Pines

Blake Crouch · Capítulo 18 de 20

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Pines

Capítulo 18

Ethan abriu os olhos.

A cabeça estava encostada numa janela e ele observava um terreno montanhoso passando a duzentos e cinquenta quilômetros por hora. Avançavam em velocidade estável, se fosse dar um palpite, a duzentos e cinquenta pés do chão. Ele havia pilotado um helicóptero-ambulância por seis meses depois de voltar do Iraque, antes de se candidatar ao Serviço Secreto, e reconhecia não só a voz das turbinas Lyncoming rugindo sobre sua cabeça como as dimensões de um BK117. Havia pilotado o mesmo modelo na empresa de transporte de emergências médicas. Desencostando a cabeça do vidro, ele quis fazer um movimento para coçar a lateral do nariz, mas descobriu as mãos algemadas nas costas.

A cabine de passageiros havia sido disposta numa configuração padrão — quatro assentos divididos em duas fileiras frente a frente e um espaço para carga na parte posterior da fuselagem, escondida atrás de uma cortina.

Jenkins e o xerife Pope estavam sentados do outro lado e Ethan estava contente de ver o nariz do homem da lei ainda com curativo.

A enfermeira Pam — depois de trocar o uniforme clássico de enfermeira por calças cargo pretas, uma camiseta preta de manga longa, uniforme militar, e uma espingarda H&K — estava sentada ao lado; uma meia-lua de pontos de sutura curvando-se desde a porção raspada de seu couro cabeludo, cruzando a têmpora e descendo até a face. Beverly tinha sido responsável por aquilo e Ethan registrou uma centelha de raiva ao se lembrar do que tinha sido feito com aquela pobre mulher.

A voz de Jenkins surgiu pelos fones de ouvido. — Como está se sentindo, Ethan?

Embora se sentisse zonzo por causa dos remédios, sua cabeça já começava a clarear. Mas não respondeu.

Apenas encarou.

— Lamento pelo choque de ontem, mas não podíamos assumir nenhum risco. Você já se provou mais do que capaz de tomar conta de si mesmo e eu não queria arriscar nenhuma outra perda humana. Sua, ou dos meus homens.

— Perda humana, é? Agora é com isso que você está tão preocupado? — Também tomamos a liberdade de reidratá-lo, oferecer alguma nutrição, roupas novas. Cuidar dos seus ferimentos. Devo dizer… sua aparência é muito melhor agora. Ethan olhou pela janela — pinheirais infindáveis se estendendo por vales e por colinas que de vez em quando se elevavam acima das copas das árvores em escarpados de rocha. — Aonde estão me levando? — Ethan perguntou. — Estou mantendo minha palavra.

— A quem?

— A você. Vou mostrar o que tudo isso significa. — Não entend…

— Você vai. Mais quanto tempo, Roger?

O piloto falou pelos fones:

— Coloco vocês no solo em quinze.

* * *

Era uma região remota que fazia cair o queixo. Sem estradas, nem casas até onde a vista de Ethan alcançava. Apenas colinas repletas de florestas e um ocasional rabisco de água entre as árvores — vislumbres de córrego e rio.

Logo o pinheiral ficou para trás e Ethan conseguiu perceber pela mudança no som das turbinas duplas que o piloto havia iniciado a descida.

* * *

Voaram sobre colinas marrons e de aparência árida, que depois de quinze quilômetros desembocaram numa vasta floresta de coníferas. A duzentos pés do nível do solo, o helicóptero inclinou-se de lado e circundou por vários minutos os mesmos dois quilômetros e meio quadrados de uma propriedade, enquanto Pope estudava o terreno pelo binóculo.

Ele enfim falou pelo microfone.

— Parece tudo bem.

* * *

Aterrissaram numa grande clareira rodeada por carvalhos muito altos, das cores do outono, os rotores fazendo o mato rodopiar em grandes ondas que se propagavam a partir do helicóptero em círculos concêntricos.

Ethan olhou pelo campo enquanto o motor parava. — Quer se juntar a mim para uma pequena caminhada, Ethan? — Jenkins perguntou. Pam se aproximou, desafivelou o cinto de segurança de sua cintura e de seus ombros. — Algemas também? — ela perguntou.

Jenkins olhou para Ethan.

— Você vai se comportar?

— Claro.

Ethan inclinou o corpo para frente a fim de que Pam pudesse chegar à fechadura. As algemas se abriram.

Ele esticou os braços e massageou os punhos.

Jenkins olhou para Pope, abriu a mão, disse:

— Você trouxe algo para mim, como eu pedi?

O xerife a preencheu com um revólver de aço inoxidável que parecia robusto o suficiente para suportar cartuchos 357 Magnum.

Jenkins parecia na dúvida.

— Já vi você atirar — Pope disse. — Não vai ter problemas. Qualquer lugar perto do coração ou, melhor ainda, na cabeça, e você está feito.

Pope procurou algo atrás de seu assento e trouxe uma AK-47 enfeitada com um tambor de cem projéteis. Ethan o observou alterar o modo de segurança para rajada de três tiros. Jenkins tirou seu conjunto de fones de ouvido e microfone. Em seguida puxou a cortina entre a cabine de passageiros e o cockpit, disse ao piloto: — Estaremos no canal 4 e vamos entrar em contato se for preciso partir às pressas. — Vou ficar com o dedo no botão de partida.

— Use o rádio ao primeiro sinal de problemas. — Sim, senhor.

— O Arnie deixou uma arma com você?

— Duas, na verdade.

— Não vamos demorar.

Jenkins abriu a porta da cabine e desceu.

Depois de Pope e Pam, Ethan seguiu, pisando no patim de pouso e depois no mato fofo que batia na cintura. Alcançou Jenkins, e os quatro seguiram rapidamente pelo campo. Pope na frente com o rifle de assalto, Pam na retaguarda. O dia estava avançado — uma tarde fria, dourada. Todos pareciam inquietos e nervosos, como se estivessem fazendo patrulha. Ethan disse:

— Desde que cheguei a Wayward Pines, vocês não fizeram nada a não ser me ferrar. O que vamos fazer aqui nesta maldita selva? Quero saber imediatamente. Eles entraram na floresta, avançando com dificuldade por uma bagunça de vegetação rasteira. O som de pássaros ficando mais alto.

— Mas, Ethan, isso não é selva.

Ethan vislumbrou algo escondido entre as árvores, percebendo que não tinha notado de início por causa de toda a vegetação. Apressou o passo, agora abrindo caminho entre os arbustos e plantas jovens que abrangiam a parte inferior da floresta, Jenkins seguindo logo atrás. Quando Ethan chegou à base daquilo, ele parou e olhou para cima. Por um instante, não entendeu exatamente o que estava vendo. Embaixo, as vigas estavam envoltas em vários centímetros de vinhas vivas e mortas, o marrom e o verde camuflando o formato da estrutura, fundindo-a de forma tão indistinta na cor da floresta que, se olhassem de soslaio, era invisível.

Mais acima, era possível ver a cor de vigas de aço — tão enferrujadas que beiravam o vermelho. Séculos de oxidação. Três carvalhos haviam brotado bem no coração do espaço, girando e se contorcendo ao crescer, alguns dos galhos até mesmo proporcionando apoio para vigas. Apenas a estrutura dos seis pisos inferiores ainda estava de pé — o esqueleto corroído de um prédio. Uma porção de vigas perto do topo havia entortado e se curvado como cachos de cabelo acobreado, mas a maior parte dos metais desabara no centro havia muito tempo e passara a fazer parte do solo da floresta.

O som de pássaros vindo das ruínas era tremendo. Como um edifício de aves. Ninhos por toda a parte onde Ethan colocasse os olhos.

— Lembra quando você me disse que queria ser transferido para um hospital em Boise? — Jenkins perguntou.

— Lembro.

— Bem, eu trouxe você a Boise. Bem ao centro da cidade. — Do que está falando?

— Você está olhando para o prédio do Banco dos EUA. O maior arranha-céu de Idaho. Era aqui que a seccional de Boise do Serviço Secreto estava localizada. No décimo sétimo andar? — Você está louco.

— Sei que agora parece uma floresta, mas na verdade estamos no meio da Capitol Boulevard. O Palácio do Governo fica só a meio quilômetro por essas árvores, embora, para encontrar qualquer vestígio dele, você tenha que cavar.

— O que é isso? Algum tipo de truque?

— Eu disse.

Ethan pegou Jenkins pelo colarinho e o puxou mais para perto. — Comece a dizer algo que faça sentido.

— Você foi colocado em suspensão animada. Você viu as unidades… — Por quanto tempo?

— Ethan…

— Quanto. Tempo.

Jenkins fez uma breve pausa, Ethan se dando conta de que havia algo dentro de si que quase não queria ouvir a resposta.

— Mil oitocentos e quatorze anos…

Ethan largou a camisa de Jenkins.

— … cinco meses…

Cambaleou para trás.

— … e onze dias.

Olhou para a ruína.

Olhou para o céu.

— Você devia descansar as pernas — Jenkins disse. — Vamos sentar — e enquanto Ethan se deixava cair sobre um grupo de samambaias, Jenkins olhou para Pope e Pam. — Vocês nos deem um minuto, está bem? Mas não se afastem muito. Eles se foram.

Jenkins sentou em frente a Ethan.

— Sua mente está a toda — ele disse. — Será que você poderia tentar não pensar por um minuto e apenas me ouvir?

Havia chovido recentemente: Ethan podia sentir a umidade do solo passar pela calça cargo marrom que tinham vestido nele.

— Deixe-me perguntar uma coisa — Jenkins disse. — Quando você pensa na maior descoberta revolucionária da história, o que lhe vem à mente? Ethan deu de ombros.

— Vamos, estou disposto a ouvi-lo.

— Viagem espacial, teoria da relatividade, eu não… — Não. A maior descoberta da história da humanidade foi entender como o homem seria extinto.

— Enquanto espécie?

— Exato. Em 1971, um jovem geneticista chamado David Pilcher fez uma descoberta alarmante. Tenha em mente que isso é anterior ao splicing de RNA, antes do polimorfismo do DNA. Ele descobriu que o genoma humano, que essencialmente é a totalidade de sua herança genética, que é o que programa o crescimento celular, estava mudando, se corrompendo. — Por qual razão?

— Por qual razão! — Jenkins riu. — Por todas. Pelo que nós já tínhamos feito com a Terra, e por tudo o que nós faríamos nos séculos seguintes. Extinção dos mamíferos. Desmatamento. Derretimento do gelo polar. Ozônio. Níveis elevados de dióxido de carbono na atmosfera. Chuva ácida. Zonas mortas nos oceanos. Pesca predatória. Excessiva perfuração de petróleo em solo oceânico. Guerras. A criação de um milhão de automóveis queimando gasolina. Os desastres nucleares: Fukushima, Three Mile Island, Chernobyl. As mais de duas mil explosões nucleares feitas de propósito em nome do teste de armas atômicas. Descarte de lixo tóxico. O petroleiro Exxon-Valdez. O vazamento da British Petroleum no Golfo do México. Todos os venenos que colocamos na nossa comida e água todos os dias. “Desde a Revolução Industrial, tratamos nosso mundo como se fosse um quarto de hotel, onde éramos estrelas do rock. Mas não somos estrelas do rock. No esquema das forças evolutivas, somos uma espécie fraca, frágil. Nosso genoma é corruptível, e abusamos tanto deste planeta que, no fim das contas, corrompemos o precioso mapa do DNA que faz de nós humanos. “Mas esse homem, Pilcher, ele viu o que nos aguardava. Talvez não especificamente, mas em linhas gerais. Viu que, ao longo de sucessivas gerações, por causa das mudanças substanciais que estávamos provocando no meio ambiente, havia a possibilidade de uma anagênese veloz. Para colocar em termos que você possa entender: uma mudança rápida em nível macroevolutivo. O que estou dizendo? De humano para alguma outra coisa no espaço de trinta gerações. Para colocar em termos bíblicos, Pilcher acreditava que um dilúvio estava chegando, por isso decidiu construir uma arca. Está me acompanhando?” — Não mesmo.

— Pilcher pensou que poderia preservar um número de humanos puros antes que a corrupção alcançasse uma população crítica, e que eles pudessem, de fato, ficar à margem das mudanças evolucionárias. Mas, para conseguir isso, seria necessária uma tecnologia robusta de suspensão animada.

“Ele criou um laboratório e jogou seus bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Teve sucesso em 1975 e começou a fabricar mil unidades de suspensão. Enquanto isso, Pilcher estava à procura de uma cidadezinha para abrigar sua carga e, quando se deparou com Wayward Pines, ele soube que era perfeita. Isolada. Território que podia ser defendido. Amuralhada por essas grandes montanhas. Difícil de chegar. Difícil de sair. Ele comprou todas as propriedades residenciais e comerciais e começou a construir um complexo, um abrigo, dentro das montanhas circundantes. Era um projeto imenso. Foram necessários vinte e dois anos para terminar.”

— E como os suprimentos foram mantidos por todo esse tempo? — Ethan perguntou. — Madeira e comida não teriam durado quase dois mil anos. — Até que a equipe fosse reanimada, a caverna-armazém, os dormitórios e o centro de vigilância, literalmente cada centímetro quadrado daquele complexo, existiu no vácuo. Não era perfeito, e perdemos alguns materiais, mas restou o suficiente para reconstruir a infraestrutura de Wayward Pines, algo que o tempo e os elementos da natureza haviam apagado por completo. Mas o sistema da caverna que utilizávamos continha umidade mínima no ar, e uma vez que conseguimos eliminar 99,9% de todas as bactérias, se tornou quase tão eficiente quanto a própria suspensão.

— Então a cidade é autossuficiente por completo? — Sim, funciona como um vilarejo amish ou uma sociedade pré-industrial. Como você viu, temos vastas quantidades de mantimentos básicos que embalamos e mandamos para a cidade de caminhão.

— Eu vi vacas. Vocês também criaram câmaras de suspensão para os animais? — Não, apenas colocamos alguns embriões em estase. Depois utilizamos úteros artificiais. — Não havia algo assim em 2012.

— Mas havia em 2030.

— Onde está Pilcher agora?

Jenkins deu um sorriso sem emoção.

— Você? — Ethan perguntou.

— Seus colegas, Kate Hewson e Bill Evans, quando desapareceram em Wayward Pines, estavam tentando me encontrar. Alguns dos meus negócios haviam caído no radar do Serviço Secreto. É por isso que você está sentado aqui neste exato momento. — Você sequestrou agentes federais? E os manteve aprisionados? — Sim.

— E muitos outros…

— Além da minha equipe escolhida a dedo e extremamente bem-recompensada, não achei que fosse conseguir muito em caráter de voluntários para uma empreitada desta natureza. — Então você abduzia as pessoas que vinham a Wayward Pines. — Alguns foram para a cidade e eu os peguei lá. Outros, eu busquei. — Quantos?

— Foram 650 recrutados no curso de cinquenta anos. — Você é um psicopata.

Pilcher parecia considerar a acusação, seus olhos negros e serenos estavam intensos e pensativos. Era a primeira vez que Ethan realmente tinha enxergado o rosto do homem, e percebeu que a cabeça raspada e a pele bonita conflitavam com sua idade. Devia ter sessenta e poucos anos. Talvez mais. Ethan, até o momento, havia considerado um truque a forma absolutamente precisa e controlada de falar, uma artimanha de psiquiatra, mas agora ele via a realidade: era a clara evidência de um intelecto imenso. Deu-se conta de repente de que estava sentado ali fora sob a copa de carvalhos com a mente mais aguçada que já tinha encontrado. Algo ao mesmo tempo fantástico e aterrorizante nesse fato. Pilcher disse enfim:

— Não vejo desta forma.

— Não? Então como?

— Mais como… o salvador da nossa espécie.

— Você roubou pessoas de suas famílias.

— Você ainda não entendeu, não é?

— Entender o quê?

— O que Wayward Pines é. Ethan… é a última cidade da Terra. Uma cápsula do tempo viva que preserva o nosso modo de vida. O Sonho Americano. Os residentes, a equipe, eu, você… somos o que sobrou da espécie Homo sapiens. — E você sabe disso porque…

— Porque enviei um punhado de equipes de reconhecimento ao longo dos anos. Aqueles que conseguiram voltar reportaram as condições mais hostis possíveis. Sem a proteção e a infraestrutura de um lugar como Wayward Pines, ninguém poderia sobreviver. Desde que a minha equipe saiu da suspensão há quatorze anos, enviamos chamados de perturbação pelo rádio em todas as frequências de emergência conhecidas. Eu até tomei a decisão de transmitir as coordenadas de Pines na remota chance de que ainda houvesse humanos por aí. Ninguém nunca bateu à nossa porta. Ninguém nunca fez contato. Eu disse que essa é Boise, mas não é. Não existe Boise, nem Idaho, nem Estados Unidos. Nomes não significam mais nada. — E como tudo acabou?

— Bem, nunca saberemos, não é? Eu fui dormir logo depois de você, então ainda pude ter vinte e cinco anos em Wayward Pines pós-suspensão. Depois de 2032 éramos todos uma montanha adormecida. Mas se eu fosse dar um palpite? Estimei que em 2300 nós veríamos a colheita das maiores anormalidades. E com a diversidade sendo a matéria-prima da evolução, em 2500, poderíamos ser classificados como uma espécie completamente diferente. Cada geração chegando mais e mais perto de algo que poderia se desenvolver com sucesso neste mundo tóxico. Algo menos e menos humano.

“Você pode imaginar as ramificações sociais e econômicas. Uma civilização inteira construída para a ruína humana. Estou supondo que houve genocídios. Talvez o fim tenha acontecido em quarenta anos terríveis. Talvez tenha levado mil. Talvez uma guerra nuclear de escala global tenha ceifado a vida de bilhões no espaço de um mês. Tenho certeza de que muitos pensaram que era o fim. Mas nunca teremos esse fragmento de informação. Tudo o que sabemos é que o está por aí agora.”

— E o que é?

— Aberrações. Nós as chamamos de “abes”. Aquelas criaturas de pele translúcida que quase o mataram no desfiladeiro. Desde que saímos da suspensão, só voamos três vezes de helicóptero, incluindo hoje. É um tanto arriscado. O mais longe que chegamos foi a Seattle. Ou onde Seattle costumava ser. Tivemos que transportar combustível. Quase não conseguimos voltar. Levando em conta o que eu vi, deve haver centenas de milhares daquelas criaturas só neste continente. São predadores, claro, e se a população deles é tão saudável quanto eu estou supondo, isso apontaria para uma população crescente de cervos ou outros ruminantes. É até mesmo possível que algum descendente dos bisões esteja mais uma vez habitando as planícies em larga escala.

“Já que não podemos deixar o vale para fazer pesquisas, só temos uma pequena amostra para avaliar quais espécies sobreviveram ilesas pelos últimos dois milênios. Pássaros parecem não ter sido afetados. Alguns insetos. Mas então você vai notar que algo está faltando. Por exemplo, não existem grilos. Não existem vaga-lumes. E em quatorze anos, nunca vi uma abelha sequer.

— O que são essas abes?

— É fácil pensar nelas como mutantes ou aberrações, mas o nome que demos, na verdade, é inadequado. A natureza não vê as coisas sob o prisma do bem ou do mal. Ela recompensa a eficiência. Essa é a bela simplicidade da evolução. Ela combina as características ao ambiente. Ao devastar nosso mundo, forçamos nossa própria transformação em uma espécie descendente do Homo sapiens que se adaptou, através da seleção natural, para sobreviver à destruição da civilização humana. Alinhe nossas sequências genômicas com as dessa espécie, e apenas sete milhões de letras são diferentes. Isso é cerca de meio por cento. — Jesus.

— Do ponto de vista logístico, as abes causam imensos problemas. Elas são muito mais inteligentes do que os grandes primatas e exponencialmente mais agressivas. Capturamos alguns desses animais ao longo dos anos. Nós os estudamos. Tentamos estabelecer comunicação, mas tudo falhou. A velocidade e força que eles têm estão mais de acordo com o homem de Neandertal. Com menos de trinta quilos, eles são letais e alguns chegam a ter noventa. Você tem sorte de ter sobrevivido.

— É por isso que vocês construíram cercas em volta de Wayward Pines. — É chocante quando nos damos conta de que não estamos mais no topo da cadeia alimentar. De vez em quando, uma abe consegue passar, mas mantemos sensores de movimento nos limites da cidade, e o vale inteiro sob vigilância de atiradores de elite, dia e noite. — Então por que vocês não apenas…

— Apagamos você? — Jenkins sorriu. — Primeiro porque eu queria que o povo fizesse isso. Quando você chegou ao desfiladeiro, sabíamos que uma matilha de abes estava na área. Você estava desarmado. Por que gastar munição?

— Mas os residentes… eles não sabem sobre nada disso? — Não.

— O que eles pensam?

— Eles acordaram aqui depois de um acidente, do mesmo jeito que você, com novos ferimentos nos lugares certos, claro. Durante nosso programa de integração, eles passam a entender que não há como sair. E temos regras e consequências para minimizar as complicações que surgem quando alguém de 1984 é vizinho de alguém de 2015. Para que os residentes prosperem e se reproduzam, eles não podem saber que são tudo o que resta. Eles têm que viver como se o mundo ainda existisse lá fora. — Mas não existe. Então qual o objetivo da mentira? Quando você os tira da suspensão, por que não diz apenas: “Parabéns! Vocês são os únicos sobreviventes!”? — Fizemos exatamente isso com o primeiro grupo. Tínhamos acabado de reconstruir a cidade e trouxemos todo mundo para a igreja e dissemos: “Então, é o seguinte…”. Contamos tudo. — E?

— Num intervalo de dois anos, trinta e cinco por cento da população haviam cometido suicídio. Mais vinte por cento deixaram a cidade e foram massacrados. Ninguém se casou. Ninguém engravidou. Perdi noventa e três pessoas, Ethan. Não posso… não, a humanidade não pode se dar ao luxo de ter perdas nessa escala. Não quando a nossa espécie está em perigo, até a última das nossas oitocentas e onze almas. Não estou dizendo que nosso método é perfeito, mas em todos esses anos, e depois de tentar quase tudo, esse se provou o sistema mais eficaz que encontramos para fazer crescer a nossa população. — Mas eles sempre se perguntam, não é? Sobre o que existe lá fora, sobre o que eles são na realidade...

— Alguns sim, mas somos uma espécie que se adapta. Ao longo do condicionamento, como bons humanos, a maioria passa a aceitar o meio ambiente, contanto que não seja completamente desprovido de esperança.

— Não acredito que eles aceitem que o mundo ainda exista lá fora, quando você não os deixa vê-lo.

— Você acredita em Deus, Ethan?

— Não.

— Muitos, sim. Adotaram códigos morais. Criaram religiões. Assassinaram em nome de deuses que nunca viram ou ouviram. Você acredita no universo? — Claro.

— Ah, então você foi ao espaço. Viu aquelas galáxias distantes em primeira mão? — Certo, faz sentido.

— Wayward Pines é apenas um mundo encolhido. Uma cidadezinha que nunca se foi. Medo e fé no desconhecido ainda se aplicam, mas em menor escala. As fronteiras do mundo de onde você veio são o espaço e Deus. Em Pines, as fronteiras são os paredões de rocha que protegem a cidade e a misteriosa presença nas montanhas, isto é, eu. — Você não é um psiquiatra de verdade.

— Não de formação, mas eu interpreto um na cidade. Considero útil ganhar a confiança dos residentes. Manter contato com o espírito da cidade. Encorajar as pessoas em suas lutas, suas dúvidas.

— Você fez as pessoas assassinarem a Beverly. — Sim.

— E o agente Evans.

— Ele me forçou a isso.

— Você os faria me assassinar.

— Mas você escapou. Provou-se ainda mais habilidoso do que eu pensei no início. — Você criou uma cultura de violência.

— Isso não é nada novo. Olhe, quando a violência se torna a norma, as pessoas se adaptam à norma. Não é diferente das lutas de gladiadores, de jogar os cristãos aos leões ou dos enforcamentos públicos no Velho Oeste. Uma atmosfera de autopoliciamento não é algo ruim. — Mas essas pessoas não são livres de verdade. — A liberdade é uma total construção do século XX. Você vai ficar aqui sentado e me dizer que a liberdade individual é mais vital do que a sobrevivência da nossa espécie? — Eles poderiam decidir por si próprios. No mínimo haveria dignidade. Não é isso que faz de nós humanos?

— A decisão não cabe a eles.

— E cabe a você, então?

— A dignidade é um conceito lindo, mas e se eles fizerem a escolha errada? Como aquele primeiro grupo. Se não sobra espécie para sequer perpetuar esse ideal, qual o sentido? — Por que você não me matou?

Pilcher sorriu, como se contente que Ethan finalmente tivesse tocado no assunto. Inclinou a cabeça de lado.

— Está ouvindo?

— O quê?

— Silêncio.

Os pássaros tinham ficado silenciosos.

Pilcher se levantou fazendo força com as pernas. Ethan também ficou de pé.

A floresta tinha ficado imóvel de repente.

Pilcher puxou a arma do coldre na cintura.

Desenganchou o rádio comunicador, trouxe-o até a boca. — Pope, volte, câmbio.

— Sim, câmbio.

— Onde você está? Câmbio.

— Duzentos metros para o norte. Tudo certo? Câmbio. — Estou com a impressão de que é hora de corrermos para as colinas, câmbio. — Entendido. A caminho. Câmbio, desligo.

Pilcher iniciou o caminho até a clareira.

Na distância atrás deles, Ethan podia ouvir a confusão de galhos se quebrando e folhas secas estalando enquanto Pope e Pam se dirigiam até eles. — Era importante para mim, Ethan, trazê-lo aqui, a mais de duzentos quilômetros, às ruínas de Boise. Espero que valorize o gesto. Tivemos nossa porção de residentes problemáticos ao longo dos anos, mas ninguém como você. O que acha que valorizo mais do que tudo? — Não faço ideia.

Ethan lançou um olhar por entre os carvalhos, até a campina. Folhas vermelhas caíam dos galhos de cima pairando preguiçosas. — Controle. Há um grupo agindo por baixo dos panos em Pines que demonstra uma fachada de aceitação. Mas, em segredo, eles querem tomar o controle. Chame de… insurreição. Uma rebelião. Eles querem se libertar, abrir as cortinas, mudar a forma como as coisas são feitas. Entenda que isso significaria o fim de Pines. O nosso fim. Eles saíram do meio das árvores, o helicóptero a menos de cem metros de distância, a pintura cor de bronze reluzindo no sol vespertino.

Uma parte de Ethan pensava: Que dia perfeito de outono. — O que você quer de mim? — Ethan perguntou. — Quero que me ajude. Você tem uma seleção rara de habilidades. — Por que será que estou sentindo você insinuar que eu não tenho escolha nesta questão? — Claro que tem.

Uma brisa soprou no rosto de Ethan, o mato da campina se dobrando na direção do solo. Eles alcançaram o helicóptero e Pilcher abriu a porta; deixou Ethan subir primeiro. Quando estavam sentados e de frente um para o outro, Pilcher disse: — Tudo o que você quis fazer desde que acordou em Wayward Pines foi ir embora. Estou lhe dando essa oportunidade e com um bônus. Nesse exato momento. Olhe atrás de você. Ethan olhou por sobre seu assento para a divisão de carga e abriu a cortina. Seus olhos se encheram de lágrimas.

Estava ali o tempo todo… um fragmento brutal de informação que ele sequer tinha se permitido saber. Se o que Pilcher dizia era verdade, então Ethan nunca mais veria sua família. Não seriam mais do que ossos antigos.

E agora, lá estavam eles – Theresa e Ben inconscientes e amarrados a um par de macas com uma mochila preta entre eles.

Seu menino não parecia menino.

— Depois que o colocamos em suspensão, eu pesquisei a seu respeito, Ethan. Concluí que você apresentava um grande potencial. Por isso fui atrás da sua família. Ethan enxugou os olhos.

— Há quanto tempo eles estão em Pines?

— Cinco anos.

— Meu filho… ele tem…

— Doze anos agora. Eles dois se integraram bem. Pensei que seria melhor estabilizá-los aqui antes de tentar trazer você.

Ethan não se preocupou em mascarar a raiva por trás de sua voz, as palavras saindo como um rugido.

— Por que você esperou tanto?

— Eu não esperei. Ethan, esta é nossa terceira tentativa com você. — Como isso é possível?

— Um dos efeitos da suspensão é a amnésia retrógrada. Cada vez que você é reanimado, sua mente zera até o momento anterior à sua primeira suspensão. No seu caso… o acidente de carro. Embora eu suspeite que algumas memórias permaneçam. Que talvez elas venham à tona em sonhos.

— Tentei escapar antes?

— Da primeira vez, você cruzou o rio, quase foi morto pelas abes. Nós interviemos, salvamos você. Da segunda vez, nos certificamos de que descobrisse sua família, pensando que isso poderia ajudar. Mas você tentou escapar com eles. Quase matou os três. — Então desta vez tentaram agir na minha mente? — Pensamos que se pudéssemos induzir psicose, talvez tivéssemos uma chance. Enchemos você de uns antipsicóticos bem poderosos.

— Minhas dores de cabeça.

— Inclusive tentamos usar sua história de tortura contra você. — Do que está falando?

— Tenho sua ficha militar. Seu relato do que aconteceu em Fallujah. Tentamos abordar esse aspecto durante o interrogatório com Pope.

— Você é… doente.

— Nunca esperei que você fosse chegar ao ponto de invadir o complexo. Íamos apenas deixar as abes pegar você. Mas quando o vi parado na sala de Suspensão, algo me ocorreu. Você é teimoso. Um lutador de corpo e alma. Nunca aceitaria a realidade de Wayward Pines. Compreendi que eu precisava parar de lutar contra você. Que, em vez de um ponto fraco, você poderia, de fato, ser um trunfo.

— Por que simplesmente não me contou tudo isso? — Porque não sabia o que você iria fazer com a informação, Ethan. Suicídio? Fuga? Tentar sobreviver sozinho? Mas agora eu me dei conta de que você é uma das raridades. — Como assim?

— As pessoas na cidade, em sua maioria, não conseguem lidar com a verdade que está aí fora. Mas você… você não consegue lidar com a mentira. O não saber. Você é o primeiro residente com quem eu compartilho qualquer destas informações. Claro, sua família ficou devastada de ver as dificuldades que você teve.

Ethan voltou um olhar fulminante para Pilcher.

— Por que você os trouxe aqui?

— Estou lhe dando uma escolha, Ethan. Eles não sabem nada sobre o mundo fora de Pines. Mas você sabe. Diga a palavra e eu vou deixá-lo aqui neste campo com a sua família. Há uma bagagem com comida e suprimentos, até algumas armas. Você é um homem que quer as coisas nos seus termos, e isso é algo que respeito. Se isso é o mais importante para você, então agarre com unhas e dentes. Você pode reinar no inferno, aqui do lado de fora, ou servir no céu, lá em Pines. A escolha é sua. Mas se voltar a Pines, se quer a segurança e o apoio para sua família, para você mesmo, terá que ser nos meus termos. E meus termos, Ethan, contêm penalidades severas. Se você der mancada comigo, se me trair, vou fazê-lo assistir o momento em que eu pegar seu filho e…

O ruído repentino interrompeu Pilcher. Primeiro Ethan pensou que alguém tivesse acionado uma britadeira na floresta, mas então o medo o atingiu bem no meio dos olhos. Era o ra-ta-ta-tá da AK.

A voz de Pam explodiu pelo rádio:

— Dê partida no helicóptero! Eles estão vindo! Pilcher olhou para a cabine de comando.

— Tire a gente daqui — pediu.

— Trabalhando nisso, chefe.

Ethan ouviu as turbinas do BK117 ganhando vida, a explosão ruidosa da espingarda de Pam. Ele foi até a janela, olhando fixo de volta para a floresta, o tiroteio ficando mais alto. Muito rápido, já estava barulhento demais dentro do helicóptero para conseguirem conversar, por isso ele colocou o fone de ouvido e indicou a Pilcher para fazer o mesmo. — O que quer que eu faça? — Ethan perguntou. — Ajude-me a administrar Pines. De dentro. Vai ser um trabalho e tanto, mas você foi feito para isso.

— Não é isso que o Pope está fazendo?

Ethan viu movimento nas árvores quando as turbinas começaram a gemer, a cabine vibrando, as rotações aumentando de velocidade.

Pope e Pam dispararam da floresta, caminhando de costas para a clareira. Três abes saltaram do bosque e Pope abateu duas com uma longa saraivada automática ao mesmo tempo em que Pam meteu um par de balaços no peito da terceira. Ethan se jogou para o outro lado da cabine e olhou pela janela. — Pilcher.

— O quê?

— Me dê a sua arma.

— Por quê?

Ethan bateu no vidro, indicando uma matilha de abes surgindo do lado oposto do campo — pelo menos quatro delas disparando para Pam e Pope a toda velocidade, uma corrida que utilizava os quatro membros.

— Está comigo, Ethan?

— Eles vão ser mortos.

— Você está comigo?

Ethan fez que sim.

Pilcher bateu a .357 na mão dele.

Ethan arrancou o fone de ouvido e gritou para a cabine: — Quanto tempo?

— Trinta segundos!

Escancarou a porta e pulou para o mato.

O barulho do vento dos rotores gritava em seus ouvidos. Pope e Pam estavam a menos de cinquenta metros de distância e ainda andando de costas para o helicóptero enquanto abriam fogo contra a ameaça avançando como uma enxurrada. Já haviam abatido uma dúzia — corpos pálidos estirados pelo mato — e ainda outras mais estavam vindo.

Mais do que Ethan podia contar.

Ele correu na direção oposta.

Vinte metros depois da aeronave, parou e plantou os pés no chão com as pernas abertas na largura dos ombros.

Olhou para o revólver em mãos, um Ruger de ação dupla com um tambor de seis projéteis. Ele o ergueu.

Mirou seguindo a direção do cano.

Cinco delas avançando a toda velocidade.

Armou o cão como se fosse uma metralhadora desvairada, e fogo calibre doze rugiu mais alto do que as turbinas.

As abes estavam a dez metros de distância, Ethan pensando: A qualquer hora que você começar a atirar, vai ser uma boa ideia. E nada de toques duplos. Você precisa de tiros únicos, matadores.

Ele mirou na que vinha pelo centro e, quando estava no ponto mais elevado de sua passada, disparou um tiro que transformou o topo da cabeça da criatura numa fonte de sangue. Pelo menos estava atirando projéteis de pontas ocas. As outras quatro vinham inabaláveis.

A cinco metros.

Ele derrubou as duas à esquerda — um tiro na cara de cada uma. Atingiu a quarta na garganta.

A última abe estava agora a menos de três metros. Perto o bastante para que sentisse o cheiro.

Atirou quando a criatura saltou, a bala apenas atingindo-a de raspão na perna, então ajustou a mira enquanto a abe disparava até ele.

Armou o cão, puxou o gatilho quando o monstro chegou, dentes arreganhados, seu grito naquela proximidade era mais alto do que as turbinas. A bala atravessou-lhe os dentes e destruiu a parte de trás da cabeça num jorro de osso e cérebro e a criatura caiu sobre Ethan.

Ele não se mexeu.

Atordoado.

Sua cabeça jogou para trás com tanta força que lampejos de luz estavam explodindo onde quer que ele olhasse, e sua audição ficou estranha — abafada e lenta, de forma que conseguia captar todos os fragmentos individuais de som que compunham a sinfonia de caos à sua volta. Tiros de espingarda.

A AK.

Rotores girando.

Gritos das abes.

Dizendo a si mesmo: Levante, levante, levante. Ethan ergueu o peso morto da abe de seu peito e se sentou. Tentou olhar pelo campo, mas sua visão continuava embaçada. Piscou forte várias vezes e sacudiu a cabeça, o mundo cristalizando-se devagar, como se alguém estivesse ajustando o foco em um binóculo. Santo Deus!

Já devia haver cinquenta das criaturas na clareira. Dúzias ainda saindo do meio das árvores a cada segundo que passava. Todas se movendo na direção do helicóptero, no centro do campo. Ethan se esforçou para ficar de pé, pendendo para a esquerda ainda sob o efeito da pancada, seu centro de equilíbrio destruído.

Cambaleou para o helicóptero.

Pam já estava dentro.

Pope, parado a alguns metros da entrada, tentando conter as abes. Ele havia encaixado o rifle no ombro e agora estava dando tiros de precisão, Ethan supondo que devesse estar no fim do pente de munição.

Ethan deu um tapinha em seu ombro ao subir nos patins de pouso, gritou em seu ouvido: — Vamos!

Pilcher abriu a porta e Ethan subiu na cabine.

Afivelou o cinto de segurança, espiou pela janela. Um exército de abes inundava todo o campo.

Centenas delas.

A dez segundos do helicóptero e fechando o cerco como uma horda de vira-latas. Ao colocar os fones de ouvido, Pilcher puxou a porta da cabine, trancou por dentro e anunciou:

— Vamos, Roger.

— E o xerife?

— Pope fica.

Pela janela, Ethan viu Arnold jogar sua AK e tentar abrir a porta, lutando com a maçaneta, mas ela não girava.

Pope encarou Pilcher através do vidro, um traço de confusão iluminando os olhos de homem da lei, seguido rapidamente por reconhecimento. Depois, medo.

Pope gritou algo que nunca teve chance de ser ouvido. — Por quê? — Ethan perguntou.

Pilcher não desviou os olhos de Pope.

— Ele quer governar.

Pope bateu os punhos na janela, sangue manchando o vidro. — Sem querer apressar, nem nada, Roger, mas todos nós vamos morrer se você não nos tirar daqui.

Ethan sentiu os patins girar e levantar do chão. Ele disse:

— Você não pode simplesmente deixá-lo.

Ethan assistiu ao helicóptero levantando do chão, o xerife agarrando o braço esquerdo no patim, lutando para se segurar.

— Está feito — Pilcher disse —, e você é meu novo xerife. Bem-vindo a bordo. Uma multidão de abes tentou alcançar Pope, pulando, golpeando com as garras, mas ele havia conseguido se segurar decentemente no patim, seus pés pendurados apenas um pouco fora de alcance.

Pilcher disse:

— Roger, abaixe a aeronave meio metro se não se importa. O helicóptero baixou um tanto desajeitado — Ethan podia perceber que o piloto não voava havia anos —, colocando Pope de volta na loucura que ocorria no solo. Quando a primeira abe agarrou a perna de Pope, o rabo do helicóptero se inclinou para o solo. Outro saltou na outra perna e, por um segundo aterrorizante, Ethan pensou que iriam derrubar o avião.

Roger estabilizou a aeronave, subindo depressa a vinte pés acima do campo. Ethan encarou os olhos enlouquecidos de Pope. O aperto do homem no patim havia se reduzido a apenas uma das mãos, o nó de seus dedos já brancos pelo esforço, três abes penduradas em suas pernas. Ele encontrou os olhos de Ethan.

Gritou algo que afundou no som das turbinas.

Pope soltou, caiu por um segundo e depois desapareceu sob o banquete frenético. Ethan desviou os olhos.

Pilcher estava olhando para ele.

Olhando através dele.

O helicóptero deu uma guinada e berrou para o norte, em direção às montanhas. * * *

Foi um voo tranquilo, a atenção de Ethan dividida entre olhar pela janela e para a cortina onde estava sua família adormecida.

Na terceira vez que olhou para eles, Pilcher disse: — Eles vão ficar bem, Ethan. Vão acordar esta noite, a salvo e aquecidos na cama. É isso que importa, não é? Aí fora vocês todos morreriam com certeza. O crepúsculo estava se aproximando.

Ethan morto de cansaço, mas toda vez que fechava os olhos, seus pensamentos corriam em centenas de direções diferentes a velocidades impensáveis. Então ele tentou apenas observar o mundo passando. Sua vista dava para o oeste.

O sol se fora, e em seu velório uma cordilheira de montanhas exibia o perfil no céu noturno como uma lâmina de serra irregular.

Não havia nada para ver da floresta de pinheiros a mil pés de altura. Nenhum ponto de luz sequer, em nenhum lugar que existisse por causa do homem. * * *

Eles voaram pela escuridão vazia.

Com as luzes da cabine baixas e o brilho do painel de controle no cockpit escondido atrás da cortina, Ethan podia muito bem estar à deriva num mar negro. Ou no espaço.

Tinha a família atrás dele e sentia-se bem com isso, mas, inclinado no vidro frio, ele não conseguia evitar a pontada profunda de medo.

E desespero.

Eles estavam sozinhos.

Tão sozinhos!

A consciência de tal fato atingiu seu cerne.

Nos últimos dias, havia lutado para voltar à sua vida fora de Wayward Pines, mas ela não mais existia.

Não existia há quase dois mil anos.

Seus amigos.

Seu lar.

Seu emprego.

Quase tudo que o definia.

Como um homem poderia se conformar com algo assim? Como alguém poderia seguir em frente sabendo disso? O que nos fazia levantar da cama e ter vontade de inspirar e expirar? A família. As duas pessoas dormindo atrás de você. Ethan abriu os olhos.

Primeiro ele não acreditou no que viu.

À distância, lá embaixo, uma fonte de luz brilhava no meio de toda a escuridão. Era Pines.

A luz das casas e das varandas.

A luz das ruas e dos carros.

Todas se fundindo no suave brilho noturno de uma cidade. Da civilização.

Agora estavam descendo, e ele sabia que lá embaixo, no vale, existia uma casa vitoriana onde sua esposa e filho viviam.

Onde ele também poderia viver.

Havia uma cama quentinha onde se enfiar.

E uma cozinha que teria o aroma da comida que iriam preparar. Uma varanda para sentar durante as longas noites de verão. Um quintal onde ele pudesse brincar de pega-pega com o filho. Talvez até um telhado de metal, e não havia nada que amasse mais do que o som de chuva tamborilando no metal. Especialmente tarde da noite, na cama, com a esposa nos braços e o filho dormindo logo no final do corredor.

As luzes de Wayward Pines brilhavam nos picos que a enclausuravam e, pela primeira vez, aquelas montanhas íngremes pareciam acolhedoras. As fortificações contra todo o terror que estava além. Abrigo para a última cidade na Terra.

Será que algum dia ele sentiria que era ali o seu lar? Estaria tudo bem se sentisse?

Pensa que o homem pode destruir o planeta? Que vaidade tóxica. A Terra sobreviveu a tudo durante seu tempo. Certamente sobreviverá a nós. Para a Terra… um milhão de anos não é nada. Este planeta vive e respira numa escala muito mais vasta. Não somos capazes de imaginar seus ritmos lentos e poderosos, e não temos a humildade para tentar. Somos residentes aqui há um piscar de olhos. Se partirmos amanhã, a Terra não sentirá nossa

falta.[1]