Pines
Capítulo 1
Recobrou a consciência deitado de costas com a luz do sol derramando-se sobre seu rosto e o murmúrio de água corrente por perto. Sentia uma dor excepcional no nervo óptico e um latejar constante, indolor, na base do crânio: o trovejar distante de uma enxaqueca se aproximando. Girou o corpo de lado e empurrou o chão para elevar o tronco e se sentar. Enfiou a cabeça entre os joelhos. Sentiu a instabilidade do mundo muito antes de abrir os olhos, como se seu eixo estivesse oscilando como uma gangorra. Inspirou fundo pela primeira vez, e foi como se alguém estivesse golpeando entre suas costelas com uma cunha de metal, no alto do lado esquerdo; porém suportou a dor com um grunhido e forçou os olhos a se abrirem. O olho esquerdo devia estar muito inchado, pois parecia que enxergava através de uma fenda. O mato mais verde que já tinha visto — uma floresta de folhas longas e macias — ladeava a margem. A água era cristalina e fluía rápida entre as rochas que despontavam pelo canal. Do outro lado do rio, um penhasco se erguia por mais de trezentos metros. Pinheiros cresciam em grupos pelas saliências da encosta, e o ar estava carregado de seu perfume e da doçura da água corrente.
Ele vestia calça social e paletó pretos, com uma camisa de oxford por baixo, o algodão branco salpicado de sangue. Uma gravata preta se dependurava no mais folgado dos nós em seu colarinho.
Na primeira tentativa de se levantar, seus joelhos se dobraram e ele caiu sentado com força o bastante para irradiar uma dor lancinante pelo tórax. Sua segunda tentativa teve sucesso; ele se viu vacilante, porém de pé, o solo parecendo o convés de um navio jogando para todas as direções durante uma tormenta embaixo de seus calcanhares. Virou-se lentamente, os pés se arrastando e bem afastados em busca de equilíbrio. Com o rio atrás, ele se viu na entrada de um descampado. No lado mais distante, as superfícies metálicas de balanços e escorregadores reluziam sob o intenso sol do meio-dia. Nenhuma outra alma por perto.
Além do parque, vislumbrou casas em estilo vitoriano e, mais adiante, os prédios de uma rua principal. A cidade tinha no máximo um quilômetro e meio de ponta a ponta e estava localizada no centro de um anfiteatro de pedra, rodeada pelas muralhas de uma escarpa elevando-se a centenas de metros por todos os lados e composta de rochas em camadas avermelhadas. No pico mais alto, nos recantos sombreados da montanha, ainda havia bolsões de neve, mas ali embaixo, no vale, era quente, e o céu acima, num tom profundo de cobalto, não tinha nuvens.
O homem verificou os bolsos da calça e então os do paletó de corte simples. Sem carteira. Sem clipe com dinheiro. Sem identidade. Sem chaves. Sem celular. Apenas um pequeno canivete suíço em um dos bolsos internos. * * *
Quando chegou ao outro lado do parque, estava mais alerta e mais confuso, e o pulsar na coluna cervical não era mais indolor.
Ele sabia de seis coisas:
O nome do atual presidente.
Como era o rosto de sua mãe, embora não conseguisse se lembrar do nome dela ou mesmo do som de sua voz.
Tocar piano.
E pilotar um helicóptero.
Que tinha 37 anos de idade.
E que precisava chegar a um hospital.
Além disso, o mundo e o lugar que ocupava nele não eram mais desconhecidos do que uma impressão em nomenclatura estrangeira que lhe fugia da compreensão. Em vez disso, podia sentir a verdade pairando sobre as franjas de sua consciência, porém apenas um pouco fora do alcance.
Andou por uma rua calma, residencial, analisando cada carro pelo qual passava. Algum deles lhe pertencia?
As casas faceando umas às outras eram imaculadas — recém-pintadas, com perfeitos quadradinhos de grama viva, contornados por cercas de madeira, e o nome de cada família pintado em letras brancas de forma na lateral de uma caixa de correio preta. Em quase todo quintal dos fundos, via um jardim vibrante, repleto não só de flores, mas de hortaliças e frutas.
Todas as cores tão puras e vívidas.
No meio da segunda quadra, ele se encolheu. O esforço de andar o havia feito respirar fundo, e a dor do lado esquerdo o fez parar de repente. Tirando o paletó, puxou a camisa de dentro do cós da calça, desabotoou-a e abriu. Tinha um aspecto ainda pior do que a dor: por todo seu lado esquerdo se estendia um hematoma escuro, rodeado por uma faixa amarelada. Algo o tinha atingido. Forte.
Passou os dedos de leve sobre a superfície do crânio. A dor de cabeça estava ali, tornando-se mais pronunciada minuto a minuto, mas ele não sentiu nenhum sinal de trauma severo além de uma parte dolorida do lado esquerdo.
Abotoou a camisa outra vez, enfiou-a para dentro das calças e continuou a subir a rua. A conclusão estrondosa era que havia se envolvido em algum tipo de acidente. Talvez de carro. Talvez uma queda. Talvez tivesse sido atacado — isso explicaria por que não estava carregando carteira.
Deveria ir à polícia imediatamente.
A menos que...
E se tivesse feito algo errado? Cometido um crime? Seria possível?
Talvez devesse esperar, ver se algo voltava à memória. Embora nada naquela cidade lhe parecesse remotamente familiar, ele se deu conta de que, ao caminhar aos tropeços pela rua, estava lendo os nomes em cada caixa de correio. Algo inconsciente? Por que ele saberia, no fundo das reentrâncias de sua memória, que uma das caixas de correio teria o seu nome impresso na lateral? E tal visão traria tudo de volta? Vários quarteirões adiante, os prédios do centro se erguiam acima dos pinheiros, e ele podia ouvir pela primeira vez o ruído de carros em movimento, vozes distantes, o zumbido de sistemas de ventilação.
Estacou no meio da rua, involuntariamente inclinando a cabeça de lado. Estava observando uma caixa de correio que pertencia a uma casa vitoriana de dois andares, vermelha e verde.
Observando o nome na lateral.
Seu pulso começou a acelerar, embora não entendesse por quê.
MACKENZIE
— Mackenzie.
O nome não lhe significava nada.
— Mack...
Mas as primeiras sílabas, sim. Ou, em vez disso, causavam alguma reação emocional. — Mack. Mack.
Ele era Mack? Era seu primeiro nome?
— Meu nome é Mack. Oi, sou o Mack, prazer em conhecê-lo. Não.
A forma como a palavra rolava por sua língua não era natural. Não parecia com nada que lhe pertencesse. Para ser sincero, odiava a palavra, porque invocava... Medo.
Que estranho. Por alguma razão, a palavra instilava medo. Algum Mack o teria machucado?
Continuou andando.
Mais três quadras o levaram à esquina da Rua Principal com a Seis, onde se sentou sobre um banco à sombra e respirou lenta e cuidadosamente. Olhou para os dois lados da rua, seus olhos desesperados por algo familiar.
Nenhuma cadeia de lojas à vista.
Havia uma farmácia na esquina oposta, na diagonal. Uma cafeteria ao lado.
Um prédio de três andares, ao lado da cafeteria, com uma placa dependurada acima dos degraus da entrada:
WAYWARD PINES HOTEL
O cheiro de grãos de café o puxou do banco. Elevou os olhos e viu um lugar chamado “The Steaming Bean” na metade da quadra de onde o aroma exalava. Humm.
Não era necessariamente a informação mais útil, considerando tudo, mas se deu conta de que adorava um bom café. Ansiava por um. Outra pequena peça do quebra-cabeça que constituía sua identidade.
Caminhou até a cafeteria e puxou uma porta envidraçada. O lugar era pequeno e retrô e, apenas pelo aroma, ele podia dizer que o pó que usavam era excelente. Um balcão do lado direito faceava máquinas de café expresso, grelhas, liquidificadores, garrafas de essências. Três banquetas estavam ocupadas. Alguns sofás e cadeiras ladeavam a parede oposta. Uma estante de livros em brochura desbotados. Dois idosos se digladiavam num tabuleiro de xadrez com peças descombinadas. As paredes exibiam obras de arte locais: uma série de autorretratos em preto e branco de alguma mulher de meia-idade cuja expressão nunca mudava de um para o outro. Apenas mudava o foco da câmera. Aproximou-se do caixa.
Quando a barista de vinte e poucos anos com cachos loiros finalmente o notou, ele pensou detectar um lampejo de horror em seus belos olhos. Ela me conhece?
No espelho atrás do caixa, viu seu reflexo e, no mesmo instante, entendeu o que havia motivado o olhar de repulsa: o lado esquerdo de seu rosto estava escurecido por um enorme hematoma, e seu olho esquerdo estava protuberante, inchado a quase fechar. Meu Deus. Alguém me espancou até dizer chega. À parte o arroxeado medonho, ele não tinha má aparência. Supunha que tivesse pouco mais de um metro e oitenta, talvez um metro e oitenta e cinco. Cabelos pretos curtos e uma barba de dois dias aparecendo como uma sombra sobre a metade inferior de seu rosto. Um porte sólido, musculoso, evidente pela forma como o paletó envolvia seus ombros e pela camisa de oxford esticada no peito. Imaginou que parecia algum executivo de propaganda ou marketing. Era provável que tivesse um belo perfil quando estava barbeado e arrumado. — Pois não? — a barista perguntou.
Teria matado alguém por uma xícara de café, mas não tinha um centavo sequer no bolso. Não sabia nem quem era, que dirá se tinha dinheiro. — Vocês fazem café bom aqui?
A mulher pareceu confusa com a pergunta.
— Hum, sim.
— O melhor da cidade?
— Esta é a única cafeteria da cidade, mas, sim, nosso café é espetacular. O homem inclinou-se sobre o balcão.
— Você me conhece? — sussurrou.
— Perdão?
— Você me reconhece? Costumo vir aqui?
— Não sabe se já esteve aqui antes?
Ele sacudiu a cabeça.
Ela o analisou por um instante, como se avaliando sua sinceridade, tentando determinar se aquele cara com o rosto espancado era louco ou estava zombando dela. Ela finalmente disse: — Não acho que já o tenha visto antes.
— Tem certeza?
— Bem, aqui não é nenhuma Nova York.
— Faz sentido. Faz tempo que você trabalha aqui? — Um pouco mais de um ano.
— E não sou um cliente assíduo nem nada?
— Definitivamente não é assíduo.
— Posso perguntar outra coisa?
— Claro.
— Onde é aqui?
— Não sabe onde está?
Ele hesitou, uma parte sua não querendo admitir tamanha e total incapacidade. Quando finalmente negou com a cabeça, a barista enrugou a testa como se não pudesse acreditar na pergunta.
— Não estou tirando uma com a sua cara — ele disse. — Aqui é Wayward Pines, Idaho. Seu rosto... o que aconteceu com você?
— Eu... Eu realmente ainda não sei. Há um hospital na cidade? — quando fez a pergunta, sentiu uma corrente elétrica agourenta percorrer seu corpo. Uma premonição de baixa voltagem?
Ou a mão de uma lembrança enterrada fundo, traçando um dedo gelado por sua espinha? — Sim, a sete quadras ao sul daqui. Você deve ir ao pronto-socorro imediatamente. Posso chamar uma ambulância.
— Não é necessário — e se afastou do balcão. — Obrigado... como se chama? — Miranda.
— Obrigado, Miranda.
Sair novamente à luz do sol fez que perdesse o equilíbrio e elevasse o nível de sua crescente dor de cabeça até o menor patamar na escala de excruciante. Não havia trânsito, por isso atravessou a Rua Principal fora da faixa e subiu pelo quarteirão em direção à Rua Cinco, passando por uma jovem mãe e seu menininho, sussurrando algo que parecia como: — Mamãe, é ele?
A mulher fez o menino silenciar e cruzou olhares com o homem franzindo o cenho, em tom de desculpas.
— Desculpe por isso — disse —, ele não teve a intenção de ser mal-educado. Ele chegou à esquina da Rua Cinco com a Principal, em frente a um prédio de dois andares de pedras marrons com o nome PRIMEIRO BANCO NACIONAL DE WAYWARD PINES impresso em portas duplas de vidro. Na lateral do prédio, viu uma cabine telefônica próxima a um beco.
Mancou até lá o mais rápido que pôde e fechou-se dentro da cabine. A lista telefônica era a mais fina que já tinha visto, e ele a folheou, esperando alguma revelação significativa. Porém, eram apenas oito páginas de algumas centenas de nomes que, como tudo o mais na cidade, não lhe guardavam nenhum significado. Deixou a lista cair pendurada no cabo metálico e apoiou a testa no vidro frio. O teclado numérico lhe chamou a atenção.
Sorriu com a doce constatação.
Sei meu número de telefone.
Antes de levantar o fone, discou o número várias vezes só para ter certeza, e ele parecia fluir da ponta de seus dedos com a facilidade do conhecimento habitual e da memória motora. Ligaria a cobrar, esperando por Deus que alguém estivesse em casa, supondo-se que existisse alguém. Claro, não teria um nome para lhes dar, não um verdadeiro, pelo menos, mas talvez reconhecessem sua voz e aceitassem a ligação. Pegou o fone e segurou no ouvido.
Discou o “0”.
Sem linha.
Pôs o telefone no gancho várias vezes, mas nada aconteceu. Ficou surpreso pela rapidez que a fúria veio. Bateu o telefone, um medo e raiva crescentes expandindo-se como numa cena de combustão acelerada, o fogo em busca da libertação. Flexionou o braço direito e o puxou para trás, com o total propósito de desferir sua força contra o vidro — que se danassem os nós dos dedos —, mas a dor das costelas feridas queimou, fazendo-o se dobrar no chão da cabine telefônica. E então o latejar na base do crânio estava aumentando.
Começou a enxergar dobrado, a vista embaçou e escureceu... * * *
A cabine estava sombreada quando abriu os olhos outra vez. Agarrou-se ao cabo metálico preso à lista telefônica para se levantar. Através do vidro sujo, viu a curva superior do sol escorregando atrás da cordilheira de picos que cercava cada borda da cidade. No instante em que ele sumiu, a temperatura diminuiu cinco graus. Ainda se lembrava de seu número de telefone. Praticou algumas vezes no teclado numérico para ter certeza e verificou o alto-falante novamente para ver se tinha sinal. Silêncio, exceto pelo mais tênue crepitar de um ruído indistinto sangrando pela linha telefônica, que ele não se lembrava de ter ouvido antes.
— Alô? Alô?
Desligou e pegou de novo a lista telefônica. Da primeira vez, ele havia procurado pelos sobrenomes, tateando por alguma palavra que destacasse uma lembrança e incitasse algum sentimento. Agora verificava os primeiros nomes, traçando o dedo pela sequência, tentando ignorar a dor na base do crânio que já estava irradiando para baixo. Na primeira página: nada.
Segunda página: nada.
Terceira: nada.
Chegando ao fim da sexta página, seu dedo parou.
SKOZIE, MACK E JANE
Rua Três, Leste, 403. W. Pines, 83278..........559-0196
Passou os olhos pelas duas últimas páginas. Skozie era o único Mack listado na lista telefônica de Wayward Pines.
Empurrando a porta dobrável de vidro com o ombro, ele saiu da cabine para o início de noite. Com o sol já atrás do círculo de penhascos, a luz desaparecia rápido do céu, e a temperatura começava a cair.
Onde vou dormir esta noite?
Cambaleou pela calçada, parte dele gritando que deveria ir direto para o hospital. Estava passando mal. Desidratado. Faminto. Confuso. Sem um tostão. O corpo todo dolorido. E estava ficando mais difícil respirar com a dor debilitante que dilacerava suas costelas cada vez que seus pulmões inflavam-se contra elas.
Mas algo dentro dele ainda resistia à ideia de ir ao hospital, e, se afastando do centro em direção à residência de Mack Skozie, percebeu o que era. Novamente... medo.
Não sabia por quê. Não fazia sentido. Mas não queria colocar os pés dentro daquele hospital. Não na condição em que estava. Nem nunca.
Era o mais estranho tipo de medo. Não era específico. Era como andar por um bosque à noite, sem saber exatamente o que deveria temer, e com o medo cada vez mais pronunciado justamente por causa de seu mistério.
Duas quadras ao norte o levaram à Rua Três, seu peito se contraindo sem explicação quando ele dobrou a esquina e caminhou pela calçada em direção ao leste, afastando-se do centro.
A primeira caixa de correio pela qual passou tinha o número “201” impresso na lateral. Supôs que a residência de Skozie estivesse apenas a duas quadras de distância. Crianças brincavam no gramado de um quintal logo adiante, correndo em volta do sistema de irrigação, cada uma à sua vez. Tentou caminhar ereto e com passos firmes ao alcançar a cerca de madeira daquela casa, mas não conseguiu evitar favorecer seu lado direito, para aliviar o desconforto nas costelas.
As crianças ficaram imóveis e quietas quando ele se aproximou e com olhos despudorados o observaram passar, uma mistura de curiosidade e desconfiança que o deixou apreensivo. Atravessou outra rua, andando ainda mais devagar até a próxima quadra, passando sob os galhos de três pinheiros enormes que encobriam a via. O número de todas as casas vitorianas coloridas daquela quadra começava com um três. A de Skozie seria a próxima.
Suas palmas estavam começando a suar e o pulsar na parte de trás da cabeça parecia um tum-tum-tum de um bumbo enterrado fundo no solo. Dois segundos de visão dupla.
Fechou os olhos e os apertou com força. Quando os abriu novamente, tinha passado. No próximo cruzamento, ele parou. Sua boca já estava seca antes, mas agora parecia muito pior. Esforçava-se para respirar, a bile ameaçando subir pela garganta. Tudo isso vai fazer sentido quando você vir a cara dele. Tem que fazer.
Experimentou dar um passo na rua.
Já era noite, o frio se desprendendo daquelas montanhas e caindo sobre o vale. A luz do sol poente havia dado um tom róseo às montanhas que circundavam Wayward Pines, o mesmo tom do céu que escurecia. Tentou considerar a vista bonita e comovente, mas sua agonia não deixava.
Um casal de pessoas mais velhas se afastava dele, caminhando tranquilos de mãos dadas. Sem contar os dois, a rua estava vazia e silenciosa, e o som do centro havia desaparecido por completo.
Andou pelo asfalto preto liso e subiu na calçada. A caixa de correio do número 401 estava logo à frente. A 403 era a próxima.
Teria que manter os olhos constantemente semicerrados para aliviar a visão dupla e o latejar perfurante da enxaqueca.
Quinze passos dolorosos e estava diante da caixa de correio preta do número 403.
SKOZIE
Equilibrou-se segurando firme nas pontas agudas da cerca de madeira. Esticando o braço, destravou o portão e o empurrou com a ponta do sapato preto e arranhado. As dobradiças rangeram quando abriu.
O portão bateu de leve contra a cerca.
O caminho pavimentado era um mosaico de ladrilhos antigos e levava até a varanda frontal coberta, onde havia duas cadeiras de balanço separadas por uma pequena mesa de ferro forjado. A casa propriamente dita era roxa com contornos verdes e, pelas finas cortinas, ele podia ver luz do lado de dentro.
Apenas vá. Você precisa saber.
Foi andando em falso até a casa.
A visão dobrada oscilava em lampejos nauseantes que ele se esforçava cada vez mais para conter.
Subiu até a varanda e encontrou apoio bem a tempo de impedir uma queda, segurando-se contra o batente da porta. Suas mãos tremiam incontroláveis quando pegou a aldrava e a levantou da placa de latão.
Recusava dar a si mesmo um segundo que fosse para reconsiderar. Bateu a aldrava quatro vezes na placa.
Era como se alguém estivesse socando a parte de trás de sua cabeça a cada quatro segundos, e manchas de escuridão flamejantes começavam a atrapalhar sua visão como se fossem pequenos buracos negros.
Do outro lado da porta, ele podia ouvir um assoalho de madeira rangendo sob o peso de passos que se aproximavam.
Seus joelhos pareceram se liquefazer.
Agarrou-se a um dos pilares que sustentavam o teto da varanda para se equilibrar. A porta de madeira se abriu, e um homem que poderia ter a idade de seu pai o encarou através da porta externa, vazada. Era alto e magro, com uma notável cabeleira branca no topo da cabeça, um cavanhaque branco e vasinhos vermelhos microscópicos nas bochechas que sugeriam uma vida de consumo excessivo de álcool. — Posso ajudá-lo? — perguntou o homem.
Ethan endireitou a coluna, piscando forte por entre a enxaqueca. Foram necessárias todas as suas forças para ficar de pé sem apoio.
— Você é Mack? — podia ouvir medo na própria voz e supôs que o homem também. Odiava-se por aquilo.
O homem mais velho inclinou-se na parte vazada da porta para uma melhor visão do estranho em sua varanda.
— O que posso fazer por você?
— Você é Mack?
— Sim.
Aproximou-se mais, o homem mais velho entrando num foco mais preciso, a acidez doce de vinho tinto no hálito.
— Você me conhece? — perguntou.
— Perdão?
E logo o medo estava fermentando e se transformando em fúria. — Você. Me. Conhece? Você fez isso comigo?
O velho respondeu:
— Nunca o vi antes na minha vida.
— É verdade? — suas mãos estavam se transformando involuntariamente em punhos cerrados. — Existe outro Mack nesta cidade?
— Não que eu saiba — e Mack abriu a porta externa e arriscou um passo na varanda. — Amigo, você não parece muito bem.
— Não me sinto muito bem.
— O que aconteceu com você?
— Diga-me você, Mack.
Uma voz feminina chamou de algum lugar dentro da casa: — Querido? Está tudo bem?
— Sim, Madge, tudo bem! — Mack o encarava. — Por que não me deixa levá-lo ao hospital? Você está ferido. Precisa de...
— Não vou a lugar nenhum com você.
— Então por que está na minha casa? — um traço rude havia penetrado a voz de Mack. — Apenas me ofereci para ajudá-lo. Se não quer, tudo bem, mas... Mack ainda estava falando, mas suas palavras começaram a se dissolver, submersas por um ruído crescendo na boca do estômago de Ethan como o rugido de um trem de carga avançando em alta velocidade em sua direção. Os pontos negros estavam se multiplicando, o mundo começava a girar. Ele simplesmente não ia conseguir ficar de pé nem por mais cinco segundos se sua cabeça não explodisse antes.
Ergueu os olhos para Mack, a boca do homem ainda se movendo, o trem de carga chegando mais perto com um barulho ensurdecedor, seu ritmo sincronizado com o latejar brutal na cabeça; ele não conseguia tirar os olhos da boca de Mack, os dentes do velho — suas sinapses ligando, tentando se conectar, e o barulho, Deus, o barulho e o latejar... Não sentiu os joelhos cederem.
Sequer registrou o corpo tombando para trás.
Um segundo e ele estava na varanda.
No próximo, no gramado.
Estirado de costas, a cabeça girando pela batida forte no chão. Mack agora pairando sobre ele, observando-o com atenção, inclinado com as mãos sobre os joelhos e suas palavras totalmente perdidas para o trem que berrava dentro da cabeça de Ethan.
Estava prestes a perder a consciência — podia sentir aquilo chegando, a segundos de distância — e queria, queria que a dor parasse, mas... As respostas.
Elas estavam logo ali.
Tão perto.
Não fazia sentido, mas havia algo na boca de Mack. Seus dentes. Não conseguia parar de olhar para seus dentes, e não sabia por que, mas estava tudo ali. Uma explicação.
Respostas para tudo.
E lhe ocorreu... parar de lutar.
Parar de querer tanto.
Desistir de pensar.
Apenas deixar vir.
Os dentes osdentes osdentesosdentes osdentesdentesdentesdentes... Não eram dentes.
Eram uma grade brilhante e reluzente com as letras “MACK” estampadas na frente. Stallings, o homem ao seu lado no banco do passageiro não vê o que se aproxima. No carro, na viagem de três horas saindo de Boise rumo ao norte, tornou-se aparente que Stallings adora o som da própria voz, e está fazendo o que fez durante todo o tempo: falando. Parou de ouvir uma hora antes, quando descobriu que podia se desligar completamente contanto que interviesse, a cada cinco minutos mais ou menos, com um “Não tinha pensado por esse lado” ou “Hum, interessante”. Virou-se apenas para fazer uma módica contribuição à conversa quando leu a palavra MACK alguns metros adiante, do outro lado da janela de Stallings. Sequer tinha começado a reagir — mal leu a palavra — quando a janela ao lado da cabeça de Stallings explodiu numa chuva de estilhaços. O airbag infla do painel, mas uma fração de segundo atrasado, errando sua cabeça por pouco, que bate na janela com força suficiente para atravessá-la com a pancada. A lateral direita do Lincoln Town Car amassa num apocalipse de vidro quebrado e metal retorcido, e a cabeça de Stallings é atingida em cheio pela grade do para-choque do caminhão.
Ethan pode sentir o calor do motor do caminhão invadir o carro. O fedor repentino de gasolina e fluido de freio. Sangue por toda parte — escorrendo por dentro do para-brisa quebrado, espirrado no painel, em seus olhos, ainda irrompendo do que sobrou de Stallings. O Town Car está deslizando de lado pelo cruzamento, arrastado pelo caminhão, na direção daquele edifício de pedras marrons com a cabine telefônica próxima ao beco, quando ele perde a consciência.