Pines

Blake Crouch · Capítulo 2 de 20

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Pines

Capítulo 2

Uma mulher sorria para ele do alto. Pelo menos, considerou que aquela fosse uma boca de belos dentes, embora sua visão embaçada, dupla, tornasse difícil afirmar com certeza. Ela se aproximou um pouco mais, ambas as cabeças se fundindo e suas feições cristalizando-se o suficiente para que ele percebesse que ela era bonita. Seu uniforme de mangas curtas era branco com uma fileira de botões na frente indo de cima até onde a saia terminava, logo acima dos joelhos.

Ela continuava repetindo seu nome.

— Sr. Burke? Sr. Burke, pode me ouvir? Sr. Burke? A dor de cabeça tinha passado.

Respirou fundo, com cuidado, até a dor nas costelas o interromper. Devia ter se encolhido, pois a enfermeira disse: — Ainda está sentindo desconforto no lado esquerdo? — Desconforto — ele grunhiu entre uma risada. — Sim, estou sentindo desconforto. Com certeza se pode chamar assim.

— Posso trazer algo um pouco mais forte para a dor se quiser. — Acho que consigo suportar.

— Certo, mas não se martirize, Sr. Burke. Qualquer coisa que eu puder fazer para lhe trazer mais conforto, é só dizer. Estou a seu dispor. Aliás, meu nome é Pam. — Obrigado, Pam. Acho que me lembro de você da última vez que estive aqui. Nunca esqueci esse uniforme clássico de enfermeira. Nem sabia que ainda faziam desses. Ela riu.

— Bem, fico contente em saber que sua memória está voltando. Isso é muito bom. O Dr. Miter virá vê-lo em breve. O senhor se importa se eu medir sua pressão? — Claro que não.

— Maravilha.

A enfermeira Pam pegou um medidor de pressão de um carrinho no pé da cama e prendeu-lhe a braçadeira no bíceps esquerdo.

— O senhor nos deu um belo susto, Sr. Burke — disse ao inflar a braçadeira —, indo embora desse jeito.

Ficou quieta enquanto a agulha do marcador descia. — Passei? — ele perguntou.

— Nota dez. A pressão sistólica é 12,2. A diastólica é 7,5 — abriu o velcro da braçadeira. — Quando o trouxeram, o senhor estava delirando — disse. — Não parecia saber onde estava. Ele se sentou na cama, a neblina de sua mente começando a se dissipar. Estava no quarto de um hospital particular. Achou que parecia familiar. Havia uma janela ao lado da cama. As persianas estavam abaixadas, mas a luz esgueirando-se por elas parecia tímida o bastante para que fosse ou de manhã cedo, ou no começo da noite. — Onde me encontraram? — ele perguntou.

— No jardim da frente de Mack Skozie. O senhor desmaiou. Lembra-se do que estava fazendo lá? Mack disse que o senhor estava muito agitado e confuso. — Acordei ontem perto do rio. Não sabia quem era ou onde estava. — O senhor foi embora do hospital. Lembra-se de ter saído?

— Não. Fui à residência de Skozie porque ele era o único Mack da lista telefônica. — Acho que não entendi.

— Mack era o único nome que tinha algum significado para mim. — Por que o senhor acha isso?

— Porque Mack é a última palavra que li antes que o caminhão nos atingisse. — Ah, entendi... foi um caminhão Mack que atingiu a lateral do seu carro. — Exato.

— A mente é uma coisa estranha — a enfermeira comentou, dando a volta na cama e caminhando até a janela. — Funciona de formas misteriosas. Procura conexões estranhas. — Quanto tempo faz desde que fui trazido de volta para cá? A enfermeira Pam ergueu as persianas.

— Um dia e meio.

A luz entrou no quarto.

Na verdade era de manhã, o sol revelando de leve o círculo oriental de picos. — O senhor teve uma concussão grave — ela disse. — Poderia ter morrido lá. — Senti como se estivesse morrendo.

As primeiras luzes do dia se derramando pela cidade eram deslumbrantes. — Como está a sua memória? — Pam perguntou. — A coisa mais estranha. Tudo voltou quando me lembrei do acidente. Como se alguém tivesse ligado um interruptor. Como está o agente Stallings? — Quem?

— O homem que estava no banco do passageiro quando a colisão aconteceu. — Oh.

— Não sobreviveu, não é?

A enfermeira Pam voltou para a lateral da cama. Estendeu a mão e tocou o pulso dele. — Receio que não.

Tinha imaginado. Não via aquele tipo de trauma desde a guerra. Ainda assim, ter a suspeita confirmada era chocante.

— Ele era seu amigo próximo? — perguntou a enfermeira. — Não. Eu o vi pela primeira vez mais cedo naquele mesmo dia. — Deve ter sido simplesmente horrível. Sinto muito. — Qual é o meu estrago?

— Perdão?

— Meus ferimentos?

— O Dr. Miter vai poder lhe informar melhor do que eu, mas o senhor sofreu uma concussão, que já está sob controle. Algumas costelas fraturadas. Alguns cortes e lesões superficiais. Considerando tudo, poderia ter sido muito, muito pior. Ela deu meia-volta e foi em direção à porta. Parou quando começou a abri-la e lançou-lhe um olhar rápido sobre o ombro.

— Então — disse —, tem certeza de que sua memória está voltando? — Absoluta.

— Qual é o seu primeiro nome?

— Ethan — ele respondeu.

— Excelente.

— Poderia me fazer um favor? — Ethan perguntou. Um amplo sorriso radiante.

— Diga.

— Existem pessoas para quem preciso telefonar. Minha esposa. Meu superior. Alguém entrou em contato com eles?

— Creio que alguém da delegacia ligou para os seus contatos de emergência logo após o acidente. Informaram o que aconteceu, sua condição. — Eu estava com meu iPhone no paletó na hora da colisão. Você saberia onde ele está? — Não, mas com certeza posso colocar meu chapéu de detetive Nancy Drew e descobrir para o senhor.

— Eu agradeceria.

— O botãozinho vermelho na lateral da cama, está vendo? Ethan olhou para ele.

— Estou a um toque de distância.

A enfermeira Pam lançou mais um sorriso reluzente e saiu. * * *

Não havia televisão no quarto, nem telefone. O melhor e único entretenimento era o relógio de parede pendurado sobre a porta, e Ethan ficou deitado na cama por várias horas observando o ponteiro dos segundos percorrerem sua órbita infindável, conforme a manhã caminhava para o meio do dia e então para a tarde.

Não podia ter certeza, mas seu quarto parecia ser no terceiro, talvez no quarto andar. A enfermeira Pam havia deixado as persianas abertas, e quando ele se cansou de olhar para o relógio, virou-se com cuidado sobre o lado bom e analisou os acontecimentos de Wayward Pines.

Daquele ponto privilegiado, podia ver a Rua Principal e vários quarteirões de cada lado dela. Antes de chegar ali, soubera que se tratava de uma cidade minúscula, onde nada acontecia, mas a aguda inatividade ainda o surpreendia. Uma hora se passou, e Ethan contou uma dúzia de pessoas caminhando pela calçada do hospital e nem um único carro percorrendo as vias mais movimentadas da cidade. O objeto de distração mais efetivo estava a duas quadras de distância: uma equipe de construção levantando a estrutura de uma casa. Pensou na esposa e no filho em Seattle, esperando que estivessem a caminho para visitá-lo. Provavelmente tinham entrado no primeiro avião. Teriam que voar até Boise ou Missoula. Alugar um carro pela longa trilha até Wayward Pines. Na vez seguinte que olhou no relógio, eram quinze para as quatro. Ficou deitado na cama o dia todo, e o Dr. Miter, ou qualquer que fosse seu nome, não se incomodou em aparecer. Ethan havia passado tempo significativo em hospitais, e em sua experiência, enfermeiras e médicos nunca deixavam os pacientes sozinhos por mais de dez segundos — alguém sempre estava trazendo uma nova medicação, sempre espetando e cutucando.

Ali praticamente o ignoraram.

A enfermeira Pam sequer havia aparecido com seu iPhone e outros pertences. Que movimento poderia haver naquele hospital no meio do nada? Esticou o braço até o painel acoplado à grade da cama e pressionou o polegar no botão “CHAMAR ENFERMAGEM”.

Quinze minutos mais tarde, a porta do quarto se abriu e a enfermeira Pam entrou tranquilamente.

— Oh, meu Deus, sinto muitíssimo. Não vi que tinha chamado até dez segundos atrás. Acho que estamos tendo alguns problemas como o nosso interfone — ela parou ao pé da cama e colocou as mãos nas grades metálicas. — O que posso fazer por você, Ethan? — Onde está o Dr. Miter?

Ela fez uma careta.

— Está preso numa cirurgia de emergência durante toda a tarde. Um daqueles pesadelos de cinco horas — riu. — Mas eu o informei dos seus sinais vitais hoje de manhã e do progresso fantástico que está fazendo com a memória. Ele acha que você está de parabéns. Ergueu os dois polegares para Ethan.

— Quando vou poder vê-lo?

— Parece que agora ele só vai fazer a ronda depois do jantar, o que deve acontecer na próxima meia hora.

Ethan esforçou-se para mascarar a crescente frustração. — Alguma notícia do meu celular e das outras coisas que tinha comigo antes do acidente? Isso incluiria minha carteira e minha valise preta.

A enfermeira bateu continência e marchou alguns passos sem sair do lugar. — Trabalhando nisso, capitão.

— Apenas me traga um telefone fixo imediatamente. Preciso fazer algumas ligações. — Claro, delegado.

— Delegado?

— Você não é tipo um delegado de polícia, ou algo assim? — Não, sou um agente especial do Serviço Secreto dos Estados Unidos. — Sério?

— Sério.

— Pensei que vocês protegiam o presidente.

— Cuidamos de outros assuntos também.

— Então o que está fazendo aqui em nossa pequena porção do paraíso? Ethan lançou-lhe um sorriso frio, mirrado.

— Não posso falar sobre isso.

Podia, na verdade, mas não estava com vontade. — Bem, agora você me deixou intrigada.

— O telefone, Pam.

— Oi?

— Eu realmente preciso do telefone.

— Pode deixar.

* * *

Foi quando o jantar enfim chegou — porções de gororoba verde e marrom em compartimentos de uma bandeja metálica brilhante —, mas o telefone não, então Ethan decidiu ir embora. Claro, havia fugido uma vez antes, mas não estava no juízo perfeito na ocasião, sofrendo de uma concussão severa.

Agora estava pensando com clareza.

A dor de cabeça havia passado, ele podia respirar mais facilmente e com menos dor, e, se o médico tivesse alguma preocupação real com seu estado, talvez o maldito tivesse feito a cortesia de aparecer em algum momento no curso das últimas dez horas. Ethan esperou até a enfermeira Pam sair, com sua frase de despedida assegurando-lhe que a comida do hospital “tinha o sabor muito melhor do que a aparência!”. Quando a porta se fechou, tirou o acesso do soro de seu pulso e pulou a grade da cama. O chão de linóleo estava frio na sola de seus pés descalços. Ainda faltava um pouco para que se sentisse completamente estável, mas ainda estava a anos-luz de seu estado de quarenta e oito horas antes.

Ethan caminhou até o armário e abriu a porta.

Sua camisa, paletó e calça estavam num cabide, seus sapatos no chão, logo abaixo. Nada de meias.

Nada de roupa de baixo.

Acho que vou ter que ir livre, leve e solto.

A única dor veio quando Ethan se curvou para puxar a calça, uma pontada aguda no alto de seu lado esquerdo que se dissipou quando ele endireitou o corpo. Deu uma olhada nas pernas nuas, e, como sempre, o nexo das cicatrizes o levou para longe do momento presente, lutou para puxá-lo a oito anos antes, para dentro de uma sala de paredes marrons cujo fedor de morte nunca o abandonaria. Procurou o canivete e o encontrou ainda dentro do paletó. Bom. Era uma relíquia de seus vinte e poucos anos, quando havia trabalhado como mecânico de helicópteros — agora mais um talismã do que uma ferramenta funcional, mas oferecia algum grau de conforto saber onde estava.

Parou em frente a um espelho no banheiro, atrapalhando-se com a gravata. Foram necessárias cinco tentativas para deixá-la do jeito certo. Dedos inseguros e desajeitados, como se não fizessem um nó de gravata havia anos.

Quando finalmente apertou um nó Windsor medíocre, deu um passo para trás e avaliou sua aparência.

Os hematomas no rosto pareciam um pouco melhor, mas seu paletó ainda tinha manchas de grama e de terra e um pequeno rasgo no bolso esquerdo. A camisa branca de oxford, por baixo, também estava manchada: dava para ver o sangue respingado perto do colarinho. Havia perdido vários centímetros de cintura no curso dos últimos dias e teve que apertar o cinto no último furo. Ainda assim, suas calças pareciam folgadas demais. Abriu a torneira, molhou as mãos e passou os dedos pelo cabelo. Repartiu. Tentou dar aos fios alguma aparência de ordem. Bochechou com água morna várias vezes, mas ainda sentia a boca suja. Cheirou as axilas — fedorentas.

Também precisava fazer a barba. Anos se passaram desde que ficara com a aparência tão rústica.

Calçou os sapatos, amarrou-os e andou na direção da porta do banheiro. Seu primeiro instinto foi partir sem ser visto, e isso o intrigou. Era um agente federal com toda a autoridade do Governo dos Estados Unidos. Isso significava que as pessoas tinham que fazer o que ele mandasse. Mesmo enfermeiras e médicos. Não queriam deixar que ele fosse embora? Grande coisa. E ainda assim, alguma parte dele estava resistindo ao alarde de criar uma cena. Era idiota, ele sabia, mas não queria que a enfermeira Pam o pegasse no pulo.

Girou a maçaneta e abriu a porta um centímetro. Do que ele podia ver do corredor, estava vazio. Apurou os ouvidos.

Nada de conversa distante de enfermeiros.

Nada de passos.

Apenas silêncio ensurdecedor.

Esticou o pescoço para fora.

Uma olhada rápida para a esquerda e para a direita confirmou sua suspeita. Por enquanto, o local estava vazio, mesmo o posto de enfermagem a uns quinze metros adiante, pelo corredor. Saiu do quarto, pisou no chão de linóleo quadriculado e fechou a porta com cuidado atrás de si.

Ali fora, o único som vinha das luzes fluorescentes logo acima — um zumbido suave e constante.

De repente, deu-se conta do que deveria ter feito antes de qualquer outra coisa. Curvou-se, apesar da dor nas costelas, e desamarrou os sapatos. De pés descalços, avançou pelo corredor.

Todas as portas naquela ala estavam fechadas e nenhuma luz esgueirava-se por baixo delas; nenhum dos quartos além do seu parecia ocupado. O posto de enfermagem estava vazio. Ali quatro corredores se encontravam, três dos quais levavam a outras alas de quartos.

Um corredor mais curto atrás do posto acabava em portas duplas, em cima das quais estava uma placa exibindo as palavras CENTRO CIRÚRGICO. Ethan parou no elevador em frente ao posto e apertou o botão para descer. Ouviu polias começarem a girar do outro lado das portas. — Vamos.

Demorou anos.

Percebeu que deveria simplesmente ter ido pela escada. Continuou olhando sobre o ombro, tentando perceber se passos se aproximavam, mas não conseguiu ouvir nada além do barulho da cabine do elevador subindo. As portas enfim se separaram, com um rangido que fez os dentes de Ethan doerem, e ele deu um passo para o lado, caso alguém tivesse subido junto. Ninguém saiu do elevador.

Entrou depressa e apertou o “T”.

Analisando os números iluminados sobre as portas, ele observou o elevador começar a descer do quarto andar, e um minuto inteiro se passou, tempo o suficiente para que calçasse de volta os sapatos, antes que o “T” fosse iluminado e as portas começassem a se escancarar. Espremendo-se, saiu para uma nova intersecção de corredores. Murmúrio de vozes não muito longe.

O barulho de maca sendo empurrada sobre rodas estridentes. Foi para o lado oposto, seguindo por três longos corredores, e começava a suspeitar que estivesse perdido quando viu uma placa de SAÍDA. Desceu às pressas meio lance de escadas, empurrou a porta ao fim delas e saiu para a rua aos tropeços.

Era o começo da noite, o céu límpido escurecendo, e as montanhas assumindo as cores do sol poente: tons de rosa e alaranjado. Estava parado num pequeno caminho que ligava a rua ao hospital. Tratava-se de um prédio de quatro andares com tijolos vermelhos aparentes que mais lembrava uma escola, ou um hospício.

Inspirou a maior dose de oxigênio que conseguiu sem causar dor, e foi incrível inalar o ar fresco com perfume de pinheiro depois de ter respirado o fedor de antisséptico hospitalar. Alcançou a calçada e começou a descer a Rua Principal em direção aos prédios do centro. Havia mais gente na rua do que durante a tarde. Passou por um restaurante situado numa casa pequena com um pátio de um dos lados. Pessoas jantavam ao ar livre, sob choupos de onde se penduravam cordões com luzinhas brancas. O cheiro de comida fez seu estômago roncar.

Na esquina da Principal com a Rua Cinco, atravessou e voltou para a cabine telefônica onde tinha perdido a consciência dois dias antes.

Entrou e folheou a lista telefônica até encontrar o endereço da Delegacia de Wayward Pines. * * *

Sentia-se melhor do que há dias enquanto caminhava na direção leste da cidade com a luz minguando e a temperatura caindo.

Caminhou e viu um churrasco em andamento.

O cheiro de carvão na brasa.

O aroma gostoso e acre de cerveja exalando de copos de plástico. O som de risada de crianças ecoando pelo vale. O barulhinho estalado de um irrigador de jardim por perto, parecendo uma cigarra. Para onde olhava, era uma pintura.

Como um ideal platônico de cidade. Não poderia haver mais de quatrocentos ou quinhentos habitantes, e ele se pegou questionando o que os teria atraído até ali. Quantos tinham conhecido Wayward Pines por acidente, se apaixonado, ficado? Quantos teriam nascido ali e nunca saído?

Por mais que sempre tivesse sido um sujeito de cidade grande, podia entender os que não deixavam um lugar como aquele. Por que abandonar o que parecia ser a total e completa perfeição? O suprassumo da cultura típica americana, rodeado de algumas das belezas naturais mais notáveis em que Ethan já havia posto os olhos. Vira fotos de Wayward Pines na noite anterior a deixar Seattle, mas nenhuma delas sequer chegava perto de fazer justiça àquele pequeno vale.

E ainda assim, ele estava ali.

E em virtude daquele fato, ou por causa dele, aquele lugar não era perfeito. Experiência própria: havia escuridão onde quer que humanos se reunissem. O mundo era assim.

Perfeição era algo da superfície. A epiderme. Bastava cortar algumas camadas mais abaixo para ser possível ver as tonalidades mais escuras. Se cortasse até o osso — negror de carvão.

Não conseguiu tirar os olhos das montanhas enquanto caminhava. O paredão oriental devia alcançar uns mil e duzentos metros. Próximo ao cume, tudo era gelo e rocha. As derradeiras faixas horizontais de luz do sol atingiam os penhascos pelas costas; Ethan se virou e gastou alguns minutos parado para observar o brilho desvanecer. Quando a luz se foi, instantaneamente a rocha se tornou da cor do aço enegrecido.

E sua natureza mudou.

Ainda era linda.

Porém mais remota.

Indiferente.

* * *

O letreiro sobre as portas duplas de vidro:

DELEGACIA DE WAYWARD PINES

Andando em direção à entrada principal por um caminho ladeado de mudas de pinheiro, ele sentiu um novo impulso de frustração percorrê-lo. Através do vidro, podia ver que a recepção estava escura e vazia. Ainda assim, segurou as portas e deu um puxão brusco. Trancadas.

Já tinha acabado o expediente, com certeza, mas que droga. Ethan se afastou de costas da entrada e observou a largura do prédio térreo. Na extremidade, parecia que um facho de luz se esgueirava pelas persianas atrás de uma janela. Avançou outra vez, bateu o nó dos dedos em uma das portas de vidro. Nada.

Bateu com ainda mais força, atingindo o vidro tão forte que as portas balançaram no batente. Cinco minutos se passaram, mas ninguém jamais veio. * * *

Duas estrelas e um planeta já haviam aparecido à hora que ele alcançou a Rua Principal, e a sensação de frio que era agradável quinze minutos antes havia se tornado desconfortável, penetrando sua camisa fina de oxford, seus pés sem meias começando a ficar adormecidos. Pior, o primeiro sinal de fome verdadeira estava se manifestando como uma dor oca na boca do estômago e uma tontura atrás dos olhos.

Andou vários quarteirões até o Wayward Pines Hotel e subiu os degraus de pedra na entrada. Pelos painéis de vidro na porta, ele viu luzes acesas do lado de dentro e uma mulher jovem sentada atrás de um balcão.

Ethan entrou no lobby e sentiu uma baforada bem-vinda de calor. Um piano de cauda ocupava um canto em frente a uma enorme lareira que, naquele momento, abrigava um fogo vigoroso.

Parou por um momento e estendeu as mãos para a fonte de calor. A resina de pinheiro em ebulição exalava o aroma doce de uma vela. Ele poderia ter se estirado no sofá e tirado uma soneca por dias.

Depois de um instante, arrastou-se dali e caminhou até a recepção. A moça sorriu para Ethan quando ele se aproximou. Supôs que ela tivesse vinte e poucos anos. Bonitinha, embora um pouco acima do peso, tinha o cabelo preto preso num rabo de cavalo curto. Usava uma camisa social branca sob um colete preto, e seu crachá a identificava como “Lisa”. Ethan andou discretamente até o balcão alto e apoiou os antebraços para se equilibrar. — Boa-noite — Lisa disse. — Bem-vindo ao Wayward Pines Hotel. Como posso ajudá-lo esta noite?

Aquele cumprimento parecia estranho. Não as palavras, mas a entonação. Como se ela estivesse lutando com algo que quase nunca tinha que dizer.

— Tem algum quarto vago para hoje?

— Com certeza temos.

Lisa digitou num teclado.

— Apenas para esta noite? — ela perguntou.

— Sim. Pelo menos por enquanto.

Ethan lançou um olhar para o monitor: uma monstruosidade antiga. Como algo do fim dos anos oitenta. Não conseguia se lembrar da última vez que tinha visto tal dinossauro. — Tenho um quarto para hóspedes não fumantes e sem animais no segundo piso, com uma cama king size.

— Serve.

Ela terminou de digitar.

— E o senhor gostaria de pagar com cartão de crédito? Ethan sorriu.

— Essa é uma pergunta interessante.

— Ah é? Em que aspecto?

— Estive envolvido num acidente de carro há vários dias. Um caminhão atingiu a lateral do meu carro. Na verdade, logo aqui na outra esquina. Talvez você tenha visto. — Não, com certeza não vi.

— Bem, acabei de ter alta do hospital, e a questão é... Não consegui localizar a minha carteira. Aliás, nenhum dos meus pertences pessoais. — Ah, sinto muito em saber.

Pensou notar o sorriso de Lisa perder apenas um traço de seu entusiasmo inicial. — Então como exatamente vai pagar, Sr...?

— Burke. Ethan Burke. Veja bem, é o que eu estou tentando lhe dizer. Não vou poder pagar pelo quarto até conseguir minha carteira de volta amanhã. Fui informado de que o xerife está de posse das minhas coisas. Não sei por que, mas... — ele deu de ombros — é isso. — Hum. Veja, não tenho permissão para abrir uma reserva sem pagamento adiantado em dinheiro ou pelo menos um número de cartão de crédito. É a política do hotel. Caso... e não estou dizendo que isso necessariamente vai ocorrer, mas caso haja qualquer dano ao quarto ou taxa que...

— Entendo. Tenho plena consciência do porquê de se exigir o depósito. Só estou dizendo que poderia pagar você amanhã de manhã.

— O senhor não tem nem uma habilitação?

— Está tudo na minha carteira.

Lisa mordeu o lábio inferior, e ele conseguia ver o que vinha pelo caminho: uma garota legal se preparando para fazer o papel de vilã.

— Senhor... Sr. Burke, receio que sem um cartão de crédito, ou uma identificação, não vou mesmo poder lhe oferecer um quarto esta noite. Eu adoraria. De verdade. Mas é a política do hotel e...

Ela parou de falar quando Ethan se inclinou sobre o balcão. — Lisa, você sabe por que eu estou usando terno preto? — Não.

— Sou um agente especial do Serviço Secreto dos Estados Unidos. — Quer dizer um daqueles caras que protegem o presidente?

— Este é apenas um dos nossos deveres. Nossa missão principal é proteger a integridade da infraestrutura financeira do nosso país.

— Então o senhor está, tipo, numa investigação em Wayward Pines? — Estou. Eu tinha acabado de chegar à cidade quando o acidente aconteceu. — Que tipo de investigação?

— Não posso divulgar nenhum detalhe.

— O senhor não está de brincadeira comigo, está? — Se eu estivesse, estaria cometendo um crime federal. — O senhor é mesmo um agente especial?

— Sim. E estou cansado e pedindo que você me poupe. Preciso de um quarto para passar a noite. Prometo... pode confiar em mim, eu vou pagar. — E vai pagar amanhã? Logo cedo?

— Logo cedo.

* * *

Chave em punho, ele subiu até o segundo andar com passos pesados e saiu num corredor longo e quieto. Havia imitações de lampiões pendurados nas paredes a cada seis metros, que emanavam uma luz fraca e amarelada no carpete persa. Seu quarto era no fim do corredor, o número 226. Destrancou a porta, entrou, acendeu a luz.

A decoração puxava para um estilo caseiro.

Dois quadros icônicos de Velho Oeste malfeitos. Um caubói num cavalo xucro saltando.

Grupo de vaqueiros reunidos em volta de uma fogueira. O quarto era abafado e não tinha televisão.

Apenas um antigo telefone preto de disco sobre uma das mesas de cabeceira. A cama em si parecia fofa e gigantesca. Ethan sentou com cuidado no colchão e desamarrou os sapatos. Andar por aí sem meias já havia lhe rendido várias bolhas na parte de trás dos tornozelos. Tirou o paletó, a gravata, e abriu os três primeiros botões da camisa de oxford. Havia uma lista telefônica na gaveta do criado-mudo; ele a tirou de lá, colocou sobre a cama e pegou o fone do aparelho antiquado.

Linha.

Graças a Deus.

De forma estranha, seu número telefônico não saltou à memória de imediato. Precisou passar um minuto visualizando-o, tentando resgatar a imagem do número surgindo quando ele digitava na tela do iPhone. Havia se lembrado outro dia, mas... — Dois... zero... seis. — Sabia que começava com esses três números, o código de área de Seattle, e cinco vezes ele os discou no telefone, mas cinco vezes teve um branco depois do número seis.

Ligou para o número de lista telefônica.

Depois de dois toques, uma telefonista respondeu: — Cidade e nome?

— Seattle, Washington. Ethan Burke. B-U-R-K-E. — Um momento, por favor. — Do outro lado da linha ele podia ouvir a mulher teclando. Houve uma longa pausa. E então: — B-U-R-K-E?

— Exato.

— Senhor, não há nada registrado nesse nome.

— Está certa disso?

— Sim.

Com certeza era estranho, mas considerando a natureza de seu emprego, seu número telefônico provavelmente não estava na lista. Aliás, para falar a verdade, ele tinha quase certeza de que estava. Quase.

— Certo, obrigado.

Colocou o telefone no gancho e abriu a lista telefônica. Localizou o número da delegacia. Chamou cinco vezes e caiu na caixa postal.

Depois do bipe, Ethan disse:

— Aqui quem fala é o agente especial Ethan Burke, do Serviço Secreto dos Estados Unidos, divisão de Seattle. Como o senhor deve saber, estive envolvido no acidente automotivo na Rua Principal há alguns dias. Preciso lhe falar no primeiro momento oportuno. O hospital me informou que o senhor está de posse dos meus pertences pessoais. Incluindo minha carteira, meu telefone, valise e arma de fogo. Passarei aí amanhã na primeira hora para pegá-los. Se alguém receber esta mensagem antes disso, por favor, ligue para mim no Wayward Pines Hotel. Estou no quarto 226.

* * *

Já era de noite quando Ethan desceu os degraus na entrada do hotel, os pés o matando, morrendo de fome.

A cafeteria adjacente estava fechada, por isso seguiu rumo ao norte sob um céu repleto de estrelas, passando por uma rara livraria, algumas lojas de presentes e um escritório de advocacia.

Não era assim tão tarde, mas com tudo já fechado, as calçadas da Principal estavam vazias. Começava a se conformar com o horror de ficar sem o jantar, além de todos os outros acontecimentos, quando vislumbrou uma luz se derramando sobre a calçada na próxima quadra. Seu ritmo involuntariamente se acelerou quando ele captou a primeira sugestão do aroma de comida quente vindo de uma abertura de ventilação no prédio logo adiante. Ao alcançar a entrada, olhou pelo vidro para o interior de um pub à meia-luz chamado The Biergarten.

Seu coração se aqueceu — ainda estava aberto. Ele entrou.

Três mesas ocupadas, fora isso o lugar estava morto. Escolheu uma banqueta no canto do balcão.

Por um par de portas vaivém, chegava o som de carne grelhando. Sentado naquele pub, os braços descansando sobre o balcão bem gasto, sentiu-se em paz pela primeira vez em dias. A memória de Stallings e do acidente estava próxima, ameaçando tomá-lo de assalto, mas Ethan se recusava a deixar que dominasse sua mente. Apenas inspirou e expirou, tentando se manter enraizado o mais firme possível no presente. Depois de cinco minutos, uma mulher alta, como uma massa de cabelos castanhos presos no alto da cabeça com dois palitos, empurrou as portas e levantou o tampo de uma seção do balcão.

Ela foi até Ethan, toda sorrisos, e jogou uma bolacha para copos diante dele.

— O que vai beber?

Ela usava uma camiseta preta com o nome do pub estampado na frente. — Uma cerveja seria ótimo.

A bartender pegou um copo e foi até as torneiras. — Uma cerveja clara? Escura?

— Você tem Guinness?

— Tenho algo assim.

Ela já havia acionado a torneira quando ele se lembrou de que não tinha dinheiro algum. Ela colocou o copo diante dele, espuma cremosa escorrendo pelas laterais, e disse: — Só vai beber ou quer ver o menu?

— Comida, com certeza — respondeu —, mas você vai me matar. A mulher sorriu.

— Ainda não. Eu praticamente nem o conheço. — Não tenho um tostão.

O sorriso morreu.

— Certo, talvez você esteja aprontando alguma. — Posso explicar. Viu o acidente que aconteceu na Principal há alguns dias? — Não.

— Ouviu falar, não ouviu?

— Não.

— Bom, aconteceu um, apenas alguns quarteirões ao sul daqui e eu estava nele. Na verdade, acabei de sair do hospital.

— Então foi assim que você ganhou esses hematomas bonitos? — Acertou.

— Ainda estou tentando entender o que isso tem a ver com você não me pagar. — Sou um agente federal.

— Mesma pergunta.

— Pelo que me disseram, o xerife está com a minha carteira e o meu telefone. Aliás, tudo. Isso está sendo uma grande dor de cabeça.

— De onde você é? FBI e tal?

— Serviço Secreto.

A mulher sorriu e inclinou-se sobre o balcão, chegando mais perto dele. Seria difícil afirmar à meia-luz, mas, olhando de perto, ela era bem bonitona. Alguns anos mais nova do que Ethan, com maçãs do rosto no estilo de modelo, tronco curto e pernas longas. Era provável que tivesse sido linda de morrer quando estava na casa dos 20, embora os 34 ou 35 anos — ou qual fosse sua idade — não a estivessem tratando tão mal. — Não sei se você é um golpista e isso tudo faz parte do seu jogo. Aparecer aqui de terno preto e essa loucura...

— Não estou mentindo...

Ela tocou os lábios dele com um dedo.

— Entendo assim: ou você é exatamente quem diz que é, ou é um mentiroso espetacular. Quero dizer, essa é uma boa história, e eu gosto de boas histórias. De qualquer forma, claro que vou deixar você jantar e pendurar a conta.

— Não é mentira... qual o seu nome?

— Beverly.

— Sou Ethan.

Deram um aperto de mãos.

— Prazer em conhecer, Ethan.

— Beverly, assim que eu recuperar minha carteira e minhas coisas amanhã de manhã, volto aqui...

— Vou adivinhar... vai me dar uma bela gorjeta? Ethan sacudiu a cabeça.

— Agora você está zombando de mim.

— Desculpe.

— Se você não acredita em mim, eu vou...

— Acabei de conhecê-lo — ela respondeu. — Quando tiver terminado o jantar, vou saber se o verei ou não outra vez.

— Cedo demais para dizer, hein? — ele sorriu, sentindo como se estivesse conseguindo convencê-la.

Beverly lhe trouxe o menu; ele pediu batatas fritas largas e um cheeseburger tão malpassado quanto o ministério da saúde permitisse.

Quando Beverly desapareceu na cozinha com o pedido, ele bebericou a cerveja. Hum. Algo estava esquisito. A cerveja estava choca e, sem falar da mais tênue sugestão de amargor no final, estava completamente desprovida de gosto. Ele colocou o copo no balcão quando Beverly estava voltando. — Vou comer sem pagar, então estou meio sem graça de reclamar — ele disse —, mas alguma coisa está errada com essa cerveja.

— Jura? — Ela apontou o copo. — Você se importa se eu... — Vá em frente.

Ela ergueu o copo, tomou um gole e lambeu a espuma do lábio superior quando o colocou de novo no balcão.

— O gosto está normal para mim.

— Sério? —

É sim.

— Não, a cerveja está choca e... eu não sei... é só que... não tem gosto de nada. — Estranho. Não percebi nada disso. Quer tentar uma cerveja diferente? — Não, acho que eu nem deveria estar bebendo, de qualquer forma. Só vou tomar uma água. Ela trouxe um copo limpo e colocou água sobre o gelo. * * *

Ethan ergueu um cheeseburger fumegante do prato com as duas mãos. Beverly estava limpando o outro lado do balcão com um pano quando ele a chamou, o sanduíche suspenso diante da boca.

— O que foi? — ela perguntou.

— Nada. Ainda. Venha aqui.

Ela foi e o encarou.

— Minha experiência — ele disse — é que em mais ou menos oitenta por cento das vezes, quando peço um hambúrguer muito malpassado como acabei de pedir, recebo um bem-passado. Não sei por que a maioria dos cozinheiros é incapaz de fritar um hambúrguer do jeito certo, mas aqui está. E sabe o que eu faço quando recebo um lanche passado demais? — Devolve? — ela não parecia achar graça.

— Exatamente.

— Você é um cara bem difícil de agradar, sabia? — Tenho ciência disso — ele respondeu e abocanhou o sanduíche. Mastigou por uns bons dez segundos.

— E então? — Beverly perguntou.

Ethan colocou o hambúrguer de volta no prato, engolindo ao limpar as mãos no guardanapo de pano. Apontou o lanche.

— Isso aqui ficou uma obra de arte.

Beverly riu e revirou os olhos.

* * *

Quando Ethan terminou o último farelo de sua refeição, era o único cliente ainda no restaurante.

A atendente do pub recolheu o prato e depois voltou para completar o copo com água. — Você vai ficar bem esta noite, Ethan? Tem um bom lugar para ficar? — Tenho, passei a lábia na recepcionista do hotel até convencê-la a me dar um quarto. — Ela também caiu na sua história horrível, foi isso? — Beverly deu um sorriso espertinho. — De cabo a rabo.

— Bom, já que isso aqui é por minha conta, posso lhe oferecer sobremesa? Nosso bolo de chocolate é de outro mundo.

— Obrigado, mas é melhor eu ir andando.

— O que exatamente você está fazendo aqui? A trabalho, quero dizer. Entendo se você não puder falar a respeito...

— Investigação de desaparecimento.

— Quem desapareceu?

— Dois agentes do Serviço Secreto.

— Desapareceram aqui? Em Wayward Pines? — Há mais ou menos um mês, o agente Bill Evans e a agente Kate Hewson vieram aqui numa investigação confidencial. Até o momento, faz dez dias que não temos notícias deles. Perda total de comunicação. Sem e-mails. Sem telefonemas. Até o rastreador GPS no carro deles perdeu o sinal.

— E eles o enviaram para encontrá-los?

— Eu trabalhava com a Kate. Éramos parceiros quando ela vivia em Seattle. — Só isso? — Beverly perguntou.

— Não entendi?

— Apenas parceiros?

Ele podia sentir o tremor de algo — tristeza, perda, raiva — vibrando dentro de si. Mas escondeu bem.

— É, só éramos parceiros. Amigos também, na verdade. De qualquer forma, estou aqui no rastro deles. Descobrir o que aconteceu. Levá-los para casa. — Acha que alguma coisa ruim aconteceu?

Ele não respondeu, apenas a encarou, mas já era uma resposta. — Bem, espero que encontre o que está procurando, Ethan. — Beverly pegou uma comanda do bolso da frente do avental e deslizou-a pelo balcão. — Então isso aqui é prejuízo meu, não é?

Ethan olhou a comanda. Não era uma conta com itens. Beverly havia escrito um endereço por cima das colunas.

Primeira Avenida, 604

— O que é isso? — Ethan perguntou.

— É onde eu moro. Se precisar de alguma coisa, se arrumar confusão, sei lá... — O quê? Agora está preocupada comigo?

— Não, mas sem dinheiro, sem telefone, sem identidade, você está numa situação vulnerável. — Então agora acredita em mim?

Beverly inclinou-se sobre o balcão e colocou a mão sobre a dele por apenas um instante. — Sempre acreditei em você.

* * *

Fora do pub, ele tirou os sapatos e começou a andar pela calçada com pés descalços, o concreto frio, mas pelo menos conseguia andar sem dor. Em vez de voltar para o hotel, seguiu por uma das ruas que cruzavam a Principal e entrou numa área residencial.

Pensando em Kate.

Casas vitorianas alinhavam-se dos dois lados da rua, valorizadas pelo reluzir das varandas. O silêncio era assombroso.

Nunca havia noites como aquela em Seattle.

Sempre o lamentar distante de alguma ambulância ou alarme de carro ou o tamborilar de chuva pelas ruas.

Ali, o silêncio completo, mortal, era quebrado apenas pelo ruído suave da sola de seus pés sobre a calçada...

Espere.

Não, havia outro som: um grilo solitário cricrilando num arbusto adiante. Aquilo o levou de volta para sua infância no Tennessee e as noites de meados de outubro, quando se sentava na varanda fechada com tela, enquanto seu pai fumava cachimbo, olhando além dos campos de soja, o coro dos grilos minguando até ser apenas um indivíduo solitário. O poeta Carl Sandburg não tinha escrito sobre aquela mesma coisa? Ethan não lembrava a estrofe de cor, sabia apenas que tinha algo a ver com a voz do último grilo sobre a geada. Uma lasca de canto.

Ali estava: era a frase que ele adorava.

Uma lasca de canto.

Parou ao lado da moita, meio esperando que o cricrilar parasse de forma abrupta, mas continuou num ritmo tão constante que quase parecia mecânico. Grilos esfregavam as asas para fazer aquele som, ele havia lido em algum lugar. Ethan observou o arbusto.

Alguma espécie de junípero.

Perfume forte, fragrante.

Uma lâmpada da rua próxima lançava um raio decente de iluminação nos galhos, e ele se inclinou para a frente a fim de ver se conseguia vislumbrar o grilo. O cricrilar continuou, incessante.

— Onde você está, menino?

Inclinou a cabeça de lado.

Agora estava de olhos semicerrados observando algo mal aparecendo entre os galhos. Mas não era o grilo. Em vez disso, algum tipo de caixa, mais ou menos do tamanho de seu iPhone. Esticou o braço entre os galhos e tocou a superfície do objeto. O cricrilar ficou mais suave.

Ele puxou a mão.

Mais alto.

Diabos, qual era o sentido daquilo?

O cricrilar do grilo era emitido por um alto-falante. * * *

Eram quase dez e meia quando destrancou a porta do quarto do hotel e entrou. Deixou os sapatos caírem, tirou a roupa e subiu na cama sem nem mesmo se importar em apagar as luzes. Havia aberto uma das janelas antes de sair para jantar e podia sentir uma brisa fina, fresca, soprando no seu peito, levando para longe o acúmulo de calor sufocante do dia. Em um minuto, estava com frio.

Sentou-se, afastou a colcha e o lençol e entrou debaixo. * * *

Lutando pela própria vida, perdendo, a criatura em cima dele, num frenesi tentando rasgar sua garganta, o único elemento a manter Ethan vivo era o aperto esmagador que fazia no pescoço do monstro — apertando, apertando —, mas a coisa tinha uma força bruta, pura. Ele podia sentir os músculos duros quando seus dedos cravaram na pele leitosa, translúcida. Mas não iria parar por ali, seu tríceps começando a ter câimbras e seus braços cedendo enquanto a cara, os dentes, aproximavam-se centímetro a centímetro... * * *

Ethan acordou sentando de repente na cama, pingando de suor, esforçando-se para recuperar o fôlego, o coração tão disparado que era menos uma batida do que um estremecimento constante no peito.

Não fazia ideia de onde estava até ver a pintura dos caubóis e da fogueira. O despertador na mesa de cabeceira mudou para três e dezessete. Acendeu a luz, fitou o telefone.

Dois... zero... seis...

Dois... zero... seis...

Como não conseguia se lembrar do telefone de casa? Ou mesmo do celular de Theresa? Como era possível?

Trazendo as pernas para a lateral da cama, ele se levantou e caminhou até a janela. Abriu a persiana, olhou para a rua tranquila lá embaixo. Prédios escuros.

Calçadas vazias.

Pensando bem, amanhã vai ser melhor.

Recuperaria o celular, a carteira, a arma, a valise. Ligaria para a esposa, para o filho. Ligaria para Seattle e falaria com Hassler, o Agente Especial no Comando, seu superior hierárquico. Retomaria a investigação sobre o que o havia levado até ali, para começo de conversa.