Raptar um Rei
Cinco
ÀS 10 HORAS da m anhã seguinte, Hey drich estava à secretária, ditando cartas a Frau Huber, quando Schellenberg entrou com uns dossiers.
— Tenho de estar na reunião sem anal do Führer, na Chancelaria, às onze horas — disse Hey drich. — Isso não pode esperar?
— Não — disse Schellenberg. — Prioridade absoluta, o que significa que j á vai um m em orando a cam inho de Him m ler.
Hey drich franziu as sobrancelhas. Parecia não ter dorm ido, e a palidez da sua cara era acentuada pelo uniform e de gala com pletam ente preto.
— Continue.
— O caso Winter — disse Schellenberg. — Com o sabe, tem os tido um a equipa de fotógrafos de vigilância a trabalhar no clube há algum tem po. Ontem à noite, apanharam um a cara nova.
Pousou um conj unto de fotografias na secretária. Mostravam Irene Neum ann a sair da porta do palco do Jardim .
— Conhecem o-la? — perguntou Hey drich.
— Sim . É em pregada de escritório no departam ento central.
Hey drich olhou para ele, espantado.
— Quer dizer aqui?
— Receio que sim . Aqui está a ficha dela.
Hey drich abriu o dossier. Tinha, com o habitualm ente, duas fotografias agrafadas na parte de dentro da capa. Frau Huber. que estava calm am ente sentada ao lado da secretária, viu-as claram ente e disse: — Peço desculpa, general Hey drich. Eu conheço essa m ulher. Vi-a ontem na sala de fotocópias em serviço tem porário.
— Tem a certeza?
— Oh, sim . Tinha acabado o relatório confidencial sobre a reunião entre o general Schellenberg e o m inistro dos Negócios Estrangeiros, Von Ribbentrop. Fui m andar fazer as três cópias, com o é habitual. Com o não a reconheci, perguntei-lhe quem era.
Houve um silêncio pesado. Schellenberg disse baixinho:
— Ficou ao pé dela enquanto fazia as cópias?
— É claro que sim , general. É o procedim ento norm al com docum entos confidenciais — m as depois lem brou-se e a sua expressão m udou.
— Continue! — disse Hey drich. — A verdade.
Ela m urm urou: — O telefone tocou e fui atender. De fato. Fräulein Neum ann levou depois as cópias ao m eu gabinete.
Hey drich bateu com força com o punho fechado na m esa.
— Desapareça da m inha vista. Está acabada ... acabada, ouviu?
Ela saiu da sala rapidam ente a chorar. Quando a porta se fechou, Hey drich disse: — Então, a Neum ann pode ter feito um a cópia extra do relatório Windsor.
— Quase de certeza — disse Schellenberg.
-— Então é o fim daquele j udeu, Max Winter — -— disse Hey drich raivosam ente. — E da sobrinha.
— Oh, não sei. — Schellenberg respondeu m ais por reflexo do que por outra razão qualquer. — Não existe um a relação necessária entre ela e as atividades do tio. Tenho-a debaixo de vigilância, por princípio, naturalm ente, m as ...
— Realm ente? Bem , receio não partilhar da sua opinião. — Hey drich deu um a leitura rápida na ficha de Irene Neum ann e abanou a cabeça com descrença. Com pletam ente lim pa. O pai dela foi m orto no Som m e, Cruz de Ferro, Prim eira Classe. E o tio dela, um piloto de avião de com bate com Richthofen. Foi distinguido com a Max Azul. Vive sozinha com a m ãe. De total confiança. — Hey drich estava confuso. O telefone interno tocou e ele atendeu. — De im ediato, Reichsführer.
Pousou o fone, suspirando. — Him m ler quer-nos a am bos ... j á. E quer o processo Neum ann.
HIMMLER exam inou a ficha de Irene Neum ann em silêncio, enquanto Schellenberg e Hey drich estavam de pé, em frente à secretária, com o m iúdos de escola.
Hey drich disse: — Não consigo com preender, Reichsführer. De confiança total. Um a folha de serviços im pecável.
— O que é pouco relevante — disse Him m ler. — O fato de a terem considerado de absoluta confiança m ostra um a falta de discernim ento que considero espantosa. Saiba-m e quem foi o oficial que deu a autorização e transfira-o im ediatam ente para um a unidade penal.
— Claro, Reichsführer — disse Hey drich, subserviente.
— Sim , a falha no passado da m ulher é evidente para qualquer pessoa com percepção. De acordo com a ficha, foi para Paris em 1921 para fazer um trabalho de pós-graduação em francês. Lem bra-se de que a Sorbonne, nessa altura, era um viveiro de com unistas?
— Agora com preendo — disse Hey drich. — É claro. Ela pode ser um a espia dos nossos am igos de Moscovo.
— Eu diria que é óbvio. — Him m ler virou-se para Schellenberg.
— Ela negará, naturalm ente, m as acha que Fräulein Neum ann tirou um a cópia do relatório Windsor?
— Acredito que sim , Reichsführer. Tem os tido um a unidade de vigilância a trabalhar no Jardim há alguns m eses e ela nunca tinha aparecido antes. Um a agente com o ela, colocada num lugar tão im portante, tem de ser utilizada com cuidado. A razão do seu aparecim ento ontem à noite só pode dever-se a um caso da m áxim a urgência.
— Concordo inteiram ente — disse Him m ler. — Então, Winter pode ser agora preso. E esta sobrinha dele tam bém .
Schellenberg falou de novo im pulsivam ente.
— Devo cham ar a sua atenção, Reichsführer, de que, na base da m inha experiência pessoal, penso que a j ovem estej a inteiram ente inocente neste caso.
Fez-se silêncio na sala durante uns m om entos. Finalm ente, Him m ler falou:
— Espere lá fora. Quero falar a sós com Hey drich.
Schellenberg saiu. Quando a porta se fechou, Him m ler disse:
— Ele deixou-se envolver com esta m oça. Estou certo?
— Reichsführer, Walter Schellenberg é o oficial m ais qualificado ...
— Não lhe pedi referências. Perguntei-lhe se, na sua opinião, ele se deixou ou não afeiçoar a esta m oça, Winter.
— Muito bem . Lam ento dizer que penso que sim — respondeu Hey drich.
— Já calculava. Nestas condições, não deve tom ar m ais parte neste assunto. Eu sugeria que você tratasse pessoalm ente deste caso, assim com o do interrogatório de Irene Neum ann.
— Com o m aior dos prazeres, Reichsführer. — Depois, Hey drich hesitou. Frio e calculista por natureza, raras vezes se preocupava com alguém . Contudo, Schellenberg era diferente. — Reichsführer, espero que isto não signifique qualquer alteração da sua atitude em relação a Schellenberg. A sua lealdade está acim a de qualquer suspeita, acredite-m e, e ele tem prestado grandes serviços ao Reich.
— Sem dúvida algum a. — Him m ler inclinou-se para trás. — Tem todas as qualidades. Um a inteligência brilhante, um soldado coraj oso, culto, engenhoso. Hum ano por natureza. No cam po da contra-espionagem , um dos cérebros m ais brilhantes da Europa. É
tam bém um louco rom ântico.
— Mas a sua folha de serviços é im pecável. Um bom m em bro do partido.
— O que não significa nada. Qualquer pessoa pode ter esse tipo de lealdade. — Levantou a m ão. — Não se preocupe. É um hom em dem asiado bom para nos desfazerm os dele ... por enquanto. Agora, vam os cham á-lo.
No m om ento seguinte, Schellenberg estava de novo diante da secretária.
— Decidi que irá para Espanha, am anhã, no avião-correio especial — disse Him m ler. — Nestas circunstâncias, entregará a Hey drich todas as inform ações im portantes que digam respeito ao caso Winter. '
— Com o queira, Reichsführer. — Schellenberg controlou a sua raiva, m as a verdade era que agora não podia fazer nada por Hannah Winter.
IRENE NEUMANN estava sentada diante da secretária de Hey drich, com as m ãos j untas firm em ente no colo, a cara sem expressão. Dois hom ens das SS guardavam a porta.
Hey drich entrou. Sentou-se atrás da sua secretária e abriu o dossier.
— Então, Fräulein Irene Neum ann, sabe por que está aqui?
— Não faço ideia nenhum a.
Ele em purrou para o m eio da secretária as fotografias.
— Você, a sair ontem à noite do Jardim .
Por um m om ento apenas, a frieza de ferro dela foi-se abaixo, e isso foi visível na sua cara.
— Sim , bem pode ficar desanim ada. Este é o dia que tem receado todos estes anos. — Levantou-se e ficou à j anela, de costas voltadas para ela. — A cópia do relatório Windsor que roubou. Mostrou-o a Winter, claro. Esse foi o obj ectivo da sua visita bastante im prudente. A sobrinha dele estava lá nessa altura?
— Não tenho nada a dizer.
— Não faz m al. Dentro de pouco tem po, eles vão am bos j untar-se a si.
Ela não respondeu e ele deu a volta à secretária, agarrou-lhe gentilm ente no queixo com um a m ão, levantando-lhe a cabeça.
— No fim , irá contar-m e, Fräulein. Prom eto-lhe.
HANNAH saiu durante algum tem po de m anhã. Quando voltou para o apartam ento, teve um telefonem a do tio Max pedindo-lhe para se encontrar com ele no clube. Isto surpreendeu-a, pois durante o dia o clube costum ava estar fechado.
Quando chegou, encontrou a porta do palco aberta. Ao entrar, ouviu um a voz a cham ar.
— És tu, Hannah? — O tio Max apareceu à porta do escritório. — Fecha a porta e tranca-a.
Fez o que ele lhe pedia, depois entrou no escritório.
— Por que queria m e ver?
— É sobre a viagem . O que fizeste com o relatório Windsor?
Ela bateu de leve na perna.
— Ainda está na m eia, em bora tenha passado um as horas a decorá-lo. Quer que o destrua?
— Não sei — disse ele. — Um a história com o esta pode não ser levada a sério sem provas. Deixa-m e pensar sobre isso.
— Tem o m eu passaporte?
— Claro. — Tirou um envelope grande do bolso de dentro do casaco e m ostrou o passaporte. — Tom a. É m elhor verificares.
— Mas isto é francês — disse ela. — Deve haver um engano.
— Dá um a olhadela.
Ela abriu-o. A fotografia habitual estava lá, m as tinha o nom e de Rose Lenoir, nascida em Paris.
— Não com preendo.
— Mandei fazer por um am igo que é especialista nestas coisas. Se tiveres algum a dificuldade ao tentar atravessar para Espanha ou Portugal com o Hannah Winter, trocas de identidade. O teu francês é bom . O teu verdadeiro passaporte tam bém está aqui, m ais os bilhetes de com boio e dinheiro suficiente, francês e espanhol, para te aguentares e um a carta de crédito de dois m il dólares do Am erican Express em Lisboa.
— Parece que pensou em tudo — disse ela.
Bateram à porta do palco. O tio Max m eteu o envelope no bolso, abriu a gaveta da secretária e tirou para fora um a pistola autom ática Walther. Dirigiu-se para a j anela e espreitou. Um j ovem de m acacão azul assobiava. Trazia um a grande pasta de operário de couro.
Max, seguido por Hannah, foi até à passagem . Abriu a porta, deixando a corrente de segurança posta.
— Que desej a?
— Encanador ... qualquer coisa errada na água quente da cozinha. Herr Vogel telefonou esta m anhã.
Max m eteu a Walther no bolso, soltou a corrente e deixou-o entrar.
— A cozinha é a prim eira porta à sua esquerda.
— Está bem , deixe isso com igo. — O j ovem tinha olhos azuis. Piscou descaradam ente o olho para Hannah e desapareceu.
Max e Hannah voltaram para o escritório. De repente, ouviu-se o barulho de um m otor lá fora na ruela, o guinchar de travões, o som de passos.
— Oh, m eu Deus — disse ele, e agarrou Hannah pelos om bros.
— Se acontecer algum a coisa, se ficarm os separados, estarei num a em presa de pedreiros cham ada Irm ãos Hoffer, na Rehdenstrasse. É perto do Jardim Zoológico. Agora, vem com igo e faz tudo o que eu disser.
Quando seguiam pelo corredor, apareceu o j ovem de olhos azuis vindo da cozinha. Segurava um a m etralhadora Erm a da Polícia.
— Muito bem , contra a parede. Nada de disparates.
Com eçaram a bater à porta, o j ovem olhou rapidam ente para lá e o tio Max atirou-se sobre ele. O hom em virou a Erm a ao contrário e atingiu Max abaixo das costelas. Ele caiu com um grito de dor. O j ovem ficou por cim a dele, as costas voltadas para Hannah.
— Sabes, tinha-te dado na cabeça se não fosses tão valioso.
Havia um pesado candeeiro de porcelana em cim a do ficheiro, ao lado da porta. Hannah pegou-lhe com am bas as m ãos e partiu-o com toda a sua força na cabeça do hom em , que caiu de j oelhos.
Batiam cada vez m ais à porta. O tio olhou para ela com um a m áscara de dor na face. Hannah disse desesperadam ente: — Tio Max, o que farem os?
Ele respirava com um a certa dificuldade.
— Aj uda-m e a ir até à adega e trás isso contigo. — Acenou em direção à Erm a.
Hannah pegou a arm a com cuidado e aj udou-o a levantar-se.
Chegaram ao fim do corredor e ele com eçou a abrir a porta de m etal que dava para as escadas da adega.
Atrás deles, a porta do palco tinha sido posta abaixo, e de repente a entrada estava cheia de hom ens das SS. Hannah virou-se e instintivam ente levantou a Erm a, carregando com o dedo no gatilho. Nunca tinha disparado um a arm a na sua vida, e a Erm a parecia um ser vivo nas suas m ãos, desfazendo o gesso das paredes e obrigando os hom ens das SS a esconderem -se na ruela.
Continuou a disparar convulsivam ente; a Erm a saltava tão violentam ente que ela caiu sobre o tio Max no m om ento em que ele conseguiu abrir a porta. Ele perdeu o equilíbrio e escorregou pelas escadas de m adeira. Hannah tinha largado a Erm a. Estava agora de j oelhos e gritava.
— Tio Max, está bem ? — Viu-o pôr-se de pé.
— Depressa! — cham ou ele.
Um a m ão agarrou o tornozelo dela quando tentou levantar-se.
Virou-se e viu que o j ovem com aqueles olhos azuis tinha rastej ado até ela.
— Oh, não, não vais — disse ele. Outros hom ens das SS estavam agora no corredor e correram a aj udá-lo.
Lá em baixo, Max ouviu os hom ens das SS e com preendeu que nada podia fazer por Hannah. Voltou-se e cam baleou até à divisão seguinte da adega, fechou a sólida porta de carvalho e trancou-a com dois ferrolhos de aço. Depois, seguiu pelo m eio das filas de garrafas de vinho. Atrás dele, batiam furiosam ente na porta, m as era dem asiado tarde, pois tinha previsto exatam ente esta situação e preparara tudo. Na terceira divisão da adega havia um arm ário de m adeira. Lá dentro, tinha um chapéu, um a gabardina, um a grande lanterna e um a pasta contendo vários docum entos falsos e dinheiro em divisas de vários países. Vestiu a gabardina, pôs o chapéu e em purrou o arm ário para um lado, fazendo aparecer um buraco na parede de tij olos. Pegou a lanterna e na pasta e atravessou com dificuldade, depois voltou-se para puxar o arm ário para o lugar. Um m inuto depois, abria um a porta que dava para um as escadas que subiam para um pequeno pátio. Galgou os degraus e abriu o portão do pátio. A ruela estava com pletam ente deserta. Fechou o portão e foi em bora rapidam ente.
NESSE MESMO m om ento, no Estoril, o duque e a duquesa de Windsor recebiam Prim o de Rivera, m arquês de Estella, que tinha vindo especialm ente de Madrid para vê-los.
Quando os criados acabavam de levantar a m esa do alm oço ao lado da piscina, Rivera olhou para o relógio.
— O tem po passa tão depressa em boa com panhia, m as tenho de regressar a Madrid. — Voltou-se para o duque. — Será que Vossa Alteza Real poderia dispensar-m e alguns m inutos de conversa antes de eu partir? Em particular.
O duque m ostrou-se vagam ente surpreso, m as sorriu cortesm ente, com o sem pre.
— Sim , por que não? Não vam os dem orar, Wallis.
Passada m eia hora voltaram . Rivera beij ou a m ão da duquesa, prom etendo voltar novam ente em breve, e partiu. O duque dirigiu-se para o terraço e inclinou-se sobre a balaustrada de m árm ore de cenho franzido.
— E então, que era? — perguntou a duquesa, colocando-se ao lado dele.
— Não tenho certeza. É realm ente extraordinário. Ele soube da m inha nom eação para as Baham as através de fontes oficiais em Madrid. Tinha m esm o falado disso com Franco.
— Mas por que, David?
— Sabes, Wallis, ele insistiu para que eu não fosse. Disse que eu podia ainda ter um papel decisivo a desem penhar nos assuntos ingleses. Que seria m elhor irm os para a Espanha, onde seríam os oficialm ente bem -vindos.
— Preferias fazer isso?
— É dem asiado com plicado. Tudo indica que os Espanhóis não tencionam entrar na guerra ao lado dos nazis, m as podem perfeitam ente utilizar os problem as de Inglaterra com o um a desculpa para pedir a restituição de Gibraltar, e eu não quero de certeza vir a ser um peão num j ogo desse tipo.
— Então, não confias em Rivera?
— Ele é um falangista de Madri e eu não confio neles m ais do que em qualquer outro fascista. Não, pode haver m ais im plicações nisto, Wallis. Muito m ais.
Os seus olhos enrugaram -se num sorriso e pôs um braço à volta da cintura dela.
— Contudo, existe nisto tudo um a certa excitação. Tenho que o adm itir.