Pines
Capítulo 9
Ethan sonhava que estava amarrado e que algo comia sua perna, dando mordidinhas, testando, mordidas que de vez em quando iam fundo o suficiente para que gritasse no sono. * * *
Acordou de repente.
Gemendo.
Escuridão em toda parte e sua perna esquerda, no alto da parte de trás da coxa, queimando com uma dor que ele conhecia muito bem — alguém o estava cortando. Por um momento terrível, ele estava de volta àquela sala de tortura com Aashif e seu capuz negro, pendurado no teto pelos pulsos, seus tornozelos acorrentados ao chão, seu corpo rígido para que não conseguisse lutar, para que não conseguisse nem se mover, não importando a intensidade da dor.
Mãos sacudiram seus ombros.
Uma voz feminina disse seu nome.
— Ethan, você está bem. Acabou.
— Por favor, pare, oh Deus, por favor, pare!
— Você está seguro. Eu tirei.
Ele notou um facho de luz, piscou várias vezes até que entrasse em foco. Um feixe de luz de lanterna iluminava o chão.
Na luz direta, vislumbrou paredes de pedra, duas criptas, um vitral, e então tudo voltou como um turbilhão.
— Você sabe onde está? — Beverly perguntou. — Minha perna… algo está errado…
— Eu sei. Eu tive que fazer um corte e tirar algo daí de dentro. Sua cabeça estava clareando, o hospital, o xerife, sua tentativa de deixar a cidade, tudo voltando, as memórias tentando se reunir numa sequência que fazia sentido. Ele pensou ter visto Kate também, mas não tinha certeza. Aquela parte parecia demais com um sonho, ou com um pesadelo.
Com clareza de pensamento recém-encontrada, a dor na perna tornava difícil Ethan se concentrar em qualquer outra coisa.
— Do que você está falando? — ele perguntou. Beverly ergueu a lanterna e a deixou iluminar sua mão direita, onde, entre seus dedos indicador e polegar, segurava algo que se assemelhava a um microchip, pequenos coágulos de sangue secando ainda grudados ao semicondutor. — O que é isto? — ele perguntou.
— Como eles o monitoram e seguem.
— Isto estava na minha perna?
— Inseriram na perna de todo mundo.
— Dê-me.
— Por quê?
— Para que eu possa esmigalhar.
— Não, não, não. Você não vai querer fazer isso. Assim eles vão saber que você o removeu — e ela o entregou. — Apenas jogue no cemitério quando formos embora.
— Eles não vão nos encontrar aqui?
— Eu já me escondi aqui com um chip antes. Essas paredes grossas de pedra interrompem o sinal. Mas não podemos ficar por muito tempo. Eles podem rastrear o chip a uma distância de uns cem metros de onde o sinal caiu.
Ethan sentou-se com esforço. Dobrou o cobertor e descobriu uma pequena poça de sangue brilhando na pedra sob a luz da lanterna. Mais respingos trilhando desde o local de uma incisão na parte de trás de sua coxa. Ele se perguntava a profundidade a que Beverly precisara chegar. Sentiu a cabeça girar, sua pele dolorida e pegajosa de febre. — Você tem algo na bolsa para fechar o corte? — ele perguntou. Ela negou.
— Apenas fita adesiva.
— Pegue. Melhor do que nada.
Beverly puxou a mochila cilíndrica e enfiou a mão dentro. Ethan disse: — Sonhei que você me disse que chegou aqui em 1985, ou isso aconteceu de verdade? — Isso aconteceu — ela tirou o rolo de fita. — O que eu faço? — perguntou. Não tenho treinamento médico.
— Apenas enrole na minha perna várias vezes. Ela começou com um pedaço de fita e então seguiu em frente, dando voltas cuidadosas em volta da coxa de Ethan.
— Está apertado demais?
— Não, está bom. Precisa parar o sangramento. Ela deu cinco voltas, então rasgou a fita e a alisou no lugar. — Vou contar uma coisa — Ethan disse. — Algo que você não vai acreditar. — Tente.
— Eu cheguei aqui há cinco dias…
— Você já me disse isso.
— A data era 24 de setembro de 2012.
Por um momento ela apenas o encarou.
— Já ouviu falar em iPhone? — Ethan perguntou. Ela sacudiu a cabeça…
— Internet? Facebook? Twitter?
… e continuou sacudindo.
Ethan disse:
— Seu presidente é…
— Ronald Reagan.
— Em 2008, os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro, Barack Obama. Você nunca ouviu falar do desastre do ônibus espacial Challenger? Ele notou a lanterna começando a tremer na mão dela. — Não.
— A queda do Muro de Berlim?
— Não, nada disso.
— As duas Guerras do Golfo? Onze de Setembro? — Você está fazendo algum jogo mental comigo? — os olhos dela se estreitaram: uma medida de raiva, duas de medo. — Oh, Deus. Você está com eles, não está?
— Claro que não. Quantos anos você tem?
— Tenho 34.
— E seu aniversário é…
— Primeiro de novembro.
— Em que ano você nasceu?
— Em 1950.
— Você deveria ter 61 anos, Beverly.
— Não entendo o que isso significa — ela respondeu. — Somos dois.
— As pessoas aqui… não conversam umas com as outras sobre nada que não seja Wayward Pines — ela acrescentou. — É uma das regras. — Do que está falando?
— Eles chamam de “viver no momento”. Nenhuma conversa sobre política é permitida. Nenhuma conversa sobre a vida anterior. Nenhuma discussão sobre cultura pop: filmes, livros, música. Pelo menos nada que não esteja disponível aqui na cidade. Não sei se você notou, mas quase não há nomes de marcas. Até o dinheiro é esquisito. Não tinha percebido até recentemente, mas toda a moeda é dos anos 1950 ou 1960. Nada depois. E não existem calendários, nem jornais. Eu só sei quanto tempo faz que estou aqui porque tenho um diário. — Por que é assim?
— Não sei, mas a punição por fugir das regras é severa. A perna de Ethan latejava pela constrição da fita adesiva, mas pelo menos o sangramento havia sido contido. Deixaria assim por enquanto, mas logo teria que afrouxar. Beverly disse:
— Se eu descobrir que você está com eles…
— Não estou com eles, quem quer que eles sejam. Havia lágrimas brotando dos olhos dela. Beverly piscou e enxugou os riscos úmidos das laterais de seu rosto.
Ethan se inclinou na parede.
Arrepios e dores ficando piores.
Ele ainda podia ouvir a chuva batendo no teto sobre eles, e além do vitral ainda era noite. Beverly levantou o cobertor do chão e o enrolou nos ombros de Ethan. — Você está queimando — ela disse.
— Perguntei o que é este lugar, mas você nunca me respondeu. — Porque não sei.
— Você sabe mais do que eu.
— Quanto mais eu sei, mais estranho fica. Quanto menos você souber… — Faz um ano que você está aqui. Como sobreviveu? Ela riu triste e resignada. — Fazendo o que todo mundo aqui faz… comprando a mentira. — Que mentira?
— A de que tudo está bem. Que todos nós vivemos numa cidadezinha perfeita. — Onde o paraíso é o lar.
— O quê?
— Onde o paraíso é o lar. É algo que eu vi numa placa na saída da cidade quando estava tentando fugir de carro ontem à noite.
— A primeira vez que acordei aqui, estava tão desorientada e com tanta dor por causa do acidente que acreditei quando me disseram que eu morava aqui. Depois de perambular na neblina o dia todo, o xerife Pope me encontrou. Ele me escoltou até o The Biergarten, o pub onde eu encontrei você pela primeira vez. Ele me disse que eu era bartender lá, embora eu nunca tivesse trabalhado num bar em toda a minha vida. Então ele me levou a uma casinha vitoriana que eu nunca tinha visto antes e me disse que era onde eu morava. — E você simplesmente acreditou nele?
— Eu não tinha outras memórias para rivalizar com essas, Ethan. Àquela altura, eu apenas sabia meu nome.
— Mas as memórias voltaram.
— Sim. E eu sabia que algo estava muito errado. Não conseguia fazer contato com o mundo exterior. Sabia que aquela não era a minha vida. Mas havia algo, não sei, sinistro, no Pope. Em algum nível instintivo, eu sabia que era melhor não perguntar nada a ele. “Eu não tinha carro e então comecei a fazer longas caminhadas até os limites da cidade. Mas algo estranho aconteceu. Cada vez que eu chegava aonde a estrada fazia a curva e voltava, advinha quem aparecia? Comecei a entender que o Pope não era realmente um xerife. Era um carcereiro. Para todos os que moram aqui. Percebi que ele devia estar me rastreando de alguma forma, então durante dois meses mantive minha cabeça abaixada, fui trabalhar, voltei para casa, fiz novos amigos…”
— E eles também acreditavam em tudo isso?
— Não sei. Num nível superficial, parecia que estava sempre tudo bem. Nunca deram nenhuma indicação de que as coisas estivessem fora do normal. Depois de um tempo, percebi que devia ser medo o que mantinha todo mundo na linha, mas de que eu não sabia. E com certeza não perguntei.
Ethan lembrou-se da festa da vizinhança com a qual tinha se deparado — Deus, tinha sido apenas ontem? — e como havia parecido normal. Como havia parecido comum. Pensou nas casas vitorianas antiquadas de Wayward Pines e em todas as famílias que moravam dentro delas. Quantos residentes — prisioneiros — mantinham um semblante forte, despreocupado durante o dia, mas que passavam noites em claro, insones, mentes fervilhando, aterrorizados e lutando para compreender por que haviam sido trancados naquela prisão pitoresca? Ele imaginou que fossem mais do que alguns. Mas seres humanos eram, se nada mais fossem, adaptáveis. Imaginou que a mesma quantidade de pessoas devia ter se convencido e convencido os filhos de que as coisas eram exatamente o que deveriam ser. Como sempre tinham sido. Quantos viviam de um dia ao outro, no momento, banindo qualquer pensamento ou lembrança da vida que tinham conhecido antes? Era mais fácil aceitar o que não podia ser alterado do que arriscar tudo e buscar o desconhecido. O que havia além. Prisioneiros de longa data com frequência cometiam suicídio, ou reincidiam quando se deparavam com o prospecto de uma vida fora das muralhas do cárcere. O que era tão diferente ali? Beverly continuou:
— Uma noite no bar, alguns meses depois da minha chegada, um cara me passou um bilhete. Dizia: “A parte de trás da sua coxa esquerda”. Naquela noite, no chuveiro, apalpei pela primeira vez em busca daquilo: uma pequena saliência, algo sob a pele. Mas eu não sabia o que deveria fazer a respeito. Na noite seguinte, ele estava de volta no meu bar. Rabiscou uma nova mensagem, desta vez no tíquete: “Corte fora, mantenha em segurança, é como eles a rastreiam”.
“Nas primeiras três vezes eu me acovardei. Na quarta, tomei coragem e fiz. De dia, eu sempre mantinha o chip comigo. Carregava como qualquer outra pessoa. E a coisa estranha é que algumas vezes quase parecia normal. Eu ia à casa de alguém para jantar, ou a uma festa da vizinhança, e tinha uma certa impressão de que talvez tudo sempre tivesse sido daquele jeito, e que a minha vida anterior fosse um sonho. Comecei a ver como as pessoas haviam passado a aceitar a vida em Wayward Pines.
“À noite, depois que meu turno terminava no pub, eu ia para casa, deixava meu chip na minha cama, onde devia estar, e saía. Cada noite, numa direção diferente. E sempre terminava em lugares sem saída. Ao norte, ao leste e ao oeste estão os paredões enormes, e eu podia subir por eles uns trinta metros, mas então os lugares em que me apoiar iam ficando mais finos e eu sempre acabava sem ter onde me segurar, ou chegava a um ponto em que não tinha coragem de continuar escalando. Cruzei com mais do que alguns esqueletos na base daqueles penhascos. Ossos velhos, quebrados. Humanos. Pessoas que haviam tentado sair escalando e que tinham caído.
“Da quarta vez que me aventurei, fui para o sul, pela estrada principal, a que eu tinha pegado para chegar a Wayward Pines. Descobri o que você descobriu: dava a volta e retornava para a cidade, sempre no mesmo lugar, num círculo sem fim. Mas eu continuei seguindo para o sul, me embrenhando na floresta. Devo ter avançado uns oitocentos metros antes de finalmente chegar até a cerca.”
— Uma cerca?
O latejar na perna de Ethan havia começado a ficar insuportável, pior do que a dor da incisão feita por Beverly. Ele afrouxou a fita.
— Tinha seis metros de altura e seguia pela floresta tanto para um lado como para o outro, até onde eu conseguia enxergar. Tinha arame farpado no topo e zumbia como se fosse eletrificada. A mesma placa estava presa na cerca a cada quinze metros. Dizia: “Volte a Wayward Pines. Além deste ponto, você morrerá”.
Ethan passou a fita outra vez na perna.
O latejar havia desaparecido e ainda havia dor, mas parecia ter diminuído. — Você encontrou um jeito de ultrapassar?
— Não. Estava quase amanhecendo, e achei que era melhor voltar para a cidade. Quando dei meia-volta, havia um homem parado na minha frente. Ele me assustou até a alma, até que eu me desse conta de quem era.
— O cara que contou sobre o chip?
— Exato. Ele disse que tinha me seguido. Em todas as noites em que eu saí. — Quem era ele? — Ethan perguntou, e não conseguiu ter certeza na luz baixa, mas parecia que uma sombra havia cruzado o rosto de Beverly. — Bill.
Uma sensação de formigamento, semelhante a uma corrente elétrica de baixa amperagem, percorreu o corpo de Ethan.
— Qual era o sobrenome do Bill? — perguntou. — Evans.
— Jesus!
— O quê?
— Evans era o homem morto na casa. Aquele a quem você me levou. — Certo. Eu queria que você entendesse logo de início o quanto este lugar é perigoso. — Mensagem recebida. Evans é um dos agentes do Serviço Secreto em busca dos quais fui enviado a Wayward Pines.
— Não sabia que o Bill era do Serviço Secreto. Ele não me dizia nada sobre o que nós chamávamos de “vidas anteriores”.
— Como ele morreu?
Beverly levantou a lanterna do chão, a lâmpada começando a iluminar com menos intensidade. Ela a desligou.
Escuridão total.
O sussurro da chuva e nada mais.
— Aconteceu uma noite, quando tentamos escapar. Ainda não entendo exatamente como eles descobriram, pois deixamos nossos microchips na cama como havíamos feito tantas vezes antes. Bill e eu nos encontramos no lugar combinado com suprimentos e provisões… mas nunca tivemos chance.
Ethan podia ouvir sofrimento entrecortando a voz dela. — Tivemos que seguir por caminhos diferentes — ela disse. — Voltei para a minha casa, mas eles o alcançaram. Acabaram com ele.
— Quem acabou com ele?
— Todos.
— Quem é todos…
— A cidade inteira, Ethan. Eu conseguia… ouvi-lo gritando da minha casa, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Enfim entendi. Eu me dei conta do que mantinha todos aqui. Pelo que pareceu um longo, longo tempo, nenhum dos dois falou. Finalmente, Ethan disse:
— Nunca cheguei até a cerca, mas já me embrenhei pela floresta além da curva na estrada, na extremidade sul da cidade. Inclusive isso foi ontem à noite. Podia jurar que ouvi alguma coisa. — O quê?
— Era um grito. Ou um choro. Talvez algo entre os dois. E o estranho era a sensação de que eu já o tinha ouvido antes. Num sonho. Ou em outra vida. Fui tomado por terror no meu íntimo, como o uivo de um lobo. Algo intrínseco. Minha única reação foi correr. Então agora ouço você me falando sobre essa cerca elétrica, e estou aqui pensando, por que ela está lá? Para nos manter do lado de dentro? Ou manter algo do lado de fora? De início, Ethan pensou que o som estivesse vindo de dentro de sua cabeça — alguns efeitos colaterais da droga que a enfermeira Pam havia dado a ele, ou o trauma do espancamento de Pope e tudo o que tinha vivenciado desde então. Mas o barulho aumentou depressa.
Algo estava tocando.
Não.
Muitas coisas estavam tocando.
Centenas e centenas daquilo.
— O que é isso? — Ethan perguntou, esforçando-se para se colocar de pé. Beverly já estava na porta, lutando para abri-la, dobradiças rangendo, e então a lufada de ar mais frio varreu pela cripta e o barulho de súbito ficou alto.
Ethan percebeu o que era.
O som de quinhentos telefones de disco disparando de uma vez, preenchendo o vale com seus toques agudos e agourentos.
— Oh, Deus — Beverly disse.
— O que está acontecendo?
— Foi assim que começou na noite em que Bill morreu. — Não entendo.
— Todos os telefones em todas as casas de Wayward Pines estão tocando nesse exato instante. As pessoas estão recebendo a ordem de encontrar e matar você. Ethan tentou se proteger do impacto daquela informação, mas a consciência de que deveria estar aterrorizado foi apenas vaga, algo que ele sabia, mas que não sentiu; sua mente já se desligando, deslizando para aquele estado mecânico de sobrevivência, entorpecido, cheio de adrenalina, que tinha experimentado nas poucas vezes em que tivera o infortúnio de travar os olhos com a morte. Não havia lugar para pensamentos ou emoções exteriores, nem para desperdiçá-los. Toda a força desviada e canalizada para que pudesse elevar o único instinto capaz de mantê-lo vivo: a percepção sensorial. — Vou jogar o chip fora e me esconder aqui — ele disse. — Esperá-los ir embora. — Só há pouco mais de quinhentas pessoas vivendo em Wayward Pines e cada uma delas vai estar procurando por você. Acho que a qualquer momento alguém vai acabar aparecendo por esta porta e você não vai querer estar aqui quando isso acontecer. Ethan pegou a lanterna da mão dela, acendeu e cambaleou até a grande mochila cilíndrica. — O que tem aqui? — Ele perguntou, caindo de joelhos ao lado da bolsa. — Roupas para você. Sapatos. Tive que adivinhar seu número. — Armas?
— Desculpe. Não consegui colocar minhas mãos em nenhuma. Ethan começou a tirar as coisas: uma camiseta de manga longa preta, calça jeans preta, sapatos pretos, duas dúzias de garrafas d’água… — Apague a luz! — Beverly sibilou.
Ethan a desligou.
— Você tem que sair imediatamente — ela o apressou. — Eles estão chegando. — Apenas deixe eu me vestir e…
— Eles já estão no cemitério. Já consigo ver as lanternas. Ethan deixou tudo jogado no chão e mancou até a porta de ferro. Do lado de fora, na escuridão, ele enxergou quatro pontos de luz oscilando entre as lápides. Pareciam estar a algumas dezenas de metros, embora julgar a distância fosse um desafio naquele clima.
Os telefones silenciaram.
Beverly sussurrou no ouvido de Ethan:
— Você precisa encontrar o rio no limite sudoeste da cidade. É a rota que Bill e eu tínhamos planejado seguir. É a única direção que ainda não tínhamos explorado por completo. Bill avançou um pouco e achou que parecia promissora. — Onde nos encontramos?
— Apenas chegue até o rio e siga o curso contrário da correnteza. Eu o encontro. Beverly puxou o capuz do poncho por cima da cabeça, saiu do mausoléu e disparou pela noite, Ethan ouvindo o som de seus passos minguarem e logo se perderem na chuva constante. Demorou-se no limiar da porta, alternando a atenção entre as luzes que se aproximavam e a escuridão cerrada da cripta, perguntando-se se tinha dois minutos para gastar se vestindo e pegando suprimentos, ou se simplesmente deveria ir. Os feixes de luz se aproximaram, todos os quatro se movimentando próximos ao mausoléu e trazendo vozes consigo.
Decida, droga.
Estava perdendo segundos preciosos.
Se o alcançarem enquanto ainda estiver na cripta, você está morto. Não há escapatória, e eles estarão aqui em menos tempo do que você vai demorar para se vestir. Ele correu.
Vestindo nada a não ser uma camisola de hospital, sem sapatos, os pés descalços silvando pelo mato e chapinhando em porções de lama fria. Chuva o bombardeando.
Dolorido.
Sacudindo com arrepios.
Sua coxa esquerda gritando em cada flexão.
Desligou-se de tudo — do medo, da agonia, do frio — e disparou entre os pinheiros, esquivando-se de lápides.
Os quatro pontos de luz atrás dele não pareciam ter notado sua fuga, já que ainda seguiam uma rota perpendicular ao mausoléu.
No escuro quase total, a desorientação era incapacitante. Ele não fazia ideia se estava seguindo para o norte ou para o sul, indo para a cidade ou se afastando dela, mas continuou correndo até alcançar uma parede de pedra que formava os decrépitos limites do cemitério. Subindo, sentando com uma perna de cada lado, tomando um instante para recuperar o fôlego e lançar um olhar pelo caminho por onde tinha vindo. Mais luzes.
Pelo menos mais meia dúzia delas em adição às quatro primeiras, e havia mais aparecendo a cada segundo, um verdadeiro exército de lanternas emergindo da escuridão e todas indo até ele com um tipo de movimento oscilante que o fez temer que as pessoas por trás dos fachos de luz estivessem correndo.
Ethan deixou cair o microchip na parede de pedra. Depois passou as pernas por cima e desceu do outro lado, encolhendo-se com a pontada de dor na coxa esquerda. Mas ele a ignorou e se jogou no campo de mato cortado. Na extremidade, brinquedos de um parquinho cintilavam, e era possível ver a chuva caindo no feixe de luz de uma lâmpada da rua.
Mais adiante, em um grupo de pinheiros escuros — mais lanternas, mais vozes. Alguém gritou lá atrás no cemitério, e embora Ethan não conseguisse dizer se era direcionado a ele, teve o efeito de acelerar seu passo.
Aproximando-se do conjunto de balanços e escorregador, deu-se conta de onde estava, e o gorgolejar de água corrente que se sobressaía à chuva e ao palpitar de seu coração confirmou. Embora não conseguisse ver no escuro, do seu lado esquerdo estava a relva à margem do rio, onde primeiro havia recuperado a consciência em Wayward Pines cinco dias antes. E o rio.
Quase mudou a rota para ir até lá, mas então uma luz piscou onde Ethan havia imaginado que estaria a linha d’água.
Disparou passando pelo escorregador, abriu caminho com os ombros por uma sebe de arbustos pingando que quase arrancaram sua camisola de hospital muito fina, e cambaleou até a rua.
A vestimenta estava em retalhos e presa a seu pescoço como uma capa rasgada. Ele a arrancou, desesperadamente precisando de oxigênio — um minuto inteiro de inalações profundas não seria suficiente —, mas não havia tempo de parar e reabastecer seus pulmões. Luzes vindas do cemitério, do rio e dos pinheiros na fronteira norte do parque convergiam naquele campo aberto num enxame luminescente que avançava em sua direção como uma única entidade, acompanhada por uma confusão de vozes inebriadas com a vivacidade boba de uma caçada.
Um novo disparo de adrenalina percorreu seu sangue. Seus pés enlameados chegaram a um pavimento molhado e ele disparou pelado pelo meio da rua, uma camada de chuva escorrendo por seu rosto. Percebeu que seu objetivo havia se movido.
Esquecer o rio, ele precisava encontrar algum lugar para se esconder e deixar aquela loucura se afastar. Não sabia quantas pessoas estavam atrás dele, quantas já o tinham visto, mas correr nu pela cidade iria matá-lo bem depressa.
— Ali! — uma voz grave gritou.
Ethan olhou para trás, viu três sombras correndo de uma grande casa vitoriana, o homem na frente rasgando pelos degraus, depois pelo quintal da frente, e saltando uma cerca branca de tábuas com considerável graciosidade enquanto seus companheiros se amontoavam no portão, atrapalhados com a fechadura.
O saltador aterrissou no meio da calçada e acelerou, vestido todo de preto, botas palpitando na rua. Carregava um facão cuja lâmina molhada brilhava sob o facho oblíquo de seu farolete, correndo muito rápido, respirando pesado. Uma voz na cabeça de Ethan dizia de forma categórica e com a calma impressionante de um senador obstruindo alguma votação ao ler uma lista telefônica às três da manhã: este homem está a uns cinquenta metros, está armado e vai pegar você.
O que vai fazer a respeito?