Pines

Blake Crouch · Capítulo 8 de 20

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Pines

Capítulo 8

Ela não ousou abrir a porta. Em vez disso, espiou por um dos vidros faltantes na estrutura do vitral. Não encontrou nada para ser visto através da chuva da meia-noite e nada para ser ouvido além do som dela sobre as ervas daninhas, árvores e o teto do mausoléu. Ethan havia apagado, perdido para a droga e, em alguns aspectos, ela o invejava. Durante o sono, os sonhos vinham até ela.

De sua Vida Anterior.

De um homem com quem, com todas as probabilidades, ela teria se casado. De seu lar em Boise.

Todos os planos que tinham feito juntos.

Os filhos que um dia haviam desejado trazer ao mundo — às vezes, ela até sonhava com seus rostos.

Acordando, era Wayward Pines.

O belo inferno.

Logo quando chegou, os picos circundantes a haviam enchido de espanto e deslumbramento. Agora ela os odiava pelo que eram, pelo que tinham se tornado: barras de uma cela de prisão cercando aquela linda cidade de onde ninguém podia sair, e aqueles poucos que tinham tentado…

Ela ainda tinha pesadelos com aquelas noites.

O som de quinhentos telefones tocando de uma vez. A gritaria.

Esta noite não… isso não vai acontecer esta noite. Beverly tirou o poncho e foi até Ethan, encolhido sob o cobertor, encostado na parede. Quando o padrão de sua respiração enfim se estabilizou em inspirações longas, ela engatinhou até a bolsa e tirou a faca de um bolso exterior.

Era dobrável, enferrujada e sem corte, mas era tudo o que tinha sido capaz de encontrar. Afastou o cobertor, puxou para cima a camisola de hospital que Ethan usava e passou a mão por sua perna esquerda até encontrar uma saliência atrás da coxa. Deixou a mão pousada ali um pouco mais do que deveria, odiando-se por isso, mas, Deus, fazia muito tempo desde que tinha tocado ou sido tocada por um homem. Havia considerado contar a Ethan antes da hora, mas seu estado debilitado a havia impedido, e talvez fosse para o melhor. A despeito disso, ele tinha sorte. Ela não tivera o benefício da anestesia quando fez aquilo em si mesma.

Beverly apoiou a lanterna no chão de pedra para que iluminasse a parte posterior da coxa dele.

Estava coberta de cicatrizes.

Não dava para ver a saliência, apenas senti-la — e ainda assim, bem mal — se soubesse onde tocar.

Abriu a faca que tinha esterilizado duas horas antes com bolas de algodão e álcool, seu estômago dando um aperto só de pensar no que tinha que fazer, rezando para que a dor não interrompesse a sedação.