Raptar um Rei

Jack Higgins · Capítulo 10 de 16

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Raptar um Rei

Nove

O DUQUE DE WINDSOR tinha estado fechado num a sala com Prim o de Rivera durante quase um a hora, e a duquesa estava no j ardim a apanhar rosas quando o m arido a encontrou.

— Que aconteceu? — perguntou ela.

— Sabes, Wallis, todo este assunto com eça a tom ar aspectos bastante ridículos. Tive conhecim ento através de Rivera que, de acordo com os m exericos da alta sociedade de Madrid, os m alvados Serviços Secretos Britânicos gostariam de m e deitar a m ão.

— Oh, David, que disparate. Porquê?

-— Bem , a lógica por detrás disto é realm ente bastante sim ples.

Toda a gente sabe que não fiquei m uito contente com a nom eação para as Baham as, e m uitas pessoas parecem pensar que talvez m e recuse a ir. A alternativa seria ficar aqui em Portugal ou ir para Espanha.

— E então enviariam os Serviços Secretos para te arrastar até às Baham as pelos colarinhos? Que absurdo.

— De Rivera parecia m ais preocupado que eu nem sequer lá chegasse. Que fosse atirado sobre a am urada num a noite escura ou algo assim .

— Que horror. Com o pode ele pensar num a coisa dessas?

— Bem , Wallis, tens de adm itir que tenho sido um considerável estorvo aos olhos de certas pessoas há bastante tem po. — Estava a espicaçá-la.

— Não gosto disto, David, deste tipo de conversa. Não tem graça. — Trem eu. — Não tenho m esm o a certeza se continuo a gostar deste sítio. Há dem asiados polícias aqui à volta.

— Bem , vam os m udar isso tudo. — Colocou o braço à volta do seu om bro. — Vam os dar um passeio. Um dia no cam po. De Rivera tem um am igo que tem um a herdade cham ada Nina, um a ganadaria.

Sabes, touros para as touradas. Diz que vão fazer um a garraiada para nós e podem os fazer um piquenique. Que é que achas?

— Maravilhoso.

— Ótim o. — Sorriu. — Agora vam os para dentro. Está a ficar fresco.

O ADIDO da polícia da Legação Alem ã em Lisboa cham ava-se Egger e estava m ais do que contente por aj udar Kleiber de todas as form as quando este chegou do aeroporto.

— Com o são as suas relações aqui com a Polícia Portuguesa? — perguntou o m aj or.

— Excelentes — disse-lhe Egger. — Neste m om ento, existe em Portugal um a certa sim patia política pelos ideais do nacional-socialism o.

— Existe a possibilidade de esta m ulher aparecer em Lisboa a qualquer m om ento. Aqui está a sua descrição. — Kleiber entregou-lhe um a folha de papel com um a fotografia de Hannah agrafada.

— Hannah Winter — disse Egger. — Que é que ela fez?

— Matou a tiro três hom ens da segurança em Berlim , por isso estam os com m uita vontade de a apanhar.

— É cidadã do Reich?

— Claro, m as tem vindo a utilizar um passaporte am ericano.

— Não lhe vai servir de nada, um a vez que com unique estes fatos à Polícia de Segurança Portuguesa. Eles têm um a guarda em todas as em baixadas estrangeiras. Dar-lhes-ei os porm enores. Se ela tentar aproxim ar-se da Em baixada Am ericana, conseguirão apanhá-la.

Quando ele pegou no telefone, Kleiber disse:

— A propósito, o duque de Windsor está no Estoril. Suponho que ninguém consegue entrar para o ver sem passar tam bém pela Polícia de Segurança.

— Penso que não — disse Egger.

— Ótim o. Muito obrigado. — Kleiber voltou-se para sair. Voltarem os a vernos, com certeza, enquanto eu cá estiver.

Sinderm ann aguardava-o na sala de espera. Tinha um olho negro e o lado direito da cara estava bastante inchado.

— A Polícia Portuguesa está alertada para o caso — disse-lhe Kleiber. — No m om ento em que se m ostrar, ela é. nossa.

O BARÃO Oswald von Hoy ningen-Huene, em baixador alem ão em Lisboa, era um hom em m uito diferente de Stohrer, o seu hom ólogo de Madrid.

Era um aristocrata genuíno, um hom em de cultura e requinte. Não era tam bém , com o Schellenberg bem sabia, um nazista. Huene exam inou a ordem do Führer que Schellenberg lhe passou por cim a da sua m esa.

— Naturalm ente, dar-lhe-ei toda a aj uda que puder, general. A ; carta do Führer não m e dá qualquer hipótese.

— O que significa que não concorda com todo este assunto disse Schellenberg.

Huene sentou-se e olhou para ele calm am ente durante um m o m ento.

— General Schellenberg, que quer dizer-m e exatam ente?

— Que eu próprio não concordo com esta ideia. É um disparate. Pronto, j á o disse, barão. Vai agora telefonar para Ribbentrop?— Não — disse Huene. — O que eu vou fazer é ir buscar um a garrafa de conhaque que tenho ali no arm ário, dois copos, e vam os ter um a conversa, com pletam ente confidencial, claro.

Schellenberg provou o conhaque.

— Excelente; m as vam os ao caso Windsor. Pensa honestam ente que o duque está do nosso lado?

— Francam ente, não — disse Huene. — Oh, ele não está contente com a nom eação para as Baham as e é certam ente pró-germ ânico, m as com os seus antecedentes fam iliares outra coisa não seria de esperar.

— O que é um a coisa bastante diferente de ser a favor do nacional-socialism o.

— Exatam ente. Portanto, que opções é que isso lhe deixa, general? Um a única hipótese, segundo m e parece.

— O rapto? — Schellenberg abanou a cabeça. — Penso que não.

Na m inha opinião, nada se ganharia com um a ação dessas. Mas se o duque m ostrar interesse em ir para Espanha, então dar-lhe-ei toda a aj uda. De outro m odo ...

— Ótim o. Estou contente por estarm os de acordo sobre este assunto — disse Huene. — O rapto do duque resultaria num descrédito para nós, por m uito que o Governo Português sim patize connosco. — Levantou-se. — Janta com igo hoj e à noite?

— Fica para outra altura, se possível — disse Schellenberg. Gostaria de ir visitar um velho am igo. E quanto a aloj am ento?

— Foram reservados quartos para si e os seus dois com panheiros da Gestapo nas instalações do pessoal. Providenciei tam bém um carro e um m otorista para seu uso pessoal.

— Então vou pedir ao m otorista para m e levar agora.

EM 1938, UMA das prim eiras ações de espionagem de Schellenberg tinha envolvido recolha de inform ações em Dacar, a principal base naval francesa em África. A m aior parte dos seus preparativos para a m issão havia tido lugar em Lisboa, onde fora apresentado a um com erciante j aponês, Kaj iro Taniguchi. Desenvolvera-se um a genuína am izade entre os dois hom ens, e Taniguchi tivera a oportunidade de aj udar Schellenberg na sua aventura africana. Taniguchi parecia estar envolvido em todo o gênero de esquem as e m antinha contatos estreitos com os m eios da crim inalidade local. Schellenberg decidira há m uito tem po que ele era provavelm ente um agente do Governo Japonês.

Taniguchi tinha um a em presa de im portação-exportação perto das docas de Alcântara. Schellenberg foi até lá no carro da em baixada. Quando chegou, os escritórios estavam às escuras, m as, ao entrar no pátio do arm azém adj acente, viu um a luz num a j anela do andar de cim a. Parou o carro e dirigiu-se à porta do arm azém .

Quando a abriu, ouviu-se um a voz em português: — Quem está aí?

O arm azém estava cheio de caixas. Em cim a, havia um escritório envidraçado ao qual se acedia por um a escada de ferro. Taniguchi encontrava-se no cim o desta, um hom em que parecia um a m ontanha, com a configuração de um lutador de sum o.

Debruçou-se na som bra e depois sorriu.

— Walter Schellenberg, por tudo quanto é sagrado!

Mais tarde, quando bebiam saquê no escritório, Taniguchi perguntou: — Negócios, Walter? Consigo são sem pre negócios!

Schellenberg disse: — O duque de Windsor está em casa do banqueiro Santo e Silva, no Estoril.

— Isso é do conhecim ento geral — respondeu Taniguchi.

— Quero saber tudo o que há para saber sobre aquela casa. As plantas dos andares, os em pregados. Quero saber qual o sistem a de segurança, tudo. Gostaria de ter alguém na casa que m e inform asse das entradas e saídas do duque. Devo salientar que dinheiro não é obj ecção. Pode tratar disso?

— É claro — disse tranquilam ente Taniguchi. — Conheço nesta cidade toda a gente que interessa, e o dinheiro, em Lisboa, ainda pesa m uito.

— Quando é que m e diz algum a coisa?

— Am anhã à tarde. Digam os, às duas horas. Mas agora, m eu am igo — perguntou bruscam ente —, pensa que vão ganhar a guerra?

— Vej am os os fatos — disse Schellenberg. — Controlam os um a área m aior da Europa do que Napoleão controlava. A m aioria dos países neutros tende a sim patizar connosco, e a Am érica, reconheçam os, não quer envolver-se.

— Então, pensa que dentro de pouco tem po haverá Panzers a descer Pall Mall em direção ao Palácio de Buckingham ?

— É com os Ingleses. O Führer tom ou bem claro que desej ava estabelecer um arm istício. Claro que eles podem querer escolher a alternativa m ais difícil. É o que fazem geralm ente.

— E agora um a pérola da sabedoria oriental — disse Taniguchi.

— Se os hom ens não têm m edo de m orrer, é inútil am eaçá-los.

Schellenberg levantou-se.

— Tenho que m e ir em bora. Falarem os am anhã.

LOGO DEPOIS DE O expresso de Lisboa ter entrado em Portugal, houve um a inspeção na fronteira. Hannah utilizou o passaporte francês e não teve qualquer dificuldade. Dorm iu o resto do dia, chegando a Lisboa m ais tarde do que era suposto, devido a atrasos no cam inho.

Num a paragem de táxis no exterior da estação, encontrou um m otorista que falava inglês e conhecia a casa de Santo e Silva, no Estoril. Entrou no táxi, encostou-se para trás no banco e fechou os olhos.

Acordou repentinam ente quando o carro parou. Tinham estacionado em frente a um portão de ferro de um a parede m uito alta. Um polícia de espingarda ao om bro avançou e falou para o m otorista em português. O m otorista voltou-se para Hannah.

— Ele quer saber o que a senhora desej a?

— Desej o ver o duque de Windsor.

— E agora os seus papéis.

Tirou o passaporte am ericano e entregou-o. O polícia levou-o até ao portão e entregou-o a um subchefe que apareceu da pequena casa da guarda. Entrou e, passados alguns m inutos, tornou a sair, devolvendo o passaporte ao prim eiro polícia, que o entregou a Hannah.

— Posso entrar agora? — perguntou ela ansiosam ente.

Eles falaram em português, e o m otorista disse: — Lam ento, m as não. Não deixam entrar visitas sem autorização do Com ando-Geral da Polícia. Ele fez um telefonem a. Agora tem que esperar pela resposta. Quer que eu fique à espera?

— Não, penso que não. Faz-m e bem apanhar um pouco de ar fresco. — Pagou-lhe e ele foi-se em bora.

Podia ver as luzes da cidade através das árvores e ouvia-se m úsica. Com eçou a chover, e o polícia trouxe um a capa da guarita e colocou-a à volta dos seus om bros.

Agora estava bastante frio e ela andou ao longo da estrada para se m anter quente, parando para olhar para trás, para a foz do rio Tej o, onde as luzes de Lisboa se vislum bravam à distância.

Finalm ente, dirigiu-se ao polícia.

— Faz favor — disse. — Ainda dem ora m uito? Estou aqui quase há um a hora.

Nesse m om ento, ouviu-se o barulho de um carro a subir a colina.

Os faróis brilharam através dos arbustos de m im osas, e um Mercedes preto parou a alguns m etros de distância.

A CHUVA VEIO sobre o Tej o e bateu nas j anelas do apartam ento de Joe Jackson, enquanto ele atirava m ais um toro para a lareira.

— Que história, Hannah. Dá-m e um m inuto? Volto j á. Sirva-se de outra bebida.

Ela deitou um pouco m ais de brandy no copo e sentou-se defronte da lareira, a olhar para o lum e.

Quando ele voltou, ela olhou para ele. — Acredita em m im ?

— Direm os que gosto de si e que não gosto daqueles tipos do cais, Kleiber e Sinderm ann. E o duque de Windsor está em casa de Santo e Silva, no Estoril. Isso é um fato.

— Mas tem os que chegar a ele de qualquer m aneira, não com preende? — disse ela rapidam ente. — Não podem os ficar quietos e deixar os nazis levarem -no.

— Parece-m e tudo dem asiado fantástico — disse Jackson. — Podia ser um a invenção de um a j ovem assustada que prefere contar qualquer coisa a ser enviada de volta à Alem anha, onde é procurada por assassínio.

Ela olhou fixam ente para ele.

— Que posso fazer para acreditar em m im ?

O telefone tocou na sala ao lado.

— Você não pode, m as Connie Jones talvez possa. Deve ser ele agora. Pedi um a cham ada para o Flam enco, em Madrid.

Saiu e fechou a porta. Ela ouviu o m urm urar da sua voz durante algum tem po. Finalm ente, ele regressou à sala, sorrindo m aliciosam ente.

— Então, é tudo verdade. E ainda por cim a, de acordo com Connie, você canta tão bem com o Billie Holiday. Ele quer falar consigo.

Correu para o telefone, e Jackson ficou a olhar para a lareira franzindo as sobrancelhas. Quando Hannah voltou, parecia que tinha estado a chorar.

— Ele disse-lhe o que aconteceu no clube? — perguntou ela.

— Disse. Três costelas partidas, m as disse que isso não prej udicaria a sua atuação. Conseguiram pedir alguns instrum entos em prestados.

— E Schellenberg? — m urm urou ela. — Por que terá agido assim ? Não consigo com preendê-lo.

— Sim , eu achei que essa era um a das partes m ais im prováveis da sua história, a m aneira com o a aj udou a fugir de Berlim . Ele pôs realm ente a cabeça em j ogo quando fez isso.

— Então, por que o fez?

— Não sei. Talvez ele próprio não saiba porquê, talvez goste de si, m eu anj o. — Sorriu. — Não é difícil de com preender. Mas isso agora não interessa. Tem os que a tirar daqui no caso de aqueles valentões voltarem .

— Ou a Polícia Portuguesa — disse ela.

— Ah, desses trato eu. — Sorriu de novo. — Alguns dos m eus m elhores am igos são polícias, especialm ente aqueles que frequentam a m inha sala de j ogos. Parece que ganham m uito regularm ente, portanto está tudo bem . Agora, vista o casaco e vam os em bora.