Raptar um Rei

Jack Higgins · Capítulo 2 de 16

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Raptar um Rei

Um

LOGO APÓS a m eia-noite, com eçou a chover e o polícia português trouxe um a capa da guarita e colocou-a à volta dos om bros dela sem dizer um a palavra.

Agora estava bastante frio e ela cam inhava ao longo da estrada para se m anter quente, parando para olhar para trás, onde se adivinhava o m ar lá em baixo à distância.

Muito longe; não tão longe com o Berlim , Paris ou Madrid, m as estava aqui agora, finalm ente, no exterior da casa cor-de-rosa no Estoril. No final do cam inho, m ais cansada do que nunca, e só queria que tudo acabasse.

Voltou-se para o polícia do portão.

— Por favor — disse em inglês. — Ainda dem ora m uito? Já estou aqui quase há um a hora.

O que era ridículo, porque ele não a com preendia. De repente, ouviu-se o barulho de um carro a subir a colina, os faróis brilharam através dos arbustos de m im osas e um Mercedes preto parou a alguns m etros de distância.

O hom em que saiu da parte de trás do carro era alto e bem constituído. Não tinha chapéu e usava óculos, e vinha com as m ãos enfiadas nos bolsos de um a gabardina escura.

Disse ao polícia qualquer coisa em português, depois voltou-se para a m oça. O seu inglês era excelente.

— Miss Winter, não é? Miss Hannah Winter?

— Sim , sou eu.

— Posso ver o seu passaporte?

Tirou-o rapidam ente; as m ãos hesitavam no frio e a capa escorregou dos seus om bros. Ele tornou a colocá-la educadam ente, depois pegou no passaporte.

— Então, um a cidadã am ericana.

— Por favor — disse ela, com a m ão no braço dele. — Preciso de ver o duque. É um assunto da m áxim a urgência.

Ele olhou-a calm am ente durante um m om ento, depois acenou com a cabeça para o polícia, que com eçou ? a abrir o portão. O Mercedes avançou.

Ele abriu a porta, ela entrou e ele seguiu-a.

Com um a aceleração repentina, o cano saltou para a frente, o condutor virou o volante, deu a volta e desceram a estrada em direção a Lisboa.

Ela tinha sido atirada contra o canto e agora o hom em pô-la bruscam ente direita e acendeu a luz. Ainda agarrava no passaporte.

— Hannah Winter, cidadã am ericana? Penso que não. — Rasgou o docum ento e atirou-o para o lado. — Mas esta, penso eu, seria um a descrição m uito m ais exata.

O passaporte que lhe entregou era alem ão. Abriu-o, horrorizada.

A fotografia que estava na sua frente era dela própria.

— Fräulein Hannah Winter — disse ele. — Nascida em Berlim no dia 9 de Novem bro de 1917. Nega isto?

Ela fechou o passaporte e devolveu-o bruscam ente, tentando controlar o pânico.

— O m eu nom e é Hannah Winter, m as sou cidadã am ericana. A Em baixada Am ericana confirm ará isto.

— O Reich não reconhece o direito dos seus cidadãos de m udarem de nacionalidade segundo as suas inclinações. Nasceu alem ã.

Estou convencido de que m orrerá alem ã.

As ruas estavam desertas e iam a alta velocidade. Em breve se encontravam na estrada a cam inho de Lisboa. Em m eia hora chegaram à cidade e seguiram ao longo do rio.

— Um a cidade interessante, Lisboa — disse ele. — Para se entrar em qualquer em baixada estrangeira, é necessário passar através de um posto de controle da Polícia Portuguesa. Portanto, m esm o que tivesse tentado entrar na Em baixada Britânica ou Am ericana, ainda a teríam os apanhado.

Ela retorquiu:

— Não percebo. Quando pedi para entrar na casa, o hom em do portão disse que tinha de confirm ar com a esquadra.

— É sim ples. A Polícia Portuguesa aceitou um pedido de extradição em nom e de Hannah Winter pela acusação de hom icídio; três hom icídios, m ais precisam ente.

— Mas vocês ... vocês não são da Polícia.

— Ah, m as som os. Não da Polícia Portuguesa, m as algo bastante m ais interessante. — Mudou para alem ão. — Sturm bannführer Willi Kleiber, do Gabinete da Gestapo, de Berlim . — Acenou para o condutor. — O m eu colega, Sturm scharführer Gunter Sinderm ann.

Parecia um pesadelo; contudo, o cansaço que Hannah sentia era tão esm agador que nada parecia im portar m ais.

— Que é que acontece agora? — perguntou, atordoada.

Kleiber apagou a luz e assim ficaram de novo na escuridão.

— Oh, vam os levá-la a casa — disse ele. — De volta para Berlim . Não se preocupe. Tom arem os conta de si.

A m ão dele estava no j oelho dela, deslizando sobre a m eia de seda. Foi um grande erro, pois a repugnância que isso lhe causou galvanizou Hannah. Procurou o m anípulo da porta, sustendo a respiração à m edida que a m ão dele subia. O Mercedes abrandou para deixar um a carroça atravessar a rua. Ela em purrou Kleiber para o lado com toda a sua força, abriu a porta e saltou para a escuridão.

Perdeu o equilíbrio e rolou duas vezes.

O choque foi m uito grande. Quando finalm ente se levantou, viu que o Mercedes tinha parado m ais à frente e estava a fazer m archa atrás. Tinha perdido um dos sapatos, por isso atirou com o outro, m ergulhou na ruela m ais próxim a e com eçou a correr.

Uns m om entos depois, estava na m argem do rio. Chovia a cântaros e o nevoeiro deslizava vindo do Tej o. Havia m uito poucos candeeiros de rua e estavam m uito distanciados. Não havia loj as, nem casas, apenas arm azéns som brios surgiam na noite.

Quando o nevoeiro a envolveu, parecia ser a única pessoa do Mundo. Então, ouviu o som dos passos dos seus perseguidores a ecoarem nas paredes da ruela atrás dela.

Com eçou de novo a correr, sem fazer barulho, só em m eias.

Tinha frio, m uito frio. Um a luz apareceu vagam ente no nevoeiro no outro lado da rua. Um a tabuleta de néon encarnado dizia JOE JACKSON'S e, por baixo, BAR AMERICANO.

Dirigiu-se rapidam ente para o edifício, que tinha as traseiras voltadas para o rio. Tinha um a esperança louca, m as não havia luz no interior e as portas de vidro estavam trancadas. Abanou-as furiosam ente. Ao lado do edifício havia um cais e outra porta com um a tabuleta lum inosa por cim a que dizia PALCO. Tentou tam bém essa porta, batendo com os punhos. Nesse m om ento, Kleiber apareceu a correr na esquina, com um a Luger na m ão direita. Ela gritou.

— Vou dar-te um a lição — disse suavem ente. — Escum alha j udia.

Quando Sinderm ann chegou, ela virou-se e correu ao longo do cais, em brenhando-se no nevoeiro.

JOE JACKSON tinha cabelo escuro ondulado, olhos cor de am êndoa e um a ligeira expressão irônica que parecia levantar-lhe perm anentem ente o canto da boca. O sorriso cansado e desinteressado de um hom em que havia descoberto que a vida era m ais corrupta do que aquilo que tinha esperado.

Fechava sem pre às segundas-feiras. Dava a todos um a noite de folga, o que lhe proporcionava a oportunidade de organizar a contabilidade em paz e sossego, que era o que estava a fazer quando Hannah bateu a prim eira vez nas portas da frente.

"Um bêbado", pensou, e voltou para as suas contas. A seguir, ouviu-a na porta do lado. Depois, um grito agudo seguido de um m urm urar de vozes. Abriu a gaveta do lado direito da secretária, tirou um a Browning autom ática e saiu rapidam ente do escritório.

Vestia um a cam isola azul-escura e calças escuras. Um hom em de estatura m ediana, com cerca de 1,70 m , om bros largos. Abriu a porta do palco e saiu. Ficou à escuta. Ouviu um grito sufocado que vinha de m ais adiante, do cais. Avançou silencioso nas suas alpargatas de corda.

Havia um a lâm pada num poste no fim do cais. À luz, viu Hannah Winter deitada de costas, com Sinderm ann agachado sobre o seu corpo. Kleiber, de pé ainda segurava a Luger.

— E agora, Miss Winter — dizia Kleiber em inglês. — Um a lição de boas m aneiras.

— Penso que não — disse Jackson suavem ente.

Deu um tiro no antebraço direito de Kleiber, atirando-o contra a balaustrada, e a Luger caiu na água escura.

Kleiber não em itiu qualquer som — apenas ficou ali, a segurar no braço à espera do que ia acontecer.

Hannah Winter, ainda im obilizada debaixo do peso de Sinderm ann, olhou surpreendida para Jackson. Este tocou na nuca do alem ão com o cano da Browning.

Sinderm ann ergueu-se e levantou as m ãos. Não havia sinais de m edo na sua expressão, apenas raiva. Jackson aj udou a m oça a levantar-se. Por um breve m om ento, a sua atenção foi desviada I quando ela se apoiou nele. Sinderm ann atacou de cabeça baixa.

Jackson rodou a m oça para um lado e estendeu o pé. Sinderm ann tropeçou e precipitou-se sobre a balaustrada. Ouviram -no a debater-se na água.

Jackson inclinou-se sobre a m oça.

— Está bem ?

— Agora estou — respondeu ela.

Ele gesticulou com a Browning para Kleiber, que esperava, com o sangue a escorrer entre os dedos.

— E este?

— Deixe-o ir — disse ela, exausta. — Não é um assunto de polícia.

Jackson acenou para Kleiber.

— Ouviu a senhora.

O alem ão partiu rapidam ente. Jackson enfiou a Browning no cinto e pegou em Hannah Winter ao colo.

— Bem , m eu anj o, vam os para dentro.

ELA FICOU debaixo do duche quente durante vinte m inutos, de pois secou-se e vestiu um roupão que ele lhe tinha dado. O aparta m ento era no segundo andar, na parte de trás do clube, e tinha vista para o rio. Era arrum ado e tinha poucos m óveis, com apenas alguns pertences pessoais. O atual lugar de descanso de um hom em que tinha viaj ado durante a m aior parte da sua vida.

As portas corrediças estavam abertas e Hannah encontrou Jack, só de pé na larga varanda de m adeira, com um a bebida na m ão, a olhar para o rio. Um a sereia de nevoeiro tocou, um barco a fazer-se , ao m ar. Ela teve um arrepio.

— O som m ais solitário do Mundo.

— Deixe-m e arranj ar-lhe um conhaque — disse ele, conduzindo-a para dentro. —

Parece que está a precisar.

Tinha um bom sotaque am ericano de Boston.

— De onde é você? — perguntou-lhe ela.

— De Cape Cod. De um a aldeia de pescadores cham ada Wilton.

Há m uito tem po. — Sorriu e entregou-lhe o conhaque. — E você?

— De Nova Iorque, em bora haj a quem não concorde — respondeu, dando um gole na bebida.

Ele acendeu um cigarro.

— E aqueles seus am igos? Disse que não era assunto de polícia.

— É verdade — disse ela. — Mas eles são da Polícia. Um a variedade peculiar do Terceiro Reich conhecida por Gestapo.

Ele deixou de sorrir, fechou as portas e olhou para ela.

— Você é Joe Jackson, não é? — perguntou ela.

— Sou, sim , m as nós não nos conhecem os.

— Não — disse ela —, m as sei tudo sobre si. O m eu nom e é Hannah Winter. Sou cantora. Nasci em Berlim , m as os m eus pais levaram -m e para a Am érica quando tinha dois anos. Voltei a Berlim para cantar no clube do m eu tio Max há dois m eses. Conhece um pianista cham ado Connie Jones?

Jackson sorriu.

— Certam ente que sim . Está agora em Madrid, no Flam enco, com o seu trio. Vêm tocar aqui na sem ana que vem .

— Há duas sem anas estava a acom panhar-m e no bar do m eu tio em Berlim . O Jardim . Falou-m e de um grande piloto de guerra cham ado Joe Jackson, que tem o m elhor bar am ericano de Lisboa.

Jackson disse: — Está bem . Acredito.

Ela perguntou: — Já algum a vez ouviu falar de um hom em cham ado Santo e Silva?

— É um banqueiro português. Tem um a casa no Estoril.

— Sabe quem é que lá vive neste m om ento?

— É do conhecim ento geral. O duque e a duquesa de Windsor.

— Mas não durante m uito m ais tem po, se os nazis tiverem algum a coisa com isso.

— Com eçou a trem er.

— Está bem . — Joe Jackson segurou nos braços dela durante um segundo, depois levou-a até ao sofá ao lado dele, defronte da lareira.

— Agora, acalm e-se. Não tenha pressa e conte-m e tudo o que houver para contar.