Pines

Blake Crouch · Capítulo 19 de 20

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Pines

Epílogo

Ele está sentado na tranquilidade do gabinete da delegacia, as botas sobre a mesa, analisando a estrela de xerife na mão e passando os dedos no relevo de WP no centro, as letras feitas de alguma pedra preta — obsidiana, talvez. Ele veste calças marrons escuras de lona e uma camisa verde-caçador de manga comprida, exatamente como seu predecessor. O tecido parece novo e engomado demais.

Há uma reunião agendada com Pilcher e sua equipe no dia seguinte para se inteirar de todos os detalhes, mas hoje foi um dia sem acontecimentos. E estranho.

Por oito horas, ele ficou sentado na quietude de sua sala, perdido em pensamento, e o telefone o interrompeu apenas uma vez — era Belinda, a recepcionista, na hora do almoço, perguntando se ele gostaria que ela buscasse algo para comer. Ele observa os ponteiros de segundos e minutos tiquetaquearem sobre o doze. São cinco da tarde.

Deslizando as botas de cima do tampo da mesa, ele se levanta e coloca seu chapéu de caubói Stetson; guarda a estrela no bolso. Talvez amanhã ele finalmente consiga prendê-la na camisa. Ou, talvez não.

Como no primeiro dia de qualquer coisa nova, demorou a passar, e ele está contente de vê-lo chegar ao fim.

Olha para os três armários antigos de armas — um olhar libidinoso, fugaz — e deixa o gabinete, pegando o corredor até a recepção.

A mesa de Belinda está coberta de cartas de baralho. — Estou indo — Ethan diz.

A mulher de cabelos brancos baixa um ás de espadas e ergue os olhos com um sorriso caloroso que não contribui com absolutamente nada para transparecer qualquer aspecto de quem ela realmente é.

— Como foi o primeiro dia?

— Bom.

— Tenha uma boa noite, xerife. Nos vemos amanhã. * * *

É um entardecer fresco, claro.

O sol já escorregou para detrás dos paredões das montanhas e um frio áspero se estabelece, algo que poderia anunciar a primeira geada da estação. Ethan caminha pela calçada de um bairro tranquilo. Um velho sentado numa cadeira de balanço em uma varanda coberta cumprimenta, elevando a voz:

— Noite, xerife!

Ethan toca no chapéu.

O homem levanta uma caneca fumegante.

Levanta como num brinde.

Em algum lugar, a uma pequena distância, uma mulher chama: — Matthew! Hora do jantar!

— Ah, mãe! Só mais cinco minutos!

— Não, agora!

Suas vozes ecoam e somem pelo vale.

Na próxima rua, ele passa por um quarteirão inteiro devotado à horta comunitária, dezenas de pessoas trabalhando duro, enchendo cestas grandes com frutas e hortaliças. O aroma de maçãs maduras demais soprando com a brisa. Em todo lugar para onde Ethan olha, luzes estão se acendendo dentro das casas, o ar se tornando fragrante com o cheiro de jantares ficando prontos. Pelas janelas abertas, ele ouve barulhos de talheres nos pratos, conversas indistintas, fornos abrindo, fechando.

Todos por quem passa sorriem e dizem olá.

Como uma pintura de Norman Rockwell ganhando vida. * * *

Ele atravessa a Principal e segue a Rua Seis por várias quadras até chegar ao endereço que Pilcher lhe deu.

É uma casa em estilo vitoriano de três andares, amarelo-canário com contornos brancos, da qual a característica mais proeminente é uma janela em formato de lágrima centralizada logo abaixo da cumeeira do telhado metálico.

Através de uma grande janela no primeiro piso, ele vê uma mulher parada na pia da cozinha, virando uma panela de macarrão fervente num escorredor, uma baforada de fumaça subindo por seu rosto.

Ao observá-la, ele sente uma palpitação de ansiedade no peito. É sua esposa.

Atravessa o caminho de pedra pelo jardim da frente, sobe três degraus de tijolos e então para na varanda.

Bate na porta externa.

Depois de um instante, as luzes se acendem.

Ela abre a porta chorando e olha-o fixo pela tela da porta enquanto passos ruidosos descem por uma escada.

O filho de Ethan caminha atrás dela, coloca as mãos nos ombros da mãe. — Oi, pai.

Não é a voz de um menininho.

— Jesus, você está mais alto do que sua mãe!

Ainda há a porta externa entre eles e, pela tela, Theresa parece ter a mesma aparência, embora seus cabelos loiros estejam mais longos do que ela sempre usou. — Ouvi que eles transformaram você em xerife — Ben diz. — É verdade. — Um momento carregado de emoção, longo, está à espreita. — Theresa. Ela enxuga os olhos com as duas mãos.

— O cheiro está maravilhoso — Ethan diz.

— Estou fazendo espaguete.

— Adoro o seu espaguete.

— Eu sei — a voz dela falha.

— Eles disseram que eu viria?

Ela assente.

— Você está mesmo aqui, Ethan?

— Estou.

— Para ficar, desta vez?

— Nunca mais vou deixar vocês.

— Esperamos tanto tempo — ela precisa continuar enxugando o rosto. — Ben, vá mexer o molho, por favor.

O garoto corre até a cozinha.

— Tudo bem se eu entrar? — Ethan pergunta.

— Perdemos você em Seattle. Depois perdemos você aqui. Eu não aguento. Ele não aguenta. — Theresa, olhe para mim — ela olha para ele. — Nunca mais vou deixar vocês. Ele receia que ela pergunte o que aconteceu. Por que ele não está morto. É uma questão que temia e para a qual tinha se preparado durante todo o dia. Mas a pergunta não vem.

Em vez disso, Theresa abre a porta.

Ele temeu ver dureza no rosto dela, temeu mais do que tudo, mas sob o brilho da luz da varanda, não há mágoa ali. Alguma tristeza. O início de rugas em volta de sua boca, que não existiam antes; em volta daqueles olhos verdes brilhantes que o fulminaram ao longo dos anos. Muitas lágrimas. Mas também amor.

Principalmente amor.

Ela o puxa pelo limiar da porta para seu lar.

A porta externa se fecha.

Dentro da casa, um menino chora.

Um homem não consegue conter as próprias lágrimas. Três pessoas envolvidas num abraço apertado sem previsão de acabar. E do lado de fora, no exato momento em que as lâmpadas da rua acendem, um ruído começa em algum lugar nas sebes que crescem junto da varanda, repetido a intervalos perfeitos, constante como um metrônomo.

É o som de um grilo cricrilando.