Pines

Blake Crouch · Capítulo 7 de 20

Páginas do PDF

Pines

Capítulo 7

— Ethan, preciso que você relaxe. Está me ouvindo? Pare de lutar. Pela neblina, Ethan reconheceu a voz — o psiquiatra. Lutou para abrir os olhos, mas o esforço apenas produziu fendas de luz. Jenkins o espiava através dos óculos de armação aramada, e Ethan tentou movimentar os braços outra vez, mas ou estavam quebrados, ou presos. — Seus pulsos foram algemados às laterais da cama — Jenkins esclareceu. — Ordens do xerife. Não se assuste, mas você está tendo um episódio severo de fuga dissociativa. Ethan abriu a boca; sentiu no mesmo instante a secura da língua e dos lábios como se tivessem sido queimados pelo calor do deserto.

— O que isso significa? — Ethan perguntou.

— Significa que você está tendo um colapso de memória, de consciência, até de identidade. A real preocupação aqui é que isso foi disparado pelo acidente de carro, e você está tendo esses sintomas porque seu cérebro está sangrando. Estão se preparando para levá-lo para a cirurgia. Entende o que eu estou lhe dizendo?

— Eu não autorizo — Ethan respondeu.

— Perdão?

— Não autorizo a cirurgia. Quero ser transportado para um hospital em Boise. — É arriscado demais. Você pode morrer antes de chegar lá. — Quero sair desta cidade imediatamente.

Jenkins desapareceu.

Uma luz ofuscante vinda de cima foi trazida até o rosto de Ethan. Ouviu a voz de Jenkins:

— Enfermeira, acalme-o, por favor.

— Isso?

— Não, aquilo.

— Não sou louco — Ethan disse.

Sentiu Jenkins dar um tapinha em sua mão.

— Ninguém está dizendo que você é. A questão é apenas que a sua mente está danificada, e precisamos consertá-la.

A enfermeira Pam inclinou-se e apareceu no campo de visão de Ethan. Linda, sorridente, algo reconfortante em sua presença; talvez fosse apenas uma postura amigável mecânica, profissional, mas Ethan se agarrou a ela mesmo assim. — Minha nossa, Sr. Burke, o senhor está com uma aparência péssima. Vamos ver se consigo deixá-lo pelo menos um pouco mais confortável, tudo bem? A agulha era colossal, a maior que Ethan já tinha visto, sua ponta pingando gotas prateadas de seja lá qual fosse a droga que a seringa continha. — O que tem aí? — perguntou.

— Apenas uma coisinha para acalmar esses seus nervos irritadiços. — Não quero isso.

— Agora, não se mexa.

Ela deu batidinhas na veia cefálica, na parte interna de seu braço direito, Ethan ficando tão rígido contra as algemas de aço que conseguia sentir os dedos amortecendo.

— Eu não quero isso.

A enfermeira Pam ergueu os olhos e chegou tão perto do rosto de Ethan que ele podia ver os cílios dela roçando nos seus quando piscava. Sentiu o cheiro do batom e, tão de perto, ele podia ver a claridade esmeralda pura de seus olhos. — Não se mexa, Sr. Burke — sorriu —, ou vou enfiar essa maldita agulha até o osso. As palavras o deixaram gelado, Ethan se contorcendo ainda mais, a corrente das algemas raspando forte contra a proteção da cama.

— Não me toque — ele disse entre dentes.

— Ah, então quer brincar desse jeito? — a enfermeira perguntou. — Tudo bem. — O sorriso nunca desaparecendo, ela mudou a pegada na seringa, agora empunhada como uma faca, e antes que Ethan percebesse sua intenção, ela o apunhalou na lateral do glúteo, a agulha enterrada até a seringa.

Dor penetrante se prolongando enquanto a enfermeira caminhava de volta pelo quarto até o psiquiatra.

— Você não pegou uma veia? — Jenkins perguntou. — Ele estava se mexendo demais.

— E então, quanto tempo até perder a consciência? — Quinze no máximo. Estão prontos para ele no centro cirúrgico? — Estão, pode levar — Jenkins dirigiu o último comentário a Ethan enquanto ia de costas até a porta. — Volto para dar uma olhada em você depois que terminarem o seu corte e cole. Boa sorte, Ethan. Vamos deixar você certinho.

— Não autorizo — Ethan disse com tanta força quanto conseguiu conjurar, mas Jenkins já estava fora do quarto.

Pelos olhos inchados, ele seguiu o movimento da enfermeira Pam até a cabeceira da maca. Ela agarrou o puxador e o leito começou a se movimentar, uma das rodas da frente rangendo ao oscilar pelo linóleo.

— Por que não estão respeitando meus desejos? — Ethan perguntou, lutando para controlar a voz, tentando uma abordagem mais branda.

Ela não respondeu, apenas continuou a conduzir a maca saindo do quarto e pegando o corredor, que estava vazio e silencioso como sempre. Ethan levantou a cabeça, viu o posto de enfermagem se aproximando. Todas as portas pelas quais passavam estavam fechadas, nenhum retalho de luz emanando por debaixo delas.

— Não tem mais ninguém nesse piso, tem? — Ethan perguntou. A enfermeira assobiou um tom no ritmo da roda que rangia. — Por que estão fazendo isso comigo? — perguntou. E havia uma nota de desespero em sua voz que não era ensaiada, que jorrava diretamente da fonte de terror, que ficava cada vez maior, instante a instante, na boca de seu estômago. Ele a encarou — um ângulo estranho de sua posição deitada na maca, que mostrava a parte de baixo do queixo dela, seus lábios, seu nariz, os painéis do forro no teto e as lâmpadas fluorescentes compridas passando acima ele.

— Pam — ele disse. — Por favor. Fale comigo. Diga o que está acontecendo. Ela sequer baixou os olhos.

Do outro lado do posto de enfermagem, ela soltou a maca, deixou-a rolar até parar e caminhou na direção das portas duplas, no término do corredor. Ethan notou a sinalização acima deles.

CIRÚRGICO.

Uma das portas se abriu e um homem saiu de dentro vestindo roupas cirúrgicas azuis, as mãos já cobertas por luvas de látex.

Uma máscara escondia tudo, exceto um par de olhos calmos e intensos que combinava quase perfeitamente com a cor do traje.

Ele perguntou para a enfermeira numa voz macia, baixa: — Ele ainda está acordado?

— Estava lutando demais. Não consegui acertar uma veia. O cirurgião lançou um olhar rápido para Ethan. — Tudo bem, deixe-o aqui até ele ficar inconsciente. Quanto tempo mais você acha? — Dez minutos.

Ele fez um aceno curto de cabeça e então voltou para o centro cirúrgico, abrindo caminho entre as portas ao empurrar forte com os ombros, sua linguagem corporal agressiva, raivosa. — Ei! — Ethan o chamou. — Quero falar com você! Nos vários segundos em que a porta esteve aberta, Ethan vislumbrou o centro cirúrgico… Uma mesa operatória no centro de uma sala, flanqueada por grandes luzes muito claras. Ao lado, um carrinho metálico de rodízios sustentando uma travessa de aparatos cirúrgicos. Tudo organizado, limpo e brilhante em tecido esterilizado. Bisturis de todos os tamanhos.

Serras para ossos.

Fórceps.

Instrumentos que Ethan não conseguia nomear, mas que pareciam ferramentas elétricas. Um segundo depois das portas vaivém se fecharem de novo, Ethan viu o cirurgião parar ao lado do carrinho e tirar uma furadeira do invólucro. Olhou para Ethan ao acionar o gatilho várias vezes, o ruído agudo do motor preenchendo a sala de cirurgia.

O peito de Ethan arfava sob o avental hospitalar e ele podia sentir a batida grave de seu pulso acelerando. Olhou de volta para o posto de enfermagem, vislumbrou Pam desaparecendo ao dobrar o corredor.

Por um momento, ficou sozinho ali.

Nenhum som, exceto o tilintar de bisturis e equipamentos cirúrgicos do outro lado daquelas portas duplas. O sapateado da enfermeira ficando mais distante. O zumbido da lâmpada fluorescente logo acima dele. Um pensamento desvairado: e se ele fosse, de fato, maluco? E se o cirurgião naquela sala o abrisse e realmente o curasse? Tudo isso desapareceria? Ele perderia a identidade? Iria se tornar outro homem num mundo em que sua esposa e filho não existiam? Conseguiu se sentar.

Sua cabeça confusa, pesada, mas aquilo poderia ser produto do espancamento capitaneado pelo xerife Pope.

Ethan olhou para seus punhos, os dois algemados à proteção lateral da maca. Puxou os braços, as correntes se retesando, suas mãos ficando roxas. Dor excruciante.

Aliviou a tensão e em seguida puxou com tanta força que as bordas de aço das algemas cravaram nos pulsos. No da esquerda, feriu a pele, sangue vazando no lençol. As pernas estavam soltas.

Jogou a direita sobre a lateral da maca, esticando-se para alcançar a parede, mas faltaram alguns centímetros.

Ethan se deitou novamente, fazendo, pela primeira vez, uma imagem fria, dura, de como estava realmente danado: drogado, acorrentado e prestes a ser carregado para uma sala de cirurgia onde fariam sabe-se lá Deus o que com ele.

Tinha que admitir que da última vez que tinha acordado no hospital e falado com o Dr. Jenkins, havia duvidado um pouco de si mesmo, questionando-se, temendo que talvez tivesse sofrido algum dano de efeitos neurológicos.

Que distorcesse sua percepção de pessoas, tempo e espaço. Pois nada em Wayward Pines fazia sentido.

Mas naqueles últimos momentos — o comportamento sociopata da enfermeira Pam, a recusa em atender sua objeção à cirurgia — haviam confirmado: não havia nada de errado com ele; nada além do fato de que as pessoas naquela cidade queriam lhe fazer mal. Já tinha vivenciado medo o suficiente, saudades de casa e impotência desde que chegara a Wayward Pines, mas agora havia chegado ao fundo do poço do completo desespero. Até onde podia supor, a morte esperava por ele do outro lado daquelas portas. Nunca veria Theresa outra vez. Nunca veria o filho. Apenas tal possibilidade era o suficiente para trazer lágrimas aos seus olhos, pois havia falhado com sua família. Falhado com a esposa e com o filho em vários aspectos. Sua ausência física. Sua ausência emocional.

Só havia resvalado aquele nível de terror e arrependimento uma outra vez na vida: Aashif e a favela de Golan.

Lingchi.

Agora o medo estava finalmente começando a consumi-lo, a amortecer suas habilidades de processar informação e reagir de forma adequada. Ou talvez fosse a droga finalmente alcançando a corrente sanguínea, chegando ao cérebro, tomando controle.

Pensando, Deus, aguente firme. Devo manter o controle. Ouviu o ruído estridente das portas do elevador se abrindo a três metros de distância, seguido pela aproximação de passos leves e rápidos.

Ethan tentou virar o pescoço para ver quem vinha, mas, quando conseguiu, a maca entrou rapidamente em movimento, alguém o conduzindo de volta ao elevador. Olhou para cima e viu um rosto bonito, conhecido, as maçãs do rosto proeminentes acionando seu reconhecimento. No seu atual estado, demorou cinco segundos para classificá-la como a atendente desaparecida do pub.

Ela o empurrou até o elevador, manobrando a maca para fazê-la entrar na cabine. Apertou um dos botões.

Seu rosto estava tenso e pálido, e ela vestia um poncho impermeável azul-marinho que pingava água no chão.

— Anda, anda — ela apertava repetidas vezes o SS iluminado. — Conheço você — Ethan disse, mas ainda não conseguia se lembrar do nome.

— Beverly — ela sorriu, mas foi um sorriso nervoso. — Nunca recebi aquela gorjeta boa que me prometeu. Jesus, você está péssimo.

As portas começaram a se fechar; outro rangido comprido pior que unhas riscando um quadro negro.

— O que está acontecendo comigo? — ele perguntou quando as polias giraram para baixar a cabine.

— Estão tentando acabar com o seu juízo perfeito. — Por quê?

Ela ergueu o poncho e tirou uma chave de algemas do bolso de trás do jeans. Os dedos trêmulos.

Foram necessárias três tentativas para enfim colocar a chave na fechadura. — Por quê? — Ethan perguntou novamente.

— Vamos conversar quando estivermos seguros. A algema abriu com um clique.

Ethan se sentou, pegou a chave da mão dela, começou a abrir a outra. O elevador desceu se arrastando entre o quarto e o terceiro pisos. — Se parar e alguém entrar, nós lutamos. Entendeu? — ela perguntou. Ethan assentiu.

— Não importa o que aconteça, você não pode deixar que o levem de volta para aquele centro cirúrgico.

A segunda algema abriu e Ethan desceu da maca. Sentiu-se razoavelmente estável sobre os pés, nem sinal do efeito da droga. — Vai conseguir correr?

— Eles acabaram de me drogar. Não vou conseguir andar muito. — Merda.

Um sino tilintou sobre as portas do elevador.

Terceiro piso.

Continuou descendo.

— Quando? — Beverly perguntou.

— Há cinco minutos. Mas foi uma injeção intramuscular, não intravenosa. — Qual foi a droga?

— Não sei, mas eu os ouvi dizer que eu estaria inconsciente dentro de dez minutos. Bem… está mais para oito ou nove agora.

O elevador chegou ao térreo, ainda descendo. Beverly disse: — Quando as portas se abrirem, vamos pegar a esquerda, até o final do corredor. Há uma porta lá na frente que vai nos colocar na rua.

O elevador parou com um tremor.

Por um longo momento, as portas não se moveram. Ethan ficou na ponta dos pés, pronto para explodir para o corredor se houvesse pessoas esperando por eles, adrenalina fluindo por seu sistema com aquele alerta eletrificado que ele sempre sentia logo antes de uma missão, quando os rotores começavam a girar. As portas se partiram dois centímetros, pararam por dez segundos e então rangeram devagar pelo resto do caminho.

— Espere — Beverly sussurrou. Deu um passo sobre o limiar da porta e espiou. — Está limpo.

Ethan a seguiu por um longo corredor vazio.

O linóleo quadriculado percorria pelo menos quarenta e cinco metros até as portas na outra extremidade, e tudo estava impecável e brilhando de leve sob a dura luz fluorescente. Uma porta que bateu à distância os fez parar onde estavam. Passos se tornaram audíveis, embora fosse impossível determinar quantas pessoas vinham. — Estão descendo as escadas — Beverly sussurrou. — Venha. Ela deu meia-volta e correu na direção oposta, Ethan atrás, tentando amortecer o barulho dos pés descalços no linóleo e grunhindo com a agonia dissonante do que ele só poderia supor que fossem costelas lesionadas.

Chegaram a um posto de enfermagem vazio quando uma porta atrás deles, em algum lugar na extremidade do corredor, se escancarou.

Beverly acelerou, virando e disparando por um dos corredores perpendiculares, Ethan lutando para acompanhar, aventurando-se a um olhar rápido sobre o ombro enquanto corria, mas estava virando em outra intersecção rápido demais para ver alguma coisa. A ala estava vazia e tinha a metade do tamanho da anterior. No meio do caminho, Beverly parou e abriu uma porta à esquerda. Tentou colocar Ethan para dentro, mas, em vez disso, ele sacudiu a cabeça, inclinou-se e sussurrou no ouvido dela.

Beverly assentiu e correu para o quarto, puxando a porta para fechá-la atrás de si. Ethan andou até a porta do lado oposto.

A maçaneta girou. Ele deslizou para dentro.

Estava vazio, envolto em escuridão e, pela pequena luz vazando do corredor, parecia ter a mesma disposição de onde eles o haviam mantido no quarto andar. Fechou a porta com o máximo silêncio que conseguiu e entrou no banheiro. Tateou no escuro até seu dedo encontrar um interruptor. Acendeu a luz.

Havia uma toalha de mão pendurada de um suporte ao lado do chuveiro. Ele a pegou, enrolou na mão, olhou no espelho.

Puxou o braço para trás.

Você tem trinta segundos, talvez menos.

Mas seu reflexo o fez parar no meio do caminho. Meu Deus. Ele sabia que estava mal, mas Pope o havia espancado com gosto: seu lábio superior com o dobro do tamanho, seu nariz gigante e ferido como um morango podre, um corte na lateral da bochecha direita com o que parecia ter sido vinte pontos, e seus olhos… Um milagre que ele ainda conseguisse enxergar. Estavam pretos, roxos e encasulados em dobras de pele inchadas como se estivesse no auge de uma reação alérgica quase fatal. Não havia tempo para sofrer com aquilo.

Socou a parte inferior direita do espelho e segurou seu punho envolto na toalha contra o vidro quebrado para que não caísse tudo de uma vez. Acertou um soco perfeito: dano mínimo, cacos grandes. Pegou os pedaços depressa com a mão livre, colocou-os na pia e escolheu o maior entre eles. Em seguida desenrolou a mão direita, apagou a luz e foi tateando pelo caminho para voltar ao quarto.

Não havia nada para ver, exceto uma fresta de luz da largura de uma lâmina embaixo da porta. Chegando mais perto, ele encostou a orelha.

O som era baixo, dava para ouvir o ruído distante de portas abrindo e fechando. Haviam verificado cada quarto, e as batidas pareciam vir de tão longe que Ethan supôs que ainda estivessem no corredor principal.

Esperava não estar enganado.

Perguntou-se se as portas do elevador ainda estavam abertas. Se vissem a cabine parada ali, sem dúvida suspeitariam que ele havia fugido pelo subsolo. Ele e Beverly deviam ter mandado o elevador de volta para o quarto andar, mas já não havia mais como consertar esse descuido.

Baixando a mão, ele encontrou a maçaneta e a agarrou. Ao girá-la devagar, tentou estabilizar a respiração, pôr seus batimentos cardíacos de volta numa frequência que não o fizesse se sentir a ponto de desmaiar. Quando a lingueta da fechadura se recolheu inteira, Ethan deu o mais delicado dos empurrões. A porta abriu cinco centímetros, as dobradiças num silêncio misericordioso. Um triângulo comprido de luz caiu no linóleo xadrez sob seus pés descalços. O som de portas batendo estava mais alto.

Segurou o caco do espelho e o posicionou entre a porta aberta e o batente, avançando centímetro a centímetro, milímetro a milímetro, até que mostrasse o reflexo do corredor. Vazio.

Outra porta se fechou.

Entre as batidas, havia o impacto de sapatos com solado de borracha no chão e nada mais. Uma das luzes fluorescentes próximas estava falhando, piscando de forma intermitente e jogando o corredor em estados alternados de luz e escuridão. A sombra precedeu a pessoa — um escurecer tênue através do piso, na vizinhança do posto de enfermagem — e então a enfermeira Pam entrou caminhando em seu campo de visão. Parou na intersecção dos corredores e ficou absolutamente imóvel, segurando alguma coisa em sua mão direita que Ethan não conseguia identificar à distância, embora uma das pontas refletisse raios de luz.

Trinta segundos se passaram, e então ela se virou e pegou o corredor de Ethan, caminhando com cuidado, com propósito, a passos curtos, controlados, e seu sorriso parecia largo demais para caber no rosto.

Depois de vários passos, ela parou, aproximou as pernas e se ajoelhou para observar algo no linóleo. Com a mão livre, passou o dedo sobre o chão e o ergueu; Ethan percebeu o que era com uma descarga de ansiedade, notou como a enfermeira havia escolhido qual corredor seguir.

Água do poncho impermeável de Beverly.

E ela conduziria a enfermeira diretamente para a porta do outro lado do corredor. Até Beverly. A enfermeira Pam se levantou.

Devagar, ela começou a caminhar, analisando o linóleo conforme cruzava cada placa. Ethan viu que o objeto em sua mão era uma seringa com uma agulha. — Sr. Burke?

Não esperava que ela falasse, e o som de sua voz aguda, maligna, ecoando pelos corredores vazios do hospital causaram um arrepio gelado na base de sua coluna.

— Sei que o senhor está perto. Sei que pode me ouvir. Estava chegando perto demais para Ethan ficar à vontade. Ele temia que a qualquer segundo ela visse o espelho em sua mão.

Ethan puxou o caco de espelho de volta para dentro do quarto e puxou a porta com ainda mais cuidado e precisão, até fechar.

— Já que o senhor é meu paciente favorito — a enfermeira continuou —, vou fazer uma proposta especial.

Ethan notou algo na base de seu crânio: um calor começando a se esticar e descer pela espinha, pelos ossos dos braços e das pernas, pontadas de calor irradiando da ponta de seus dedos das mãos e dos pés.

Também conseguia senti-la atrás dos olhos.

A droga estava começando a fazer efeito.

— Seja bonzinho, saia imediatamente e eu lhe darei um presente. Ele não conseguia ouvir os passos dela, mas sua voz ficava progressivamente mais alta quanto mais ela se aprofundava no corredor.

— O presente, Sr. Burke, é anestesia para sua cirurgia. Espero que entenda que, se ainda não fez efeito, o medicamento que administrei no senhor há dez minutos vai deixá-lo inconsciente a qualquer momento. E se eu tiver que passar uma hora vasculhando cada quarto até encontrá-lo, isso vai me deixar muito, muito zangada. E o senhor não vai querer me ver muito, muito zangada, porque sabe o que vai acontecer? Quando eu finalmente o encontrar, não vamos conduzi-lo direto para a cirurgia. Vamos antes deixar a droga que está no seu organismo perder o efeito. O senhor vai acordar na mesa de operação. Sem correias, sem algemas; porém não vai conseguir se mexer. Isso é porque eu vou ter injetado uma dose monstruosa de Suxametônio, que é uma droga paralisante. O senhor já parou para pensar como é ser operado? Bem, Sr. Burke, o senhor vai ter sua demonstração particular. Pela forma como a voz dela percorria o espaço, Ethan sabia que agora estava parada no meio do corredor, a pouco mais de um metro de distância, do outro lado da porta. — O único movimento que o senhor vai ser capaz de fazer é piscar. Não vai conseguir gritar quando sentir cortarem, serrarem e furarem. Nossos dedos dentro do senhor. A cirurgia vai demorar horas, e o senhor vai estar vivo, acordado e totalmente alerta durante cada segundo de agonia. É coisa de história de terror.

Ethan colocou a mão na maçaneta, o fluxo da droga agora subindo, envolvendo seu cérebro, flutuando para a ponta de suas orelhas. Ele se perguntava quanto mais conseguiria ficar de pé antes que suas pernas cedessem.

Gire-a devagar, Ethan. Gire-a muito, muito devagar. Apertando mais firmemente a maçaneta, esperou que a enfermeira Pam falasse outra vez, e quando ela finalmente o fez ele começou a girar. — Sei que pode ouvir a minha voz, Sr. Burke. Estou parada bem em frente ao quarto onde o senhor está escondido. Está no chuveiro? Debaixo da cama? Talvez parado atrás da porta, esperando que eu passe direto sem o notar?

Ela riu.

A lingueta se recolheu.

Ele acreditava com todas as suas forças que ela estava parada de costas, olhando para o quarto de Beverly, mas e se não estivesse?

— O senhor tem dez segundos para sair, e depois a minha oferta generosa de anestesia vai expirar. Dez…

Ele puxou a porta.

— Nove…

Sete centímetros.

— Oito…

Quinze centímetros.

Ele conseguia ver o corredor novamente, e a primeira coisa que notou foi a massa de cabelos acobreados nas costas da enfermeira Pam.

Ela estava bem diante de seus olhos.

— Sete…

De frente para a porta de Beverly.

— Seis…

A agulha segura como uma faca na mão direita. — Cinco…

Ele continuou puxando a porta, deixando que ela deslizasse em silêncio nas dobradiças. — Quatro…

Parou-a antes que batesse na parede. Agora parado no limiar. — Três…

Olhou atento para o chão querendo se certificar de que não estivesse fazendo sombra, mas, mesmo que estivesse, a luz intermitente a teria mascarado. — Dois, e um e agora estou zangada. Muito, muito zangada — a enfermeira tirou algo de dentro do bolso, disse: — Estou no subsolo, ala oeste, muito certa de que ele está aqui. Vou esperar até vocês chegarem, câmbio.

Um rádio comunicador emitiu estática e uma voz masculina respondeu: — Entendido, a caminho.

A droga agora estava tomando conta de Ethan, seus joelhos fraquejando, sua visão começando a sair dos eixos em explosões borradas e de visão dupla. Mais gente estaria ali logo mais.

Precisava fazer aquilo imediatamente.

Dizendo a si mesmo vá, vá, vá, mas não tinha certeza se ele sequer tinha a força ou a presença de espírito.

Deu vários passos para trás entrando no quarto para aumentar seu espaço de corrida, respirou fundo, demorado, e partiu para cima.

Sete passos percorridos em dois segundos.

Atingiu as costas da enfermeira a toda velocidade, empurrando-a em direção ao lado oposto do corredor, chocando-a, o rosto primeiro, contra a parede de concreto. Foi uma pancada forte, devastadora, que a pegou totalmente desprevenida, por isso a velocidade e a precisão de seu reflexo o surpreenderam, o braço se movendo para trás, enterrando a agulha pela lateral.

Dor profunda, penetrante, cegante.

Cambaleou para trás, oscilando, instável sobre os pés. A enfermeira girou, sangue cobrindo o lado direito de seu rosto onde havia beijado o concreto, recuando o braço da agulha, avançando sobre ele.

Ethan poderia ter se defendido se tivesse conseguido enxergar um palmo diante dos olhos, mas sua vista estava piorando, desenhando imagens no seu campo de visão como um delírio de ecstasy.

Ela investiu e ele tentou se esquivar, mas julgou mal a distância, a agulha furando-o no ombro esquerdo.

A dor de quando a seringa foi arrancada de volta quase o colocou de joelhos. A enfermeira o atingiu com um chute frontal perfeito no plexo solar, e a força absurda por trás dele jogou Ethan de encontro à parede e arrancou o ar de seus pulmões. Nunca havia batido numa mulher em sua vida, mas quando Pam partiu para cima outra vez ele não conseguiu evitar o pensamento de que seria muito prazeroso juntar seu cotovelo direito ao maxilar da vagabunda.

Seus olhos se fixaram na agulha na mão dela. Pensando, Chega disso, por favor, Deus. Ergueu os braços para defender o rosto, mas pareciam rochedos. Lentos e esquisitos.

A enfermeira disse:

— Aposto que o senhor está desejando que apenas tivesse saído quando eu pedi com educação, não é?

Ele investiu à meia-velocidade com um gancho muito aberto, do qual ela facilmente se esquivou, revidando com um soco rápido como um raio, que quebrou o nariz dele novamente. — Quer a agulha outra vez? — ela perguntou, e ele teria avançado, tentado jogá-la no chão, prendê-la com o peso de seu corpo, mas a proximidade, considerando a agulha e seus sentidos ficando mais imprecisos, parecia uma má ideia. Pam deu risada. Disse:

— Posso perceber o senhor apagando. Sabe, isso na verdade é meio divertido. Ethan se esforçou para escorregar pela parede, embaralhando os pés para sair do alcance, mas ela previu seu movimento, ficando diante dele e alinhando-se para outro golpe. — Vamos jogar um joguinho — ela disse. — Eu o espeto com a agulha e o senhor tenta me impedir.

Ela investiu, mas não houve dor.

Apenas uma finta: ela estava brincando com ele. — Agora o próximo, Sr. Burke, vai…

Algo acertou a lateral da cabeça dela com um duro tum. Pam atingiu o chão e não se mexeu, Beverly se erguendo sobre ela, a luz frenética piscando contra seu rosto. Ainda segurava a cadeira de metal com cujas pernas tinha derrubado a enfermeira Pam, aparentando estar um pouco mais do que chocada com o que tinha acabado de fazer.

— Mais pessoas estão vindo — Ethan anunciou. — Consegue andar?

— Veremos.

Beverly jogou a cadeira de lado e foi até Ethan enquanto o objeto caía com um clangor no assoalho de linóleo.

— Segure-se em mim caso perca o equilíbrio.

— Já perdi.

Ele se agarrou ao braço de Beverly enquanto ela o puxava pelo corredor, e alcançaram o posto de enfermagem. Ethan lutava apenas para colocar um pé na frente do outro. Lançou um olhar para trás quando viraram em outro corredor e viu a enfermeira Pam tentando se sentar com dificuldade.

— Mais rápido — Beverly pediu.

O corredor principal ainda estava vazio e agora trotavam. Duas vezes Ethan tropeçou, mas Beverly o segurou e o manteve de pé. Seus olhos estavam ficando mais pesados, a sedação caindo sobre ele como um cobertor quente, molhado, e tudo o que queria era encontrar algum nicho tranquilo onde pudesse se enrodilhar e dormir até a sensação passar.

— Ainda está comigo? — Beverly perguntou.

— Por um fio.

A porta no fim do corredor assomava-se a uns quinze metros. Beverly apressou o passo.

— Vamos — disse. — Consigo ouvi-los descendo pela escada. Ethan também ouvia: uma mixórdia de vozes e numerosos passos atrás de uma porta diante da qual passaram, a que conduzia ao lance de escadas. Beverly abriu a porta no fim do corredor com um empurrão e arrastou Ethan pelo limiar até uma escadaria apertada, cujos seis degraus levavam a mais uma porta no topo, sobre a qual brilhava a sinalização vermelha SAÍDA.

Beverly parou quando a atravessaram e a deixou fechar suavemente atrás deles. Do outro lado, Ethan conseguia ouvir vozes preenchendo o corredor, como se os passos estivessem se afastando deles, mas não conseguia ter certeza. — Eles nos viram? — perguntou.

— Não sei.

Ethan precisou de todo seu foco para subir aqueles últimos degraus até a saída, por onde correram às pressas e cambalearam para a escuridão, os pés de Ethan molhados na calçada e o tamborilar da chuva fria em seus ombros já começando a encharcar o tecido fino como papel de sua camisola.

Mal conseguia ficar de pé e Beverly já estava puxando-o em direção à calçada. — Aonde estamos indo? — Ethan perguntou.

— Para o único lugar onde sei que eles não podem encontrá-lo. Ele a seguiu pela rua escura.

Nenhum carro na rua, apenas um punhado de luzes dos postes da rua e das casas, tudo turvo e obscuro por causa da chuva.

Pegaram a calçada em uma rua tranquila e, depois do segundo quarteirão, Ethan parou e tentou sentar na grama, mas Beverly não deixaria que ele desistisse. — Ainda não — ela disse.

— Não consigo ir adiante. Mal posso sentir minhas pernas. — Mais um quarteirão, está bem? Você consegue. Tem que conseguir se quiser viver. Prometo que em cinco minutos vai poder se deitar e deixar isso passar. Ethan se levantou e foi em frente aos trancos e barrancos, seguindo Beverly por mais um quarteirão, além do qual a luz das casas e ruas terminava. Entraram num cemitério repleto de lápides caindo aos pedaços, entremeadas por carvalhos e pinheiros. Não via manutenção há eras, mato e ervas daninhas chegando à cintura de Ethan.

— Aonde você está me levando? — Suas palavras se arrastavam, pareciam pesadas e estranhas caindo de sua boca.

— Logo adiante.

Serpentearam por lápides e monumentos, a maioria tão erodida que Ethan não conseguia discernir o que estava gravado na pedra.

Sentia frio, sua camisola encharcada inteira, seus pés enlameados. — Ali está — Beverly apontou um pequeno mausoléu de pedra, em meio a um bosque de choupos. Ethan se esforçou pelos últimos seis metros, e então desabou na entrada, entre um par de floreiras de pedra que haviam se desintegrado em forma de cascalho. Foram necessários três empurrões com o ombro para que Beverly forçasse a abertura da porta de ferro, as dobradiças rangendo alto o bastante para despertar os mortos. — Preciso de você lá dentro — ela disse. — Vamos, está quase lá. Mais um metro. Ethan abriu os olhos, arrastou-se pelos degraus e cruzou uma porta estreita, saindo da chuva. Beverly fechou a porta com um puxão depois de entrarem e, por um momento, a escuridão dentro da cripta era total.

Uma lanterna foi ligada, o feixe de luz margeando o interior e acendendo a cor do vitral incrustado na parede dos fundos.

A imagem: raios de luz perfurando nuvens e iluminando uma única árvore flutuante. Ethan desabou no chão de pedra congelante enquanto Beverly abria o zíper de uma mochila cilíndrica alojada num dos cantos.

Tirou um cobertor de dentro, desdobrou-o, jogou sobre Ethan. — Também tenho roupas para você — ela disse —, mas pode vesti-las quando acordar. Ele tremia violentamente, lutando contra o recuo da consciência, pois havia coisas que queria perguntar, que precisava saber. Não queria arriscar que Beverly não estivesse lá quando ele acordasse outra vez.

— O que é Wayward Pines? — perguntou.

Beverly sentou-se perto dele, respondeu:

— Quando acordar, eu…

— Não, me diga agora. Nos últimos dois dias, eu vi coisas que eram impossíveis. Coisas que me fizeram duvidar da minha sanidade.

— Você não é louco. Eles só estão tentando fazer você pensar que é. — Por quê?

— Isso eu não sei.

Ele se perguntava se podia acreditar nela, supunha que, levando tudo em consideração, provavelmente era sensato ficar do lado cético. — Você salvou minha vida — ele disse — e eu agradeço por isso. Mas preciso perguntar… por que, Beverly? Por que você é minha única amiga em Wayward Pines? Ela sorriu.

— Porque eu e você queremos a mesma coisa.

— Que coisa?

— Sair.

— Não tem estrada que saia desta cidade, tem? — Não.

— Eu cheguei aqui de carro há vários dias. Então como isso pode ser possível?

— Ethan, apenas deixe que a droga o leve e quando acordar vou lhe contar tudo o que sei e como acho que podemos sair. Feche os olhos.

Ele não queria, mas não conseguia impedir que acontecesse. — Não sou louco — afirmou.

— Sei disso.

Seus tremores começavam a diminuir, o calor de seu corpo criando um bolsão sob o cobertor. — Diga-me uma coisa — ele pediu. — Como você veio parar em Wayward Pines? — Eu era representante da IBM. Vim até aqui para um plantão de vendas, tentando equipar o laboratório de informática da escola local com nossos Tandy 1000s. Mas quando estava chegando à cidade, sofri um acidente. Um caminhão apareceu do nada, atingiu meu carro — sua voz ficando mais suave, mais distante, mais difícil de seguir. — Eles me disseram que eu havia sofrido um ferimento na cabeça e perda de memória, motivo pelo qual minha primeira recordação desta cidade é acordar uma tarde ao lado do rio. Ethan queria dizer que a mesma coisa havia acontecido com ele, mas não conseguia abrir a boca para falar, a droga varrendo seu sistema como uma onda gigantesca, engolindo-o. Ele desmaiaria dentro de um minuto.

— Quando? — perguntou com a voz esganiçada. Ela não o ouviu, precisou inclinar-se bem perto, colocar seu ouvido na boca dele, e foi preciso todo seu esforço para conseguir entender a pergunta. — Quando… você… chegou… aqui? — sussurrou, agarrando-se às palavras dela agora como se fossem um salva-vidas que o manteria na superfície, acordado, mas ainda assim, estava desfalecendo, segundos de consciência ainda restando. Ela disse:

— Nunca vou me esquecer do dia em que cheguei, pois em alguns aspectos foi o dia em que morri. Desde então, nada foi o mesmo. Era uma bela manhã de outono. Céu de um azul profundo. Os choupos amarelando. Era 3 de outubro de 1985. Aliás, na semana que vem é meu aniversário. Vou completar um ano inteiro em Wayward Pines.