dom inada por um a im pressão equivocada, eu poderia ter m e em penhado em envolvê-la em um assunto; m as agora não. Não, obrigada, não tenho nada com que incom odá-la.
– A senhora disse, se não m e engano, que conheceu o sr. Elliot por m uitos anos?
– Sim , conheci.
– Não antes de ele se casar, suponho?
– Sim ; ele não era casado quando eu o encontrei pela prim eira vez.
– E… a senhora e ele conheciam -se bem ?
– Intim am ente.
– É m esm o? Então diga-m e, por favor, com o ele era nessa época. Tenho m uita curiosidade para saber com o era o sr. Elliot quando j ovem . Ele tinha algum a sem elhança com a m aneira com o se apresenta hoj e?
– Não vej o o sr. Elliot há três anos – foi a resposta da sra. Sm ith, pronunciada com tam anha gravidade que foi im possível insistir no assunto; e Anne sentiu que não havia conseguido nada a não ser aum entar a própria curiosidade. Am bas se calaram ; a sra. Sm ith ficou m uito pensativa. Então disse:
– Peço-lhe desculpas, m inha cara srta. Elliot – exclam ou ela com seu tom natural de cordialidade. – Peço-lhe desculpas pelas respostas breves que tenho lhe dado, m as não tinha certeza de com o devia proceder. Tenho tido m uitas dúvidas e m uita hesitação em relação ao que devo lhe revelar. Havia m uitas coisas a levar em conta. Ser introm etida, causar m á im pressão ou prej udicar os outros são coisas detestáveis. Até m esm o a fachada tranquila de um reencontro entre parentes parece valer ser preservada, ainda que não haj a sob ela nada de duradouro. Mas eu agora m e decidi: acho que estou certa; acho que a senhorita deveria conhecer o verdadeiro caráter do sr. Elliot. Em bora eu acredite plenam ente que por ora a senhorita não tenha a m enor intenção de aceitar um pedido de casam ento dele, não há com o prever o futuro. Em algum m om ento, talvez a senhorita venha a m udar de ideia em relação a ele. Sendo assim , escute a verdade agora, enquanto ainda tem um a visão im parcial. O sr. Elliot é um hom em desprovido de coração ou consciência; um a criatura m anipuladora, cautelosa e fria, que só pensa em si m esm a; um a criatura que, em nom e do próprio interesse ou conforto, seria capaz de qualquer crueldade, ou de qualquer traição, que pudesse com eter sem risco para seu caráter aos olhos do m undo. Ele não tem qualquer sentim ento pelos outros. É capaz de abandonar sem qualquer com punção aqueles de cuj a ruína foi o principal m otivo. Está inteiram ente fora do alcance de qualquer sentim ento de j ustiça ou com paixão. Ah, seu coração é negro! Vazio e negro!