Pines
Capítulo 15
Ethan olhou para dentro do duto de ar.
Seria apertado, talvez impossível com o agasalho. Puxou as mangas, tirou a blusa e jogou pela beirada do patamar, um arrepio eriçando seus braços nus. Supôs que seus pés fossem responsáveis pela maior parte da propulsão e resolveu se livrar das meias também, para que não escorregasse. Enfiou a cabeça pela abertura.
Num primeiro momento, seus ombros pareciam não caber, mas depois de um minuto de esforço, ele finalmente conseguiu encaixar metade do corpo lá dentro, braços esticados na frente, pernas lutando para impulsioná-lo o resto do caminho, o metal fino, gelado nos dedos dos pés.
Quando estava de corpo inteiro dentro do duto de ar, uma onda de pânico varreu seu corpo. Sentiu como se não conseguisse respirar, os ombros espremidos entre as duas paredes, e a consciência cada vez mais clara de que se mover para trás agora era impossível. Pelo menos sem deslocar os dois ombros.
Seu único método de movimento era o reles impulso que seus dedos dos pés conseguiam desferir, e não tinham marcha à ré.
Avançou alguns centímetros, literalmente, deslizando pela superfície do duto. Ainda sangrando.
Músculos revoltados no pós-escalada e seus nervos em frangalhos. À distância, nada senão escuridão absoluta, o túnel reverberando com o eco de seu movimento.
Exceto quando ele parava.
Pois então silêncio perfeito se assentava, interrompido apenas por bangs aleatórios que faziam disparar seu coração, o expandir e contrair do metal em resposta à flutuação de temperatura.
Cinco minutos depois, Ethan tentou olhar para trás pela abertura, algo em si ansiando pelo menos por um vislumbre de luz — o menor consolo —, mas ele não conseguia sustentar o pescoço o bastante para virar e ver.
* * *
Arrastou-se, arrastou-se e arrastou-se.
Cercado por todos os lados e em completa escuridão. Em dado momento, talvez trinta minutos lá dentro, talvez cinco horas, talvez um dia… ele teve que parar.
Os dedos dos pés tiveram câimbra pelo esforço. Ele soltou o corpo no metal.
Tremendo.
Uma sede dos infernos.
Uma fome de outro mundo e incapaz de alcançar a comida que tinha no bolso. Conseguia ouvir o coração batendo no peito contra o metal e nada mais. * * *
Dormiu.
Ou perdeu a consciência.
Ou morreu por um minuto.
Quando acordou novamente, debateu-se com violência contra as laterais do duto, sem fazer ideia de onde estava ou quando estava, seus olhos abertos para a escuridão penetrante. Por um instante de terror, ele pensou que havia sido enterrado vivo, o som da própria respiração hiperventilando, como alguém gritando em seus ouvidos. * * *
Arrastou-se pelo que pareceram dias.
Seus olhos conjurando pontos estranhos de luz que apareciam com mais frequência, quanto mais tempo passava nas trevas.
Explosões vívidas de cor.
Auroras imaginárias.
Radiância assombrando o preto.
E quanto mais tempo se arrastava na escuridão confinada, com mais agressividade um pensamento continuava a consumi-lo: nada disso é real. Nem Wayward Pines, nem o desfiladeiro, nem as criaturas, nem mesmo você. Então o que é isso? Onde estou?
Num túnel comprido e escuro. Mas para onde acha que está indo? Não sei.
Quem é você?
Ethan Burke.
Não, quem é você?
O pai de Ben. Marido de Theresa. Vivo num bairro em Seattle chamado Queen Anne. Eu era piloto de um helicóptero Black Hawk na segunda Guerra do Golfo. Depois disso, agente do Serviço Secreto. Sete dias atrás, eu cheguei a Wayward Pines… Esses são apenas fatos. Eles não dizem nada sobre sua identidade, sua natureza. Amo minha esposa, mas fui infiel.
Isso é bom.
Amo meu filho, mas eu quase nunca estava presente. Apenas uma estrela distante no céu dele.
Melhor ainda.
Tenho boas intenções, mas…
Mas o quê?
Mas eu falho todas as vezes. Magoo as pessoas que amo. Por quê?
Não sei.
Você está enlouquecendo?
Às vezes eu acho que ainda estou naquela sala de tortura, que nunca saí. Você está enlouquecendo?
Diga-me você.
Não posso.
Por que não?
Porque eu sou você.
* * *
A princípio, ele pensou que fosse apenas outro show de fantasmas iluminados, mas não havia explosões erráticas de cor. Sem fogos de artifício ópticos. Apenas um ponto contínuo de azul em algum lugar adiante, tão tênue como uma estrela moribunda.
Quando fechou os olhos, desapareceu.
Quando os abriu, voltou, como o único vestígio de sanidade que restava em seu mundo claustrofóbico. Era apenas um ponto de luz, porém um que podia fazer desaparecer e reaparecer, e mesmo essa centelha de controle era algo em que se agarrar. Uma âncora. Um porto de escala.
Ethan pensando. Por favor. Seja real.
* * *
A tênue estrela azul ficou maior, e com sua expansão veio um zumbido baixo. Ethan parou para descansar, uma vibração suave agora propagando pelo duto, propagando por ele.
Depois de horas na escuridão, a nova sensação parecia tão reconfortante como os batimentos cardíacos maternos.
* * *
Algum tempo depois, a estrela azul mudou de forma e se tornou um quadradinho mínimo. Aumentou até dominar o campo de visão dele, a expectativa se retorcendo em suas entranhas. Então estava a três metros de distância.
Então um e meio.
Então ele estava esticando os braços para fora da abertura do duto, seus ombros estralando, a nova liberdade de movimento tão doce como imaginava que a água teria sido. Pendurado na saída do duto, ele começou a olhar para baixo, por outro duas vezes mais amplo, cruzado por outros ainda.
Uma luz azul suave preenchia o duto principal, emanando de uma lâmpada lá embaixo. No fundo, vislumbrou um ventilador.
Devia ser uma queda de trinta metros até aquelas lâminas. Como olhar por um poço.
Em intervalos de três metros, mais dutos de ar alimentavam o principal, alguns deles consideravelmente maiores.
Ethan olhou para cima. O teto estava a sessenta centímetros de sua cabeça. Merda.
Ele sabia qual era seu próximo movimento, qual tinha que ser, e não gostou. * * *
Ethan desceu pelo canal de ventilação com a mesma técnica que tinha usado para subir pela fenda na rocha: pressionando os pés nas laterais. Os pés descalços conseguiram aderência decente no metal e, apesar da queda à espreita nas lâminas giratórias que esperavam até mesmo o menor erro, ele sentiu quase uma alegria boba de estar livre daquele duto apertado.
* * *
Desceu meticulosamente milímetro a milímetro, um passo de cada vez, mantendo a pressão contra as paredes com os braços enquanto abaixava as pernas, depois mudando a pressão novamente para a parte da frente dos pés.
Descendo mais doze metros, ele descansou na abertura do primeiro duto horizontal mais largo que encontrou, sentando-se na beirada e olhando para baixo, para as lâminas zumbindo, enquanto comia a última das cenouras e o pão.
Estava tão concentrado em sobreviver que só agora tinha lhe ocorrido questionar a que propósito servia toda aquela infraestrutura.
Em vez de continuar para baixo, ele olhou de volta pelo duto, notando que a escuridão era interposta por painéis de luz posicionados a intervalos regulares. Estendiam-se por tão longe quanto a vista podia alcançar.
Ethan se virou, apoiou-se nas mãos e nos joelhos e se arrastou pelo metal por mais de cinco metros, até que encontrasse o primeiro painel.
Parou na beirada, uma descarga de empolgação com um toque de medo percorrendo seu corpo.
Não era um painel de luz.
Era um respiradouro.
Olhou através dele e viu o chão de assoalho quadriculado. O ar soprando pelo duto tinha um calor agradável como a brisa oceânica no auge do verão. Por um longo tempo, ele esperou.
Observando.
Nada aconteceu.
Havia o som do movimento de ar, de sua respiração, de metal expandindo e contraindo, e de nada mais.
Ethan se agarrou ao respiradouro pelas grades. Foi fácil de erguer, sem parafusos, sem pregos, sem soldas segurando-a no lugar. Colocando a grade de lado, ele segurou as beiradas da passagem, tentou arranjar coragem para descer.