Pines
Capítulo 3
Acordou com dor de cabeça e a luz do sol invadindo seu quarto pelas frestas das persianas. Girou de lado, olhou para o relógio.
— Merda.
Meio-dia e vinte e um.
Havia dormido até depois do meio-dia.
Ethan se arrastou para fora da cama e, ao alcançar as calças, enroladas no chão, ouviu alguém batendo na porta. Correção: alguém que estava batendo na porta havia um bom tempo e pela primeira vez ele percebia que a batida distante não estava apenas confinada dentro de sua cabeça.
— Sr. Burke! Sr. Burke!
Lisa, a recepcionista do hotel, gritava do lado de fora. — Só um segundo! — ele gritou de volta. Vestiu as calças e cambaleou até a porta. Destrancou, tirou a corrente, abriu com um puxão. — Sim? — Ethan perguntou.
— O check-out é às onze.
— Desculpe, eu...
— O que aconteceu com sua palavra de “logo cedo”? — Não percebi que...
— O senhor já conseguiu recuperar a carteira? — Não, estou acordando só agora. Já passou mesmo do meio-dia? Ela não respondeu, apenas o encarou.
— Vou à delegacia agora mesmo — disse — e assim que eu recup... — Preciso da sua chave de volta e preciso que desocupe o quarto. — Para quê?
— Desocupar o quarto. Saia. Não gosto que se aproveitem de mim, Sr. Burke. — Ninguém está se aproveitando de você.
— Estou esperando.
Ethan olhou com atenção para o rosto dela, procurando por algo... ponto fraco, brechas em sua resolução... mas não encontrou uma migalha de compaixão. — Só deixe eu me vestir — e começou a fechar a porta, mas Lisa colocou o pé no limiar para impedir.
— Ah, você quer ficar me olhando? De verdade? — ele se afastou da porta. — Certo. Aproveite o show.
E assim ela fez. Ficou na porta observando-o amarrar os sapatos nos pés sem meias, abotoar a camisa branca de oxford manchada e lutar por dois minutos agonizantes com o nó da gravata. Depois de finalmente ter deslizado os braços para dentro do paletó preto, ele pegou a chave do quarto de cima da mesa de cabeceira e jogou na palma da mão de Lisa ao sair. — Daqui a duas horas, você vai se sentir péssima por causa disso — disse ao caminhar pelo corredor em direção à escada.
* * *
Na farmácia da esquina da Principal com a Rua Seis, Ethan pegou um frasco de aspirina da prateleira e o levou até o caixa.
— Não posso pagar por isso — ele disse ao depositá-lo no balcão do caixa —, mas prometo que vou voltar aqui com a minha carteira em trinta minutos. É uma longa história, mas estou com uma dor de cabeça dos infernos e preciso tomar alguma coisa imediatamente. O farmacêutico de jaleco branco estava no meio de uma receita, contando pílulas de uma bandeja de plástico. Abaixou o queixo e olhou para Ethan por cima dos óculos quadrados de armação prateada.
— O que exatamente você está me pedindo?
O farmacêutico era um homem em vias de ficar calvo, na pior metade dos quarenta anos. Pálido. Magro. Com grandes olhos castanhos que pareciam ainda maiores através das lentes fundo de garrafa.
— Para me ajudar. Estou aqui... morrendo de dor. — Então vá ao hospital. Tenho uma farmácia, não uma agência de crédito. Um momento de visão dupla abalou Ethan por uma fração de segundo e ele pôde sentir aquele martelar terrível começando a aumentar outra vez na base do pescoço, cada pulso irradiando uma onda de dor lancinante pela espinha.
Não se lembrava de ter deixado a farmácia.
Quando deu por si, já estava andando aos trancos e barrancos pela calçada da Principal. Sentindo-se pior minuto a minuto, perguntando-se se poderia voltar ao hospital; mas era a última coisa que desejava. Apenas precisava de um maldito Advil, algo para aliviar um pouco a dor e permiti-lo fazer alguma coisa.
Ethan parou na próxima faixa de pedestres. Tentava se orientar na direção a seguir para chegar à delegacia, quando se lembrou. Deslizando a mão dentro do bolso do paletó, puxou o pedaço de papel e o desdobrou.
Primeira Avenida, 604
Vacilou. Bater à porta daquela completa estranha e pedir remédio? Por outro lado, não queria ir até o hospital e não poderia aparecer na frente do xerife sofrendo daquela dor de cabeça incapacitante. Planejava dar um sermão e isso geralmente dava mais certo se a pessoa não estivesse tomada pelo desejo de se encolher em posição fetal num quarto escuro. Qual era o nome dela?
Ah, sim, Beverly.
Era provável que tivesse fechado o bar na noite anterior, o que significava que havia uma boa chance de estar em casa agora. Droga, ela é quem tinha oferecido. Ele poderia dar um pulo, pegar emprestado uns comprimidos, colocar a dor de cabeça sob controle antes de ir à delegacia.
Atravessou, continuou na Principal até chegar à Rua Nove e então dobrou a esquina e seguiu para o leste.
Ruas cruzavam a Principal.
Avenidas percorriam paralelas.
Supôs que tinha umas sete quadras para caminhar. Depois da terceira, podia sentir o atrito queimando seus pés, mas não parou. Era dor, mas também uma distração bem-vinda do latejar na cabeça. A escola ocupava um quarteirão inteiro entre a Quarta e Quinta avenidas e ele mancou ao longo de uma cerca de arame que circundava um campo de esportes. Era a hora do intervalo para a turma de oito ou nove anos, e as crianças estavam compenetradas num jogo de pega-pega elaborado, uma menina de marias-chiquinhas loiras perseguindo todos à vista sob um coral de gritos ecoando entre os prédios de tijolos. Ethan assistiu à brincadeira, tentando não pensar no sangue que começava a se juntar nos sapatos — frio entre os dedos.
Marias-Chiquinhas, de repente, parou no meio de um grupo de crianças e encarou Ethan. Por um instante, as outras continuaram correndo e gritando, mas aos poucos também foram parando, percebendo, primeiro, que a pegadora não estava mais correndo atrás deles e, então, o que tinha chamado sua atenção.
Uma por uma, cada criança virou e encarou Ethan. Expressões vazias as quais ele poderia jurar que continham algum elemento de hostilidade maldisfarçada. Sorriu apesar da dor, fez um pequeno aceno.
— Oi, crianças.
Nenhuma delas retribuiu o gesto ou respondeu de qualquer outra forma. Apenas continuaram estacadas no lugar como uma coleção de miniaturas, só movendo a cabeça ao observarem-no passar e sair do campo de visão quando virou a esquina, depois do ginásio. — Pestinhas esquisitos — Ethan murmurou para si mesmo quando as risadas e gritos começaram mais uma vez, depois que retomaram a brincadeira. Do outro lado da Quarta Avenida, ele aumentou o ritmo, a dor nos pés ficando mais intensa, mas continuou mesmo assim, pensando Apenas chegue lá. Aguente firme e chegue lá. Já tinha passado a Terceira Avenida, e estava trotando, as costelas começando a doer novamente. Passou por uma série de casas que pareciam mais desgastadas. O lado pobre de Wayward Pines?, perguntou-se. Poderia uma cidade daquelas ter uma parte ruim? Na Primeira Avenida, parou.
A avenida tinha virado estrada de terra. O cascalho havia rareado há muito e a via desnivelada tinha marcas profundas de pneus. Não havia calçada e não havia mais ruas depois dela. Havia chegado ao limite oriental de Wayward Pines e atrás das casas que ladeavam aquela rua, a civilização alcançava um fim abrupto. Uma encosta íngreme cercada por pinheiros se elevava vários metros até a base do círculo de montanhas que abraçavam a cidade.
Ethan mancou até o fim da rua vazia de terra.
Podia ouvir pássaros cantando nas árvores próximas e nada mais. Completamente isolado de qualquer mínimo movimento que o centro de Wayward Pines pudesse produzir. Estava passando por caixas de correio já depois do número 500, sentindo o primeiro vestígio de alívio, sabendo que a casa de Beverly estaria na próxima quadra. A vertigem começava outra vez; ondas dela — suaves até então — varriam-no. O próximo cruzamento estava completamente vazio. Nem uma alma na rua.
Uma brisa morna deslizando da montanha soprava pequenos redemoinhos de poeira pela via. Ali estava: 604, a segunda casa à direita. Ele podia afirmar que se tratava dela pela pequena placa de aço aparafusada no que havia sobrado da caixa de correio, completamente coberta de ferrugem a não ser pelas aberturas escancaradas e serrilhadas. Um piado baixo saía de dentro dela e por um instante ele pensou que pudesse ser outro alto-falante, mas então vislumbrou a asa de um pássaro que fazia ninho lá dentro.
Ergueu os olhos e observou a casa.
Era provável que tivesse sido linda um dia, com dois andares e estilo vitoriano, com um telhado de caídas íngremes, uma varanda com um balanço e um caminho de pedras que levava pelo jardim da frente até a entrada.
A pintura havia descascado havia muito. Mesmo parado na rua, Ethan podia ver que nem mesmo um resquício dela havia sobrado. As tábuas do cercado da varanda estavam desbotadas e quase brancas pela ação do sol, a maioria delas no estágio final de apodrecimento. Nenhum caco de vidro restava nas janelas. Ele puxou do bolso a comanda do jantar da noite anterior e verificou o endereço outra vez. A caligrafia era clara — Primeira Avenida, 604 —, mas talvez Beverly tivesse invertido os números ou escrito “avenida” em vez de “rua”. Ethan abriu caminho por entre a erva daninha batendo na sua cintura, que havia tomado conta do jardim da frente. Apenas relances do caminho de pedra estavam visíveis no meio da vegetação.
Os dois degraus que conduziam à varanda coberta pareciam ter sido atropelados por um picador de madeira. Passou por cima deles e subiu num piso de tábuas, seu peso sobre elas produzindo um rangido ensurdecedor.
— Beverly?
A casa parecia engolir sua voz.
Atravessou a varanda com cuidado, entrou por uma abertura sem porta e chamou por ela mais uma vez. Podia ouvir o vento soprando pela casa, a estrutura de madeira gemendo. Depois de três passos na sala de visitas, ele parou. Molas enferrujavam-se pelo chão em meio à estrutura em ruínas de um sofá antigo. Uma mesa de centro estava coberta por teias de aranha e, embaixo dela, páginas de alguma revista, empapadas e apodrecidas, irreconhecíveis. Beverly não poderia querer que ele fosse até lá. Nem mesmo de brincadeira. Ela devia ter errado o endereço por acidente...
O cheiro o fez erguer o queixo. Deu um passo hesitante para frente, desviando de um trio de pregos despontando no assoalho.
Farejou o ar uma vez mais.
Outra lufada daquele cheiro percorreu o ambiente quando uma rajada de vento sacudiu a casa, e, no mesmo instante, ele escondeu o nariz na curva do braço. Avançou, passou por metade de uma escada, entrou por um corredor estreito que ligava a cozinha à sala de jantar, onde uma cascata de luz se derramava por cima dos restos lascados de onde o teto havia desabado sobre a mesa de jantar.
Continuou em frente, pisando com cuidado pelo campo minado de tábuas podres e buracos categóricos que retalhavam o piso entre a casa e o porão. A geladeira, a pia, o fogão — ferrugem cobria cada superfície metálica como um fungo, aquele lugar lembrando-o das antigas propriedades rurais com as quais ele e seus amigos se deparavam em explorações de verão pelos bosques atrás de suas fazendas. Celeiros e cabanas abandonadas, os telhados perfurados com buracos por onde o sol brilhava em tubos de luz. Uma vez tinha encontrado um jornal de cinquenta anos dentro de uma escrivaninha velha, anunciando a eleição de um novo presidente. Queria ter levado para casa e mostrado a seus pais, mas a coisa era tão frágil que tinha se despedaçado entre seus dedos. Ethan não se arriscava a inspirar o ar havia mais de um minuto, e ainda podia sentir o fedor ficando mais forte. Jurou que podia sentir o gosto nos cantos da boca, e sua intensidade aguda — pior do que amônia — estava arrancando lágrimas de seus olhos. A extremidade do corredor era mais escura, ainda protegida por um teto que gotejava da última grande chuva de sabia-se lá quando.
A porta no fim do corredor estava fechada.
Ethan piscou para tirar as lágrimas dos olhos e esticou o braço até a maçaneta, mas não havia uma.
Empurrou a porta com o pé.
Dobradiças rilhando.
A porta bateu na parede e Ethan avançou um passo para cruzar o limiar. Exatamente como em suas lembranças das casas antigas do campo, projéteis de luz disparavam por furos na parede do outro lado, cintilando no labirinto de teias de aranha, antes de atingir a única peça de mobília do cômodo.
A estrutura de metal ainda estava de pé, e, através da ruína pastosa do colchão, ele podia ver as molas cor de cobre, feito serpentes enroladas. Não tinha ouvido as moscas até então, pois elas estavam congregadas dentro da boca do homem — uma metrópole delas, o som de seu zumbido coletivo era como um pequeno motor de popa.
Ele tinha visto coisa pior, em combate, mas nunca tinha sentido um cheiro pior. O branco se mostrava por toda parte: os ossos do pulso e do tornozelo por onde ele havia sido algemado à cabeceira e aos pés da cama. Onde sua perna direita estava exposta, a carne parecia quase desfiada. A arquitetura interna no lado esquerdo de seu rosto estava à mostra, até as raízes de seus dentes. O estômago também tinha inchado. Ethan podia ver o calombo debaixo do terno esfarrapado, que era preto e de corte simples. Assim como o seu.
Embora o rosto fosse apenas ruínas, o comprimento e a cor dos cabelos estavam certos. A altura também batia.
Ethan se afastou com passos incertos e se encostou ao batente da porta. Maldito Jesus Cristo.
Aquilo era o agente Evans.
* * *
De volta ao lado de fora, na varanda frontal da casa abandonada, Ethan dobrou o corpo para a frente, as mãos abraçando os joelhos, e inspirou fundo várias vezes pelo nariz para purgar o fedor. Mas ele não sumia. O cheiro de morte havia aderido a seus seios da face, e era como uma mordida amarga, pútrida, no fundo da garganta. Tirou o paletó e desabotoou a camisa, lutou para tirar os braços das mangas. A pestilência agora estava nas fibras de suas roupas.
Sem camisa, caminhou pelo mato emaranhado que um dia havia sido um jardim e finalmente alcançou a rua de terra.
Podia sentir o frio da pele ferida atrás dos tornozelos e o pulsar pesado no crânio, mas a dor aguda havia sido atenuada pela adrenalina pura. Saiu caminhando depressa pelo meio da rua, a mente fervilhando. Teve a tentação de procurar nos bolsos do casaco e das calças do morto, ver se descobria uma carteira, alguma identificação, mas a jogada de mestre era esperar. Não tocar nada. Deixar que pessoas com luvas de látex, máscaras e tudo do melhor e mais moderno em termos forenses baixassem naquele quarto.
Ainda não conseguia decifrar nada do que vira. Um agente federal havia sido assassinado naquele pequeno pedaço do paraíso. Não era nenhum legista, mas tinha uma intuição certa de que o rosto de Evans não estava apenas apodrecendo. Parte de seu crânio havia sido afundada. Dentes quebrados. Um olho desaparecido.
Também havia sido torturado.
Os seis quarteirões pareceram voar por ele e então estava correndo pela calçada até a entrada da delegacia.
Deixou a camisa e o paletó do lado de fora, sobre um banco, e empurrou uma folha das portas duplas.
A recepção era um cômodo revestido com painéis de madeira com tapetes marrons e cabeças de animais empalhados em cada pedaço vertical disponível do imóvel. Na mesa da recepção, uma mulher de sessenta e poucos anos com cabelos longos e prateados estava jogando Paciência com um maço de baralho. A plaquinha à sua frente trazia o nome “Belinda Moran”.
Ethan chegou até a borda da mesa e observou-a colocar mais quatro cartas antes de finalmente se arrancar do jogo.
— Posso ajudar...? — seus olhos se arregalaram. Ela o mediu da cabeça aos pés, franzindo o nariz para o que Ethan supôs que fosse o maldito fedor de podridão humana que devia estar exalando dele. — O senhor não está usando camisa — ela disse. — Agente Especial do Serviço Secreto dos Estados Unidos, Ethan Burke. Estou aqui para ver o xerife. Qual é o nome dele?
— De quem?
— Do xerife.
— Ah. Pope. Xerife Arnold Pope.
— Ele está, Belinda?
Em vez de responder à questão, ela ergueu seu telefone antigo e discou o ramal de três números.
— Oi, Arnie, tem um homem aqui para vê-lo. Ele diz que é um agente secreto, ou alguma coisa assim.
— Agente Especial do...
Ela ergueu um dedo.
— Não sei, Arnie. Ele está sem camisa e... — afastou-se de Ethan na cadeira giratória, sussurrou: — ...está fedendo. Muito... Certo. Certo, vou dizer a ele. Belinda girou na cadeira e desligou o telefone. — O xerife Pope vai recebê-lo daqui a pouco.
— Preciso vê-lo agora.
— Compreendo. O senhor pode esperar ali — e apontou um grupo de cadeiras num canto próximo.
Ethan hesitou por um instante, por fim deu meia-volta e foi para a área de espera. Sensato manter o primeiro encontro cordial. Em sua experiência, os representantes locais da lei ficavam na defensiva, até hostis, quando agentes federais já chegavam com tudo, dando uma de mandões. Em vista do que acabava de descobrir na casa abandonada, teria que trabalhar com aquele cara durante o futuro próximo. Melhor começar com um bom aperto de mão do que com o dedo do meio.
Ethan relaxou o corpo numa das quatro cadeiras estofadas na área de espera. Tinha começado a transpirar durante a corrida, mas agora que seus batimentos cardíacos tinham voltado ao normal, a camada de suor na pele nua havia começado a lhe dar frio, provocado pelo sistema de ventilação central que soprava por uma saída de ar no teto. Não havia muito que se pudesse chamar de material de leitura atualizada na mesinha diante da cadeira. Apenas alguns exemplares antigos da National Geographic e da Popular Science. Reclinou-se na cadeira e fechou os olhos.
A dor de cabeça estava voltando. Cada pulsar ficando um nível mínimo mais forte, o conjunto só ficando perceptível ao longo de alguns minutos. Na verdade, conseguia ouvir o latejar de sua cabeça no silêncio total da delegacia, onde não havia outro som a não ser o das cartas de baralho.
— Isso! — Ouviu Belinda dizer.
Abriu os olhos a tempo de vê-la colocar a última carta, ganhando o jogo. Ela juntou as cartas, embaralhou e começou de novo.
Mais cinco minutos se passaram.
Mais dez.
Belinda terminou o jogo e estava embaralhando o maço outra vez quando Ethan notou o primeiro impulso de irritação — um espasmo no olho esquerdo. A dor ainda estava crescendo e, até então, ele estava esperando, segundo sua estimativa, havia quinze minutos. Naquele espaço de tempo, o telefone não havia tocado uma vez sequer, e nenhuma outra alma havia adentrado o prédio.
Fechou os olhos e começou uma contagem regressiva a partir do sessenta, enquanto massageava as têmporas. Quando os abriu outra vez, ainda estava sentado ali, sem camisa e com frio, Belinda ainda virando as cartas e o xerife ainda por vir. Ethan se levantou, lutou contra um acesso de tontura por dez segundos antes de finalmente firmar o equilíbrio. Foi andando até a mesa da recepção e esperou Belinda erguer o olhar. Ela lançou cinco cartas antes de reconhecer sua presença. — Sim?
— Sinto incomodar, mas já faz uns vinte minutos que estou esperando. — O xerife está muito ocupado hoje.
— Tenho certeza de que sim, mas preciso falar com ele imediatamente. Agora ou a senhora pode colocá-lo no telefone outra vez e dizer que eu cansei de esperar, ou vou lá no fundo eu mesmo e...
O telefone sobre a mesa tocou.
— Sim...? — ela atendeu. — Certo, pode deixar — ela colocou o fone no gancho e sorriu para Ethan. — O senhor tem permissão de ir lá no fundo agora. Por aquele corredor. A sala dele fica atrás da porta bem no final.
* * *
Ethan bateu abaixo da placa com o nome.
Uma voz grave gritou do outro lado da porta:
— Entre!
Ele girou a maçaneta, empurrou a porta e deu um passo para dentro.
O assoalho do gabinete era de madeira escura e muito riscada. À esquerda, a cabeça enorme de um alce havia sido pendurada na parede oposta a uma mesa grande, rústica. Atrás dela estavam três armários antigos para armas, repletos de rifles, espingardas, pistolas e o que ele calculou que fossem caixas de munição suficientes para executar três vezes cada residente daquela cidadezinha.
Um homem dez anos mais velho do que Ethan estava reclinado numa cadeira de couro, seus pés com botas de caubói apoiados sobre a mesa. O xerife tinha cabelos loiros e ondulados que provavelmente estariam brancos dentro de uma década, e seu maxilar estava coberto por uma barba grisalha de alguns dias.
Calças de lona marrom-escuras.
Camisa social de manga comprida — verde-caçador. A estrela do xerife brilhava sob as luzes. Parecia feita de latão sólido, num relevo detalhado, com as letras WP inseridas em preto no centro. Ao se aproximar da mesa, Ethan pensou que tinha visto o xerife deixar escapar um sorrisinho para si mesmo.
— Ethan Burke, Serviço Secreto.
Estendeu a mão sobre a mesa e o xerife hesitou, como se travando algum debate íntimo a respeito de se mexer ou não. Por fim, ele deslizou as botas de cima da mesa e se inclinou para frente na cadeira.
— Arnold Pope — e apertaram as mãos. — Sente-se, Ethan. Ethan sentou-se reto em uma das cadeiras de madeira de espaldar. — Como está?
— Já estive melhor.
— Posso apostar. Você também já deve ter cheirado melhor — Pope desferiu um rápido sorriso sem emoção. — Acidente grave o que você teve há alguns dias. Trágico. — É, eu tinha esperanças de conseguir mais detalhes sobre ele. Quem nos atingiu? — Testemunhas dizem que foi um guincho.
— Motorista preso? Indiciado?
— Seria se eu pudesse encontrá-lo.
— Está dizendo que ele causou o acidente e fugiu? Pope fez que sim.
— Ele se mandou da cidade depois de bater na lateral do seu carro. Já tinha desaparecido quando eu cheguei à cena do crime.
— E ninguém anotou a placa nem nada?
Pope sacudiu a cabeça e ergueu alguma coisa de cima da mesa — um globo de neve com base dourada. Os prédios em miniatura sob a redoma de vidro foram tomados por um redemoinho de neve quando o xerife mexeu o globo para frente e para trás entre as mãos. — Quais esforços estão sendo feitos para localizar o guincho? — Ethan perguntou. — As coisas estão andando.
— Estão?
— Pode apostar.
— Gostaria de ver o agente Stallings.
— O corpo está retido no necrotério.
— E onde fica?
— No porão do hospital.
De repente Ethan se lembrou. Assim do nada. Como se alguém tivesse sussurrado em seu ouvido.
— Tem um pedaço de papel para me emprestar? — perguntou. Pope abriu uma gaveta e tirou um Post-it de um bloquinho e entregou a Ethan com uma caneta. Ethan arrastou a cadeira para frente, colou o Post-it no tampo da mesa e rabiscou um número. — Creio que está com as minhas coisas, não está? — disse ao deslizar o bilhete para dentro do bolso.
— Que coisas?
— Meu telefone, arma, carteira, distintivo, valise... — Quem lhe contou que isso estava comigo?
— Uma enfermeira no hospital.
— Nem imagino de onde ela tirou essa ideia.
— Espere. Então você não está com as minhas coisas? — Não.
Ethan encarou o xerife por cima da mesa.
— É possível que ainda estejam no carro?
— Que carro?
Ele se esforçou para manter o tom de voz sob controle. — Aquele que o guincho atingiu comigo dentro. — Suponho que seja possível, mas tenho quase certeza de que os socorristas levaram suas coisas.
— Jesus.
— O quê?
— Nada. Se importa se eu der alguns telefonemas antes de ir embora? Não falo com a minha esposa há dias.
— Eu falei com ela.
— Quando.
— Dia do acidente.
— Ela está a caminho?
— Não faço ideia. Apenas informei a ela o que aconteceu. — Também preciso telefonar para meu superior... — E quem é?
— Adam Hassler.
— Ele o enviou aqui?
— Isso.
— Ele também o instruiu a não se incomodar em me ligar antes e avisar que agentes federais mostrariam a cara aqui no pedaço? Ou essa parte foi ideia sua? — Acha que eu tinha alguma obrigação de...
— Cortesia, Ethan. Cortesia. De qualquer forma, sendo um agende federal, talvez você não saiba muito bem o que esse conceito significa... — Eu teria lhe contatado em algum momento, Sr. Pope. Não tive nenhuma intenção de tirá-lo da jogada.
— Ah... Bem, neste caso...
Ethan hesitou, querendo ser claro, comunicar a informação que desejava revelar e nenhum detalhe a mais. Mas sua cabeça o estava matando e a visão dupla ameaçava dividir o xerife em dois cretinos.
— Fui enviado aqui para encontrar dois agentes do Serviço Secreto. As sobrancelhas de Pope se arquearam.
— Eles estão desaparecidos?
— Hoje faz onze dias.
— O que estavam fazendo em Wayward Pines? — Não recebi uma prévia detalhada da investigação que eles conduziam, embora eu saiba que envolvia David Pilcher.
— Esse nome parece vagamente familiar. Quem é? — Ele sempre aparece nas listas de homens mais ricos do mundo. Um daqueles bilionários reclusos. Nunca fala com a imprensa. É dono de uma porção de empresas biofarmacêuticas. — E tem uma ligação com Wayward Pines?
— Mais uma vez, não sei. Mas se o Serviço Secreto estava aqui, provavelmente estavam investigando um crime financeiro. É tudo o que sei. Pope se levantou de repente. Sentado atrás da mesa, Ethan podia perceber que o xerife era um homem alto; porém, sobre as botas, Ethan viu que ele tinha quase dois metros de altura. — Fique à vontade para usar o telefone na sala de reuniões, agente Burke. Ethan não se moveu da cadeira.
— Na verdade não terminei, xerife.
— A sala de reuniões é por aqui — Pope deu a volta na mesa e foi em direção à porta. — E talvez uma camisa da próxima vez? É apenas uma sugestão. O latejar na cabeça de Ethan estava começando a se entrelaçar com a raiva. — Gostaria de saber por que não estou usando camisa, xerife? — Na verdade, não.
— Um dos agentes que eu vim procurar está se decompondo numa casa a seis quarteirões daqui.
Pope parou na porta, de costas para Ethan.
— Acabei de encontrá-lo antes de vir para cá — Ethan disse. Pope se virou e cravou os olhos em Ethan.
— Elabore melhor “acabei de encontrá-lo”.
Ontem à noite, uma atendente do The Biergarten me deu o endereço dela para o caso de eu precisar de alguma coisa. Acordei hoje de manhã com uma dor de cabeça terrível. Não tinha um centavo. Fui expulso do meu quarto de hotel. Fui até a casa dela pegar remédio para minha dor de cabeça, só que o endereço que ela me deu estava errado, ou alguma outra coisa. — Qual é o endereço?
— Primeira Avenida, 604. No fim das contas, era uma casa velha e abandonada. Em ruínas. O agente Evans estava acorrentado a uma cama em um dos quartos. — Tem certeza de que era o homem que você veio procurar aqui? — Tenho oitenta por cento de certeza. Já estava em estágio avançado de decomposição e o rosto sofreu uma contusão de golpe severa.
A carranca que o xerife vinha sustentando desde que Ethan havia adentrado sua sala desapareceu, e sua expressão pareceu suavizar. Ele andou até Ethan e sentou-se numa cadeira ao seu lado.
— Peço desculpas, agente Burke. Deixei-o esperando na recepção. Fiquei com raiva porque você não ligou antes de chegar à cidade e, bem, você está certo. Não era sua obrigação. Tenho um temperamento terrível, um dos meus muitos defeitos, e minha atitude foi inadmissível. — Desculpas aceitas.
— Você teve alguns dias bem difíceis.
— Tive.
— Vá fazer seus telefonemas e conversaremos quando terminar. * * *
Uma mesa comprida ocupava quase toda a sala de reuniões, quase sem espaço suficiente entre as cadeiras e a parede para Ethan caminhar até a outra extremidade, onde estava o telefone de disco.
Tirou o bilhete do bolso e ergueu o fone.
Linha.
Discou o número.
Tocou.
O sol da tarde separando as persianas e atingindo o tampo polido da mesa, feita de compensado, em lâminas de luz ofuscante.
Depois de três toques, ele disse:
— Vamos, querida, atenda.
Depois do quinto toque, conseguiu a secretária eletrônica. A voz de Theresa: “Oi, você ligou para os Burke. Lamentamos, mas não estamos em casa para atender sua ligação... a menos, é claro, que seja telemarketing... nesse caso, estamos contentíssimos em ter pedido a ligação e, aliás, provavelmente estamos evitando e o encorajamos a esquecer este número. Se não for isso, deixe sua mensagem depois do bipe”. — Theresa, sou eu. Deus, sinto como se não ouvisse sua voz há anos. Imagino que você saiba que me envolvi num acidente de carro aqui. Ninguém parece encontrar meu celular, por isso, se você andou tentando ligar, sinto muito. Estou no Wayward Pines Hotel, quarto número 226. Também pode tentar ligar para a delegacia. Espero que você e Ben estejam bem. Eu estou. Ainda um pouco dolorido, mas melhor do que estava. Por favor, me ligue no hotel hoje à noite. Vou tentar ligar de novo em breve. Amo você, Theresa. Muito. Ele desligou o telefone, ficou sentado por um instante tentando conjurar o número do celular da esposa. Conseguiu chegar até o sétimo dígito, mas os três últimos continuaram cobertos de mistério.
O número da seccional de Seattle lhe veio à memória de repente. Discou e, depois de três toques, uma mulher cuja voz Ethan não reconheceu, atendeu: — Serviço Secreto.
— Oi, aqui é Ethan Burke. Preciso falar com Adam Hassler, por favor. — Ele não está disponível no momento. Haveria algo com que eu pudesse lhe ajudar? — Não, realmente preciso falar com ele. Ele está fora do escritório hoje? — Ele não está disponível no momento. Haveria algo com que eu pudesse lhe ajudar? — Que tal eu tentar localizá-lo no celular? Pode me informar o número, por favor? — Ah, infelizmente não tenho permissão para dar essa informação. — Você entendeu quem eu sou? Agente Ethan Burke?
— Haveria algo com que eu pudesse lhe ajudar? — Qual é o seu nome?
— Marcy.
— Você é nova, certo?
— É meu terceiro dia.
— Olhe, estou aqui em Wayward Pines, Idaho, no meio de um mato sem cachorro. Coloque o Hassler no telefone imediatamente. Não me interessa o que ele está fazendo. Se estiver em reunião... se estiver com as calças arriadas... coloque-o no maldito telefone. — Ah, sinto muito.
— O quê?
— Não vou poder continuar falando com o senhor se usar esse tom comigo. — Marcy?
— Sim?
— Peço desculpas. Lamento ter erguido a voz com você, mas preciso falar com Hassler. É urgente.
— Posso dar seu recado com todo prazer.
Ethan fechou os olhos.
Estava com o maxilar cerrado para impedir que berrasse ao telefone. — Diga a ele para ligar para o agente Ethan Burke na delegacia de Wayward Pines, ou no Wayward Pines Hotel, quarto número 226. Ele precisa entrar em contato comigo assim que receber esta mensagem. O agente Evans está morto. Você me entendeu? — Vou repassar o recado! — Marcy respondeu com voz animada e desligou o telefone. Ethan afastou o fone do ouvido e o bateu cinco vezes na mesa. Quando estava erguendo o fone mais uma vez, notou o xerife Pope parado na porta da sala de reuniões.
— Tudo bem, Ethan?
— Sim, é que... estou tendo um pouco de problemas para conseguir falar com meu superior. Pope entrou na sala e fechou a porta. Sentou-se na ponta oposta da mesa. — Você disse que há dois agentes desaparecidos? — Pope perguntou. — Isso mesmo.
— Fale-me sobre o outro.
— O nome dela é Kate Hewson. Trabalhava na seccional de Boise e, antes disso, em Seattle. — Você a conhecia de lá?
— Fomos parceiros.
— Então ela foi transferida?
— Foi.
— E Kate veio até aqui com o agente...
— Bill Evans.
— ... nessa investigação ultrassecreta.
— Isso.
— Gostaria de ajudar. Você gostaria da minha ajuda? — Claro, Arnold.
— Tudo bem. Vamos começar com o básico. Como a Kate é? Ethan se reclinou na cadeira.
Kate.
Ele havia treinado tanto durante o último ano para não pensar nela que demorou um minuto para recuperar a visão em sua mente, a memória como que rasgando um ferimento que havia acabado de cicatrizar.
— Ela tem por volta de um metro e sessenta de altura, uns quarenta e sete quilos. — Moça pequena, hein?
— Melhor defensora da lei que já conheci. Cabelo castanho curto da última vez que a vi, mas pode ter crescido. Olhos azuis. Beleza incomum. Deus, ele ainda podia sentir seu gosto.
— Alguma característica própria?
— Na verdade, sim. Ela tem uma leve marca de nascença na bochecha. Uma mancha um pouco mais escura do que a pele, do tamanho de uma moeda. — Vou dar o recado para meus homens, talvez até fazer um retrato falado para mostrar por aí. — Seria ótimo.
— Por que você disse mesmo que ela foi transferida de Seattle? — Eu não disse.
— Bem, você sabe?
— Algum tipo de reestruturação de pessoal foi o rumor. Gostaria de ver o carro. — O carro?
— O Lincoln Town Car preto que eu estava dirigindo quando o acidente aconteceu. — Ah, claro.
— Onde posso encontrá-lo?
— Existe um pátio de sucata na periferia da cidade — o xerife se levantou. — Qual era mesmo o endereço?
— Primeira Avenida, 604. Eu o levo até lá.
— Não precisa.
— Mas eu quero.
— Eu não quero que você me leve.
— Por que não?
— Algo mais que você queira saber?
— Gostaria de saber os resultados da sua investigação. — Volte amanhã depois do almoço. Até lá vamos saber onde estamos com relação a tudo. — E você pode me levar ao pátio de sucata para ver o carro? — Acho que podemos dar um jeito nisso. Mas, por enquanto, vamos, eu o acompanho até a saída.
* * *
O paletó e a camisa de Ethan cheiravam um pouco melhor quando ele deslizou os braços para dentro das mangas e começou a descer a rua, afastando-se da Delegacia de Wayward Pines. Ainda fedia, mas supôs que o cheiro pútrido ofensivo chamaria menos atenção do que um homem andando pela cidade vestindo nada além de calça social. Apressou o passo tanto quanto pôde, mas a tontura continuava chegando em ondas, e sua cabeça tinha uma dor vívida, cada passo estendendo novos tentáculos de agonia nas profundezas de seu crânio.
O Biergarten estava aberto e vazio, salvo por um atendente com cara de tédio sentado numa banqueta atrás do balcão, lendo um romance barato — um dos primeiros livros de F. Paul Wilson.
Quando Ethan alcançou o balcão, disse:
— A Beverly está trabalhando hoje?
O homem ergueu um dedo.
Dez segundos se passaram enquanto ele terminava de ler uma passagem. Enfim, fechou o livro e direcionou sua total atenção a Ethan. — O que vai beber hoje?
— Nada. Estou procurando a mulher que estava trabalhando aqui ontem à noite. O nome dela era Beverly. Morena bonita. Trinta e poucos anos. Meio alta. O atendente desceu da banqueta e colocou o livro no balcão. Seus cabelos longos e grisalhos eram da cor de água turva de lavar louça. Ele os prendeu num rabo de cavalo. — Você esteve aqui? Neste restaurante? Ontem à noite? — Isso mesmo — Ethan respondeu.
— E está me dizendo que uma morena alta estava cuidando do balcão? — Exato. Beverly era o nome dela.
O homem sacudiu a cabeça, Ethan detectando um traço de zombaria em seu sorriso. — Só existem duas pessoas na folha de pagamento aqui que atendem no bar. Um cara chamado Steve e eu.
— Não, essa mulher me atendeu ontem à noite. Eu comi um hambúrguer, sentei bem ali — Ethan indicou a banqueta do canto.
— Não me leva a mal, amigão, mas quanto você já bebeu? — Nada. E não sou seu “amigão”. Sou um agente federal. E sei que estive aqui ontem à noite e sei quem me serviu.
— Desculpe, cara, não sei o que lhe dizer. Acho que você deve ter ido a um restaurante diferente.
— Não, eu...
Ethan perdeu o foco de repente.
Cravou a ponta dos dedos nas têmporas.
Agora podia sentir o pulso na artéria temporal, cada batida do coração carregando as pancadas daquelas dores de cabeças que costumava ter na infância quando tomava gelado: aquelas dores rápidas e excruciantes que se seguiam a uma mordida afoita demais num picolé ou sorvete de massa.
— Senhor? Senhor, está tudo bem?
Ethan se afastou de costas do bar com passos incertos, conseguiu dizer: — Ela estava aqui. Tenho certeza. Não sei por que você está fazendo... E então estava parado do lado de fora, as mãos nos joelhos, dobrado sobre uma poça de vômito na calçada, que ele supôs depressa ter vindo dele, sua garganta queimando com a bile. Ethan endireitou a coluna e limpou a boca com a manga do paletó. O sol já havia se posto atrás dos picos; o frescor da noite sobre a cidade. Havia coisas que precisava fazer — encontrar Beverly, encontrar os socorristas e recuperar seus pertences —, mas tudo o que queria era se enrodilhar na cama num quarto escuro. Dormir até passar a dor. A confusão. E a emoção na base de tudo estava ficando mais e mais difícil de ignorar.
Terror.
A sensação cada vez mais forte de que algo estava muito, muito errado. * * *
Subiu vacilante os degraus na frente do hotel e empurrou a porta para entrar. A lareira aquecia o lobby.
Um jovem casal ocupava uma das namoradeiras perto do fogo, bebericando copos de vinho espumante. Férias românticas, ele supôs, desfrutando um lado muito diferente de Wayward Pines.
Um homem de smoking sentado no piano de calda, tocando “Always Look on The Brighter Side of Life”.
Ethan chegou até o balcão da recepção, forçando um sorriso apesar da dor. A mesma recepcionista que o expulsara do quarto de manhã começou a falar antes mesmo de erguer os olhos.
— Bem-vindo ao Wayward Pines Hotel. Como posso ajudá-lo... Ela parou quando viu Ethan. — Oi, Lisa.
— Estou impressionada — disse.
— Impressionada?
— O senhor voltou para pagar. Disse que viria, mas com toda sinceridade eu não imaginei que fosse vê-lo outra vez. Peço desculpas por...
— Não, escute, não consegui encontrar minha carteira hoje. — O senhor quer dizer que não está de volta para pagar pelo quarto de ontem à noite? Como me prometeu inúmeras vezes?
Ethan fechou os olhos, respirando para suportar a dor extraordinária. — Lisa, você não faz ideia do dia que eu tive. Só preciso me deitar por algumas horas. Não preciso de um quarto para a noite inteira. Apenas um lugar para esfriar a cabeça e dormir. Estou morrendo de dor.
— Espere — ela deslizou da cadeira e se inclinou sobre o balcão, aproximando-se de Ethan. — O senhor ainda não pode pagar e agora está pedindo outro quarto? — Não tenho para onde ir.
— O senhor mentiu para mim.
— Desculpe-me. Eu pensei de verdade que conseguiria a minha... — Entende que me arrisquei por sua causa? Que eu poderia perder meu emprego? — Desculpe-me, eu não quis...
— Saia.
— Perdão?
— O senhor não me escutou?
— Não tenho para onde ir, Lisa. Não tenho telefone. Não tenho dinheiro. Não como nada desde ontem à noite e...
— Explique para mim outra vez por que essa história toda é problema meu. — Só preciso ficar deitado por algumas horas. Estou implorando. — Olhe, já lhe expliquei da forma mais clara possível. Agora está na hora de o senhor ir embora.
Ethan não se mexeu. Apenas fitou-a, esperando que ela pudesse ver a agonia em seus olhos, apiedar-se.
Em vez disso, Lisa pegou o telefone e começou a discar. — O que você está fazendo? — Ethan perguntou. — Ligando para o xerife.
— Tudo bem, certo — ele ergueu as mãos para o alto em sinal de rendição, afastando-se do balcão. — Eu vou embora.
Quando alcançou as portas, Lisa ergueu a voz e disse: — Não quero vê-lo aqui nunca mais.
Ethan quase caiu ao descer as escadas, a cabeça girando quando alcançou a calçada. A iluminação pública e a luz dos carros passando começaram a espiralar, Ethan percebendo a força vazar de suas pernas como se alguém tivesse puxado o tampão de uma pia. Apesar disso, ele começou a andar pela calçada e viu aquele prédio de tijolinhos à vista assomando na rua a oito quadras de distância. Ainda tinha medo dele, mas tudo que precisava era do hospital. Queria a cama, o sono, os remédios. Qualquer coisa para deter aquela dor. Ou voltava para o hospital, ou dormiria na rua, num beco, num parque, no tempo. Mas eram oito quadras, até o momento, cada passo demandando um gasto absurdo de energia; as luzes desintegrando-se em toda sua volta — espiralando, fachos longos ficando mais intensos, mais pronunciados, tornando sua visão oblíqua como se ele pudesse apenas ver o mundo como uma foto noturna da cidade em movimento, a luz dos carros se prolongando formando riscos de brilho, as luminárias públicas queimando como maçaricos. Esbarrou em alguém.
Um homem o empurrou. Disse:
— Vai naquela direção?
No cruzamento, Ethan parou, duvidando de que pudesse completar a travessia. Cambaleou para trás e caiu sentado com força na calçada de um prédio. A rua havia ficado cheia. Ele não podia ver nada claramente, mas conseguia ouvir passos pelo concreto e fragmentos da conversa de passantes. Perdeu toda a noção do tempo.
Podia ter sonhado.
E então estava deitado de lado no concreto frio, sentindo o hálito de alguém, a voz bem no seu rosto.
Palavras vieram até ele, embora não conseguisse reuni-las em nenhuma ordem sensata. Abriu os olhos.
Noite havia caído.
Estava tremendo.
Uma mulher ajoelhada ao seu lado; sentiu as mãos dela agarradas em seus ombros. Ela o estava sacudindo, falando com ele.
— O senhor está bem? Consegue me ouvir? Senhor? Consegue olhar para mim e dizer o que está errado?
— Ele está bêbado — disse a voz de um homem. — Não, Harold. Ele está doente.
Ethan tentou colocar o rosto da mulher em foco, mas estava escuro e borrado, tudo o que ele podia ver eram as luzes da rua brilhando como pequenos sóis e um raio ocasional de luz de um carro passando.
— Minha cabeça está doendo — ele disse com uma voz que parecia por demais fraca, doída e cheia de medo para ser dele. — Preciso de ajuda. Ela pegou sua mão e lhe disse para não se preocupar, para não ter medo, que a ajuda já estava a caminho.
E embora a mão que segurava a sua claramente não pertencesse a uma mulher jovem — a pele muito fina e sem elasticidade, como papel velho — havia algo tão familiar na voz dela que lhe partiu o coração.