Pines

Blake Crouch · Capítulo 5 de 20

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Pines

Capítulo 5

Ela cruza a cozinha e vai até ele. Ele a enlaça nos braços, enterra o nariz nos seus cabelos. Ele faz isso com frequência, tentando nos últimos tempos recapturar aquele aroma do primeiro encontro — alguma mistura de perfume, condicionador e cheiro do corpo que um dia fez seu coração dar um salto no peito. Mas agora ou havia mudado, ou se perdido, ou se tornado uma parte tão integrante dele, que não conseguia mais detectar o perfume que, quando conseguia, sempre o levava de volta para aqueles primeiros dias. Mais característico ainda do que o cabelo loiro curto e os olhos verdes. Um sentimento de novidade. Mais uma vez. Como uma tarde fria de outubro e o céu azul e claro e as montanhas Cascade e Olympic com neve fresca e as árvores na cidade que apenas começavam a amarelar.

Ele a abraça.

A dor e a vergonha de tudo o que ele a fez passar ainda estão vivos. Ele não pode afirmar com certeza, mas suspeita que se ela tivesse feito o mesmo, ele já teria ido embora. Maravilha-se com o amor que ela lhe dedica. Sua lealdade. Tão além de qualquer coisa que ele mereça, apenas intensifica a vergonha.

— Vou dar uma olhada nele — Ethan sussurra. — Tudo bem.

— Quando eu descer, você se senta comigo enquanto como? — Claro.

Joga o casaco sobre o corrimão, tira os sapatos pretos e sobe as escadas, pulando o quinto degrau, que range.

Não há tábuas ruins no resto do caminho e logo ele está parado na porta do quarto, abrindo-a com cuidado até que uma lasca de luz penetra o espaço entre a porta e o batente. No quinto aniversário de Ben eles pintaram as paredes para imitar o espaço. Escuridão. Estrelas. O espiralar de galáxias distantes. Planetas. Um ou outro satélite perdido no espaço ou um foguete. Um astronauta flutuando. Seu filho dorme num emaranhado de cobertas, um pequeno troféu preso entre suas mãos — um garoto de plástico chutando uma bola de futebol, pintado de dourado. Ethan caminha em silêncio pelo chão, desviando-se de peças de Lego espalhadas e carrinhos Hot Wheels.

Agacha-se ao lado da cama.

Seus olhos se ajustaram à escuridão apenas o suficiente para delinear os detalhes do rosto de Benjamin.

Maciez.

Serenidade.

Estão fechados, mas ele tem os olhos da mãe. A boca de Ethan.

Há uma dor tangível, ajoelhar-se ali no escuro ao lado da cama de seu filho de quase seis anos depois de outro dia inteiro que ele perdeu. Seu menino é a coisa mais linda e perfeita em que ele jamais pousou os olhos, e ele sente, de forma aguda, a passagem inexorável de milhares de momentos com aquela pessoinha que vai se tornar um homem mais rapidamente do que ele consegue imaginar.

Ele toca as bochechas de Ben com as costas da mão. Inclina-se para a frente, beija a testa do menino. Coloca uma mecha de cabelo atrás de sua orelha. — Estou tão orgulhoso de você — sussurra. — Nem imagina o quanto. No ano anterior, na manhã em que morreu numa casa de repouso, gasto de idade e pneumonia, o pai de Ethan perguntou com uma voz áspera: — Você passa tempo com o seu filho?

— Tanto quanto consigo — respondeu, mas seu pai pegou a mentira em seus olhos. — A perda será sua, Ethan. Vai chegar um dia, quando ele estiver crescido e for tarde demais, que você daria um reino para voltar e passar uma única hora com o seu filho criança. Segurá-lo. Ler um livro para ele. Jogar bola com uma pessoa a cujos olhos você nunca está errado. Ele ainda não vê os seus defeitos. Ele o olha com amor puro e isso não vai durar, por isso aproveite enquanto ainda é tempo. Ethan pensa com frequência naquela conversa, principalmente quando está deitado na cama, acordado, e todo o resto das pessoas está dormindo, sua vida a passar gritando por ele na velocidade da luz — o peso das contas e do futuro e de suas falhas anteriores e de todos os momentos que ele está perdendo — toda a alegria perdida — pesando como um rochedo sobre seu peito.

— Consegue me ouvir? Ethan?

Algumas vezes ele sente como se não conseguisse respirar. Algumas vezes seus pensamentos vêm tão rápido que ele precisa encontrar uma memória perfeita.

Agarrar-se a ela.

Um bote salva-vidas.

— Ethan, quero que você se concentre na minha voz e deixe que ela o traga para a superfície da sua consciência.

Deixar que ela se repita em sua mente uma e outra vez até que a ansiedade receda e que a exaustão venha para que ele finalmente possa se desligar do mundo. — Sei que é difícil, mas você tem que tentar.

Ir para a única porção de seus dias que ainda lhe traz paz. — Ethan.

Sonhos.

Seus olhos se abrem de repente.

A luz direto no rosto: um ponto focal pequeno de um azul de brilho ofuscante. Uma lanterninha.

Ele piscou, ela desapareceu e, quando abriu os olhos novamente, um homem o olhava de cima através de óculos de armação de arame dourado, a menos de trinta centímetros de distância. Olhos pequenos, pretos.

Cabeça raspada.

Uma barba tênue, grisalha, como a única indicação de idade, sua pele, de outra forma, lisa e limpa.

Ele sorriu. Dentes pequenos, perfeitamente brancos. — Consegue me ouvir agora, não consegue?

Havia formalidade no tom de voz do homem. Polidez subentendida.

Ethan assentiu.

— Sabe onde está?

Ethan teve que pensar por um instante. Havia sonhado com Seattle, Theresa e Ben. — Vamos começar com outra coisa. Sabe seu nome? — perguntou o homem. — Ethan Burke.

— Muito bem. E mais uma vez, sabe onde está, Ethan? Podia sentir a resposta na ponta da língua, mas também havia confusão, várias realidades competindo.

Em uma, estava em Seattle.

Em outra, num hospital.

Em outra, numa cidade montanhesa idílica chamada... havia um buraco onde o nome deveria estar.

— Ethan.

— Sim?

— Se eu lhe dissesse que está num hospital em Wayward Pines, isso resgataria alguma memória?

Não apenas resgatou: trouxe tudo de volta de uma só vez, como uma pancada rápida e repentina de um jogador de futebol americano. As memórias dos últimos quatro dias se puseram em funcionamento, em uma sequência de eventos na qual ele conseguia se apoiar com segurança.

— Tudo bem — Ethan disse. — Tudo bem, eu me lembro. — Tudo?

— Acho que sim.

— Qual é a sua última lembrança?

Foi preciso um instante para recuperá-la, para tirar as teias de aranha das sinapses, mas ele a encontrou.

— Eu tive uma enxaqueca terrível. Estava sentado na calçada da Rua Principal, e eu… — Perdeu a consciência.

— Exato.

— Você ainda está com enxaqueca?

— Não, passou.

— Meu nome é Dr. Jenkins.

O homem cumprimentou Ethan com um aperto de mão e em seguida sentou-se ao lado de seu leito.

— É que tipo de médico? — Ethan perguntou.

— Um psiquiatra. Ethan, preciso que você responda algumas perguntas para mim, se não tiver problema. Você disse coisas interessantes ao Dr. Miter e a enfermeira dele no primeiro dia em que foi trazido aqui. Sabe a que estou me referindo? — Não.

— Você estava falando sobre um cadáver em uma das casas aqui na cidade. E que você não tinha conseguido entrar em contato com a sua família. — Não me lembro de falar com a enfermeira ou com o doutor. — Estava delirando na ocasião. Você tem algum histórico de transtorno mental, Ethan? Até então estava deitado na cama.

Agora ele se esforçava para se sentar.

Retalhos de claridade esgueiravam-se pelas persianas fechadas. Dia lá fora.

Em algum nível primário, ele ficou contente pelo fato. — Que tipo de pergunta é essa? — Ethan quis saber. — Do tipo das que sou pago para fazer. Você apareceu aqui ontem à noite sem carteira, sem identidade…

— Fui resgatado de um acidente de carro há vários dias e, ou o xerife, ou os paramédicos do resgate não fizeram seu maldito trabalho e agora estou perdido aqui sem um telefone, dinheiro ou identidade. Eu não perdi a minha carteira.

— Relaxe, Ethan, ninguém está dizendo que você fez nada de errado. Mais uma vez, preciso que responda às minhas perguntas. Você tem algum histórico de transtorno mental? — Não.

— Há algum histórico de transtorno mental na sua família? — Não.

— Você tem histórico de estresse pós-traumático? — Não.

— Mas serviu na Segunda Guerra do Golfo.

— Como sabe disso?

Jenkins apontou seu pescoço.

Ethan lançou um olhar para o próprio peito, viu a chapa de identificação pendurada numa corrente de bolinhas. Estranho. Ele sempre a mantinha na gaveta do criado-mudo. Não conseguia se lembrar da última vez em que tinha usado. Não achava que tivesse trazido com ele naquela viagem e certamente não se lembrava de ter colocado na mala, nem de ter tomado a decisão de usá-la.

Passou os olhos pelo nome, patente, número de seguro social, tipo sanguíneo e preferência religiosa (“SEM PREF. RELIGIOSA”) gravados em aço inoxidável. Subtenente-Chefe Ethan Burke.

— Ethan?

— Quê?

— Você serviu na Segunda Guerra do Golfo?

— Servi, eu pilotava o UH-60.

— O que é isso?

— Um helicóptero Black Hawk.

— Você viu combate, eu presumo.

— Vi.

— Muito?

— Pode-se dizer que sim.

— Você se feriu?

— Não entendo o que isso tem a ver com qualquer… — Apenas responda às minhas perguntas, por favor. — Fui abatido no ar na segunda batalha de Fallujah, no inverno de 2004. Era uma missão de resgate, e tínhamos acabado de colocar a bordo alguns fuzileiros navais feridos. — Alguém morreu?

Ethan inspirou fundo.

Expirou.

Se fosse sincero, a pergunta o havia surpreendido, e agora ele se via tentando se proteger da sucessão de imagens que muitas sessões de terapia fizeram Ethan superar. A onda do choque quando o lança-granadas explode logo atrás dele. A cauda da aeronave partida e a falha do mecanismo de rotação a 150 pés de altura em relação ao solo.

A repentina força g quando o helicóptero gira. Alarmes descontrolados.

A rigidez impossível do bastão de controle.

O impacto nem de longe tão ruim como ele temia. Consciência perdida apenas por meio minuto. Cinto de segurança emperrado, não consegue alcançar sua faca Ka-Bar. — Ethan, alguém morreu?

Fogo inimigo já dilacerando a outra lateral dos escombros, alguém abrindo espaço como um fuzil AK.

Pelo para-brisa quebrado, dois médicos militares saindo mancando do helicóptero. Em choque.

— Ethan…

Direto para o rotor das quatro hélices ainda girando rápido o bastante para… Ali.

Foram-se.

Uma lâmina de sangue no para-brisa.

Mais tiros.

Os inimigos se aproximando.

— Ethan?

— Todos foram mortos, exceto eu — Ethan disse. — Você foi o único sobrevivente?

— Isso. Fui capturado.

Jenkins rabiscou alguma coisa num bloquinho com capa de couro. Disse: — Preciso fazer algumas perguntas mais, Ethan. Quanto mais sincero você for, maior a chance que eu terei de ajudá-lo, que é tudo que quero fazer. Você anda ouvindo vozes? Ethan tentou suprimir um olhar feio.

— Está de brincadeira?

— Se você apenas pudesse responder…

— Não.

Jenkins rabiscou no bloco.

— Teve alguma dificuldade para falar? Por exemplo, talvez a sua fala fique confusa, com as palavras misturadas?

— Não. E não estou delirando. E não tenho alucinações, ou… — Bem, você não saberia realmente se estivesse tendo alucinações, não é? Você acreditaria que as coisas que está vendo e ouvindo são reais. Quero dizer, se eu e o fato de você estar neste quarto, de estarmos tendo essa conversa, fossem alucinações suas, nada pareceria diferente, ou sim?

Ethan deslizou as pernas para a lateral da cama e apoiou os pés com cuidado no chão. — O que está fazendo? — Jenkins perguntou.

Ethan cravou os olhos no armário.

Fraco, instável sobre as próprias pernas.

— Você não está em condições de sair daqui, Ethan. Ainda estão avaliando a sua ressonância magnética. Você pode ter algum dano cerebral do qual não sabemos a gravidade. Precisamos continuar com a nossa avaliação…

— Vou fazer uma avaliação, mas não aqui. Não nesta cidade. Ethan puxou a porta do armário, pegou o paletó do cabide. — Você entrou na delegacia sem camisa, correto? Ethan enfiou os braços na camisa branca, que parecia ter sido lavada desde que a havia usado pela última vez. O fedor de decomposição humana substituído pelo perfume de sabão de lavar roupa.

— Estava fedendo — Ethan disse. — Tinha o cheiro do cadáver que eu tinha acabado de… — Está se referindo ao corpo da casa abandonada que você disse que encontrou. — Eu não disse que encontrei. Eu encontrei. — E você foi à residência de Mack e Jane Skozie, os quais você não conhecia, e ameaçou o Sr. Skozie verbalmente na varanda da casa dele. Essa afirmação procede? Ethan começou a fechar os botões, os dedos trêmulos, lutando para colocá-los dentro das casas. Trocou os botões de lugar, mas não se importou. Vestir-se. Dar o fora dali. Sumir daquela cidade.

— Andar por aí com uma potencial lesão cerebral não está na lista de coisas sensatas a fazer — Jenkins disse. Havia se levantado da cadeira. — Há algo de errado aqui — Ethan disse.

— Eu sei, é o que eu estou tentando…

— Não. Esta cidade. As pessoas daqui. Você. Algo está errado e se acha que vou ficar sentado aqui, deixar você tirar uma com a minha cara por mais um segundo… — Não estou tirando uma com a sua cara, Ethan. Ninguém aqui está. Faz alguma ideia do quanto essa afirmação soa paranoica? Estou apenas tentando determinar se você está em meio a um surto psicótico.

— Bem, não estou.

Ethan colocou as calças com um puxão, abotoou-as, abaixou-se para pegar os sapatos. — Perdoe-me se não vou aceitar a sua palavra quanto a isso. “Uma condição anormal da mente caracterizada pela perda de contato com a realidade.” Essa é a definição de psicose que consta nos livros, Ethan. Pode ter sido causada pelo acidente de carro. Por ter visto seu parceiro ser morto. Ou o ressurgimento de algum trauma enterrado da época da guerra. — Saia do meu quarto — disse Ethan.

— Ethan, a sua vida poderia ser…

Ele olhou para Jenkins do outro lado do quarto, e algo em seu olhar fixo, sua linguagem corporal, deve ter sugerido ameaça real de violência, pois os olhos do psiquiatra se arregalaram e, pela primeira vez, ele se calou.

* * *

Detrás do balcão do posto de enfermagem, a enfermeira Pam ergueu os olhos de sua papelada. — Sr. Burke, mas posso saber o que o senhor está fazendo de pé, vestido e fora da cama?

— Indo embora.

— Indo embora? — ela repetiu como se não compreendesse as palavras. — Do hospital? — Wayward Pines.

— O senhor não está em condições nem de estar fora da… — Preciso dos meus pertences pessoais imediatamente. O xerife disse que os paramédicos podem tê-los removido do carro.

— Eu achei que estavam com o xerife.

— Não.

— Tem certeza disso?

— Tenho.

— Bem, posso colocar meu chapéu de Nancy Drew e… — Pare de desperdiçar meu tempo. Sabe onde eles estão? — Não.

Ethan deu meia-volta e começou a andar.

A enfermeira Pam chamou por ele.

Ele parou no elevador, apertou o botão para descer. Ela estava vindo agora — Ethan podia ouvir os passos rápidos no linóleo quadriculado. Virou-se e a observou se aproximar naquele lindo uniforme retrô de enfermeira. Ela parou a alguns passos de distância.

Ethan tinha uns dez ou doze centímetros a mais de altura. Alguns anos também. — Não posso deixá-lo ir, Ethan — ela disse. — Não até sabermos o que há de errado com você.

As portas do elevador se abriram com um rangido. Ethan se afastou da enfermeira e entrou.

— Obrigado pela ajuda e por sua preocupação — disse, apertando o “T” três vezes até o botão se iluminar —, mas acho que tenho tudo sob controle. — O quê?

— É com essa cidade que há algo de errado.

Pam esticou o pé na porta do elevador, impedindo-a de fechar. — Ethan. Por favor. Você não está pensando com clareza. — Tire seu pé.

— Estou preocupada com você. Todo mundo está. Ele estava encostado na parede. Agora caminhava para frente, parando a centímetros de distância de Pam, olhando-a fixamente pelos dez centímetros entre uma porta e outra. Olhou para baixo, batendo de leve na ponta do sapato branco dela com a ponta de seu sapato preto.

Por um longo tempo, ela ficou no mesmo lugar, Ethan começando a se perguntar se teria que recorrer à força física para tirá-la do elevador. Enfim ela puxou o pé.

* * *

Parado na calçada, Ethan achou que a cidade parecia quieta para uma tarde avançada. Não conseguiu ouvir um motor de carro sequer. Nada, na verdade, além do som de pássaros gorjeando e vento soprando na copa dos pinheiros altos que se avultavam no gramado em frente ao hospital.

Foi andando até o meio da rua.

Ficou parado observando, ouvindo.

O sol estava gostoso e quente em seu rosto.

A brisa carregava um frescor agradável.

Ergueu os olhos para o céu — cristal azul-escuro. Sem nuvens.

Sem máculas.

Aquele lugar era lindo, sem dúvida, mas pela primeira vez as muralhas das montanhas que confinavam o vale instilavam algo nele além de espanto. Não conseguia explicar por que, mas elas o enchiam de medo. Um temor que não conseguia compreender muito bem. Sentia-se… estranho.

Talvez tivesse sofrido alguma lesão. Mas talvez não. Talvez estar isolado do mundo exterior já pelo quinto dia estivesse começando a fazer efeito. Sem iPhone, sem internet, sem Facebook.

Parecia impossível quando pensava a respeito: não ter contato com a família, nem com Hassler, nem com ninguém fora de Wayward Pines. Começou a andar em direção à delegacia.

Melhor apenas ir embora. Começar de novo. Reavaliar já estando do outro lado daqueles paredões de rocha.

Do conforto de uma cidade normal.

Pois alguma coisa ali estava definitivamente fora de prumo. * * *

— O xerife Pope está?

Belinda Moran ergueu os olhos de seu jogo de Paciência. — Olá — ela cumprimentou. — Posso ajudar? — O xerife está? — Ethan perguntou elevando uma oitava na voz. — Não, saiu por um instante.

— Então volta logo?

— Não sei quando vai voltar.

— Mas a senhora disse “por um instante”, então achei que… — É só um modo de dizer, meu jovem.

— A senhora se lembra de mim? Agente Burke do Serviço Secreto? — Sim. O senhor está de camisa desta vez. Gosto bem mais deste visual. — Ligaram me procurando?

Ela apertou os olhos e inclinou a cabeça de lado. — E por que ligariam?

— Porque eu disse a algumas pessoas que poderiam procurar por mim aqui. Belinda sacudiu a cabeça.

— Ninguém procurou pelo senhor.

— Nem minha esposa, Theresa, nem o agente Adam Hassler? — Ninguém ligou o procurando, Sr. Burke, e o senhor não deveria ter dito para ligarem aqui. — Preciso usar o telefone na sala de reuniões mais uma vez. Belinda franziu o cenho.

— Não acho que seja uma boa ideia.

— Por que não?

Ela não tinha o que responder, apenas sustentou a expressão hostil. * * *

— Theresa, sou eu. Estou tentando falar com você. Estava no hospital outra vez. Não sei se você ligou na delegacia ou no hotel, mas não recebi nenhum recado. Ainda estou em Wayward Pines. Não consegui encontrar nem meu telefone, nem minha carteira, mas estou farto deste lugar. Vou pegar uma viatura emprestada da delegacia. Ligo hoje à noite de Boise. Saudades. Amo você.

Inclinou o corpo para frente na cadeira, conseguiu outro sinal de linha, fechou os olhos e tentou invocar.

O número estava ali.

Discou, ouviu os quatro toques e então a mesma voz da última vez atendeu: — Serviço Secreto.

— Aqui é Ethan Burke ligando novamente para falar com Adam Hassler. — Ele não está disponível no momento. Haveria algo com que eu pudesse lhe ajudar? — É a Marcy?

— Sim.

— Você se lembra da conversa que tivemos ontem pelo telefone? — Sabe, senhor, recebemos muitas ligações todos os dias, e não consigo gravar tudo que… — Você disse que iria passar uma mensagem para o agente Hassler. — A respeito do quê?

Ethan fechou os olhos, respirou fundo. Se a insultasse, ela apenas desligaria o telefone. Se esperasse até que estivesse de volta a Seattle, poderia comer seu fígado em público, demiti-la por justa causa.

— Marcy, é a respeito da morte de um agente do Serviço Secreto em Wayward Pines, Idaho. — Hum. Bem, se eu disse que daria o recado, então com certeza fiz isso. — Mas ele não me retornou. Não acha isso estranho? Que um agente da seccional de Hassler, eu, localizou outro agente que foi assassinado, um agente o qual fui enviado aqui para encontrar, e agora vinte e quatro horas se passaram e Hassler ainda não retornou minha ligação?

Uma breve pausa e então:

— Haveria algo com que eu pudesse lhe ajudar? — Sim, eu gostaria de falar com o agente Hassler imediatamente. — Ah, sinto muito, ele não está disponível no momento. Haveria algo que… — Onde ele está?

— Não está disponível.

— Onde. Ele. Está.

— Ele não está disponível no momento, mas tenho certeza de que vai retornar a ligação assim que possível. É que ele anda muito atolado em serviço. — Quem é você, Marcy?

Ethan sentiu arrancarem o telefone de sua mão. Pope o bateu no gancho, seus olhos perfurando Ethan como um par de carvões em brasa. — Quem disse que você podia vir aqui usar meu telefone? — Ninguém, eu só…

— Exato. Ninguém. De pé.

— Como é?

— Eu disse “de pé”. Pode sair daqui com as próprias pernas ou posso arrastá-lo eu mesmo pela recepção.

Ethan levantou-se devagar, encarou o xerife do outro lado da mesa. — Está falando com um agente federal, senhor. — Não estou convencido disso.

— Que diabos isso quer dizer?

— Você aparece aqui, sem identidade, sem telefone, nada… — Já expliquei a minha situação. Você deu um pulo no número 604 da Primeira Avenida para ver o corpo do agente Evans?

— Sim.

— E?

— Está sendo investigado.

— Chamou peritos criminais para processar o… — Estamos lidando com tudo.

— E o que isso significa?

Pope apenas o encarou. Ethan pensava: Ele enlouqueceu e você não tem nenhum apoio nesta cidade. Só consiga um carro, dê o fora. Denuncie-o quando voltar com toda a cavalaria. Ele vai perder o distintivo, vai ser processado por obstruir uma investigação federal. — Tenho um favor a pedir — Ethan disse, colocando panos quentes. — O quê?

— Gostaria de pegar emprestado um dos seus veículos. O xerife deu risada.

— Por quê?

— Bem, é obvio que desde o acidente eu não tenho um. — Aqui não é uma locadora de carros.

— Preciso de transporte, Arnold.

— Simplesmente não é possível.

— Essa delegacia é sua, não é? Você pode fazer o que quiser, não pode? O xerife piscou.

— Não tenho um carro para emprestar. — Pope começou a andar pela lateral da mesa de reuniões. — Vamos, Sr. Burke.

Pope parou na porta aberta e esperou por Ethan. Quando Ethan entrou em seu raio de alcance, Pope o agarrou pelo braço e o puxou para perto, a mão grande e poderosa esmagando-lhe o bíceps. — Posso ter perguntas para você num futuro não muito distante — o xerife disse. — Sobre o quê?

Pope apenas sorriu.

— Nem pense em sair da cidade.

* * *

Saindo da delegacia, Ethan olhou por cima do ombro e viu Pope observá-lo pela abertura entre as persianas da sala de reuniões.

O sol havia se escondido atrás das montanhas.

A cidade estava em silêncio.

Ethan colocou um quarteirão entre ele e a delegacia de Pope e sentou-se no meio-fio de uma rua tranquila.

— Isso não está certo — sussurrou e continuou repetindo aos sussurros. Sentiu-se fraco e faminto.

Tentou repassar tudo, a totalidade do que havia acontecido desde que chegara a Wayward Pines. Tentava compor uma fotografia do cenário completo, pensando que, se pudesse enxergar tudo de uma só vez, poderia reunir aqueles encontros bizarros num único problema a ser resolvido. Ou, pelo menos, um que fizesse sentido. Mas quanto mais se esforçava, mais sentia a mente anuviada.

Uma epifania: ficar sentado ali não mudaria coisa alguma. Colocou-se de pé, pegou a Rua Principal.

Vá para o hotel. Talvez tenha um recado da Theresa ou do Hassler esperando por você. Esperança vã. Ele sabia. Não haveria recado. Nada além de hostilidade. Não estou ficando louco.

Não estou ficando louco.

Recitou o próprio nome. Seu número de seguro social. Seu endereço físico em Seattle. O nome de solteira de Theresa. A data do aniversário do filho. Tudo parecia real. Como migalhas de informações que formavam sua identidade.

Conforto em nomes e números.

Um tinido no quarteirão seguinte chamou sua atenção. Havia um terreno baldio do outro lado da rua com várias mesas de piquenique, algumas grelhas e um campo de arremesso de ferraduras. Famílias reunidas para uma festa: um grupo de mulheres paradas conversando perto de duas caixas térmicas vermelhas. Dois homens viravam hambúrgueres e cachorros-quentes numa grelha, fumaça levantando-se em espirais azuladas pelo ar parado do entardecer. O aroma de carne assando fez o estômago de Ethan doer, e ele se deu conta de que estava ainda mais faminto do que pensava. Próximo objetivo: comer.

Cruzou a rua ao som do cricrilar de grilos e do ruído de irrigadores de jardim à distância. Perguntou-se: eram reais?

Crianças perseguiam umas às outras no gramado. Gritando, rindo, guinchando. Clichê.

O tilintar vinha da brincadeira de ferraduras. Dois grupos de homens frente a frente em caixas de areia opostas, fumaça de charuto como halos em volta de suas cabeças. Ethan havia quase chegado ao terreno. Pensando que a melhor jogada seria abordar as mulheres. Jogar um charme. Pareciam pessoas decentes vivendo um momento perfeito do sonho americano.

Arrumou o paletó ao sair da calçada e entrar no gramado, alisando os vincos, acertando o colarinho.

Cinco mulheres. Uma de vinte e poucos anos, três entre os trinta e os quarenta, uma com cabelos prateados — cinquenta e tantos anos.

Estavam bebendo limonada em copos de plástico transparente e discutindo alguma fofoca da vizinhança.

Ninguém ainda o havia notado.

A três metros de distância, enquanto ele tentava inventar alguma forma não intrusiva de entrar na conversa, uma mulher da sua idade o notou e sorriu. — Ah, olá — ela disse.

Vestia uma saia abaixo do joelho, sapatos baixos vermelhos e uma blusa xadrez. Seu corte de cabelo era curto e antigo, como algo saído de um seriado de humor dos anos 1950. — Oi — Ethan respondeu.

— Veio dar uma de penetra na festinha do nosso quarteirão? — Tenho que admitir, o cheiro do que quer que seja que vocês estão assando naquela grelha me atraiu.

— Sou Nancy — ela se separou do grupo e estendeu a mão. Ethan a cumprimentou. — Ethan.

— É novo por aqui? — ela perguntou.

— Cheguei à cidade só há alguns dias.

— E o que está achando do nosso vilarejo?

— Sua cidade é adorável. Muito aconchegante, calorosa. — Ah, que fofo, talvez possamos alimentar você, afinal — ela riu. — Mora por aqui? — Ethan perguntou.

— Moramos a alguns quarteirões daqui. A vizinhança tenta se reunir para comer ao ar livre pelo menos uma vez por semana.

— Vocês parecem o bairro Mayberry daqueles seriados antigos. A mulher corou profundamente.

— Então, o que está fazendo em Wayward Pines, Ethan? — ela perguntou. — Apenas turistando.

— Deve ser gostoso. Nem consigo me lembrar das minhas últimas férias. — Quando se mora num lugar desses — Ethan disse, indicando as montanhas circundantes —, por que sair?

— Aceita um copo de limonada? — Nancy perguntou. — É caseira e deliciosa. — Claro.

Ela tocou seu braço.

— Já volto. E depois vou apresentar você aos outros. Quando Nancy foi até as caixas térmicas, Ethan lançou um olhar para as outras mulheres, procurando uma brecha para entrar na conversa. A mais velha do grupo, uma mulher de cabelo todo branco, estava rindo de alguma coisa, e quando ocorreu a Ethan que já tinha ouvido aquela risada antes, ela colocou os cabelos, que batiam nos ombros, atrás das orelhas.

A marca de nascença do tamanho de uma moeda no rosto dela fez o coração de Ethan parar. Não podia ser, mas…

Altura certa.

Silhueta certa.

Ela agora estava falando, sua voz familiar era quase inquestionável. Afastou-se do grupo de mulheres, apontando a mais nova com um sorriso malicioso. — Vou cobrar isso de você, Christine — disse. Ethan a observou se virar e caminhar até o campo de ferraduras mais distante, onde enlaçou os dedos nos de um homem alto, de ombros largos, com uma cabeleira ondulada e cor de prata.

— Venha, Harold, vamos perder nosso programa na TV. Ela tentou puxá-lo.

— Só mais um arremesso — ele protestou.

Ela o soltou, e Ethan ficou parado sem fala enquanto Harold erguia uma ferradura da areia, mirava com cuidado e arremessava.

A ferradura fez um arco sobre a grama e acertou a estaca de metal. O time de Harold comemorou. Ele se curvou algumas vezes de forma dramática para agradecer e deixou a mulher de cabelos de neve arrastá-lo do grupo. Os amigos lhes deram “boa-noite”.

— Ethan, aqui está a sua limonada — Nancy ofereceu o copo. — Desculpe, mas preciso ir.

Ele deu meia-volta e pegou a rua novamente. Nancy o chamou: — Não quer ficar e comer?

Quando Ethan dobrou a esquina, o casal estava uma quadra na sua frente. Apressou o passo.

Seguiu-os por vários quarteirões enquanto eles prosseguiam caminhando devagar, no ritmo de duas pessoas que não tinham uma preocupação sequer na vida, de mãos dadas, a cadência das vozes e risadas se elevando até os pinheiros.

Dobraram uma rua e desapareceram.

Ethan deu uma corrida até o próximo cruzamento. Casas vitorianas pitorescas enfileiravam-se dos dois lados da rua. Ele não os viu em parte alguma.

O som de uma porta fechando ecoou pela quadra. Notou a casa de onde tinha vindo: verde contornada de branco. Varanda frontal com um balanço. A terceira do lado esquerdo. Atravessou a rua e pegou a calçada até parar em frente. Um quadradinho de grama verde perfeita. A varanda sob a sombra de um pinheiro. Na caixa de correio, um sobrenome que ele não reconheceu. Colocou as mãos na cerca de madeira. Caía o crepúsculo. Luzes começando a abrir os olhos dentro das casas ao seu redor. Um fragmento ocasional de conversa escapando por uma janela levantada. O vale silente e esfriando e as mais altas elevações das montanhas circundantes capturando o restinho da luz do dia.

Destravou o portão, abriu.

Entrou por um caminho de pedras antigas até a varanda. Os degraus rangiam sob seu peso.

E então parou na porta da frente.

Conseguia ouvir vozes do outro lado.

Passos.

Uma parte de si não queria bater.

Bateu o nó dos dedos no vidro da porta externa, deu um passo para trás. Esperou um minuto inteiro, mas ninguém veio.

Bateu mais forte da segunda vez.

Passos se aproximaram. Ouviu uma trava girar. A porta de madeira se abriu. O homem de ombros largos olhou para ele através do vidro. — Posso ajudar?

Ethan apenas precisava vê-la de perto, sob a luz da varanda. Confirmar que não era ela, que ele não estava enlouquecendo. Seguir em frente com a miríade de outros problemas naquela cidade.

— Estou procurando pela Kate.

Por um momento, o homem apenas o encarou.

Finalmente, abriu a porta de vidro.

— Quem?

— Ethan.

— Quem?

— Um velho amigo.

O homem deu um passo para trás e entrou na casa; virou a cabeça e disse: — Querida, pode vir aqui na porta um minuto? Ela respondeu com algo que Ethan não conseguiu entender, e o homem replicou: — Não faço ideia.

Então ela apareceu: uma sombra no final do corredor que levava à cozinha. Passou brevemente pela luz de uma lâmpada e caminhou a pés descalços pela sala de estar até a porta.

O homem deu um passo ao lado e ela assumiu seu lugar. Ethan fixou os olhos nela pela porta de vidro.

Fechou os olhos e os abriu de novo. Estava ainda parado naquela varanda e ela ainda estava, de forma impassível, atrás do vidro.

— Sim?

Aqueles olhos.

Inconfundíveis.

— Kate?

— Sim?

— Hewson?

— Esse era meu nome de solteira.

— Ah, meu Deus.

— Desculpe… eu o conheço?

Ethan não conseguia desviar os olhos dela.

— Sou eu — disse. — Ethan. Vim aqui encontrar você, Kate. — Acho que está me confundindo com alguém. — Eu a reconheceria em qualquer lugar. Em qualquer idade. Ela lançou um olhar sobre o ombro.

— Está tudo bem, Charles. Vou entrar num instante. Kate abriu a porta, desceu ao capacho. Estava vestindo calças cor de creme e regata de um azul desbotado.

Uma aliança de casamento.

Tinha o cheiro de Kate.

Mas estava velha.

— O que está acontecendo? — Ethan perguntou. Ela o pegou pela mão e o levou até o balanço no fim da varanda. Sentaram-se.

A casa ficava sobre uma pequena elevação com vista para o vale, para a cidade. As luzes das outras casas estavam por toda parte agora e três estrelas haviam despontado no céu. Um grilo, ou a gravação de um grilo, cricrilava num dos arbustos. — Kate…

Ela colocou a mão na perna dele e apertou, aproximando-se. — Estão nos observando.

— Quem?

— Shh — ela apontou o teto, um gesto de leve para cima com o dedo. Sussurrou: — E nos ouvindo.

— O que aconteceu com você? — Ethan perguntou. — Não acha que ainda estou bonita? — o tom sarcástico, mordaz, era Kate pura. Ela baixou os olhos para o colo por um minuto e quando olhou para cima novamente, seus olhos brilhavam. — Quando fico de frente para o espelho e escovo meu cabelo à noite, penso nas suas mãos no meu corpo. Não é como costumava ser. — Quantos anos você tem, Kate?

— Já não sei mais. É difícil não perder a conta. — Eu vim até aqui procurar por você há quatro dias. Perderam contato com você e com Evans e me enviaram para procurá-los. Evans está morto — a declaração parecia ter pouco impacto. — O que você e Bill estavam fazendo aqui?

Ela apenas sacudiu a cabeça.

— O que está acontecendo aqui, Kate?

— Não sei.

— Mas você mora aqui.

— Sim.

— Há quanto tempo?

— Anos.

— Isso é impossível — Ethan se levantou, um enxame de pensamentos. — Não tenho respostas para você, Ethan.

— Preciso de um telefone, de um carro, uma arma se você tiver… — Não posso, Ethan — ela ficou de pé. — Você tem que ir. — Kate…

— Agora.

Ele segurou-lhe as mãos.

— Era você quando eu perdi a consciência na rua ontem à noite — ele observou seu rosto com atenção: marcas de expressão nos cantos da boca, pés de galinha, mas ainda tão linda. — Você sabe o que está acontecendo comigo?

— Pare — ela tentou se desvencilhar.

— Estou em apuros — ele disse.

— Eu sei.

— Diga-me o que…

— Ethan, agora você está colocando a minha vida em risco. E a do Harold. — Quem está ameaçando?

Ela se libertou dele, começou a andar até a porta. Quando a alcançou, olhou para trás e, por um momento, parada na penumbra, ela poderia ter 36 anos outra vez.

— Você poderia ser feliz, Ethan.

— Do que está falando?

— Poderia ter uma vida incrível aqui.

— Kate...

Ela empurrou a porta, deu um passo para dentro. — Kate?

— O quê?

— Estou maluco?

— Não — ela respondeu. — Não mesmo.

A porta se fechou atrás dela, e então ele ouviu o trinco ser passado. Andou até a porta e observou seu reflexo no vidro, meio esperando ver um homem de sessenta anos; mas ainda era o mesmo.

Não estava mais com fome.

Não estava cansado.

Descendo os degraus, indo pelo caminho de pedras e pisando na calçada ele apenas sentia um aperto no centro do peito, uma sensação familiar que costumava atingi-lo logo antes de uma missão: chegando ao helicóptero enquanto a equipe de terra carregava a metralhadora Gatling calibre 50 e os mísseis Hellfire.

Medo.

* * *

Ethan só viu um carro no próximo quarteirão — um Buick LeSabre de meados dos anos 1980, o para-brisa tomado de agulhas secas de pinheiro, e a carcaça apoiada em quatro pneus que fariam bom uso de um pouco de ar.

As portas estavam trancadas.

Ethan se esgueirou pela varanda da casa mais próxima e ergueu um querubim de pedra de seu lugar debaixo de uma janela. Pelas cortinas finas, ele viu um garotinho do lado de dentro, sentado num piano vertical, tocando alguma peça musical belíssima, as notas viajando até a varanda através de uma abertura de dez centímetros na janela que havia sido levantada. Uma mulher estava sentada ao lado dele, virando as folhas da partitura. Embora tivesse apenas trinta centímetros, o querubim era de concreto sólido e pesava mais de treze quilos.

Ethan o carregou para a rua.

Simplesmente não tinha como fazer aquilo sem barulho. Ele o bateu na janela atrás do banco do motorista, o anjo entrando fácil no vidro. Ethan destrancou a porta, abriu-a, entrou no carro sobre os estilhaços nos bancos e atrás do volante. O impacto havia decapitado o anjo, e Ethan tirou sua cabeça do banco traseiro. Duas batidas foram suficientes para arrebentar a tampa de plástico sob a coluna de direção e expor o cilindro de ignição.

A luz dentro do carro estava ruim.

Trabalhou apenas com o tato, os dedos puxando para fora os fios da bateria e do arranque. A música do piano dentro da casa havia parado. Espiou a varanda, viu duas silhuetas paradas atrás da cortina.

Ethan pegou o canivete de dentro do paletó, abriu a lâmina maior e cortou o par de fios brancos os quais apostava que levavam potência ao carro. Em seguida, descascou as pontas e torceu-as juntas.

O painel acendeu.

A porta da frente da casa se abriu quando ele encontrou o fio mais escuro do arranque. Uma voz de menino:

— Olhe a janela do carro.

Ethan descascou a ponta do cabo do arranque, expondo os fios de cobre. — Espere aqui, Elliot — a mulher disse.

Por favor, por favor, por favor.

Ethan tocou o fio do arranque no fio da bateria, uma faísca azul rasgando a escuridão. O motor engasgou.

A mulher caminhava em sua direção pelo quintal. — Vamos — Ethan disse.

Tocou os fios mais uma vez e o motor girou.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Na quarta pegou e o carro ganhou vida com um crepitar. Ethan pisou no acelerador, engatou a primeira marcha e acendeu os faróis enquanto a mulher chegava à porta do lado do passageiro, gritando através do vidro. Ethan acelerou pela rua.

No primeiro cruzamento, dobrou à esquerda e tirou um pouco o pé do acelerador, reduzindo a velocidade ao reino do racional — uma que não chamasse a atenção; alguém na rua dando uma volta agradável no começo de noite.

O marcador indicava que havia um quarto do tanque cheio. A luz da reserva ainda não tinha acendido. Não era problema. Havia combustível o suficiente para zarpar de Wayward Pines. Uma vez que cruzasse a passagem entre as montanhas, haveria uma cidade de um semáforo só a uns sessenta quilômetros ao sul. Lowman, Idaho. Logo na rodovia. Eles haviam parado ali para abastecer na vinda. Ainda podia visualizar Stallings perto da bomba, vestido no terno preto, enchendo o tanque. Ethan havia caminhado até a beirada da pista vazia e observado prédios abandonados do outro lado — uma hospedaria fechada e um armazém geral, um restaurante ainda vivo mas mal das pernas, o cheiro de gordura na fumaça que escorria de uma abertura no telhado.

Havia ligado para Theresa daquele lugar com apenas uma barra de sinal no celular. Mal se lembrava da conversa. Sua mente estava em outro lugar. A última vez que tinha falado com a esposa.

Esperava que tivesse lhe dito que a amava.

Os freios guincharam quando Ethan fez o Buick parar, seta para a esquerda piscando. Fora uma meia dúzia de pessoas nas calçadas, o centro estava morto, e, a Rua Principal, vazia até onde ele podia ver.

Ethan entrou numa rua com uma curva suave para a esquerda e acelerou devagar, em direção ao sul.

Passou pelo pub, pelo hotel, pela cafeteria.

Depois de sete quadras, o hospital.

Não havia periferia.

As construções simplesmente acabavam.

Acelerou.

Deus, como era bom estar de partida, finalmente indo embora, um peso palpável sendo removido de seus ombros com cada giro dos eixos do carro. Devia ter feito isso há dois dias. Não havia sinais de habitação ali; a estrada, uma trajetória reta através de pinheiros tão gigantes que poderiam ser mata virgem.

O ar entrando no carro era frio, fragrante.

Bruma pairava entre as árvores e, em alguns lugares, sobre a estrada. Os faróis incendiavam o caminho, a visibilidade caindo. A luz da reserva acendeu.

Merda.

A estrada ao sul da cidade seguia subindo num terreno íngreme e sinuoso por muitos e muitos metros, até a passagem entre as montanhas e, a qualquer minuto, a verdadeira subida começaria. Queimaria o pouco combustível que ainda restava. Ethan deveria dar meia-volta naquele mesmo instante, retornar à cidade, sifonar gasolina suficiente para garantir que alcançasse Lowman.

Pisou no freio antes de uma curva longa e fechada. A bruma parecia sopa no coração da curva, a neblina branca era ofuscante na luz dos faróis altos, Ethan diminuindo a velocidade até se arrastar, sem nada para guiá-lo além do amarelo duplo desbotado.

A estrada ficou plana, saiu da bruma, das árvores. À distância: um outdoor.

Ainda uns duzentos metros à frente, tudo o que ele podia discernir era a pintura de quatro figuras paradas de braços dados.

Sorrisos largos de dentes brancos.

Um garoto de bermuda e camiseta listrada.

Mãe e filha de vestido.

O pai, combinando, usava um chapéu fedora, acenava. Em letras maiúsculas, sob a família de ssorriso perfeito: BEM-VINDO A WAYWARD PINES

ONDE O PARAÍSO É O LAR

Ethan acelerou e passou pela placa, a estrada seguindo paralela a uma cerca de madeira, os faróis pastando sobre um gramado e um rebanho de gado. Luzes à distância.

O pasto diminuindo lá atrás.

Logo, estava passando por casas novamente.

A estrada se alargou, perdeu as faixas amarelas que dividiam a pista. Havia se transformado em Primeira Avenida.

Estava de volta à cidade.

Ethan estacionou no meio-fio, observou pelo para-brisa, tentando manter o pânico sob controle. Havia uma explicação simples: perdera o desvio para o caminho entre as montanhas. Passara direto naquele trecho de neblina cerrada. Fez um retorno na pista e acelerou pela estrada no sentido oposto, já passando dos noventa quilômetros por hora quando alcançou o pasto.

De volta à bruma, e aos pinheiros muito altos, ele procurou por alguma placa, alguma indicação de onde a estrada desviava para a passagem entre as montanhas, mas não havia nada.

Na parte mais fechada da curva, parou o carro na beira da estrada e o colocou em ponto-morto.

Deixou o motor funcionando, saiu para a noite. Atravessou para o outro lado e começou a andar pela borda da pista. Depois de três metros, a neblina estava tão fechada que escondia o carro por completo. Ainda podia ouvir o motor, mas o som ficava mais tênue a cada passo. Caminhou uns duzentos metros antes de parar.

Havia chegado ao outro lado da curva, onde a estrada se endireitava e voltava para a cidade. O ronco do motor do carro havia morrido totalmente. Não tinha vento, e a floresta era alta e silenciosa. A bruma pairava por tudo ao redor, parecendo carregar uma carga elétrica, mas Ethan sabia que o zumbido era apenas algum barulho microscópico dentro dele mesmo, de sua cabeça, exposta à simples e total ausência de som.

Impossível.

A estrada não deveria fazer curva ali.

Deveria correr por entre os pinheiros por mais uns oitocentos metros e então começar uma longa série de zigue-zagues subindo pelo flanco da montanha, ao sul. Desceu com cuidado pela lateral da pista, em direção às árvores. O solo da floresta, repleto de agulhas de pinheiro, era como caminhar sobre almofadas. O ar úmido e gelado.

Aquelas árvores… nunca tinha visto pinheiros tão altos e, com tão pouco em termos de vegetação rasteira para disputar espaço, mover-se entre os troncos enormes era fácil — uma floresta com pausas. Era possível se perder antes que se desse conta. Saiu da bruma, e, quando olhou para cima, vislumbrou pontas geladas da luz das estrelas entre a copa das árvores.

Depois de mais quinze metros ele parou. Já era hora de voltar. Com certeza havia outras estradas saindo da cidade, e ele já conseguia sentir a desorientação à espreita. Lançou um olhar por cima do ombro, pensou ver mais ou menos o caminho que tinha tomado para chegar até aquele ponto, mas não dava para ter certeza. Tudo parecia igual. De fora da floresta, mais além: um grito.

Ele ficou imóvel.

Havia a batida pesada de seu coração e nada mais. O grito só poderia ser comparado a sofrimento humano ou terror. Como uma hiena ou algum espírito do bosque. Coiotes dos mais desvairados. Um grito rebelde mitológico. Alto e estridente. Frágil. Terrível. E em algum nível, zumbindo sob a superfície como cabos elétricos enterrados, estava uma tênue consciência de que aquela não era a primeira vez que ouvia o barulho.

Mais uma vez, o grito.

Mais perto.

Um alarme disparando entre seus olhos, na boca do estômago: Saia deste lugar agora. Não pense. Apenas. Vá.

E em seguida estava correndo entre as árvores, ofegando depois de vinte passos, de volta à bruma e ao frio.

Adiante, o terreno começava a subir e ele andou de gatinhas até chegar, aos trancos e barrancos, de volta à estrada. Apesar do frio, estava transpirando, os olhos ardendo com o suor salgado. Correu de volta à curva pelas linhas duplas amarelas que dividiam a pista, até que viu dois cilindros de luz à distância, perfurando a neblina. Diminuiu a velocidade, começou a andar e, acima do ruído de seu esforço físico, ouviu o motor do carro roubado.

Alcançou-o, abriu a porta do motorista. Entrou atrás do volante, colocou o pé no freio e estendeu o braço para o câmbio, desesperado para sair daquele lugar. Captou um movimento com o canto do olho esquerdo: uma sombra na lateral do espelho. Seus olhos se desviaram para o retrovisor acima do painel e, no brilho avermelhado das luzes de freio, viu o que tinha falhado em perceber: uma viatura parada a dez metros da traseira de seu carro, quase invisível em meio à cerração.

Quando olhou para trás pela janela do lado do motorista, o cano de uma espingarda o encarava, apenas a alguns centímetros de distância. Uma lanterna iluminava do lado de dentro, incendiando o interior do carro com uma luz dura que refletia no cromado e no vidro. — Você só pode ter enlouquecido.

Xerife Pope.

A aspereza irada de sua voz soou um tanto abafada pelo vidro. Ethan ainda estava com a mão no câmbio, perguntando-se se engatava a primeira e enterrava o pé no acelerador. Pope iria atirar nele? Àquela distância, uma espingarda doze milímetros significava decapitação.

— Bem devagar — Pope disse —, coloque as duas mãos no volante e use a direita para desligar o carro.

Ethan disse através do vidro:

— Você sabe quem eu sou e deveria saber melhor do que qualquer um que não convém interferir. Estou saindo desta cidade.

— Até parece.

— Sou um agente do governo dos Estados Unidos, com a total… — Não, você é um cara sem identidade e sem distintivo, que acabou de roubar um carro e que deve ter assassinado um agente federal.

— Do que está falando?

— Não vou repetir, parceiro.

Algo cutucou Ethan para que aceitasse, sussurrou que provocar aquele homem poderia ser perigoso. Até mesmo fatal.

— Tudo bem — respondeu. — Só me dê um segundo. Fiz ligação direta no carro. Preciso desconectar os cabos para desligá-lo.

Ethan acendeu a luz da cabine, colocou as mãos sob a coluna de direção, separou os fios com um puxão.

As luzes se apagaram.

O motor desligou.

Nada a não ser o brilho doloroso da lanterna de Pope. — Fora!

Ethan achou a maçaneta, precisou bater com o ombro na porta para abri-la. Saiu. A bruma pairava pelo facho de luz. Pope era uma sombra raivosa atrás da lanterna e da espingarda, olhos escondidos sob a aba de seu chapéu de cowboy. Ethan sentiu o cheiro de óleo de arma, imaginou Pope como um homem dedicado aos cuidados amorosos e ternos com seu arsenal.

— Lembra-se daquela parte em que eu disse para você não deixar a cidade? — Pope grunhiu. Ethan teria respondido, mas a luz da lanterna mirou no chão. Ele percebeu com a antecedência de uma fração de segundo que a sombra se movendo na direção de sua cabeça era a coronha da espingarda.

* * *

O olho esquerdo de Ethan havia se fechado por causa da pancada — sentia que estava quente e enorme e que latejava no ritmo de sua pulsação. Pela direita, viu a sala de interrogatório. Claustrofóbica e estéril. Parede branca de blocos de concreto. Chão de concreto. Uma mesa de madeira nua na qual Pope estava sentado, do lado oposto, sem o chapéu e sem o paletó, as mangas de sua camisa verde-caçador enroladas expondo os antebraços: grossos e sardentos, musculosos.

Ethan limpou uma nova linha de sangue escorrendo da lateral de seu rosto, fluindo da ferida acima da sobrancelha esquerda.

Olhou para o chão.

— Poderia me dar uma toalha, por favor?

— Não. Você poderia ficar aí sentado sangrando e respondendo às minhas perguntas. — Mais tarde, quando tudo isso tiver acabado e você tiver saído da cadeia, vou convidá-lo para ir à minha casa para ver seu distintivo. Ele vai estar atrás de um vidro, numa moldura, pendurado sobre a minha lareira.

O comentário arrancou um sorriso amplo.

— Você acha, é?

— Você atacou um agente federal. Isso é algo que encerra uma carreira. — Diga-me mais uma vez, Ethan, como exatamente você ficou sabendo do corpo no número 604? E nada dessa palhaçada de garçonete que desapareceu. — Do que está falando?

— A verdade.

— O que eu contei é a verdade.

— É mesmo? Quer continuar seguindo por esse caminho? Porque eu fui até o pub — Pope tamborilou os dedos no tampo da mesa. — Eles não têm nenhuma bartender mulher na equipe, e ninguém viu você lá algumas noites atrás.

— Alguém está mentindo.

— Então, o que eu gostaria de saber é… para que, realmente, você veio a Wayward Pines? — Já disse.

— A — fez um gesto de aspas — “investigação”? Ethan respirou fundo, sentiu a raiva despejando-se no peito como areia num crânio descorado. Sua cabeça o estava matando outra vez, e ele sabia que era parte do trauma no rosto, cortesia de Pope. Mas também parecia aquela batida antiga e conhecida, na base do crânio, a qual o havia parasitado desde que tinha acordado à beira do rio, sem saber quem era ou onde estava. E havia algo mais: o déjà-vu em torno daquele interrogatório.

— Há algo de errado com este lugar — declarou Ethan, o sentimento tomando corpo como nuvens negras em seu peito, o acúmulo de quatro dias de dor, confusão e isolamento. — Eu vi minha antiga parceira esta noite.

— Quem?

— Kate Hewson. Eu lhe falei sobre ela. Só que estava mais velha. Com pelo menos vinte anos a mais do que deveria ter. Como isso é possível? Diga-me. — Não é.

— E por que não consigo entrar em contato com ninguém de fora? Como pode não existir uma estrada que saia da cidade? É algum tipo de experimento? — Claro que existe uma estrada que sai da cidade. Faz alguma ideia de como você parece um louco de pedra falando?

— Há algo de errado com essa cidade.

— Não, há algo de errado com você. Eu é que sei. — O quê?

— Que tal eu lhe dar uma folha de papel? Deixar você escrever tudo o que quer me contar? Talvez eu lhe dê uma hora para fazer isso.

A oferta acalmou Ethan. Pope continuou:

— Ou talvez você responda às minhas perguntas mais rápido se eu estiver usando um capuz negro? Ou se eu o pendurar pelos pulsos e lhe fizer cortes. Gosta que cortem você, Ethan? — Pope enfiou as mãos nos bolsos, jogou algo sobre a mesa para Ethan. — Estava com você? — Ethan perguntou. Levantou a carteira, abriu: credencial do Serviço Secreto numa capa de plástico transparente, mas não era dele. O distintivo havia sido emitido em nome de William V. Evans. — Onde está o meu?

— É. Onde. William Evans. Agente Especial. Serviço Secreto. Divisão de Boise. Como, mesmo, você sabia que era ele na casa abandonada? — Eu disse. Fui enviado aqui para encontrá-lo e também a Kate Hewson. — Ah, é verdade. Eu esqueço o tempo todo. Aliás, liguei para o seu agente Hassler em Seattle. Ele nunca ouviu falar de você.

Ethan limpou mais sangue do rosto e inclinou-se para frente na cadeira. — Não sei o que você está tentando fazer, que jogo… — Minha teoria: o agente Evans andava perseguindo você, até que finalmente conseguiu flagrá-lo aqui em Wayward Pines. Então você o mata e sequestra o parceiro dele, agente Stallings, com a intenção de fugir no carro dele. Só que na saída um pequeno acontecimento azarado o pega de jeito, e você se envolve num acidente de trânsito. Stallings morre, você recebe uma grande pancada na cabeça. Talvez algum parafuso tenha se soltado e, quando acorda, começa a acreditar que você é esse tal agente do Serviço Secreto. — Eu sei quem sou.

— Ah, é? Não acha estranho que ninguém consiga localizar sua identificação? — É, isso é porque está sendo deliberadamente… — Isso, estamos todos envolvidos numa enorme conspiração — Pope riu. — Você chega a levar em consideração que talvez ninguém consiga localizar o distintivo de Ethan Burke porque ele não existe? Porque você não existe? — Você é louco.

— Acho que você pode estar tramando alguma coisa. Você assassinou o agente Evans, não assassinou, seu…

— Não.

— … seu maluco psicopata, doente. Espancou-o até a morte com o quê? — Vá se danar!

— Onde está a arma do crime, Ethan?

— Vá se danar.

Ethan conseguia sentir a ira explodindo dentro dele. Raiva inflamável, em estado puro. — Veja bem — continuou Pope —, não sei se você é apenas um maldito de um bom mentiroso, ou se acredita de verdade nessa mentira elaborada que construiu. Ethan ficou de pé.

Instável sobre os pés.

Uma náusea profunda florescendo na boca do estômago. Sangue escorrendo por seu rosto, pingando de seu queixo numa pequena poça no concreto. — Estou de saída — afirmou Ethan, indo em direção à porta atrás do xerife. — Abra. Pope não se mexeu.

— Você vai voltar agora e sentar de novo antes que realmente se machuque, e bastante, por sua própria vontade — o xerife disse com a confiança de um homem que havia consumado aquela ameaça muitas vezes, e que faria de novo, com prazer. Ethan deu a volta na mesa e passou pelo xerife a caminho da porta. Pegou a maçaneta.

Trancada.

— Ponha seu traseiro de volta na cadeira. Ainda nem começamos. — Abra a porta.

Pope se colocou de pé devagar, virou-se, aproximou-se de Ethan. Perto o bastante para que sentisse o café em seu hálito. Visse as manchas em seus dentes. Era quase dez centímetros mais alto do que Ethan e talvez pesasse uns vinte quilos a mais. — Acha que não consigo fazer você se sentar, Ethan? Que fazer algo assim estaria além da minha capacidade?

— Esta é uma detenção ilegal.

Pope sorriu.

— Você está pensando tudo errado, rapaz. Não existe essa história de lei ou de governo dentro desta sala. Somos apenas eu e você. Sou a única autoridade no seu mundinho cujas fronteiras são essas paredes. Eu poderia matá-lo agora mesmo se quisesse. Ethan deixou os nós de tensão de seus ombros relaxarem, erguendo as duas mãos, palmas abertas no que ele esperava que Pope fosse confundir com um sinal de deferência ou derrota. Jogou a cabeça para trás, enterrou o queixo no peito, disse: — Tudo bem, você está certo. Devemos continuar falando… … e subiu na ponta dos pés, como se impulsionado por molas, bateu o centro da testa direto no nariz de Pope.

A cartilagem esmigalhou e Ethan sentiu sangue escorrendo no seu cabelo quando pegou Pope pelas coxas, que pareciam tábuas de cedro, erguendo-o com as pernas, o xerife lutando para prender o pescoço de Ethan entre seu bíceps e antebraço, porém tarde demais. Os calcanhares das botas de Pope deslizaram debaixo de seu corpo, escorregando no sangue que havia tornado o chão pegajoso, e Ethan sentiu voar o peso substancial do xerife. Enfiou o ombro no estômago do homem e o empurrou com força no concreto. Uma expiração explodiu dos pulmões de Pope e Ethan se sentou sobre ele, colocando uma perna de cada lado do corpo do xerife, recuando seu braço direito para dar uma pancada com a parte inferior da palma da mão.

Pope girou o quadril e jogou o rosto de Ethan contra a perna da mesa de madeira usando velocidade suficiente para abrir um corte em sua face. Ethan se esforçou para se levantar com a dor excruciante que o fazia ver estrelas, mas ao se levantar sobre as pernas e se esforçar para ficar de pé, viu que tinha se endireitado um segundo tarde demais.

Ethan poderia ter se defendido da paulada se estivesse pensando com clareza, os reflexos prontos, mas, no estado em que se encontrava, reagiu a meia velocidade. A força por trás do soco fez a cabeça de Ethan se virar com tanta força que ele sentiu a coluna torácica estalar.

Percebeu-se confuso e de bruços na superfície daquela mesa de madeira, olhando fixamente com o único olho bom para o xerife maníaco baixando o braço para outro soco, seu nariz quebrado inchando no rosto como algo que havia explodido. Ethan ergueu os braços com um esforço de proteger o rosto, mas o punho do xerife perfurou a barreira das mãos e caiu com tudo sobre seu nariz. Lágrimas escorreram de seus olhos; o sangue, dentro da boca. — Quem é você? — rugiu o xerife.

Ethan não poderia ter respondido nem se quisesse, sua consciência se dissipando; o que ele podia ver da sala de interrogatório, começando a girar, intercalada como recortes de outra… Está no fundo daquela sala de paredes marrons com um chão de terra, num lugar miserável de Golan, observando a luz nua de uma lâmpada oscilando sobre sua cabeça, enquanto Aashif o encara através de um capuz de tecido negro que apenas revela um par de olhos castanhos malevolentes e uma boca cheia de dentes, sorrindo brancos e perfeitos demais para ser o produto de um lugar qualquer de quarto mundo, um buraco imundo do Oriente Médio.

Ethan preso pelos punhos, pendurado por uma corrente atada ao teto, seus pés tocando o chão apenas com a ponta, o suficiente para aliviar o formigamento quando se eleva sobre os dedões. Mas apenas consegue fazer aquilo por segundos de cada vez antes que suas falanges desabem sob seu peso. Quando finalmente se quebrarem, ele não vai ter como impedir a perda de circulação sanguínea de suas mãos. Aashif fica parado a alguns centímetros do rosto de Ethan, nariz com nariz, quase se tocando.

— Vamos tentar uma pergunta à qual você não deve ter problema em responder… de que parte dos Estados Unidos você é, subtenente-chefe Ethan Burke? — o homem pergunta em inglês excelente, tingido com um sotaque britânico. — Washington.

— Da capital?

— Não, do estado.

— Ah. Você tem filhos?

— Não.

— Mas é casado.

— Sim.

— Qual o nome da sua esposa?

Ethan não responde, apenas se prepara para outro soco. Aashif sorri. — Relaxe. Sem mais socos por enquanto. Conhece a expressão “morte de mil cortes”? — Aashif segura uma gilete que brilha sob a luz da lâmpada. — Vem de um método de execução chinês, abolido em 1905, chamado lingchi, traduzido como “retalhar lentamente”, ou “morte demorada”.

Aashif vai até a maleta aberta numa mesa próxima, forrada com espuma preta dura, em cima da qual repousa uma coleção aterrorizante de facas que Ethan havia tentado ignorar durante as últimas duas horas.

Pope atingiu Ethan novamente, e, com o cheiro de seu próprio sangue, o soco resgatou a memória do odor de um sangue velho e rançoso no chão da casa de tortura em Fallujah… — Você agora vai ser levado para uma sala, vai receber uma caneta, um pedaço de papel e tem uma hora. Já sabe o que quero — Aashif diz. — Não sei.

Aashif soca Ethan no estômago.

Pope socou Ethan no rosto.

— Estou me cansando de bater em você. Sabe o que quero. Como poderia não saber? Já pedi vinte vezes até agora. Diga-me que sabe. Apenas me diga. —Quem é você? — Pope berrou.

— Eu sei — Ethan fala com dificuldade.

— Uma hora, e se o que escrever não me deixar feliz, você vai morrer por lingchi. Aashif tira uma Polaroid de dentro de sua túnica preta. Ethan fecha os olhos, mas os abre de novo quando Aashif diz: — Olhe para ela ou vou cortar fora suas pálpebras. É a foto de um homem naquela mesma sala, também pendurado no teto pelos pulsos. Americano. Provavelmente um soldado, embora fosse impossível dizer. Três meses de combate e Ethan nunca tinha visto uma mutilação chegar àquele nível. — Seu conterrâneo está vivo nesta fotografia — o torturador diz, uma sugestão de orgulho esgueirando-se em sua voz.

Ethan tentou abrir os olhos para ver Pope. Sentia-se prestes a perder a consciência, desejando perdê-la também para o alívio da dor que sentia, porém mais para bloquear a imagem perfeita que sua mente havia conjurado de Aashif, da sala de tortura. — A próxima pessoa pendurada neste teto verá uma Polaroid semelhante de você — Aashif diz. — Entende? Tenho seu nome. Também tenho um website. Vou postar as fotos do que eu fizer com você para o mundo ver. Talvez sua esposa veja também. Escreva tudo o que eu quero saber, o que até agora você guardou aí dentro. — Quem é você? — Pope perguntou.

Ethan deixou os braços caírem ao lado do corpo. — Quem é você?

Sem sequer tentar mais se defender, pensando: Há uma parte de mim que nunca deixou aquela sala em Fallujah, que fedia a sangue rançoso. Desejando que Pope desse o golpe de misericórdia, clemente a ponto de tirar-lhe a consciência, matar as velhas memórias, matar sua agonia presente. Dois segundos mais tarde, ele veio: um soco que se conectou ao seu queixo e trouxe uma explosão de luz branca, quente, como uma câmera fotográfica disparando o flash.