Pines

Blake Crouch · Capítulo 13 de 20

Páginas do PDF

Pines

Capítulo 13

O tornozelo direito de Ethan está algemado e acorrentado a um aro no chão. Está sentado atrás de uma mesa em ruínas com três objetos em cima… Uma folha de papel A4 em branco.

Uma esferográfica preta.

E uma ampulheta cuja areia preta está descendo, em cascata, de um bulbo para o outro. Aashif alertou Ethan de que, quando a areia acabasse, ele voltaria. Se, àquela altura, o que estivesse escrito no papel não o agradasse, Ethan morreria por lingchi. Mas Ethan sabe que mesmo que tivesse conhecimento específico, vindo de cima, a respeito de uma grande ofensiva já planejada, se escrevesse as datas, os locais, os alvos, os detalhes das forças terrestres adiantadas e apoio aéreo, não seria suficiente. Nada nunca seria suficiente, porque não importava o que escrevesse, ele morreria — e morreria de forma horrível.

Tudo o que conhece de Aashif é sua voz e seus olhos castanhos, maléficos, em que não intui haver nenhum desejo de conhecer informações, mas apenas de infligir dor. À guisa de interrogatório, isso são meras preliminares. Algo para deixar Aashif rígido e úmido.

Ele é um sádico. Provavelmente al-Qaeda.

De alguma forma, Ethan não permitiu que a compreensão plena se fizesse enquanto estava pendurado pelos pulsos na sala de tortura, mas sentado ali, sozinho na mesa, em silêncio, ela o atinge com força total.

Não importa o que escreva, em pouco menos de uma hora, sua vida vai se tornar infinitamente pior.

Há uma única janela no quarto, mas foi pregada com tábuas. Por frestas minúsculas entre os painéis de madeira penetravam os raios brilhantes do sol iraquiano.

O calor é escaldante, suor brotando de cada poro. O hiper-realismo do momento se torna insuportável, Ethan bombardeado por percepções sensoriais.

… Um cachorro latindo lá fora.

… O riso distante de crianças.

… A quilômetros de distância, o Ra-ta-ta-tá parece cigarra, mas é tiroteio. … Uma mosca zumbindo no seu ouvido esquerdo. … O aroma de Masgouf, peixe condimentado, assando por perto. … Em algum lugar nas entranhas daquele complexo, um homem gritando. Ninguém sabe que estou aqui. Pelo menos ninguém que possa me ajudar. Seus pensamentos se voltam de repente para Theresa — grávida em casa —, mas o golpe da emoção e da saudade do lar é maior do que ele pode suportar à luz do que o aguarda. A tentação de repassar sua última conversa — uma chamada VoIP na sala de recreação — é poderosa, seria sua ruína.

Não posso pensar nisso. Ainda não. Nos meus momentos finais talvez. Ethan ergue a caneta.

Só preciso de algo para ocupar minha mente. Não posso ficar aqui sentado e com o pensamento fixo no que vai acontecer.

Porque é o que ele quer.

Esse é o objetivo.

* * *

Jogado para fora dos sonhos de guerra.

Por um minuto inteiro, ele não fez ideia de onde estava, ao mesmo tempo tremendo e ardendo de febre.

Ethan se sentou, tateando na escuridão ao redor, e quando seus dedos encontram as paredes de pedra do nicho, seu GPS interno atualizou e o horror daquilo em que sua vida havia se tornado voltou como um turbilhão.

Havia derrubado as roupas durante o sono, e elas estavam espalhadas na pedra em volta, frias e molhadas. Ele as estendeu para que tivessem mais chance de secar, em seguida deslizou ainda sentado, até se empoleirar na borda do nicho. A chuva havia parado.

O céu noturno sangrando o brilho das estrelas.

Nunca tivera o menor interesse em astronomia, mas se pegou à procura de constelações familiares, perguntando-se se as estrelas que via brilhavam de seus lugares de sempre. É esse o céu noturno que sempre vi?

Quinze metros abaixo, o rio cantava.

Ele começou a descer a encosta em direção à água, e quando o viu seu sangue se congelou. A primeira inclinação de Ethan foi a de voltar às pressas para a reentrância, mas lutou contra o impulso, temendo qualquer movimento repentino que pudesse atrair atenção. Filhos da mãe, eles me seguiram.

Cruzaram o rio, afinal de contas.

Estavam lá embaixo, entre os pinheiros gigantes, próximos ao rio e tão bem escondidos nas sombras que ele não conseguia avaliar quantos eram. A passo de tartaruga, centímetro a centímetro, Ethan voltou para a reentrância, abaixando-se até que seu peito estivesse grudado na rocha gelada, agora apenas espiando pela beira do nicho.

Misturaram-se às sombras, e por um momento, à exceção do rio, o mundo estava absolutamente parado, Ethan começando a se perguntar se ele havia, de fato, visto mesmo alguma coisa. Considerando o que havia passado nos últimos cinco dias, as alucinações costumeiras teriam sido um retorno bem-vindo à sanidade. Trinta segundos depois, emergiram da sombra dos pinheiros, em direção à rocha esmigalhada na base da encosta.

Que diabos?

Havia apenas um e, embora fosse do tamanho de um homem, não se movia como um — percorria o cascalho de quatro, sem cabelos e pálido sob as estrelas. Um gosto metálico — produto do medo — preencheu a boca de Ethan quando se deu conta de que as proporções daquele ser estavam todas erradas, braços parecendo duas vezes maiores do que deveriam ser.

A coisa ergueu a cabeça, e mesmo daquela distância Ethan podia ver seu nariz enorme apontando para o céu.

Farejando.

Ethan se contorceu para longe da abertura, o mais fundo que conseguiu no nicho de rocha, onde se encolheu com os braços agarrados às pernas, tremendo e se esforçando para ouvir o som de passos se aproximando ou de pedregulhos se assentando no solo. Mas tudo o que conseguia ouvir era o ronronar do rio, e quando arriscou um olhar para fora novamente, o que quer que tinha visto — ou pensado que tinha visto — desaparecera. * * *

Nas poucas horas de escuridão restantes, o sono se esquivou. Ethan tinha frio demais.

Dor demais.

Estava aterrorizado demais por tudo o que tinha vivenciado para se aventurar de volta aos sonhos.

Estava deitado na rocha, tomado por um desejo. Uma necessidade. Theresa.

Em casa, havia acordado no meio da noite com frequência para sentir o braço dela sobre si, o corpo dela contornando o seu. Mesmo nas noites mais difíceis. Noites em que tinha chegado muito tarde. Noites em que tinham brigado. Noites em que ele a traíra. Ela trazia para a relação muito mais do que ele jamais trouxera. Ela amava à velocidade da luz. Sem hesitação. Sem arrependimentos. Sem condições. Sem reservas. Enquanto ele escondia o jogo e uma parte de si mesmo, ela pulava de cabeça. Sempre. Há momentos em que é possível enxergar a pessoa amada como ela realmente é, isolada da bagagem de projeções e histórias compartilhadas. Quando se consegue vê-la com olhos renovados, como um estranho veria, e se capta aquele sentimento da primeira vez em que se amou. Antes das lágrimas e das fissuras. Quando ainda há a possibilidade da perfeição. Ele nunca tivera uma imagem mais clara da esposa, nunca a amara mais — nem mesmo no início — do que naquele momento, num lugar frio e escuro, ao imaginá-la com os braços em volta dele.

* * *

Observou as estrelas se apagarem e o sol soprar fogo no céu, e quando finalmente a encosta clareou do lado mais distante do rio, ele se banhou nos raios de maravilhoso calor que brilhavam no nicho e assavam a pedra congelada. Na luz da manhã, finalmente conseguia ver os danos sofridos ao fugir de Wayward Pines. Ferimentos contornados com hematomas amarelados cobriam seus braços e suas pernas. Perfurações da agulha da enfermeira Pam coalhavam seu ombro esquerdo e a lateral direita do corpo.

Desatou a fita adesiva na coxa esquerda, descobrindo o local na parte de trás da perna de onde Beverly havia retirado o microchip. A pressão da fita teve sucesso em estancar o sangramento, mas a pele em volta da incisão estava inflamada. Seriam necessários antibióticos e uma boa sutura para afugentar a infecção. Passou as mãos pelo rosto, pensando em como aquilo não parecia com nada que lhe pertencesse. A pele estava inchada, partida em alguns lugares, e seu nariz, fraturado duas vezes nas últimas vinte e quatro horas, era fonte de dor excruciante. Suas faces estavam encrespadas pelos cortes superficiais dos galhos chicoteando em seu rosto durante a fuga pela floresta, e um galo havia aparecido na parte de trás de sua cabeça, cortesia das crianças da pesada.

Nada, entretanto, rivalizava com a dor insana dos músculos das pernas, os quais tinha forçado muito além do limite.

Ele se perguntava se ao menos tinha forças para andar. * * *

No meio da manhã, com as roupas um tanto secas, Ethan se vestiu, amarrou as botas ainda molhadas, desceu pela beirada do nicho e foi até a base do penhasco. A descida até o rio lhe deu um gostinho brutal do que o resto do dia lhe prometia, e quando chegou à margem seus músculos berravam.

Não havia escolha senão descansar, fechando os olhos e deixando que a luz do sol se derramasse por sua face como água morna. Naquela elevação, os raios eram maravilhosamente concentrados.

Havia o cheiro de agulhas secas de pinheiro tostando ao sol. A água doce e fria.

O som claro do rio gorgolejando pelo desfiladeiro. O retinir de pedras mudando de lugar sob a corrente. O azul cortante do céu.

Estar aquecido outra vez renovou suas energias, e estar na natureza, apesar de tudo, comunicou-se com algo enterrado lá no fundo de sua alma. Na noite anterior, estivera cansado demais para fazer qualquer coisa a não ser ficar deitado, imóvel, na pedra.

Agora a fome retornava.

Tirou as cenouras e o pão esmagado dos bolsos. * * *

De pé outra vez, ele vasculhou até encontrar um galho de pinheiro no bosque próximo e quebrou uma ponta para que o comprimento fosse adequado ao uso como bastão de apoio para a caminhada. Passou vários minutos se alongando, tentando atenuar a dor debilitante dos músculos, mas estava perdendo a batalha.

Enfim seguiu em frente pelo desfiladeiro, num ritmo que pensou conseguir manter, mas depois de dez minutos o trauma do esforço físico do dia anterior o forçou a diminuir o passo. Oitocentos metros pareciam oito quilômetros.

Com cada passo ele dependia mais e mais do bastão para se sustentar, agarrava-se a ele, como a um salva-vidas, como se sua única perna decente. * * *

No começo da tarde, a natureza do desfiladeiro havia começado a mudar, o rio se estreitando até que só pudesse ser chamado de riacho, pinheiros se encolhendo, cada vez em menor número e mais espaçados, e aqueles que encontrava estavam atrofiados e retorcidos, vítimas anãs da punição dos invernos.

Precisava parar com frequência, agora descansando mais do que andando, e numa constante falta de ar, seus pulmões queimando com a falta de oxigênio quanto mais alto subia. * * *

Perto do ocaso, ele estava deitado esparramado numa rocha coberta de liquens, ao lado do que havia sobrado do rio — menos de dois metros de largura, a correnteza rápida que marulhava sobre um leito de pedras coloridas.

Fazia quatro ou cinco horas que havia deixado o nicho, e o sol já estava deslizando para trás do paredão do desfiladeiro, do outro lado do córrego. Quando desapareceu, a temperatura despencou. Ele ficou ali observando a cor ser drenada do céu, encolhido contra o frio que se intensificava, e a cruel consciência de que não conseguiria se colocar de pé. Virando-se de lado, ele puxou o capuz sobre a cabeça. Fechou os olhos.

Estava com frio, mas as roupas estavam secas, e ele tentava organizar a confusão de pensamentos e emoções que competiam, a exaustão o jogando à beira do delírio, e então sentiu o sol batendo no capuz.

Abriu os olhos, sentou-se.

Ainda estava na rocha ao lado do riacho, só que agora era manhã, o sol acabando de despontar sobre o desfiladeiro em suas costas.

Dormi a noite inteira.

Ele se arrastou até o riacho e bebeu a água tão fria que fez sua cabeça doer. Ainda tinha uma cenoura e algumas mordidas de pão; fez um esforço para se colocar de pé e tirar água do joelho. Era surpreendente como se sentia melhor, a dor nas pernas menos assoladora. Quase suportável.

Pegou o bastão.

* * *

Os paredões do desfiladeiro se fecharam, o riacho minguou até se tornar um risco e finalmente desapareceu de uma vez por todas na fonte de onde havia brotado. Na ausência de água corrente, o silêncio era ensurdecedor. Nada além do ruído das botas pisando o cascalho. O piado solitário de uma ave passando lá em cima. Sua própria respiração ofegante.

As muralhas dos dois lados estavam ficando mais íngremes, e não havia mais árvores, nem mesmo arbustos.

Apenas a rocha esmigalhada, líquen e céu.

* * *

Ao meio-dia, Ethan abandonou o bastão, obrigado a andar apoiado nas mãos e nos joelhos sobre o terreno mais íngreme até o momento. Ao trilhar o caminho por uma curva no desfiladeiro, um novo som se interpôs sobre o constante ruído de rochas sendo pisadas. Ele se inclinou sobre um rochedo do tamanho de um carro compacto, tentando concentrar a atenção no barulho, a despeito da própria respiração entrecortada. Ali estava.

Feito pelo homem.

Constante.

Um zumbido baixo.

A curiosidade o fez prosseguir, Ethan escalando depressa até terminar a curva, o zumbido ficando mais claro a cada passo, a expectativa disparando. Quando finalmente a viu, um jato de júbilo percorreu seu corpo. O desfiladeiro continuava sua ascensão íngreme por mais dois ou três quilômetros, as encostas encimadas por torreões pontiagudos e cumes serrilhados, uma crueldade imperdoável à paisagem que parecia quase alienígena.

A quinze metros encosta acima, Ethan olhou fixo para a fonte do zumbido — uma cerca de seis metros de altura, coroada com espirais de arame farpado que se estendia por quase vinte metros pela largura do desfiladeiro em seu ponto mais afilado. A sinalização na cerca alertava…

ALTA VOLTAGEM

RISCO DE MORTE

e

RETORNE A WAYWARD PINES

ALÉM DESTE PONTO, VOCÊ MORRERÁ

Ethan parou a um metro e meio da barreira e fez uma inspeção completa: a cerca era construída por painéis quadrados de arame e a lateral de cada um tinha aproximadamente dez centímetros. Estando próximo, o zumbido era ainda mais agourento, dando à cerca um autêntico aspecto de não-me-desafie.

Ethan captou odor de podridão nas imediações e foi preciso um momento para perceber a origem. Um grande roedor — provavelmente uma marmota — havia cometido o erro de tentar atravessar um dos quadrados junto ao chão. Parecia que tinha sido cozido no micro-ondas por oito horas. Chamuscado, carvão. Alguma pobre ave, ao que tudo indicava, pensando que havia se deparado com uma refeição inofensiva, havia feito mau juízo, tentando se servir dos restos da criatura, sofrendo o mesmo destino.

Ethan lançou um olhar para os paredões do desfiladeiro. Ambos eram íngremes, mas havia apoios, em especial do lado direito, que pareciam servir a alguém que estivesse motivado e com coragem de suportar um pouco de exposição. Ethan foi até o paredão e começou a subir.

Não era o melhor tipo de rocha e algumas porções se esmigalharam entre seus dedos, mas havia muito apoios dispostos, perto uns dos outros, para que ele não tivesse de amparar o peso do corpo em nenhum deles por mais de alguns segundos. Logo, ele estava a mais de cinco metros do solo, uma sensação leve de ansiedade em suas entranhas quando arame farpado eletrificado passou a zumbir a apenas alguns metros de distância abaixo de suas botas.

Atravessou uma plataforma de rocha sólida, pisando com cuidado de lado ao cruzar até o flanco proibido da cerca. A altura o abalou, mas o abalava ainda mais a realidade do que ele havia acabado de fazer — uma travessia ilícita de fronteira. Uma premonição incômoda no fundo de sua mente sussurrou que ele havia acabado de se colocar em perigo terrível pela própria vontade. * * *

Ethan alcançou o solo do desfiladeiro em segurança e prosseguiu, o zumbido da cerca eletrificada mais baixo conforme seu sistema entrava num estado intensificado e desconcertante de alerta. A mesma coisa havia acontecido com ele no Iraque: uma percepção sensorial aguçada sempre parecia atingi-lo no auge de missões que, no fim das contas, iam para o brejo. Suas palmas começavam a suar; seu pulso, acelerar. Sua audição, olfato, paladar, tudo sobrecarregado além dos limites. Nunca havia contado para ninguém, mas quando perdeu o Black Hawk em Fallujah, ele soube que o míssil estava chegando cinco segundos antes da explosão.

Era um local solitário ali em cima, do outro lado da cerca, a rocha toda fraturada e devastada por raios.

Céu vazio.

A ausência de nuvens apenas enfatizando o espírito de absoluta desolação. Depois de seu período em Wayward Pines, parecia surreal estar tão sozinho outra vez, tão deslocado de outras pessoas. Mas no fundo de sua mente, uma nova preocupação começava a consumi-lo. O desfiladeiro parecia subir mais centenas de metros até um espinhaço dilapidado pelo vento. Se ainda tivesse forças, poderia chegar até lá ao pôr do sol. Passar outra noite longa e fria tentando dormir sobre o cascalho. Mas então o quê? Ele logo ficaria sem comida e embora a água ainda dançasse em seu estômago desde que havia bebido antes de o riacho desaparecer, o esforço físico ao qual estava submetendo o corpo poderia deixá-lo desidratado num piscar de olhos.

Mas ainda mais do que a ameaça à espreita da fome e da sede, ele temia o que estava além do cume distante, no topo do desfiladeiro.

Quilômetros e quilômetros de natureza selvagem, se fosse dar um palpite e, embora ainda retivesse um pequeno treinamento de sobrevivência dos seus dias do exército, quando parava para pensar, estava acabado, morto de cansaço. O prospecto de sair daquelas montanhas e alcançar a civilização novamente lhe parecia algo muito mais do que atemorizante. E ainda assim, que escolha tinha?

Voltar a Wayward Pines?

Preferia morrer de frio sozinho lá adiante do que colocar os pés naquela cidade outra vez. Ethan seguiu caminho por uma porção do desfiladeiro fechada entre enormes rochedos, pulando de um para o outro com cuidado. Podia ouvir água correndo mais abaixo outra vez, mas o córrego estava invisível, inalcançável, escondido no meio do espaço negro sob o amontoado de rochedos.

Em cima, do lado esquerdo do paredão do desfiladeiro, algo lançou um reflexo agudo de luz do sol.

Ethan parou, fez uma proteção sobre os olhos com a mão e apertou a visão para o brilho ofuscante. De onde estava, nas entranhas do desfiladeiro, tudo o que podia ver era a superfície metálica e quadrada a uma boa altura da muralha, as proporções perfeitas demais, exatas demais, para ser qualquer coisa que não produto de mãos humanas. Ele pulou no próximo rochedo, agora avançando com maior velocidade, maior intensidade, e constantemente olhando para cima, pela parede, ao subir cada vez mais; porém, a natureza da superfície refletora ainda não podia ser distinguida. Mais adiante, o desfiladeiro parecia mais razoável, os rochedos diminuídos a proporções que os tornavam possíveis de atravessar.

Estava considerando se devia escalar até o pedaço de metal, quando o barulho de pedras caindo interrompeu seus pensamentos.

Por um instante aterrorizante, Ethan imaginou uma avalanche descendo em sua direção, milhares de toneladas de pedras chovendo da muralha, esmagando-o até a morte. Mas o som havia se originado atrás dele, não acima. Ethan se virou, lançou um olhar para trás pelo caminho que tinha percorrido e se deu conta de que era apenas uma rocha sobre a qual havia pisado havia alguns minutos e que se deslocara, finalmente despertando do sono. Ainda assim, havia algo misterioso em registrar um som que não fosse sua respiração difícil ou o movimento de rochas na sua vizinhança imediata. Havia se acostumado demais à imobilidade da encosta isolada.

Podia enxergar pelo vão entre as paredes do desfiladeiro até uma grande distância, seus olhos inicialmente se fixando na cerca elétrica a quase meio quilômetro e, depois, num movimento muito mais próximo, a menos de uma centena de metros. Primeiro pensou que fosse uma das marmotas, mas estava escalando com uma agilidade leve, felina, quase rápido demais, pulando de pedra em pedra, e, quando apertou os olhos para conseguir focalizar, viu que a criatura não tinha um pelo sequer. Parecia albina, coberta por uma pele pálida, leitosa. Ethan instintivamente cambaleou para trás ao se dar conta de que tinha feito uma estimativa muito errada do tamanho. Não estava pulando sobre as pedras pequenas. Estava se movimentando sobre o campo de rochedos gigantes que havia acabado de cruzar, o que significava que tinha o tamanho mais próximo do de um ser humano, e avançava a uma velocidade intimidadora, quase nem parando entre um pulo e outro. Ethan tropeçou numa rocha e se colocou de pé num pulo, sua respiração se acelerando. A coisa estava próxima o bastante para que ele pudesse ouvir sua respiração — seu ofegar — as garras fazendo clique-clique sobre as pedras cada vez que ela aterrissava num novo rochedo, cada salto trazendo-a para mais perto, já apenas a cinquenta metros e um calor doentio começando a fermentar no estômago de Ethan. Era o que tinha visto, duas noites antes, de cima do nicho sobre o rio. Era com aquilo que tinha sonhado.

Mas que diabos era?

Como uma coisa daquelas existia?

Ele começou a subir pela encosta tão rápido quanto havia ousado se movimentar o dia todo, lançando olhares para trás a cada passo.

A coisa saltou do último dos grandes rochedos e tocou o chão com a graça de uma bailarina, agora sobre as quatro patas, próxima do chão como um javali selvagem, o ruído rangente de sua respiração ficando mais alto conforme ela encurtava a distância entre eles a uma velocidade tão alarmante que Ethan chegou à instantânea conclusão de que não havia sentido em tentar fugir.

Parou e virou o rosto para a coisa, dividido entre tentar processar o que estava acontecendo e simplesmente se preparar para sobreviver.

Vinte metros agora, e quanto mais perto chegava, menos Ethan gostava do que via. O torso era curto.

Pernas longas e braços ainda mais longos, todos terminando em uma fileira de garras pretas. Quarenta e cinco, talvez cinquenta quilos.

Musculosa.

Esguia.

E acima de tudo, humanoide, a pele na luz do sol era translúcida como num filhote de rato — mapeada com uma rede de veias azuis e artérias roxas e, até o coração estava quase visível como um pulsar rosado logo à direita do peito. A dez metros, Ethan se preparou, a cabecinha da criatura abaixando-se para o ataque, rosnando enquanto fios de saliva sangrenta se dependuravam dos cantos da boca sem lábios, olhos cor de creme muito focados na presa.

Ethan captou o fedor dois segundos antes do impacto — fétido, carne apodrecida com sangue rançoso.

Gritou ao atacar — um som estranhamento humano —, Ethan tentando se esquivar para o lado no último instante possível, mas a criatura havia previsto o movimento, golpeando um dos braços de mais de um metro de comprimento e o enganchando pela cintura, garras penetrando fácil no tecido grosso do agasalho e perfurando-lhe o flanco. Uma explosão lancinante de dor, o impulso da criatura o privando do apoio dos pés, jogando-o contra as rochas com força suficiente para arrancar o ar de seus pulmões. Ethan tentou sugar oxigênio enquanto a coisa atacava. Feroz como um pitbull.

Velocidade da luz.

Força brutal.

Rasgando com selvageria enquanto Ethan erguia os braços num esforço de proteger o rosto das patas de cinco garras tão afiadas como as de uma ave de rapina, retalhando com facilidade a roupa, a pele.

Conseguiu se colocar em cima de Ethan em questão de segundos, as garras nas pontas de suas patas enterrando-se nas panturrilhas dele como pregos o prendendo no chão. Em meio a toda a fúria, Ethan vislumbrou o rosto. Narinas grandes, crateras.

Olhos pequenos, opacos.

Crânio sem pelos e a pele se esticava tanto, tão fina, que ele conseguia ver as placas dos ossos da cabeça se unindo como um quebra-cabeças. Gengivas com duas fileiras de minúsculos dentes pontiagudos. Parecia que estava lutando com aquela coisa por horas — o tempo se arrastava em incrementos lentos, terríveis —, embora, na realidade, apenas alguns segundos tivessem se passado, o treinamento de combate de Ethan tentando se colocar em ação com dificuldade, sua mente começando a se erguer acima do medo e da confusão, num esforço de aplacar o pânico insano que o tinha engolido. Quanto mais perigosa e caótica a situação, mais claramente era preciso pensar para avaliar o que fazer pela sobrevivência e, até então, ele estava falhando. Permitindo que o encontro drenasse a maior parte de sua força, e, se não assumisse o controle do uso de sua energia em mais sessenta segundos, não teria a capacidade — mental ou física — de sequer revidar o ataque.

A criatura desferiu o golpe mais profundo até o momento, um rasgo cruzado excruciante na barriga de Ethan, cortando tecido, pele, a fina camada de gordura no abdome definido e, finalmente, alcançando a superfície do músculo exposto. Quando a criatura enterrou a cara em sua barriga, Ethan conseguiu sentir os dentes perfurando o agasalho e chegou à conclusão horrenda do que o monstro, na verdade, estava tentando fazer: estripá-lo com as garras-punhais e banquetear ali mesmo, no desfiladeiro, sua presa assistindo e sangrando.

Ethan golpeou o punho cerrado na lateral da cabeça do bicho: um soco estranho, mas dado com força.

A coisa ergueu os olhos, produziu um guincho raivoso. Ergueu a pata direita e brandiu as garras no pescoço de Ethan. Ele bloqueou com o braço esquerdo o golpe que vinha na sua direção, ao mesmo tempo que tentava tocar o solo com o direito, os dedos desesperadamente procurando uma arma. O brilho de absoluta raiva nos olhos da criatura era inequívoco.

Afastou a cabeça da barriga de Ethan, a face horrível buscando-lhe o pescoço, dentes arreganhados.

Vai rasgar minha garganta.

A mão de Ethan agarrou uma pedra, os dedos lutando para uma aderência melhor. Golpeou com mais força do que jamais tinha golpeado qualquer coisa na vida, a pedra pesada, do tamanho de um peso de papel, e quando sua superfície arredondada se enterrou na lateral da cabeça do monstro, a coisa vacilou, pupilas negras como carvão dilatando nos olhos leitosos, a mandíbula se afrouxando com um tipo de espanto atordoado. Ethan não hesitou.

Ergueu-se de repente e enterrou a pedra naquela boca cheia de caninos marrons, dentes quebrando quando o bicho vacilou para trás, Ethan seguindo com outro golpe, desta vez um soco catastrófico no nariz arreganhado.

A coisa caiu no chão, sangue vermelho-escuro se derramando do nariz e da boca em meio a gritos de lívida incredulidade, patadas fracas que não tinham a força nem a velocidade para sequer ferir a pele.

Ethan sentou sobre a coisa com uma perna de cada lado, uma das mãos firme na traqueia, a outra agarrada na rocha.

Sete golpes de fraturar crânios e, por fim, a coisa parou de se mexer. Ethan jogou a pedra ensanguentada e caiu de lado, inspirando o ar longa e profundamente, o rosto respingado de sangue e ocasionais estilhaços de ossos. Forçou-se a se sentar e erguer a camiseta.

Jesus.

Parecia que tinha participado de uma luta de facas, sangramento de numerosos pontos por todo o tórax — os cortes compridos e feios daquelas garras. O golpe na barriga havia causado o maior dano de todos: um desfiladeiro de quinze centímetros entalhado no abdome. Se dois centímetros mais fundo, o corte teria aberto suas entranhas. Olhou para os restos do que diabos fosse a criatura. Nem sabia como começar a processar a informação. Não conseguia fazer as mãos pararem de tremer, ainda tanta adrenalina girando por seu sistema circulatório.

Ficou de pé.

O desfiladeiro imóvel outra vez.

Lançou um olhar para o paredão mais próximo, o objeto misterioso de metal ainda brilhando ao sol. Impossível ter certeza, mas daquela perspectiva, parecia uma subida de vinte e cinco, trinta metros, e, embora ele não conseguisse bem captar o motivo, sentiu um impulso forte de sair do solo do desfiladeiro o mais rápido possível. Ethan limpou o sangue do rosto com as mangas do moletom e desceu da encosta para que pudesse ter uma vista melhor. Levou um momento para estudar todas as rotas possíveis subindo a face do penhasco, finalmente decidindo por uma que o conduziria por uma série de patamares cada vez menores até a base da larga fratura na rocha que subia em direção ao objeto de sua curiosidade.

Andou até o paredão.

Após o calor da batalha, sentia o corpo absolutamente eletrificado. Seria uma boa ideia direcionar a energia para a escalada.

Chegando ao primeiro patamar largo, Ethan encontrou um apoio decente na rocha e se impulsionou para cima.

A flexão dos músculos da barriga era agonia, sem contar o fato de que eles eram essenciais para quase todos os movimentos.

Contudo, prosseguiu apesar da dor. Seis metros encosta acima, Ethan encontrou um ponto sobre uma pequena plataforma onde podia ficar de pé com facilidade, e se encostou à rocha. Haviam se passado anos desde que ele tinha praticado qualquer tipo de escalada e sua ineficiência era evidenciada pelo esforço físico intenso que apenas a pequena distância percorrida já havia requisitado. Escalava com os braços, em vez de confiar no poder das pernas, e já estava ensopado de suor, a água salgada escorrendo em cada arranhão, cada ferida, cada corte.

Virou-se de encontro à rocha com cuidado e apoiou as mãos. A plataforma estava sombreada do sol, e a pedra, fria como gelo. Do chão, a próxima seção havia parecido um tanto simples: uma riqueza de apoios para os pés e o tipo de saliências arredondadas que se emprestavam para a escalada. Mas agora, a seis metros do solo do desfiladeiro, e olhando para cima numa inclinação quase vertical, os apoios para as mãos não pareciam assim tão convidativos, e a distância até o próximo patamar — onde ele poderia conseguir mais um minuto muito necessário de descanso — era de pelo menos dez metros. Ethan fechou os olhos e inspirou duas vezes num esforço de restabelecer a pulsação ao nível normal.

Você consegue. Você tem que conseguir.

Uns trinta centímetros acima da cabeça, ele se agarrou à menor saliência até então e em seguida pisou numa superfície levemente inclinada que continha pedra o suficiente apenas para dar à sola de suas botas alguns segundos de apoio. O medo se elevou vários níveis enquanto se projetava para o segundo patamar, tentando ignorar a voz baixa alojada no fundo de sua mente como uma lasca, sussurrando que ele estava ultrapassando o território de pernas e coluna quebradas para um calibre de altura em que um erro significava morte.

De forma cada vez mais arriscada, ele se agarrava a porções cada vez menores de apoios para mãos e pés.

No começo, havia hesitado entre um movimento e outro, testando e retestando cada apoio, porém não mais. Àquela altura, suas pernas haviam começado a endurecer esporadicamente — um precursor de câimbras. Se fosse atingido por uma ali no paredão, isso podia muito bem significar o fim.

E assim ele escalava o mais rápido que conseguia, pegando cada apoio decente que encontrava, tentando buscar conforto na distância que aumentava entre ele e o chão do desfiladeiro, assegurando a si mesmo que, se acontecesse de cair, seria bem melhor morrer de uma vez, pois uma perna quebrada, ou uma coluna, naquela imensidão vazia, apenas resultaria em morte lenta e agonizante.

E ainda assim, quanto mais alto subia, mais forte apertava o terror, Ethan lutando contra o impulso de olhar para baixo, mas não pôde resistir à fascinação mórbida com a distância que já havia percorrido do chão até ali.

Sua mão direita finalmente alcançou o terceiro patamar. Fez um esforço para elevar o corpo, enterrando o joelho esquerdo na beirada.

Quando percebeu que não havia nada óbvio para sua mão esquerda agarrar, ele já tinha se comprometido com a subida.

Houve um segundo interminável, em que ficou pendurado no ar, um joelho apoiado na plataforma enquanto seu centro de gravidade aos poucos o afastava do paredão, rumo ao terrível vazio que se estendia às suas costas.

Ele tentou se impulsionar para frente em total desespero, as duas mãos cravando na rocha, a esquerda conseguindo por pouco um apoio na altura do peito. Por um momento, não sabia se tinha aderência suficiente para reverter a investida da gravidade e se jogar para cima do patamar, a mão deslizando, os nós dos dedos ficando brancos pelo esforço.

O movimento para trás parou e ele se puxou para frente com a ponta dos dedos, até que a testa encostasse na rocha.

Foram necessários todos os seus esforços para erguer a perna direita e se colocar de pé. Esse patamar tinha a metade da largura do anterior e seus pés estavam com as pontas para fora.

Teria sido impossível se sentar ou permanecer ali por qualquer tempo adicional. A fratura na rocha que percorria a distância restante até o pedaço de metal se abria logo acima dele. Parecia larga o suficiente para que Ethan se espremesse entre ela e conseguisse chegar até lá, mas ele ainda não tinha forças para tentar se impulsionar para cima. Quase havia morrido, e seu corpo, da cabeça aos pés, ainda estava tremendo. O berro o arrancou do próprio medo que sentia. Olhou fixo quinze metros para baixo, perplexo. Ele havia dilacerado o crânio da criatura.

Como diabos…

Espere.

Não estava se movendo e sequer tinha uma boca para produzir tal ruído. Quando o grito seguinte — esse, alguns tons mais grave — ressoou pelo desfiladeiro, reverberando entre as muralhas, Ethan olhou de volta para a cerca eletrificada. Oh, Deus.

Havia cinco deles avançando desfiladeiro acima numa formação que quase lembrava um esquadrão, ascendendo para aquele campo de grandes rochedos em saltos rápidos, elegantes. Ethan pressionou as costas na parede, tentando se empoleirar com tanta firmeza quanto possível.

O líder da matilha subiu disparando da base dos rochedos a toda velocidade, tão rápido quanto um cachorro, e quando alcançou o monstro que Ethan havia matado, derrapou até parar e baixou a cabeça no chão, farejando o crânio amassado de seu compatriota. Conforme os outros se aproximavam, o primeiro ergueu a cara para o céu e liberou um gemido longo, doloroso, que parecia o uivo de um lobo. Os outros quatro chegaram e, num intervalo de dez segundos, estavam todos uivando como um coro num velório, Ethan ficando gelado, imóvel na pequena plataforma, ouvindo, o suor esfriando na pele e os restos do sangue da coisa secando no rosto como pequenas cicatrizes. Tentou compreender o que estava vendo ou ouvindo, mas não havia explicação. Era tudo muito além de suas experiências e, possivelmente, de sua imaginação. Quando o uivo cessou, o grupo se entreolhou e conversou na língua mais estranha que Ethan jamais ouvira.

Como pássaros aterrorizantes, o aspecto de um gorjeio horripilante nos guinchos rápidos e agudos.

Ethan endureceu o aperto na rocha, lutando contra a onda de tontura, o mundo girando sob seus pés.

Todos os cinco estavam farejando o solo nas imediações da criatura morta — ancas elevadas, caras enterradas entre as rochas.

Ethan tentou não ceder ao pânico que o atingiu, mas se deu conta de algo, ali parado acima dos monstros: depois que começassem a subir, não haveria como ele descer. Nem mesmo sair da plataforma. A única saída do paredão, o qual tinha encarado com o olho maior que a barriga, era subir.

Uma das criaturas de repente emitiu um ruído alto, perfurante. Os outros correram para se aproximar, agrupando-se e chiando de forma frenética, e então, o maior do bando, facilmente duas vezes maior do que o que tinha atacado Ethan, adiantou-se aos demais, o nariz ainda colado ao solo.

Apenas quando alcançou a base do penhasco foi que Ethan por fim entendeu. Meu rastro.

A criatura pressionou o nariz na rocha e então se colocou sobre as próprias patas mais uma vez.

Afastou-se para trás lentamente…

… e olhou para cima, direto para Ethan.

Estão seguindo meu rastro.

O desfiladeiro ficou em silêncio.

Cinco pares de olhos leitosos analisando-o ali em acima, na plataforma. Ele podia ouvir o coração desesperado no peito, como alguém tentando fugir ao se jogar contra as paredes da prisão acolchoada de um manicômio. Um único pensamento girando em sua mente numa volta infindável… Eles conseguem escalar?

Como se em resposta, o maior deles, o que primeiro havia captado seu rastro, apoiou-se nas pernas traseiras e disparou do chão num salto de um metro e meio, sem tomar impulso antes. Grudou na parede como se ela fosse coberta de velcro, as pontas de suas garras se enterrando em pequenas reentrâncias na rocha que Ethan nunca poderia ter usado. Olhou pela face da muralha até Ethan, enquanto os outros começavam a saltar. Ethan olhou para a fratura na rocha acima de sua cabeça, procurando algo, até que encontrou um apoio para as mãos que poderia ser usado, mas um pouco além do seu alcance. Pulou, espalmando um conjunto de cristais de rocha pontudos e escuros, enquanto ouvia o toque de garras na pedra aproximando-se dele. Tentou subir, colocou a outra mão numa superfície nivelada dentro da fratura e se impulsionou o resto do caminho, subindo pela abertura.

Era apertada, pouco mais de um metro de largura, mas forçou suas botas nas paredes e criou pressão apenas o suficiente para se manter suspenso. Olhou para baixo.

A maior das criaturas já havia chegado ao segundo patamar, subindo rápido, destemida, sem nenhum sinal de fadiga.

As outras seguiam de perto.

Ethan direcionou a atenção ao que o aguardava acima — uma canaleta fechada em três dos lados. Sem muitos apoios para as mãos, mas ele supôs que poderia se impulsionar pressionando as laterais.

Começou a subir, o cercado de rocha proporcionando uma bem-vinda, ainda que falsa, sensação de segurança.

A cada poucos metros, ele olhava para baixo entre as pernas, sua visão agora obscurecida pela rocha que o circundava, mas conseguia ver a coisa que vinha à frente, movimentando-se sem esforço entre a segunda e terceira plataformas até uma seção da encosta onde Ethan tivera dificuldade.

Pouco mais de cinco metros subindo pela fratura na rocha, mais de vinte em relação ao solo do desfiladeiro, as coxas queimando.

Não sabia dizer qual distância teria que percorrer para alcançar o metal que o tinha lançado em tal enrascada, para começo de conversa. Por outro lado, se estivesse lá embaixo quando as coisas haviam aparecido, estaria sendo devorado nesse exato instante. Então, talvez em retrospecto, o metal reluzente que o havia propelido à escalada destemida e presunçosa havia, na verdade, prolongado, senão salvado, sua vida. O monstro alcançou a terceira plataforma e, sem um instante de hesitação para descansar ou considerar o próximo passo, saltou do pequeno patamar de rocha. Uma única garra na ponta de sua pata dianteira esquerda atingiu um milímetro quadrado da superfície logo dentro da canaleta e, numa demonstração de força bruta, o bicho se impulsionou para cima com uma pata só e se espremeu no espaço cercado. Ethan travou os olhos com a criatura quando ela começou a subir por apoios tão insignificantes que ele mesmo havia desconsiderado, e prosseguia com pelo menos o dobro da velocidade com que Ethan conseguia avançar.

Nada a fazer senão continuar subindo.

Subiu com muito custo mais um metro e meio.

Três.

O monstro sete metros abaixo e perto o bastante para que Ethan conseguisse ver o rosa pulsante de seu enorme coração, obscurecido através da pele como se enfiado atrás de vidro opaco, grosso.

Mais três metros e a fratura parecia dar lugar a um paredão plano, vertical, horrendo. Os apoios próximos ao topo pareciam bons, Ethan se dando conta de que, se continuasse subindo daquela forma, a coisa o alcançaria antes que conseguisse sair. Mudou a escalada para o estilo convencional, mão após mão, apressando os últimos metros. Logo antes do topo, um dos apoios se soltou e ele quase perdeu o equilíbrio. Conseguiu se restabelecer antes de cair.

Conseguia sentir o vento soprando pela abertura do canal. Vislumbrou algo captando o sol lá em cima.

Estacou.

Olhou para baixo.

Quase jogou pelos ares a chance de se salvar.

Com o monstro a menos de cinco metros abaixo e mais dois subindo logo atrás pelo mesmo caminho, Ethan tateou para baixo, o apoio solto que quase o tinha matado, mal ao alcance. Arrancou a porção de rocha de seu alojamento e a ergueu acima da cabeça. Enchia a mão, era ainda maior do que tinha pensado — quase um quilo de granito incrustado de quartzo.

Alavancou-se na rocha, mirou e deixou voar.

Atingiu a criatura no meio da cara bem quando tentava um novo ponto de apoio. Não conseguiu aderência.

Despencou pela canaleta.

Garras riscando rocha.

A velocidade grande demais para se agarrar a qualquer lugar. Atingiu a que vinha abaixo, numa velocidade suficiente para fazê-la soltar dos apoios, o par atingindo como um só o terceiro monstro e todos os três berrando por dois longos segundos ao se aproximarem na base da fratura na rocha; em seguida, quicaram na terceira plataforma e aceleraram em direção aos rochedos abaixo, onde atingiram o chão num emaranhado de membros dobrados para os lados errados e crânios partidos. Ethan emergiu acima do canal apertando os olhos para se proteger do brilho ofuscante que agora estava a apenas alguns poucos metros acima de sua cabeça. Estava no mínimo a trinta metros acima do chão do desfiladeiro, e seu estômago se contorceu. Do novo ponto privilegiado, podia ver que a parede oposta se elevava a cento e cinquenta, cento e oitenta metros, até o cume em forma de navalha que, em si, parecia intransponível. Se o paredão em que estava fizesse o mesmo, era melhor simplesmente se jogar, pois não conseguiria subir nem mais quinze metros, que dirá cento e cinquenta. As duas criaturas restantes na parede avançaram até ele em desespero. Em vez de seguir os outros pelo canal, eles escalaram por fora, um de cada lado — mais lentos, mas ainda estavam vivos e agora a dez metros abaixo de Ethan.

Ele estendeu os braços, agarrou um patamar na rocha sob o metal brilhante, colocou os dois cotovelos na saliência mais larga de rocha que tinha visto e se impulsionou para cima, face a face com um respiradouro de aço proeminente vários centímetros a partir da encosta. Era quadrado, talvez uns sessenta centímetros de largura, as pás de um ventilador girando no sentido horário logo à frente.

Garras tocaram a rocha abaixo.

Ethan agarrou as laterais do respiradouro, puxou. Não se moveu, tinha sido soldado ao duto.

Ficou de pé no patamar e passou as mãos sobre a superfície da parede até encontrar o que estava buscando: uma cunha de pedra grande, de dez quilos de granito, que parecia prestes a cair.

Ele a ergueu e golpeou no respiradouro no ponto onde se encontrava ao duto. A solda se desintegrou, a extremidade superior esquerda do respiradouro se soltou. As criaturas agora estavam a três metros abaixo, tão perto que ele conseguia sentir o cheiro pútrido da última caçada exalando como uma colônia das selvas. Ele ergueu a rocha outra vez, baixou-a com uma pancada forte no canto direito. O respiradouro se soltou e despencou com um clangor pelo despenhadeiro, quicando na rocha e quase atingindo uma das criaturas em sua queda. Tudo o que se interpunha entre Ethan e a escuridão de um duto de ventilação eram as pás girando e sugando o ar.

Ele chocou a rocha ao ventilador e fez as rotações pararem. Três pancadas fortes separaram a estrutura de onde ela se fixava, Ethan enfiando a mão, pegando as pás e as jogando penhasco abaixo.

Pegou a rocha, segurou alto e a deixou cair na criatura mais próxima no momento em que suas garras alcançaram a beirada.

Despencou guinchando.

Seu parceiro observou-o até que atingisse o chão, e então olhou de volta para Ethan. Ele sorriu e disse:

— Você é o próximo.

A coisa o observou com atenção, a cabeça pendendo para o lado, como se pudesse entender, ou pelo menos quisesse. Agarrou-se à rocha abaixo da plataforma, a uma distância de fácil alcance, Ethan esperando que se movesse, mas ela se manteve no mesmo lugar. Ethan girou, procurando na parede da encosta ao seu alcance por outra pedra solta, mas não encontrou nada.

Quando se virou outra vez, o monstro ainda estava empoleirado na rocha. Ajeitando-se.

Ethan se perguntando se deveria subir até encontrar outra pedra de tamanho considerável. Má ideia. Você teria que descer para voltar a este patamar. Ethan se agachou, desamarrou a bota esquerda. Descalçou e então fez a mesma coisa com a direita.

Ele a ergueu — nem de longe o peso da rocha, mas talvez desse conta do recado. Segurando pelo salto, ele fez uma encenação dramática de puxar o braço para trás enquanto olhava fixo para os olhos leitosos do monstro.

— Você sabe o que o espera, não sabe?

Ethan fingiu um lançamento.

A criatura não se abalou e se afastou da rocha, como ele esperava, apenas tocando de leve o paredão.

Da vez seguinte não foi um fingimento, mas Ethan jogou com tanta força que a bota passou pela cabeça da criatura e seguiu seu curso ininterrupto até cair na base do desfiladeiro. Ele ergueu a outra, mirou, atirou.

Ataque direto na cara.

A bota quicou e caiu, a criatura, ainda agarrada ao paredão, olhou para Ethan e silvou. A expressão de intenções assassinas.

— Quanto tempo você acha que vai conseguir aguentar? — Ethan perguntou. — Já deve estar ficando cansado — ele esticou o braço para baixo, como se para oferecer uma mãozinha. — Eu ajudo o resto do caminho. Você só precisa confiar em mim — a forma como o bicho o encarava era enervante. Havia com certeza inteligência ali, o que era mais assustador, pois Ethan não sabia a que nível de profundidade ela chegava. Ethan sentou-se na rocha.

— Vou continuar bem aqui — ele disse. — Até você cair. Observou o coração da criatura batendo.

Observou-a piscando.

— Você é um filho da mãe horroroso — Ethan gargalhou. — Desculpe, não consegui resistir. É de um filme. Sério, o que diabos é você?

Quinze minutos se arrastaram.

Já era tarde avançada.

O sol começando a cair, o solo do desfiladeiro já na escuridão. Era frio ali em cima na rocha.

Algumas nuvens navegando acima, mas eram irrelevantes e foram engolidas em todo aquele céu azul cristalino como pensamentos tardios.

As cinco garras na pata dianteira esquerda da criatura começaram a tremer, sacudindo contra o apoio microscópico, e algo em seus olhos se alterou. Ainda cheio de fúria, mas agora havia outro elemento — medo?

A cabeça dela girou, analisando toda a rocha no raio de alcance. Ethan já tinha feito a mesma inspeção e chegado à mesma conclusão. — É, é isso aí, cara. Este patamar. Meu patamar. Sua única opção. Um tremor percorreu a perna direita da criatura e Ethan havia aberto a boca para sugerir que apenas se soltasse, quando ela saltou de onde estava, subindo quase um metro e meio e simultaneamente brandindo a pata direita num arco amplo, contínuo. Poderia ter rasgado o rosto dele, mas Ethan se abaixou, garras roçando o topo de sua cabeça, e então ele se ergueu nas duas pernas, pronto para chutar aquela coisa para fora do despenhadeiro.

Contudo, não foi preciso.

A coisa nunca teve a chance de alcançar a borda da plataforma em seu estado enfraquecido — apenas tentou um último golpe para puxar Ethan ao chão junto com ela. A queda, aparentemente, não foi surpresa, porque o bicho não emitiu som algum e não debateu braços ou pernas no caminho.

Apenas olhou fixo para Ethan ao despencar na direção do solo sem sol do desfiladeiro, corpo tão imóvel como se no meio de um salto ornamental. Resignação completa, talvez até mesmo em paz, com o próprio destino.