Raptar um Rei
Seis
A CASA era bem pequena, com as paredes de betão caiadas.
Havia um a lâm pada pendurada no tecto e um a cam a de cam panha de ferro pequena e estreita sem colchão. Um a tum ba fria de betão branco.
Hannah estava sentada na beira da cam a. com a m ente tão entorpecida pelos acontecim entos que não era capaz de pensar. Havia em tudo um a sensação de sonho. com o um pesadelo m eio recordado pela m anhã. Aquela luta desesperada no corredor do clube, a m etralhadora a saltar nas suas m ão?, um cheiro de queim ado. E o tio Max? Onde estaria agora?
Hey drich espreitou através do orifício de observação e acenou para o perito de interrogatório da Gestapo.
— Muito bem , pode abrir.
O som dos ferrolhos a correrem não teve m uito significado para Hannah. Ficou ali sentada, a olhar para a parede, de m aneira que Berg teve de a puxar para se pôr de pé.
Hey drich acendeu um cigarro e ficou a olhar para ela, de pernas abertas. Vestia ainda o uniform e de gala, um diabo de preto, m as quando falou, a sua voz estava calm a.
— É um a m oça valente, não é? Três dos m eus m elhores hom ens m ortos. Mais dois no hospital. Treinaram -na bem . — Voltou-se para Berg. — Dispa-a. Exam e total. Voltarei dentro de m inutos.
Quando voltou à cela, Hannah estava de pé no m eio do quarto, nua, com as m ãos cruzadas à frente. A sua roupa estava dobrada e arrum ada sobre a cam a. Não m ostrava qualquer em oção.
— Encontram os ouro — disse Berg a Hey drich. — Tinha isto num a das suas m eias.
Hey drich desdobrou a cópia do relatório Windsor.
— Excelente. Agora, sim , estam os a chegar a algum lugar. — Depois, agarrou selvagem ente o cabelo de Hannah e sacudiu-lhe a cabeça de um lado para o outro. — O teu tio, onde é que ele foi?
Ela não sentia qualquer dor. A sua voz parecia vir de um a grande distância, com o um eco indistinto.
— Não sei.
Hey drich em purrou-a para o lado.
— Veste-te.
Berg disse em voz baixa: — Ela ainda está em estado de choque.
— Então, tem os que a abanar para sair do estado de choque, não tem os? Vá ver o que se está a passar com a Neum ann. Já lá vou ter.
Berg saiu e Hey drich ficou ali por um m om ento a ver Hannah vestir-se, ainda sem expressão no olhar. Ela tinha, de fato, um corpo excelente, disse para consigo próprio ao sair.
HIMMLER olhou para cim a quando Schellenberg entrou no gabinete.
— Então, que coisa deplorável, este caso Winter — disse o Reichsführer. — Hey drich acabou agora de vir aqui. Três m ortos. Dois feridos. Um a j ovem surpreendente. Obviam ente que estava enganado acerca dela.
Schellenberg deu-lhe a resposta que ele estava à espera.
— Receio que sim , Reichsführer.
Him m ler disse: — Um pouco de hum ilhação é bom para a alm a, m as não o trouxe aqui para discutir isso. Selecionei dois hom ens da Gestapo para o acom panharem , até Lisboa com o guarda-costas.
Falou rapidam ente no telefone interno. Um pouco m ais tarde, a porta abriu-se e entraram dois hom ens. Eram altos e fortem ente constituídos e vestiam ternos cinzentos convencionais. Um era careca, e o outro usava óculos. Schellenberg conhecia o tipo.
Ex-oficiais da Polícia, m ais habituados a m ovim entarem -se entre crim inosos do que qualquer outra coisa.
— Sturm bannführer Willi Kleiber — disse Him m ler, e o de óculos bateu com os calcanhares — e Sturm scharführer Gunter Sinderm ann. Conhecem o general Schellenberg.
— Muito prazer, general — disse Kleiber.
— Expliquei ao m aj or Kleiber e ao sargento-m or Sinderm ann a razão da sua visita a Lisboa — disse Him m ler. — Sugiro que lhes m ostre a ordem do Führer sob a qual vão agir.
Schellenberg tirou-a da carteira. Kleiber leu-a sem expressão na cara, m ostrou-a a Sinderm ann e depois devolveu-a.
— Já podem ver, m eus senhores, que qualquer ordem do general Schellenberg é um a ordem do próprio Führer.
— Com preendido, Reichsführer.
— Excelente. — Him m ler sorriu para Schellenberg. — Não é preciso ficar m ais tem po; com certeza que tem coisas para tratar.
Depois de Schellenberg ter saído, Him m ler voltou-se para Kleiber.
— O senhor é um hom em religioso?
— Nem tanto, Reichsführer.
— O general Schellenberg é. Teve um a educação católica tradicional. Pessoas com o ele tendem a ter um a atitude m oralista, o que pode perturbar o seu raciocínio. Veem as pessoas com o m ais im portantes que as causas.
— Sim , Reichsführer.
— Neste caso Winter, o general parece m ais preocupado com a j ovem envolvida do que com os prej uízos que as atividades do seu tio causaram ao Reich. Para ser franco, Kleiber, o general Schellenberg é um excelente oficial. Contudo, de vez em quando, falta-lhe um a certa convicção, e eu não estou totalm ente satisfeito com a sua atitude em relação ao caso Windsor.
— Com preendo, Reichsführer.
— Há alturas, Kleiber, em que um a pessoa deve estar preparada para ser im piedosa, se necessário. Conto consigo para ver que Schellenberg o sej a. Com o vosso Reichsführer, tenho o direito de exigir a vossa inquestionável lealdade neste assunto.
— E tem -na, Reichsführer, prom eto-lhe — disse Kleiber.
HEYDRICH abriu a porta da cela de Hannah e entrou. Ela estava novam ente sentada na beira da cam a, com pletam ente vestida.
— Muito bem — disse ele. — De pé. Siga-m e.
Ela hesitou e ele agarrou-a por um braço e puxou-a porta fora.
Em purrou-a ao longo do corredor pintado de branco até à porta de outra cela, onde fez deslizar para trás um a pequena portinhola de m etal. Colocou a cara de Hannah contra a abertura, de m odo a ela ter de olhar para dentro.
Irene Neum ann, com o vestido rasgado até à cintura, estava deitada sobre um banco, enquanto dois hom ens das SS fortem ente m usculados lhe batiam nas costas com cassetetes de borracha. A m ulher arqueava-se em agonia. O m aj or Berg estava na cela, a observar.
Hannah voltou então de novo à vida, sentindo o horror com o um soco na cara.
— Estás a ver? — disse Hey drich. — Ela tinha apenas que responder a algum as perguntas sobre o teu tio, m as parece que prefere m orrer.
Em purrou de novo a cara de Hannah para a abertura e ela lutou para se libertar.
— Não, deixem -na! Diga para pararem .
— Está bem , responde às m inhas perguntas por ela.
— Não, eu não sei nada.
— Vam os ver, está bem ? — Abriu a porta e disse para Berg:Alto. — Voltou-se para Hannah. — Agora, cada vez que não responderes, com eçarem os de novo. Serás o instrum ento da dor.
Hannah estava agora aterrorizada e isso era evidente na sua expressão.
Hey drich disse: — Tu e o teu tio. Têm trabalhado j untos desde que chegaram da Am érica?
— Não — respondeu ela.
— Então com o explicas a cópia do relatório Windsor?
— Foi um acidente. Escutei Fräulein Neum ann a falar com ele.
— A sua cabeça vagueava desesperadam ente, procurando a m elhor m aneira de im aginar as respostas. O que dar e o que esconder.
— Não tinhas conhecim ento até então de que o teu tio trabalhava contra o Reich"
— Juro que não.
— E o relatório Windsor? Por que razão estavas na posse dele?
— O m eu tio tinha j á tratado do m eu regresso para a Am érica, via Lisboa, e portanto pensou que eu podia levar o relatório ao duque de Windsor.
— Leste-o? Conheces o conteúdo?
A sua m ente disse-lhe que, se respondesse honestam ente a esta pergunta, talvez ele acreditasse tam bém nas suas m entiras.
— Sim , m em orizei-o.
— Onde está o teu tio agora?
— Não sei.
Estalou um dedo e os cassetetes com eçaram novam ente a bater.
Ela agarrou-lhe no braço.
— É a verdade, j uro. Ele fugiu, m e deixou. Não tivem os tem po de falar.
E ele acreditou nela, olhando para a sua face contorcida, consciente, com um a im petuosa alegria, do poder que tinha sobre ela.
Acenou para Berg. Eles pararam de bater.
— E os m úsicos negros? Estavam de algum m odo envolvidos?
— Não.
— Ótim o. — Virou-se para Berg. — Leve novam ente Fräulein Winter para a sua cela. Depois, dê à outra o tratam ento m édico de que precisar. Um banho quente, com ida. Sabe o que fazer.
A SALA de espera nas instalações da Prinz Albrechtstrasse estava com pletam ente cheia com o pessoal do Jardim , que estava a ser interrogado separadam ente. Connie Jones, Billy Joe Hale e Harry Gray falavam num canto. Já tinham passado pelo processo de interrogatório e não tinham ficado m uito satisfeitos.
— Pedi para falar com alguém da Em baixada Am ericana. — dizia Connie baixinho —, m as não serviu de nada. Tudo isto m e cheira m al. Todas aquelas perguntas sobre Hannah e Max.
— A m aneira com o vej o as coisas — disse Harry Gray — é que terem os m uito sorte em sair daqui inteiros.
Hey drich entrou e atravessou a sala para o gabinete. O oficial das SS que estava atrás da secretária pôs-se de pé.
— Algum a coisa? — interpelou Hey drich.
— Todos lim pos, general. Kleiber interrogou os negros e ficou convencido de que não sabiam de nada. Devem partir para Madri, via Paris, am anhã de m anhã. Tenho os bilhetes de trem e os passaportes.
— Muito bem — disse Hey drich —, m antenha-os presos durante a noite, depois ponha-os no trem daqui para fora. Deportação oficial por associação com inim igos do Estado. — Hey drich voltou-se e saiu.
Dirigiu-se im ediatam ente ao gabinete de Schellenberg, onde o encontrou a assinar cartas.
— Então, Walter, enganou-se acerca da m oça. Ia levar o relatório Windsor para Lisboa para o entregar ao duque.
— Não foi planej ado — disse Schellenberg. — Eu sabia que ela ia para Lisboa. Os agentes de viagem inform aram -m e da reserva, com o sem pre o fazem quando se trata de estrangeiros. Isso foi antes de o relatório ter sido roubado. Antes da m inha entrevista com Ribbentrop.
— Quer dizer que acredita que ela pode ser apenas um instrum ento inocente? Éum a possibilidade, m as terá que ser novam ente interrogada. Eu próprio tratarei disso.
Schellenberg sabia o que isso significava. Com preendia que Hey drich tinha um prazer perverso em contar-lhe, j á que os seus hábitos sexuais eram bem conhecidos.
— Efetivam ente — continuou Hey drich —, vou fazer-lhe um favor. Traga-a até m im . Fale com ela. Vej a se ela com preende. Pode ser que o ouça. Pode livrá-la de m uitas aflições.
— Com o queira — disse Schellenberg. — A sala verde?
— É claro — respondeu Hey drich, sorrindo.
QUANDO a porta da cela se abriu e Schellenberg entrou, Hannah olhou para ele sem falar.
— Tem algum a coisa a dizer? — perguntou ele.
— A você não, nunca m ais. Pensei que era diferente, m as fui idiota. De qualquer m aneira, o que quer?
— Hey drich pediu-m e para levá-la até ele.
Ela levantou-se, desanim ada.
— Isso significa o que estou pensando?
— Em geral.
Ela seguiu-o pelo corredor e por um as escadas. Ele olhou para o relógio. Dez para as 7.
— Está ficando escuro.
— Que interessante.
— Oh, m as é. A organização das SS é m eticulosa. Tudo tem hora.
Entraram no pátio, onde havia um guarda na porta da rua. — Precisam ente às sete horas, todas as noites, um m ensageiro da Chancelaria atravessa aquela porta com despachos para o Führer. — Subiam agora a escadaria que os levaria ao prim eiro andar. — Sim — continuou Schellenberg —, a situação faz-m e lem brar um a história fantástica que ouvi recentem ente de Paris. Parece que um a j ovem foi presa e levada para o quartel-general da Gestapo, na Rue des Saussaies. Alguém a deixou sozinha por um m om ento num gabinete. Aparentem ente, pegou um dossiê e saiu. Esperou perto da sala até que um general qualquer saiu pela porta da frente e seguiu-o um m om ento depois, dizendo ao guarda que tinha um dossiê de que o general havia esquecido. Um a vez no exterior, fugiu rapidam ente pela ruela m ais próxim a.
Hannah olhava espantada para ele, com os olhos m uito abertos.
— Que espécie de hom em é você? Não com preendo.
Ele abriu um a porta no alto das escadas e introduziu-a num a sala anexa ao gabinete de Hey drich. Estava pintada de verde e tinha um a m esa, alguns arquivos e um divã. Havia um relógio por cim a de um a porta do outro lado.
— Olhe o relógio — segredou Schellenberg. — Um m inuto para as sete. Dois m inutos depois, seria a hora certa — sorriu. — Espero que saiba ver as horas.
Foi até à outra porta, bateu e abriu-a. Hey drich estava sentado à secretária. Levantou-se e atravessou im ediatam ente o gabinete.
— Ah, Walter, vej o que trouxe Fräulein Winter. Muito obrigado. Pode ir agora.
— Meu general.
A porta exterior fechou-se lentam ente atrás de Schellenberg.
Hey drich ficou a olhar para Hannah com um ligeiro sorriso.
Tirou um cigarro da cigarreira e acendeu-o. Tinha todo o tem po do Mundo. Bem podia saboreá-lo. Atrás e por cim a dele, o ponteiro dos m inutos do relógio chegou às 7 e continuou. Hey drich disse: — Venha aqui. — Hannah hesitou; o pânico m ovia-se dentro dela. — Eu disse para vir aqui!
Ela avançou, m as quando chegou perto dele, o telefone tocou fortem ente no seu gabinete. Ele praguej ou em surdina, voltou-se, apressou-se para a m esa e pegou no fone.
— Sim ? Que é?
Houve um longo m om ento de silêncio, e depois um a voz abafada perguntou: — Arquivo?
— Não, certam ente que não. — Jogou o fone e regressou à sala verde. Estava vazia. Isto não era possível. Não podia ter acontecido — a ele não.
Abriu violentam ente a porta e desceu correndo as escadas até à entrada.
— Viu um a m oça? — perguntou ao guarda. — Bonita, de cabelo escuro. Saia de lã e blusa branca.
— Sim , m eu general. Saiu há um m inuto.
— Sem passe? Com o conseguiu?
O guarda agora parecia assustado.
— Tinha um a pasta na m ão. Perguntou se o m ensageiro da Chancelaria j á tinha saído. Respondi-lhe que tinha acabado de sair e ela disse que precisava alcançá-lo, pois tinha um despacho im portante para o Führer.
Hey drich desceu as escadas correndo para a Prinz Albrechtstrasse. Era j á quase noite. Não havia sinal de Hannah. Não tinha alternativa, claro. Teve que dar um alerta geral. Depois, foi procurar Schellenberg, que encontrou no seu gabinete ditando um as últim as cartas à sua secretária.
— Rua! — gritou Hey drich para a m ulher. — Lá para fora, j á! — Ela foi, pálida e assustada.
— Que aconteceu? — perguntou Schellenberg.
— Ela fugiu. Aquela cadela j udia. Fui ao m eu escritório atender o telefone; quando voltei, tinha desaparecido.
— Mas com o é que passou pela porta principal?
— Aparentem ente, saiu a seguir ao m ensageiro da Chancelaria. Disse à sentinela que tinha outro despacho para ele.
— É de um a audácia descarada, tem de adm itir isso.
Hey drich olhou-o, zangado.
— Walter, se pensasse por um m om ento que você tinha algum a coisa a ver com isto ...
— Deixei-a ao seu cuidado — disse Schellenberg. — Desde então, tenho estado a ditar cartas à m inha secretária, com o ela testem unhará.
O que não era totalm ente verdade, pois quando ele lhe pedira um café, ela havia dem orado pelo m enos dois m inutos para ir buscar a garrafa em sua sala, tem po m ais que suficiente para ele ligar para Hey drich através da linha interna.
— Está bem . Está bem — disse Hey drich. — Mas que vou dizer a Him m ler?
Bateram tim idam ente à porta e a secretária de Schellenberg espreitou.
— Então? — perguntou Hey drich. — O que quer?
— Peço desculpa, m as o Reichsführer está ao telefone. Quer vê-los a am bos, j á.
UMA VEZ NA RUA, Hannah andou depressa, m as não dem asiado, esperando a qualquer m om ento que um a voz a cham asse. Virou na prim eira rua à sua direita e apressou-se.
Não tinha dinheiro para um táxi, claro, e teve de ir a pé até ao Jardim Zoológico, o que dem orou quarenta e cinco m inutos. Um a vez lá, perguntou o cam inho para a Rehdenstrasse.
Era um a rua bastante pobre, ladeada de arm azéns velhos e decadentes, ao longo do rio Spree. A m eio cam inho, havia um sinal num a vedação que dizia IRMÃOS HOPPFER — MONUMENTOS. O portão que dava acesso ao pátio estava aberto e Hannah entrou. Recuou horrorizada diante dos vultos fantasm agóricos que surgiram das som bras. Depois, com preendeu o que eram . Im agens religiosas, anj os e querubins de pedra entre um m onte de cruzes.
Dirigiu-se para um arm azém no outro lado do pátio. Via-se um a luz pálida por detrás de um a cortina na j anela de cim a. Havia um a porta estreita que abriu com um toque, e ela encontrou-se diante de um lanço de escadas de m adeira.
NO PRINCÍPIO da guerra, a contra-espionagem alem ã tinha desenvolvido um a sofisticada rede de unidades de radiogoniôm etros m óveis, capazes de procurar nas cidades principais da Europa Ocidental os transm issores secretos operados por organizações de resistência.
Já só restava operacional um desses transm issores em Berlim , e existia apenas porque, sob as ordens de Max Winter, as transm issões para Moscou eram feitas a intervalos irregulares e a partir de diferentes locais. O local atual era nos Irm ãos Hoffer, onde existia apenas um irm ão vivo — Otto, m em bro do Partido Com unista desde 1920.
Max tinha ido im ediatam ente para lá quando saíra do clube e m andara pedir o rádio que estava guardado noutro local. O operador, um novo recruta cham ado Haupt, tinha-o entregado.
E então houve um erro terrível. Haupt ligara em corrente contínua por engano o aparelho, que trabalhava em corrente alternada, tom ando-o inútil. Andava agora à procura de peças de substituição.
De fato, quando Max ouviu a porta a abrir-se, pensou que era Haupt a chegar. Chegou ao cim o das escadas e viu Hannah.
— Meu Deus! — exclam ou. — Pensei que tivesses m orrido.
HANNAH sentou-se a beber o café oferecido por Otto Hoffer, ouvindo a voz do tio, que estava ao telefone no quarto ao lado.
— Milagre — disse Otto Hoffer para ela. — Sair do quartel-general da Gestapo dessa m aneira. Não há dúvida de que deixou aqueles porcos com cara de parvos.
O tio Max entrou no quarto.
— Está tudo tratado. Partirás para Paris de carro dentro de um a hora. De lá, para Espanha em correio especial. Em Madrid, podes apanhar um com boio para Lisboa sem problem a.
— Mas com o? — disse ela. — Parece tão sim ples.
— Há um a via clandestina que j á utilizei m uitas vezes para levar j udeus im portantes para fora de Berlim . As pessoas que contrato são escroques que fazem tudo apenas por dinheiro. Gosto disso. Significa que sabes exatam ente com quem estás a lidar.
— Com preendo.
Ele tirou um casaco com prido de trás da porta.
— Veste isto. — Deu-lhe o envelope que tinha visto pela últim a vez no escritório. — Os bilhetes de com boio; j á não servem de nada, claro. Am bos os passaportes, o dinheiro e a carta de crédito para Lisboa. Agora, toca a andar.
Passaram por um a série de ruas secundárias, atravessaram o rio Spree por um a ponte de ferro e finalm ente entraram num a rua m uito parecida com a Rehdenstrasse. Praticam ente só arm azéns.
Um a tabuleta desbotada dizia COMPANHIA DE VINHOS ÁGUIA. IMPORTAÇÃO-EXPORTAÇÃO. Max bateu à porta. Esta foi im ediatam ente aberta e um hom em baixo e careca espreitou para fora.
— Olá, Scherber — disse Max, e entrou com Hannah.
— Cinco m inutos — disse Scherber. — Depois, têm de sair.
— Com preendido. — Max entregou-lhe um m aço de notas de cem m arcos presas com um elástico. — Os rapazes estão prontos?
— Estão ali.
Estavam num grande arm azém vagam ente ilum inado. Hannah viu um cam ião-cisterna de vinho estacionado ao fundo, j unto a duas grandes portas duplas. Ao lado do cam ião dois hom ens fum avam .
— Os irm ãos Dubois — disse Max baixinho. — Paul é o m ais velho, com os dentes estragados. Henri é o que faz aquilo que lhe m andam .
Henri não tinha m ais de vinte e um anos e usava um a boina de lã e um blusão de cabedal.
— Então, esta é que é a nossa carga? — disse num alem ão m acarrônico quando eles se aproxim aram . — Que agradável.
O irm ão disse desagradavelm ente:
— E o nosso dinheiro, Max? Dois m il francos, foi o com binado.
Max contou o dinheiro.
— Os rapazes transportam vinho a granel.
— Todos os boches em Paris gostam de vinho alem ão — disse Henri — e o nosso obj ectivo é agradar.
— Mostra-lhe aonde ela vai — disse-lhe Paul Dubois — e vam os em bora daqui.
Henri abriu a porta da cabina e levantou o banco duplo, revelando um alçapão.
Esticou-se e acendeu um a luz.
— Todos os confortos de casa, com colchão, café, sanduíches. Desculpe aquelas caixas. São uns artigos para o m ercado negro de Paris.
— Ficarei bem — disse Hannah.
Max beij ou-a na testa.
— Quando chegares a Lisboa, vai direto ao nosso hom em .
— Não vou desapontá-lo.
— Sei que não, Hannah. Vai com Deus. Que tudo corra bem .
Agora ela chorava, com o se instintivam ente soubesse que nunca m ais voltaria a vê-lo. Trepou através da abertura para o pequeno espaço. Olhou rapidam ente pela últim a vez para ele antes de Henri fechar o alçapão. Depois, o m otor com eçou a trabalhar e o cam ião arrancou.