Raptar um Rei

Jack Higgins · Capítulo 5 de 16

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Raptar um Rei

Quatro

Q UATRO

SCHELLENBERG estava de volta ao seu gabinete m eia hora depois de ter saído para o Tiergarten. Quando estava a despir o casaco, Frau Huber entrou. Parecia consideravelm ente agitada.

— Estivem os à sua procura por todo o lado. O general Hey drich está m uito zangado.

Schellenberg disse calm am ente:

— Pensava que ele conhecia todos os m eus m ovim entos antes de eu os fazer. Onde é que ele está agora?

— Com o Reichsführer Him m ler. Estão à sua espera.

Ela trem ia um pouco, porque gostava de Schellenberg um pouco m ais do que se atrevia a adm itir, adm irando por algum a razão o fato de que nada parecia im portar para ele.

— Estej a calm a, Ilse. Está tudo sob controle. Não só porque sou m ais esperto do que eles, o que é evidente, m as porque não levo isto a sério.

Quando entrou no adom ado gabinete do prim eiro andar na Prinz Albrechtstrasse, Schellenberg encontrou Him m ler sentado atrás de um a grande secretária. O Reichsführer era um a figura surpreendentem ente insignificante no seu fato de tweed cinzento. A sua cara, por detrás do pince-nez prateado, era fria e im pessoal e era difícil im aginar o que se passava para lá daqueles olhos sem expressão.

Sob m uitos aspectos, era um hom em estranham ente tím ido que podia ser sim pático para os seus subordinados, gostava de anim ais e era dedicado aos seus filhos, e contudo era um m onstro, responsável por quase todo o terror que o Reich causava às suas vítim as.

Him m ler tirou o pince-nez e passou com o dedo entre os olhos, num gesto habitual.

— Então, general, a sua conversa com o alm irante Canaris foi interessante?

Hey drich estava de pé à j anela e voltou-se, furioso.

— De novo a j ogar de gato e rato com aquele velho louco? Não tinha autoridade para isso — explodiu.

Him m ler acalm ou-o, acenando a m ão.

— Qual foi a principal razão para ir vê-lo?

Schellenberg dem orou o seu tem po a responder, sendo m uito cuidadoso.

— Um a pergunta difícil, Reichsführer. Um assunto de algum a delicadeza.

— Meu caro Schellenberg, respeito o seu tato, m as Hey drich e eu som os um a única pessoa neste caso. Não há nada que não possa dizer aqui.

— Muito bem . Obviam ente, leu o m eu relatório sobre o caso Windsor. Suspeitava que Ribbentrop não tinha sido inteiram ente honesto com igo. Parecia lógico que tivesse falado prim eiro com Canaris, j á que ele é o chefe dos Serviços Secretos, e contudo Ribbentrop não m encionou o fato.

— Percebo. — A voz de Him m ler era agora m uito suave e ele sorria de um a m aneira estranham ente satisfeita. — E tinha?

— Receio que sim . — Depois, Schellenberg contou-lhes tudo, não escondendo nada, pois não havia necessidade disso.

— Então, o Sr. Alm irante não vê este assunto com bons olhos?

— Parece que não.

— E o senhor? — perguntou Him m ler.

Schellenberg sabia que agora estava em terreno perigoso. Escolhendo as palavras com cuidado, disse calm am ente: — Ribbentrop tornou claro que todo o assunto era para ser levado a cabo por ordem expressa do Führer. O Reichsführer com preenderá que não posso pôr em questão um a ordem do próprio Führer. A m inha opinião pessoal não é para aqui cham ada.

Hey drich voltou-se bruscam ente para ocultar o seu sorriso, m as Him m ler ficou positivam ente brilhante de aprovação.

— Eu não podia ter respondido m elhor — disse ele. — O Führer carrega o fardo por todos nós. O destino da Alem anha anda nos seus om bros.

Schellenberg perguntou: — Portanto, o senhor tam bém quer que prossiga com este assunto, Reichsführer?

— Claro que sim . Viaj ará para Lisboa logo que estej am tom adas todas as providências, com passagem por Madrid. Um a conversa aí com o nosso em baixador, Von Stohrer, seria útil.

— Há um a questão, Reichsführer — disse Hey drich. — Lisboa está a pulular de agentes secretos de várias nacionalidades, e penso que seria essencial que o general Schellenberg tivesse proteção.

Com a sua licença, nom earei dois ou três dos m eus m elhores hom ens.

— Não é necessário — disse Him m ler. — Tom arei conta disso pessoalm ente. A Gestapo providenciará exatam ente as pessoas de que precisarem os.

— Com o queira, Reichsführer.

— Ótim o. Agora pode deixar-nos, general Schellenberg.

Schellenberg saiu rapidam ente e voltou para o seu gabinete.

Suava um pouco e acendeu um cigarro. Um pouco m ais tarde, Frau Huber entrou com um a chávena de café.

— Está a ver, Ilse? — com entou a sorrir. — Disse-lhe que não havia razão para preocupações.

Mas quando levou a chávena aos lábios, a sua m ão trem ia.

COMO SEMPRE, depois de um episódio destes, precisava de ação. Desceu à cave, até à carreira de tiro, onde os alvos eram figuras de soldados a correr.

— Que nova arm a é que tem agora, Reitlinger? — perguntou Schellenberg ao oficial das SS que estava de serviço.

— A nova m etralhadora Erm a da Polícia, m eu general. Acabou de chegar esta m anhã.

Schellenberg pegou num a e esvaziou-a em pequenas raj adas, atirando ao nível da cintura, cortando ao m eio alguns alvos. O

barulho era ensurdecedor. Pousou a arm a.

— Um a arm a de carniceiro — disse. — Do que eu preciso é de ' algo m ais subtil, um a assassina silenciosa, se quiser.

O oficial sorriu e dirigiu-se para um arm ário. Voltou com um a Mauser 7.63 m m , m odelo 1932, com a últim a adaptação, um silenciador.

Schellenberg avaliou o peso da arm a.

— Ah, isto sim . — Tinha um carregador com dez balas que ele esvaziou rapidam ente, colocando dois tiros m esm o no m eio de cinco dos alvos. O único som que se ouvia era um a série de pancadas surdas.

— Muito eficiente — disse Hey drich, aparecendo por detrás dele. Reitlinger afastou-se e Hey drich continuou: — Aquilo foi um a representação de prim eira classe no gabinete de Him m ler. Exatam ente calculada para agradar.

— E que queria que eu dissesse, a verdade?

— E a verdade é ...?

— Que tudo isto é um a perda de tem po — disse Schellenberg. Estive a ler o processo Windsor. Falei com Canaris. O relatório de ' Madrid sobre as atitudes com preensivas do duque não passa de bisbilhotices de cocktail dos aristocratas espanhóis com sim patias fascistas, que querem acreditar que o duque pensa com o eles. Todos querem acreditar que ele está do nosso lado, e então fabricam provas à base de pensam entos esperançosos. Se o duque de Windsor dissesse que Beethoven era o seu com positor favorito, algum idiota , tom aria isso com o um apoio ao Partido Nazi.

— Portanto, pensa que ele não está interessado? — perguntou Hey drich.

— Nem um bocadinho.

. — Então terá de o convencer, não é?

— E que é que se pensa conseguir com isso?

Hey drich respondeu:

— Quando ocuparm os a Inglaterra, ele terá de proceder com o for m andado, pela sim ples razão de que essa será a m elhor m aneira de ele servir os interesses do seu povo.

Schellenberg pousou a arm a.

— Im porta-se que m e vá em bora agora? Tenho trabalho para fazer.

— De m odo nenhum . Pode ir buscar-m e às oito e m eia.

— Para quê?

— A m oça Winter. Gostaria de a ver em pessoa. No Jardim , não é?

— Está bem . — Schellenberg dirigiu-se para a porta, que Reitlinger abriu. —

Quero um a das Mausers com silenciador. E cem balas em dez carregadores. Faça um pacote e entregue no m eu gabinete.

— Sim , m eu general.

ÀS OITO E MEIA, Schellenberg foi buscar Hey drich a casa, no Zehlendorf, o bairro chique de Berlim . Iam num dos Mercedes do departam ento especial, com dois hom ens uniform izados das SS sentados à frente, do outro lado da divisória de vidro.

À m edida que seguiam para o centro da cidade, Hey drich parecia aborrecido.

— O tio Heini — disse, referindo-se a Him m ler pela alcunha irreverente pela qual era conhecido dentro das SS — não estava propriam ente a ser atencioso quando interrom peu a m inha sugestão de lhe arranj ar guarda-costas. A não ser que m e engane, terá um par de rufias da Gestapo, escolhidos a dedo, a respirarem -lhe no pescoço.

— E a inform arem o Reichsführer três vezes por dia, por telefone, sobre todos os m ovim entos que faço — com entou Schellenberg.

— Não sei porquê, m as num a altura em que as coisas nunca estiveram tão boas, tenho a sensação de que com eçam a correr m al para nós, para todos nós.

— E por que razão isso aconteceria?

Hey drich hesitou.

— Isto é um a confidência, Walter, m as a verdade é que tenho dúvidas pessoais em relação à Operação Leão-Marinho.

— Quer dizer que pensa que a invasão de Inglaterra não se vai realizar?— Tenho a desagradável sensação de que o m om ento j á passou.

A decisão do Führer de fazer parar os Panzers no canal do Aa, na Bélgica, perm itindo assim ao que restava da Força Expedicionária Britânica fugir para Dunquerque, foi um erro m ilitar de prim eira grandeza.

— E agora?

— A Rússia. Penso que as suas ideias se estão a virar para lá.

Acredito que j á tenha em m ente um plano eventual.

— E não acha que sej a grande ideia?

— Você acha?

Schellenberg encolheu os om bros.

— Se quer a m inha opinião, diria que o problem a de um a cam panha russa são as distâncias ilim itadas, linhas de abastecim ento com m ilhares de quilôm etros de com prim ento, o Inverno cruel.

Vej a o que aconteceu com Napoleão.

— Eu sei — disse Hey drich. — Tenho pesadelos sobre isso. Passavam agora ao longo da Kurfürstendam m e ele olhou pela j anela. — Já não é o que era nos velhos tem pos, j á nada é. Estive no Teatro Gloria-Palast, na estreia do Anj o Azul. em 1930. Que sensação quando Dietrich apareceu no palco. A m ultidão ficou louca.

Pode acreditar, Walter, as pernas dela eram a oitava m aravilha do Mundo.

— Posso im aginar — disse Schellenberg.

— Só podem os esperar que este Jardim e a sua Hannah Winter nos possam oferecer um a noite de entretenim ento decente — disse Hey drich. — Seria bom para variar.

HANNAH estava com pletam ente pronta para o prim eiro espetáculo e foi procurar o tio Max, que não via desde a noite anterior.

Encontrou-o a trabalhar no seu escritório.

Beij ou-o no topo da cabeça.

— Teve um bom dia?

— Não foi m au de todo. — Voltou-se e segurou-lhe nas m ãos. E sobre aquilo de que falam os ontem à noite, Hannah? Vais fazer ' com o eu te pedi? Vais-te em bora com Connie e os rapazes na segunda-feira.

— E o tio?

— Seguirei logo que puder.

— Tio Max, o tio é um j udeu num a cidade onde os Judeus são m ais m altratados do que j am ais o foram nos últim os dois m il anos.

— Sou am ericano, m inha querida, e tu tam bém . Eles não querem sarilhos com o tio Sam , portanto tratam -nos de um a m aneira um pouco diferente.

Ela abanou a cabeça.

— Passam -se aqui m ais coisas do que eu estou a entender. Muitas m ais.

— Faltam vinte m inutos para o espetáculo — disse ele. — Faz-nos café, com o um a m enina-bonita.

Ela dirigiu-se para a pequena cozinha que confinava com o escritório, deixando a porta entreaberta. Acendeu o gás do fogão e estava a encher a cafeteira quando bateram à porta do escritório.

Esta abriu-se e ouviu o tio a exclam ar em alem ão:

— Irene! Não lhe disse j á para não vir aqui?

— Não tinha outra hipótese, Max. Aconteceu hoj e um a coisa m uito especial.

Hannah colocou-se de m odo a poder ver através da porta entreaberta. Irene Neum ann desabotoou o casaco, levantou a saia e tirou da m eia a cópia dobrada do relatório Windsor.

— Hoj e fui colocada tem porariam ente na sala de fotocópias.

Tive de fazer cópias disto para Hey drich. É o relatório de um encontro entre Schellenberg e Ribbentrop respeitante a um a conspiração para raptar o duque de Windsor.

A porta da cozinha abriu-se e Hannah entrou na sala. Irene Neum ann ficou pálida.

— Oh, m eu Deus! — disse.

— Não faz m al. A m inha sobrinha Hannah, Fräulein Neum ann. Inteiram ente digna de confiança. Agora, deixe-m e ver isso.

Leu rapidam ente o relatório, depois passou-o a Hannah.

— Agora j á sabes. Isto é o tipo de coisa que m e prende aqui.

O cérebro de Hannah parecia entorpecido com o choque. Com eçou a ler enquanto Irene Neum ann e seu tio falavam num tom baixo. Ouviu a m ulher dizer: — Estará Moscou interessada?

— Talvez. Por outro lado, talvez consiga passá-lo através da Em baixada Am ericana. Mas é difícil. A Gestapo vigia constantem ente o local. Agora é m elhor ir-se em bora. — Beij ou-a na face. — Tom e cuidado consigo, Irene. Eu depois digo qualquer coisa.

Quando Irene Neum ann saiu pela porta do palco, tinha com eçado a chover. Parou para abotoar o casaco, procurou um a velha boina num bolso e pô-la.

Havia um candeeiro de rua no fim da ruela que dava ao hom em dos SD, de vigilância dentro de um cam ião de entregas estacionado, um a clara visão dela ao andar na sua direção. Conseguiu tirar várias fotografias antes de ela voltar para a rua principal e desaparecer nas m ultidões da noite.

— Tio Max, o tio é com unista? — perguntou Hannah.

— Os rótulos — respondeu ele — não têm qualquer sentido hoj e em dia. A única coisa que im porta é de que lado é que se está. Ouve, tenta entender. Em Nova Iorque, depois de vinte e cinco anos, eu era dono de um hotel e dois clubes noturnos. Tudo pago, e tinha m eio m ilhão de dólares no banco, aos quais não sabia o que fazer. Então, envolvi-m e com um a organização sionista que tentava fazer algo ' acerca daquilo que estava a acontecer ao nosso povo na Alem anha. Regressei aqui em 1937 para aj udar a organizar um a linha de fuga para j udeus. Gradualm ente, deixei-m e arrastar para o outro lado das coisas. A resistência socialista, pela sua própria natureza, tem ligações com Moscovo.

— E Fräulein Neum ann?

— Irene é um a com unista dedicada. Não é filiada, é aquilo que eles cham am um a "adorm ecida". Acredita verdadeiram ente que Karl Marx andava sobre a água e detesta os nazis. É em pregada de escritório no quartel-general da Gestapo na Prinz Albrechtstrasse. Existem pessoas com o ela em lugares de confiança por todo o país. Ficarias espantada.

— E isto? — Mostrou o relatório.

— Não te disse que Schellenberg era im portante?

— Mas esta coisa de tentar convencer o duque de Windsor a , aliar-se com a causa nazi. É um absurdo. Ele nunca faria um a coisa dessas.

— Concordo contigo, m as as instruções de Schellenberg pare cem bastante reais. Se for considerado necessário, ele deve raptar o duque e a duquesa. — Sorriu. — Vês, m inha querida, agora é m ais im portante do que nunca que partas daqui na segunda-feira e sigas cam inho para Lisboa.

— Levando isto com igo?

— Seria m elhor se o m em orizasses.

De repente, Hannah ficou presa de um a excitação feroz.

— Sabe, tio Max, ser j udia nunca teve grande significado para m im até vir para cá e ver com o os Judeus são tratados. A m im tem -m e corrido tudo bem . Boas roupas, um em prego, passaporte am ericano. Mas tenho sido obrigada a passar de lado, enquanto senhoras idosas com estrelas am arelas no casaco são atiradas para a sarj eta por anim ais de uniform e. Seria m uito agradável contra-atacar, para variar.

— Então farás isto?

— Por que não? — Dobrou o relatório, levantou a saia e colocou-o na m eia, com o Irene Neum ann tinha feito.

Bateram à porta e Vogel, o chefe de m esa, espreitou, segurando um ram o de rosas encam adas.

— Pensei que gostasse de saber que tem os gente distinta hoj e à noite.

— E quem é essa gente? — perguntou Max Winter.

— Hey drich em pessoa e o general Schellenberg. — Vogel entregou as rosas a Hannah. — São para si, com os cum prim entos do general Schellenberg, que pergunta se pode encontrar-se com eles a seguir ao espetáculo.

O JARDIM não estava particularm ente cheio. Vogel tinha posto Hey drich e Schellenberg num a m esa que estava norm alm ente reservada para convidados da gerência.

— Cham panhe — disse Hey drich. — Krug. Duas garrafas e ponha m ais no gelo.

— Com certeza, general — disse Vogel, apressando-se.

Hey drich olhou em redor. Com o era costum e nestes clubes, havia várias j ovens sozinhas sentadas no bar. Estudou-as com olhos de conhecedor.

Vogel voltou com o cham panhe e Hey drich disse:

— A loura, a terceira a contar da ponta do bar. Diga-lhe para vir aqui.

A m oça veio im ediatam ente. Hey drich não lhe perguntou o nom e. Disse-lhe apenas para se sentar e encheu-lhe um copo com cham panhe. Depois, puxou-lhe a saia para trás e pôs-lhe a m ão nos j oelhos sobre as m eias de seda enquanto falava com Schellenberg.

Connie e os seus rapazes tocavam Som e of these Day s, e Hey drich m arcava o ritm o na borda da m esa com os dedos da outra m ão.

Então, ouviu-se a voz do tio Max e pouco depois Hannah apareceu no palco e com eçou a cantar.

Muitos dos seus núm eros eram cantados em inglês. O seu repertório consistia em m úsicas populares do tem po, incluindo That Old Feeling e Tim e on My Hands, e acabou com um a belíssim a interpretação de These Foolish Things, com todos os clientes a aplaudirem de pé.

Schellenberg estava totalm ente absorvido e encontrava-se de pé a aplaudir quando olhou para baixo e viu Hey drich, ainda sentado, com um braço em volta da m oça, a olhar para ele de sobrancelhas franzidas.

Quando os aplausos acabaram , Hey drich disse:

— Tenha cuidado, Walter, está a deixar-se levar pelo entusiasm o. Parece-m e que gosta dela ... talvez dem asiado.

Schellenberg acenou com a cabeça para Vogel, que foi falar a ' Hannah. Ela veio até à m esa. Schellenberg disse:

— Foi m aravilhosa ... a sério.

Apertou as suas m ãos com força por um m om ento e ela respondeu: — Obrigada. Gosto de cantar e isso é norm alm ente agradável para a audiência.

— General Hey drich, posso apresentar-lhe Fräulein Hannah Winter?

Hey drich não se incom odou a levantar-se.

— Excelente, Fräulein. — Falou de um m odo frio, quase ofensivo. Disse para Schellenberg: — Walter, decidi encurtar a m inha noite. Levo o carro e m ando-o para buscá-lo ... se quiser ficar, claro.

— Sim , penso que ficarei.

— Com o queira. — Hey drich levantou-se, agarrando firm e m ente a m oça loura por um braço. — Fräulein Winter, foi um prazer.

Hannah e Schellenberg viram -nos partir. Depois, sentaram -se e ele encheu-lhe um copo de cham panhe.

— Tem outro espetáculo?

— Sim , dentro de pouco tem po.

— Posso acom panhá-la a casa depois?

Ela pousou a m ão na perna, consciente do relatório dobrado que tinha na m eia. Dava-lhe um a estranha sensação de poder sobre ele, portanto sorriu e disse que sim , e teve de novo aquela profunda sensação de excitação.

Ele pegou-lhe na m ão e disse gentilm ente.

— Conhece um a m úsica cham ada Moonlight on the Highway ?

— Sim , conheço.

— É a m inha favorita. Canta-a para m im ?

— Se quiser. — Levantou-se e foi em bora.

Max esperava-a im pacientem ente no cam arim .

— O que aconteceu, pelo am or de Deus?

— Nada de especial. Ney drich foi antipático. Schellenberg foi bastante sim pático. Ofereceu-m e cham panhe e pediu para m e levar a casa.

— E que disseste?

— Que sim .

— És doida.

— Nem por isso. Estou intrigada, é tudo.

Bateram à porta e Connie espreitou.

— Cá vam os nós outra vez.

Quando ela ia a sair, o tio disse-lhe:

— A propósito, dás-m e o teu passaporte? Vou arranj ar o visto e o dinheiro am anhã de m anhã.

— Está na gaveta de cim a do m eu toucador — respondeu ela, e saiu.

O segundo espetáculo teve ainda m ais êxito do que o prim eiro e acabou, com o Schellenberg tinha pedido, com a m aravilhosa Moonlight on the Highway.

Ela voltou ao cam arim para se m udar e, quando finalm ente saiu do clube, Schellenberg estava à sua espera, ao lado do Me>-cedes preto.

— Im porta-se se form os a pé até m inha casa? — pediu ela. — Aj uda-m e a descontrair.

— De m aneira nenhum a. — Acenou com a cabeça ao m otorista e, quando com eçaram a descer a rua, o Mercedes deslizou atrás deles.

— Nova Iorque, Paris, Berlim — disse ela. — Todas diferentes durante o dia, m as à noite têm o m esm o cheiro fresco. A m esm a chuva levada pelo vento.

— E sem pre a sensação de que ao virar de um a esquina algo de estranho e excitante espera por nós.

— É exatam ente isso — disse ela, e segurou-lhe no braço.

— Os vinte anos eram um a boa idade — disse ele. — Podia cheirar-se o estim ulante frio m ordente que pairava no ar nas noites de Outono e acreditar verdadeiram ente que a vida estava cheia de possibilidades infinitas.

Continuaram em silêncio durante algum tem po, e depois ela disse: — Você não é com o Hey drich ... com o os outros. Não com preendo.

— É m uito sim ples — respondeu. — Prim eiro fui estudante de Medicina, depois tornei-m e advogado. Falava várias línguas e, contudo, não havia trabalho para m im ... nem para os m ilhares de j ovens alem ães com o eu. Se tivesse podido fazer o que queria, teria ido para o teatro, porque tenho a sensação de ser um ator nato.

Portanto, alistei-m e na com panhia de teatro m áxim a ... as SS.

— Essa explicação não chega.

— Era um em prego ... era um a bela farda. Era ter o respeito das pessoas, o que nunca tinha acontecido antes.

— Respeito para atirar velhotas j udias para a sarj eta? Para dirigir cam pos de concentração? Pensei que essa fosse a principal . função das suas SS.

Tinham chegado ao apartam ento e ele disse: — Hannah, é fácil subir no carrossel. Já não é tão fácil sair quando ele está em m ovim ento. Creio que isto sej a verdade para a m aior parte dos Alem ães atualm ente.

— Então, tenho pena por ti.

Voltou-se e subiu as escadas em frente a sua casa a correr. Schellenberg ficou ali por um m om ento, depois dirigiu-se ao Mereedes e inclinou-se para a j anela.

— Podem ir para casa, rapazes. Vou a pé.

Com eçou de novo a chover, e ele virou para cim a a gola do casaco, m eteu as m ãos nos bolsos e com eçou a andar com um a ex pressão som bria.