Pines
Capítulo 16
Ethan baixou o corpo pela abertura do duto até que seus pés descalços tocassem o piso quadriculado preto e branco. Estava parado no meio de um longo corredor vazio. Havia o zumbido de lâmpadas fluorescentes e o suave ruído do vento vindo pelo duto de ventilação acima de sua cabeça, mas nenhum outro som.
Seus pés fizeram um barulho discreto sapateando no piso quando ele começou a andar. Havia portas numeradas e espaçadas a cada cinco ou seis metros, e a mais próxima, à direita, malfechada, derramava um pouco de luz pelo chão. Ele a alcançou — número 37 — e colocou as mãos na maçaneta. Parou para ouvir.
Nenhuma voz. Nenhum movimento. Nada para dissuadi-lo. Empurrou a porta mais alguns centímetros e olhou dentro. Havia uma única cama numa estrutura de metal encostada na parede oposta, arrumada de forma impecável. Uma escrivaninha decorada com fotografias emolduradas e algumas tulipas em um vaso. Seus olhos passaram por uma estante de livros do teto ao chão, uma reprodução de Matisse, um cavalete. Ao lado da porta, um roupão estava pendurado num gancho na parede, e um par de pantufas de coelhinho estava logo abaixo. Ele prosseguiu pelo corredor silencioso.
Nenhuma das portas estava trancada, e cada uma que ele assumiu o risco de abrir revelou um espaço minimalista semelhante, iluminado por alguns prósperos toques de individualidade. Depois de uma distância considerável, o corredor terminava numa escadaria; Ethan parado no topo e olhando para baixo, contando quatro lances até o fim. A sinalização na parede dizia Nível 4.
Ele se esgueirou até o próximo patamar, o qual o levou até outro corredor que parecia idêntico ao de cima.
Risada alta, repentina, ressoou pelo corredor.
Levou Ethan de volta pela escadaria e o preparou para a fuga. Já estava imaginando que poderia voltar ao Nível 4, usar a cadeira de um dos apartamentos, subir outra vez no duto de ventilação. Mas a risada morreu e depois de um minuto inteiro o corredor continuava vazio. Avançou dez metros, finalmente parando em frente a um par de portas vaivém, cada uma com uma janelinha.
Um grupo de três homens e duas mulheres ocupava uma entre uma dúzia de mesas numa modesta cantina, o cheiro de comida quente fazendo o estômago de Ethan resmungar. Uma das mulheres disse:
— Você sabe que isso não é verdade, Clay — e apontou na direção dele um garfo espetado no que parecia ser uma porção de purê de batata.
Ethan avançou pelo corredor.
Passou por uma lavanderia.
Uma sala de recreação.
Uma biblioteca.
Um ginásio vazio.
Vestiários masculinos e femininos.
Uma academia onde duas mulheres trotavam lado a lado em esteiras e um homem levantava peso.
Ethan chegou a uma escadaria na extremidade do corredor e desceu um lance de escadas que levava ao corredor do Nível 2.
Na primeira porta a que chegou, ele parou e espiou dentro por uma janela circular. Havia uma maca no centro, rodeada por luminárias, carrinhos repletos de instrumentos cirúrgicos, monitores cardíacos, suportes para soro, estações para cauterização e sutura, uma mesa de fluoroscopia, tudo imaculadamente limpo e reluzindo sob a luz baixa. As três portas seguintes não tinham janelas e estavam identificadas apenas com placas: Laboratório A, Laboratório B, Laboratório C. No fim do corredor, uma janela brilhava, e Ethan ficou de costas na lateral, encostado na parede.
Do outro lado do vidro, leves batidas e o murmúrio baixo de vozes. Espiou pela janela.
A sala era quase toda escura, o brilho vindo de numerosos monitores — vinte e cinco deles alinhados em cinco fileiras de cinco telas cada, acoplados na parede e empoleirados sobre um grande console que parecia sério o suficiente para lançar um foguete. A três metros de Ethan, um homem estava sentado observado os monitores, os dedos se movimentando à velocidade da luz sobre um teclado enquanto as imagens nas telas mudavam constantemente. Ele usava na cabeça um conjunto de fones de ouvido e microfone, e Ethan podia ouvir sua voz ressoando muito de leve, embora as palavras se perdessem. Numa das telas, Ethan analisou uma sucessão de imagens… A fachada de uma casa vitoriana.
A varanda de uma casa diferente.
Um beco.
Um quarto.
Uma banheira vazia.
Um banheiro com uma mulher em frente ao espelho, escovando os cabelos. Um homem sentado numa cozinha, comendo de uma tigela de cereal. Uma criança sentada num vaso sanitário, lendo um livro. Uma vista da Rua Principal em Wayward Pines. O playground do parque.
O cemitério.
O rio.
O interior da cafeteria.
A recepção do hospital.
O xerife Pope sentado atrás de sua mesa com os pés para cima, falando ao telefone. O campo de visão de Ethan era limitado através da janela, mas podia discernir na extremidade esquerda outro bloco de monitores e o som de outras pessoas digitando. Uma piscina de raiva fervendo se tornou uma supernova dentro dele. Colocou as mãos na maçaneta, começou a girar. Nada o agradaria mais do que se esgueirar atrás do homem assistindo às pessoas em suas vidas cotidianas e quebrar-lhe o pescoço. Mas se impediu.
Ainda não.
Ethan se afastou da central de vigilância e se dirigiu pela escadaria, saindo no corredor de baixo — Nível 1.
Embora difícil de dizer à distância, a outra extremidade parecia se estender além da escada, em outra seção do complexo.
Ethan apressou o passo.
A cada três metros, ele passava por uma porta sem maçaneta, nenhum método aparente de entrar além de um leitor de cartão.
Na terceira à esquerda, ele parou.
Lançou um olhar pela janelinha para a escuridão — apenas uma sala vazia. Fez o mesmo na décima porta, parando e colocando as mãos sobre os olhos para que conseguisse extrair mais detalhes das sombras. A cara de uma das criaturas do desfiladeiro bateu contra o vidro pelo lado de dentro, arreganhando os dentes, silvando.
Ethan cambaleou para trás na parede oposta, seu corpo aceso pelo susto quando a coisa guinchou detrás do vidro — grosso o bastante para abafar a maior parte do som. Passos ecoaram pela escada de onde ele acabava de vir. Ethan correu pelo corredor, tão rápido quanto possível, as lâmpadas fluorescentes deslizando acima dele como um riacho de luz artificial.
Ele olhou por cima do ombro ao chegar à escadaria, viu duas figuras de preto se dirigindo para a outra ponta do corredor a menos de cem metros. Um deles apontou e gritou algo, e os dois correram em sua direção.
Ethan disparou pela escada.
Duas portas de vidro automáticas deslizavam para se fechar logo adiante. Ele virou-se de lado, mal conseguindo se espremer para dentro enquanto elas se fechavam atrás dele.
Foram as proporções épicas do próximo espaço que o deixaram espantado, o propósito maluco daquele lugar o fazendo parar por completo. Não mais estava em piso, mas em pedra fria na beira de uma caverna do tamanho de dez armazéns — algo em torno de cem mil metros quadrados, no mínimo, era a suposição, e a distância do solo até o teto era de quase vinte metros em alguns pontos. Em toda sua vida, ele só tinha visto um espaço mais impressionante: a fábrica da Boeing em Everett, Washington. Globos gigantes de luz se dependuravam do teto de rocha, cada um iluminando uma seção de cem metros quadrados de chão.
Havia centenas.
As portas de vidro haviam começado a se abrir atrás dele, e Ethan conseguia ouvir os passos daqueles homens vestidos de preto — eles já haviam coberto metade da distância do corredor. Ethan correu pela caverna e disparou por uma passagem entre estantes repletas de tábuas de madeira de todas as dimensões. As prateleiras tinham doze metros de altura, um de profundidade de cada lado, e se estendiam pelo comprimento de um campo de futebol; Ethan supondo que continham suficiente quantidade de madeira linear para reconstruir Wayward Pines cinco vezes.
Numerosas vozes ecoaram pela caverna.
Ethan espiou por cima do ombro, viu alguém a mais de cinquenta metros disparando até ele. Saiu correndo pelo estreito desfiladeiro entre as estantes. Adiante, o espaço no chão foi interrompido por centenas de reservatórios cilíndricos de dez metros de altura e com a mesma largura, cada um capaz de conter centenas de metros cúbicos de volume, todos rotulados em letras de fôrma garrafais tão altas quanto Ethan. Arroz.
Farinha.
Açúcar.
Grãos.
Sal iodado.
Milho.
Vitamina C.
Soja.
Leite em pó.
Malte.
Cevada.
Fermento biológico.
Ethan correu por um labirinto de reservatórios. Podia ouvir passos — muito próximos —, mas com todas as interferências espaciais era impossível identificar a localização. Ele parou e se inclinou contra um tonel, respirando na camiseta na curva do braço, lutando para mascarar o ruído de seu ofegar.
Um homem em uniforme preto disparou por ele, segurando um rádio comunicador em uma das mãos e algo que parecia um bastão de conduzir gado na outra. Ethan esperou dez segundos e então mudou a rota, serpenteando pelos reservatórios por mais uma centena de metros até sair num estacionamento de carros. Os veículos variavam de modelos do início dos anos 1980 até modelos modernos que ele nunca tinha visto antes — desenhos curvilíneos, compactos, que pareciam mais carros de conceitos radicais do que qualquer coisa que pertencesse às ruas. Cada veículo, sem exceção, ostentava um cromado reluzente e trabalhos de pintura impecáveis sob a luz dos globos pendurados, todos parecendo novos e brilhantes como se tivessem saído da linha de montagem havia apenas trinta segundos. Um grupo de homens entrou correndo no campo de visão de Ethan na outra extremidade do estacionamento.
Ele se abaixou entre dois Jipes Cherokee de um vermelho profundo, não sabia se tinha sido visto, mas estava muito certo de ter vislumbrado armas automáticas. Arrastou-se pela distância de vários carros e então se ergueu lentamente ao lado da porta do motorista de um deles, até que estivesse espiando pelo para-brisa de um Impala do começo dos anos 1980.
Estavam mais perto do que ele havia imaginado, agora apenas a menos de dez metros e todos armados com submetralhadoras. Dois deles iluminavam com lanternas o interior de cada veículo pelo qual passavam, até que o terceiro se abaixou no chão e mirou a luz embaixo de cada carro.
Ethan foi para a direção oposta, sem se importar em ir abaixado, apenas correndo sobre o solo irregular de rocha e tentando se certificar de que sua cabeça não estivesse visível através de nenhum vidro.
Próximo dos limites do estacionamento, ele tropeçou num Crown Victoria com vidros escuros nas portas traseiras. Ele parou e, com precisão absoluta, puxou a maçaneta para abrir a porta sem fazer som algum.
A luz interna acendeu, e Ethan se esgueirou para dentro, puxando a porta atrás de si apenas com a força necessária.
Mesmo dentro do carro, ele podia ouvir o eco da porta fechando percorrer a caverna. Abaixado nas sombras atrás do banco do motorista, Ethan espiou por sobre o painel, pelo para-brisa.
O trio de homens agora estava de pé, cada um deles virando lentamente, tentando avaliar de onde o barulho tinha vindo.
Enfim eles se separaram, dois se afastando de Ethan, mas um deles indo diretamente para o carro em que ele estava.
Enquanto o homem se aproximava, Ethan se abaixou atrás do banco e se enrodilhou na menor e mais compacta bola em que conseguiu se contorcer. Os passos se aproximaram.
Ele estava com a cabeça enfiada entre os joelhos. Não conseguia enxergar nada.
Então os passos estavam logo ao lado de sua cabeça, a centímetros de distância, do lado de fora.
Eles não se afastaram.
Eles tinham parado.
O impulso de levantar a cabeça e ver o que estava acontecendo era tão forte que quase o dominou.
Queria saber se o homem estava iluminando o interior do Crown Victoria. Saber o quanto a luz penetraria os vidros escurecidos. Se não conseguisse ter uma visão decente do lado de dentro, será que abriria a porta? Os passos seguiram em frente, mas Ethan não se moveu — esperou mais cinco minutos até que não mais pudesse ouvi-los.
Por fim, ele se sentou e olhou pelo para-brisa.
Os homens tinham ido embora.
Ethan não via ninguém.
Abriu a porta e se abaixou na pedra. Se apurasse os ouvidos, poderia ouvir vozes, mas elas estavam muito longe, em alguma região distante da caverna. Trinta metros andando agachado o levaram aos limites do estacionamento. Logo adiante estava a parede da caverna e a abertura para um túnel largo o bastante para dois carros viajarem lado a lado.
Ethan se colocou de pé e cruzou até o túnel.
Estava vazio e bem-iluminado e descendia de onde ele estava, numa reta contínua com dez ou doze por cento de caída em relação ao piso da caverna, o pavimento impecável. Uma placa havia sido afixada na rocha acima da abertura em arco: letras brancas em fundo verde, exatamente como a sinalização de uma rodovia interestadual dos Estados Unidos. Mas só listava um destino…
WAYWARD PINES 5,6 km
Ethan lançou um olhar de volta para os carros, pensando que talvez pudesse pegar emprestado um dos modelos mais antigos, pois seria mais fácil de fazer ligação direta. Algo captou seu olhar — uma luz azul fria emanando de uma porta de vidro na rocha, a menos de cinquenta metros de distância.
O som de passos e vozes voltou ao seu raio de audição, ainda a uma boa distância, adiante dos carros. Ethan pensou ver o facho de uma lanterna atingir um dos reservatórios, mas não teve certeza.
Continuou perto da parede da caverna.
Ela se curvava de leve enquanto Ethan percorria a distância até a porta de vidro. Um metro e meio mais à frente, ele parou.
Enquanto a porta se abria deslizando, ele leu uma única palavra impressa no vidro: SUSPENSÃO
E entrou.
A porta se fechou atrás dele.
Estava muito mais frio, apenas alguns graus acima de congelante, e seu hálito se condensava no ar. A luz era um azul frígido, como sol atravessando um iceberg, e o ar era turvado por um gás pálido que pairava três metros acima, denso o suficiente para mascarar por completo o teto, como uma nuvem. E ainda assim, o espaço tinha um cheiro de limpeza, de algo lavado, como o dia depois de uma tempestade noturna de neve — inodoro, puro. O ruído de gás escapando e bipes suaves quebravam o silêncio. Nas dimensões aproximadas de um supermercado, a sala abrigava fileira após fileira de equipamentos cor de carvão — centenas e centenas deles — cada um do tamanho de uma máquina de vender bebidas, cada um exalando uma baforada de gás branco de seu teto como uma chaminé soltando fumaça.
Ethan andou pelo primeiro corredor e ficou de frente para uma das máquinas. Um painel vertical de vidro de cinco centímetros de largura percorria o meio, nada para ver além dele.
À esquerda do vidro, um teclado estava emoldurado por vários medidores e visores: todos zerados.
À direita, ele analisou a placa de identificação digital: JANET CATHERINE PALMER
TOPEKA, KS
DATA DE SUSPENSÃO: 3/2/82
RESIDENTE: 11 ANOS, 5 MESES, 9 DIAS
Ethan ouviu a porta deslizar, virou-se para ver quem tinha entrado, mas as ondas de gás bloqueavam sua visão. Ele caminhou por um corredor, mais fundo na névoa, visualizando a identificação de cada máquina por onde passava, as datas de suspensão progredindo de maneira regular pelos anos 1980.
Uma delas o fez parar de repente, as vozes misturadas ao som de gás escapando e de bipes. Atrás do painel central de vidro, era como se o interior da máquina tivesse sido preenchido com areia preta. Mal despontando entre o conteúdo, ele viu um dedo branco, imóvel, a ponta encostada no vidro abaixo da mancha de uma impressão digital. Os medidores mostravam o que parecia um monitor cardíaco com linha continua, e a temperatura marcava 21,1111ºC.
A identificação:
BRIAN LANEY ROGERS
MISSOULA, MT
DATA DE SUSPENSÃO: 5/5/84
TENTATIVAS DE INTEGRAÇÃO: 2
A próxima máquina na sequência estava vazia, mas Ethan reconheceu o primeiro nome, questionando-se se seria ela:
BEVERLY LYNN SHORT
BOISE, ID
DATA DE SUSPENSÃO: 3/10/85
TENTATIVAS DE INTEGRAÇÃO: 3
EXTERMINADA
Havia alguém se aproximando dele depressa. Arrancou-se da unidade de Beverly, a mente funcionando enquanto corria para o fim do corredor e começava pelo próximo. Que diabos isto tudo significa?
Devia existir agora meia dúzia de pessoas no recinto, todos o perseguindo, mas ele não se importava.
Apenas precisava ver mais uma unidade.
Tinha que ver.
E na quarta fileira, no meio do corredor, com vozes se aproximando, ele parou. Fitou a máquina vazia.
Sua máquina vazia.
JOHN ETHAN BURKE
SEATTLE, WA
DATA DE SUSPENSÃO: 24/9/12
TENTATIVAS DE INTEGRAÇÃO: 3
EM PROCESSO DE EXTERMÍNIO
Ler seu nome não tornou nada daquilo mais real. Ele estava ali sem saber o que fazer com a informação diante de seus olhos. Tentando ligar os pontos do que aquilo significava. Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, ele não conseguia dar a mínima para a ideia de sair correndo.
— Ethan!
Ele conhecia a voz, embora levasse um instante para ligar à memória. Ao rosto a que ela pertencia.
— Precisamos conversar, Ethan!
Sim, precisamos.
Era Jenkins. O psiquiatra.
Ethan começou a andar.
Sentiu como se estivesse se desenrolando há dias, mas agora estava chegando ao fim do fio, questionando-se o que exatamente aconteceria quando ele acabasse. — Ethan, por favor!
Ele sequer estava olhando mais os nomes, ou vendo quais máquinas estavam ocupadas e quais, vazias.
Apenas uma coisa importava, uma suspeita terrível corroendo suas entranhas. — Não queremos machucar você! Ninguém toque nele! Tudo o que conseguia era fazer as pernas trabalhar enquanto se aproximava da última máquina na última fileira, no canto mais distante de onde estava. Agora homens o seguiam.
Ele podia senti-los bem perto pela névoa.
Nenhuma chance de escapar já; mas será que isso ainda importava? Chegou à última máquina e colocou a mão no vidro para se amparar. Cercado por areia preta, o rosto de um homem estava pressionado à janelinha estreita percorrendo a frente da máquina.
Olhos abertos.
Sem piscar.
Sem respiração para embaçar o lado de dentro do vidro. Ethan leu no visor a data de suspensão: 2032. Ele se virou de costas quando o Dr. Jenkins emergiu da névoa, o homem pequeno de aparência modesta, flanqueado por cinco daqueles homens vestidos de preto com todo o equipamento de um batalhão de choque. Jenkins falou:
— Por favor, não nos faça machucar você.
Ethan disparou um olhar para o último corredor: mais duas figuras se assomavam na fumaça. Estava encurralado.
— O que é isso — perguntou.
— Entendo que você queira saber.
— Ah é?
O psiquiatra o analisou por um instante.
— Você está com uma aparência terrível, Ethan. — Então eu estava o quê? Congelado?
— Você estava em suspensão química.
— E o que isso significa?
— Simplificando muito, usamos sulfeto de hidrogênio para induzir hipotermia. Uma vez que a temperatura interna alcance níveis do meio ambiente, envolvemos você em areia vulcânica e nivelamos o gás sulfúrico a uma concentração que mate todo tipo de bactérias aeróbicas. Depois, atacamos as anaeróbicas. Em linhas gerais, atacamos qualquer coisa que sustente o envelhecimento celular. Isso o coloca num estado altamente eficiente de animação suspensa. — Então você está me dizendo que, pelo menos por um tempo, eu estava morto? — Não. Morte… por definição… é algo que não pode ser desfeito. Gostamos de pensar nesse conceito como o ato de desligá-lo de tal forma que isso nos permita ligá-lo outra vez. Reiniciar o sistema. Tenha em mente que estou dando a versão para leigos de um processo muito delicado e complexo. Um que precisou de décadas para ser aperfeiçoado. Jenkins avançou com a cautela que poderia ter usado para abordar um animal raivoso. Seus capangas seguiam de perto, também se aproximando aos poucos, mas ele os dispensou com um gesto, parando a sessenta centímetros de Ethan e esticando o braço lentamente até que sua mão tocasse o ombro dele.
— Entendo que isso seja muito para absorver. Esse fato não escapa à minha compreensão. Você não está louco, Ethan.
— Eu sei disso. Eu sempre soube. Então qual é o objetivo de tudo? O que significa? — Você gostaria que eu lhe mostrasse?
— O que acha?
— Está bem, Ethan. Está bem. Mas devo alertá-lo… Vou pedir algo em troca. — O quê?
Jenkins não respondeu. Em vez disso, apenas sorriu e tocou algo do lado de Ethan. Ele ouviu um clique, entendendo o que estava prestes a acontecer meio segundo antes de atingi-lo — era como se pulasse num lago congelado, todos os músculos se flexionando de uma só vez, os joelhos travando e o calor de uma fornalha num excruciante ponto de contato. E então ele estava no chão, o corpo inteiro vibrando e o joelho de Jenkins se enterrando em sua lombar.
A espetada da agulha na lateral de seu pescoço cortou os efeitos da paralisia muscular causada pela arma de eletrochoque, e Jenkins devia ter acertado uma veia, pois foi quase imediato, a dor do contato do aparelho se dissolvendo. A dor de tudo se dissolvendo.
A descarga de euforia chegando rápida e forte e Ethan lutando para ver através dela, manter contato com o medo do que estava acontecendo. Mas a droga era linda demais.
Pesada demais.
Ela o fez perder a consciência num êxtase indolor.