Pines

Blake Crouch · Capítulo 11 de 20

Páginas do PDF

Pines

Capítulo 11

Ethan correu até o cruzamento seguinte, mais luzes aparecendo cada vez que olhava para trás, mas seu perseguidor mais próximo — o saltador — era sua preocupação imediata. O homem havia disparado à frente de seus compatriotas mais lentos, Ethan pensando que ele parecia familiar — a cabeça careca, os óculos enormes com armações prateadas — e quando o homem ficou a um raio de dez metros, Ethan se deu conta de quem se tratava: o imbecil do farmacêutico de quem tinha tentado comprar aspirina dois dias antes. Rua Principal assomando-se a um quarteirão, um ruído perturbador borbulhante subindo pelos prédios de dois e três andares — o murmurejar de uma multidão se reunindo. Sob nenhuma circunstância ele poderia correr nu pela Rua Principal. Mas naquele passo e sem alterar a trajetória, em mais vinte segundos estaria fazendo exatamente isso.

Uma rua separava Ethan da Principal, e não era nem uma rua — apenas um beco que rasgava atrás de fileiras de prédios. Deu-lhe um último jato de adrenalina embebida em fúria o fato de perceber que se dobrasse a esquina naquele beco e topasse com alguém, qualquer um, estaria perdido.

Retalhado até a morte por um farmacêutico empunhando um facão. Que jeito legal de partir.

Uma garagem de um andar num dos lados da rua e ele supôs que a esquina do prédio, quando virasse, interromperia a linha de visão do farmacêutico por uns dois segundos. Se não houvesse uma multidão esperando por ele no beco, poderia ser o suficiente. Ethan tinha corrido em disparada pelo meio da rua morta, mas agora era a hora de fazer sua jogada.

Deu uma guinada para a direita, cortando sobre a calçada escorregadia por causa da chuva. Não posso cair.

Cruzou uma tira de grama, depois calçada, depois grama novamente, e quando alcançou a abertura do beco ocorreu-lhe que não tinha ideia do que iria fazer. Não há tempo para planejar. Apenas reaja. Pela proximidade do som dos solados, estimava que o farmacêutico estivesse a seis passos de distância.

Ethan disparou para o beco.

Concreto para terra.

Mais escuro.

Névoa com um toque do fedor de lixo molhado. Não viu ninguém nas imediações além de um par de lanternas, a dezenas de metros de distância, vagueando em sua direção.

Ethan virou os pés de lado paralelamente, como se freando sobre um par de esquis, interrompendo o movimento para frente com uma derrapada terminou numa parada muito abrupta: ele podia sentir a gravidade lutando para fazê-lo girar no ar. Endireitou o corpo e explodiu de volta para o lugar por onde tinha vindo, acelerando reto pelo canto de um prédio.

Esteja lá. Esteja lá. Esteja lá.

A colisão foi tremenda, a testa de Ethan atingindo em cheio a metade inferior do maxilar do farmacêutico numa batida de quebrar ossos, um impacto tão intenso que levantou Ethan do chão por meio segundo.

Caiu para trás, sangue lavando seu rosto.

O farmacêutico sentado, atordoado e cuspindo dentes na rua. Após a colisão de chacoalhar cérebros, Ethan levou dois segundos para perceber que aquele objeto de metal longo na calçada era o facão do homem. Esticou-se até ele e o pegou quando o farmacêutico ergueu os olhos na sua direção, o horror de saber o que estava prestes a acontecer arrastando-o de volta para um estado coerente com mais efetividade do que um balde de substâncias de cheiro forte que pudesse aspirar. Ethan apertou os dedos pelas reentrâncias no cabo do facão, que tinha sido envolvido com fita adesiva para uma pegada melhor sob a chuva.

O homem ergueu os braços numa tentativa frágil de se defender do que não podia ser defendido.

Ethan fingiu um golpe e o atingiu no rosto com um chute frontal; seu calcanhar enfiando-se nos restos do nariz quebrado e lançando a parte de trás de sua cabeça no chão com um ruído de crânio fraturando-se.

O homem gemeu e ficou caído, mas seus dois amigos estavam se aproximando — estariam ali em dez segundos — e atrás deles, quadra a quadra, o exército de lanternas avançava como uma manada de gado pela rua, o som de numerosos passos no asfalto molhado ficando mais e mais alto.

Ethan fugiu de volta para o beco, aliviado de descobrir que aquele par de luzes que tinha visto da última vez havia desaparecido.

Ele correu; a necessidade de fazer o máximo de sua breve janela de invisibilidade. Vinte passos mais à frente, aproximou-se de uma caçamba de lixo e não hesitou nem por um instante. Abaixou-se na lateral, atingiu o chão, arrastou-se atrás dela, colocando-se entre o metal e a parede de tijolos do prédio contra o qual a caçamba se acomodava. Não conseguia ouvir nada além dos batimentos furiosos de seu coração e sua respiração ofegante, suor e sangue brotando de seu rosto e caindo nos olhos, congelando, músculos queimando de ácido lático como se ele acabasse de atingir a parede numa maratona. Passos correndo avançaram direto pela caçamba e o som deles se afastando, ficando cada vez mais leves, era como música.

A lateral do rosto de Ethan estava apoiada no chão, sujeira e cacos de vidro e cascalho enterrando-se em sua face.

Chuva tamborilava em suas costas e se juntava ao seu redor em poças que tremulavam com cada novo pingo.

Ele poderia ter ficado deitado ali a noite inteira e continuar pelo dia seguinte. Levante seu traseiro daí. Você não pode se dar ao luxo de ficar com o corpo rígido. Ethan colocou as palmas no cascalho molhado e fez um esforço para se apoiar nas mãos e nos joelhos.

Saiu de costas do espaço entre a caçamba e o prédio e ficou agachado por um instante atrás da lata de lixo, ouvindo.

Vozes distantes.

Passos distantes.

Comoção na Principal.

Mas nada soava perigosamente perto.

Ficou de pé, lançou um olhar pela abertura do beco e viu a multidão passando por ali numa corrida leve, movimentando-se em direção ao que quer que estivesse acontecendo na Principal.

Mantendo-se perto da parede de tijolos, Ethan se pôs a seguir na direção oposta, na escuridão enevoada do beco.

Dez metros mais adiante, havia um intervalo no tijolo: uma porta de madeira. Olhou de volta para a caçamba, para a rua mais além. Agora alguém estava vindo: um feixe de luz varrendo o beco de um lado para o outro, unido a um ruído de pés pisando cascalho.

Ethan puxou a porta e a abriu, a luz de dentro lançando pelo beco um caminho de claridade que se difundia pela bruma.

Entrou depressa e encontrou uma escadaria iluminada, fechou a porta atrás de si e virou-se para passar o trinco na porta.

O cilindro havia sido vazado e a cavidade preenchida com metal sólido. Não havia jeito de trancar.

Ethan correu escada estreita acima, o esforço da subida lançando novas pontadas de dor na parte de trás de sua perna esquerda.

Quando chegou ao patamar do segundo piso, a porta do beco abriu com um estrondo. Ethan olhou de volta para baixo e viu um homem grande parado, vestido num poncho amarelo pingando, lanterna em uma das mãos, um facão de carne, que Ethan supôs haver sido retirado de um faqueiro de casa, na outra.

Os olhos do homem estavam escondidos sob a sombra de um capuz, mas seu maxilar estava pronto e suas mãos, em particular a que segurava a faca, tinham a firmeza de uma rocha, sem trair nenhuma sugestão de nervosismo.

Ethan correu pelo patamar até o próximo lance de escadas enquanto o caminho abaixo dele era preenchido pela reverberação de pés calçados em botas. No patamar do terceiro andar, atravessou uma porta com um esbarrão. O corredor estava silencioso, vazio, mal-iluminado. Candelabros que pareciam lanternas tradicionais haviam sido presos na parede a intervalos de seis metros.

Um bom número de latões centralizados em cada porta. Um prédio de apartamentos?

Ethan ouviu passos batendo na escadaria.

Começou a andar pelo corredor, tentando todas as maçanetas pelas quais passava. Trancada.

Trancada.

Trancada.

Trancada.

Sabendo que a qualquer momento a porta que dava para a escada se abriria. Trancada.

Trancada.

A da sétima porta que tentou abrir, a número 19, girou. Ele apertou a mão no cabo do facão, caso alguém esperasse do lado de dentro, e empurrou a porta com os dedos dos pés.

Um pequeno apartamento escuro.

Parecendo vazio.

Deslizou para dentro e fechou a porta no mesmo instante em que a da escadaria se abriu com um empurrão.

Ethan ergueu a mão, passou a corrente no trinco. Demorando-se na entrada, ele ouviu a porta do corredor se fechar. Passos sobre assoalho de madeira.

Sem mais correria.

Sem mais sapatear frenético.

Ethan podia quase visualizar o homem de poncho amarelo se movendo metodicamente pelo corredor. Ele podia saber que Ethan tinha se esgueirado para um dos apartamentos, mas não teria como saber qual deles.

Os passos se aproximaram…

E agora que sua porta estava trancada…

… e pararam do outro lado, tão perto que, quando Ethan olhou para baixo, conseguiu ver a luz que penetrava por baixo da porta ser dividida em duas. Como diabos aquele homem sabia exatamente onde parar? Merda.

Pegadas enlameadas.

Uma das sombras dos pés no chão desapareceu e o assoalho no corredor rangeu com a pressão sobre a madeira.

Ethan cambaleou para trás, deslizando para o canto direito de uma cozinha conjugada. O som de madeira rachando.

Corrente arrebentando.

Luz do corredor se derramou sobre o apartamento escurecido. Poncho Amarelo havia aberto a porta com um chute. Parado com as costas contra um refrigerador zumbindo, Ethan conseguia ver a silhueta da sombra do homem se aproximando pelo carpete do apartamento. A sombra se esticou quando o homem passou pelo limiar da porta e caminhou devagar pelo corredor curto que se abria na sala de estar.

Vários passos antes da cozinha, ele parou.

Ethan conseguia ouvir o poncho pingando no tapete, a respiração alta do homem enquanto tentava suprimir a sua.

Um “clique” suave e então o facho de luz disparou na sala de estar e vasculhou pela parede onde havia prateleiras de livros cercadas por duas janelas grandes, com as cortinas fechadas. Através delas, Ethan podia ouvir o ruído na Principal aumentando gradativamente. A luz atingiu um sofá de couro e uma mesa de centro, na qual havia uma xícara sobre um porta-copos, exalando fumaça espiralada que preenchia o apartamento com a doçura sonolenta do chá de camomila.

A luz se movimentou sobre uma fotografia emoldurada — um bosque de choupos nas cores do outono alto, montanhas cobertas de neve como pano de fundo, céu azul de outubro por cima de tudo — e então varreu até a cozinha, passando por fogão, armários, cafeteira, brilhando na pia de aço inoxidável no caminho até Ethan.

Ele se encolheu, engatinhou sobre o linóleo e se agachou na sombra entre a ilha e a pia. O homem avançou, Ethan observando o facho de luz atingir o refrigerador onde esteve parado cinco segundos antes.

Os passos avançaram.

Na porta do micro-ondas sobre o fogão, Ethan travou os olhos no reflexo do homem de poncho amarelo que agora estava parado na sala, olhando com atenção para uma abertura na parede norte que dava para um quarto.

Ethan se esforçou para se levantar devagar, o ruído da multidão mascarando o estalar de seus joelhos. Ele ficou de pé, de frente para as costas de Poncho Amarelo enquanto o homem prosseguia com propósito e cautela em direção ao quarto. Ethan deu a volta na ilha agachado e então saiu da cozinha. Na mesa de centro, ele parou.

Poncho Amarelo estava parado no limiar da porta do quarto, a três metros de distância, iluminando o aposento com a lanterna.

Ethan apertou mais forte o punho do facão envolto em fita adesiva e passou o dedão sobre o fio de corte da lâmina comprida.

Poderia estar mais afiada. Muito mais afiada. Teria que golpear com força. Vá. Corra até ele. Agora mesmo, enquanto você ainda tem o elemento surpresa. Ele hesitou.

Ethan havia infligido sofrimento e morte o suficiente, mas a intimidade nua com a violência era mais difusa quando se estava na cabine de um Black Hawk. Disparar mísseis com mira a laser num alvo a três quilômetros de distância não estava na mesma categoria de matar um civil com um facão assim tão de perto.

O primeiro estava um pouco mais difícil do que jogar videogame. O segundo… O homem girou de repente na porta e encarou Ethan. Ambos começaram a respirar mais rápido.

— Por que você está fazendo isso? — Ethan perguntou. Nenhuma resposta.

Agora não conseguia ver nada no rosto do homem. Apenas seu perfil, a sombra de uma faca em sua mão direita, e um raio de iluminação sobre suas botas, a lanterna mirando o chão.

Ethan abriu a boca para repetir a pergunta quando a luz se ergueu, um clarão direto em seu rosto, em seus olhos.

Escuridão outra vez.

Algo caiu ruidosamente no chão.

Ethan não conseguia ver nada, suas pupilas se dilatando outra vez, cego na escuridão cinzenta, sem forma ou detalhe.

Passos se aproximavam, o assoalho de madeira sob o tapete esticando-se a cada passada, o jeans do homem fazendo barulho conforme ele avançava. Ethan deu passos incertos para trás, sua visão se recuperando. Capturando a visão de Poncho Amarelo a pouco mais de um metro, a faca de açougueiro erguida e posicionada para um golpe descendente. Ethan brandiu sua arma — um golpe duro, rápido como um raio. A lâmina não encontrou resistência, e a força de seu ataque fez o homem girar e perder o equilíbrio, Ethan pensando: Errei, estou morto. O homem passou por ele, cambaleando desajeitado pela sala até finalmente se agarrar ao balcão da ilha no centro da cozinha.

Ethan recuperou o equilíbrio e, ao melhorar o aperto no punho do facão, certificando-se de que estava incólume, notou sangue pingando da extremidade da lâmina. O olhar de Ethan disparou de volta para a cozinha. O homem havia derrubado a própria faca e o estava encarando, inclinado na ilha, as duas mãos agarradas ao lado esquerdo do pescoço, que fazia um ruído assobiante de ar comprimido escapando de um pneu.

Ethan caminhou para trás pela porta do quarto, se abaixou, ergueu a lanterna do tapete. Direcionou o facho de luz ao homem de poncho amarelo. A quantidade de sangue era atordoante.

Parecia teia vermelha de aranha no plástico amarelo do abrigo, expandido como no ciclo vital de um vírus que se replicava, escorrendo em doze riscos separados e empoçando no chão. O sangue vazava de um corte de quinze centímetros na intersecção do ombro e do pescoço, sangue jorrando de uma das extremidades numa névoa diáfana e escorrendo da outra num pulsar de vermelho arterial vivo, o arco de cada jorro diminuindo conforme os batimentos do homem ficavam mais lentos.

Seu rosto estava branco como papel, e ele encarava Ethan sem expressão nenhuma, apenas piscava devagar, como se estivesse hipnotizado, perdido num sonho acordado. Enfim ele escorregou da ilha, desabou numa banqueta e caiu no chão. * * *

No armário do quarto, Ethan recolheu uma calça jeans, uma camiseta de manga longa, um agasalho de capuz preto. A camiseta e o jeans eram um pouco apertados, mas nada que Ethan não conseguisse dar um jeito. Os tênis que encontrou eram outra história. Conseguiu enfiar os pés dentro encolhendo os dedos, amarrá-los, mas caminhar era angustiante e garantia de produzir bolhas num piscar de olhos.

As botas do homem morto, já que eram muito maiores, pareciam promissoras. Ethan as arrancou dele e colocou várias camadas de meia até que seus pés se encaixassem bem no sapato maior.

Era bom estar vestido outra vez, e ainda melhor estar protegido da chuva naquele apartamento aquecido. Havia uma tentação forte de passar mais meia hora ali dentro, cuidando de tantos ferimentos quanto pudesse, mas ele precisava continuar se mexendo. Se um grupo grande aparecesse para vasculhar aquele piso, não haveria para onde correr. Ethan pegou a lanterna e o facão e foi até a pia. Passou um minuto inteiro com a boca sob a torneira, quase louco de sede e ainda assim tentando não se encher de água.

Abriu a geladeira.

Estranho.

Havia garrafas de vidro com leite. Hortaliças frescas. Uma caixa de ovos. Carne embrulhada em papel de açougue.

Mas nada de alimento processado.

Ele enfiou o braço, pegou um pacote de cenouras, um pedaço pequeno de pão e os enfiou nos bolsos laterais do jeans.

Um barulho fez Ethan parar quando ia até a porta — vozes e gritos jorrando da Rua Principal. Correu pelo apartamento até uma das janelas e puxou a cortina só o necessário para espiar o lado de fora.

Seis metros mais para baixo: pandemônio.

Os prédios e a frente das lojas brilhavam e escureciam com a troca incessante entre iluminação e sombras; a fonte — uma fogueira gigante faiscando no meio da rua apesar da chuva, alimentada com mudas de pinheiro e tábuas longas de madeira arrancada das casas. Dois homens carregavam um banco de madeira até as chamas, Ethan lhes assistindo jogá-lo na pira para grande deleite das massas, encharcadas pela chuva, que lotavam o quarteirão, a concentração de corpos aumentando quanto mais próximos das chamas. As pessoas lá embaixo não se assemelhavam em nada aos residentes que ele havia encontrado até aquele momento.

A maioria exibia fantasias extravagantes.

Bijuterias falsas, grandes, coloridas se penduravam nos pulsos e pescoços das mulheres. Colares de contas e pérolas e tiaras. Seus rostos estavam adornados com brilho e com maquiagem pesada, olhos destacados com delineador e todas com pouca roupa a despeito do frio e da chuva, como uma multidão de prostitutas em festa. Os homens tinham a aparência tão absurda quanto. Um usava agasalho esportivo; calças, não.

Outro, calças escuras e suspensórios vermelhos, mas não usava camisa, com um gorro de Papai Noel empoleirado no topo da cabeça. Ele apontava um taco de baseball para o céu, a arma de um branco frio, coberta por desenhos grotescos de monstros que Ethan mal podia ver de seu lugar privilegiado.

Parado num canteiro de tijolos, cabeça e ombros acima da massa de pessoas, uma figura imensa chamou sua atenção. O homem monstruoso estava vestido em pele de urso marrom — ainda preso com sua estrela dourada — e tinha algum tipo de adorno de cabeça com uma galhada de cervo, o rosto riscado com pintura vívida de guerra, uma espingarda pendurada num dos ombros, uma espada embainhada pendurada do outro. Pope.

O homem vasculhava a multidão como se fosse algo que lhe pertencesse, as poças líquidas de seus olhos refletindo a fogueira como um par de estrelas. Tudo o que teve que fazer foi olhar pela rua e, na riqueza da luz do fogo, não falhou em perceber Ethan espiando do apartamento no terceiro andar. Sabia que deveria ir embora, mas não conseguia se virar. Um seguimento da multidão além da linha de visão de Ethan irrompeu em gritos que chamaram a atenção de Pope, um grande sorriso expandindo-se no rosto do homem da lei. De um bolso interior no casaco de pele de urso, Pope retirou uma garrafa transparente, sem rótulo, contendo algum líquido castanho, ergueu-a para o céu e disse algo que incendiou o povo num frenesi de vivas de punhos cerrados. Enquanto Pope tomava um longo gole da garrafa, a multidão começava a se dividir, um corredor se formando no meio da Rua Principal, todos se esticando para ver. Três silhuetas apareceram, movimentando-se pelo grupo de pessoas em direção à fogueira. Os dois das extremidades — homens vestidos em roupas escuras com facões pendurados em alças no ombro — seguravam a pessoa no meio, pelos braços.

Beverly.

Ethan sentiu algo se soltar dentro dele, um núcleo de raiva liquefeita em processo de metástase na boca de seu estômago.

Ele podia ver que ela não tinha forças para ficar em pé, seus pés deslizando pelo asfalto enquanto seus captores a arrastavam. Tinha um olho fechado pelo que parecia ter sido um soco selvagem, e o que ele podia ver de seu rosto estava coberto de sangue. Mas ela estava consciente.

Consciente e aterrorizada, seu olhar fixo no asfalto molhado sob seus pés, como se estivesse tentando se desligar de todo o resto.

Os dois homens a conduziram até uns dez metros de distância da fogueira e então a empurraram para frente. Soltaram-na.

Pope gritou algo quando Beverly desabou no chão. As pessoas em volta se afastaram, formando um círculo de espaço aberto ao redor dela, seis metros de diâmetro.

Pela janela, Ethan ouviu Beverly chorando.

Ela parecia um animal ferido — algo tão desesperado em seu grito agudo de sofrimento. Em toda parte, pessoas se acotovelavam pela multidão, tentando chegar às bordas do círculo, o grupo de corpos que formavam o perímetro ficando mais e mais apertado. Pope enfiou a garrafa de volta no casaco e empunhou a espingarda. Ele a armou e apontou para o céu.

O ruído do disparo ecoou entre os prédios, fazendo vibrar o vidro na esquadria da janela. A multidão ficou silenciosa.

Ninguém se movia.

Ethan podia ouvir a chuva outra vez.

Beverly levantou-se com esforço e limpou um rastro de sangue escorrendo pelo meio do rosto. Mesmo da janela do terceiro andar, Ethan não podia deixar de notar o estremecimento que a envolvia, o medo que tudo engole consumindo uma pessoa que sabe exatamente que tipo de coisa horrível está prestes a vivenciar.

Beverly ficou de pé, vacilando na chuva, apoiando o peso do corpo no pé esquerdo. Virou-se devagar, mancando, absorvendo a imagem dos rostos no seu entorno e, apesar de Ethan não poder ouvir suas palavras, o tom da voz dela era impossível de não ser notado. Implorando.

Desesperada.

Chuva, lágrimas e sangue escorrendo de seu rosto. Um minuto inteiro se passou.

Alguém abriu caminho empurrando com os ombros pela massa de pessoas e chegou ao centro do círculo.

Vivas irromperam.

Aprovação selvagem.

Era o homem sem camisa com suspensórios vermelhos e chapéu de Papai Noel. Primeiro ele ficou na borda, como se estivesse se preparando — um boxeador em seu canto, momentos antes do sino.

Alguém o entregou uma garrafa.

Ele a entornou, tomou uma longa e displicente golada.

Então pegou seu bastão pintado e entrou no círculo. Na direção de Beverly.

Ele a circundou.

Ela se afastou, dando uma guinada na direção da borda da multidão. Alguém a empurrou com força para o meio do círculo, o impulso levando-a direto para o homem com o bastão.

Ethan não estava esperando.

Nem Beverly.

Aconteceu rápido, como se o homem tivesse decidido no último segundo possível. Um único movimento fluido.

Ergueu o bastão e golpeou.

O som de madeira atingindo crânio fez Ethan instintivamente fechar os olhos e se virar. A multidão rugiu.

Quando abriu os olhos outra vez, Beverly estava no chão, lutando para engatinhar. Ethan sentiu o fluxo de bile ameaçando a subir. O homem de gorro de Natal havia derrubado o bastão no asfalto e saiu pavoneando-se para o meio do povo.

O bastão rolou pela rua até Beverly.

Ela esticou o braço, seus dedos a centímetros.

Uma mulher, vestida de biquíni preto, sapatos pretos de saltos, coroa preta e asas de anjo pretas entrou no círculo.

Exibindo-se vaidosa.

Os expectadores vibraram.

A mulher caminhou tranquila até onde Beverly estava deitada, esticando-se para pegar o bastão.

Ela se abaixou, desferiu um sorriso radiante para Beverly, cheio de dentes, e ergueu a arma, pegando-a com as duas mãos e elevando-a acima da cabeça, como se fosse um machado de batalha de uma rainha demoníaca.

Não, não, não, não, não…

Ela bateu com força bem no meio das costas de Beverly. Berros de alegria tomaram conta da rua enquanto Beverly se contorcia no chão. Ethan dava tudo para estar sobrevoando a bordo de um Black Hawk a duzentos pés de altura sobre a Rua Principal controlando uma metralhadora GAU-19, queimando dois mil tiros por minuto na população, rasgando aqueles filhos da mãe na metade. Ethan se afastou da janela, ergueu a mesa de centro com as duas mãos e a atirou na parede, madeira quebrando, vidro estilhaçando.

O esforço apenas aguçou sua raiva.

Ansiava por violência, uma vozinha dentro dele sugerindo que descesse até a multidão com a faca em punho naquele mesmo instante e fizesse tudo em picadinhos. Sim, em algum momento, eles superariam sua força, mas, Deus, não havia nada que quisesse mais do que sair retalhando por entre as massas, um massacre de um homem só. Mas então você vai morrer.

Nunca mais vai ver sua família de novo.

Nunca saberá afinal o que significava tudo isso.

Ethan voltou para a janela.

Beverly estava estirada imóvel na rua, um lago de sangue se formando ao redor de sua cabeça. O círculo estava se desfazendo e se fechando.

Então, de uma só vez, a multidão caiu sobre ela. Era traição partir, mas ele não podia suportar ficar ali e assistir, e não havia uma maldita coisa que pudesse fazer para impedir — quinhentas pessoas contra uma. Não há nada que você possa fazer por ela. Ela se foi. Agora vá enquanto ainda pode. Quando Ethan disparou outra vez até a porta, ouviu Beverly berrar, o som de sua dor, sua absoluta impotência, e aquilo trouxe lágrimas a seus olhos. Acalme-se.

Pode haver pessoas do lado de fora desta porta esperando por você. Devo ser vigilante.

Ethan deu um passo pelo corredor.

Vazio.

Fechou a porta do apartamento.

A comoção na Rua Principal se tornou um murmúrio indistinto. Enxugou os olhos e voltou pelo caminho por onde tinha vindo, pelo corredor, através da porta em direção à escadaria.

No patamar do terceiro andar, ele hesitou, ouvindo, olhando pelo vão do corrimão. Nenhum som.

Nenhum movimento.

Tudo misteriosamente parado.

Ele desceu.

Lá embaixo, abriu a porta apenas o bastante para se espremer para fora. Uma fenda de luz escapou pelo beco.

Ethan pisou numa poça e fechou a porta.

Estava chovendo mais forte do que antes.

Por trinta segundos, ele não se mexeu, esperando que os olhos se reajustassem à escuridão. Em seguida, puxando o capuz sobre a cabeça, ele foi em direção ao sul, pelo meio do beco. À distância, a chuva caía pela iluminação esférica de uma lâmpada da rua, mas, fora isso, a escuridão entre os prédios era tão completa que Ethan não conseguia ver seus pés sob o corpo. A multidão explodiu com um berro ainda mais alto. Pensou em Beverly, precisou se impedir de imaginar o que estava acontecendo com ela, seu aperto ficando mais firme no facão, os molares cerrados. Passos fizeram Ethan parar de repente.

Estava a dez metros de onde o beco cruzava a próxima rua, confiante em sua invisibilidade nas sombras.

Um homem de capa de chuva escura entrou em seu campo de visão, indo para o oeste, vindo da Principal.

Ele parou sob a luz da rua e olhou fixo para o beco. Trazia uma machadinha e uma lanterna.

Ethan podia ouvir a chuva tamborilando em seu abrigo. O homem atravessou a rua e entrou no beco.

Girou a lanterna, iluminou Ethan.

— Quem está aí?

Ethan conseguia ver sua própria respiração formando vapor no ar frio. — Sou eu — respondeu, caminhando até ele. — Você o viu? — Eu quem?

A luz ainda estava no rosto de Ethan, e ele esperava que o homem pudesse vê-lo sorrindo, esperava que se agarrasse à loucura a ele direcionada. Os olhos do homem se arregalaram quando Ethan se aproximou o suficiente para que ele visse os hematomas, os riscos de sangue escorrido e a ruína geral de seu rosto, mas sua reação — erguendo a machadinha para um golpe — aconteceu meio segundo tarde demais. Ethan brandiu o facão paralelo ao chão com um golpe de apenas uma das mãos, o que gerou força suficiente para abrir o homem pelo meio. As pernas desabaram, seus joelhos atingiram o chão e Ethan acabou com ele em três golpes devastadores.

Começou a correr, disparando com a adrenalina da morte como se tivesse usado uma dose de metanfetamina.

Ethan saiu rasgando pelo beco e cruzou a Rua Sete. Direita: meia dúzia de pontos de luz, a dois quarteirões de distância, subindo a rua até o centro da cidade.

Esquerda: cinquenta pessoas, ou mais, inundando a esquina da Principal, lanternas piscando ao encontrar a escuridão na lateral da rua.

Ethan acelerou, penetrando no próximo beco, sem luzes à frente, mas sobre o som de sua respiração ofegante podia ouvir múltiplos passos tocando o chão atrás de si. Olhou por cima do ombro — uma parede de luz trovejando pelo beco. Pessoas gritando.

Adiante, a Rua Oito se aproximava depressa.

Precisava de uma mudança de direção, já estava calculando as possibilidades, mas não podia acionar o estopim antes de ver o que havia em frente. Ethan explodiu para a Rua Oito.

Esquerda: ninguém.

Direita: uma única luz a dois quarteirões de distância. Ethan deu uma guinada para a direita, avançando a uma velocidade impressionante ao se virar para a rua.

Pulou o meio-fio e atingiu a calçada oposta, quase tropeçando sobre uma placa levantada de concreto, mas, de alguma forma, conseguiu ficar de pé. Menos de vinte metros o levaram até a próxima quadra, no lado oeste da Principal, e ele olhou para trás por dois segundos antes de dobrar a esquina, vendo o primeiro grupo de luzes irromper pelo beco.

Se tivesse sorte, não o teriam visto.

Dobrou a esquina em disparada.

Bendita escuridão.

Manteve-se na calçada, queimando o chão sob as sombras dos pinheiros, escuras como piche. A próxima rua também estava vazia, e um olhar rápido sobre os ombros confirmou apenas um punhado de luzes em perseguição, ainda a uns bons vinte segundos de distância, se fosse fazer uma estimativa.

Ethan deixou para trás mais uma quadra do lado oeste e saiu correndo para o sul. A rua chegava a um ponto-final.

Havia alcançado os limites da cidade.

Parou no meio da rua, dobrou o corpo para frente, apoiado nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

Pessoas vinham chegando, tanto atrás dele como pelo oeste. Supôs que poderia subir correndo mais dois quarteirões até chegar à Principal, mas parecia insensato.

Se manda. Você está desperdiçando distância segura. Indo reto, uma mansão vitoriana dava as costas para a floresta circundante. Sim.

Suas pernas queimaram quando forçou o passo mais uma vez, atravessando a rua, disparando pela lateral da casa.

Três passadas antes de alcançar os pinheiros, a voz de uma criança gritou: — Ele está entrando na floresta!

Ethan olhou para trás.

Vinte ou trinta pessoas surgiram pelo canto da mansão, lanternas incendiando o caminho, correndo até ele como se fossem uma só e, por um momento, Ethan se perguntou por que suas proporções pareciam todas erradas.

Pernas curtas demais, cabeças muito grandes, luzes seguras muito mais próximas ao chão. Crianças.

É porque são todas crianças.

Ele correu para as árvores, engolindo ar perfumado com a fragrância agridoce de pinheiro molhado.

Tinha sido bem difícil enxergar na cidade, mas dentro da floresta era impossível. Precisou ligar a lanterna, deixar seu feixe de luz oscilante o guiar entre as árvores, sobre troncos apodrecidos, mudas e galhos baixos chicoteando em seu rosto. As crianças entraram na floresta seguindo seus calcanhares, passos esmagando folhas molhadas, quebrando galhos caídos. Ele tinha uma ideia vaga de onde o rio deveria estar, pensando que, se continuasse avançando para a direita, não o perderia, mas já estava se sentindo desnorteado, seu senso de direção se desmanchando como um nó malfeito. Uma garota gritou.

— Estou vendo!

Ethan olhou para trás, apenas um breve giro de cabeça, mas seu momento não poderia ter sido pior: cruzou uma armadilha, seus pés se enganchando numa massa de galhos retorcidos e raízes que o jogaram contra o chão, arrancando a lanterna e o facão de suas mãos. Passos em toda parte, ao seu redor.

Aproximando-se de todos os lados.

Ethan tentava se colocar de pé, mas uma trepadeira havia capturado seu tornozelo direito e foram necessários cinco segundos para arrancá-la. A lanterna havia se apagado quando Ethan caiu e ele não conseguia ver o facão ou nenhuma outra coisa. Tateou pelo chão, desesperado para recuperá-los, mas tudo o que agarrou foram raízes e trepadeiras.

Colocou-se de pé, lutando cegamente para encontrar seu caminho por entre a bagunça de galhos caídos enquanto as luzes e vozes chegavam mais perto. Sem lanterna, ele estava arruinado.

Reduzido a caminhar apressado com as mãos estendidas: sua única defesa contra esbarrões em árvores.

Feixes de luz frenéticos se entrecruzavam à sua frente, dando fugazes vislumbres do terreno adiante — uma floresta de pinheiros sendo sufocada até a morte por um matagal que já tinha visto passar a hora de um fogo que limpasse o terreno. Riso infantil — despreocupado, bobo, maníaco — preencheu o bosque. Uma versão de pesadelo de algum jogo de sua juventude. Ethan cambaleou em algo que tomou por uma clareira, ou uma campina — não que pudesse ver uma maldita coisa que fosse, mas a chuva agora pingava sobre ele com mais intensidade, como se não mais estivesse protegido sob o guarda-chuva da floresta. Adiante, pensou ter ouvido o gorgolejar do rio, mas o perdeu para o som de respiração pesada se aproximando atrás dele.

Algo caiu nas suas costas — não exatamente um golpe muito forte, mas o suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio para o que veio em seguida. E depois…

E depois…

E depois...

E depois, e assim Ethan atingiu o chão, de cara na lama, tudo se afogando pela risada das crianças, um ataque encorpado vindo de todos os lados, de todos os ângulos. Socos superficiais que não tinham a menor chance de feri-lo, o ardor de cortes rasos, o ocasional e muito mais desconcertante peso de objetos cegos atingindo sua cabeça, e todos eles, a cada segundo que passava, aumentando de frequência, como se Ethan estivesse sendo atacado por um cardume de piranhas.

Uma facada na lateral de seu corpo.

Ele gritou.

Eles zombaram.

Outra facada — dor oceânica.

Seu rosto ficou vermelho de raiva e ele puxou o braço esquerdo da posse de alguém, e depois o direito.

Colocou as palmas no chão.

Empurrou o chão e se levantou.

Algo duro — uma pedra, ou tronco — o atingiu atrás da cabeça com força suficiente para sacudir o que tinha dentro.

Seus braços cederam.

De cara, de volta para a lama.

Mais risos.

Alguém disse:

— Acerte a cabeça dele!

Mas Ethan se levantou de novo, gritando desta vez, o que devia ter pego as crianças de surpresa, pois, por uma fração de segundo, os socos pararam. Era tudo de que ele precisava.

Ethan apoiou os pés sob o corpo e se forçou a levantar, deu um tabefe na primeira cara que viu — um menino alto de doze ou quatorze anos — e o nocauteou de uma vez. — Voltem — ele sibilou.

Havia luz para que pela primeira vez pudesse, de fato, ver com quem estava lidando — duas dúzias de crianças de sete a quinze anos o circundavam, a maioria segurando lanternas e uma variedade de armas improvisadas: paus, pedras, facas de cozinha, um com o cabo de uma vassoura com o lado do esfregão quebrado, deixando as lascas da madeira à mostra. Pareciam vestidas para o Dia das Bruxas: uma reunião heterogênea de fantasias caseiras feitas com material retirado do guarda-roupa dos pais. Ethan estava quase grato por ter perdido o facão, pois teria retalhado aqueles pirralhos. Havia uma abertura à esquerda de Ethan: um elo fraco no círculo por onde poderia avançar, passando por duas crianças não mais altas do que sua cintura. Mas então o quê?

Eles o perseguiriam sem parar pela floresta, como a um cervo ferido. Virando-se lentamente, ele travou o olhar com o mais intimidador do grupo, um menino passado da puberdade, de cabelos loiros, e armado com uma meia esticada ao máximo, o seu interior pesado com uma esfera de aparência ameaçadora: talvez uma bola de beisebol ou um globo de vidro sólido. O adolescente estava vestido num terno que devia pertencer a seu pai: vários números maior que o seu, as mangas penduradas passando de seus dedos. Ethan rugiu aproximando-se do garoto com seu braço direito recuado e o teria atingido, mas o menino recuou, tropeçou, caiu e então correu para a floresta no momento em que se colocou de pé, gritando a plenos pulmões que o tinham encontrado. Metade das crianças, depois de ver seu líder dar meia-volta e fugir, seguiu de perto. Nos que não seguiram, Ethan avançou, sentindo-se um pouco como um alce tentando dispersar uma matilha de coiotes predadores, até que, depois de algum tempo, havia afastados todos, menos um; as crianças gritando ao desaparecer pelos pinheiros como se o demônio estivesse no seu encalço.

O menino que havia ficado para trás observava Ethan através da chuva. Devia ser o mais jovem do grupo — sete ou oito anos no máximo. Estava vestido como um caubói: chapéu vermelho e branco, botas, gravata de cordão, uma camisa estilo Velho Oeste.

Segurava uma lanterna e uma pedra e estava parado ali sem nenhuma expressão. — Você está com medo de mim? — Ethan perguntou. O menino sacudiu a cabeça, água pingando da aba de seu chapéu. Ele ergueu os olhos, e, quando o facho de luz da lanterna iluminou as sardas em seu rosto, Ethan pôde ver que ele tinha mentido. Estava com medo, seu lábio inferior tremendo incontrolavelmente. Era a cara mais corajosa que o menino conseguia fazer e Ethan não pôde deixar de admirá-lo. Questionou-se o que teria motivado o garoto a enfrentá-lo. — O senhor deveria parar de correr, Sr. Burke. — Como você sabe meu nome?

— O senhor poderia levar uma vida ótima aqui e nem ia perceber. — O que é este lugar?

— Só uma cidade pequena — o menino respondeu. Vozes de adultos soaram, um novo esquadrão de lanternas piscando nos pinheiros como estrelas despontado no céu.

— Onde é o seu lar? — Ethan perguntou.

O menino inclinou a cabeça de lado, intrigado com a pergunta. — Como assim?

— Onde você morava antes de Wayward Pines? — Sempre morei aqui.

— Nunca saiu desta cidade? — Ethan perguntou. — Não dá para sair — o menino respondeu.

— Por que não?

— Porque não dá.

— Não aceito isso.

— É por isso que o senhor vai morrer — o menino de repente gritou: — Ele está aqui! Rápido!

Luzes dispararam dos pinheiros para a campina. Ethan correu, chegando à floresta do outro lado, nem mesmo se importando em proteger o rosto, ou olhar para trás, para seus perseguidores, rasgando pela noite, perdendo toda a noção de tempo e direção, lutando para manter a cabeça no lugar, passando por cima do acorde de pânico absoluto que ameaçava colocá-lo de joelhos, enrodilhado em posição fetal, e finalmente acabar com seu juízo.

Por causa do medo.

Por causa da dor.

Porque nada daquilo fazia o menor e maldito resquício de sentido. Não foi o som do rio que o fez parar, mas o cheiro. Uma repentina doçura no ar.

O terreno se inclinou, Ethan descambou pela margem enlameada e caiu dentro de água frígida, feroz, o rio entrando nas suas botas como aço líquido. Apesar do choque gelado, Ethan se recusou a fraquejar, apenas continuou aos trancos e barrancos, afastando-se da margem, cada vez mais e mais fundo pela correnteza. A água alcançou sua cintura, Ethan engasgando com o frio que chegava ao âmago, a corrente implacável, desesperada para arrastá-lo rio abaixo. Deu passos lentos, cuidadosos, as pedras do leito se mexendo sob seu peso e rolando devagar pelo fluxo do rio.

Entre cada passo, ele tentava se proteger, inclinando-se contra a força da água. No meio da travessia, estava imerso até o peito. A correnteza levantando seus pés.

Carregando Ethan com fluxo do rio.

Na quase escuridão, ele não fazia ideia de quais rochedos despontavam pelo canal, apenas sabia que atingir um deles seria fatal.

Lutou contra a corrente, usando braçadas laterais fortes, deliberadas. Seus braços trabalharam bem, mas com as botas cheias de água ele não conseguia bater as pernas com nenhuma eficiência ou força.

O peso delas o puxava para baixo mais do que o impulsionava. Depois de um minuto alvoroçado, seus músculos já à beira de um motim, ele sentiu as solas das botas roçarem o fundo.

De pé, ele enfrentou a corrente, o nível da água abaixo de sua cintura.

Mais uma dúzia de passos reduziram a água ao nível de seus joelhos, e então ele correu pelo resto do rio, desabando na margem.

Rolando de lado, sem fôlego, exausto, tremendo. Olhou de volta para a outra margem do canal.

Em toda parte, novos fachos de luz apareciam.

Podia ouvir as pessoas gritando, pensou ser possível que estivessem chamando seu nome, mas daquela distância o ruído da água espumosa destruía qualquer chance de ouvir com mais precisão.

Ethan queria se mover, sabia que tinha que se mover, mas não conseguia se levantar sobre as próprias pernas. Só precisava de outro minuto deitado ali para respirar. Agora havia mais luzes na margem oposta do que ele podia contar, a maior concentração a cerca de trinta metros rio acima, onde Ethan tinha entrado na água; porém, mais e mais, as pessoas pareciam se aventurar para o norte e para o sul daquele ponto, raios de luz varrendo sobre a correnteza numa dúzia de lugares.

Ele rolou sobre os joelhos.

Mãos incontroladas de frio como se sofresse de paralisia. Começou a rastejar, dedos enfiados na areia molhada. Só aquele minuto em que havia ficado deitado imóvel tinha feito enrijecer suas juntas. Quando chegou à próxima pedra grande, ele se ergueu, apoiou-se nela e ficou de pé. Suas botas estavam cheias d’água.

Devia haver uma centena de pessoas do outro lado do rio e ainda mais luzes aparecendo na margem a cada novo segundo. A maioria dos feixes de luz chegava apenas até a metade do leito, mas uma porção deles tinha potência suficiente para alcançar a margem de Ethan, seus tubos compactos de luz claramente visíveis com a chuva que caía. Ethan se afastou da água às pressas, esperando colocar mais distância entre ele e as luzes, mas depois de três metros alcançou um paredão de rocha. Caminhou margeando-a enquanto as vozes de várias centenas de pessoas se sobressaíam ao ruído da água espumosa.

Uma luz atingiu o penhasco três metros mais à frente. Ethan se escondeu atrás de um rochedo e espiou pela lateral enquanto o facho de luz cruzava o penhasco.

Uma cascata de luzes se derramava da margem em direção à correnteza. De onde Ethan estava agachado, viu algumas pessoas caminhando com dificuldade pelo rio com água na altura dos joelhos, vasculhando, mas nenhuma tentou nadar até o outro lado. Começava a dar passos para sair de trás do rochedo quando uma voz, amplificada por um megafone, berrou pelo rio.

— Ethan, volte para nós e tudo vai ser perdoado. Ele a reconheceria em qualquer lugar: o ribombar grave e gutural da voz do xerife Pope, ricocheteando dos penhascos de volta para o pinheiral atrás da multidão. — Você não sabe o que está fazendo.

Na verdade, sei exatamente o que estou fazendo. Sem feixes de luz atingindo nenhum lugar nas imediações, Ethan se colocou de pé com dificuldade, cambaleando em direção ao sul, na lateral do penhasco. — Se você voltar, não vamos machucá-lo.

Claro que não. Já estou indo.

— Você tem minha palavra.

Ethan desejou que também tivesse um megafone. Outras vozes gritavam seu nome, vindas da margem oposta. — Ethan, por favor!

— Você não entende o que está fazendo!

— Volte!

Pope continuava a chamá-lo também, mas Ethan seguiu em frente pela chuva negra. Quanto mais se afastava da multidão, mais impossível ficava de enxergar. Ethan, agora mancando em passos lentos e instáveis, sua única orientação espacial era o barulho do rio à esquerda.

Atrás: vozes ficando mais fracas, pontos de luz encolhendo. Seu corpo havia queimado os últimos resquícios de adrenalina e ele conseguia sentir um colapso de proporções gigantescas se aproximando cada vez mais. Apagão total do sistema.

Contudo, não podia parar. Não ainda.

O impulso de se encolher na areia ao lado do rio e dormir era quase avassalador, mas aquelas pessoas poderiam decidir cruzar o rio.

Tinham luzes e armas e superioridade numérica. Ele não tinha nada.

Risco grande demais.

E assim, com o que lhe sobrava de combustível no tanque reserva, ele prosseguiu.